Birdman (2014). O Canto do Cisne em Seu Apogeu!

birdman_de-wws-harrisPor: Cristian Oliveira Bruno.
Alejandro-Inarritu_Edward-Norton_Michael-KeatonAo terminar de ler o roteiro de Birdman ou (a Inesperada Virtude da Ignorância) [2014], Edward Norton (A Outra História Americana) pergunta ao diretor e roteirista Alejandro González Iñarrítu (Babel) quem havia sido escalado para o papel principal do longa. Ao ouvir o nome de Michael Keaton (Batman – O Filme) como resposta, Norton tem uma epifania: “É claro! É tão óbvio….e tão perfeito!“.

E é assim, trazendo um ator que viveu o auge de sua carreira no início dos anos 90, ao interpretar um popular super-herói no cinema, vivendo o personagem de um ator que viveu o auge de sua carreira no início dos anos 90, ao interpretar um popular super-herói no cinema que Birdman estabelece-se como um escarnio metalinguístico crítico e auto-crítico de primeira qualidade, brincando de fazer cinema com bom gosto e com alto grau de originalidade, fazendo de um filme simples o melhor filme de 2014.

birdman_2014_cenasO roteiro de Birdman é tão bem escrito que qualquer um de seus personagens poderia ser escolhido como protagonista – embora Riggan Thomson (Michael Keaton) realmente apresente-se como principal eixo dramático da trama. Se, por vezes, o excêntrico Mike Shiner de Edward Norton parece querer tomar todas as atenções para si – e de quando em vez até consiga – e a Sam de Emma Stone tenha lhe rendido uma justificada indicação ao Oscar, uma personagem e sua intérprete parecem ter ficado à sombra de sua real grandeza: Naommi Watts e sua Lesley, uma talentosa e sonhadora atriz que vive simultaneamente o melhor momento de sua carreira e uma das fases mais conturbadas de sua vida pessoal. Tanto a personagem, quanto a interpretação de Watts deveria ter recebido maiores holofotes, pois são marcantes e dignos de nota. Inusitadamente trazendo uma trilha composta unicamente por solos de bateria, Birdman é justamente aquilo que seu diretor pensa sobre cinema: “um conjunto de elementos distintos em constante movimento trabalhando em conjunto pelo mesmo propósito“. Assim sendo, Iñarrítu se desprende de qualquer estigma narrativo e/ou estrutural, sentindo-se mais do que à vontade para transpôr sentimentos e sensações para a tela. Portanto, não estranhe os quase intermináveis planos-sequência (que geraram preocupação por parte se toda a equipe para com a saúde dos cameramens, que sustentavam o pesado equipamento móvel por muitos minutos, transitando pelos vários cenários – um teatro real foi usado como locação) ou cenas em que Michael Keaton levita ou move coisas com a mente. Tudo isso é tão bem construído que se torna a mais pura apresentação de contexto e personagem elaborada nos últimos sei lá quantos anos.

birdman_2014_01Sem poupar ninguém nem fazer concessões, Birdman critica e desnuda tudo e todos que compõem seu universo, atacando sem piedade – porém, com muita elegância – todos aqueles que integram o mundo glamouroso da Broadway, sejam atores, diretores, platéia e críticos. E principalmente, Birdman ataca seus egos, principal fio condutor de sua trama. Pois não há nada mais instável do que o ego. Ele que nos faz acreditar sermos capazes de fazer o capazes somos – nem nunca seremos – capazes – de fazer e nos leva a cometer os mais mirabolantes atos.

Birdman é o cinema em sua mais pura forma e utilizando-se de absurdos, metalinguagem, fantasia e técnicas para fazer uma verdadeira obra-prima contemporâneo. Birdman está aí para nos mandar um recado: Hollywood ainda tem esperança, mesmo que esteja fora dali.

Nota: 9,5.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). 2014

birdman_2014_01alejandro-gonzalez-inárritu_cineasta_birdmanJá adiantando que o filme é excelente e que tentarei não trazer spoiler! Até porque eu estou em suspense em como contar essa história onde parece estarmos numa poltrona mágica levados por toda trama com receio até de que se paramos cogitando se perdera algo poderemos de fato perder parte dela. Já tivera essa sensação em “Pina“, mas ai Wim Wenders usou com maestria a tecnologia do 3D. Já nesse aqui, eu diria que Alejandro González Iñárritu fez uso do talento de seus técnicos + espaço cênico. Conduzidos por esse genial cineasta!

