Oscar 2016 – Apostando num Mundo Mais Justo, Sem Violência e Com Mais Igualdade Social!

oscar-2016_pontos-altosAntes mesmo da grande noite o Oscar 2016 levantou polêmica e de uma bandeira que pulou do ano anterior: o de não ter atores negros entre os finalistas. Verdadeiro! Onde até entendo o ato de boicotar o evento, mas… Vale lembrar que tendo uma chance de falar, mesmo que rapidamente, que será ouvido por milhões de pessoas. E foi o que fez Chris Rock aproveitando essa imensa platéia com o seu discurso na abertura do Oscar 2016. Que mesmo que ele tenha decorado o texto, deixou a impressão de não estar acreditando. Que estava livre para dizer tudo o que estava engasgado. Num quase receio de que a qualquer momento seria cortado. Ele falou bonito!

Com isso parecia que a Academia se redimia até pelo o do ano passado… Mas vale ressaltar que ela é a representante de mais de seis mil de eleitores. Que são eles com direito a voto que fazem as escolhas. Assim vieram deles o fato de não ter atores negros indicados nesse ano também. Agora, há também outros fatores. Um deles seria o peso da “divulgação” que alguns filmes recebem. Que por sua vez os levam a serem exibidos em muito mais salas. O que termina empurrando os demais para locais mais distantes, ou mesmo sendo exibidos em poucas salas… Que acaba diminuindo o público, logo de receberem mais votos.

Agora, bem que a Academia poderia divulgar após a festa da premiação, o número de votos de pelo menos os trinta mais votados… De qualquer forma há um outro e importante fator a ser considerado como bem disse Chris Rock: “O que a gente quer é oportunidade. Queremos que atores negros tenham as mesmas oportunidades. E não é só de vez em quando.” Bravo, Chris!

Assim, já desde o início o Oscar 2016 contou com discursos políticos, humanitários, sociais… Foram vozes a pedir um engajamento maior de toda a Sociedade!

Como o do Diretor de “A Grande Aposta“, Adam McKay, que levou o Oscar de Roteiro Adaptado. Lembrando ainda que o filme falou sobre uma tragédia que deixou milhões de pessoas sem casas e emprego… McKay aproveitou para pedir que deem um basta a isso! Que não votassem em candidatos comprometidos com Wall Street… E de quebra nem em milionários “esquisitos”… Um discurso que também cai como luva aqui no Brasil em relação aos golpistas… Bravo, McKay!

O Filme “Mad Max: Estrada da Fúria” saiu-se o grande vitorioso da noite com seis estatuetas – Figurino, Design de Produção, Maquiagem e Cabelo, Montagem, Edição de Som e Mixagem – que mesmo que sejam considerados técnicos, foram merecidos! Até porque na listagem dos finalistas faltaram principalmente o do Diretor George Miller, pelo excelente trabalho, e o da atriz Charlize Theron, pela sua magistral performance. Bem, mesmo tendo sido injustiçado em algumas categorias… Jenny Beavan, que levou o prêmio de Figurino, deixou também um importante seu recado! Em relação aos cuidados com a poluição da nossa atmosfera, e para que todos sejam mais gentis uns com os outros! Valeu, Jenny! O mundo está precisando muito disso: mais amor, menos ódio!

Um outro grande momento do Oscar 2016… Primeiro veio por quem apresentou uma das canções concorrentes… Alguém de peso! Não apenas por ser ele o vice presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, mas por se tratar de uma bandeira dele e desde quando ainda um Senador: quando então criou uma Lei contra a violência com as mulheres. Biden num discurso em tom ameno conclamou a toda a sociedade a abraçarem essa causa! Assim como a também tentarem mudar toda uma cultura machista! Great!

Uma expressiva apresentação pois a canção “Til It Happens To You” pertencia ao Documentário “The Hunting Ground“. Um filme que fala dos estupros em campus universitários americanos. Que também mostra que as direções dessas instituições se preocupavam mais em encobrir o fato em si. Além dos depoimentos, e até por eles, as vítimas além da violência sofrida, lutam por justiça e pelo direito de estudarem em paz. “Til It Happens To You” foi escrita e interpretada por Lady Gaga, cuja a apresentação contou com a presença de vítimas de violência sexual. Bem, a canção não levou a estatueta… Agora, por certo emocionou! Além de dar voz a essas pessoas! Bravo, Lady Gaga!

