O Que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar. 2011)

o-que-traz-boas-novas_2011o-que-traz-boas-novas_01Em algum momento da vida a morte de alguém próximo nos atinge. Mas que o sentimento de perda, pode vir junto o de culpa. Mesmo que não a tenha provocado, entre outros pensamentos vem o de que se fez de tudo para impedir. Mas o pior é quando fica também a sensação de que junto com o ato desesperado quis se vingar daquele que ficou vivo. Agora, se entre eles temos também crianças e inocentes fica a dúvida do porque dessa vingança. Na trama duas crianças tiveram um impacto maior: Alice (Sophie Nélisse) e Simon (Émilien Néron). A pequena Alice mostra que há diversas formas de se violentar alguém, e que com a morte não se tem como punir. Quanto a Simon ele reagiu porque aquilo era novo para ele. Quis mostrar força a alguém que já se encontrava na beira do precipício. Mas esse alguém era uma pessoa adulta.

E chegará o dia em que um simples abraço fará com que sintas como quem conseguiu, enfim, envolver o mundo. E como quem está protegido por todas as forças desse mesmo mundo. Porque o resto será mero resto, até o resto de nossas vidas.”

À primeira vista o filme “O Que Traz Boas Novas” pode ser mais um a mostrar a relação entre Professor e Alunos em Sala de Aula, mas como citei no início temos como pano de fundo a morte de um ente querido. Embora com um tema tão pesado ele transcorre num tom mais leve já que é uma Comédia Dramática. Também não é mais um a mostrar esse universo de dentro da escola porque ele se torna único por mostrar que regras rígidas demais mesmo que com boas intenções terminam prejudicando o peso de um professor na vida de uma criança. Até para não dar margens a pedofilia os professores se veem impedido de dar um simples abraço e que transmitiria segurança a criança. Muito embora se trata de uma classe ainda nos primeiros anos escolares. Onde as crianças em questão se encontram naquele momento de transição da infância para a pré-adolescência. Professores e Pais têm papel fundamental nessa fase. Que poderiam criar pontes, até porque olham para elas em universos distintos. No lar elas teriam o ninho. Na escola a preparação para o mundo. Assim se atuassem em conjunto, além da descoberta de futuros talentos, estariam preparando-as para as vicissitudes da vida. Se elas sentirem confiança conseguirão quase materializar essas novas angústias.

o-que-traz-boas-novas_02Ciente da morte de uma professora, Monsieur Lazhar (Mohamed Fellag) se candidata ao cargo. Por já estar disponível, e até por conta da burocracia na efetivação de um novo professor, a Diretora o contrata como substituto. Então Bachir Lazhar se encontra na difícil missão de trazer um sopro de vida para aquelas crianças. Algo como mostrar que a vida segue em frente. Que para ele também traria esse alento já que também trazia um luto dolorido. Monsieur Lazhar aos poucos foi conquistando os alunos. O que facilitou a abrirem seus corações. Percebendo de que havia um silencioso pedido de socorro.

Cada um vivencia um fato de um jeito, mesmo os que estão mais diretamente ligados a ele. Mas na trama não se pode esquecer que são crianças. Que a professora de quem gostavam tanto se suicidou ali. O que fez Bachir estranhar deles continuarem na mesma sala. Ai temos o paradoxo de se seguir ao pé da letra certas regras. De um lado temos a Diretora que mandou pintar as paredes e recolher todos os trabalhos que estavam nas paredes. Como se quisesse também esterilizar o que vivenciaram até então. Mais! Que se os mudassem de sala não os fariam esquecer do fato. Por outro lado tem a terapeuta impondo trabalhos artesanais, sem dar a menor chance delas mostrarem o que de fato estavam sentido.

transformacao-interiorBachir Lazhar mesmo colocando o seu pescoço a prêmio – até por ele está vivenciando um outro drama pessoal -, sabe que terá que ajudar aquelas crianças. Ainda mais que indiretamente aflorou os fantasmas delas. Abalando as estruturas do ensinar e educar, ou do papel da escola e da família na formação da criança, ele não poderia ficar de braços cruzados. Foi catártico até para ele. Não fora preciso estar ciente de toda a metodologia dali, de Quebec, para chegar no cerne do problema. Criança é criança em todo lugar. Talvez a brincadeira de colar o desenho de um peixe nas costas dele significava de que ele não era um peixe fora d’água ali, e de que remando contra a maré ele resgataria a infância de todas. Fechando assim esse período invernal.

