A BRUXA (2015). Obra Prima que Assombra no Sentido mais Profundo!

a-bruxa_2015_postera-bruxa_2015_01Por: Carlos Henry.
The Witch, O filme de Rober Eggers precisa ser rotulado, então ele acaba sendo vendido como uma fita de terror. No entanto, é muito mais do que isso. O roteiro elaboradíssimo, baseado em escritos antigos transporta a plateia mais atenta a uma profunda experiência psicológica que envolve fanatismo, religião e sexualidade apresentados num conjunto irretocável de preparação de elenco, trilha sonora e direção. Som e imagens, essências do cinema, estão magníficos. A fotografia monocromática que realça o vermelho em momentos chave e o coral de vozes lúgubres e sons assustadores (Incluindo a impressionante voz pregadora de Ralph Ineson) garantem o tom pretendido. O resultado não podia ser mais perturbador.

a-bruxa_2015A história se passa no século XVII, onde uma família comum composta de pai, mãe e os filhos (Uma adolescente, um casal de gêmeos ainda crianças e um bebê) estão tentando se reestruturar numa região isolada, após terem sido expulsos de uma comunidade por conta de divergências religiosas. Na nova casinha na floresta, o primeiro acontecimento estranho acontece. O bebê desaparece. Poderia ser um lobo, mas também poderia ser uma bruxa para usar a criança em conhecidos rituais satânicos de rejuvenescimento. A partir daí, uma sucessão de tragédias começa a desarmonizar a família. A menina não se dá conta do poder sexual que exerce. Esta confusão de sentimentos, absolutamente normal, mas difícil de ser entendida especialmente na época, inicia um confuso conflito entre todos a ponto de confundirem abalos da fé com pecados mortais e sentimentos da puberdade com sinais do mal. Nisso, o aparentemente inofensivo bode preto carinhosamente batizado de Black Philip pelas crianças gêmeas assume um ar maléfico, suscitando um perigoso jogo de culpa e punição.

A dubiedade delirante é o ponto alto da obra. Dependendo da interpretação, que é amplamente permitida, o filme pode ser visto como mais um mero exercício de terror. A visão mais larga, capaz de perceber o imenso leque de nuances no roteiro vai reconhecer em “A Bruxa” uma autêntica obra prima que assombra no sentido mais profundo.

A Bruxa (The Witch. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Anúncios

O Cinema Colocando em Xeque Religiões e Seguidores – parte I

o-cinema_religioes-e-seguidores_por-tiago-silvaNuma época onde um Papa renuncia e sucessor parece estar até mais mais aberto às mudanças trazidas pelo presente… Onde cada vez mais líderes religiosos adentram na Política com a finalidade retroceder com a sociedade… Onde radicais religiosos sequestram jovens e até fazendo delas escravas sexuais… Várias reflexões deveriam ser feitas por todos nós até para ver o que há de real por trás de episódios como esses. Em que estão mais de olho nos próprios interesses e com um rebanho obediente a lhes servir… Enfim, se o tema já intriga no mundo real, se torna ainda mais fascinante pelo mundo do Cinema. Vem comigo!

guerra-de-canudos_1997_filmeIgnorância e superstição configuram a base de domínio das consciências humanas.

A venda das indulgências não segue o maior preceito de Cristo que é o perdão. As religiões se prevalecem até do sentimento de culpa para um domínio sobre seguidores. Até porque mantidos na ignorância os fiéis não terão como visualizar uma forma simples de aproximarem de Deus: num encontro com seu “eu” pelos caminhos da vida e sem a necessidade de estarem em um templo. Mas isso não levaria ninguém à engordar os cofres das igrejas… Em “Lutero“, de Eric Till, temos como pano de fundo uma luta de consciência por conta do sentimento de culpa. Mesmo assim, enfrentou com coragem as pressões políticas e da Igreja principalmente contra a salvação mediante a venda de indulgências. Em “Guerra de Canudos“, do Diretor Sérgio Rezende, se tem em plano geral Antônio Conselheiro. Alguém que contrariou muito mais a Igreja do que o Estado e por ter pisado nos calos dessa ao afastar os fiéis e seus dízimos. Com isso ela pressionou o Estado para acabar de vez com a insurreição desse líder.

