O Erro e os Muitos Acertos num Oscar 2015 bem Politizado!

oscar-2015_politizadoOscar-2015_Jack-Black_Neil-Patrick-Harris_Anna-KendrickEu até que deveria começar com os pontos positivos, mas sendo um evento com um anfitrião no comando, partirei dele. É que eu não gostei da performance de Neil Patrick Harris no geral. Ele até canta bonitinho, mas aí quando entrou o Jack Black no show musical, esse roubou o espetáculo. Harris não tem o carisma de Hugh Jackman, por exemplo, que deu um verdadeiro show quando foi ele o apresentador do Oscar. Eu não sei porque a Academia não retorna com o Jackman. Enfim, saindo da área musical, Harris ao tentar fazer piadas acabou que as deixou sem graça, para não dizer quando nem seria algo cômico. Mesmo que não tivesse sido escrito por ele, faltou-lhe bom senso em vetar certos comentários. Ou, por ser ele realmente sem graça. Um dos episódios onde o que poderia ter sido uma crítica pelos atores do filme “Selma” que não foram indicados, não ficou de bom tom: “Hoje celebramos os mais brancos, ops, os mais brilhantes“, mas se redimiu no decorrer do programa ao dizer: “Agora vocês gostam dele…” pelos aplausos a premiação de Melhor Canção para esse mesmo filme. Mas foi deselegante ao criticar o vestido de uma das premiadas. É! No geral, no mínimo faltou-lhe bom senso. E que para mim não seria mais convocado.

Como citei número musical… Além desse no início homenageando filmes premiados – Neil Patrick Harris, Anna Kendrick e Jack Black -, além dos com as concorrentes ao Oscar de Melhor Canção, outros dois se destacaram. Um pelos 50 Anos do filme “A Noviça Rebelde“. Muito bom que Lady Gaga não tenha mudado os arranjos! Uau! Ela conseguiu atingir a nota em “The hills are alive” como a de Julie Andrews no filme. Um outro foi com a Jennifer Hudson cantando “I can’t let go“, após uma apresentação com atores e pessoas ligadas ao mundo do cinema que faleceram em 2014. Muito bom!

oscar-2015_meryl-streep-vibra_discurso-da-patricia-arquetteA 87ª cerimônia da Academy Awards foi marcada com discursos em protestos a causas dos direitos civis, aos direitos humanos, a causas feministas… Outro ponto alto do Oscar 2015. Bem melhor do que recusar o prêmio, estaria em ao recebê-lo aproveitar que é ao vivo e de alcance mundial, e protestar. Se houver retaliação da Academia será num depois.

Por conta do vazamento de emails entre executivos da Sony dizendo que atrizes ganhavam menos que atores num mesmo filme mesmo elas sendo mais famosas que seus colegas… Levou a premiada da noite – Melhor Atriz Coadjuvante – Patricia Arquette então clamar “Essa é a hora de ter salários e direitos igualitários para todas as mulheres dos Estados Unidos”, sendo ovacionada pelo público, em destaque pelas câmeras do programa: Meryl Streep e Jennifer Lopez. No geral, as mulheres premiadas aproveitaram também para a importância dos personagens femininos. Abraçando também a causa por equiparação em todos os setores num mundo dominado por machos. Destaque ainda pela reclamação de que no Tapete Vermelho só perguntam às atrizes pelos modelitos e para os atores é sobre o trabalho deles. Boa!

oscar-2015_documentario-citizenfourUm outro discurso que merece destaque veio do premiado Documentário, CitizenFour. Por conta de retratar a trajetória de Edward Snowden, eles saudaram a atitude e coragem desse, concluindo: “Sem liberdade não há democracia“. Outro foi com os autores da Canção premiada “Glory“, do filme “Selma“: “É dever de um artista refletir os tempos em que vivemos. Nós escrevemos essa canção para um filme baseado em eventos de 50 anos atrás, mas nós afirmamos que ‘Selma’ ainda existe porque a luta por justiça ainda continua. Vivemos no país mais encarcerados no mundo. Há mais homens negros sob controle correcional hoje do que estavam sob a escravidão , em 1850“. Esse filme além de não ter nenhum de seus atores indicados, também deixou de fora a Diretora Ava DuVernay. Pelo jeito parte significativa dos “eleitores” da Academia devem ser os mesmos que deixaram o Congresso dos Estados Unidos mais “elitizado”. E mesmo tendo votado em um “mexicano” creio que para eles o que contou no filme foi por mostrar carreiras artísticas. Sendo que para mim, Alejandro Iñárritu mereceu os de Melhor Direção e Melhor Filme por ter revolucionado com “Birdman“.

