Birdman (2014). O Canto do Cisne em Seu Apogeu!

birdman_de-wws-harrisPor: Cristian Oliveira Bruno.
Alejandro-Inarritu_Edward-Norton_Michael-KeatonAo terminar de ler o roteiro de Birdman ou (a Inesperada Virtude da Ignorância) [2014], Edward Norton (A Outra História Americana) pergunta ao diretor e roteirista Alejandro González Iñarrítu (Babel) quem havia sido escalado para o papel principal do longa. Ao ouvir o nome de Michael Keaton (Batman – O Filme) como resposta, Norton tem uma epifania: “É claro! É tão óbvio….e tão perfeito!“.

E é assim, trazendo um ator que viveu o auge de sua carreira no início dos anos 90, ao interpretar um popular super-herói no cinema, vivendo o personagem de um ator que viveu o auge de sua carreira no início dos anos 90, ao interpretar um popular super-herói no cinema que Birdman estabelece-se como um escarnio metalinguístico crítico e auto-crítico de primeira qualidade, brincando de fazer cinema com bom gosto e com alto grau de originalidade, fazendo de um filme simples o melhor filme de 2014.

birdman_2014_cenasO roteiro de Birdman é tão bem escrito que qualquer um de seus personagens poderia ser escolhido como protagonista – embora Riggan Thomson (Michael Keaton) realmente apresente-se como principal eixo dramático da trama. Se, por vezes, o excêntrico Mike Shiner de Edward Norton parece querer tomar todas as atenções para si – e de quando em vez até consiga – e a Sam de Emma Stone tenha lhe rendido uma justificada indicação ao Oscar, uma personagem e sua intérprete parecem ter ficado à sombra de sua real grandeza: Naommi Watts e sua Lesley, uma talentosa e sonhadora atriz que vive simultaneamente o melhor momento de sua carreira e uma das fases mais conturbadas de sua vida pessoal. Tanto a personagem, quanto a interpretação de Watts deveria ter recebido maiores holofotes, pois são marcantes e dignos de nota. Inusitadamente trazendo uma trilha composta unicamente por solos de bateria, Birdman é justamente aquilo que seu diretor pensa sobre cinema: “um conjunto de elementos distintos em constante movimento trabalhando em conjunto pelo mesmo propósito“. Assim sendo, Iñarrítu se desprende de qualquer estigma narrativo e/ou estrutural, sentindo-se mais do que à vontade para transpôr sentimentos e sensações para a tela. Portanto, não estranhe os quase intermináveis planos-sequência (que geraram preocupação por parte se toda a equipe para com a saúde dos cameramens, que sustentavam o pesado equipamento móvel por muitos minutos, transitando pelos vários cenários – um teatro real foi usado como locação) ou cenas em que Michael Keaton levita ou move coisas com a mente. Tudo isso é tão bem construído que se torna a mais pura apresentação de contexto e personagem elaborada nos últimos sei lá quantos anos.

birdman_2014_01Sem poupar ninguém nem fazer concessões, Birdman critica e desnuda tudo e todos que compõem seu universo, atacando sem piedade – porém, com muita elegância – todos aqueles que integram o mundo glamouroso da Broadway, sejam atores, diretores, platéia e críticos. E principalmente, Birdman ataca seus egos, principal fio condutor de sua trama. Pois não há nada mais instável do que o ego. Ele que nos faz acreditar sermos capazes de fazer o capazes somos – nem nunca seremos – capazes – de fazer e nos leva a cometer os mais mirabolantes atos.

Birdman é o cinema em sua mais pura forma e utilizando-se de absurdos, metalinguagem, fantasia e técnicas para fazer uma verdadeira obra-prima contemporâneo. Birdman está aí para nos mandar um recado: Hollywood ainda tem esperança, mesmo que esteja fora dali.

Nota: 9,5.