stoning-soraya-1A Cultura Machista sob a Égide das Religiões

Em pleno século XV temos a história de uma personagem feminina que sofreu pela fúria dos homens. Embora não tivesse sido por apetites vorazes, eles sentiram a própria virilidade ameaçada por uma única mulher. As vitórias dela num território de machos fizeram despertar a inveja deles, e por conseguinte ter ido parar na fogueira da Inquisição. Ela é “Joana D’Arc“, em um filme do Diretor Luc Besson. Mas histórias como essa atravessa o tempo e no mundo real… Em um episódio muito mais recente temos também a cultura machista em terras islâmicas… Mostrando uma cruel realidade para as mulheres e sob a égide de uma lei estúpida que atravessa fronteiras e engloba até outras religiões: o adultério a mascarar a cultura machista… Temos em o “O Apedrejamento de Soraya M.”, do Diretor Cyrus Nowrasteh. Nele, um homem querendo casar com outra mulher muito mais jovem, arma com o conluio de um líder religioso um adultério para então esposa. O faz até para esconder que regulamente a espancava e a estuprava. Com isso ela seria condenada à morte pelo revoltante “crime de honra” e ele estaria livre até para cometer mais barbaridades com outras mulheres. Igreja e Estado abonando o machismo.

Ciência e Religião não poderiam caminharem juntas sem radicalismo?

Um filme que fica em cima desse binômio – ciência e religião -, é o filme “Contato“, do Diretor Robert Zemeckis, cujo roteiro é do astrônomo Carl Sagan. A trama do filme põe em xeque os valores éticos e morais da ciência e da religião, mas numa tentativa de encontrar um equilíbrio entre elas.

rezando-por-bobby_01O Absurdo de ainda condenarem alguém pela sexualidade

Em “Rezando por Bobby”, do Diretor Russell Mulcahy, temos uma mãe que ao seguir à risca as doutrinas da Igreja nem aceitou a homossexualidade do filho como impingiu a ele terapias e ritos religiosos com o intuito de “curá-lo”. Não suportando a pressão ele se atira de uma ponte… Depois, ela ler o diário desse seu filho passa a entender de fato todo o drama em que vivia e até por não querer ferir ninguém, querendo mesmo ser feliz. Ela ainda buscando por respostas na religião que o condenou, passa a interpretar de outra forma os textos bíblicos… E torna-se uma ativista dos direitos dos homossexuais. Já no belíssimo filme do Diretor Abbas Kiarostami, “Gosto de Cereja“, temos um homem que com o passar dos anos sente o peso da solidão por essa condenação até culturalmente, daí escondendo sua homossexualidade. Por conta disso decide se suicidar e sai à procura de quem o enterre, já que esse ato também é condenado pelas Religiões.

vida_de_brian_04O Fanatismo Atemporal dos Seguidores

Onde em vez de se aterem as suas próprias convicções… Até partem para agressões físicas numa de catequizar, exorcizar… Em “Alexandria“, de Alejandro Amenábar, a vida de uma filosofa Hipátia que foi morta por não se converter ao cristianismo. Que disse para essa catequese imposta que: “Quem acredita sem questionar, não acredita. Eu preciso questionar.“. Como pano de fundo fanatismo religioso: a busca ou pelo o conhecimento ou pela a estupidez. Já com com o clássico “A Vida de Brian“, do Diretor Terry Jones e ou mesmo com “O Primeiro Mentiroso”, dos Diretores Ricky Gervais e Matthew Robinson, temos e com humor o quanto se deveria questionar os dogmas religiosos. É! É velha retórica em apregoar a fé para não apenas manter o rebanho mansinho como também para atrair mais. Onde até se valem de falsos profetas para mantê-los sob rédeas curtas. E o pior que o ciclo se mantém pelos próprios seguidores em querer um santo, um líder religioso para idolatrar e ou expiarem as próprias culpas.

saving-godUm poder a serviço de quem ou do que?

