Série: Caras e Caretas (1982-1989). O que transmitir ou não as novas gerações?

caras-e-caretas_serie_1982-1989Por: Morvan Bliasby.
Nestes tempos aziagos de “Escola Sem Partido“¹, golpes institucionais e outras ideias ‘jeniais‘, além de uma mesmice estarrecedora das SitComs, das Soap Operas, etc., numa revisita quase mandatória à década de 80 do Século XX, a sua explosão de comédias de situação e o começo da distensão “lenta e gradual”, como preconizavam os donos do mundo, entre as potências que alimentavam a fogueira da Guerra Fria. Deste caldeirão ultra efervescente se sobressai a SitFamily Ties“², nominada, no Brasil e em Portugal, respectivamente “Caras & Caretas” e “Quem Vem Aos Seus“, neste segundo estranho título temos, claramente, uma ironia, pois parece degenerar, e muito.

O Enredo

Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter) são dois hippies classe média típicos, economicamente falando, ultra liberais nos costumes e que se casaram havia duas décadas.

Um tanto quanto nonsense, no tocante à educação dos filhos, eles creem piamente que os filhos os seguiriam em seus valores, teriam uma vida “zen” e seriam filosoficamente parecidos com estes.

O tempo lhes mostrou o quão errados estavam, mormente no tocante ao filho mais velho, Alex (Michael J. Fox). Este, um executivo, na cabeça e nos valores (um admirador incorrigível de Ronald Reagan!). Isso mesmo. Reagan. Importante para nos ambientarmos. Reagan, Tatcher e a ideia do Estado mínimo, do tamanho de uma bacia, nas palavras dos próprios. Este é o ambiente da série. Alex utilizava chavões dos republicanos e portava até mesmo um cartão de sócio do clube dos conservadores. Inteligente, ganancioso, reacionário. uma cópia (carbono) exata de seus pais. Alex se encaixa perfeitamente no estereótipo do “self-made man”, tão usual, à época e hoje.

Já a moça, Mallory (Justine Bateman), ao contrário, relaxada, preguiçosa, fútil e cujo círculo de interesse consistia em compras, rapazes e… compras e rapazes.

Vem, a seguir, Jennifer (Tina Yothers), a caçula. Todo o seu sonho era ser uma pessoa normal. Dependendo da situação, razoável, não?

Family_Ties_castA série, malgrado de forma às vezes sutil, até demais, teve a virtude de discutir preconceitos, censura, gravidez adolescente, vício (drogas), relacionamento familiar e círculos criados em torno de interesses similares. Todos os personagens da série, inclusive os papeis satélite, contribuem para uma discussão sutil e ao mesmo tempo rica sobre os valores de então.

O sucesso estrondoso da Sit tem a ver com isso. quem sabe, além do fato de ter sido a propulsora e impulsionadora de celebridades precoces, como o Micheal J. Fox.

Mas a discussão subjacente da comédia de sucesso parece ser a questão educacional (não somente educativa, educacional, de finalidade da formação). Até que ponto a formação dos nossos filhos, de uma geração, por exemplo, pode ser vilipendiada, a ponto de achar que as coisas se repetirão por osmose. Que não precisaremos assumir uma posição mais protagonista, com relação ao tipo de pessoa humana que queremos formar, subvertendo, se necessário, os valores vigentes e até a educação formal, via escola. A ‘Escola Sem Partido‘, esta aberração imposta pelos nossos nefandos “amigos” ideólogos, daqui e d´alhures, por exemplo, é uma mostra de protagonismo às avessas, ou seja, não seja inocente de pensar que existe neutralidade em qualquer aspecto da vida. Tal movimento aposta na interdição do debate natural na escola, na vida, para a nova geração de zangões…

Séries como Family Ties e “Todo Mundo Odeia o Chris” são muito eficazes em, sob o pretexto de discutir amenidades, ir bem fundo nos costumes e preconceitos e acabam, neste roldão, se tornando fotografia de uma época. Family Ties parece bem atual, traçando um paralelo com o momento em que assistimos ao desmonte de vários Estados nacionais. Esta já é uma boa razão para assisti-la, como análise comparativa. Além dos canais da tevê paga, que vez por outra a reprisa, geralmente com o título original, além de poder vê-la nos sítios dos Estúdios originais ou nos canais de “stream“.