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Enquanto Somos Jovens (While We’re Young. 2014)

enquanto-somos-jovens_cartazmad-about-you_serie_e_enquanto-somos-jovens_filmeNa natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” (Lavoisier)

Uma ideia levando a outra para um tipo de homenagem? Ou apenas servindo de inspiração para uma outra história? Se foi o que aconteceu ou não… Foi o que me ocorreu logo no início como também ao longo de “Enquanto Somos Jovens“: me levou a pensar na série “Mad About You“, com Paul Reiser e Helen Hunt. Não sei o quanto ou se o Diretor Noah Baumbach gostava dessa série, mas a mim pareceu sim ter-se inspirado nela para escrever o roteiro desse seu filme. Nada contra, até porque eu curto ver a reprise dessa série. Mas ao término do filme vi que nem ficou como homenagem… De qualquer forma, além da temática principal, “Enquanto Somos Jovens” traz como pano de fundo as gravações de Documentários: o processo de criação. Mais! O quanto ao fazer uma Biografia dá o direito de não o ser tão literal: é o diretor dando asas a sua imaginação.

enquanto-somos-jovens-2014_ben-stiller_e_charles-grodinEnquanto Somos Jovens” traz um momento na vida de um casal. Unidos há anos, de repente se veem colocando a prova tal relação: como casal, como também individualmente. Onde um dos pesos seria a importância que cada um ainda tem na vida do outro. Onde quase sempre o que se ressente é o que mais se anulou. Até porque há um lado meio egoísta no outro. Nessa relação, o peso de não ter conquistado a fama que tanto queria. São eles Cornelia e Josh Srebnick, interpretados por Naomi Watts e Ben Stiller. Atuação mediana onde até poderiam ter tido grandes solos. Talvez porque eu tenha esperado um carisma igual ao casal da tal série. Talvez porque um outro personagem ter roubado a cena, o filme… Onde até um outro coadjuvante também marca presença. Falo de Charles Grodin, que faz o Leslie, o sogro de Josh. Cineasta famoso, colhendo os frutos da glória, até tenta ajudar o genro, mas esse por orgulho não aceita nem críticas construtivas.

enquanto-somos-jovens-2014_adam-driver_e_amanda-seyfriedO outro tal personagem é Jamie (Adam Driver), casado com Darby (Amanda Seyfried). Ele meio que de repente caiu de paraquedas na vida do casal; ou porque assim deixou acreditar… Como um Diretor de um Documentário “interferindo” na vida de outra pessoa e deixando ali desde o início sua marca pessoal. Algo que Josh nunca alcançou ao longo de sua carreira: em ser ousado. Enquanto tudo tinha que ser certinho, para esse outro deixava correr livremente, mas a partir de algo previamente calculado. Embora possa ser paradoxal, é que estaria em aproveitar até os imprevistos no correr do dia, do trabalho. A relação de ambos será um duelo de ego que só irá pesar para o lado de Josh. Até porque para o outro, não apenas por ser mais jovem e por ainda estar em início de carreira, mas porque era como pegar o caminho já quase sem as pedras tiradas por Josh e sem a menor preocupação. Como também aproveitar do que Josh desdenhou, ignorou. Até em ter mais visão do todo favorecia Jamie. Só que nem era pelo fato de Josh não ser mais tão jovem, mas sim por inaptidão frente as mudanças. Faltava a Josh o que Jamie tinha de sobra: de jogo de cintura. Bem, Jamie até pode ter roubado a cena, mas…

Mas é a vida de Josh e Cornelia que está sendo passada a limpo. De pronto, ambos se encantam com o estilo de vida do casal mais jovem. Onde até por não terem tido filhos já estavam se sentido deslocados na vida dos antigos amigos: o casal Marina (Maria Dizzia) e Fletcher (Adam Horovitz). Mas ao se afastarem acabam, mesmo que involuntariamente, dando a eles um certo alerta… Pois é! Marina e Fletcher entendem mais rapidamente a nova realidade em suas vidas: um filho adentrou nela sim, mas não precisam excluir, e sim se adequar a essa nova fase. E que pelo jeito não incorporaram Josh e Cornelia nela…

enquanto-somos-jovens-2014_ben-stiller_e_naomi-wattsAssim, enquanto Josh se sente “o cara” como um mestre para Jamie, Cornelia tenta acompanhar o estilo de Darby. Usados ou não, até pelos propósitos de Jamie, esse nem pode ser considerado um vilão já que deu um “acorda” na vida do casal. Na rotina em que caíram após anos de casamento. Onde mais por parte de Josh quase sem perceberem que no mundo atual há espaço para tudo: passado e presente se integrando. Que deveriam se adequar a esses novos rumos que por vezes batem à porta. Sem esquecer também de ir se desfazendo “bagagens” sem mais necessidade numa de depurar a nossa essência. É nessas quebras de ciclo que de fato ocorre uma mudança significativa na vida de uma pessoa. Do contrário irá continuar fazendo tudo igual Que no caso de Josh continuará sendo o panaca de sempre…