Para quem conhece pelo menos um pouco da obra de Iñárritu sabe que ele parte de um ato único para então interligar todos os demais personagens ao protagonista. Assim, temos como pano de fundo em “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância” alguém querendo provar até a si próprio de que ainda é um ótimo ator. Que em se tratando dos Estados Unidos, os mais antigos ainda glamoriza a Broadway: a meca das produções teatrais. Como se a Hollywood não atestasse o talento de um ator. Para esse ator, essa segunda escalada ele já alcançara no passado com então o personagem que dá nome a primeira parte do filme: “Birdman“. Queria então partir para o seu segundo ato: tentar conquistar a Broadway. Para quem acompanhou a Série “Smash” teve uma ideia do quanto é difícil conquistar um dos importantes palcos dali, mais ainda em permanecer em cartaz, o que por si só já denotaria o sucesso da peça teatral. Bem, a história do filme já o coloca lá numa pré estreia. Assim, temos quase toda a trama focada nas apresentações dos ensaios técnicos abertos ao público.

birdman_2014Claro que o peso maior recai sobre esse ator, Riggan Thomson. Grande atuação de Michael Keaton! Para Riggan além do peso de anos sem atuar, há o do personagem que de ícone passara a ser Cult, lembrado em grande maioria por um público adulto. Quem lhe dará o toque de que precisa se atualizar para então atrair um público mais jovem é sua filha Sam. Personagem de Emma Stone, uma camaleoa ao se passar por uma adolescente rebelde. Dizendo que os tempos são outros, que deveria aproveitar da velocidade advinda dos iphones para as redes sociais. Que para esse grande público não bastava o peso de quem o fora no passado, eram atraídos mais por algo que escandalizasse. Bem, de qualquer forma, sem querer Riggan atrai para si esse tipo de flash. Mas que piora seu embate com o novo ator trazido por quem faz sua esposa na tal peça, a Lesley (Naomi Watts). Essa mesmo ciente do temperamento desse outro, o traz. Talvez imbuída da urgência, ou até por querer o sucesso da peça a qualquer custo, afinal era a Broadway e ela estava preste a realizar um sonho de criança… Riggan também concordara… Enfim, era alguém que atrai um público que soma o peso do nome com os escândalos que provoca. Ele é Mike Shiner, personagem do sempre ótimo Edward Norton. Pois é! Sem fugir da tal fama, ou até por conta dela, Mike de alto do seu egocentrismo tentará roubar o espaço em cena com Riggan. Um duelo de egos. Ou seria de alter-egos? Mike seria um James Dean da atualidade. Mas é ele quem acaba dando um toque em Sam para que pese a sua própria rebeldia contra o pai.

birdman_2014_01Já em relação a dicotomia entre celebridade x notoriedade, ator de filmes x ator de teatro… e por ai vai. É alimentada pela crítica teatral Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), odiada e venerada por uma gama de maior idade, mas desconhecida ou não endeusada pela parcela mais jovem. Terá um embate primeiro com Mike, depois com Riggan. Com esse não ficará pedra sobre pedra… E é dela que vem a segunda parte do título do filme: “A Inesperada Virtude da Ignorância“. Agora… Quem até então ignorara o que?

Além de tentar também se apaziguar com a ex-mulher, Sylvia (Amy Ryan), fora a filha… Riggan tem em seu calcanhar seu agente/advogado, Jake (Zach Galifianakis. Bom vê-lo num personagem mais sério.): com o orçamento em vermelho, com os acidentes de percurso na condução da peça teatral… Jake só não dimensiona a gravidade do estado de Riggan. Esquizofrenia ou para-normalidade? Sem como perceber de fato o que se passa com Riggan, Jake no fundo é um bom amigo. Até porque o próprio Riggan não admite para si mesmo que precisa de ajuda de um profissional da área, nem fala para ninguém. Até fala para Sylvia, mas não sendo explícito, essa também não avalia a gravidade… Com isso, meio que sozinho, ele acabará travando um embate com Birdman. Fora tudo mais a lhe pesar também a alma… Será muita coisa para ele digerir… Paro por aqui para não lhes tirar o suspense.

