Bird People (2014). Pela liberdade de se dar asas…

bird-people_2014_posterbird-people_2014_01Por Karenina Rostov.
Quase todo mundo em algum momento da vida já sonhou que pode voar. Eu mesma já sonhei que tinha asas e voava sobre uma cidade, livre, tinha esse poder de lá do alto ver pessoas, casas, carros, árvores em miniaturas. Um sonho bom, delicioso que dava a sensação de liberdade e me lembro como eu não queria despertar. Era tempo das despreocupações, nada a fazer, só estudar. Voar continua sendo o sonho possível e realizável do homem, e ele aos pouco vai conseguindo além de pôr em prática, voar através de balões, aviões, asa delta, helicópteros e outros equipamentos aprimorar essa ideia fantástica, benção dos céus, não? Faz-me pensar como pode uma coisa pesada voar sobre nossas cabeças, feito mágica? Assim como o peso de um navio flutuando em alto mar. Brincadeira a parte… Não querendo dizer que não tenha gente que morre de pavor só de pensar em entrar num avião, ou nesse outro meio de transporte e temer pela vida, mas aí talvez seja por medo de morrer. Natural; medo é uma defesa. Faz parte. E isso já é outra história! Atualmente a humanidade não se vê mais sem asas esse meio de transporte que pode te deixar nas nuvens.

diretora_pascale-ferranFico feliz quando eu vejo um filme que considero a história original e instigante, e quando surge essa oportunidade, vou logo pesquisar a filmografia do roteirista e do diretor para saber um pouco mais dos seus trabalhos anteriores, e acabo me repetindo ao afirmar isso. A responsável agora é ela, Pascale Ferran, uma diretora francesa que colaborou no argumento, roteiro e direção. Aqui no Brasil foi bem recebido entre ‘Pessoas-Pássaro’. A diretora deste longa ganhou vários prêmios internacionais por um curta-metragem que ela dirigiu na década de 1990, o ‘The Kiss“. Vide link do vídeo para conhecer um pouco mais esse trabalho dela.

E para ilustrar um pouquinho mais essa história que povoa a mente do homem num determinado período da vida, imaginar que se pode voar, deixo aqui a canção “Sonho de Ícaro” de Biafra, que na minha opinião é um carinho os ouvidos.

pessoas-passarosBird People me reportou a tantas lembranças que faço questão de compartilhar aqui algumas delas, como, por exemplo, além da música já citada de Biafra, (vide link) a da realização do sonho do brasileiro Santos Dumont ao criar uma máquina que deu ao homem a oportunidade de voar; lembrei-me também de Leonardo da Vinci que, além de muitos trabalhos artísticos, como o famoso retrato de Mona Lisa, foi poeta, matemático, arquiteto e engenheiro militar, um de seus estudos mais interessantes foi a elaboração de um dirigível, instrumento que pudesse sair da Terra; e outros meios foram aperfeiçoados para se alcançar os céus, até como o próprio pássaro.

bird-people_2014_05E voltemos ao filme – porque eu já disse que viajo, né? E com algumas escalas! Talvez eu faça isso como forma de garantir a diversão e não deixar que se perca o encanto aos que ainda vão assistir à obra. Os protagonistas de Bird-PeopleAnaïs Demoustier e Josh Charles – formam uma sequência de paradoxos, recurso expressivo presente em toda a história, a começar pela escolha dos protagonistas formada pela visão de ambos os sexos na tentativa de entender ou explicar o sentido da liberdade, através do significado ‘asas’, ‘pássaro’ ‘voar’, ‘janelas para o mundo’ masculino/feminino, ou ele / ela; pobre / rico / casado / solteiro /, concreto / abstrato, voar tal qual um pássaro e voar por meio de transporte denominado avião/ e ainda, voar na imaginação e isso parece bastar. Ambos estão concentradas na narrativa ou, até mesmo, na relação obra-espectador.