Enquanto Somos Jovens” é um bom filme! Pelos diálogos. Pela Trilha Sonora, do Clássico “Concerto for Lute“, de Vivaldi, ao Pop “Eye Of The Tiger“, de Survivor. Pela escolha do ator Adam Driver. Cujo Roteiro até deixa uma vontade de rever muito mais pela construção de um Documentário do que pela crise de meia idade do casal de protagonistas. Pois mesmo que tenha passado essas impressão, o filme focou mais em algo cultural naquele país: o se sentir um derrotado. Onde até poderia ter sido um ótimo filme, mas para mim Ben Stiller não soube aproveitar. Uma pena! Nota 7,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Enquanto Somos Jovens. While We’re Young. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). 2014

birdman_2014_01alejandro-gonzalez-inárritu_cineasta_birdmanJá adiantando que o filme é excelente e que tentarei não trazer spoiler! Até porque eu estou em suspense em como contar essa história onde parece estarmos numa poltrona mágica levados por toda trama com receio até de que se paramos cogitando se perdera algo poderemos de fato perder parte dela. Já tivera essa sensação em “Pina“, mas ai Wim Wenders usou com maestria a tecnologia do 3D. Já nesse aqui, eu diria que Alejandro González Iñárritu fez uso do talento de seus técnicos + espaço cênico. Conduzidos por esse genial cineasta!

Para quem conhece pelo menos um pouco da obra de Iñárritu sabe que ele parte de um ato único para então interligar todos os demais personagens ao protagonista. Assim, temos como pano de fundo em “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância” alguém querendo provar até a si próprio de que ainda é um ótimo ator. Que em se tratando dos Estados Unidos, os mais antigos ainda glamoriza a Broadway: a meca das produções teatrais. Como se a Hollywood não atestasse o talento de um ator. Para esse ator, essa segunda escalada ele já alcançara no passado com então o personagem que dá nome a primeira parte do filme: “Birdman“. Queria então partir para o seu segundo ato: tentar conquistar a Broadway. Para quem acompanhou a Série “Smash” teve uma ideia do quanto é difícil conquistar um dos importantes palcos dali, mais ainda em permanecer em cartaz, o que por si só já denotaria o sucesso da peça teatral. Bem, a história do filme já o coloca lá numa pré estreia. Assim, temos quase toda a trama focada nas apresentações dos ensaios técnicos abertos ao público.

birdman_2014Claro que o peso maior recai sobre esse ator, Riggan Thomson. Grande atuação de Michael Keaton! Para Riggan além do peso de anos sem atuar, há o do personagem que de ícone passara a ser Cult, lembrado em grande maioria por um público adulto. Quem lhe dará o toque de que precisa se atualizar para então atrair um público mais jovem é sua filha Sam. Personagem de Emma Stone, uma camaleoa ao se passar por uma adolescente rebelde. Dizendo que os tempos são outros, que deveria aproveitar da velocidade advinda dos iphones para as redes sociais. Que para esse grande público não bastava o peso de quem o fora no passado, eram atraídos mais por algo que escandalizasse. Bem, de qualquer forma, sem querer Riggan atrai para si esse tipo de flash. Mas que piora seu embate com o novo ator trazido por quem faz sua esposa na tal peça, a Lesley (Naomi Watts). Essa mesmo ciente do temperamento desse outro, o traz. Talvez imbuída da urgência, ou até por querer o sucesso da peça a qualquer custo, afinal era a Broadway e ela estava preste a realizar um sonho de criança… Riggan também concordara… Enfim, era alguém que atrai um público que soma o peso do nome com os escândalos que provoca. Ele é Mike Shiner, personagem do sempre ótimo Edward Norton. Pois é! Sem fugir da tal fama, ou até por conta dela, Mike de alto do seu egocentrismo tentará roubar o espaço em cena com Riggan. Um duelo de egos. Ou seria de alter-egos? Mike seria um James Dean da atualidade. Mas é ele quem acaba dando um toque em Sam para que pese a sua própria rebeldia contra o pai.

