Uma Noite em 67 (2010). E por que não?

O Canal Curta irá passar esse Documentário, “Uma Noite em 67”, hoje às 22 horas. Para quem ainda não assistiu, no qual me incluo, fica a dica!

Cinema é a minha praia!


Por: Roberto Vonnegut.
Há quarenta e tantos anos boa parte da população brasileira deixou de lado a dureza de viver na ditadura e se encantou pela estória de um rapaz que, oprimido por uma namorada que só pensava em casar, saiu pelas ruas pensando na vida e acabou descobrindo a alegria na liberdade. Transmitida ao vivo pela televisão, a estória foi contada por um narrador que com seu sorriso sedutor arrancou aplausos de uma plateia que no início não parecia disposta a um assunto tão frívolo para aquela época de passeatas e discussões politizadas.

Esta cena é um dos pontos altos do documentário Uma Noite em 67 que chegou aos cinemas: Caetano Veloso trouxe um conjunto argentino (Beat Boys) com guitarras elétricas a um festival de música popular brasileira- quase um sacrilégio na época. Tinha tudo para dar errado. Mas ao contar do rapaz com uma namorada monotônica (“se…

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Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios – 2012

Olá, pessoal. A crítica de hoje é a respeito de um lançamento nacional bem recebido pela crítica do país nesse ano: Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios. Ganhador de vários festivais, o filme é inspirado no livro título de Marçal Aquino e dirigido por Beto Brant com Renato Ciasca, narra a história de Cauby, um fotógrafo bem sucedido residente no interior do Pará. Ele se apaixona por Lavínia, uma mulher sensual e imprevisível, esposa de um pastor local. Em meio à luta de garimpeiros contra uma Mineradora, o casal vive um momento de entrega completa, cada um explorando o ser do outro na descrição para as telas de experiências sensoriais. Entretanto, após ler a obra e assistir ao longa-metragem, o que aparentava ser uma profunda reflexão sobre as sensações de um romance, transforma-se numa das obras mais superestimadas, com direito a idealização deveras machista da mulher, resoluções ridículas de dificuldades encontradas pelas personagens, aparente preconceito contra pessoas interioranas e apelo intelectual.

Camila Pitanta no auge de seu talento

O foco da trama está em Lavínia, idealizada por Cauby, o qual passa boa parte de seus encontros fotografando-a. A promessa do roteiro é fazer-nos apreciá-la aos olhos do protagonista, mas isso não ocorre. Camila Pitanga foi escolhida para dar vida a ela. Na melhor atuação de sua carreira e nos deixando de queixos caídos pelo nível de entrega à ficção, a atriz tem um desempenho maravilhoso, todavia não estamos prestando atenção à Lavínia e, sim, à sua intérprete, detalhe dotado de uma enorme diferença. O problema está na imbecil oscilação comportamental da personagem. Já citei isso nesse site antes, alguns autores utilizam uma espécie de estratégia a fim de tornar sua dama literária totalmente distinta de qualquer outra mulher real, isso ocorre através de atos imprevisíveis com alternâncias repentinas de humor, ações estranhas compensadas pela grande beleza da amada ou bondade revelada. Com Lavínia, a apelação vai além e parte para sua trajetória de vida, criando um passado turbulento e extremamente exagerado causador de pena para despertar uma fagulha de interesse no telespectador.

Cauby em sua idealização forçada

Com nossa visão crítica “esfumaçada” pela narração obsessiva de Cauby em convencer-nos dos motivos que o levam a estar apaixonado, só na adaptação cinematográfica despertamos para os principais elementos com falhas, pois acompanhamos o romance de longe. A amada de Cauby sofre de uma inconstância incômoda, desde seu nascimento já está no fundo do poço e seu amante só nos serve de exemplo para isso por ela estar abandonando sua única chance de recuperação, o pastor. Há momentos de pura histeria, onde Lavínia aparenta ser doente mental, mas para Cauby está tudo muito bem. Em várias partes do longa, o casal faz uso de drogas como se a intenção fosse nos provar o quanto sentiam-se livres. No livro, é revelado um pedófilo assassinado por um morador local, o qual descobriu envolvimento do filho com o aliciador. Todos da cidade comemoram a saída do pai (que matou o pedófilo) da cadeia, apenas Cauby está triste, como se Marçal Aquino nos quisesse provar o quanto seu protagonista possui humildade diante dos outros. Sem falar na parte onde o amante flagra Lavínia lavando sua louça sem avisar, ao questioná-la ela afirma “Eu gosto”.

Optando por um estilo mais alternativo, o longa-metragem é cansativamente lento, acompanhando a febre mundial do estilo “feito para festival”, cujo resultado nem sempre é satisfatório e cria a ilusão de possível inteligência quando, na verdade, é apenas mais uma trama simplória com recursos óbvios de apelação. No elenco só podemos destacar a estonteante e incrivelmente talentosa Camila Pitanga (a atriz merece aplausos em pé) e ZéCarlos Machado como o pastor Ernani, a atuação de Gustavo Machado como Cauby é decepcionante.  Sem fazer bom proveito do contexto histórico, o clímax não consegue construir uma ponte coerente entre os problemas do casal central e a crise do garimpo, provocando um desfecho péssimo onde a vilania e ameaça ao romance foram se apoiar covardemente sobre os ombros das pessoas retratadas no interior. Honestamente, se esse tipo de história constituir a nova fase do Cinema Nacional, então não haverá avanço.

Nos bastidores, Camila Pitanga lê a obra de Marçal Aquino. Ela merece mais do que isso.

Uma Noite em 67 (2010). E por que não?