bird-people_2014_02A moça (Anaïs Demoustier), uma francesa, livre, desimpedida, sem um companheiro sem filhos, leva uma vida aparentemente tranquila e simples e faz jus ao seu emprego como camareira num hotel nas proximidades de um aeroporto de Paris e a rotina daquele serviço impera, ela sabe de cor e salteado quantos quartos deve limpar e por onde começar, o diferencial nela e que está sempre viajando, na leitura que faz, nas músicas que ouve e de repente, passa a sonhar acordada: ela literalmente dá asas à sua imaginação! O moço (Josh Charles), um quarentão norte-americano engenheiro de informática, é literalmente seu oposto em tudo: um emprego maravilhoso e dos sonhos de muita gente de viver viajando, ficando mais tempo fora de seu país e distante da família por causa desse trabalho; casado há mais de uma década e filhos. E esse o paradoxo maior nessa aventura que de certa forma faz unir o casal dando-lhes asas para que cada qual busque seu caminho.

bird-people_2014_04Alguma coisa inusitada acontece com o moço nessa viagem a Paris que faz com que a história de vida dele tome novo rumo. Conversando com a esposa pela janela de seu pc, ele percebe que alguém está preso numa gaiola de pássaro? Seria ele? Ou seria a esposa? Uma conversa sui generis entre o casal acontece, e ele pede para sair e não mais voltar, que esse jogo acabe, que ela abra a janela porque ele precisa voar dali, voar de verdade.

Bird People foi classificado na categoria ‘Fantasia’. Após assistirem o espectador pode concordar que é isso mesmo ou não. Viajei mesmo nesse filme, peço desculpas!

Bird People (2014) – Ficha Técnica: na página no IMDb.

Alice Através do Espelho (2016). O Tempo Salva a Continuação…

alice-atraves-do-espelho_2016_posterPor: Beathriz.
Alice Através do Espelho” é um filme fantasia inspirado na obra de Lewis Carroll, claro. Que não foi dirigido por Tim Burton, mas por James Bobin. Como sequencia do primeiro filme de Alice no Pais das Maravilhas.

alice-atraves-do-espelho_2016_04O filme se passa anos depois do desfecho do primeiro, com Alice (Mia Wasikowska) na carreira náutica. Sendo capitã do navio de seu pai. Ela é ótima no que faz, porém em meio a desavenças com sua mãe entre o que quer fazer e o que uma mulher tem de fazer. Ela está a beira de perder o Wonder, o navio. E é ai que ela vai para o Pais das Maravilhas, porque o Chapeleiro, interpretado por Johnny Depp, está com problemas.

Então é ai que está o problema. Eu sou uma fã de Alice, gostei do primeiro filme. Mas esse filme não consegui engolir. A historia é toda cheia de remendos, você não vê uma motivação real, algo realmente especial. São pequenas coisas que juntaram para tentar fazer um enredo de um filme grande. Não deu certo. Todos os pontos no enredo foram mal utilizadas, com exceção na volta ao tempo, que fez sentido e foi bem explicada. Colocaram um pouco de empoderamento feminino, relação de família, questões de manicômio, romance e independência na história fora dos pais das maravilhas. Mas tudo isso foi muito jogado, como forma de fazer uma média para o publico.

Ah, vocês gostam de Alice doidona? Toma uma cena dela no manicômio pra ficarem felizes!

alice-atraves-do-espelho_2016_02Faltou historia! As obras de Alice tem várias referencias, é tanta loucura e pequena referencia nos livros que você tem liberdade para seguir para qualquer lugar. Então eu não fico chateada quando não seguem a risca. Mas simplesmente eu vi uma tentativa de fazer dinheiro bem bonita, não vi um filme com história.

Existem algumas referencias aos livros: o espelho, o Humpy Dumpy, o tabuleiro de xadrez, o Tempo amalçoando a hora do chá. Mas poderiam ter colocado todos os personagens originais que ainda não ia conseguir salvar o enredo pobre que foi utilizado.