birdman_2014_01Já em relação a dicotomia entre celebridade x notoriedade, ator de filmes x ator de teatro… e por ai vai. É alimentada pela crítica teatral Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), odiada e venerada por uma gama de maior idade, mas desconhecida ou não endeusada pela parcela mais jovem. Terá um embate primeiro com Mike, depois com Riggan. Com esse não ficará pedra sobre pedra… E é dela que vem a segunda parte do título do filme: “A Inesperada Virtude da Ignorância“. Agora… Quem até então ignorara o que?

Além de tentar também se apaziguar com a ex-mulher, Sylvia (Amy Ryan), fora a filha… Riggan tem em seu calcanhar seu agente/advogado, Jake (Zach Galifianakis. Bom vê-lo num personagem mais sério.): com o orçamento em vermelho, com os acidentes de percurso na condução da peça teatral… Jake só não dimensiona a gravidade do estado de Riggan. Esquizofrenia ou para-normalidade? Sem como perceber de fato o que se passa com Riggan, Jake no fundo é um bom amigo. Até porque o próprio Riggan não admite para si mesmo que precisa de ajuda de um profissional da área, nem fala para ninguém. Até fala para Sylvia, mas não sendo explícito, essa também não avalia a gravidade… Com isso, meio que sozinho, ele acabará travando um embate com Birdman. Fora tudo mais a lhe pesar também a alma… Será muita coisa para ele digerir… Paro por aqui para não lhes tirar o suspense.

Então é isso! Preparem o fôlego porque irão voar, subir, descer… pela câmera vasculhando toda a trama, que é um deleite também para também os da área psico. Os atores estão em uníssonos! A Trilha Sonora, tirando uma certa bateria, é ótima! Com um Final em aberto? Eu diria que Riggan deixa todos livres para os seus próprios solos. Espero que não venham com uma continuação. Bem, de qualquer forma para “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância” os louros vão em primeiro lugar para Alejandro G. Iñárritu! Ele é um gênio! Que por conta de como contou essa história criou uma obra prima! Que só por isso o filme merece até ser revisto!

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância. 2014. Ficha Técnica: página no IMDb.

Livro: O Advogado do Diabo, de Morris West, 1959

Se deve educar primeiro o coração depois a cabeça

Talvez muitos tenham deixado de ler influenciado apenas pelo título. Também não tem nada a ver com o filme americano. Abaixo segue uma sinopse oficial do livro. Agora, eu gostaria mesmo de deixar as minhas impressões de O Advogado do Diabo, de Morris West.

Na incredulidade, não existe pai, não existe relação. A gente não vem de parte alguma, não vai para parte alguma. Nossos atos mais nobres são destituídos de significado.”

Quando comecei a ler eu sabia o que representava o termo “advgado do diabo” para a Igreja Católica; e lendo a contra-capa do livro, à época, interessei-me. Confesso que não esperava tanto. É fascinante a história, e que segue num crescente até o final. Há uma passagem, logo no início, onde o padre Meredith se questiona, mais ou menos assim:

Como ele que foi um bandoleiro vai virar um santo, e eu que dediquei minha vida à igreja vou deixar minha vida em branco?“. Outra que também emociona é quando ele se sente traído por um Deus que dedicou-se tanto.

Pode até parecer que deste ponto em diante será um quase duelo de egos; que ressentimentos irão deixar a narrativa angustiante, pesada. Creiam! Dai para frente o desenrolar da história é um brinde a nossa sensibilidade! Investigando sobre Giácomo, Meredith fará um mergulho em si mesmo. E na vida que não viveu.

Quando não se sabe de onde virá a nossa próxima refeição, como é que se pode pensar ou preocupar-se com a situação de nossa alma? A fome não tem moral.”