Série: Caras e Caretas (1982-1989)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

¹ Uma ideia tão imbecil para se acreditar ter saído da cabeça de educadores. Felizmente, não!.
² No Brasil, curiosamente, uma novela, tempos após, recebeu o nome literal da comédia de situação: Laços de Família.

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Os Terraços (2013). A “Casa Grande, Senzala e Capitães do Mato…” na Sociedade Argelina

os-terracos_2013_posterdiretor-merzak-allouachePor: Valéria Miguez (LELLA).
Em “Os Terraços” o Diretor Merzak Allouache, que também assina o Roteiro, retrata de um jeito bem cru a vida de alguns dos moradores da capital argelina. Que mesmo sendo Argel uma cidade construída sobre colinas, daí os terraços terem um papel em destaque também nessa sociedade, e ao longo de sua história, mas justamente por essa visão privilegiada até do lindo azul mediterrâneo, ao colocar as histórias centradas nos telhados dos prédios parece dizer a todos do quanto estão desperdiçando um tempo importante de vida. Até porque o apelo que vem dos altos falantes das mesquitas parece ser como um barulho a mais numa cidade já bem barulhenta pelos carros e seus engarrafamentos… Abrindo um parêntese, por algo também comum a seguidores de outras religiões: em tendo-as como a absolvição dos atos, até criminosos, cometidos… Enfim, talvez o que Allouache queira dar a todos é uma chance de descortinarem novos horizontes. Nem que seja apenas para saírem um pouco dos próprios problemas. O que por sua vez também os levariam a ver se há uma outra saída… Ou não! Predestinado ou não! Cíclico ou não! Impostos ou não! São os contrastes da vida num quadro meio surreal pelas mãos do Diretor! Bravo!

argel_capital-da-argeliaPartindo de cinco terraços em bairros diferentes (Casbah, Bab El Oued, Belcourt, Notre-Dame d’Afrique e Telemly), com variações sócio-econômicas entre eles, o filme expõe o que se passa no interior de cada uma das pessoas! Onde uma maioria até tenta sobreviver da violência, da intolerância… do dia-a-dia e até por fechar os olhos diante de alguns fatos! Que embora não tenha sido ético, um dos que ignorou algo, talvez porque aquela parte da cidade já esteja tão carente… Numa de os meios justificando os fins? No fundo pode até terminar sendo absolvido por aquele que assiste o filme. Veja, e faça o seu próprio julgamento!

Em “Os Terraços” as histórias acontecem num único dia indo do amanhecer à meia-noite, com as cinco chamadas às orações de um feriado religioso. Entoadas num tom entristecido pelo muezzin como a apresentar o que estar por vir. Tendo como pano de fundo a mítica cidade branca, com seu mar azul num horizonte bem sugestivo. São nesses intervalos, entre essas pausas para orações e meditações… Que a vida dessa gente acontece! Ou deixa de existir…

Onde os recados, ou mesmo os apelos, por vezes até salta de um terraço para outro, conscientemente ou não, inconsequentes ou não… São gritos emudecidos até pelo medo de que acabe levando a barbárie para esse outro o qual o seu silêncio, ou mesmo a sua admiração, mais do que um pedido de ajuda, seria como um colírio para olhos já tão cansados de chorar… Quiçá, por um pedido de amizade… Mas aí quando esse outro atenta… Já era! Que por sua vez, por certo irá pesar na balança naquela absolvição o qual mencionei mais acima, mesmo tendo sido noutra das histórias mostradas em “Os Terraços“.

os-terracos_2013_cenas-do-filmeSão várias reflexões que o Diretor Allouache nos deixa em “Os Terraços“. Uma delas até pela visão de uma das personagens, uma cineasta que em um dos terraços tenta mostrar a toda a beleza de Argel para um documentário, o “Argel, Joia do Mundo Árabe“. Não apenas por terem diante de si todo o esplendor do Mar Mediterrâneo, a jovem pede ao cameraman que tente não posicionar referências a outras religiões…. Onde mesmo querendo dar a capital uma cara de cartão postal, ou uma identidade própria… Fica difícil até por ser uma cidade sobrevivente a décadas de lutas internas… Fica difícil não expor uma violência que já impregnou em muitos habitantes… Uma violência que pode estar logo ali bem próximo a ela… Ou como num outro terraço, e num bairro mais popular, o manter um ente familiar em cativeiro, foi por sua proteção… Mas sobretudo uma violência que pesa muito às mulheres! Até porque os homens se veem como donos delas…