Por: Roberto Vonnegut.
Há quarenta e tantos anos boa parte da população brasileira deixou de lado a dureza de viver na ditadura e se encantou pela estória de um rapaz que, oprimido por uma namorada que só pensava em casar, saiu pelas ruas pensando na vida e acabou descobrindo a alegria na liberdade. Transmitida ao vivo pela televisão, a estória foi contada por um narrador que com seu sorriso sedutor arrancou aplausos de uma plateia que no início não parecia disposta a um assunto tão frívolo para aquela época de passeatas e discussões politizadas.

Esta cena é um dos pontos altos do documentário Uma Noite em 67 que chegou aos cinemas: Caetano Veloso trouxe um conjunto argentino (Beat Boys) com guitarras elétricas a um festival de música popular brasileira- quase um sacrilégio na época. Tinha tudo para dar errado. Mas ao contar do rapaz com uma namorada monotônica (“se eu tomo uma Coca-Cola ela pensa em casamento”) que descobre a beleza ao sair andando pelas ruas sem “nada no bolso ou nas mãos” e decide seguir vivendo com o “peito cheio de amores vãos”, Caetano surpreendeu e cativou a plateia que lotava o teatro – e a nós que assistíamos pela televisão – fazendo com que todos se juntassem a ele perguntando: “por que não?” [*]

Uma noite em 67 retrata um momento único na história: numa época ainda não monopolizada pelas emburrecedoras telenovelas, a televisão dedicava um espaço nobre à música. E naquele ano um grupo de intérpretes mal saídos dos vinte anos e ainda sendo descobertos pelo povo se viu reunido em um festival que havia se tornado um dos maiores eventos daqueles dias. Afinal, passados 43 anos, os nomes soam familiares: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Rita Lee (na época meramente uma integrante dos Mutantes), o quarteto MPB4, Edu Lobo, Elis Regina e o ainda Jovem Guarda Roberto Carlos.

Não espere nada de inovador no formato de Uma noite em 67: o filme é uma sequência de depoimentos dos sessentões que fizeram aquele evento e cenas do festival. O ponto positivo é que a maior parte dos depoimentos (de jurados, intérpretes e especialmente do produtor) é interessante, com boas revelações – algumas surpreendentes, como o que aconteceu com Gilberto Gil nos minutos que antecederam sua apresentação final, e um motivo pelo qual Chico Buarque teria ficado fora da Tropicália.

As músicas que se destacaram no festival são mostradas sem muitos cortes, e isso é uma das virtudes do filme: os depoimentos te deixam curioso para ouvir a música depois que você fica sabendo de alguns detalhes. E a vencedora Ponteio, de Edu Lobo, tem até direito (merecido) a um bis que não é repetitivo.

Tudo isso é ótimo, mas se eu tiver que escolher um motivo para recomendar o filme fico com outra coisa: as cenas que mostram as entrevistas feitas nos bastidores do Teatro Paramount. Você poderá ver os entrevistados sessentões ainda jovens, poderá se deliciar com as perguntas dos repórteres Reali Jr. (que chama Caetano de Veloso) e Cidinha Campos (com pelo menos um momento constrangedor). Mas o melhor é ver a absoluta confusão da cena: enquanto rola uma entrevista, captada por uma câmera que parece estar alguns andares acima, uma multidão de cantores e músicos que esperam sua vez de ir ao palco e de fotógrafos e repórteres atrás de notícia se mistura a uma multidão de pessoas que se movimentam sem que se possa ter a menor ideia do que fazem ali.

Estou me segurando para não escrever mais sobre o filme sob risco de entregar alguma cena importante e estragar a surpresa. O que não me impede de escrever um pouco sobre o que eu acho deste festival.

O festival de 67, como diz seu nome, foi um festival de música – e teve realmente ótimas músicas com arranjos inovadores. [**] Para mim, no entanto, o que chamou a atenção foi que os cinco primeiros colocados tinham letras fantásticas. A poesia de Ponteio, o livre fluxo de pensamento de Alegria, Alegria, a metáfora complexa mas facilmente decifrada de Roda Viva e, coincidentemente, duas letras que começam eufóricas e mergulham no fundo do poço: a esperança que se transforma em dor em Maria Carnaval e Cinzas, a camaradagem que se banha em sangue em Domingo no Parque.

Quanto ao resultado do festival, descobri surpreso que o jurado Sergio Cabral [***], apesar de ter votado em Ponteio, pensou melhor e acabou preferindo a música que por mim deveria ter vencido o festival.

O site do filme, por sinal, é muito bem feito.

[*] Alegria, Alegria traz o que provavelmente é a mais rica e poética descrição de bancas de jornais jamais escrita. É nelas que “o sol … me enche de alegria e preguiça”, que “o sol de reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas” e em “Cardinales bonitas”. Evidentemente que a letra de Caetano não é assim tão literal – pra início de conversa O Sol era o nome de um jornal não alinhado. E a namorada, afinal, pode ser outra coisa: naqueles tempos em que se cobrava uma postura política com a mesma insistência de uma solteirona desesperada, a letra pode também mostrar que o jovem não quer marchar (ao contrário, ele caminha, e contra o vento) nem abraçar ideologias (decide ficar “sem livros e sem fusil”).

Alegria, Alegria é figurinha fácil no YouTube. Escolhi este clip por ter imagens de Caetano no Festival e – principalmente – por mostrar O Sol.

[**] destaque para o arranjo orquestral de Domingo no Parque e os arranjos vocais de Ponteio e Roda Viva.

[***] trata-se do SC e não do filho dele.