Ainda dentro deste triste contexto… O “A Girl in the River: The Price of Forgiveness“, ganhador como Documentário de Curta-Metragem. Ele conta a história de uma jovem que se apaixonou e ao tentar fugir enfrentou a “lei em nome da honra”… Por sorte sobreviveu e com coragem para contar essa história ao mundo. Até para mostrar a de centenas de mulheres que são mortas anualmente por essa mesma “lei”. Em seu discurso, a Cineasta Sharmeen Obaid-Chinoy disse que após assistir ao filme, o Primeiro Ministro do Paquistão decidiu mudar a lei que mata mulheres em nome da honra; além de exaltar aos homens que incentivam as mulheres a estudarem, em terem profissões… É! É tentar mudar um comportamento machista! Bravo!

Também teve o do Diretor Asif Kapadia pelo Documentário ganhador da estatueta: “Amy“. Uma obra que disseca com raro discernimento as dificuldades que Amy Winehouse enfrentou no decorrer da vida. Ao receber o prêmio Kapadia diz que quis mostrar ao mundo não aquela menina dos tabloides, mas sim a bela menina: inteligente, espirituosa, talentosíssima… A menina que silenciosamente pedia por cuidados… Ainda não vi o filme, mas já se mostra um respeito nessa homenagem!

Chegando então no grande esperado da noite… “O Regresso” além do prêmio de Fotografia, deu novamente o de Direção para Alejandro G. Iñarritu! Que seguiu também por um discurso que espera por mudanças: “Tem uma fala no filme em que Glass (DiCaprio) diz para seu filho mestiço: ‘Eles não te escutam, apenas veem a cor da sua pele’. Então, que maravilhosa oportunidade nossa geração tem de nos libertar de todo preconceito e nos assegurar de uma vez por todas que a cor da pele seja tão irrelevante quanto o tamanho do nosso cabelo“. E mesmo que esperado o de Ator para Leonardo DiCaprio… Este, que até fora mencionado no discurso de Chris Rock… DiCaprio também deixou o seu recado: “A mudança climática é real. Está acontecendo agora. É a ameaça mais urgente… precisamos trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos apoiar os líderes do mundo todo que não falam pelos grandes poluidores e grandes corporações, mas que falam por toda a humanidade. E por bilhões de pessoas que serão as mais afetadas pela ganância política.” Bravo para Iñarritu e DiCaprio!

Mas o prêmio maior foi para “Spotlight: Segredos Revelados” que além deste, o de Filme, levou também o de Roteiro Original. Sendo que na premiação máxima, para mim competia mesmo com o “O Regresso“, já que não acreditei mesmo que “A Grande Aposta” levaria esse prêmio, como citei aqui. Bem, de qualquer forma estava bem cotado! Lembrando que o filme retrata uma investigação jornalística sobre crimes de pedofilia praticados por padres… “Spotlight: Segredos Revelados” não deixa de ser algo relevante… Mas de 2002 para cá… Há o Papa Francisco! Um Papa que, diferente dos antecessores, não esconde para debaixo do tapete os erros da Igreja Católica… De qualquer maneira, foi válido o pedido feito por um dos produtores do filme: “Esse filme deu voz aos sobreviventes e este Oscar amplificou esta voz, que esperamos que se torne um coro que vai ressoar até o Vaticano. Papa Francisco, está na hora de proteger nossas crianças e restaurar a fé.“. Pedofilia é algo sério, por demais! Que reforça a premiação!

E entre outros mais discurso… Ressalto também o de Sam Smith ganhador de Canção OriginalWriting’s On The Wall“, do filme “007 contra Spectre“: “Quero dedicar este prêmio à comunidade LGBT de todo o mundo. Estou aqui esta noite como um homem gay orgulhoso e espero que um dia possamos estar todos juntos como iguais”. Um discurso mais do que apropriado até porque o homossexualismo ainda hoje além de sofrerem por um forte preconceito, é até criminalizado em certas culturas. Bravo, Sam!

Assim, que bom que todo o glamour da entrega do Oscar permaneça mais no Tapete Vermelho… Que mais uma vez alguns dos premiados não ficaram só nos agradecimentos usuais… Usando o tempo e o imenso público com discursos onde abraçaram por causas maiores: de caráter social, humanitário, político, ecológico… Enfim, além de ter dado vez e voz ao Chris Rock com a causa racial, o Oscar 2016 conclamou a todos por mudanças de posturas, por uma consciência pela coletividade, para irem além do próprio umbigo. Com isso, um “Oscar goes to” para todos eles! Great!

