Os Sabores do Palácio (2012). São Deliciosamente Irresistíveis!

os-sabores-do-palacio-2012_cartazPor: Valéria Miguez (LELLA).
Em nossa memória ficam registros que com o passar dos anos meio que desaparecem… Até que um aroma, um sabor… algo acaba despertando memórias afetivas até da nossa infância. Algo visto em “Ratatouille” quando um rigoroso crítico gastronômico sentiu ao provar esse prato típico da culinária francesa, presente até nas cozinhas das famílias mais humildes. Fiz esse preâmbulo porque o carro chefe de “Os Sabores do Palácio” veio de alguém querendo para as suas refeições diárias essa culinária com gosto de casa de vó… Esse alguém vivia num certo palácio: a residência do Presidente da França. E ele, o próprio ‘Le Président‘ (Jean d’Ormesson), um gourmet convicto e cansado dos pratos com muito mais enfeites que substância, seguindo uma indicação coloca seu pessoal para ir atrás dela, uma reconhecida Chefe de Cozinha, e também uma defensora da gastronomia tradicional francesa. Ela iria para a pequena e particular cozinha. Na na bagagem além dos dotes, dos talentos, levava junto uma preciosidade que esse presidente amava.

os-sabores-do-palacio-2012_01E quem seria ela, essa Chefe de Cozinha que até iria revolucionar um reduto até então de homens? Ela é Hortense Laborie que vai com a cara e coragem para o coração da França. Para alguém segura em sua fazenda na região de Périgord, dando aulas a Chefes de outros países a usarem em especial o foie gras e as trufas, fora uma grande mudança. Que se vê num clima bem competitivo e hostil. Mas ela finge ignorar até porque a quem teria que agradar era o Presidente. Assim já totalmente instalada resolve não se submeter a despensa da outra cozinha e quebrando protocolos vai às compras! Até por ser adepta e conhecedora de itens naturais e de primeira qualidade para suas receitas. Compras essas que interferem também com que administra os gastos das cozinhas do palácio. Enquanto isso na ‘cozinha grande’ inveja e ciumeira corria solto até dando a ela o apelido de ‘Du Barry‘, em alusão à favorita do rei Luís XV, a Condessa du Barry. Hortense seguia em frente até tentando adaptar as novas restrições alimentares para o Presidente às suas receitas. Pausa para comentar sobre as receitas, pano de fundo em “Os Sabores do Palácio“, que para quem assiste são de se comer com os olhos já que não podemos comer de fato. Assim, a ‘cozinha pequena’ seguia seu curso até que algo bate à porta e…

De Paris Hortense vai parar na Antártida. Ser a Chefe de Cozinha numa estação de estudos. Também cheia de homens, mas até pela solidão do lugar, viraram todos seus fãs. E é em sua despedida por lá que em flash back conhecemos seu período palaciano, o porque saiu de lá, como foi parar por lá naquele “fim do mundo” e até seus planos para um futuro próximo.

os-sabores-do-palacio-2012_02O filme “Os Sabores do Palácio” foi inspirado numa história real, a da Chefe de Cozinha Danièle Delpeuch que foi a cozinheira pessoal do Presidente da França François Mitterrand. Quem a adaptou também assina a Direção, Christian Vincent, fez um belíssimo trabalho que nos mantém atentos até o final! Deixando até uma vontade de querer ver mais e mais histórias com ela, a Hortense de Catherine Frot. Ela dá um show! Mesmo com tudo e todos em uníssono sem dúvida nenhuma o filme é dela! Num filme de se acompanhar com brilhos nos olhos e que no finalzinho minhas lágrimas desceram comovidas. Enfim, um filme Nota 10!

Os Sabores do Palácio (Les Saveurs du Palais. 2012)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Anúncios

Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse. 2000)

Les-Glaneurs-et-la-Glaneuse_2000Por: Karenina Rostov.

agnes-varda_cineastaPara alguns são um monte de lixo, para mim, muitas possibilidades.”