Então é isso! Preparem o fôlego porque irão voar, subir, descer… pela câmera vasculhando toda a trama, que é um deleite também para também os da área psico. Os atores estão em uníssonos! A Trilha Sonora, tirando uma certa bateria, é ótima! Com um Final em aberto? Eu diria que Riggan deixa todos livres para os seus próprios solos. Espero que não venham com uma continuação. Bem, de qualquer forma para “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância” os louros vão em primeiro lugar para Alejandro G. Iñárritu! Ele é um gênio! Que por conta de como contou essa história criou uma obra prima! Que só por isso o filme merece até ser revisto!

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância. 2014. Ficha Técnica: página no IMDb.

Menos que Nada (2012)

Uau! Muito bom mesmo o filme “Menos que Nada”, do Diretor Carlos Gerbase, que também assina o Roteiro. É de acompanhar quase sem respirar, num silêncio meio comovedor, até porque o pano de fundo seja como se move a dor de amor no coração de alguém. Muito embora em alguns momentos sonorizei algumas interjeições censuráveis pelo o que fizeram a esse coração fragilizado demais.

O filme teve inspiração no conto “O Diário de Redegonda”, de Arthur Schnitzler. Que trazia uma história de amor impossível. Onde o personagem em vez de correr o risco de morrer por esse amor, ele mergulhou em sua imaginação para então poder viver esse amor. Delírios ou Realidade. Loucura ou Sanidade. São pontos que nos leva nessa outra história. Gerbase entra um pouco no mundo da esquizofrenia para contar a história desse novo personagem, o Dante. E o faz num lançamento simultâneo em mídias distintas: Cinema, Televisão, Dvd e Internet. Eu assisti pelo Canal Brasil.

Sem querer entrar na patologia, pois essa não é a minha praia, prefiro falar da história de Dante, um ser humano esquecido num hospital psiquiátrico. Muito embora o filme deixe uma ideia de que a esquizofrenia, mais que por conta de fatores genético, tem como um trauma um fator desencadeante. Mas se o tal fato apertou o botão de iniciar, haveria mesmo algo guardado em si?

A história de Dante – muito bem interpretado por Felipe Kannenberg -, começou meio por acaso. Ele chama a atenção de uma jovem médica, ainda movida pelo espírito inovador de início de carreira, em sua primeira ronda pelo hospital. Ela é a Dra. Paula. Muito bem conduzida pela atriz Branca Messina.

Paula resolve investir seu tempo naquele ser humano esquecido por todos. Se foi o acaso que a levou a esse paciente, resolve conhecer a história de Dante de um jeito mais científico. De filmadora em punho, começa entrevistando quem ainda o procurou no início de sua internação, que se deu há 10 anos atrás. Então, teria menos que nada para tentar ajudá-lo. E é através desses depoimentos que conhecemos Dante. Um romântico que a vida maltratou.

Tocante! Sensível! Um filme Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Menos que Nada (2012). Brasil. Direção e Roteiro: Carlos Gerbase. Elenco: Felipe Kannenberg (Dante), Branca Messina (Dra. Paula), Rosanne Mulholland (René), Maria Manoella (Berenice), Carla Cassapo (Laura), Janaína Kremer (Mãe de Dante), Paulo Rodrigues (Escrivão), Cris Kessler (Repórter de TV). Gênero: Drama. Duração: 105 minutos.

Léolo – Porque Eu Sonho (Léolo, 1992)

A infância pode parecer um período alegre e cativante para muitos dos que preferem lembrar apenas os momentos bons, porém talvez alguns saibam o quanto esse período pode ser difícil. Léolo justamente nos faz recordar a gama de emoções que uma criança pode sentir com acontecimentos avaliados pelos adultos como simplistas. A observação ao seu redor, a descoberta do prazer, a leitura como escape da solidão, o primeiro amor, a culpa, surras, bebidas alcoólicas, iniciação sexual. Os assuntos ali abordados referem-se à vida de um menino comum em plena década de 1980, onde os tabus estavam em alta e as crianças não possuíam acesso a todo tipo de informação e, muito menos, os adultos estavam dispostos a conversar com seus filhos sobre determinados assuntos. Entretanto, apesar de conter tantas denúncias, Léolo pode ser considerado um filme nostálgico sobre a imaginação, o protagonista viaja pelos seus sonhos e, assim, escapa da realidade suja do mundo. Além disso, nós, telespectadores, espiamos por uma fresta os improvisos de uma geração sem internet. Se atualmente as crianças vivem solitárias trancadas em apartamentos, só podemos concluir que naquela época, sim, havia aventuras.

