Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.

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Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte I

festival-do-rio-2013_os-documentarios– OS DOCUMENTÁRIOS:

BLACKFISH – FÚRIA ANIMAL (BLACKFISH.) é um documentário esclarecedor e reflexivo de Gabriela Cowpertwaite contando a chocante estória das baleias orcas criadas no famoso parque temático Seaworld em Orlando. A velada crueldade do cativeiro explode em terríveis ataques a seres humanos culminando na noticiada morte de uma treinadora do show.

INVADINDO BERGMAN (Trespassing Bergman) de Jane Magusson e Hyne Pallas. Para os fãs do cultuado e atormentado diretor Ingmar Bergman, somente. Trata-se de uma visita de cineastas famosos a sua protegida residência na inóspita Ilha Faró no mar Báltico. Recheado de cenas de seus filmes e depoimentos curiosos, infelizmente o documentário pouco revela de seus mistérios e segredos.

EU SOU DIVINE (I am Divine) de Jeffrey Schwarz desvenda a estrela preferida de John Waters como nunca vista antes. O gordinho Harris Glenn Mistead de Baltimore sempre se sentiu diferente, mas nunca poderia imaginar alcançar uma carreira meteórica transformada numa drag abusada e muito famosa. O documentário é perfeito simplesmente porque não é superficial. Supre a curiosidade dos fãs revelando detalhes muito além da conhecida, escatológica e antológica cena das fezes caninas de “Pink Flamingos”. Divine fazia shows, cantava e começou a ser reconhecida por trabalhos mais sérios como “Hairspray” quando teve sua breve vida interrompida. Talento genuíno.

CORREDOR DA MORTE – 2 Retratos (On Death Row – 2 Portraits) conta com a direção e a voz gutural do renomado cineasta Werner (Nosferatu) Herzog para apropriadamente contar estórias macabras de dois condenados à morte nos Estados Unidos. Os dois casos impressionam e muito. O primeiro episódio fala sobre Blaine Milan acusado de matar a marteladas a filha de 13 meses num suposto ritual de exorcismo. A ignorância dos entrevistados revela o grau de estupidez que culminou na tragédia. Uma das mulheres afirma que tudo que viu no filme “O Exorcista” aconteceu de verdade. Já Robert Fratta, um fisiculturista atinge o ápice do narcisismo quando decide matar a esposa revelando uma frieza assustadora. Seu discurso baseia-se em dogmas nazistas e teorias de racismo incontestável segundo sua concepção doentia. Apesar de sua arrogância, é possível notar o medo infinito que o envolve com a proximidade da execução. Absolutamente aterrador.

A BATALHA DE AMFAR (The Battle of Amfar) é um documentário conciso, mas esclarecedor e muito bem realizado sobre os últimos avanços nas pesquisas para vencer o vírus HIV.  A fundação AMFAR foi criada em 1985 no auge da epidemia, tendo à frente a cientista Dra. Mathilde Krim e o ícone do cinema Elizabeth Taylor que muito contribuiu para a luta contra a doença. Após a morte da estrela, outros artistas abraçaram a causa como Goldie Hawn que deu o ar de sua graça no Espaço Rio em Botafogo. Muito apressada, Goldie mal respondeu a uma pergunta no pequeno debate, não falou com os fãs nem com os repórteres e ficou um bom tempo no banheiro. Será que teve um mal súbito?

FOGO NAS VEIAS (Fire in the Blood) também trata do tema da Aids concentrando-se na má distribuição dos milagrosos remédios ao redor do mundo. Dylan Mohan Gray preferiu um tom didático ao seu documentário o que o tornou um pouco modorrento, embora importante.

OS FILHOS DE HITLER (Hitler’s Children) de Chanoc Ze’evi mostra como vivem os descendentes dos poderosos nazistas ligados à figura do líder. A convivência com a sociedade é difícil por conta do estigma que carregam com seus nomes. Uma cena emocionante é quando um deles submete-se às perguntas de filhos de suas vítimas em plena Auschwitz, o célebre campo de concentração onde morreram muitos judeus na guerra. Sentimentos de perdão e condenação se misturam ao evento.

CIDADE DE DEUS – 10 ANOS DEPOIS de Cavi Borges mostra o destino dos participantes do premiado filme de Fernando Meirelles desenhando um autêntico panorama do país cheio de desigualdades e mazelas. A conclusão é que, apesar do filme ter sido reconhecido mundialmente, poucos dos que debutaram na fama conseguiram manter o ritmo do sucesso meteórico da época do lançamento do filme como Seu Jorge, Alice Braga e Thiago Martins. A maioria sucumbe ao triste esquecimento na sombra de uma obra premiadíssima que rende muito dinheiro até hoje.cidade-de-deus-10-anos-depois