Depois de assistir ao documentário “Os Respigadores e a Respigadora da cineasta Agnes Varda, começo meu parágrafo já concluindo que “respigar” é uma arte. Arte esta que designa um verbo, resultado de uma ação nobre, porém, nem tanto sob a lupa de parcela da sociedade que se dá ao luxo de julgar essa ação como repugnante e humilhante gerando até certo pré-conceito. É bem verdade que não é confortável ao ser humano testemunhar determinadas cenas do homem quando este, por exemplo, porta-se como um animal abandonado à própria sorte e ter que catar comida no lixo. A história me fez lembrar o poema “O Bicho“, de Manuel Bandeira:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Então volto a pensar na ação de respigar como arte porque, bem ou mal ela, há tempos, está representada através de várias pinturas famosas que embeleza paredes de museus pelo mundo, e alguns desses trabalhos são do pintor francês Jean-François Millet que evidencia em parte de suas obras cenas exóticas do cotidiano, integrando homem e natureza, como no consagrado quadro “The Gleaners”, ou “Os respigadores“, de 1857. Confesso que o verbo respigar não fazia parte do meu vocabulário, mas a ação embutida nela, sim, faz parte da minha vida, da sua, e de todo ser que respira, mesmo não sabendo seu significado literal, inconscientemente pratica-se essa ação. Acabei recorrendo ao dicionário para saber a definição exata da palavra e sua filologia, pois nem o meu editor de texto foi capaz de reconhecer. A propósito, Varda inicia a narrativa de “Les glaneurs et La glaneuse” a partir do conceito dicionarizado. Significado de Respigar: v.i. e v.t.d. Ação de apanhar no campo as espigas que aí ficaram após a colheita. Recolher, catar, rebuscar. Fig. Recolher daqui e dacolá o que outros disseram ou fizeram; compilar, coligir: respigar frases célebres.

os-catadores-e-eu_2000Então respigar designa ação de apanhar espigas que sobraram da colheita… faz sentido! Soa esquisito até conjugar o verbo, não? Eu respigo, tu respigas ele respiga… A novidade aqui é questão vocabular. Às vezes temos conhecimento de atos e atitudes que ficam adormecidas dentro da gente e é preciso a ação de alguém para que o mundo tome conhecimento ou fazer com que desperte em nós esse lado adormecido. Catar comida, ou coisas que ninguém mais quer, rebuscar ações, recolher frases, pensamentos, pegar alimentos e objetos abandonados por aí…isso tudo é respigar.

Muitas histórias nunca serão contadas em livros, filmes, rodas de conversas, recitadas ou cantadas; mas esta história, sim, era mesmo para ganhar vida e para a alegria do cinéfilo, nessa linguagem, quadro a quadro, registrados em cada fotograma com direito a narração, direção, roteiro, produção, enquadramentos, edições, trilha sonora, risos, lágrimas, respiração, cabelos brancos, mãos enrugadas, experiência de vida, enfim, para que o espectador nela se identificasse, uma história que o mundo inteiro deve conhecer para se conscientizar de ações como essas tão ambíguas, mensagens da mãe natureza ao homem alertando que se depender dela, jamais faltará alimento para o mundo porque a Terra fértil produz sempre além de sua capacidade, só que o homem por não dar crédito à sua inteligência não reconhece a boa vontade Dela, da natureza e, por isso, desperdiça.

Os-Catadores-e-Eu_2000_00O alimento não colhido é benção para a própria terra que, com certeza, agradece porque ganhará em adubo para novas plantações. E assim todo ciclo da vida se renova, desde a minhoca até o pássaro. E não é a toa que a escolhida para contar essa história fosse alguém especial, com a sensibilidade apurada, capaz de ver o lado bom da vida mais que outros, alguém sensível, experiente, com lembranças interessantes capaz de traçar comparações algo do tipo quem precisa ser compartilhado, comparando um respigador que faz apenas por diversão com outro que faz por necessidade.