Os Terraços” é um filme até para ser revisto! Não apenas pelo olhar inquietante de Allouache, ou até por conta disso, mas mais por expor vidas humanas sem máscaras. São dramas forjados também desamparo da política local: faltam moradias, água… Num país rico em petróleo, são desigualdades sociais que já deveriam terem sido sanadas… É o retrato de uma sociedade que até saltou dos apartamentos já tão apinhados de gente para “puxadinhos” em alguns desses terraços… Uma favelização que irá sentir a “força” da especulação imobiliária…

Paro por aqui! Para não tirar a surpresa de quem ainda não viu, como até motivando aos que já viram em ver de novo. Pois embora “Os Terraços” traga contextos bem fortes, até cruéis, o filme deixa uma leve sensação de que há esperança na humanidade. Mesmo que pela curiosidade ainda inocente de uma criança! Parabéns ao Diretor Merzak Allouache! Um Filme Nota 10!

Os Terraços (Les Terrases. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

LOVE (2015). Pôr um Ponto Final na Relação Significa o Fim do AMOR?

love-3d_filmegaspar-noe_cineastaPor: Karenina Rostov.
[Contêm revelações sobre o enredo.] [E o filme contêm cenas de sexo explícito.]

Era uma vez um diretor de cinema argentino chamado Gaspar Noé que resolveu nascer novamente para contar a história de AMOR, segundo o seu entendimento, entre seu pai Murphy e a namorada dele Elektra. Uma história instigante e complexa.

Gaspar nasceu por obra do acaso. Seu pai Murphy e a namorada Elektra acabaram envolvendo uma terceira pessoa: a jovem Omi. E no encontro íntimo do trio acidentalmente a convidada acabou engravidando. Consequência essa que acabou dando novo rumo a vida de cada um deles. Mudando planos, projetos e provavelmente possíveis sonhos. Foi assim que se deu a reviravolta ‘no LOVE’ e a jovem convidada tornou-se mãe, aos dezessete, por acaso, de Gaspar.

love_2015_01Murphy, um jovem diretor de cinema. Elektra, uma artista plástica linda, atraente tal qual a Elektra da mitologia grega. Muitos autores falaram sobre ela… e Eurípides deu um tratamento especial transformando-a em divindade. Enxergando em Elektra uma mulher amargurada e impulsiva, levada mais pela fúria do que pela maldade… A impressão que dá é que Gaspar Noé parece sentir muita admiração pelo mito Elektra. A formosura, a força e por ela ser como pólos divergentes: boa e má; desajustada e correta; que ama compulsivamente e odeia ao extremo; sendo como o fim e o começo. Afinidade e identificação.

love_2015_02LOVE é praticamente contada através da linguagem corporal, um ensaio fotográfico, ou uma peça teatral, e no palco três personagens se digladiando entre o tato, olfato, felação e a suficiência da linguagem não-verbal, não dando lugar ao tabu, pré-conceitos, ou julgamento de valor e nem para as palavras propriamente ditas pois poderiam quebrar o feitiço que o casal buscava nas relações ardentes mais de volúpia do que de encanto.

Gaspar, agora com dois aninhos de idade é acordado pelo celular de seu pai, enquanto que no quarto ao lado Murphy e Omi estavam em seu momento íntimo de amor, embriagados de sexo muito antes do amanhecer. Insistentemente chama o pai. E só assim Murphy atende àquela ligação. A partir daí o pequeno Gaspar sai de cena e todo o desenrolar da história, então em flashback, é focada nos acontecimentos de dois anos atrás. Murphy se vê mergulhado nas lembranças com a amada Elektra.

love_2015_03A chamada era da mãe de sua ex-namorada Elektra. Entra em cena todo aquele seu passado ardente. Pouco mais de dois anos se passaram e Murphy, agora aparentemente sossegado, outra pessoa, outra vida, família formada, pai e marido, trabalho, contas a pagar, compras, lazer… rotina. E agora quem fazia parte do trio é ele, a sua atual companheira e o bendito fruto dessa relação, o Gasparzinho. Rs!

