Garimpando pelo Blog uma Homenagem ao Dia do Pais!

São Filmes que mostram um Pai, biológico ou não, presente ou ausente até de fato inexistente, onde por vezes é um outro parente – um avó, um tio, um irmão mais velho -, ou mesmo um professor, enfim a figura paterna que de certa forma teve um papel ou não na vida de uma criança. E o Cinema nos traz alguns desses relacionamentos. Histórias que nos emocionam, nos alegram, ou até nos deixam tristes por algumas maldades… Lembrando ainda que não é uma via de mão única nesse relacionamento, mais pai e filho até tentando se entenderem.

Um Feliz Dia dos Pais a Todos!

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Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

coracoes-perdidos_2010Por Norma Emiliano.

A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe”. Allá Bozarth-Campbell

A morte de um filho, principalmente jovem, bem como a da mãe quando se é criança, provoca sentimentos ambivalentes, nos quais a culpa, a raiva, o desalento constroem muros, isolando as pessoas até de si mesmo.

O filme Corações Perdidos cruza as vidas de um casal (Lois e Doug), que perdera sua filha adolescente, e de uma jovem órfã (Allison) que perdera a mãe desde os cinco anos.

O silêncio impera entre o casal que não fala da morte e de nada que os incomode; na casa, o quarto da filha mantém-se intacto sinalizando a negação da morte. Alisson vaga solitária pela vida sem amor a si própria, trabalhando como strip, sujeitando-se à prostituição.

Na trama, Lois, após a morte da filha, fica deprimida, não consegue sair de casa e sua relação com Doug é distante e conturbada. Ele vive uma relação extraconjugal, e a morte abrupta da amante o deixa sem direção. Porém, quando viaja à negócios, seu encontro com Allison lhe desperta os cuidados paternos e ele abandona a esposa.

Lois tenta superar seu pânico e vai ao encontro do marido e acaba também se envolvendo com as questões de Alison. No desenrolar do roteiro, Allison fará com que o casal lembre-se do real motivo que os uniu e sua relação com eles transforma suas vidas.

O luto é inevitável; superar a dor da perda é um processo cujo tempo é subjetivo, pois cada pessoa tem um “tempo emocional”. No filme os personagens encontram-se aprisionados à negação, “dormência emocional”. O cruzamento das histórias (casal e jovem prostituta) dispara o movimento para cura através da quebra do silêncio, da recuperação da autoestima e da mudança de hábitos.

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

coracoes-perdidos_2010

A vida é uma história contada por loucos, cheia de som e de fúria, que nada significa.” (Macbeth – Cena V, Ato V)

Logo no início do filme me veio uma fala já ouvida tantas vezes: “Ruim com ele, pior sem ele!“. É! Ela é dita por uma escolha de tantas mulheres casadas. Por talvez terem medo da solidão, terminam fechando os olhos às puladas de cerca do marido. Mas também por ainda amá-lo como antes. Sem saber o que fazer ao certo, termina por afastá-lo de vez. Mais ainda há um outro fator que em muita das vezes acaba roubando toda a sua atenção: os filhos. Um filho é para somar a uma relação. Mas se a balança está pendendo toda para ele, mais a frente virá uma cobrança.

Em “Corações Perdidos” me deixei pensar no porque de um homem estando casado, e ainda amando sua esposa, teria uma amante cativa. Uma relação sem cobranças. Mantida há 4 anos. Onde tendo um único dia da semana para se encontrarem e transarem. Algo também estagnado. Sem paixão. Sem tesão pela vida por estarem vivos.

Assim conhecemos um pouco do casal Rileys: Doug Riley (James Gandolfini) e Lois (Melissa Leo). Que após a perda da única filha pareciam não ter mais um sentido na vida. Ambos, sentiam-se culpados. Lois por ter se intrometido demais na vida da filha. Doug pelo contrário, por ter ficado ausente demais.

Se uma morte os fez ficarem assim apenas sobrevivendo, uma outra leva Doug a acordar. Mas ainda sem saber que novo rumo vai dar a sua vida, aproveita uma viagem de trabalho para pelo menos ficar longe da esposa. Vai a uma Convenção Anual em Nova Orleans. E ali, em meio a rostos conhecidos, vendo todos fazendo tudo igual, Doug foge também dali.