Dentro da Igreja Católica para “para um rei morto, um rei posto“… Dois filmes que mostram os bastidores desse Conclave, como as responsabilidades, os dogmas a serem seguidos… O “As Sandálias do Pescador“, de Michael Anderson, baseado no livro de Morris West. Um Papa vindo de um país comunista… Abordando também temas pertinentes a geopolítica da época – guerra fria, bomba atômica… Um Drama com pitada de Thriller. Já o outro é o “Habemus Papam“, do diretor Nanni Moretti, uma Comédia Dramática trazendo o Papa eleito com uma dúvida crucial: “Ser ou não ser Papa?“. Agora, onde o Estado, a Família e a Sociedade ficam impotentes, é onde a Religião pode e deve atuar: numa “salvação” dos jovens aliciados pelo tráfico. Ou mesmo por estarem drogados demais para mudarem de vida. Em “Salvando Deus”, do Diretor Duane Crichton, temos essa remissão por um recém saído da prisão, pegando para si o papel de Reverendo daquele local até então desassistido…

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré / A esperança não vem do mar / Nem das antenas de TV / A arte de viver da fé / Só não se sabe fé em quê

Assim, aos que adotaram uma Religião que sigam com ela, mas sem condenar os que preferem continuar lidando com seus próprios espinhos fora das religiões. Até porque transferir os próprios problemas para as “mãos do impossível” é uma das maneiras de não encará-los de frente. Com certeza voltarei a esse tema. É por demais interessante!
See You!

Sinais (Signs. 2002). Fé de Mais! Mas no Establishment Americano…

sinais-2002_filmePara mim faltou em “Sinais” que M. Night Shyamalan, que além da Direção também assina o Roteiro, uma co-parceria com um cético, ou mesmo com um agnóstico para um distanciamento maior da religiosidade. E mais ainda das religiões de cada povo inserido na trama. Diferente do que fez em “O Sexto Sentido”, Shyamalan nesse aqui não se distanciou da Religião como Instituição, que o faria focar de fato na . “Na que move montanhas“… E apenas para constar: não tenho religião.

M-Night-Shyamalan_e_Mel-Gibson_Sinais-2002Que leu alguma sinopse antes de ver o filme ficou ciente de que “Sinais” abordaria a “Fé” e não propriamente em “ETs” como os invasores aterrorizantes. Seria o questionamento da fé vinda de alguém cuja missão maior seria de propagá-la: o ex-Pastor Graham Hess, personagem de Mel Gibson. Então foi com esse intuito que eu assisti ao filme. Mas tão logo começou o que me vinha à mente era uma sensação de que o que transparecia ali era de um “trauma pós-11 de Setembro“, e no tocante ao pensar dos norte-americanos. Com isso mudei o viés com que eu assisti todo o filme, fui por um teor político. Ficava aquele ar de superioridade, de salvado da pátria… bem típico em filmes made in usa. Os sinais disso estavam por ali. Como no bio-físico de quem dirigia o carro o qual vitimou a mulher do pastor. No caso foi o próprio Shyamalan, que nasceu na Índia quem o interpretou. Também no lance da água; ou da escassez dela em terras do invasor… Que nos remete ao Oriente Médio… Por aí. Pelo o que dizem, Shyamalan é um crítico ao pensamento republicano que vigora por lá. Talvez por aí não soube pesar bem esse tema no filme. Até por isso mais alguém no Roteiro teria encontrado o tom certo. Assim, por essas e outras, o filme perdeu o foco num tema interessante: a perda e/ou a recuperação da fé.

sinais-2002_01Todos têm o direito de acreditar no que quiser. De ficarem recitando: “Deus quis assim“; “Deus fez isso…“; “Deus fez aquilo…“. Por outro lado também têm direito os que não creditam um valor as crenças religiosas. Mais! Em seguirem em frente mesmo diante dos percalços da vida e sem tentar “responsabilizar” alguém. Nem quando o que se propôs a fazer não saiu como o esperado. Ou até quando conseguiu o tento, o fez pelo esforço próprio e não por uma graça divina. Pois do contrário todos que orassem deveriam ser atendidos em suas preces. E a Fé pode até vir como um amigo invisível, como um afago. Não por algum ritual de histeria entre os fiéis.