Curiosidade: Além das premiações mencionadas, também ganharam o Oscar 2016:
– Atriz: Brie Larson, “O Quarto de Jack”
– Atriz Coadjuvante: Alicia Vikander, “A Garota Dinamarquesa”
– Ator Coadjuvante: Mark Rylance, “Ponte dos Espiões”
– Trilha Sonora Original: “Os Oito Odiados” (Ennio Morricone)
– Efeitos Visuais: “Ex Machina”
– Animação: “Divertida Mente”
– Curta de Animação: “Bear Story”
– Curta-Metragem: “Stutterer”
– Filme Estrangeiro: “O Filho de Saul” (Hungria)

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Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte final

california-2015_de-marina-personPor: Carlos Henry.
CALIFÓRNIA de Marina Person pode ser considerada uma comédia de adolescentes. E das boas, por conta de um afinado elenco juvenil embalado por deliciosos hits (David Bowie, New Order e muitos nacionais, todos muito bem inseridos nas cenas, especialmente o final com “The Caterpillar” do The Cure.) dos anos 80 quando a ação se desenrola. Estela (Clara Gallo) vive sua difícil passagem pela puberdade ancorada na figura de seu idolatrado tio Carlos (Caio Blat, perfeito no papel) que vive na Califórnia e exerce influência mágica na menina criada por pais caretas. Os planos de conhecerem juntos o badalado estado americano são interrompidos pela volta inesperada de Carlos ao Brasil que chega magro e debilitado por conta de uma terrível e ainda desconhecida doença que começava a se espalhar pelo mundo naquela época. O engenhoso roteiro insere o complexo personagem de Caio Horowicz no momento certo. Ele é o menino mais estranho da escola. Sua posição de bissexual avançado irá amedrontar e fascinar a menina afligida pelos hormônios da idade, mas cercada de justificados preconceitos. “Se você for gay, você vai pegar Aids!” adverte Estela ao novo pretendente, ignorante como a maioria da população diante de uma praga nova e misteriosa. Apesar do que é abordado, o tom do filme é leve, ameno e muito divertido em sua maior parte, especialmente por conta do elenco de meninas e da pequena, mas sempre preciosa participação de Gilda (Trabalhar Cansa) Nomacce como uma empregada afeita a simpatias mágicas.

E aproveitei os intervalos do Festival e as férias para apreciar o que estava no circuito.

perdido-em-marte_2015O diretor Ridley Scott continua desapontando. Seu último longa PERDIDO EM MARTE (The Martian) é uma ficção científica apática e excessivamente técnica que poderia interessar somente aos aspirantes a astronautas. O personagem de Matt Damon é considerado morto numa missão em marte e deixado abandonado no planeta inóspito. O que deveria ser uma situação tensa acaba virando plataforma para uma série de piadas nem tão engraçadas. A trilha sonora calcada em hits da Disco Music seria um (forçado) atrativo à parte, não fosse detonada o tempo todo como se fosse mau gosto apreciar aquele gênero de música. Descartável.

a-travessia_2015A TRAVESSIA (The Walk) de Robert Zemeckis assombra com imagens estonteantes em 3D na tela gigante do Imax para contar a história verdadeira do Francês Philippe Petit que decide atravessar através de um cabo de aço as célebres torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque pouco antes de serem concluídas as obras finais nos anos 70. Não aconselhável para quem sofre de vertigem. Philippe sofreu pena leve pela inesquecível façanha ilegal e acabou ganhando passe livre para o terraço de observação da torre. O passe teve sua data de validação alterada de um dia definido para duração indeterminada. Infelizmente o trágico curso da história não permitiu que o célebre equilibrista usufruísse da regalia para sempre.

love-3d_filmeLOVE 3D do cultuado diretor do chocante “IrreversívelGaspar Noe é uma grata surpresa. Execrado pelos exibidores ultraconservadores deste país de mente curta, é ao contrario do que possa parecer é um filme de muita qualidade. Narra a obsessão sexual de um homem casado pela jovem Electra, uma antiga namorada que desaparece sem deixar vestígios. A paixão doentia confundida com amor esgota o rapaz física e mentalmente vista em notáveis mudanças ao longo da narrativa. Como é que a esta altura do campeonato, em pleno século vinte e um, numa terra infestada de sujeira, miséria e corrupção, alguém por aqui pode ousar se indignar com um punhado de cenas de sexo explícito (Penetração do ponto de vista do interior da vagina e um orgasmo masculino em direção à tela são as cenas mais comentadas) totalmente inseridas no contexto de um roteiro bem elaborado? A pornografia está nos jornais que hoje em dia não têm censura.