A história narrada por Agnes Varda é crua, seria como dizer o lado bizarro da vida, cenas que o mundo varreria para debaixo do tapete, enxergando como grotesca porque lixo ninguém quer dentro de casa, e para muitos a cena dantesca chega a chocar quem dela se farta. E a diretora seguiu adiante nesse seu projeto de cair na estrada para rebuscar o que o mundo tem para oferecer, do grotesco ao sublime tudo que conseguiu capturar em sua câmera na viagem pelas estradas da França, e ainda dando carona a quem mais tivesse interesse de registrar com ela imagens, e ações aparentemente corriqueiras ou aquelas que ficarão para a eternidade retidas na memória como algumas emoções, sentimentos, depoimentos e outras descobertas nessa ação de respigar.

the-gleaners_by-jean-francois-milletEla encontrou na sua respigação, um mestre na arte de ensinar o estudo da vida, um professor de Biologia desempregado vendedor de jornais nas ruas e que rebusca alimentos largados nas feiras livres e nas lixeiras, e esse moço, um sábio, o pão deixado para ele nas lixeiras, é retribuído por ele ao dar aulas aos menos favorecidos. E a vida é um ciclo de troca, todo mundo acaba, sem querer, rebuscando. Uma ação bonita e louvável da parte dele. Nessa sua jornada, Agnes encontrou também alguém na arte de respigar imagens através de sua própria invenção a la Irmãos Lumiere. A diretora teve sorte em suas buscas e garimpagens.

Acabou me fascinado com essa história toda e nos apontando saídas da vida ou para ela na arte de respigar, exatamente como na pintura “As Respigadoras” de Millet. E a diretora também respigou na sua viagem ao Japão coisas fascinantes e estranhas e guardou algumas delas na bagagem além das lembranças do passeio e outras curiosidades que pode carregar.

São as coisas que recolho ao longo do tempo que resumem as viagens que faço… da viagem ao Japão trouxe na bagagem coisas que respiguei.

Os-Catadores-e-Eu_2000_01Esta história ganhou vida não para ser um mero entretenimento, mas para que muitos se conscientizem do que acontece com o Mundo. Tanta coisa que é deixada para trás nas grandes colheitas pela França, (só lá?) nas plantações de batatas, na colheita de maçãs e outras frutas, e tudo que é deixado pelo caminho, aquilo que não foi colhido por algum motivo, não é descartado por muita gente, felizmente é aproveitado e vai-se atrás para catá-las o que é permitido naquele país. Das coisas que são descartadas também no final das feiras, os tomates amassados e as folhas das verduras que murcharam que ninguém vai querer comprar.

Alimentos vencidos que muitos deixam apodrecer na geladeira e acabam servindo aos menos favorecidos. Pães e bolos que as padarias jogam fora sempre terá alguém que vai precisar e querer. Além disso, há o descarte de objetos de todo tipo que são deixados nas ruas quando não se quer mais. E essas coisas ganharão um novo dono e nova utilidade. Uma repaginada do lavou, tá novo!

É um exercício de reflexão sobre o desperdício de alimento principalmente de tudo que é plantado, há mais desperdício do que aproveito. Um século crítico que não dá mais para o mundo se dar ao luxo de descartar alimento.

A diretora é uma respigadora e tanto, capaz de rebuscar muito daquilo que os outros não querem ver nem fazer, e que abandonam despudoradamente nas esquinas da vida. A história é retratada em grandes pinturas realistas, a lição é antiga, mas até hoje o homem não aprendeu a fazer direito o dever de casa. Nós somos os respigadores, ela, Varda, a respigadora. Só posso agradecer por este belo filme fazer parte da minha respigação. Todos nós respigamos de alguma forma as formas de ver o mundo. Hoje eu chamaria de garimpar.

Agnes Varda é mesmo um anjo por nos ter permitido fazer parte de sua viagem.

Por: (E.B.) Karenina Rostov.

Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse. 2000)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Nota: (*¹) De quando o Documentário saiu num Festival, veio com o título de “Os Respigadores e a Respigadora”. Já passando para o circuito comercial, ganhou o título de: “Os Catadores e Eu”.

Meu Verão na Provença (Avis de Mistral. 2014)

meu-verao-na-provenca-2014meu-verao-na-provenca-2014_jean-renoSó em ter o nome de Jean Reno nos créditos já é um convite para ver um filme. E em se tratando de uma Comédia aí já carimba de vez o passaporte. Já no Thriller “O Profissional” ele mostrou ter uma veia cômica e bem peculiar, o que demonstrou em “Para Roseanna” (1997). Esse seu jeito próprio pode ser visto com mais detalhe em “Dupla Confusão” (2003). Convenhamos! Jean Reno já atingiu o panteão dos grandes atores, o que o libera para qualquer projeto, um clássico ou não.