Falando em Iñárritu, houve uma certa troca meio pesada entre Sean Penn e ele. É que Penn ao anunciar “Birdman” como o vencedor, falou: “Quem deu o green card para esse cara?“, indo logo em seguida ao encontro do outro para abraçá-lo, e que foi retribuído. Iñárritu então já no microfone entra na brincadeira dizendo: “Talvez no próximo ano o Governo imponha alguma regra de imigração à Academia… Dois mexicanos em anos seguidos… Suponho que possa parecer suspeito.” (É que Alfonso Cuarón ganhou o de Direção em 2014.). Em entrevista após a premiação Iñárritu falou que há liberdade para isso na amizade entre eles. De qualquer forma, Iñárritu deixou claro num pequeno discurso de que os Estados Unidos é uma nação de imigrantes. Boa!

Um outro destaque vai para o discurso de Graham Moore, premiado em Roteiro Adaptado por o “O Jogo da Imitação” e que vale trazê-lo na íntegra: “Quando eu tinha 16 anos, eu tentei me matar porque eu me sentia esquisito, diferente. É como se eu não me encaixasse. E agora eu estou aqui. Eu queria que esse momento fosse dedicado à criança que está lá fora e que se sente estranha, e diferente, e que sente que não se encaixa em lugar nenhum. Sim, você se encaixa. Continue esquisita e continue diferente. Então, quando for a sua vez e você estiver em pé neste palco, por favor, passe a mesma mensagem“. Bravo!

J.K Simmons, premiado com o de Ator Coadjuvante também fez um discurso emocionante, algo que muitos também gostariam desse tipo de lembrança: “Ligue para sua mãe, ligue para seu pai. Se você tiver a sorte de ter um deles ou os dois vivos neste planeta, fale com eles. Não mande mensagem. Não envie e-mail. Fale com eles por telefone. Diga a eles que você os ama, agradeça”. O mundo está carecendo disso! Bravo!

Oscar-2015_O-Grande-Hotel-Budapeste_premios-tecnicosAnd the Oscar goes to… “Birdman” levou 4: Melhor Filme, Melhor Diretor (Alejandro Gonzáles Iñárritu), Melhor Roteiro Original (Alejandro G. Iñárritu…), Melhor Fotografia. Pode até acharem que Michael Keaton merecia ganhar até pela idade… Mas Eddie Redmayne, por “A Teoria de Tudo” mereceu o de Melhor Ator. Não tenho muito o que falar para o de Ator Coadjuvante para J.K. Simmons por “Whiplash” é que eu ainda não vi o filme, mas pelos comentários de antes: era vitória certa. Assim como também o era para o de Melhor Atriz para Julianne Moore por “Para sempre Alice” – ela levou o filme nas costas. Também era esperada a vitória em Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette por “Boyhood“, outro que eu ainda não vi. Um filme cativante que até poderia ganhar nas categorias principais caso não existisse “Birdman” no páreo é “O Grande Hotel Budapeste” que eu amei e fico satisfeita que pelo menos saiu com um bom número das estatuetas douradas: Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Design de Produção, Melhor Trilha Sonora. E que até colocaria o ator Tony Revolori que fez o Zero como indicado ao de coadjuvante por ele ter um que de Chaplin. E para constar, os demais premiados… “Whiplash” além do de Ator Coadjuvante levou também o de Melhor Edição/Montagem, Melhor Mixagem de Som. “O jogo da imitação” o e Melhor Roteiro Adaptado. “Interestelar” o de Melhores Efeitos Visuais. “Selma” o de Melhor Canção, “Glory”. “Sniper americano” o de Melhor Edição de Som. “Operação Big Hero” o de Melhor Animação. “Ida” de Melhor Filme em Língua Estrangeira. “CitizenFour” o de Melhor Documentário. “The phone call” o de Melhor Curta-Metragem. “Feast” o de Melhor Animação em Curta-metragem. “Crisis Hotline: Veterans Press 1” de Melhor Documentário em Curta-metragem.