Nessa fuga, até de si mesmo, Doug conhece uma jovem stripper. Ela é Mallory (Kristen Stewart). Alguém a quem o destino também lhe tirou algo caro: sua mãe. Levando-a a enfrentar às ruas bem cedo. Onde para sobreviver, coloca uma couraça em seu coração. Ainda não sabendo ao certo o que estava fazendo, Doug resolve cuidar de Mallory. Tentar dar a ela uma outra expectativa de vida. Mas Mallory não estava acostumada a gentilezas. Nem muito menos em ter um homem querendo apenas ser um pai. Que não queira transar com ela.

Doug então comunica a mulher que vai ficar em Nova Orleans. Vendo que estaria perdendo de vez o marido, Lois tenta vencer o pânico de sair de casa, e viaja até lá dirigindo um carro. Ela também estará acordando para a vida nesse longo trajeto. E será o contraponto na relação entre Doug e Mallory.

Entre fazer uma longa análise com esses três corações perdidos, o que levaria a spoilers, eu preferi traçar apenas um breve perfil e de como o destino levou suas vidas se cruzarem, e ter algum sentido. E com isso motivá-los a assistirem. Pois o filme é ótimo! Com atuações brilhantes!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010). Reino Unido / EUA. Direção: Jake Scott. Gênero: Drama. Duração: 110 Minutos.

De repente, Califórnia (Shelter. 2007)

de-repente-california_filmeAntes… esse aviso: ‘Homófobos, caiam fora!‘ É, assim: curto e grosso. Melhor irem ver outro filme. Eu nem vou perder meu tempo numa tentativa de deixarem de ser estúpidos. E por que? O filme é um dos mais lindos, mais sensíveis, mais realistas que eu vi, abordando a homossexualidade. Se alguém ainda estiver disposto a reavaliar seus preconceitos, a esses sim, eu também indicaria.

Eu até cogitei em escrever sem focar nesse tema. Porque teria como. Mas ai vi que seria uma grande bobagem. Creio que quanto mais o assunto vir a mesa de debate, mais ele será visto como tem que ser: uma relação como outra qualquer. Além disso, ‘De Repente, Califórnia‘ traz uma outra questão: a de um casal homo ‘adotar’ um filho. Mesmo não sendo juridicamente, que mal há nisso? E novamente o preconceito existe nas pessoas. Há muitos casais heteros que nem estão ai para o bem estar da criança. Chegando até jogarem ela fora… ou, atirando-a pela janela… Eu vi como um grande avanço no Judiciário do Brasil quando ‘deixou’ que o filho da Cássia Eller ficasse com a companheira dela. Se alguém quer ser mãe, ou pai, de fato e de direito, não precisa ter que ser, ou ter uma relação hétero para isso. Tem que querer e poder assumir tal compromisso.

de-repente-california_01Zach (Trevor Wright) é um rapaz muito ligado a família. Órfão de mãe, tem um pai que embora presente na casa, é ausente como pai. Junto com eles dois, mora a irmã, Jeanne (Tina Holmes), e Cody (Jackson Wurth). Jeanne quando não está trabalhando no mercado, está namorando, bebendo, transando… Usa e abusa do irmão como babá do filho. Cody só não se tornou uma criança com problemas, porque Zach lhe dá muito carinho. Cody o considera como um pai. É linda a cena quando ele afirma que tem Zach como o seu Dad. Tem no Tio a figura paterna na essência. E Zach o é. Um pai que nunca teve, mas que por isso sabe que Cody precisa dele. Ainda mais com a mãe que tem, que nunca tem tempo para o menino.