Sinopse: Um pai obcecado com a saúde dos intestinos da família, um irmão cujos exercícios de musculação mal conseguem esconder seu medo das pessoas, duas irmãs que passam cada vez mais tempo em uma enfermaria psiquiátrica, e um avô, o responsável pelo fracasso genético da família. Léolo, o personagem principal, é cada vez mais afundado nessa insanidade. Mas através da liberdade e da imaginação, consegue viver uma vida dentro de si mesmo. Vencedor de vários prêmios, é uma obra-prima poética e um dos filmes mais emblemáticos da década de 90.

“Porque eu sonho, eu não sou”. Essa é frase mais marcante do protagonista e a razão disso é a busca pela identidade. Léolo (interpretado pelo ator mirim Maxime Collin numa excelente atuação) possui uma vida miserável e é através dos sonhos que consegue se vir diferente da condição doente de sua família. Um exemplo disso é a própria origem contada pelo menino, ninguém pode derivar de um tomate, mas ele sonhou com isso a fim de recusar até, certo ponto, sua origem genética. O menino culpa o avô pelo desequilíbrio psicológico da família e é aí onde nós temos uma das cenas mais sinceras, ele tenta matar o avô. Nesse ato observamos toda a descrença do menino no futuro da família possuindo um parentesco com um homem tão vil e que, ainda por cima, possui relações com a garota de quem Léolo gosta. Mesmo que isso ocorresse apenas na imaginação do garoto (informação errônea pois a médica chega a conversar com ele sobre isso), demonstraria a competição sexual existente no universo masculino quando os gostos coincidem por uma mesma mulher.

Porque eu sonho, eu não sou.

O trauma é explorado de forma magistral na trama através do irmão de Léolo, um halterofilista, o qual não consegue superar seu medo de apanhar novamente de outro rapaz, agressor do mesmo na juventude. Em conseqüência, ele não possui bom rendimento na escola e é considerado anormal pela instituição. De fato, Léolo parece ser o mais normal de todos, afinal herdara a força psicológica da mãe, entretanto isso não o torna imune à esquizofrenia e à depressão genética da mesma, logo há certos momentos onde temos certas dúvidas sobre a saúde mental do mesmo, mas jamais é esquecido o fato dele ser apenas uma criança sonhadora e normal como qualquer outra.

Naquele dia, eu entendi o medo que vive em nosso mais profundo ser. E que uma montanha de músculos ou uma centena de soldados poderiam não fazer nenhuma diferença.

A leitura tem uma homenagem profunda no enredo, Léolo começa a narrar sua vida, lida somente pelo recolhedor do lixo (nosso narrador), um verdadeiro Dom Quixote, lendo cartas e livros jogados fora pelas pessoas e influenciando o rapaz a sonhar para escapar daquele lugar. É o único a dar atenção ao que o menino está sentindo, nem os professores importavam-se, deixando os alunos na dúvida quanto às mudanças no corpo. Há uma cena bem inteligente onde Léolo afirma não saber o nome daquilo entre suas pernas. O despertar para a sexualidade do menino é gradativa, observando sua vizinha seminua pela brecha da porta até possuir revistas em mãos, lembrando bastante o livro Complexo de Portnoy, porém com traços surrealistas. Podemos encontrar diversas referências à Psicanálise, tudo sem muitos floreios ou meras mensagens, ela está no cerne de todo o roteiro e, até hoje, é utilizada como instrumento de estudo do filme.

Não é surpresa para ninguém o fato da obra atualmente ser considerada Cult, uma prova de sua genialidade é que não é fácil esquecê-la. Talvez nós, que assistimos, passaremos dias e dias recordando o cotidiano de Léolo, pois o longa é, sem dúvida nenhuma, uma volta à infância com direito ao seu lado obscuro. Numa época onde os filmes com crianças (a exemplo de O Labirinto do Fauno, Hugo Cabret e Onde Vivem Os Montros) possuem a promessa de tocar as pessoas  surge Léolo, um ótimo exemplar sobre a infância masculina, sem apelar para metáforas Hollywoodianas de vampiros, monstros ou qualquer coisa que acabe afastando a pessoa da realidade crua que é o período da infância, recheado de alegrias e tristezas, afinal é o período onde estamos conhecendo o mundo sem o atrevimento adolescente ou a falta de tempo dos adultos, uma fase onde a reflexão é quase proibida para certos assuntos e, por isso, tão curiosa. As cenas ao som de “You Can’t Always Get What You Want” são emocionantes e expressam toda a melancolia da puberdade e o descobrimento dos vícios de uma nova geração perdida num mundo sombrio, mas disposta a se jogar sem pudor no mesmo. Minha última opinião, para encerrar, é de que o filme talvez seja uma oportunidade única de uma das experiências mais marcantes do cinema, merecendo portanto ser mais divulgado.