Então é isso! O erro foi escalarem Neil Patrick Harris. Mas por todos os posicionamentos e pela maioria em causas sérias o saldo foi muito positivo. Até porque nas edições anteriores quando havia algum discurso era quase de uma única pessoa. E quem tiver curiosidade em saber o perfil dos “eleitores” da Academia, segue o link.

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Cinema – Um Olhar na Psique Coletiva

A comoção por combates corpo a corpo é semelhante à que havia por duelos romanos há 2000 anos.

Cinema ou instituição para tratar a psique coletiva. Por: Charles Alberto Resende.

teatro-e-publicoJung (1989, §48) chamou o teatro de “instituição para o tratamento público de complexos”. Ele explicou que o prazer que se sente com a comédia, com uma história dramática com final feliz ou com uma tragédia se deve à identificação de complexos pessoais com os da peça. Com relação à tragédia, tem-se a sensação terrível e benéfica de se presenciar a ocorrência com o outro daquilo que nos ameaça. Essa identificação também ocorre com outras produções como o cinema e a novela. Essa identificação pode chegar a tal ponto que fortes complexos podem ser trabalhados em psicoterapia, por meio de filmes especialmente indicados para tal. E já se criou até um nome para uma espécie de terapia que usa enfaticamente as produções cinematográficas: a “cinematerapia”.

Um filme pode aludir a possíveis soluções de problemas psíquicos e pode também questionar preconceitos, pontos de vista e convicções fortemente arraigadas. Os filmes podem falar poeticamente à alma e ao inconsciente, sem que o cliente tenha noção inteiramente consciente do que está sendo tratado, abreviando a terapia, sobretudo devido à amplificação de temas já tratados ou ainda por se discutir nas sessões. Uma novela ou filme que toca um complexo pode ter um efeito particularmente intenso no espectador, de forma a produzir emoções nomeadas popularmente de “positivas” ou “negativas”, cujas ocorrências associadas podem ser analisadas em terapia.

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“Star Wars” foi escrito com base em conceitos como o “inconsciente coletivo”.

Ora, os filmes que afetam positiva ou negativamente uma pessoa, de forma mais ou menos intensa, como já exposto, o fazem porque representam aspectos que possuem fortes conexões com seus complexos, ensejando sua identificação com personagens e situações. Se um certo filme impressiona muitas pessoas, isso se deve ao fato de ele refletir os complexos dessas pessoas, desde pequenos grupos, até nações inteiras. Assim, complexos coletivos, pertencentes a vários países, podem ser ativados por determinados filmes, mobilizando as massas, como ocorreu com produções como “Guerra nas estrelas”, “O senhor dos anéis”, “Avatar”, “Titanic”, etc. A análise dos filmes de maior bilheteria, que devem seu sucesso principalmente ao seu roteiro e à elaboração dos personagens, pode fornecer um diagnóstico mais ou menos preciso dos complexos mais mobilizados no inconsciente coletivo à época de seu lançamento. A energia psíquica está atrelada a esses complexos, e esse diagnóstico pode explicitar facilmente o caminho que ela está tomando e, pelo menos teoricamente, pode tornar claro para qual meta está se desenvolvendo, assim como os obstáculos desse destino.

O homem possui hoje em dia meios para prever coletivamente seu comportamento, assim como recursos para tratamento em massa das pessoas. Esses expedientes podem ser usados com maestria para um verdadeiro salto evolutivo de consciência, o que vem sucedendo sofregamente, ao contrário do que ocorre com o desenvolvimento tecnológico. Infelizmente, percebe-se, por meio de diversas leituras, que a humanidade se encontra em um estágio evolutivo de consciência, no sentido de uma integração maior à totalidade psíquica, semelhante à que havia há mais ou menos 2000 anos. Apenas um “verniz tecnológico” parece encobrir o estágio precário do inconsciente coletivo, fornecendo a aparência altamente civilizada que parece iludir a todos.

Infelizmente o homem parece estar se desfazendo cada vez mais da linguagem simbólica, que poderia aproximá-lo o suficiente dos instintos vitais para que retornasse aos rumos de um verdadeiro crescimento psicológico saudável. A maioria dos filmes parece indicar esses caminhos: basta atentar a eles.