Alice cresceu, gostei mais da atuação de Mia nesse filme. No anterior ela parece bem perdida em como proceder. Aqui ela está mais familiarizada, porem continua sem muito tempero. A Rainha Vermelha, interpretada pela Helena Bonham Carter, está engraçada e eu gostei dela. Gostei da relação dela com a Mirana, Anne Hathaway, apesar de achar um pouco forçado demais. Mas enquanto Iracebeth está com média, Mirana está com notas vermelhas. Sua atuação assim como do Chapeleiro está extremamente forçada. Quase que caricata.

alice-atraves-do-espelho_2016_03Então temos o Chapeleiro e sua motivação mais sem pé nem cabeça. Ele está triste porque acha que sua família ta viva, e fica tão triste que quase morre. Sério mesmo? A atuação de Johnny Depp está muito robótica, chega a ser bem ridículo. A maquiagem que colocaram na cara dele foi tanta que você perde uns bons 5 segundo tentando encontrar uma pessoa por trás de tanta base. E quando vemos sua família, surpresa, parece que adotaram o pobre Tarrant (Que descobrimos ser o nome dele) de tão diferentes. São pessoas normais e comuns, o que foi muito decepcionante.

E é ai que poderiam ter buscado inspiração nas obras originais, nos livros, o chapeleiro só é louco em referencia aos chapeleiros da época de Lewis que usavam uma substancia que os deixavam doidos. Eu queria uma família toda de chapeleiros doidos.

alice-atraves-do-espelho_2016_05O destaque maior, foi o Tempo. Que sempre foi citado, porém nunca mostrado. Todos sabemos que Tempo sempre foi tratado quase que como uma pessoa nas obras. E aqui ele ganha forma e é interpretado por Sacha Baron Cohen. Ele tem personalidade, motivação e camadas de profundidade. Tem horas no filme que você gosta mais dele do que de Alice, que você torce para ele. Ele é misterioso, e você não sabe logo de cara se é do bem ou do mal. Mas sabe que ele é muito importante para o universo das maravilhas. Quase que um Deus.

alice-atraves-do-espelho_2016_01O filme esteticamente é lindo, você fica estasiado com cada cenário e animação. Com destaque para o castelo do Tempo, que é realmente deslumbrante e a casa da Rainha Vermelha. O 3D é realmente de fazer os olhos brilharem. Eu até vi referencia do jogo que tanto amo, Alice Madness Return.

Mas como forma de desfecho de tudo isso que poderia ser bom mas não foi, o final é tão clichê que você sabia. Se pausassem o filme no cinema e perguntassem, “Então Beatriz o que você acha que acontece?” Eu narraria o fim do filme sem saber.

Então entramos na questão, filmes infantis não precisam ser retardados para atraírem sue público! Eu pensei que nesse século a gente já tinha combinado que é muito ruim subestimar a capacidade de nossas crianças. E de nós mesmos, pois todo mundo sabe que não é só criança que assiste Alice. (Inclusive, não vi uma criança na sessão que eu fui.)

criancasVivemos num mundo de Divertida Mente, ToyStory e Shrek. Eu sinto ódio quando para explicar um filme fantasia rum dizem “é para crianças”. Gente, mas isso não pode, eu sou uma eterna criança e estou aqui pra dizer que isso não é desculpa. As crianças gostam de coisinhas meio bestas sim, mas isso não segura nenhum filme. A gente precisa de história, e existem sim ótimos roteiristas prontos para dar uma historia fantástica para adultos e crianças com leveza e carga critica.

No fim eu aconselho você a assistir depois, sem gastar muito. No final de tudo senti que aconteceu um amaldiçoamento dos roteiristas para o filme. O que é um pecado, poderiam ter feito isso com qualquer filme mais superficial, que não tem o que explorar. Mas não com Alice.

Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass. 2016)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Kumiko, a Caçadora de Tesouros (2014). Realidade e Fantasia Tornando uma Coisa Só!