Na chamada recebida, a mãe de Elektra, disse-lhe que a filha sumiu do mapa já há algum tempo e que ela estava muito preocupada, porque Elektra passou a sofrer de depressão e a ter tendências suicidas.

love_2015_04Parece que Murphy arquivou aquela sua história de amor e tocou sua vida dando novo rumo a ela. E aquele LOVE que dizia sentir por Elektra, o que poderia ter acontecido? Simplesmente desapareceu? Acabou quando ela ficou sabendo que a jovem vizinha engravidou de seu amado? Murphy só voltou a pensar na sua ex-namorada depois da ligação da mãe dela. O amor entre o casal acabou? Ou como diria um poeta foi eterno enquanto durou? Ou só estava adormecido?

Reza a lenda que, o corpo é o santuário da alma. E o sexo é o complemento do amor. Estão interligados corpo-alma-sexo-amor. E quem ama deveria jamais se descuidar.

love_2015_05Amor é mesmo uma caixinha de surpresas?! A culpa de não ter sobrevivido? Se existe nessa história um culpado, parece recair sobre a Elektra. A teoria literária investiu nessa crença de que a culpa é geralmente da fêmea e o autor quase sempre trata de matar o AMOR pondo um ponto final na vida dela, principalmente quando se trata de ligações perigosas, envolvendo mais de duas pessoas.

Sabe-se que em um relacionamento a três, há perdas e danos e certamente alguém acabará sobrando ou sofrendo as consequências.

Gaspar Noé usou e abusou de alguns clichês físicos para literalmente gozar na cara do espectador. O relacionamento emocional entre Elektra e Murphy, fora superficial? Tiveram bons momentos, se divertiram, eternizaram suas lembranças através de fotos, vídeos, pinturas, compartilharam anseios… até o momento em que um novo ser resolve nascer. Então se deu o corte do cordão umbilical de uma história que foi linda para começar do zero uma outra.

love_2015_06Afinal, quanto tempo mesmo dura uma paixão? Dizem que há um prazo de validade.

Gaspar Noé resolveu dar uma deixa ao estampar na parede de LOVE o cartaz do filme “Saló ou Os 120 dias de Sodoma”, de Pasolini, dando uma pista aos que testemunhariam o conto de fadas entre Murphy e Elektra, ou seria só um pré-texto?

Era de fato LOVE? Era AMOR? Ele só passou a pensar em Elektra dois anos depois.

Noé precisou nascer para trazer à tona uma história de amor dos tempos modernos. Onde tudo pode ser possível num relacionamento quando as pessoas envolvidas consentem. Elektra e Murphy tinham afinidades de sobra no quesito relacionamento sexual. Só que ele próprio confessou-se um conservador.

love_2015_07Talvez o filme seja condenado por pecar pelo excesso de tórridas cenas de sexo por mais de 90 minutos. Sexo, muitos gostam, mas ficam incomodados em testemunhar terceiros mostrando suas performances além de quatro paredes. Não seria hipocrisia? Afinal todo ser é resultado de sexo entre duas pessoas, e como diz um filósofo de botequim, “somos resultado de um orgasmo… ou uma gozada?

Bem, pôr um ponto final no relacionamento nem sempre significa por um ponto final no sentimento de AMOR. E Elektra em algum momento de LOVE pergunta a Murphy: “- O que significa AMOR? Você saberia responder?

LOVE (2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

P.s: Essa é uma compilação de um texto bem mais longo. Para o ler na íntegra, clique aqui.

Magnólia (1999). Um Complexo Mosaico da Vida Cotidiana

magnolia-1999_cartazmagnolia-1999_01Por: Cristian Oliveira Bruno.

Uma vez montado, o quebra-cabeças de P.T. Anderson forma uma das mais belas pinturas sobre a difícil vida cotidiana, tão em voga no final do século passado.