Referências
JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1989. v. V.

HITCHCOCK (2012)

hitchcock_2012_cartazO filme “Hitchcook” de Sacha Gervasi tem acertadamente pouco do livro homônimo de Stepehen Rebello que deu origem a esta obra. Enquanto Stephen esmiúça detalhes técnicos e curiosos dos bastidores do filme “Psicose”, Sacha trabalha em cima de um roteiro deliciosamente cinematográfico sobre o mesmo tema.

Por exemplo, as cifras e contabilidades de uma produção tumultuada são substituídas por insinuações de traição de Alma, esposa do diretor e por perseguições delirantes do assassino em série Ed Gein, que inspirou Robert Bloch a escrever a novela de terror que arrebatou Hitch. Também dá ênfase à figura de Alma, transformando-a num personagem feminino fortíssimo, defendido com brilhantismo por Helen Mirren. As figuras de Leigh e Perkins, estrelas de “Psycho” estão perfeitas com as caracterizações de Scarlett Johansson e James D’Arcy respectivamente, dentro do visual agradável do final dos anos 50. A cena antológica do assassinato no chuveiro tem pouco destaque, o que não chega a frustrar, num filme rico em diálogos inteligentes e bons momentos para os fãs do diretor e de “Psicose”.

Se por conta de uma notória dessemelhança ou uma maquiagem ineficaz, o ator Anthony Hopkins não conseguiu a aparência ideal para o papel título, tudo é compensado com uma atuação impressionante e habilidosa onde ele atinge o tom debochado, divertido, inseguro e por vezes cruel do mestre do suspense, que não poderia mesmo ter sido uma pessoa ordinária.

Por Carlos Henry.

Erros e Acertos na Entrega do Oscar 2013.

oscar-2013Com toda a certeza eu não daria um para o anfitrião da 85ª edição do Oscar, o Seth MacFarlane. Chegou a me dar sono num momento, que me fez ir até a cozinha e pegar um café. Se a Academia quis nesse evento homenagear os grandes Musicais, sem dúvida poderiam ter escolhido Hugh Jackman, pois esse canta, dança e encanta! Ainda no campo das homenagens, lembrar os 50 anos de James Bond 007 nas telas, foi merecida. Mas eu tenho que concordar com Rubens Edwald Filho (Acompanhei a cerimônia pelo canal TNT.), que faltou estar ali ao vivo os atores que deram vida a esse personagem. Outro ponto desfavorável aos organizadores dessa grande celebração do Cinema.

De cá, eu aplaudi de fato o Oscar para Quentin Tarantino, por Melhor Roteiro Original. Pelo menos esse teriam que dar a ele. Até porque o pelo Filme, já era carta marcada. Já falo sobre isso. Ainda  com “Django Livre“, é um primor de Filme, onde a escolha do ator Jamie Foxx deixou um pouco a desejar. É que em algumas cenas eu cheguei a pensar se algum novato teria totalizado o personagem, ou até um outro já conhecido, onde nessa hora me vinha à mente Ice Clube. Já a performance de Christoph Waltz foi visceral, o que o levou ao merecidíssimo Oscar de Ator Coadjuvante. Para Quentin Tarantino eu o faria dividir um de Direção com Ben Affleck.

Falando em Ben Affleck… não houve demérito em “Argo” levar o de Melhor Filme. Mesmo parecendo uma premiação de cartas marcadas, como a elevar a moral da tropa, ou mesmo da população estadunidense. O filme é de fato muito bom! Ben Affleck fez um excelente trabalho na direção. Mesmo se conhecendo o final da história, nossa atenção e tensão foi mantida até o final. E se alguém creditar o mérito nos atores, eu citaria um exemplo, e de um filme de um dos produtores de “Argo”, George Clooney, onde esse ele quem dirigiu. Foi em “Tudo Pelo Poder“. George Clooney teve tudo nas mãos para realizar um grande filme, mas faltou a ele o que esbanjou em Ben Affleck: talento na Direção.