Num detalhe a meu, a cena no Brasil passou uma inverdade, pois deveriam é terem mostrado que somos um país ecumênico. Além do que, creio que a maioria dos brasileiros não teriam fugido, mas sim convidado o tal “ET” para a festinha no quintal. Churrasquinho, cerva geladinha e logo todos estariam em altos papos filosóficos. E sem uma catequese.

Mesmo tendo mostrado a religiosidade em várias nações e a grosso modo de como veriam os sinais advindos de outros mundo, a tal “síndrome americana” passou mesmo uma ideia de: “nós somos superiores” (USA). Gostaria mesmo era de ter absorvido algo como: “somos todos irmãos“.

Enfim eu colocaria “Sinais” como um mediano-sessão-da-tarde.

Ah sim! Para quem ainda não viu, uma sinopse do filme: “Num condado da Pensilvânia vive Graham Hess (Mel Gibson), um viúvo com seus dois filhos, Morgan (Rory Culkin) e Bo (Abigail Breslin). Também mora com eles Merrill (Joaquin Phoenix), o irmão de Graham. Ele reside em uma fazenda e era o pastor da região. Abdicou da Igreja ao questionar sua fé por conta da morte da esposa, Colleen (Patricia Kalember); atropelada por Ray Reddy (M. Night Shyamalan), morador da região. Repentinamente surgem misteriosos e gigantescos círculos em sua plantação sem que haja o menor vestígio de quem os fez ou por qual motivo teriam sido feitos.”

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Sinais (Signs. 2002). EUA. Direção e Roteiro: M. Night Shyamalan. Elenco: Mel Gibson (Graham Hess), Joaquin Phoenix (Merrill Hess), Rory Culkin (Morgan Hess), Abigail Breslin (Bo Hess), Cherry Jones (Oficial Paski), M. Night Shyamalan (Ray Reddy), Patricia Kalember (Collen Hess), Ted Sutton (SFC Cunningham), Merritt Wever (Tracey Abernathy), Lanny Flaherty (Sr. Nathan), Marion McCorry (Sra. Nathan), Michael Showalter (Lionel Prichard). Gênero: Drama, Sci-Fi, Thriller. Duração: 106 minutos.

Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant. 2013)

A-Imigrante-2013_posterPor Francisco Bandeira.
O Diretor James Gray volta a falar de família, fé e amor neste seu novo longa. Usando seu modo aparentemente “fora de moda” de contar histórias, o cineasta se mostra preocupado com os detalhes, impondo um ritmo deliberado, mantendo seu foco na polonesa Ewa Cybulski (Marion Cotillard), uma polonesa infeliz recém-chegada nos EUA, que aprende logo de cara como é difícil alcançar o tão desejado sonho americano. É um trabalho muito inteligente e maduro, onde Gray consegue extrair certo otimismo de algo tão frio e melancólico como “A Imigrante”.

a-imigrante-2013_02O cineasta construiu sua carreira em Nova York, explorando o submundo do crime contemporâneo, em filmes como “Fuga Para Odessa” (Little Odessa), seu primeiro longa-metragem. E logo se torna uma surpresa ele voltar no tempo (cerca de 90 anos) para realizar seu novo projeto. Mantendo-se contido nos paralelos de seu filme para modernos feudos políticos da América (controle de fronteiras, política de imigração), Gray sempre está mais interessado nas pessoas do que em mensagens, indo atrás de algo muito mais íntimo.