Assim, mesmo que o roteiro traga uma ideia não tão original – um relacionamento de uma pessoa mais velha meio ranzinza com uma criança, nessa história são três -, ele por certo irá deixar a marca. Nem tanto como Henry Fonda em “Num Lago Dourado” (1981), mas talvez mais pela história de “Meu Verão na Provença“. Até porque seu personagem teria que lidar, conviver um tempo com seus próprios netos cujo praticamente desconheciam a existência desse avó. Três jovens bem urbanos ligados em internet, mas que por meios tortos um deles irá mostrar ao avô que a tecnologia do GPS num Smartphone também pode ser útil no campo por fazer ganhar tempo.

meu-verao-na-provenca-2014_01Paul (Jean Reno) vive no campo a cultivar oliveiras e até uma horta tudo sem pesticidas, daí um cuidado redobrado. Até porque com as olivas vem tentando ganhar o selo de qualidade para o azeite que fabrica. A passagem onde o título original “Avis de Mistral” se faz presente, onde Paul explica ao neto Adrien (Hugo Dessioux) a importância do forte vento de verão para a polinização das oliveiras me fez lembrar de uma cena em “A Vida Secreta das Abelhas“, por também fazer uma analogia para um aprendizado sobre a vida. Claro que até chegar a essa “aula”, o relacionamento de ambos esquentou bastante.

meu-verao-na-provenca-2014_02Com a neta Lee (Chloe Jouannet) a temperatura entre ambos também é bem inclemente. Ela e Paul terão grandes arranca-rabos. Por conta dele, pelas lembranças do passado. Por conta dela, por se achar livre para fazer o que quiser, mesmo ainda sendo menor de idade. Lee no início ver a diferença entre ser uma ecologista em plena Paris do que em sê-lo em pleno campo convivendo com muriçocas e outros mais da fauna local. Se ela ainda ficasse nesse tipo de experiências… Mas não! Até para confrontar o avô vai entrar numa gaiola furada: conhecerá um mundo que também adentrou no campo. Cabendo a Paul resgatar essa donzela.

meu-verao-na-provenca-2014_03Dos três, quem logo se ligou ao avô foi o caçula, Theo (Lukas Pelissier). Talvez até por ser surdo-mudo, não se importou por ser de poucas falas. Embora Paul não soubesse a língua dos sinais, ambos conseguiram se entender. Talvez também pela pouca idade, não sentiu tanto como Lee e Adrien a ausência do avô na vida deles. Théo também foi o primeiro a quebrar o muro do coração de Paul.

meu-verao-na-provenca-2014_04Paul é casado com Irèna (Anna Galiena). Um casamento de décadas que até causa espanto em Lee e Adrien, primeiro porque a princípio têm Paul como um cara antipático, ao contrário da avó que a têm como um doce de pessoa, e talvez até por isso, não veem sentido na recente separação dos próprios pais. Embora Irèna faça o contraponto entre Paul e os netos, sua presença é quase de uma figurante. Salva mais pela simpatia do que a história em si.

meu-verao-na-provenca-2014_05Meu Verão na Provença” já começa a nos embalar desde o início com “The Sounds of Silence“, de Simon & Garfunkel. O que já é uma doce promessa de que a Trilha Sonora será um coadjuvante de peso. E é! Com passagens que nos leva a sorrir ao som de “Venus“, de Shoking Blue“, com a chegada de motoqueiros no sítio de Paul que a primeira vista mais parecem saídos das histórias de “Astérix” do que de Woodstock. Essa trupe gaulesa levará Paul a um review também de algo dolorido. Mas em compensação também o levará a cantar “Knockin On Heavens Door“, Gun’s N’ Roses, para deleite nosso! Compondo essa trilha mais do que perfeita ainda temos clássicos como “Born to be wild“, de Steppenwolf; “Sea of Love“, de Cat Power; “Paradise“, de Coldplay. Isso só para citar algumas porque tem mais.