Ainda não vi “As Aventuras de Pi“, e mesmo também ainda não tendo visto “Lincoln“, quem levaria o de direção seria Steven Spielberg. Quando eu assistir o primeiro verei se de fato foi merecido o Oscar de Melhor Diretor para Ang Lee. E como a Academia já estava ciente que Spielberg não levaria, poderiam dar a ele um prêmio que faltou esse ano, o pelo conjunto da obra. Que não seria nem uma premiação de consolação, pois se o tema do evento eram Temas Musicais muitos da Filmografia de Spielberg permanecem até hoje na nossa memória cinéfila. Como: “Tubarão”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “E.T. – O Extraterrestre”, “Indiana Jones””… Bem, se é lenda urbana ou não, vendo Spielberg posicionado bem atrás, nas poltronas, já se visualizava que ele não levaria mesmo esse Oscar.

Spielberg leva então o mérito de ter insistido para que Daniel Day Lewis aceitasse fazer o personagem título do filme “Lincoln“. Com sua performance ele conquista também o Oscar de Melhor Ator. Ainda não vi nenhum dos filmes indicados para essa categoria, mas se Daniel Day Lewis já conquistara outras premiações com esse papel, parece justo então completar a sua coleção com esse Oscar.

Merecido o Filme de Michael Haneke, “Amor“, ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Mesmo só tendo visto esse, o filme além de enfocar a velhice deixa no ar um tema que volta e meia aparece nas manchetes jornalísticas. Trata-se de um spoiler: a eutanásia. Haneke tem esse poder de ser imparcial ao mostrar uma realidade, deixando para nós a reflexão ou até um julgamento do fato.

Tirando Seth MacFarlane, a noite da premiação penderia para o lado masculino, não pela falta de surpresa nas escolhas, mas mais pela satisfação na confirmação do prêmio. Pois uma coisa é sonhar, outra é enfim ver o sonho realizado.

Então, o que dizer da presença feminina no Oscar 2013?

Claro que havendo prêmios distintos para Ator e Atriz as mulheres marcam presenças não apenas pelos modelitos. O Tapete Vermelho da Academia vira um Desfile de Grifes famosas do mundo da Moda. Não sei como se dá a escolha entre Atrizes e Estilistas, mas por conta de alguns vestidos bem que poderiam dar uma aula de como se caminhar com ele. Um exemplo foi quando numa entrevista ver que ao fundo aparecia uma delas andando com o vestido vermelho todo levantado aparecendo até as coxas. Sem contar, é claro, com o tombo da atriz Jennifer Lawrence subindo as escadas do palco. Uma “gata borralheira” dos tempos modernos. Com panos demais, noutros de menos, os Estilistas também deveriam conhecer todo o percurso que as atrizes terão que fazer.

De qualquer forma, além das atrizes que fizeram parte dos shows musicais – em destaque a coreografia da Charlize Theron que deu um show dançando -, a bela voz de Adele cantando “Skyfall” foi o maior destaque no Oscar 2013 pelo lado feminino. Levando o Oscar de Melhor Canção Original para o filme “007 – Operação Skyfall“.

Destaque maior teria sido se em vez de Jennifer Lawrence levar o de Melhor Atriz, tivessem premiado Emanuelle Riva. Não que eu esteja desmerecendo a atuação da outra, até porque eu ainda não vi o filme “O Lado Bom da Vida“, mas a performance da Emanuelle foi um primor. Talvez porque muito pouco dos que votam viram “Amor”. Um outro fator surpresa nessa premiação teria sido o prêmio ir para Quvenzhané Wallis. Mas assim como já era esperado a premiação ir para Jennifer Lawrence, também o era para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway.

Sendo então a premiação para jovens atrizes, já que a encantadora menina Quvenzhané Wallis de “Indomável Sonhadora” não levou, temos uma outra destemida levando o prêmio de Melhor Animação para “Valente“, a jovem Merida. Sendo que essa ganhou vida pela computação gráfica. E um Oscar merecido!

A surpresa mesmo ficou para o final, em quem Jack Nicholson chamou pelo telão. Com isso encerrando as participações femininas nessa 85ª edição do Oscar quem disse o “…and the Oscar go to…” final, no caso para o de Melhor Filme, foi a Primeira Dama: Michelle Obama. Mais indicativo que seria “Argo“, só mesmo se fosse anunciado pelo próprio presidente. Em seu pequeno discurso, Michelle disse:

Bem-vindos à Casa Branca. Sinto-me honrada em apresentar o Melhor Filme deste ano. …filmes que elevaram nossos espíritos, ampliaram nossas mentes. …quero parabenizar todos os indicados pelo seu tremendo trabalho. …os filmes levam as pessoas a voltarem no tempo e viajar ao redor do mundo. lições para os jovens. Todos os dias, por meio de seu envolvimento com as artes, nossas crianças aprendem a abrir a imaginação e a sonhar mais alto”.