Kumiko-a-Cacadora-de-Tesouros_2014_posterFargo_1996Por: Eunice Bernal.
Em “Kumiko, a Caçadora de Tesouros” o argumento, a principio, é bem básico e fácil de entender, mas para que a história tome forma e faça sentido ao espectador, é recomendável antes de tudo, ter conhecimento do longa “Fargo” dos Irmãos Coen, saber qual é a ideia central, e inteirar-se dos fatos que ocorrem ali porque todo o desenrolar do conto de fadas com a protagonista japonesa tem a ver com esse clássico estadunidense com toques de humor negro. Portanto, para continuar sabendo dessa história, é bom relembrar, ao menos, o que se passa em “Fargo“. Evidentemente que se entenderia de qualquer forma a história da personagem-título “Kumiko, a Caçadora de Tesouros“, mesmo não tendo assistido ao aclamado dos Irmãos Joel e Ethan ou de ter, ao menos, lido a sinopse. É mais para que se possa situar no enredo.

Fargo_cenas-do-filmeKumiko e Fargo: duas obras interessantes de diretores de mesma nacionalidade; talvez o diretor David Zellner seja admirador dos criadores de Fargo, e como forma de homenageá-los, usou como ponte, uma cena interessante para traçar o paralelo entre as duas histórias, e nessa bela roupagem metalinguística o gancho ao tesouro é uma mala recheada de dólares, enterrado na neve em Dakota do Norte, seria o predicado para a garimpagem de um outro tesouro invisível na sétima arte: o próprio filme Fargo, ou uma cópia em VHS sendo desenterrado, eis a questão. Só mesmo alguém com um pouquinho de perspicácia para ter uma imaginação fértil e ter bolado essa cena.

Então relembrando aqui a sinopse de Fargo (1996): Em 1987 em Fargo, no Dakota do Norte, o gerente (William H. Macy) de uma revendedora de automóveis, ao se ver em uma delicada situação financeira, elabora o sequestro da própria esposa (Kristin Rudrud) e faz um acordo com dois marginais, que ganhariam um carro novo e metade dos 80 mil dólares que seriam pagos pelo seu sogro, um homem muito rico. Mas uma série de acontecimentos não previstos cria logo de início um triplo assassinato e uma chefe de polícia grávida (Frances McDormand) tenta elucidar o caso, que continua provocando mais mortes. Apesar de o filme ser declarado como “baseado em fatos reais”, a história passada em Fargo foi na verdade elaborada pelos próprios Irmãos Joel e Ethan Coen, roteiristas do filme, ou seja, uma inverdade.

Kumiko_cena-do-filme-03Quanto a sinopse de “Kumiko, a Caçadora de Tesouros” (2014): Uma solitária japonesa convence-se de que uma sacola de dinheiro enterrada em um filme de ficção é, de fato, real. Abandonando sua vida estruturada em Tóquio para ir viver na região congelada e selvagem Minnesota, ela embarca em uma busca impulsiva para procurar sua mítica fortuna perdida.

Em Kumiko também o roteirista optou em declarar em letras garrafais nos créditos iniciais tratar-se de obra baseada em acontecimentos verídicos, só que até o momento, pelas minhas pesquisas, isso não foi confirmado e nem negado. Chego à conclusão que o autor do argumento por ser apóstolo dos Coen optou por brincar com a situação repetindo a dose nesse parque de diversões.

O fato é que Kumiko, a balzaquiana, acredita piamente que o tesouro (a mala recheada de dólares) continuava lá, em Fargo, Dakota do Norte enterrada próximo àquela cerca com um objeto vermelho fincado no solo marcando o local exato (talvez ela tenha pensado que mesmo sendo um filme, aquele dinheiro era de verdade e depois das gravações esqueceram de pegar de volta; talvez ela não soubesse que uma boa parte do filme tivesse sido rodado no Canadá, por ser o frio lá mais rigoroso do que nos EUA, e na época das gravações na terra do Tio Sam era primavera.

Kumiko_cena-do-filmeKumiko existe? Pessoas como ela sim, claro, que existem aos montes por aí, que vivem no mundo de Matrix, não sabendo distinguir a linha tênue que separa a realidade da ficção.

Inverossímeis ou não, duas obras capazes de nos causar sensações de desconforto, de nos tirar do sério e nos deixar participar dessa viagem ao mundo da magia e encanto que o cinema proporciona; às vezes é primordial sair da zona de conforto, enfrentar trânsito para ver um especial como este num telão!