A-Colina-EscarlateA COLINA ESCARLATE de Guillermo del Toro é a grande decepção que fecha o festival. Tantos clichês que talvez funcionassem numa paródia de Mel Brooks – Arranca risos da plateia com a suposta intenção de assustar lançando mão de fantasmas toscos, gráficos e falsos, rangidos e “sustinhos” para lá de batidos. A-velha-perversa-do-retrato-que deve-esconder-um-segredo, O-jovem-que-divide-um-terrível-mistério-com-a-irmã-estranhíssima e a-menina-idiota-que-vai-morar-na-mansão assombrada-apesar-dos-avisos-da-mãe-morta são algumas das sandices óbvias do inacreditável roteiro. Como é que a talentosa Mia (Amantes Eternos) Wasikowska foi se embrenhar nesta patuscada? E o Senhor Del Toro que já realizou obras-primas como “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo” também perdeu a mão? Assustadoramente ruim. Como dizia um crítico que tinha um programa sobre cinema na TV nos anos 70: Fujam do cinema que estiver “levando”!

[Continuação daqui.]

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte II

os-irmaos-lobo_2015Por: Carlos Henry.
OS IRMÃOS LOBO” (The Wolfpack) de Crystal Moselle é um documentário que narra a bizarra saga de sete crianças que crescem presas num apartamento imundo e decadente em Manhattan. O único contato com o exterior permitido pelo pai seria os filmes na TV. Portanto as criaturas se desenvolvem cercadas de criatividade cinematográfica, encenando diálogos de filmes que viram ao longo da prisão domiciliar. O que soa estranho na narrativa é que não há maiores conflitos quando os meninos de longos cabelos se rebelam quando chega a puberdade e alcançam o mundo exterior sem grande estardalhaço. Um deles exclama: “Parece 3D!” A praia de Coney Island é um dos primeiros locais que visitam numa sequência relativamente tocante. No fim, percebe-se que o que eles querem mesmo é fazer cinema, o que dilui o objeto principal do documentário que deveria ser tenso e emocionante.

H_2014_de-Rania-Attieh_posterH“. de Rania Attieh é uma obra estranhíssima e bizarra. A começar pelo título que se refere ao nome de Helena. Há duas delas na história. Elas vivem em Troia, Nova Iorque, numa clara alusão à clássica tragédia grega. Uma tem cerca de 70 anos, vive uma rotina cotidiana com o marido e cuida de uma boneca hiper-realista como se fosse uma criança de verdade. A outra é jovem e faz uma dupla de sucesso com o parceiro no mundo das artes enquanto prepara-se para ter um bebê. Um meteorito atinge a região e deflagra uma série de acontecimentos muito estranhos mudando o destino de todos. O filme pouco explica. Prefere sugerir muito em sequências belas e misteriosas, entre sons ininteligíveis criando um clima de crescente agonia, bem na linha do excelente “Sob a Pele”. A enigmática figura equina que surge ao longo dos capítulos entra em mutação no final numa cena realmente perturbadora. Para ver muitas vezes, interpretar, concluir e discordar como num filme de David Lynch. Uma delícia.

The-Nightmare_2015_posterOutro filme muito perturbador foi certamente o horripilante documentário “O PESADELO – PARALISIA DO SONO” (The Nightmare) de Rodney Ascher que já havia provado o seu talento tentando decifrar o que havia de oculto no clássico filme “O Iluminado” de Kubrick em “Quarto 237” que também causou aflição no outro Festival. Neste novo trabalho, Rodney entrevista várias pessoas que têm os mesmos sintomas. São acometidas por brutal paralisia quando entram em certo estágio do sono e se tornam impotentes diante das presenças que começam a surgir na escuridão. Um ataque de extraterrestres ou obsessão espiritual? A conclusão é do espectador que deve evitar assisti-lo quando a noite cair.

a-floresta-que-se-move_2015Ana Paula Arósio ressurgiu após longo hiato das telas, linda como nunca na exibição de “A FLORESTA QUE SE MOVE” de Vinicius Cimbra no cinema Odeon. O veterano Nelson Xavier também estava presente, contente com o fato de ter sido finalmente convidado para um papel de rico. E o fez brilhantemente. O filme que pode ser considerado um noir que flerta com os gêneros terror gore, suspense e policial é uma excelente adaptação de Macbeth de Shakespeare para os dias atuais. Uma bordadeira vidente (Juliana Carneiro da Cunha) prevê o poder meteórico para Elias, um alto executivo de banco. Incentivado pela mulher ambiciosa, os dois decidem eliminar pessoas para que se cumpra a profecia. O primeiro alvo é Heitor (Nelson Xavier), o presidente do banco, um homem bondoso e sensível que adora as Bachianas de Villa-Lobos. A partir daí, o rastro de sangue derramado espalhará a loucura, o remorso e os fantasmas no caminho dos dois. Neste trabalho extraordinário, destacam-se o mosaico de locações (Brasil, Uruguai, Escócia, Berlim) que confere uma atmosfera mágica e indeterminada à obra, bem como o elenco perfeito com destaque até nas pequenas participações como a de Emiliano Queiroz como um porteiro hilário, irônico e articulado. Imperdível.