Em resumo, o filme que mais prêmios levou foi “As Aventuras de Pi”: Melhor Direção, Melhor Direção de Fotografia, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Trilha Sonora. “Argo” levou 3 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem. E “Lincoln“ que liderava em número de indicações, levou: Melhor Design de Produção e Melhor Ator. Um link com a listagem com todos os indicados e premiados com o Oscar 2013. [em construção ainda; depois serão todos linkados aqui.]

Então é isso! Entre erros e acertos, eu digo que valeu ter visto o Oscar 2013!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Desvendando A Vida de Pi: Breve Análise Sobre O Lado Sombrio da História

Richard Parker contra Pi: Um Conflito Interno

Olá pessoal, após alguns meses sem postar, estou de volta. Dessa vez falarei sobre o best-seller A Vida de Pi (The Life of Pi) do autor canadense Yann Martel, livro que estava passando quase despercebido pelo Brasil antes da adaptação cinematográfica feita pelo diretor Ang Lee. A campanha de divulgação do filme promete algo aparentemente infantil com o cartaz de um rapaz acompanhado de um tigre digital, entretanto essa é uma história bastante adulta e deve ser vista como tal. Minha proposta é analisar a obra procurando decifrar os reais significados dessa trajetória que buscou apoio na Psicanálise e saiu vitoriosa como uma das melhores metáforas sobre o confronto do ser humano contra seus impulsos de crueldade. Afinal, o livro explora a motivação do homem perante a solidão ao demonstrar de forma impressionante a importância da religião para alguns, não somente como aspecto cultural (afinal são abordadas várias religiões), mas como um meio de autocontrole.

Contronto para domar o tigre

Jamais se tratou de apenas domar o tigre

O confronto do rapaz com o Tigre se dá de uma forma extremamente simbólica. Na verdade, o tigre representa a parte cruel do ser humano, com quem Pi terá que lutar até o fim se quiser manter-se vivo. Essa salvação pode ser compreendida metaforicamente, literalmente e religiosamente. Como ele está num bote apenas com o tigre, será necessário domar os impulsos ferozes do animal para evitar sua própria morte. Na verdade, ele não procura matar o animal, apenas busca uma convivência pacífica com o mesmo. Utilizando uma abordagem semelhante a vários filmes como Cisne Negro, X-Men 3 (a indomável Jean Grey/Fênix Negra) ou Senhor dos Anéis (o Gollum), onde o personagem não sobrevive sem seu lado sombrio. Isso faz sentido ao notarmos a inclinação assassina despertada em Pi através da luta pela sobrevivência, se ele quiser continuar a ser a pessoa alegre de antes precisará combater esse instinto e domá-lo. Caso contrário, o tigre matará o rapaz, tornando-se o único no bote, representação do próprio Pi composto por duas personalidades. Por isso, sou totalmente contra o filme ter ganhado  o título brasileiro “Aventuras de Pi”, pois esse confronto se dará eternamente no personagem narrador, apesar do mesmo constantemente tentar manter suas tendências violentas (despertadas pelo trauma no bote) adormecidas.

A abordagem religiosa em A Vida de Pi: valorização do aspecto cultural e necessidade de autocontrole do personagem.

A abordagem religiosa em A Vida de Pi: demonstração dela na diversidade cultural e necessidade de autocontrole do personagem.