O filme conta a história de uma imigrante, Ewa Cybulski (Marion Cotillard), que tenta embarcar nos EUA juntamente com sua irmã, Magda (Angela Sarafyan), que está doente e precisa ficar em quarentena por seis meses em Ellis Island. Ao receber ajuda de Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), a mulher é levada a uma vida de burlesco, vaudeville e prostituição. Ao conhecer o deslumbrante Orlando (Jeremy Renner), Ewa ver uma nova esperança de encontrar sua irmã e ir à busca de uma vida melhor na América.

a-imigrante-2013_03Um dos pontos fortes da obra é sem dúvida o domínio da mise-en-scène de Gray, sua enorme segurança na condução de seus filmes, na composição dos planos, no posicionamento de sua câmera e a facilidade com que ele faz a transição de uma cena para outra. Os trajes e cenários, juntamente da belíssima fotografia de Darius Khondji, são extremamente ricos e marcantes, lembrando filmes como “Era Uma Vez na América” e “Sindicato de Ladrões”, qualidades que o colocam na tradição do classicismo de Hollywood.

O diretor também volta a construir um triângulo amoroso tão complexo e profundo quanto em seu trabalho anterior, “Amantes” (Two Lovers). Aqui, representado por Bruno, um homem que promete ajudar Ewa, mas logo mostra sua verdadeira faceta, impondo seu poder sobre ela, incitando-a a se prostituir como forma de ganhar dinheiro para liberar sua irmã, que está prestes a ser deportada. Desesperada, a moça sucumbe à vida mundana, o que realmente abala um pouco a sua fé. Desacreditada, a moça ver uma nova esperança com a chegada de Orlando (Jeremy Renner), um mágico repleto de carisma, alegria em viver e primo de Bruno. Encantado com Ewa, o gentil rapaz logo se comove com a situação dela e resolve ajudá-la a fugir de lá, mas seu primo não tem o menor interesse de deixar isso acontecer, o que se deve a “maldição” de ter se apaixonado por aquela bela mulher.

a-imigrante-2013_01O elenco escolhido por James Gray também é maravilhoso: Joaquin Phoenix mostra o motivo de ser considerado um dos melhores interpretes de sua geração, fazendo de seu Bruno a figura mais trágica da obra. Se uma hora pensamos que ele é um homem realmente frio, sem escrúpulos e que só quer tirar benefício de qualquer situação, logo vemos no olhar do ator e nas atitudes elaboradas pelo roteiro, que seus sentimentos por Ewa são realmente verdadeiros e nunca questionamos isso. Jeremy Renner transforma seu Orlando no símbolo de esperança daquele lugar. Desde sua primeira cena, aonde o mágico chega trazendo um pouco alegria ao local (neste caso, a fotografia com cores fortes torna-se fundamental), de seu olhar simples e otimista, sempre com um sorriso no rosto, seu personagem chega devolvendo à Ewa sua fé que estava abalada, demonstrando a moça que há uma saída e que ele pode ser a solução para seus problemas. Seus confrontos com Bruno mostram isso à mulher que cada vez mais ver a possibilidade de buscar sua irmã e ir atrás de seus sonhos. Mas o grande destaque do elenco é mesmo a bela Marion Cotillard, num desempenho simplesmente magistral.

Escapando das armadilhas e exageros do gênero, a atriz entrega uma atuação fascinante, desde o seu olhar devastado até o leque de nuances que sua personagem exige, especialmente quando o filme se transforma em um estudo de personagem extremamente complexo e tocante. A intensidade do filme vem através de um olhar mais atencioso do cineasta sobre Ewa, de sua inocência inicial até o desenvolvimento de uma figura mais dura, na mudança de seu olhar (antes espantado com aquele “novo mundo” até tornar-se frio diante de sua desilusão), quando a mesma vai aprendendo o que é necessário para sobreviver na terra de falsas oportunidades.

a-imigrante-2013_04Outro ponto alto da produção, os diálogos são perfeitos, nos fazendo entender a gama de sentimentos dos personagens: em alguns momentos estão repletos de melancolia, em outros são esperançosos ou cortantes (em determinado momento, Ewa diz a Bruno: ‘Eu amo dinheiro, mas eu não te amo… Eu não me amo!‘). O melodrama está na indignação moral de Cotillard, na sua culpa católica (a cena do confessionário é memorável, fazendo lembrar um pouco de Maria Falconetti em “A Paixão de Joana d’Arc”) e no seu próprio sacrifício por sua irmã. É nela que o peso é todo jogado: na vergonha da família (ao se tornar prostituta e ser rejeitada por seus próprios parentes) e na personificação de discórdia (sendo apontada como responsável pelas desavenças entre Bruno e Orlando).