as-fabulas-negras_posterAS FÁBULAS NEGRAS” é um terror nacional B gore que não deve ser levado tão a sério. Une o talento do veterano José Mojica Marins (Zé do Caixão) com outros novos diretores do gênero. O resultado por vezes amador e tosco diverte e evidencia um esforço constante em acertar. A decisão de inserir um grupo de crianças fantasiadas na mata como elo de ligação entre os contos ajuda muito no clima soturno pretendido. O episódio da loira no banheiro é decerto o melhor elaborado e bem montado com segurança na direção A velha que faz a diretora do pensionato de garotas está impagável. Mojica também se destaca como um exorcista de araque e aproveita para lançar a sua sempre esperada e “temida” praga no final.

[Continuação daqui.] [Continua aqui.]

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte I

festival-do-rio-2015Por: Carlos Henry.
cine-odeon_rio-de-janeiroO Festival do Rio foi mais discreto esse ano, decerto por conta da crise, sem grandes convidados internacionais e com uma programação morna e sem grandes destaques. Neste ínterim, a película vira artigo raro em extinção dando lugar ao indefectível DCP (Digital Cinema Package) que dependendo da sala de projeção pode ocasionar uma imagem pálida, sem vida e provavelmente pior do que a sua tela de TV. Curiosamente esse processo de transição ocorreu rapidamente e sem estardalhaço e, portanto foi o sistema padrão adotado nas exibições do Festival. As noites de gala continuaram sendo no Cinépolis Lagoon de difícil acesso na Lagoa. No entanto, os artistas e a produção prestigiaram os animados encontros de cinema no antológico cinema Odeon no centro.

As pré-estreias nacionais que escaparam da febre da comédia barata, grosseira e fácil que assola o mercado brasileiro chamaram a atenção e resolvi conferir.

boi-neon_2014BOI NEON de Gabriel Mascaro onde o ótimo Juliano Cazarré mostra o seu talento na pele de Iremar, um calejado e bruto ajudante de vaqueiro, num evento de arena onde aquele universo aparentemente simples oculta uma rede relativamente violenta que movimenta muito dinheiro. O filme introspectivo e de ritmo lento desvenda o cotidiano da Vaquejada desvendando sonhos aparentemente díspares como o de Iremar em ser estilista trabalhando nas horas vagas em sua pequena máquina de costura. Maeve (O Som ao Redor) Jinkings faz parte desta endurecida equipe de bastidores dividindo seu tempo entre o trabalho, suas performances à noite vestida como um cavalo numa roupa desenhada e manufaturada por Iremar (A cena filmada para uma plateia de vaqueiros reais dá o tom surreal à obra.), os cuidados com a filha curiosa e rebelde e os desejos sexuais naturais de mulher. Vinicius de Oliveira, a descoberta mirim de Central do Brasil tornou-se um ótimo profissional e faz uma participação notável no longa. O filme não teme a exposição dos corpos nus e a fisiologia humana que por vezes pode parecer chocante, quase pornográfica, o que exige coragem e ousadia dos atores. Afinal, masturbar um cavalo não é para qualquer um. Extraordinário, mas definitivamente nada popular.

jonas_2015JONAS de Lô Politi conta com o menino Jesuíta (Tatuagem) Barbosa que está cada vez melhor. Infelizmente sua atuação neste filme está um pouco exagerada na angústia e ansiedade. Um tom mais contido certamente daria um resultado melhor. O filme parte de ideia boa com interessante utilização de nomes próprios para narrar um evento de suspense acontecido no carnaval. A ação se desenvolve a partir de um sequestro que acontece por conta de um acidente provocado pela paixão de Jonas pela filha da patroa de sua mãe (Apesar do pequeno papel de empregada, Luciana Costa, como sempre, “Ó pai Ó” consegue dar muita graça ao seu personagem). A situação foge de controle e o rapaz decide esconder a moça no carro alegórico mais importante da Escola de Samba que os dois pertencem, uma imensa baleia azul. Uma evidente referência bíblica. Prende a atenção, mas com mais habilidade poderia vir a ser um clássico.

nise-o-coracao-da-loucura_2015NISE – O CORAÇÃO DA LOUCURA de Roberto Berliner é um bom filme ordinário fadado ao sucesso por conta de ser estrelado por uma super global, a atriz Glória Pires. Ela encarna uma personagem real, a doutora Nise da Silveira que se recusa a adotar os tratamentos tradicionais do século passado na cura dos pacientes esquizofrênicos que ela prefere chamar de clientes. Ao invés dais radicais lobotomias e eletro-choques, Nise incentiva os doentes a exorcizarem suas neuras através da arte, criando um estúdio improvisado dentro do Hospital decadente de Engenho de Dentro. Os trabalhos ficam tão bons que exposições são organizadas enquanto o grupo de ditos loucos começa a melhorar. No entanto, as inovações não são bem recebidas pela direção da instituição formada por homens. O filme prende a atenção com seu roteiro correto e linear, mas é contido e comportado como uma produção de TV. Destaques para os “loucos” Simone Mazzer e Flavio Bauraqui. Não ultrapassa a marca de regular.