A salvação esperada por Pi, além da literal (no caso, seria a chegada em terra), também pode ser vista pela religiosidade do rapaz. Ele gostaria de ser muçulmano, hindu e cristão simultaneamente. Isso pode indicar um possível desespero do mesmo ao tentar controlar de todas as formas sua personalidade, caracterizada pelo tigre. Na embarcação, um dos atos mais repetidos pelo menino é o da oração, é óbvio a tendência das pessoas em orar numa situação tão trágica quanto a dele. Entretanto após analisar o final, compreendemos que Pi não é alguém confiável. Ele pode moldar os fatos conforme for sua vontade, não havia testemunhas e Richard Parker pode ser meramente uma projeção sua, não existindo fisicamente a não ser através de Pi. Portanto, é inútil questionar se a trama prova ou não a existência de Deus, pois basta salientar o foco do importante ser Pi manter suas “tendências assassinas” quietas, nem que para isso precise crer piamente em algo totalmente distinto de seus paradigmas (sua família não era adepta ao cristianismo). Ele provou, sim, que somente sua fé conseguiu fazê-lo viver com a consciência limpa, o suficiente para seguir em frente normalmente independente de seus crimes passados.

A paixão de Pi pelos animais não é incomum, ele projeta através de cada um no bote alguém que participou dos eventos pós-naufrágio. Isso se deve ao antropomorfismo expressado por sua consideração pelos habitantes do zoológico de seu pai desde a infância. Várias discussões são relatadas no livro a respeito do estabelecimento e até alguns excelentes argumentos sobre manter ou não animais no zoológico. A preocupação do autor demonstra ser um pedido de respeito aos animais. São exploradas várias questões bastante interessantes sobre o comportamento deles. A maioria das pessoas não atenta para esses detalhes, todavia isso enriquece demais a narrativa antes de fornecer um panorama mais reflexivo do papel de Pi ao lidar com eles.

O mistério da ilha carnívora e assassina: ela é Pi.

O mistério da ilha carnívora e assassina: ela é Pi.

Quanto à ilha, essa é a parte mais genial. Admito que só compreendi melhor após a adaptação cinematográfica, pois ocorre a revelação da mesma estar em formato de homem. A ilha também expressa as circunstâncias mentais do protagonista. Ela é antropofágica, tal qual Pi precisou ser a fim de sobreviver. Entretanto se ele continuasse nela, ou seja, caso o rapaz continuasse a se alimentar de tal forma (o ato de ingerir carne é ainda pior para ele se levarmos em conta sua família vegetariana), morreria. Isso faz alusão à banalização da violência. O corpo continuaria vivo, entretanto Pi estaria se enganando e deixando sua crueldade aflorar até dominá-lo. Nesses momentos, os suricatos representam a alienação mental do rapaz, por isso sequer se defendiam do tigre, pois estavam ocupados demais aceitando as comidas. Percebam o seguinte: se Pi continuasse na ilha, Richard Parker também estaria. O tigre alimentava-se dos animais da mesma. Se Pi é a ilha, os suricatos são os resquícios de sua inocência. Eles seriam devorados pelo tigre, que possuiria todo o controle sobre o território. Além disso, a ilha acabaria matando Pi, logo o corpo (a ilha) extinguiria qualquer vestígio de humanidade (representada por Pi) do local.

A Vida de Pi é uma trama carregada de significados ocultos e merece ser apreciado nos mínimos detalhes, tornando-se bastante ampla quando ocorre análise da abordagem sobre a psicopatia do personagem central. Caso alguém deseje comprar o livro pela capa colorida, alerto se tratar de uma história adulta com um desfecho surpreendente, apesar de assustador para quem se acostumou com a afeição do rapaz pelo tigre. O próprio é uma excelente metáfora para a crueldade humana e a beleza aterradora que há na perda de controle (por isso o rapaz elogia tanto a aparência majestosa e enganosa do tigre). A adaptação cinematográfica foi ótima, porém perdeu muito de sua força no desfecho, onde ironicamente suprimiram bastante da real violência ocorrida com o protagonista ao longo da história, afinal não houve a utilização de imagens para tanto, o que considero imperdoável ao se tratar de uma adaptação visual tão feliz de um livro rico em interpretações. Para finalizar, tal qual o livro e filme perguntam: “depois dessa história, em quê você prefere acreditar?”

Alegre capa brasileira de A Vida de Pi.

Alegre capa brasileira de A Vida de Pi.

Adaptação (Adaptation. 2002)

Por Alex Ginatto.

Sabe aquele filme que você ouve um comentário e se interessa? Não que você ache que seja muito bom, afinal, depois de anos do seu lançamento, você não se recorda de ter ouvido falar nele. Acontece que alguém comenta, você se interessa, assiste e…resolve escrever uma leitura para o site de tão bom que achou! Foi assim com “Adaptation” (Adaptação).