Zach tem, além do sobrinho, mais duas paixões: desenhar e surfar. O surfe, basta rodar alguns poucos quilômetros e desfrutar desse prazer. Quanto ao desenho, o sonho maior é se especializar, mas o curso o faria ter que ir viver mais longe. Quem o prende ali, é o seu amor por Cody. Em dar a ele a sensação de que tem um lar. Mas com as demais pessoas naquela casa, o ‘Lar‘ só existe no coração de Zach e Cody. A casa é só um mero abrigo contra as intempéries climáticas.

de-repente-california_02Em Zach, irá aflorar uma outra paixão, que até então estava meia indefinida em sua mente. E ela vem à superfície quando rever Shaun (Brad Rowe), o irmão mais velho do seu amigo de infância Gabe (Ross Thomas). Nessa descoberta de si mesmo, até por saber dos preconceitos alheios… Há cenas que emocionam! Em momentos por compartilhar com a tristeza dele. Noutras, por sentir a alegria com ele. Houve momentos do filme, que me fez lembrar do Curta Brasileiro, ‘Café com Leite‘; nesse, eu também fiquei emocionada. Shaun voltou por querer refletir…

Em ‘De Repente, Califórnia‘ há uma outra questão: as amizades. Sem conotação sexual. Gabe, quando descobre, mostra o quanto gosta dele num caloroso abraço. Isso faz toda a diferença! Amigo é amigo. Não importando se as preferências sexuais dele não for a mesma que a sua. Com Gabe ainda há um outro lance. Que fica numa linha tênue se há maldade no que diz, ou se o faz como um papagaio repetidor. Ai sim não haveria preconceito. Pode até doer um pouco naquele que para ele foi direcionado o termo. Mas se souber abstrair, pode até levar o outro a não dizer mais. Ou nem se abalar mais com isso. Bastando pensar que o problema está na mente do outro. Não vi maldade quando, por exemplo, Gabe pergunta a Shaun se só tem comida de bicha. Shaun gosta de cozinhar. Contrário de Gabe que é adepto dos fast foods.

Zach terá que se definir, mas como uma pessoa que define por si mesmo, as suas prioridades. Tomar enfim uma decisão: ou fica na vidinha de sempre, ou vai ser feliz. Com Shaun, mais que um mero abrigo, terá um futuro promissor. Com casa, comida, muito amor, estudo, carreira, e um verdadeiro lar, até para Cody. Isso se Jeanne concordar. Alguém que é um poço de egoísmo. Tão diferente de Tori (Katie Walder), a namorada de Zach. Tão igual ao troglodita do mais recente namorado.

A trilha sonora foi muito bem escolhida! Ela nos enleva nas emoções sentidas em ‘De Repente, Califórnia‘. Tem classificação maior que Excelente? Tendo, é o que eu daria a esse filme. Que entrou para a minha lista de que vale muito a pena rever. Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

De repente, Califórnia (Shelter). 2007. EUA. Direção e Roteiro: Jonah Markowitz. Gênero: Drama, Romance, Esporte. Duração: 97 minutos.

Linha de Passe. 2008

Por: Giovanni COBRA.
linha-de-passe-01Existe uma ou mais maneiras de ascensão social para o pobre além do casamento, a herança ou o esporte? A figura masculina paterna é tão vital que na sua ausência os limites estão abertos? A mulher trabalhadora não tem o direito de ter sua vida particular, íntima, suas necessidades e vontades? Filmar fatos reais não intervém com a visão cor de rosa da sociedade?

São Paulo – periferia é o cenário. Antenas, asfalto, mãos. Umas gritam pelo time e outras por Deus. Futebol e religião se discutem.

linha-de-passe1Walter Salles nos apresenta Cleuza, uma dona de casa exemplar, mãe de quatro filhos, trabalhadeira e grávida do quinto. Não tem companheiro algum. Fuma, toma cervejinha, torce pelo Timão e ama os filhos. Ela é absolutamente normal. Igual a milhares no ponto de ônibus pela manhã bem cedo.

O primeiro filho é craque, mas não consegue passar nas “peneiras”, falta um toque. Seja dinheiro ou sorte; ou ambos. O segundo é frentista e religioso. Um devoto fiel. Mas bate punheta como todo mundo e dá porrada se necessário for. O terceiro é motoboy. Já é pai. Irá ele perpetuar o abandono que sofreu? Utilizando da mãe do seu filho apenas para coitos rápidos e perigosos como sua moto? O quarto é um menino. É negro, os outros não. É o mais esperto, bem articulado, mas sente o falta do pai como uma lacuna idêntica ao compressor dos ônibus que tanto ama. Tem um buraco no coração.