No desenrolar da história parece que são peças de vários quebra-cabeças sendo montados. Mas que ao final todas as imagens se unem numa só figura como numa hologravura. Lindíssima! Simbolizando o começo, o meio e fim da história. De certa forma é o que o mundo atual precisa fazer mais. Como uma bela mensagem trazendo todos à razão de saber a emoção.

monsieur-lazharSensível! Cativante! De acompanhar com brilhos nos olhos. Que me fez querer revê-lo até porque ficou a impressão de que perdi alguns significados, já que os símbolos estavam todos ali. Muito embora o filme por um todo está fechadinho. Nada por alterar. Elenco em uníssono! Direção perfeita de Philippe Falardeau, que também assina o Roteiro. Um filme excelente! Mais até! O personagem Monsieur Lazhar merece viver outras histórias mais. E claro que com o ator Mohamed Fellag. Cuja performance foi fascinante!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar. 2011). Canadá. Direção e Roteiro: Philippe Falardeau. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 94 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos.

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Entre os Muros da Escola (Entre les Murs. 2008)

entre-os-muros-da-escolaÉ um filme que leva a várias reflexões. Com cenas que serão difíceis esquecer. Parece que estamos ali dentro daquela sala de aula. Invisíveis, mas podendo sentir toda a tensão presente. Chega a ser meio angustiante, até numa de querer interferir. Parabéns ao Diretor Laurent Cantet. O filme ‘Entre os Muros da Escola‘ ficará como um documental de que ainda tem que se fazer muito pelos adolescentes. Principalmente com tantas etnias dentro de um espaço tão pequeno.

Não dá para não deixar de traçar paralelos com outros filmes. Trarei dois em especial: ‘Ao Mestre com Carinho‘ e ‘Escritores da Liberdade‘. Com esses três teremos de imediato o universo cultural e social de três países: Inglaterra, Estados Unidos e França. Até por serem muito procurados por imigrantes. Que fogem da repressão, da fome… Que vão em busca de uma vida condigna. Dos ideais que há na bandeira francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Mas até legalizarem sua permanência, ficarão sob tensão. Temerosos. Com isso seus filhos mesmo tendo nascidos nesse novo país, poderão se sentir sem uma pátria.

entre-os-muros-da-escola_elenco-teenA Escola mais do que nunca assume uma responsabilidade na formação social dos jovens. Um papel que era exclusivo dos pais. Até para ir quebrando um ciclo, o Corpo Docente deve adequar o ensino a realidade da turma. No filme, uma mãe diz que preferiria que seu filho estudasse noutro colégio. Por esse outro nivelar por cima. Seria ótimo, mas se todos pudessem acompanhar o ritmo daquilo que é ministrado. Mas há quem não acompanhe. O que dá margem para uma outra discussão, mas para não me alongar cito que o Professor tem que encontrar um jeito de se fazer entender. Se conseguir esse canal, poderá elevar o nível do ensino.

Uma outra discussão que o filme deixará, seria como estabelecer limites. Para que o jovem saiba que a liberdade dele não pode prejudicar a do próximo. Que saiba que há hora e local para tudo. É um dos grandes estresses dos Professores, ganharem o respeito em sala de aula. Em mostrar que a autoridade dele é por hierarquia. Agora, há um outro fator cultural que não dá para esquecer. É que para os franceses ainda é normal o castigo físico nos filhos. Palmadas, e até tapa na cara. Em casa, ou na rua, eles veem nisso como fator disciplinador. Mas e entre os muros da escola? Isso não é aplicado, claro. Mas para jovens de outras etnias, que são sabedores disso, pode virar como uma arma para afrontar seus professores.

O Professor Marin (François Bégaudeau), primeiro tenta ensinar a língua pátria a turma. Mas nesse ano em questão, o penúltimo, antes de decidirem qual caminho trilharão, eles parecem mais arredios. Por aqueles que já conhecia, dá para avaliar as mudanças. Só que na reunião dos professores, não encontra um denominador comum. Algo que os unissem para resgatarem aqueles adolescentes. Sozinho, vulnerável, ainda tenta tenta conciliar a sua aula com um lado meio paternal.

Para finalizar, esses pequenos rebeldes, também têm muito a ensinar aos seus mestres. É uma via de mão dupla: Professores e Alunos; e não ‘versus‘. Que esse filme seja mais um a ser levado às salas de aulas. E que suscite várias debates. Para que cada vez mais um número maior de adolescentes não se enverede pelo mundo do crime.

O filme é muito bom! De querer comentar mais aspectos. Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs). 2008. França. Direção: Laurent Cantet. Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Dalla Doucoure. Gênero: Drama. Duração: 128 minutos. Baseado em livro homônimo de François Bégaudeau.