Kumiko não é só ingênua; dentro dessa jovem mora um pouco de maldade e de malícia. Desgostosa com o mundo real, não ligando sequer para a própria aparência, tampouco para a mãe, para trabalho e nem para os conhecidos e uma amiga que encontra na rua ou olhar uma criança deixada aos seus cuidados; destrata seu chefe, jogando suas roupas numa lixeira, cuspindo em sua bebida e roubando seu cartão de crédito para comprar sua passagem para viajar em busca de um suposto tesouro no outro lado do mundo, digno de uma criatura exótica…

Kumiko_cena-do-filme-04Considero o filme Kumiko, do diretor e roteirista David Zellner com colaboração de Nathan Zellner no roteiro – na história do cinema moderno pra lá de formidável, uma joia rara, um tesouro que a sétima arte deve guardar a sete chaves com carinho no museu do cinema e para os cinéfilos sempre que quiser poder ver e rever. Achei formidável a própria história que aconteceu no filme referência Fargo como a que aconteceu com a jovem no Japão ter entrado de cabeça nesse mundo da imaginação e mesclado a sua própria realidade, não sabendo onde começa um e termina o outro. Parece que novamente realidade e fantasia se confundem tornando uma coisa só. Já testemunhamos tanto trabalho original e criativo no mundo do Cinema e parece que de vez em quando somos surpreendidos como agora nessa história de KUMIKO de roteiro incrível.

No prólogo, a protagonista é apresentada caminhando pela praia segurando um mapa e ela parece que estava predestinada a encontrar um tesouro perdido numa gruta naquela proximidade e acaba encontrando um filme em VHS enterrado lá, e essa fita ela viu muitas vezes e que dizia ser baseado em fatos reais. Talvez ela tenha acreditado que realmente fosse fatos reais e alguém enterrou ao lado de uma cerca uma mala contendo muito dinheiro como se isso fosse um fato real e não encenação.

Sim, Fargo é um tesouro! E Kumiko – a cinéfila que com seus mapas vive por ai garimpando ótimos filmes – é mais um filme com roteiro inteligente e que certamente vai para a minha galeria dos instigantes. Curti!
Eunice Bernal

Kumiko, a Caçadora de Tesouros (Kumiko, the Treasure Hunter. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte final

california-2015_de-marina-personPor: Carlos Henry.
CALIFÓRNIA de Marina Person pode ser considerada uma comédia de adolescentes. E das boas, por conta de um afinado elenco juvenil embalado por deliciosos hits (David Bowie, New Order e muitos nacionais, todos muito bem inseridos nas cenas, especialmente o final com “The Caterpillar” do The Cure.) dos anos 80 quando a ação se desenrola. Estela (Clara Gallo) vive sua difícil passagem pela puberdade ancorada na figura de seu idolatrado tio Carlos (Caio Blat, perfeito no papel) que vive na Califórnia e exerce influência mágica na menina criada por pais caretas. Os planos de conhecerem juntos o badalado estado americano são interrompidos pela volta inesperada de Carlos ao Brasil que chega magro e debilitado por conta de uma terrível e ainda desconhecida doença que começava a se espalhar pelo mundo naquela época. O engenhoso roteiro insere o complexo personagem de Caio Horowicz no momento certo. Ele é o menino mais estranho da escola. Sua posição de bissexual avançado irá amedrontar e fascinar a menina afligida pelos hormônios da idade, mas cercada de justificados preconceitos. “Se você for gay, você vai pegar Aids!” adverte Estela ao novo pretendente, ignorante como a maioria da população diante de uma praga nova e misteriosa. Apesar do que é abordado, o tom do filme é leve, ameno e muito divertido em sua maior parte, especialmente por conta do elenco de meninas e da pequena, mas sempre preciosa participação de Gilda (Trabalhar Cansa) Nomacce como uma empregada afeita a simpatias mágicas.