  • Meu conselho para quem for assistir: deixem de lado abordagens cinematográficas conhecidas e sempre positivas ou ingênuas da infância. Relembrem através de Léolo o que, de fato, representa esse momento.

“Porque eu sonho, eu não sou. Porque eu sonho. Eu sonho. Porque à noite eu me entrego a meus sonhos. Antes que me reste o dia. Porque eu não amo. Porque eu tinha medo de amar, eu não sonho mais. Eu não sonho mais.”

Adaptação (Adaptation. 2002)

Por Alex Ginatto.

Sabe aquele filme que você ouve um comentário e se interessa? Não que você ache que seja muito bom, afinal, depois de anos do seu lançamento, você não se recorda de ter ouvido falar nele. Acontece que alguém comenta, você se interessa, assiste e…resolve escrever uma leitura para o site de tão bom que achou! Foi assim com “Adaptation” (Adaptação).

O filme conta a história de Charlie Kaufman ao tentar adaptar o roteiro de um livro sobre orquídeas para o cinema. Porém, algo que poderia parecer simples se torna cada vez mais complicado para Charlie, conforme o prazo de entrega de seu rascunho se aproxima.

O livro “The Orchid Thief”, da escritora Susan Orlean se torna um desafio para Kaufman por se tratar de algo comum, sem uma história, como ele mesmo define durante o filme. Um livro que descreve o roubo de orquídeas de uma reserva estadual por um homem chamado Laroche e que se torna objeto de estudo e de interesse da autora, por se tratar de uma figura ímpar. Porém, para desespero de Kaufman o livro simplesmente termina sem algo extraordinário, sem algo que possa virar filme.

Do alto de seu perfeccionismo e lutando contra seus conflitos existenciais e sua mente inquieta, Kaufman decide que o livro deve ser representado fielmente em seu filme. Hesita em apelar para alguma história paralela, ficticia, que fuja à simplicidade descrita por Susan no livro.

Kaufman é um sujeito estranho, introvertido e que mal consegue decidir o destino amoroso de sua vida, mesmo convivendo com seu par ideal durante todo o filme.

Para piorar a situação, seu irmão gêmeo Donald resolve passar uma temporada em sua casa e se tornar um escritor de roteiros para o cinema, seguindo os passos do irmão. Ao contrário de Charlie, no entanto, Donald se revela um escritor sem muita imaginação, recorrendo inúmeras vezes aos clichês utilizados em Hollywood: serial killers, perseguições de carro, múltiplas personalidades…

O convívio dos irmão passa a ser cada vez mais complicado com a diferença entre suas ideologias, ou a falta dela no caso de Donald. Além disso, fazendo cursos de aprendizado rápido e recorrendo aos seus clichês, Donald parece ter seu trabalho desenvolvido de forma muito mais rápida do que Charlie e consegue terminá-lo em dias, para desespero do irmão.

A esta altura Charlie não sabe mais por onde iniciar seu roteiro, por onde seguir, em quem centralizar o filme. Num surto de desespero, decide ir a Nova Iorque conhecer pessoalmente a escritora do livro, mas seu medo interior e sua timidez não o deixam completar a missão.

É aí que o filme muda, literalmente. Charlie parece aceitar a derrota de sua arrogância utópica em relação à praticidade do irmão e recorre à sua ajuda. O irmão se empolga com a ideia e é quem vai falar com a escritora no lugar de Charlie, aproveitando-se da igualdade dos DNAs.

A partir daí os irmãos descobrem algo mais em relação à escritora do que descrito no livro e parece fazer sentido o fato do término da história sem algo muito emocionante: parecia estar escondendo algo. Deste ponto até o final o filme se torna exatamente tudo aquilo que Charlie sempre abominou, com os clichês, os apelos, a história atraente.

Seguindo o exemplo do que foi feito em “Being John Malkovich”, citado no início do filme, o escritor mistura a realidade com o cinema de uma forma confusa, mas extraordinária! Ao sofrer durante a maior parte da história sem saber por onde começar ou quem colocar como peça central do roteiro, Charlie acaba se entregando ao que parece ser o mais óbvio: descrever sua dificuldade para adaptar o roteiro ao livro, e se coloca como o centro da história!