meu-verao-na-provenca-2014_oliveirasA Diretora Rose Bosch também assina o Roteiro. A trama em si muito mais pela presença de Jean Reno e do pequeno Lukas Pelissier, que faz o Théo, deixa até querer uma continuação. Algo como o avô passando uns dias na capital francesa. Ou mesmo recebendo os netos mais uma vez em sua casa, até porque a região de Provença é belíssima! De qualquer forma o tempo dirá se fora a presença de Jean Reno deixará algo mais na memória cinéfila. Vejam o filme! Eu recomendo! Que até pelo entretenimento em quase duas horas, dou Nota 8,5!

Meu Verão na Provença (Avis de Mistral. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

A Família Bélier (La Famille Bélier. 2014)

a-familia-belier_2014E tem um passarinho querendo abandonar o próprio ninho… Mas que para essa gaiola há uma muito chave especial

O filme “A Família Bélier” traz como pano de fundo a entrada para a adolescência, mas muito mais daqueles que não passam o dia com seus celulares nas mãos. Daqueles que já levam uma vida bem mais produtiva ajudando aos pais nos afazeres diários e de onde sai o sustento da família. Nesse em especial, a criação de um pequeno gado leiteiro para o fabrico de queijos. O que já é um convite parra assistir e ver um cenário bucólico. O filme se passa num Um vilarejo na região do Mayenne, na França. É! O filme fala dos que ainda nem descobriram o próprio talento e que o levaria a abandonar o ninho familiar.

a-familia-belier_2014_01Em muitas das vezes o talento é nato precisando apenas vir à superfície, e de ter alguém com um olhar mais apurado, ou mais específico para essa descoberta. Nesse filme veio de um professor: o meio ranzinza Professor Thomasson. Numa bela atuação de Eric Elmosnino. Ele também se sente engaiolado: dando aula de canto numa escola no campo. E o primeiro vislumbre de uma joia rara entre os alunos veio meio que por intuição. Mas esse diamante a ser lapidado parecia estar intimidada até de fazer uso da própria voz…

a-familia-belier_2014_02Em “A Família Bélier” temos então a jovem Paula (Louane Emera). Uma adolescente que se divide entre a escola, a labuta na fazendola, o gerenciar preços de compra e venda desse negócio familiar e além de ajudar a família na feiras de produtores… Sem quase tempo de sobra, correndo de um lado para outro… Tem em seus breves momento de lazer, o conversar com a única amiga, Mathilde (Roxane Duran), e que esta está sempre levantando o astral “cansado” da Paula. Pois é! Com tantas atividades diárias, Paula nem tem tempo para os “dramas” tão comuns na adolescência, principalmente dos sem responsabilidades… Mas eis que nesse novo ano letivo para bagunçar o coração dessa jovem, surge um belo príncipe, Gabriel  (Ilian Bergala)… É! Até o primeiro amor veio nesse pacote surpresa…

a-familia-belier_2014_03Assim temos Paula tentando conciliar tudo que veio num rompante mexer com sua vida de corre-corre rotineira. Onde o cuidado maior estaria em cortar o cordão umbilical, mas muito mais dos pais para com ela… E essa inversão se dá pelo fato de que seus pais – Rodolphe (François Damiens) e Gigi (Karin Viard) – e o irmão caçula (Luca Gelberg) serem surdos. Paula era a ponte que ligava essa família ao mundo sonoro e um onde quase ninguém sabia a língua dos sinais. Fora ela, apenas um outro morador local que conhecia, o Rossigneux (Bruno Gomila), mas tendo esse um certo retardamento mental tal feito o levava a não ter o mesmo jogo de cintura em “traduzir” o humor ácido de Rodolphe… Humor esse que nos leva a certas situações cômicas. Até porque saindo do lugar comum, as falas são um dos pontos altos do filme.