E aproveitei os intervalos do Festival e as férias para apreciar o que estava no circuito.

perdido-em-marte_2015O diretor Ridley Scott continua desapontando. Seu último longa PERDIDO EM MARTE (The Martian) é uma ficção científica apática e excessivamente técnica que poderia interessar somente aos aspirantes a astronautas. O personagem de Matt Damon é considerado morto numa missão em marte e deixado abandonado no planeta inóspito. O que deveria ser uma situação tensa acaba virando plataforma para uma série de piadas nem tão engraçadas. A trilha sonora calcada em hits da Disco Music seria um (forçado) atrativo à parte, não fosse detonada o tempo todo como se fosse mau gosto apreciar aquele gênero de música. Descartável.

a-travessia_2015A TRAVESSIA (The Walk) de Robert Zemeckis assombra com imagens estonteantes em 3D na tela gigante do Imax para contar a história verdadeira do Francês Philippe Petit que decide atravessar através de um cabo de aço as célebres torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque pouco antes de serem concluídas as obras finais nos anos 70. Não aconselhável para quem sofre de vertigem. Philippe sofreu pena leve pela inesquecível façanha ilegal e acabou ganhando passe livre para o terraço de observação da torre. O passe teve sua data de validação alterada de um dia definido para duração indeterminada. Infelizmente o trágico curso da história não permitiu que o célebre equilibrista usufruísse da regalia para sempre.

love-3d_filmeLOVE 3D do cultuado diretor do chocante “IrreversívelGaspar Noe é uma grata surpresa. Execrado pelos exibidores ultraconservadores deste país de mente curta, é ao contrario do que possa parecer é um filme de muita qualidade. Narra a obsessão sexual de um homem casado pela jovem Electra, uma antiga namorada que desaparece sem deixar vestígios. A paixão doentia confundida com amor esgota o rapaz física e mentalmente vista em notáveis mudanças ao longo da narrativa. Como é que a esta altura do campeonato, em pleno século vinte e um, numa terra infestada de sujeira, miséria e corrupção, alguém por aqui pode ousar se indignar com um punhado de cenas de sexo explícito (Penetração do ponto de vista do interior da vagina e um orgasmo masculino em direção à tela são as cenas mais comentadas) totalmente inseridas no contexto de um roteiro bem elaborado? A pornografia está nos jornais que hoje em dia não têm censura.

A-Colina-EscarlateA COLINA ESCARLATE de Guillermo del Toro é a grande decepção que fecha o festival. Tantos clichês que talvez funcionassem numa paródia de Mel Brooks – Arranca risos da plateia com a suposta intenção de assustar lançando mão de fantasmas toscos, gráficos e falsos, rangidos e “sustinhos” para lá de batidos. A-velha-perversa-do-retrato-que deve-esconder-um-segredo, O-jovem-que-divide-um-terrível-mistério-com-a-irmã-estranhíssima e a-menina-idiota-que-vai-morar-na-mansão assombrada-apesar-dos-avisos-da-mãe-morta são algumas das sandices óbvias do inacreditável roteiro. Como é que a talentosa Mia (Amantes Eternos) Wasikowska foi se embrenhar nesta patuscada? E o Senhor Del Toro que já realizou obras-primas como “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo” também perdeu a mão? Assustadoramente ruim. Como dizia um crítico que tinha um programa sobre cinema na TV nos anos 70: Fujam do cinema que estiver “levando”!

[Continuação daqui.]

Cidade dos Anjos (1998). Um dos Mais Belos Romances do Cinema

cidade-dos-anjos-1998_cartazPor Cristian Oliveira Bruno.

Você já amou alguém em sua vida? Não falo de se apaixonar, pois nos apaixonamos todos os dias por coisas diferentes e, muitas vezes, essa paixão dilui-se com o passar do tempo. Falo de amar de verdade. Do fundo da alma. Sentir algo que você não sabe explicar. Um sentimento capaz de deixar sua vida e sua existência completamente desorientada, sem rumo. Falo de não pensar duas vezes antes de abandonar tudo o que você sempre desejou e buscou na sua vida e fazer os mais indizíveis sacrifícios em nome desse sentimento. Tudo isso só para poder estar com a pessoa amada, mesmo que “estar” não signifique “ficar” com esta pessoa.

cidade-dos-anjos-1998_01Se a resposta for ‘sim’, você entenderá e gostará de Cidade dos Anjos (City of Angels, 1998). Se a resposta for ‘não’, você pode até achar insólita a estória de Seth (Nicolas Cage), um anjo do reino de Deus disposto a tornar-se mortal e abandonar a eternidade para ficar com a Dr. Meggie Rice (Meg Ryan), mas você ainda irá gostar do filme.