O Festival do Rio selecionou uma série de filmes sobre a cidade do Rio de Janeiro em comemoração ao aniversário de 450 anos:

sao-sebastiao-do-rio-de-janeiro-a-formacao-de-uma-cidade_de-juliana-de-carvalhoSÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO, A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE de Juliana de Carvalho é uma curiosa coleção de fatos e imagens raras que ajudam a desvendar o crescimento de uma cidade, passando pelas mudanças arquitetônicas dos primórdios de sua fundação até os dias de hoje.

o-rio-por-eles_2015O RIO POR ELES de Ernesto Rodrigues exibe a cidade vista sob o olhar estrangeiro nem sempre muito preciso. A imagem equivocada do Rio por vezes soa divertida, preconceituosa, racista ou falsa, sem deixar de ser um arquivo rico e precioso de uma época onde ainda havia muita elegância na Guanabara. Tragédias como o incêndio do circo em Niterói na década de 60 ou do Edifício Astoria também são relembradas por equipes de outros países.

cronica-da-destruicaoCRÔNICA DA DEMOLIÇÃO de Eduardo Ades tenta entender sem sucesso a destruição do Palácio Monroe, construído no início do século vinte para abrigar o pavilhão do Brasil na Exposição Universal em Saint Louis EUA. Em seguida foi desmontado e reconstruído no centro do Rio vindo a se tornar sede do Senado Federal. Aparentemente, a bela construção foi alvo de uma modernização descuidada na ditadura dos anos 70 comparada no documentário por uma “eugenia nazista” que via no prédio antiquado um entrave ao curso natural do desenvolvimento da cidade. O filme é fraco no sentido de ser mal montado, mas exibe interessantes imagens da demolição em si. Hoje no lugar restam um chafariz seco e um lucrativo estacionamento.

 

Alguns filmes de curta-metragem são até melhores que a atração principal:

projeto-beirutePROJETO BEIRUTE de Anna Azevedo passeia pelo animado Saara, o grande bazar do Rio. A colorida mistura de culturas e línguas é coroada com uma belíssima dança do ventre em grupo no meio da rua num desfecho impressionante de ver e ouvir.

cumieira_de-diego-benevidesCUMIEIRA de Diego Benevides apresenta o trabalho duro dos operários numa grande obra até o merecido descanso no terraço da construção.

pele-de-passaro_de-carla-peltierPELE DE PÁSSARO de Clara Peltier persegue Tuane Rocha, uma exuberante destaque no carnaval que revela um cotidiano para lá de corriqueiro. Por trás dos adereços e maquiagem exagerada, tudo o que ela precisa é cuidar da filha.

solte-os-bichos-de-uma-vez_de-marcelo-goulartSOLTE OS BICHOS DE UMA VEZ de Marcelo Goulart também agarra o tema da festa de Momo. Os tradicionais e às vezes assustadores grupos de bate-bolas, cujas fantasias foram trazidas pelos portugueses na época colonial, faz parte do imaginário suburbano do carnaval carioca.

[Continua aqui.]

Eduardo Coutinho, 7 de Outubro (2015)

eduardo-coutinho-7-de-outubro_2015A data do título foi o dia em que Carlos Nader entrevistou o genial cineasta Eduardo Coutinho, poucos meses antes de ser assassinado provavelmente pelo próprio filho esquizofrênico, no início de 2014. Nader não é exatamente um entrevistador à altura do célebre entrevistado, mas a riqueza do material falado pontuado de excelentes cenas extraídas da obra de Eduardo transforma o filme num delicioso jogo de palavras e imagens. Sem perceber, realizou uma homenagem impecável.