Completando, o filme de 2002 rendeu indicação ao Oscar das três figuras principais do filme: Nicolas Cage, como ator principal pelo papel dos escritores gêmeos; Meryl Streep como atriz coadjuvante pelo papel da autora do livro; Chris cooper, este inclusive premiado pela Academia como ator coadjuvante pelo papel de Laroche, o ladrão de orquídeas. Excelente atuação dos três, difícil escolher o melhor, o que se torna ainda mais interessante para um filme deste calibre.

Com a certeza de que quem não assistiu ao filme deve estar achando tudo muito confuso, apenas uma sugestão: assista. E assista de novo porque vale a pena entender cada detalhe, cada sinal de Kaufman sobre a genialidade de escrever e participar de um roteiro para um filme inicialmente proposto para algo completamente diferente.

Nota 08.

O Solista (2009). Quem estaria ajudando quem?

Sensacional! Um filme que fala à nossa alma! Principalmente pela atuação desses dois: Robert Downey Jr. e Jamie Foxx. E até por conta deles, eu, que estava em dúvida por onde começaria o texto, me sinto como um Mestre de Cerimônia, honrada, em apresentar-lhes. Pedindo até aqueles que tenham algum preconceito em relação a esses dois atores que dispam dessa carga. Porque eles estão magistrais. Ambos encarnaram de corpo e alma seus personagens em ‘O Solista‘. Great!

O filme é baseado numa história real. Só isso já me motiva a ver. Mas o que me levou de fato a assistir foi para ver a atuação de Jamie Foxx. E fui recompensada com duas performances sublimes. Estou até repetitiva, mas é que eu amei esse filme. E o Robert Downey Jr. também me motiva a ver. Mais! Porque vê-lo atuando me leva a pensar que está se distanciando do mundo das drogas. Good!

Robert Downey Jr. interpreta Steve Lopez. Um jornalista dono de uma coluna diária, e na primeira página do LA Times. Ai, a princípio vem o óbvio: de que ele está sempre atrás de matérias. Numa mesmo de: precisar manter o emprego. E nessa, salvar o emprego de outros mais. Pois se a tiragem diminui, os acionistas irão chiar. Mais! Virão com um: ‘cortem as cabeças!

Uma pesquisa mostra que entre os americanos menores de 35 anos, só 40% ler jornal.’

É fala do filme. Eu a trouxe para que vejam que mesmo estando sempre em busca de estórias, quem escreve vive na corda bamba. Oscilando entre escrever um importante artigo, ou um que atraia leitores. Não se pode dizer que ele, o Steve, era pressionado. Além de já ter sido casado com a Editora Chefe do jornal, Mary (Catherine Keener), ele tinha leitores fãs. Gente que gostavam das suas estórias. Dessa união com Mary, tinham um filho que pouco se falavam.

Seria isso um fato de que Steve não tinha acesso aos mais jovens? Ou a sua ferramenta – mídia impressa – estaria ultrapassada?

Eu confesso que já não leio mais jornais como antigamente. Pagando pela internet, é nela que leio as notícias. Antes dela, mantinha o hábito de ler jornais desde a infância. No filme, uma enfermeira, bem jovem, diz ao Steve que o pai dela é que é fã dele, mas que ela não lê jornal. Dai ter ressaltado essa parte. Para tirar a ideia de que Steve fez o que fez somente por conta de aumentar a vendagem do jornal. Só por salvar vários colegas de serem demitidos, já seria louvável. Mas também nem foi pelo fato de que essa nova estória, quase em capítulos, tenha agradado o seu público cativo. Pode até ter sido por uma junção disso, a princípio. O lance é que nem Steve percebeu. Além de estar nascendo uma linda amizade, Steve conheceu sua própria essência.

Há algo maior lá fora. Ele vive nele. E ele está com ele.

É tocante quando se fala de religiosidade, sem falar dela, nem muito menos de religião. Quando não se fala na fé, mas a sente no âmago. O mundo carece dessa parada. Desse solo entre você e seu self. De parar e ouvir o que essa força está nos dizendo. E buscar no seu dom uma maneira de traduzir essa mensagem; essa sensação.

Nunca amei nada como ele ama a música.’