O porquê de tanta certeza? Não sei. Mas o fato é que Cidade dos Anjos é um filme muito bom puramente como cinema. O diretor Brad Silberling (Gasparzinho; Desventuras em Série) realiza seu único trabalho maduro e sério (embora Um Astro em Minha Vida seja um bom filme também), mas o faz com grande competência e esmero, e nos entrega um romance agradável e singelo. Bonito, acima de tudo.

A trilha sonora é ótima, com destaque para a canção “Iris“, da banda Goo Goo Dolls, que embalou muitos corações apaixonados na época. O visual gótico dos anjos dá um charme especial ao filme. Nicolas Cage ainda levava sua carreira a sério e Meg Ryan não compromete em nada o filme, além de contarmos com o excelente Andre Braugher (Duets; O Nevoeiro) no elenco.

cidade-dos-anjos-1998_02O simples roteiro (esmiuçado em apenas duas linhas logo acima) apresenta os elementos básicos do gênero: dois seres apaixonados e uma barreira aparentemente intransponível entre os dois, que exigirá um sacrifício hercúleo para ficarem juntos. O ritmo dado pelo diretor ao filme é muito bom, distribuindo os atos pelos 115 minutos do filme de maneira com que este não nos canse nos momentos em que deveria prender nossa atenção. Mesmo assim, alguns furos chamam a atenção, como Sr. Messinger (Dennis Franz) deixa o hospital para dar uma volta pela cidade com Seth – afinal, como ninguém viu um homem em vestes pós-operatórias zanzando por aí – e a relativa naturalidade com que Meggie encara a situação de se apaixonar por um anjo, mas nada muito fora do contexto.

cidade-dos-anjos-1998_03Mesmo determinado, Seth se encontra em dúvida, em um dilema. Como deixar a eternidade para um inseguro salto para o desconhecido? Seth acaba descobrindo que ser humano livre é mais difícil do que viver toda a eternidade sob os dogmas de uma doutrina celestial. Como anjo, Seth poderia ver de perto toda a transformação do universo e da humanidade, mas sem nunca poder senti-la na pele, na alma. Caindo na terra, viveria apenas mais algumas décadas, mas teria algo que a imortalidade jamais poderia lhe conceder: uma vida. Uma vida feita de momentos para recordar, motivos para lamentar e um amor para viver.

A tragédia anunciada parece, num primeiro instante, tornar a jornada de Seth desastrosa. Mas, na verdade, dá todo o sentido às escolhas que fez. Seth entendeu que as maiores dádivas concedidas por Deus estão ao nosso redor. Descrevê-las, observá-las e presenciá-las não são o mesmo que senti-las. E isso é passado com muita eficiência pela direção.

Cidade dos Anjos continua sendo um dos grandes romances do cinema, mesmo 16 anos após seu lançamento, e ainda hoje é capaz de emocionar, ou pelo menos, agradar em um nível bem acima da média.

Avaliação: 08.

Cidade dos Anjos (City of Angels. 1998)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Duas Vidas (2000). O que Faria da Vida que Resta e sem Saber o Quanto?

duas-vidas_2000_capabalanca_o-ter-versus-o-serCulturalmente nos Estados Unidos a chegada dos 40 anos de idade para o homem é como um rito de passagem. O porque dessa idade, talvez porque o homem ainda estaria em pleno vigor físico o que lhe daria mais tempo de ainda aproveitar a vida de maneira satisfatória caso venha a dar uma guinada nela. Ou até tenha começado quando a expectativa de vida era bem menor do que a de hoje. De qualquer forma, também podemos juntar um outro padrão comportamental muito arraigado por lá: “winner x loser“. Dois outros filmes que também abordam toda essa temática seriam: “Beleza Americana” e “Amigos, Sempre Amigos” (1991). Sendo que o primeiro, com Kevin Spacey, mostra essa balança dos 40 anos com um peso bem maior do que o segundo com Billy Crystal que nem seria por ser uma Comédia, mas sim por colocar como peso a relação com os amigos. Mas todos mostram: o peso do ser com o ter. O diferencial estaria no fato de que em “Duas Vidas” o protagonista é levado a fazer a tal revisão já que até então ele seguia com a vida tranquilamente.