Linda Partridge (Julianne Moore) é uma mulher que se casou por puro interesse financeiro com Earl (Jason Roboards), um milionário idoso consumido pelo câncer. Sentindo-se culpada e cada vez mais apaixonada pelo marido, Linda está entregue aos antidepressivos e contrata o enfermeiro Phill Pharma (Phillip Seymour Hoffman) para tomar conta de seu marido moribundo enquanto tenta cancelar o testamento que lhe coloca como única herdeira de toda a fortuna de Earl. Phill, tentando realizar o último desejo de seu paciente, tenta contatar Frank Mackey (Tom Cruise) o único filho de Earl, com quem ele não fala há anos. Frank é um astro do universo masculino escrevendo livros de auto-ajuda e palestrando para homens fracassados sobre ‘como dominar as vaginas’. Enquanto isso, Jim Kurring (John C. Reilly) é um religioso policial que faz sua patrulha rotineira pelas ruas do vale que acaba atendendo a um chamado de perturbação da paz. Na residência, conhece e inicia um flerte com Claudia (Melora Watters), uma drogada traumatizada que odeia seu pai, Jimmy Gator (Phillip Baker Hall) com todas as forças. Jimmy é apresentador de um programa de perguntas e respostas com crianças prodígio na TV, que esconde estar com câncer e tenta reaproximar-se de sua filha que o acusa de ter abusado dela quando criança. Stanley Spector (Jeremy Blackman)é um dos garoto prodígio estrela do programa de Jimmy, explorado pelo pai que parece esquecer-se de que trata-se de um garoto apenas e não uma máquina. No meio disso tudo, Donnie Smith (William H. Macy) ficou famoso quando criança ao participar do programa de Jimmy, mas agora luta para se auto-firmar e para assumir sua sexualidade”.

magnolia-1999_03Por esta ‘pequena’ sinopse acima, nota-se que tão difícil quanto acompanhar Magnólia (1999) é mostrar-se indiferente com a obra-prima de Paul Thomas Anderson. Exímio conhecedor e estudioso de cinema, o diretor é pertencente a uma casta cada vez mais escassa de cineastas que ainda põem o cinema e a arte em primeiro lugar. O que por vezes pode aparentar arrogância, aos meus olhos é pura e simplesmente uma demonstração de respeito para com o espectador. P.T. Anderson não apenas quer, mas exige que nos entreguemos por completo ao filme e o acompanhemos com atenção quase letárgica para assimilar ao máximo os pormenores desta magnífica e esplendorosa alegoria.

magnolia-1999_cartazAcompanhando um único dia da vida de dez personagens, cujas estórias encontrar-se-ão entrelaçadas em determinado ponto (daí a associação fantástica com as flores do título, inseridas cirurgicamente ao fundo de cenas aparentemente despretensiosas, como se cada vida e cada história fosse uma pétala que em determinado ponto se unem para formar algo muito mais complexo e bonito), o excelente roteiro de Anderson é transposto para a tela de forma brilhante em uma narrativa extremamente atípica e nada convencional. Todo aquele arsenal de jogadas e macetes cinematográficos demonstradas em Boogie Nights (1997) agora seriam elevadas à máxima potência e detalhadamente trabalhadas em 3h e 10 minutos de filme. E os artifícios empregados pelo diretor para evitar que seu filme acabe por se tornar cansativo e desinteressante (afinal não é todo mundo que tem paciência para acompanhar um filme de três horas sem uma gota de ação sequer), já que exige uma dose cavalar de boa vontade por parte do espectador, são tão amplos e ricos que chega a ser até ultrajante tentar identificá-los e enumerá-los. Mas, talvez o mais perceptível de todos seja o tempo que Anderson desprende para cada personagem e estória paralela. Quando uma das subtramas começa a tornar-se prolongada demais, Magnólia corta de imediato para aquela que a mais tempo abandonada pelo filme, obrigando você não só a tentar remontar aquele estória na memória, como também a prestar uma enorme atenção ao que está por vir. E este ciclo repete-se incessantemente até o final, quando alguns dos personagens se cruzaram. Mas também se faz necessário citar o excelente ‘clipe’ inserido no início do longa apresentando rápida, porém certeiramente cada personagem e seu universo, num momento interessante momento de instante de inspiração narrativa – bem como alguns belos planos-seqüência bem elaborados ao longo da obra.