lingua-dos-sinaisO filme “A Família Bélier” é mais um a não fazer uma dramalhão com certas limitações pessoais, tal e qual em “Os Intocáveis“, de 2011. A surdez na família em questão é mostrada com humor. Claro que há momentos que levariam qualquer um ao desespero na vida real. Mas o filme não veio para isso, seria mais para mostrar que assim como essa filha que eles também poderiam encontrar um jeito de ficarem mais independente dela. E assim deixá-la seguir seu próprio caminho. Ele mostra o dia a dia da família de surdos, até dos voos de alguns deles, como o pai querer adentrar na carreira política… Mas mais para mostrar a ligação dela para com eles. Sim! Porque esse filme é dela, da Paula!

a-familia-belier_2014_04Gente! É Cinema Francês! Logo sem nenhuma pressa em contar uma história. Dessa em questão, de uma deliciosa e até comovente momento na vida de uma jovem onde tudo acontece quase ao mesmo tempo. Onde o peso maior será abandonar a família. Nas esperanças e desistências dessa tomada de decisão. De uma adolescente que a vida a levou a amadurecer antes do tempo. O que dificulta ainda mais a ir adiante com a cara e a coragem, sem medo de ser feliz. Tendo como bagagem o talento recém descoberto. Ficar, seguir… Tendo apenas a certeza de que sempre terá um ninho para voltar. Até porque ela nunca deixará de ama-los. E mesmo sendo uma Comédia, não deu para segurar as lágrimas em dois momentos: um deles da Paula “cantando” para o pai…

Então é isso! O filme “A Família Bélier” é Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Família Bélier (La Famille Bélier. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

O Profeta (Un Prophète. 2009)

o-profeta_2009.jpg
Por Roberto Vonnegut.
O Profeta conta uma estória simples de forma magistral.

Malik el Djebena (excelente atuação de Tahar Rahim) tem um dia quase rotineiro: ele acaba de ser mandado mais uma vez para trás das grades. O detalhe é o “quase” – como ele agora é maior de idade, desta vez ele é mandado para a penitenciária central em algum lugar no sul da França. E com convite para ficar alguns anos por lá.

Nenhuma cena que se passe antes da prisão nos conta do passado de Malik, mas os detalhes como roupas e marcas no corpo nos contam tudo o que precisamos saber. A prisão que “acolhe” Malik se situa em uma França em transformação, e nos seis anos de sua pena ele vê a penitenciária mudando.

o-profeta_filmeComo o personagem Jamal de Slumdog Millionaire, Malik tem uma qualidade: ele é maleável, sujeita-se sem reclamar às pancadas que recebe da vida. Mas ao contrário do inocente indiano que aceitava a miséria como parte da vida e cujo final feliz era simplesmente destino “it is written” (ou não), Malik aprende rapidamente e assume a responsabilidade pelo seu futuro. Ele rapidamente descobre que sobreviver na prisão envolve troca de favores – e cabe a ele matar um prisioneiro para ser protegido pela facção inimiga. O Profeta mostra, assim, como um personagem pode agarrar uma oportunidade desde que esteja realmente interessado em se aproveitar dela, custe o que custar. Um dos méritos do diretor Jacques Audiard é mostrar claramente o quanto custa.

Gostei muito do filme. A narrativa praticamente linear é enriquecida pelo mais manjado truque de Shakespeare: nada melhor do que um fantasma (ou um bobo da corte) na hora certa. O fantasma de O Profeta aparece pouco, mas é decisivo para a trama – mesmo sendo totalmente desnecessário. Poucos roteiros conseguem trazer um fantasma tão conciso e relevante.

O filme tem cenas memoráveis. Flashes que mostram os pequenos trambiques e a vida na carceragem, os sapatos na sala de visita por exemplo. A sequência que mais me marcou foi a primeira viagem de avião de Malik – sensacional, especialmente na cena em que ele passa pela inspeção do aeroporto. É um detalhe que vale por mil palavras.

E olha que nem falei da trilha sonora, que para muitos vai soar inesperada em um filme francês.

Thérèse D. (2012). Sem pesar os próprios atos.

therese-d_2012Por Marcos Vieira.