Levo a vida como eu quero…
Eu compro o que a infância sonhou

duas-vidas_2000_01Assim, às vésperas de completar 40 anos idade uma criança surge na vida do protagonista levando-o a reavaliar se valera a pena até ali! Não apenas o presente, mas principalmente revisitando seu próprio passado. Agora, aí com um olhar onde entra também o peso da experiência de vida até então. Claro que um confronto com certos fantasmas é algo dolorido, mas que depois também pode ser revigorante. Enfim, esse rito de passagem na fase adulta, acrescidos de novos valores, com novas posturas, pode vir a deixar mais leve a vida dali para frente. Até em saber se teria comprado/realizado tudo que a infância sonhara e que ou qual valor teria para o futuro.

Em “Duas Vidas” temos Bruce Willis como Russ Duritz, um consultor de imagem. Um tipo de personal style multifacetado: assessorando e cuidando da imagem pessoal de políticos, executivos, desportistas… Altamente competente, antenado o que o faz ser um profissional bem respeitado e requisitado. Onde também tal e qual a personagem de Meryl Streep em o “O Diabo Veste Prada“, para ser manter no patamar alcançado e num campo muito competitivo, a cobrança também vem de si próprio: daí até colocando em segundo plano o lado da emoção. Ou mesmo sufocando-o tanto que nem mais se dar conta disso. Russ se tornara um cara frio que não se deixava levar por sentimentalismo.

duas-vidas_2000_03Falando nesse lado da emoção que na área psico seria o lado feminino… Ao lado de Russ, duas mulheres. Uma seria o suporte técnico de base, a secretária Janet, personagem da sempre ótima Lily Tomlin. Janet é também quase uma babá, ou a mãe, desse meninão, até por fazer suas vontades, como o colocando para dormir por telefone. A outra mulher em sua vida é Amy, personagem da atriz Emily Mortimer, que seria a assessora de Russ: uma agente em campo. Amy nutre um amor por ele, mas pelo jeito ele trancara o coração e jogara a chave fora. A grande questão era que ele não sabia lidar com os próprios sentimentos.

Tudo corria bem na vida do metódico Russ até a chegada de um garotinho, personagem do ator Spencer Breslin. Como uma lufada de vento ele veio trazer mudanças na vida de Russ. Agitar, bagunçar todo aquele ambiente esterilizado até de sentimentos… Assim, enquanto ajuda o garoto a procurar a encontrar sua casa, Russ é levado a se auto analisar. Até porque não se dá um tempo para as sessões de fato com uma psiquiatra (Dana Ivey). E o menininho é show! Vida longa para a carreira de Spencer Breslin!

Enfim, mesmo com todos os clichês até por ser uma produção da Disney – logo voltado para a Família -, o filme nos leva a sorrir, a se encantar e até a se emocionar. O Diretor Jon Turteltaub além de ter ao seu dispor o sempre ótimo Bruce Willis, ele conseguiu alinhar bem todo elenco e num timing perfeito deixando a trama com uma cara de uma história original. Lembrando que em “Duas Vidas” o culto às aparências como garantia de elevar o status social é uma crítica a sociedade atual que valoriza muito mais o ter do que o ser. Onde também o agir/reagir diante às adversidades pode no mínimo mostrar como conviver com os próprios fantasmas/defeitos. Até porque essa idade, 40 anos, também pode ser vista como o início dos primeiros anos do que resta da sua vida mesmo sem saber de quanto tempo ainda falta. O que fazer/agir a partir daí?

Então é isso! E que eu gostei muito! Nota 09!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Duas Vidas (Disney’s The Kid. 2000)
Ficha Técnica: na página do IMDb.