O resultado é assombroso e ajuda a entender a mente fértil do documentarista que conseguia arrancar depoimentos surpreendentes de seus entrevistados. Seu pensamento veloz produz uma fala atropelada e recheada de palavrões. Libera citações preciosas como “O Passado contado é muito mais interessante do que realmente aconteceu. É extraordinariamente acrescentado, enfeitado, épico.” Filosofa com eloquência, humor e alguma impaciência senil que o autoriza até a arriscar uma piada no meio de tudo: A bicha acorda feliz, abre a janela e cumprimenta: – Bom dia, sol! O astro responde: Bom dia, viado! Prá puta que pariu…

jogo-de-cenaSua bela filmografia inclui clássicos premiados como “Cabra Marcado para morrer”, “Edifício Master”, “Babilônia 2000” (Personagens humildes de uma comunidade no Rio na passagem de ano de 1999 para 2000), “Santo Forte” (Lembro que uma das vezes que falei com Coutinho, perguntei sobre o porquê desse impressionante filme sobre o sincretismo religioso nunca ter saído em DVD – Ele respondeu que o copião estava nos Estados Unidos – Creio que ele não gostava de viajar muito por conta do vício do cigarro.) e a obra-prima: “Jogo de Cena”, provavelmente, o único filme com atores profissionais famosos. Curiosamente, encontrei uma das entrevistadas mais interessantes do “Jogo” no bar do teatro Rival – Uma mulher de temperamento oscilante que se emocionava com o filme da Disney “Procurando Nemo” por conta de problemas de relacionamento com a filha. Sua história pungente foi interpretada por Marília Pêra no intrincado “Jogo de Cena”. Neste dia que a reconheci, ela parecia alegre, mas quase a levei às lágrimas quando toquei no delicado assunto maternal. Numa segunda vez que a vi no metrô, não tive coragem de falar. Parecia triste demais.

Coutinho admite que apreciava o precário, o inacabado, o imperfeito, mas a verdade é que conseguia extrair beleza, emoção e poesia daquilo que parecia tosco e rude à primeira vista, fazendo seu trabalho com o cuidado de quem lapida uma pedra rara.

Eduardo Coutinho, 7 de Outubro (2015). Brasil
Direção: Carlos Nader
Com: Eduardo Coutinho
Gênero: Documentário
Duração: 72 minutos.

O Cinema Colocando em Xeque Religiões e Seguidores – parte I

o-cinema_religioes-e-seguidores_por-tiago-silvaNuma época onde um Papa renuncia e sucessor parece estar até mais mais aberto às mudanças trazidas pelo presente… Onde cada vez mais líderes religiosos adentram na Política com a finalidade retroceder com a sociedade… Onde radicais religiosos sequestram jovens e até fazendo delas escravas sexuais… Várias reflexões deveriam ser feitas por todos nós até para ver o que há de real por trás de episódios como esses. Em que estão mais de olho nos próprios interesses e com um rebanho obediente a lhes servir… Enfim, se o tema já intriga no mundo real, se torna ainda mais fascinante pelo mundo do Cinema. Vem comigo!

guerra-de-canudos_1997_filmeIgnorância e superstição configuram a base de domínio das consciências humanas.

A venda das indulgências não segue o maior preceito de Cristo que é o perdão. As religiões se prevalecem até do sentimento de culpa para um domínio sobre seguidores. Até porque mantidos na ignorância os fiéis não terão como visualizar uma forma simples de aproximarem de Deus: num encontro com seu “eu” pelos caminhos da vida e sem a necessidade de estarem em um templo. Mas isso não levaria ninguém à engordar os cofres das igrejas… Em “Lutero“, de Eric Till, temos como pano de fundo uma luta de consciência por conta do sentimento de culpa. Mesmo assim, enfrentou com coragem as pressões políticas e da Igreja principalmente contra a salvação mediante a venda de indulgências. Em “Guerra de Canudos“, do Diretor Sérgio Rezende, se tem em plano geral Antônio Conselheiro. Alguém que contrariou muito mais a Igreja do que o Estado e por ter pisado nos calos dessa ao afastar os fiéis e seus dízimos. Com isso ela pressionou o Estado para acabar de vez com a insurreição desse líder.

stoning-soraya-1A Cultura Machista sob a Égide das Religiões

Em pleno século XV temos a história de uma personagem feminina que sofreu pela fúria dos homens. Embora não tivesse sido por apetites vorazes, eles sentiram a própria virilidade ameaçada por uma única mulher. As vitórias dela num território de machos fizeram despertar a inveja deles, e por conseguinte ter ido parar na fogueira da Inquisição. Ela é “Joana D’Arc“, em um filme do Diretor Luc Besson. Mas histórias como essa atravessa o tempo e no mundo real… Em um episódio muito mais recente temos também a cultura machista em terras islâmicas… Mostrando uma cruel realidade para as mulheres e sob a égide de uma lei estúpida que atravessa fronteiras e engloba até outras religiões: o adultério a mascarar a cultura machista… Temos em o “O Apedrejamento de Soraya M.”, do Diretor Cyrus Nowrasteh. Nele, um homem querendo casar com outra mulher muito mais jovem, arma com o conluio de um líder religioso um adultério para então esposa. O faz até para esconder que regulamente a espancava e a estuprava. Com isso ela seria condenada à morte pelo revoltante “crime de honra” e ele estaria livre até para cometer mais barbaridades com outras mulheres. Igreja e Estado abonando o machismo.