Sua ex esposa, Mary, se ressente ao ouvir Steve dizer isso. Me colocando no lugar dela… mesmo vendo o brilho nos olhos dele ao contar a sua experiência naquele dia… fica difícil entender em não ter sido assim tão importante para a pessoa amada. Por outro lado, há momentos solitários onde a sensação de êxtase é tão intensa, que fica difícil traduzir, que dirá comparar com outras emoções sentidas. Tem aquela que lhe muito íntima e pessoal. Não dá para pesar certas emoções. Steve recebeu uma graça junto a Nathaniel…

Bem-aventurados aqueles que são brandos e pacíficos… (São Mateus)’

Jamie Foxx interpreta Nathaniel Anthony Ayers. Um músico, morador de ruas que quis o destino que Steve o encontrasse. Ele tocava uma música de Stevie Wonder, num violino de duas cordas. Numa conversa meio doida, Steve vê ali mais uma estória para a sua coluna. Numa pesquisa, descobre que ele de fato cursou uma importante escola de música, a Juilliard. Mas por problemas mentais, não chegou a concluir.

Um homem só precisa daquilo que pode carregar.’

Nathaniel deixa Nova Iorque para trás, indo morar nas ruas de Los Angeles. Deixa o frio intenso, pelos dias ensolarados. Tendo um carrinho de mercado como casa portátil. Ali, carrega tudo que lhe é essencial. Mesmo sem entender o porque, deixa um pequeno acesso para que Steve se aproxime dele. Ele faz Steve cortar um dobrado… Ambos, possuem pesos diferentes para o que lhes é essencial…

Cante para expulsar o ódio!

Steve fica meio obcecado tentando ajudá-lo. Faz do violoncelo – que uma leitora enviou para o Nathaniel -, o objeto de troca: dele ir morar num abrigo para indigentes. É quando conhecemos um lado de Los Angeles não divulgado: uma zona onde a pobreza convive com a marginalidade. É de assustar! Tão diferente de onde tem as grandes mansões. O Prefeito, na frente de personalidades, diz que irá dar um jeito na pobreza que vive nas ruas de LA. Mas a solução encontrada… Limpeza na favela com policiais. Dados do filme, falam que há 90.000 sem-tetos nas ruas de LA. Alguém vê isso nas grandes mídias? Creio que só se pesquisar bem. Isso só dá manchete, se for de outro país.

Nathaniel termina cedendo. Vai até o abrigo. E dá um lindo solo para os que vivem ali. É de arrepiar! Quem disse que pobre não gosta dos Clássicos nunca viu o Projeto Aquarius. Mas ele não gosta dali. Steve então arruma um apartamento para ele. Dando de presente, um busto de Beethoven. A paixão de Nathaniel.

Nathaniel tem algo bom. Um amigo. Se você trai a amizade, destruirá a única coisa que ele tem no mundo.’

Depois, Steve pensa em interná-lo. Achando que com medicação, Nathaniel irá controlar a sua doença. Que sairá das ruas. Que concluirá os estudos. Que subirá ao palco. Steve acredita e investe nisso. É quando têm uma briga feia. Cortando a relação. Nathaniel tem medo das vozes que ouve, mas crê que precisa delas. Ele tem esquizofrenia. Isso não é a minha praia. Dai não sei se o fato de ter seu quarto num porão escuro, quando criança, já seria um sinal. Ele é como uma criança assustada. Steve, tenta ser como um pai zeloso, mas sem ao certo saber como agir.

Não pode consertar a cidade… E nunca vai curar Nathaniel. Só ser seu amigo e aparecer.’

Que bom que na vida de Nathaniel apareceu o Steve. Que esse, tinha na ex mulher uma amiga que aparece na hora certa… E bom também que Steve teve com Nathaniel, a chance de mudar… De reavaliar seus conceitos. E por que não? De dar mais tempo para si mesmo. Se abrirmos a nossa percepção o mundo se comunica conosco. Pois ele também pulsa a cada instante. Independe de estar são, ou não… É a vida nos chamando para vivê-la. A música, é mais um jeito dela chegar a nós.

Meus aplausos calorosos a Nathaniel e Steve! Bravo!

Nem precisa dizer que a Trilha Sonora também veio a somar para deixar esse filme na memória. Desse excelente filme! Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Solista (The Soloist). 2009. Reino Unido, EUA. Direção: Joe Wright. +Cast. Gênero: Biografia, Drama. Duração: 117 minutos. Baseado no livro de Steve Lopez.

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