Escritores da Liberdade (Freedom Writers. 2007)

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida…

Algumas pessoas acham que Diploma já é o topo. Creio que essas o exibe como um troféu na parede. Sei que a profissão de Professor não é muito valorizada pelos políticos atuais. Travando o idealismo de poucos para o engrandecimento de muitos. Quando a dificuldade não parte deles, vem do próprio Conselho de Ensino. Rígidos demais às regras. Ficando cegos à realidade local. Fechando as portas, numa mão única.

Eis que entre tantos, chegam um que faz toda a diferença. Um que sabe que mais do que ensinar o que está no livro oficial, quer preparar seus alunos para a vida. A esse que tem o magistério como o seu sacro-ofício cabe, de fato e de direito, o título de Mestre.

Falando nisso, há pouco tempo revi o “Ao Mestre com Carinho 2”. O primeiro, marcou minha pré-adolescência. Perdi as contas das vezes que vi; e em todas eu chorava. Esse segundo também me emocionou! Rever o ator Sidney Poitier é sempre um grato prazer! Talvez por isso, comecei a ver “Escritores da Liberdade” como se ele fosse uma versão feminina desse Grande Mestre. E me encantei com a Mestre desse!

Erin Gruwell (Hilary Swank) em vez de seguir a carreira de advocacia, algo trazido da infância por admirar o pai nas causas civis, vai ser professora. Num Colégio onde passou a receber alunos da periferia: os de baixa-renda. E uns que cumpriam uma liberdade condicional por crimes cometidos. Sendo assim, um colégio para lá de misto. Cheia de motivação, primeiro não recebe um apoio que esperava por conta da Diretora. Essa, descarrega toda a aversão por ter que receber esses alunos em seu santuário. Ela os despreza.

Depois, Erin se assusta com os seus alunos. Mas sua determinação a faz seguir em frente em sua odisséia. Seus alunos são como animais feridos. Reagem e agem num círculo viciante até por questão de sobrevivência. Não se tocando que o que tanto criticam no outro, fazem igual. A partir de uma caricatura que um dos alunos fez para ridicularizar um colega de classe negro, ressaltando os lábios, ela também cai na real. De que ali eles formam guetos. E começa a falar do Holocausto. Algo que só um deles sabia o que era.

Desde o início o filme prende a atenção. Não se sente o tempo passar. Acompanhamos numa torcida a cada um daqueles alunos que consigam quebrar a corrente do preconceito. Que hispanos, asiáticos, negros e um único “branco” sintam-se iguais. Ao tentar fazer com que leiam o “O Diário de Anne Frank”, a Diretora proíbe. Os livros do Acervo da escola não são para eles. Incrível, uma biblioteca proibida aos carentes; por temer que irão destruir. Por essa, e outros impedimentos mais, Erin resolve ter outros trabalhos; uma renda extra. Para dar aos seus alunos o que a escola nega. Então cada um deles constrói o seu próprio Diário.

A cada satisfação, a cada acesso obtido na mente de seus alunos, fazendo-os pensarem por si mesmo no quanto agiam errado, a cada pequeno sucesso deles, além das duchas-frias da Diretora que ela vai aprendendo a tirar de letra, Erin tem um abalo em seu casamento.

Esse filme veio pontuar algo que costumo reclamar. Para o meu contentamento, ele será um a mais na lista de grandes personagens femininas. Aqui, mostrando carreira e casamento de uma mulher. Algo bem real. Mas como também não tão irreal, o de um homem não segurar a barra em ver a esposa crescer, quer seja em sua profissão, quer seja no seu talento. Erin está radiante. Investindo em si mesma, até por conta de que está em seus planos, mais a frente, constituir família: filhos. O contrário do marido que já não tinha mais ambição alguma.

É um filme que tem muito para comentar, mas para não tirar mais a emoção que irão sentir, paro a história por aqui. Fica a certeza de que houve momentos que meu corpo arrepiou, noutros que não retive as lágrimas. Minhas faces ficaram umedecidas até o final do filme. Faço votos que os governantes assistam esse filme. Que invistam mais nesse Profissional. Heróis e Mentores para muitos.

Um filme que vale a pena ver e rever sempre! Nota 10 com louvor! Eu também gostei da trilha sonora!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Escritores da Liberdade (Freedom Writers). 2007. Alemanha. Direção: Richard LaGravenese. Elenco: Hilary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton. Gênero: Drama. Classificação: 14 anos. Duração: 123 min.