Thérèse se sente sufocada pelo casamento com um homem que ela não ama e resolve matá-lo. Fosse simples assim, esse filme não estaria nessa lista.

therese-d_01Thérèse Desqueyroux (Audrey Tautou) é inteligente e introspectiva. Ao contrário dos outros moradores de sua fazenda e das fazendas vizinhas, ela vive enfiada em livros e não tem medo de dizer o que pensa. Por isso, apesar de não concordarem com ela, todos a respeitam. Seus pensamentos a levam a lugares muito mais distantes do que a maioria ali jamais imaginou ir. Mas Thérèse não é uma questionadora. Ela vê as regras e tradições daquela França rural do início do século XX como parte da vida. Ninguém a força a se casar com o herdeiro da fazenda vizinha. Ela o faz basicamente por dois motivos: primeiro, porque, uma vez juntos, eles terão uma das maiores ou a maior propriedade da região, e Thérèse quer aumentar sua riqueza; o outro motivo é um tanto mais inusitado: ela espera que a vida matrimonial a “conserte”, que tire de sua cabeça todos aqueles pensamentos estranhos ao mundo ao qual ela pertence. Thérèse quer que o casamento mate (e não que satisfaça) a sua curiosidade do mundo exterior.

therese-d_02Esse casamento se torna sufocante não por causa da falta de um amor verdadeiro, ou mesmo por falta de afeto (já que seu esposo sempre demonstra um irritante amor paternal), ou mesmo por falta de satisfação sexual (satisfação essa que realmente não há). Misteriosamente, Thérèse não parece precisar de nenhuma dessas coisas. O que ela realmente precisa é de estimulo intelectual, alguém com quem ela possa conversar sobre coisas mais profundas do que pinheiros, terras e caças. Ela precisa de conversas e rotina mais interessantes, e de ideias que a desafiem. E é daí que surge a tentativa de assassinato. Veja bem, Thérèse não tem um plano para escapar dessa situação, e não é em busca de liberdade que ela tenta matar o marido. No fim das contas, parte dela nem quer ser tão livre assim e nem quer vê-lo morto. Ela o faz porque tem a oportunidade. Dessa forma, alguma coisa minimamente interessante passa a acontecer naquela casa. Basicamente, ela o faz para sair da rotina. Tudo bem, a vontade de se ver livre daquele homem e daquela vida chata está lá inconscientemente, mas em momento algum ela racionaliza em relação a isso. Em determinado momento, quando questionada sobre o motivo, ela responde com um comentário: “Você sempre sabe o motivo dos seus atos.” Ela não.

therese-d_04.jpgO que se vê nesse filme é Thérèse falhando em ser a mulher que a sociedade e o matrimônio exigem que ela seja. Ela quer ser essa mulher, ela tenta, mas não consegue. Thérèse não é uma boa mentirosa, ela não consegue blefar. Ela pode até mentir para si mesma e para os outros, mas seus atos não mentem. Curiosamente, encontramos a antítese de Thérèse na divertida comédia Blue Jasmine, que também está entre os melhores que assisti em 2013. A Jasmine do título é puro blefe. Ela faz o máximo possível para não ter uma só gota de autenticidade. Ela precisa tornar real a narrativa de mulher casada, rica e sofisticada ao qual se propõe. Quando essa narrativa é ameaçada, ela perde o controle, pensa apenas em si e toma atitudes destrutivas para todos ao seu redor. Em sua histeria, Jasmine fica cega pela frustração e não mede as consequências de seus atos. Esse é um Woody Allen triste e obrigatório.

therese-d_03Mas voltando à Thérèse: essa é a segunda adaptação cinematográfica do livro de François Mauriac. A primeira é de 1962 e um tanto diferente dessa nova. Enquanto Audrey Tautou tenta expressar por meio de gestos e olhares as angustias de Thérèse, no primeiro a própria personagem narra em off o que ela está pensando e sentindo. Li uma crítica que considera o primeiro um tanto melhor justamente por essa explicação, não ficando satisfeita com a atuação de Tautou. Fui conferir. Nesse, o clima sombrio é um tanto mais pesado, mas a narração realmente deixa tudo muito bem explicado. E é justamente por isso que prefiro a nova adaptação: por Thérèse estar limitada a gestos e olhares, o telespectador pode ele mesmo tentar decifrá-la, ou até completá-la com partes dele próprio. No final, seu entendimento de Thérèse diz muito mais sobre você do que sobre a personagem que o filme tenta apresentar.