magnolia-1999_chuva-de-saposP.T. Anderson permite-se uma liberdade poética genial em alguns pontos chave, mais evidentes linda na montagem onde todos os personagens cantam a mesma canção e depois seguem as cenas de onde elas pararam e na enigmática e controversa chuva de sapos. E essa liberdade reflete diretamente no talentosíssimo elenco magistralmente dirigido por Anderson, onde todos recebem personagens riquíssimos com histórias densas e emocionantes. Isso faz com que nenhuma passagem seja gratuita ou desinteressante, pois afinal, nos identificamos seus defeitos e nos importamos com cada um deles. Impressionante como Anderson compreende que os defeitos de seus personagens são aquilo que mais nos aproxima deles, ao invés de depor contra eles. Desse modo, ao acompanharmos um filho proferindo palavras duras e cheias de ódio para seu pai no leito de morte do mesmo, não sentimos raiva dele, mas sim tristeza, pois reconhecemos ali uma intensa mágoa e uma desilusão quase mortífera em seu olhar (e o fato de ele pronunciar as frases “eu espero que você sofra muito, pois eu te odeio” e “não morra, por favor, não morra” nos dá a dimensão do real estado conflitante do personagem).

Magnólia é daqueles filmes que não é pra qualquer um. Acompanhá-lo exige mais de nós e em alguns momentos exige demais. No entanto, apreciá-lo é uma das mais magnificamente prazerosas experiências que o cinema nos proporcionou nas últimas décadas. Quem se dispor a assisti-lo, ficará maravilhado com forma como todas as subtramas se conectam perfeitamente para formar um complexo mosaico da vida cotidiana atual. Magnólia não fácil, não é simples e não é para qualquer um. É simplesmente magnífico!!! Nota 9;5.

Magnólia (1999).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Série: Os Desajustados (2011 / ). Eles São o que São! Mas com Muitas Reticências…

shameless_serie_personagensA Pobreza Não Glamourizada nos Estados Unidos.

A Série “Shameless” traz como pano de fundo a realidade do “lado pobre” em um país tido como do primeiro mundo. Uma realidade sem os retoques tão comuns por Hollywood num retrato 3×4 de um microcosmo dentro de uma metrópole como Chicago. A pobreza existe em qualquer país! Daí é muito bom quando isso é mostrado bem de perto até porque uma das principais críticas ao Cinema Brasileiro seria justamente por isso: em retratar muito mais a pobreza no país. E mesmo que alguns filmes tragam esse mesmo pano de fundo, como em “O Solista“, por exemplo, terminam sendo diluido por contra da trama principal. Com isso é muito bom quando o tema vem numa Série porque terá bastante tempo para maiores detalhes. Melhor ainda quando usa o humor para fazer sua crítica ao establishment vigente.

Quem é você não apenas para si próprio, mas também para as pessoas ao seu redor?

shameless_serie_00E é assim que segue “Shameless” levando com humor o drama da Família Gallagher. Que como o nome da série também diz: eles vão levando a vida sem o menor pudor até para sobreviver, mas principalmente em não deixarem de ser uma Família. Talvez seja essa a principal mensagem: que mesmo sendo uma família disfuncional, eles são os Gallagher para o que der e vier.

Os Gallagher tem como patriarca um cara mais preocupado com a própria sobrevivência do que ser um pai de fato. Personagem de William H. Macy cujo papel lhe caiu muito bem até por conta do esteriótipo/meio estigma que Hollywood lhe trouxe. Sendo mais um loser em sua carreira ou não… Macy está excelente como Frank Gallagher. Nossa! É até surreal seu empenho em conseguir um rim! Um tanto macabro também por fazer humor com sua tragédia. Nessa “campanha” terá ajuda primeiro de um dos Gallagher, seu filho Carl (Ethan Cutkosky). Mesmo ou até pela lealdade ao pai, Carl vai fundo nessa ajuda. O que tem como agravante é que Carl está entrando na adolescência sem nenhuma referência sobre a moral e a ética. É como um carro desgovernado sem saber quando irá parar, sem se dar conta dos estragos…