O filme é uma colcha de retalhos bem alinhavada. Cada momento é de um filho. E a câmera aproveita para mostrar a cara desses atores. Suada, cheia de espinhas, cabeludos, desarrumados, despenteados, dentes falhos. Além do vestuário gasto, lembre bem da chuteira (tanto como ele amarra, como quando ele ganha uma e ainda pergunta se a mãe do riquinho não vai ligar…).

A marginalidade é um pequeno passo para todos os quatro. Ela circunda-os.

Talvez o motoboy seja o mais exposto. E ele sucumbe. Cenas de moto espetaculares e o tombo idem. Quem já caiu, sabe. Os fatos vão se superpondo de maneira mais rápida, e até iminência do parto. Tenho a vívida impressão de que não iria acabar bem. Mas o diretor é muito hábil. Deixa tudo em aberto, as possibilidade, a segunda chance.

E o final é como o grito da torcida. Antes de tudo, um desabafo.

O que há de bom: utilizar o futebol como uma das âncoras da narrativa, mas sem ser demasiadamente forçado.
O que há de ruim: ninguém estuda, ninguém vê o conhecimento como possibilidade de crescimento.
O que prestar atenção: o ralo desentope, o menino tem sua oportunidade, o pastor recolhe a ovelha perdida, o neném vai nascer, há uma esperança…
A cena do filme: ela sentada, espremendo, sozinha… quantas já não se sentiram assim?

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Por:  Giovanni Cobretti – COBRA.   Blog do C.O.B.R.A.

Linha de Passe. 2008. Brasil. Direção: Walter Salles, Daniela Thomas. Elenco: João Baldasserini, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Kaique de Jesus Santos, Sandra Corveloni, Ana Carolina Dias. Gênero: Drama. Duração: 108 minutos.

O Cheiro do Ralo

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Essa é a história de um homem só e sem história.

Estaria aqui um ponto de partida para esse filme. Que como num quebra-cabeça vai nos mostrando alguém que em meio há tantos trechos de histórias alheias, busca uma para si próprio. Uma que lhe mostre o seu passado, pois houve um, fora dali, algum dia.

O personagem de Selton Mello não é um mecenas, nem tão pouco alguém que realiza sonhos das pessoas. Figura num patamar acima de um sucateiro, por não comprar objetos danificados, nem tampouco de ir à caça deles. Por já estar estabelecido, por ter um local, por ter o seu galpão onde compra objetos usados.

São as pessoas que o procuram, numa de mendigar pelo seu dinheiro. Por muitos se sentirem humilhados… E ele se vê uma fortaleza… Mas que fede…

Numa das peças desse quebra-cabeça traçando o perfil desse homem…

O local me chamou a atenção – uma área industrial. De fachadas quase estéreis. Não há placas indicativas. Mas todos sabem o caminho de lá. Apesar da claridade exterior… ao penetrarem naquele portão… sentem o peso da alma… mas precisam do dinheiro… e lhes restam quase nada para uma troca.

Uma outra, é o seu fascínio por dois objetos em especial.

Dois objetos que o levam a inspirar uma história para o seu pai. Ou seria uma para si mesmo, lhe dando um consolo. Mas por que aqueles dois objetos? E para onde teria ido o seu pai? Por que não ficou olhando o filho? Lhe fazendo sentir-se amado… estimado… A figura paterna lhe consome…

O cheiro que vem do ralo… que ao mesmo tempo que o faz mostrar àquelas pessoas que se há algo sujo ali não parte dele, mas do ralo. Vai criando nele um escudo para aquilo que exerce. Se veria como a flor de lótus?

Sua relação com mulheres lhe é angustiante… Querendo-as apenas como um depositário de seu gozo? A faxineira é a única que tem um acesso a ele.

Um filme que nos leva a montar esse quebra-cabeça peça por peça. Sem pressa.

O personagem é instigante. Selton Mello dá um show! Os outros também estão incríveis; com cenas que ficarão na memória.

E que, como o personagem principal tem dificuldade em guardar nomes… em meio a tantas histórias anônimas… enfim, ele terá a sua história

Eu gostei! Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Cheiro do Ralo. Brasil. 2007. Direção e Roteiro: Heitor Dhala. Com: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Flávio Bauraqui, Sílvia Lourenço, Susana Alves. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 100 minutos. Classificação: 14 anos.