Ciência e Religião não poderiam caminharem juntas sem radicalismo?

Um filme que fica em cima desse binômio – ciência e religião -, é o filme “Contato“, do Diretor Robert Zemeckis, cujo roteiro é do astrônomo Carl Sagan. A trama do filme põe em xeque os valores éticos e morais da ciência e da religião, mas numa tentativa de encontrar um equilíbrio entre elas.

rezando-por-bobby_01O Absurdo de ainda condenarem alguém pela sexualidade

Em “Rezando por Bobby”, do Diretor Russell Mulcahy, temos uma mãe que ao seguir à risca as doutrinas da Igreja nem aceitou a homossexualidade do filho como impingiu a ele terapias e ritos religiosos com o intuito de “curá-lo”. Não suportando a pressão ele se atira de uma ponte… Depois, ela ler o diário desse seu filho passa a entender de fato todo o drama em que vivia e até por não querer ferir ninguém, querendo mesmo ser feliz. Ela ainda buscando por respostas na religião que o condenou, passa a interpretar de outra forma os textos bíblicos… E torna-se uma ativista dos direitos dos homossexuais. Já no belíssimo filme do Diretor Abbas Kiarostami, “Gosto de Cereja“, temos um homem que com o passar dos anos sente o peso da solidão por essa condenação até culturalmente, daí escondendo sua homossexualidade. Por conta disso decide se suicidar e sai à procura de quem o enterre, já que esse ato também é condenado pelas Religiões.

vida_de_brian_04O Fanatismo Atemporal dos Seguidores

Onde em vez de se aterem as suas próprias convicções… Até partem para agressões físicas numa de catequizar, exorcizar… Em “Alexandria“, de Alejandro Amenábar, a vida de uma filosofa Hipátia que foi morta por não se converter ao cristianismo. Que disse para essa catequese imposta que: “Quem acredita sem questionar, não acredita. Eu preciso questionar.“. Como pano de fundo fanatismo religioso: a busca ou pelo o conhecimento ou pela a estupidez. Já com com o clássico “A Vida de Brian“, do Diretor Terry Jones e ou mesmo com “O Primeiro Mentiroso”, dos Diretores Ricky Gervais e Matthew Robinson, temos e com humor o quanto se deveria questionar os dogmas religiosos. É! É velha retórica em apregoar a fé para não apenas manter o rebanho mansinho como também para atrair mais. Onde até se valem de falsos profetas para mantê-los sob rédeas curtas. E o pior que o ciclo se mantém pelos próprios seguidores em querer um santo, um líder religioso para idolatrar e ou expiarem as próprias culpas.

saving-godUm poder a serviço de quem ou do que?

Dentro da Igreja Católica para “para um rei morto, um rei posto“… Dois filmes que mostram os bastidores desse Conclave, como as responsabilidades, os dogmas a serem seguidos… O “As Sandálias do Pescador“, de Michael Anderson, baseado no livro de Morris West. Um Papa vindo de um país comunista… Abordando também temas pertinentes a geopolítica da época – guerra fria, bomba atômica… Um Drama com pitada de Thriller. Já o outro é o “Habemus Papam“, do diretor Nanni Moretti, uma Comédia Dramática trazendo o Papa eleito com uma dúvida crucial: “Ser ou não ser Papa?“. Agora, onde o Estado, a Família e a Sociedade ficam impotentes, é onde a Religião pode e deve atuar: numa “salvação” dos jovens aliciados pelo tráfico. Ou mesmo por estarem drogados demais para mudarem de vida. Em “Salvando Deus”, do Diretor Duane Crichton, temos essa remissão por um recém saído da prisão, pegando para si o papel de Reverendo daquele local até então desassistido…

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré / A esperança não vem do mar / Nem das antenas de TV / A arte de viver da fé / Só não se sabe fé em quê

Assim, aos que adotaram uma Religião que sigam com ela, mas sem condenar os que preferem continuar lidando com seus próprios espinhos fora das religiões. Até porque transferir os próprios problemas para as “mãos do impossível” é uma das maneiras de não encará-los de frente. Com certeza voltarei a esse tema. É por demais interessante!
See You!