Os trechos a seguir contém spoiler.

Após muitas discussões, brigas que resultam em tragédia, resultando em uma conveniente “união”, pela ânsia de sobreviver, em busca de algo melhor na vida. E após uma fuga da polícia, onde o personagem de Phoenix funciona quase como um anti-herói (o sujeito é espancado e tem seu dinheiro extorquido pelos homens da lei), onde culmina numa cena poderosa de seu embate, onde acaba caindo na afeição de Ewa. E, ao abrir mão da mulher que ama por querer que ela tenha uma vida melhor, Bruno mostra que encontrou a redenção justamente em sua maior maldição.

E o belíssimo plano final orquestrado por Gray serve para nos lembrar da enorme ambiguidade de sua obra: Ewa e sua irmã estão no barco, naquela paisagem fria, porém em um caminho iluminado com destino à terra de sonhos e esperanças, enquanto Bruno vai caminhando por um lugar dourado (simbolizando a chama que se acendeu em seu coração), aonde vai desaparecendo aos poucos na escuridão, pois ali vagava apenas um homem perdido em sua própria desolação.

Por Francisco Bandeira.

O Voo (2012). Anjo ou Demônio no Comando Daquele Avião?

o-voo_2012O Diretor Robert Zemeckis sem dúvida nenhuma merece o crédito maior em “O Voo“. Muitos aplausos por me deixar quase em suspense ao longo do filme. Eu digo “quase” porque não poderia ficar indiferente ao drama maior dessa história: o alcoolismo e o vício por drogas como a cocaína. Primeiro que quando se conhece pessoas que sofrem dessa doença, arrastando para esse vendaval familiares e amigos, fica difícil não oralizar algumas interjeições. Depois, por levar sem pressa esse “day after” na vida desse que apesar de todos os pesares conseguiu salvar dezenas de vidas inocentes. Também porque não deu para segurar as lágrimas no finalzinho.

Agora, a turma de elenco vem logo atrás nesse merecimento: performances excelentes. A destacar: Denzel Washington, Don Cheadle, Kelly Reilly, John Goodman e Bruce Greenwood. Tirando a personagem feminina, os demais orbitando no problema do personagem do Denzel. Sendo que, enquanto dois deles iriam tentar atenuar, ou até tentar inocentar, o terceiro era o que alimentava o problema do protagonista. Mas também estava em jogo o emprego de muita gente. Pois é! Não tinha apenas álcool e cocaína como vilões dessa história. Tinha também uma companhia com aviões que já deveriam ter virado sucata e um dono querendo se livrar desse elefante branco. Colocando mais lenha nessa fogueira.

O comandante Whip Whitaker (Denzel Washington) mesmo ciente que ainda teria um voo para fazer passa a noite bebendo e cheirando. Que para piorar usa a droga para acordar de vez. Ciente que é muito bom no que faz, faz uma loucura para tirar a aeronave do meio de uma tempestade, com isso forçando ainda mais a máquina. Num voo longo, bate a sede por uma bebida, o cansaço e o sono. Daí não pesou também a falta de experiência do co-piloto. Existem fatalidades. Assim como há também propabilidades de algo que começou errado, terminará errado. Mas existe também aqueles que funcionam bem sob forte pressão. E foi o que Whip fez tornando-se um herói, a princípio.