A descoberta de novas sensações muito mais que novas emoções, nos levarão a viajar com ele. Quase que sentindo o mesmo prazer; o mesmo gozo. Uma em especial torna-se um grande convite. E não dá para buscar um refinamento numa palavra, porque nem aroma, nem fragância, nem muito menos perfume, terá o significado simples e especial para ele: cheiro. Sim, para ele que passou grande parte da vida mergulhado nos livros, de repente começar a sentir novos cheiros, inclusive, cheiro de mulher. E fica vislumbrado! Não! Não somente ele, mas a todos que se dispõe a ler esse livro.

Sinto a vida escoando-se de mim. Quando vem a dor, choro, mas não existe prece em meu pranto. Somente medo.

Esse livro entrou na minha lista “the best”. Leiam, não perderão a viagem!

Já houve uma adaptação para o Cinema, em 1977, “Des Teufels Advokat“, de Guy Green, com Roteiro do próprio Morris West. Mas bem que poderiam fazer uma versão mais recente. A história é excelente!

Como acontece com a maioria das pessoas bem educadas, não tinha defesa contra a grosseria dos outros.”

Sinopse: Na Calábria, sul da Itália, surge um culto não-oficial em torno da memória de Giacomo Nerone. Milagres são atribuídos ao eremita, que se tornou mártir ao ser assassinado pelos comunistas nos últimos dias da Segunda Guerra. O Bispo Valenta ordena uma profunda investigação no caso. Ficando a cargo do padre inglês Blaise Meredith. Um verdadeiro advogado do diabo, que tem a obrigação de encontrar e denunciar qualquer fato que possa impedir as santas honras sejam dadas a Giacomo. O protagonista se envolve numa trama rica em contradições e descobertas que chegam a modificar seu enfoque sobre a vida. Sem dúvida, quem o ler modificará seus prismas ou, no mínimo, ampliará os horizontes.

Advogado do Diabo = No contexto da Igreja Católica, um padre é designado para investigar se uma determinada pessoa considerada santa de fato é digna da beatitude que lhe é atribuída.

À Procura de Eric (2009). Em vez de um Divã, Fumou um Baseado

É! Já iniciei com um baita spoiler nesse subtítulo que coloquei. Sorry! Confesso que não resisti. Até por querer que muitos mais vejam ‘À Procura de Eric‘. Um filme que para muitos passaria batido. Cheguei a cogitar em avisar que o meu texto seria proibido para menores de 18 anos. Mas a censura dada ao filme é de 14 anos. Então…

Nunca fiz, nem faria uma apologia as Drogas. Como também não vejo graça em se drogar. Mesmo para o exemplo do personagem desse filme. Falo dele já. O lance é que sendo um filme o grande propósito é nos entreter. Assim como eu amei e recomendei ‘O Barato de Grace‘, também o faço com esse. Dois que buscaram uma saída em algo politicamente incorreto, mas que não deixa de ser uma diversão garantida.

Creio que o pessoal da área Psico se forem cuca fresca também irão gostar. Deixo claro que sou à favor de uma Terapia com um Profissional. E aos menores de idade: não entrem nesse mundo das drogas. Poderá ser um caminho sem volta. Mesmo sendo maconha, melhor não entrarem nessa.

Em ‘À Procura de Eric‘ temos no próprio um surto. Que só com o desenrolar do filme que descobriremos o que foi a fagulha que desencadeou o surto. É! Ele já vinha acumulando cargas… que represadas um dia vem à tona. O de se comparar com alguém muito querido do seu passado, foi o motivador. E ai é que está: o ego não aguentou. Nesse lance pinta até algo machista: de que para ele, ela não poderia estar tão bem, e ele um caco. Homens!

Se o Ego está no chão… um ‘nobre’ alter ego fora a solução.

Após o surto seus amigos carteiros tentam ajudá-lo. ora animando-o com piadas, ora com lições de livros do tipo auto-ajuda. E sempre presentes. Essa parte o filme também valoriza a amizade. Mas sem querer invadir a privacidade dele, eles não poderiam ajudar na raiz do problema.

Eric foi perdendo o controle da sua vida, da sua casa… Nela, só não reinava um caos total porque o quarto dele era uma ilha de limpeza em meio a tanta sujeira. Seus dois enteados não queriam nenhum tipo de responsabilidade. Pior! Um deles se vende por muito pouco ao líder da gangue local.