Eles não têm muito em suas vidas no sentido de segurança, e assim por seus relacionamentos se tornam mais e mais importantes. A questão que entra em jogo para todos eles é: Como o amor ou carinho um pelo outro compensa a escassez?” (John Wells, criador da Série).

shameless_serie_01Sem a presença de uma mãe… É a filha mais velha, Fiona Gallagher (Emmy Rossum), que toma para si essa missão em cuidar dos cinco irmãos. Mas Fiona ainda é jovem, logo mais propensa a não visualizar o todo em cada atitude tomada. E numa delas, é quando terá que prestar conta com a justiça: “ganhando” uma tornozeleira eletrônica. Com isso, perde o emprego que era a principal renda da família. Fiona terá que se virá nos trinta para não desestruturar de vez a família. Como também amadurecer.

Por conta disso, Phillip “Lip” Gallagher (Jeremy Allen) o único da família a cursar uma universidade, mas mesmo com uma bolsa integral sabe que precisa ter uma renda própria para se manter por lá. O que dificulta se manter acima da média para não perder a bolsa. Com a história de Fiona, Lip até pensa em deixar a faculdade para cuidar do caçula da família, o pequeno Liam. Lip acaba trazendo a irmã de volta à realidade das consequências dos próprios atos. E Fiona o demove de deixar a faculdade. Agora, numa de os fins justificando os atos… Lip tem uma saída nada ética para colocar comida na mesa da família.

shameless_serie_02Dentro do universo dessa família ainda há Ian Gallagher (Cameron Monaghan) e Debbie Gallagher (Emma Kenney). Ian sentiu necessidade de ser afastar da família para então assumir a homossexualidade. Sem bem que pode ser por conta de uma provável bipolaridade como “herança materna”. Com a crise provocada pelo deslize de FionaIan volta para casa, mas onde também volta a se relacionar com um cafetão russo, o MilkovichPor último há Debbie Gallagher. Sensível, sofrendo pela entrada na adolescência e com tudo mais que essa fase trás. Onde ante às pressões externas, carece a presença de uma pessoa madura nos aconselhamentos. Até por ser levada, de modo torpe pelas colegas da escola, a perder a virgindade. Algo que a levará não medir os atos.

Nós temos na comédia um tradição de tirar sarro de pessoas nesses ‘mundos’. A realidade é que essas pessoas não são ‘os outros’ – eles vivem quase na mesma quadra de onde você mora” (Paul Abbot, criador da Série)

Shameless” é mais uma série levada pelos Estados Unidos de um sucesso do Reino Unido. Traz como marca um questionamento no início de cada episódio com um dos personagens perguntando algo ao espectador para logo então entrar na cena. De qualquer forma esse remake é muito bom! Atuações ótimas! Roteiro afiado! Uma gama de personalidades distintas com um ponto em comum: a Família como um porto! Enfim, vale a pena assistir! Transmitida aos domingos, às 22 horas pelo canal TNT Séries. Fica a sugestão!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Meu Verão na Provença (Avis de Mistral. 2014)

meu-verao-na-provenca-2014meu-verao-na-provenca-2014_jean-renoSó em ter o nome de Jean Reno nos créditos já é um convite para ver um filme. E em se tratando de uma Comédia aí já carimba de vez o passaporte. Já no Thriller “O Profissional” ele mostrou ter uma veia cômica e bem peculiar, o que demonstrou em “Para Roseanna” (1997). Esse seu jeito próprio pode ser visto com mais detalhe em “Dupla Confusão” (2003). Convenhamos! Jean Reno já atingiu o panteão dos grandes atores, o que o libera para qualquer projeto, um clássico ou não.