Mas um acidente dessa monta atrai investigações de todos os lados. Entrando em cena o responsável pelo sindicato Charlie (Bruce Greenwood), amigo de longa data de Whip. Ciente de que uma condenação para Whip atrairia uma avalanche de pedido por indenizações, contrata um grande advogado, Hugh (Don Cheadle). Esse, mesmo sendo bom no que faz sabe que terá um outro desafio: o de conseguir levar um Whip limpo perante a personagem de Melissa Leo, um osso duro de roer. Numa de “os fins justificando os meios”, Charlie e Hugh farão algo inimaginável até então.

Ainda no hospital Whip conhece Nicole (Kelly Reilly), que também por um “milagre” não perde a vida, mas em uma overdose. Nasce uma empatia entre os dois. Ele a convida para morarem juntos. A princípio, ela recebe como uma dádiva: ter onde morar. Mas para alguém que quer sair do vício, termina sendo um inferno. Ela não tem forças para nem para resistir, nem para ajudá-lo a sair dessa. Até porque Whip tem fornecedor “à domicílio”, o Harling, personagem do sempre ótimo John Goodman. Que abstraindo o que Harling representa, sua performance me levou a rir.

A pessoa mais fascinante que eu jamais conheci.”

Não sei se pode-se definir como regra geral que os que mais fazem loucuras exercem um fascínio maior aos demais. Se o carisma em parte vem pela ousadia. Mas que diante de uma tragédia onde o vício esteve como coadjuvante o que dizer, por exempplo, pelo “tapinha” que aspirou para deixá-lo ligadão? Claro que assustou vendo-o fazer isso e ciente do que estaria para acontecer. Mas se é algo não raro fora da ficção, fica a pergunta do porque fazem isso. Duas pessoas podem vivenciar as mesmas pressões, mas uma não procura amparo no vício.

Outro ponto alto de “O Voo” é que embora a história mostre que muitos acreditarão que fora um milagre, ou até que mesmo por linhas tortas foi obra de Deus colocar aquele competente piloto salvando a vida de muitas pessoas, Zemeckis mantém-se imparcial ao mostrar os fatos. Com isso crédulos e céticos terão as respostas que queriam. Como por exemplo o co-piloto e a comissária de bordo que ajudaram Whip a pousar aquele avião e evitando uma tragédia muito maior. Onde ambos terão que passar por mais um desafio: no que dirão em seus depoimentos. Se irão contra seus próprios princípios, morais, éticos, ou se apoiarão na fé, e com isso vendo-o como um enviado de Deus naquele momento? Mas para os que não veem Whip como um Anjo da Guarda, verão que nele talento para pilotar fazia dele o número um.

E quanto a Whip? A quão tanto mais ele iria descer na tentativa de salvar a carreira? Qual seria a provação que o levaria a sair da vida do vício? Até porque precisaria de fato de um milagre para voltar a pilotar um avião comercial. De herói a vilão estava bem próximo. Mas ele mesmo que foi o vilão do seu talento. É muito triste quando o vício arruina a vida de uma pessoa. Whip tinha um preço à pagar! Um preço alto.

Para finalizar, além do Roteiro, Fotografia, a Trilha Sonora também fazem de “O Voo” um filme de querer rever! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen. 2011)

No meio desse caminho não tinha somente pedras…

Há uma certa magia em “Salmon Fishing in the Yemen” por nos levar como numa das histórias das 1001 Noites. Mas de uma que ultrapassou fronteiras pois foi buscar parte dela em Londres; numa globolização bem atual. Começa por alguém que acreditou num sonho impossível. Ou “fundamentalmente inviável” como rebateu um outro personagem, mas que depois embarcou nessa jornada. Com isso, o filme tem como pano de fundo a visão de dois homens: de um grande sonhador com outro bem pé-no-chão. Ambos, inconscientemente, ajudarão o outro a saber lidar com o que o outro é em si próprios. A conciliarem o pensamento com o sentimento. A racionalizar uma paixão. Mas de uma paixão por peixes, e no caso, por salmão.