Então numa de aliviar a tensão Eric pega escondido no quarto do filho um baseado. É quando surge seu ídolo maior: o jogado de futebol Eric Cantona. Esse fora um grande artilheiro do seu clube favorito: Manchester United’s. Cantona tinha como alcunha: ‘The King’.

Bem, como citei lá no início para um tête-à-tête comigo mesma eu não iria mesmo me drogar. Mas para quem curte a ervinha… pode ser um caminho. Eric no passado já dera indícios que não aguentava pressões… Talvez por isso escolhera uma profissão metódica, que exigia muito mais força física que uso do raciocínio. Sem desmerecer aqui a Profissão de Carteiro, ok?

A conversa entre os dois Eric é de rir muito. Usam e abusam da psicologia-das-frases-feitas. Até que uma encaixa na busca pela solução. Ai é a vez do Eric, carteiro, tentar por ajuda dos amigos. Todos torcedores fanáticos e companheiros de copos. É quando Eric toma de vez o controle de sua vida, de sua casa… e com um ego remoçado.

Tal como em ‘O Barato de Grace’… esqueçam o politicamente correto¹, pois o filme é ótimo! Não deixem de ver!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

À Procura de Eric (Looking for Eric). 2009. Reino Unido. Direção: Ken Loach. +Cast. Gênero: Comédia, Drama, Fantasia, Esporte. Duração: 116 minutos.

(¹) – Quando fica dando voltas, sem condições de encontrar uma solução, melhor pedir ajuda de um Profissional.

Topo.

Festim Diabólico (Rope. 1948)

Eis meu primeiro filme do Hitchcock. Tive o prazer de ser apresentado à sua obra com apenas 14 anos… E ainda acho que foi tarde. Nesse espetáculo, Hitchcock traz às telas uma das mais perfeitas representações do sadismo e da perversão do ego humano de sua carreira.

Aqui, o ‘mestre’ faz uso de breves tomadas alternadas em um único cenário e basicamente o mesmo ângulo de câmera que fazem com que as cenas pareçam ininterruptas, dando um vigoroso ar de teatralidade que só influiu para que o filme ficasse mais e mais grandioso a cada cena, pois sem grandes cenários não havia como encaixar longas e arrastadas seqüências de suspense, tampouco cenas de ação fantásticas. O único cenário deixava toda a ‘responsabilidade’ nas mãos dos atores.

Aliás, se tem algo de vigoroso além da direção que deva ser destacado são as atuações. O elenco, relativamente pequeno, faz-se menor ainda diante da dupla de assassinos e de seu desconfiado professor.

O obstinado Rupert, o egocêntrico Grandon e o assustado Philip rendem alguns dos mais tensos momentos que já presenciei nessa minha breve (mas não tão curta) vida de cinéfilo. Cada vez que alguém apenas dirigia o olhar ao baú onde estava o cadáver, a tensão aumentava e quando a Sra. Wilson levantou a tampa e quase entregou tudo, meu coração disparou (e não é fácil um filme despertar isso em mim).

Ao desenrolar da trama, os demais personagens saem e restam apenas os três principais.. E é aí que o filme embala rumo ao magistral. A tensão aumenta, o desespero de Philip procurando afogar sua culpa na bebida, o sadismo de Brandon mantendo-o firme até o último instante e a perseverança de Rupert tentando disfarçar seu medo por estar sozinho com dois psicopatas tão evidente no tremor de suas mãos.

Aliás, o filme pode ser apoiado sobre quatro pilastras: o baú, a mão de Brandon na arma em seu bolso, o olhar temeroso pelos próprios ombros de Rupert e as doses de Philip (a cada gole, seus trejeitos mudavam… Os olhos ficavam mais fundos e a angústia de sua culpa nos era mais e mais intensa).

E o final não poderia ser mais coerente com o espetáculo. A sutileza de um gênio passada pelas sirenes da polícia.

Enfim… Mais uma obra-prima (tantas, né?) de um dos maiores gênios do cinema. NOTA: 11,0.

Por: Luiz Carlos Freitas.

Festim Diabólico (Rope). 1948. EUA. Direção: Alfred Hitchcoock. Elenco: James Stewart, John Dall, Farley Granger, Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan, Joan Chandler. Gênero: Crime, Drama, Thriller. Duração: 80 minutos.