Assim, mesmo que o roteiro traga uma ideia não tão original – um relacionamento de uma pessoa mais velha meio ranzinza com uma criança, nessa história são três -, ele por certo irá deixar a marca. Nem tanto como Henry Fonda em “Num Lago Dourado” (1981), mas talvez mais pela história de “Meu Verão na Provença“. Até porque seu personagem teria que lidar, conviver um tempo com seus próprios netos cujo praticamente desconheciam a existência desse avó. Três jovens bem urbanos ligados em internet, mas que por meios tortos um deles irá mostrar ao avô que a tecnologia do GPS num Smartphone também pode ser útil no campo por fazer ganhar tempo.

meu-verao-na-provenca-2014_01Paul (Jean Reno) vive no campo a cultivar oliveiras e até uma horta tudo sem pesticidas, daí um cuidado redobrado. Até porque com as olivas vem tentando ganhar o selo de qualidade para o azeite que fabrica. A passagem onde o título original “Avis de Mistral” se faz presente, onde Paul explica ao neto Adrien (Hugo Dessioux) a importância do forte vento de verão para a polinização das oliveiras me fez lembrar de uma cena em “A Vida Secreta das Abelhas“, por também fazer uma analogia para um aprendizado sobre a vida. Claro que até chegar a essa “aula”, o relacionamento de ambos esquentou bastante.

meu-verao-na-provenca-2014_02Com a neta Lee (Chloe Jouannet) a temperatura entre ambos também é bem inclemente. Ela e Paul terão grandes arranca-rabos. Por conta dele, pelas lembranças do passado. Por conta dela, por se achar livre para fazer o que quiser, mesmo ainda sendo menor de idade. Lee no início ver a diferença entre ser uma ecologista em plena Paris do que em sê-lo em pleno campo convivendo com muriçocas e outros mais da fauna local. Se ela ainda ficasse nesse tipo de experiências… Mas não! Até para confrontar o avô vai entrar numa gaiola furada: conhecerá um mundo que também adentrou no campo. Cabendo a Paul resgatar essa donzela.

meu-verao-na-provenca-2014_03Dos três, quem logo se ligou ao avô foi o caçula, Theo (Lukas Pelissier). Talvez até por ser surdo-mudo, não se importou por ser de poucas falas. Embora Paul não soubesse a língua dos sinais, ambos conseguiram se entender. Talvez também pela pouca idade, não sentiu tanto como Lee e Adrien a ausência do avô na vida deles. Théo também foi o primeiro a quebrar o muro do coração de Paul.

meu-verao-na-provenca-2014_04Paul é casado com Irèna (Anna Galiena). Um casamento de décadas que até causa espanto em Lee e Adrien, primeiro porque a princípio têm Paul como um cara antipático, ao contrário da avó que a têm como um doce de pessoa, e talvez até por isso, não veem sentido na recente separação dos próprios pais. Embora Irèna faça o contraponto entre Paul e os netos, sua presença é quase de uma figurante. Salva mais pela simpatia do que a história em si.

meu-verao-na-provenca-2014_05Meu Verão na Provença” já começa a nos embalar desde o início com “The Sounds of Silence“, de Simon & Garfunkel. O que já é uma doce promessa de que a Trilha Sonora será um coadjuvante de peso. E é! Com passagens que nos leva a sorrir ao som de “Venus“, de Shoking Blue“, com a chegada de motoqueiros no sítio de Paul que a primeira vista mais parecem saídos das histórias de “Astérix” do que de Woodstock. Essa trupe gaulesa levará Paul a um review também de algo dolorido. Mas em compensação também o levará a cantar “Knockin On Heavens Door“, Gun’s N’ Roses, para deleite nosso! Compondo essa trilha mais do que perfeita ainda temos clássicos como “Born to be wild“, de Steppenwolf; “Sea of Love“, de Cat Power; “Paradise“, de Coldplay. Isso só para citar algumas porque tem mais.

meu-verao-na-provenca-2014_oliveirasA Diretora Rose Bosch também assina o Roteiro. A trama em si muito mais pela presença de Jean Reno e do pequeno Lukas Pelissier, que faz o Théo, deixa até querer uma continuação. Algo como o avô passando uns dias na capital francesa. Ou mesmo recebendo os netos mais uma vez em sua casa, até porque a região de Provença é belíssima! De qualquer forma o tempo dirá se fora a presença de Jean Reno deixará algo mais na memória cinéfila. Vejam o filme! Eu recomendo! Que até pelo entretenimento em quase duas horas, dou Nota 8,5!

Meu Verão na Provença (Avis de Mistral. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.