Com isso, o título dado no Brasil – “Amor Impossível” -, pode afastar muitos por acharem que se trata de um Romance como tema principal; levando-os a perderem um ótimo filme. E eu diria que esse é o único pecado: o de venderem o filme como uma Comédia Romântica. Título e até cartaz do filme apontam para isso. O Romance em si é um componente, já que a personagem feminina, Harriet (Emily Blunt), tem um papel mais importante na vida dos dois personagens masculinos. Já falo deles. Pois ainda quero ressaltar que o filme foca muito mais no Drama que os dois homens passarão, mas contado com um humor bem refinado; um humor inglês.

Além de Harriet, há uma outra personagem feminina que mostra o quanto ela é camaleônica. Que além de papéis dramáticos, faz humor elegantemente. A sempre ótima Kristin Scott Thomas. Se a personagem Harriet foi a isca, a da Kristin foi o anzol. A que uniu de vez os dois pescadores, por ter como pressionar um deles. Uma sim encontra-se em tentar definir o lado pessoal, e amoroso. Já a outra, no momento, pende mais para a carreira profissional do que a familiar. Há ainda uma terceira personagem feminina, vivida pela atriz Rachael Stirling, que acha que detém o controle em seu relacionamento, se dedicando mais a carreira. As três terão suas vidas alteradas por esses dois cavalheiros.

E quem seria esses dois personagens tão cativantes?

Um deles é muito racional, e terá que aprender a lidar com a porção emotiva; o tímido desabrochando. Já o outro muito extrovertido, que se deixa levar pelo sentimento. E é um desejo seu que será a mola de toda a trama. Por querer realizar a qualquer custo, e sem a análise fria e calculada do outro, mas que pelos percalços, terá que aprender a racionalizar sua vontade. Dinheiro não lhe falta. Dando muito trabalho ao outro em mostrar que seu sonho será possível. Cada um deles terá que tentar equilibrar em si mesmo: razão e emoção.

Clichê ou não, e até fora da ficção, passam a ideia que o introvertido padece mais que o extrovertido para vivenciar uma emoção. Numa liberdade total cujos grilhões fora ele mesmo que criou. Talvez  por conta disso pendeu para o personagem de Ewan McGregor ser o protagonista dessa história. Daí apresentarem o filme como romance. Mas ora bolas! Amar não se fecha em por uma pessoa. Alguém muito fechado, muito voltado para as coisas práticas, onde espera que tudo tenha uma finalidade, pode, por exemplo, não entender em alguém ficar horas em silêncio para pescar um peixe e depois devolvê-lo ao seu habitat. Menos ainda, em ver nisso uma conversa com o Altíssimo. O que nos leva a outra ponta. De que se passa a ideia de que o extrovertido não vivencia o drama em dar coerência naquilo que faz. Que leva tudo na brincadeira. Cabendo a Amr Waked fazer o Sheikh Muhammed. Um idealista, que ao levar esse pequeno prazer para a sua terra natal, o faz também por uma religiosidade. Pois vê como um momento de meditação quando está pescando salmão.

Além disso o filme traz o jogo político onde as fichas parecem estar todas marcadas. Quem faz essa ponte é Patricia Maxwell (Kristin Scott-Thomas), assessora do Primeiro Ministro inglês. Pois vê nesse desejo do Sheik um jeito de amenizar a imagem da Inglaterra com os países do Oriente Médio, além da imagem desse político em solo britânico. Se de um lado há o dinheiro pagando alto por um sonho, de outro há o interesse político por um poder semelhante. Só que nesse filme fica mais na comicidade. Querendo ver um lado mais dramático desse profissional – assessor de imprensa de político -, deixo a sugestão do “Tudo Pelo Poder“.

Então é isso! Um filme de se acompanhar com brilhos nos olhos. Não apenas para os amantes de pescaria, mas principalmente para os que possuem um forte lado aventureiro. Cenários deslumbrantes. Trilha Sonora que nos embala no desenrolar dessa história. Aplaudindo também o Diretor Lasse Hallström que pela junção de tudo e todos fez um filme que vale muito a pena ver e rever.

Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen. 2011). Reino Unido. Direção: Lasse Hallström. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Classificação etária: 12 anos. Baseado no livro homônimo de Paul Torday.