O filme conta a história de Charlie Kaufman ao tentar adaptar o roteiro de um livro sobre orquídeas para o cinema. Porém, algo que poderia parecer simples se torna cada vez mais complicado para Charlie, conforme o prazo de entrega de seu rascunho se aproxima.

O livro “The Orchid Thief”, da escritora Susan Orlean se torna um desafio para Kaufman por se tratar de algo comum, sem uma história, como ele mesmo define durante o filme. Um livro que descreve o roubo de orquídeas de uma reserva estadual por um homem chamado Laroche e que se torna objeto de estudo e de interesse da autora, por se tratar de uma figura ímpar. Porém, para desespero de Kaufman o livro simplesmente termina sem algo extraordinário, sem algo que possa virar filme.

Do alto de seu perfeccionismo e lutando contra seus conflitos existenciais e sua mente inquieta, Kaufman decide que o livro deve ser representado fielmente em seu filme. Hesita em apelar para alguma história paralela, ficticia, que fuja à simplicidade descrita por Susan no livro.

Kaufman é um sujeito estranho, introvertido e que mal consegue decidir o destino amoroso de sua vida, mesmo convivendo com seu par ideal durante todo o filme.

Para piorar a situação, seu irmão gêmeo Donald resolve passar uma temporada em sua casa e se tornar um escritor de roteiros para o cinema, seguindo os passos do irmão. Ao contrário de Charlie, no entanto, Donald se revela um escritor sem muita imaginação, recorrendo inúmeras vezes aos clichês utilizados em Hollywood: serial killers, perseguições de carro, múltiplas personalidades…

O convívio dos irmão passa a ser cada vez mais complicado com a diferença entre suas ideologias, ou a falta dela no caso de Donald. Além disso, fazendo cursos de aprendizado rápido e recorrendo aos seus clichês, Donald parece ter seu trabalho desenvolvido de forma muito mais rápida do que Charlie e consegue terminá-lo em dias, para desespero do irmão.

A esta altura Charlie não sabe mais por onde iniciar seu roteiro, por onde seguir, em quem centralizar o filme. Num surto de desespero, decide ir a Nova Iorque conhecer pessoalmente a escritora do livro, mas seu medo interior e sua timidez não o deixam completar a missão.

É aí que o filme muda, literalmente. Charlie parece aceitar a derrota de sua arrogância utópica em relação à praticidade do irmão e recorre à sua ajuda. O irmão se empolga com a ideia e é quem vai falar com a escritora no lugar de Charlie, aproveitando-se da igualdade dos DNAs.

A partir daí os irmãos descobrem algo mais em relação à escritora do que descrito no livro e parece fazer sentido o fato do término da história sem algo muito emocionante: parecia estar escondendo algo. Deste ponto até o final o filme se torna exatamente tudo aquilo que Charlie sempre abominou, com os clichês, os apelos, a história atraente.

Seguindo o exemplo do que foi feito em “Being John Malkovich”, citado no início do filme, o escritor mistura a realidade com o cinema de uma forma confusa, mas extraordinária! Ao sofrer durante a maior parte da história sem saber por onde começar ou quem colocar como peça central do roteiro, Charlie acaba se entregando ao que parece ser o mais óbvio: descrever sua dificuldade para adaptar o roteiro ao livro, e se coloca como o centro da história!

Completando, o filme de 2002 rendeu indicação ao Oscar das três figuras principais do filme: Nicolas Cage, como ator principal pelo papel dos escritores gêmeos; Meryl Streep como atriz coadjuvante pelo papel da autora do livro; Chris cooper, este inclusive premiado pela Academia como ator coadjuvante pelo papel de Laroche, o ladrão de orquídeas. Excelente atuação dos três, difícil escolher o melhor, o que se torna ainda mais interessante para um filme deste calibre.

Com a certeza de que quem não assistiu ao filme deve estar achando tudo muito confuso, apenas uma sugestão: assista. E assista de novo porque vale a pena entender cada detalhe, cada sinal de Kaufman sobre a genialidade de escrever e participar de um roteiro para um filme inicialmente proposto para algo completamente diferente.

Nota 08.