Entre Segredos e Mentiras (All Good Things. 2010)

O filme é baseado num caso real – o desaparecimento de uma jovem, em 1982, no seio de uma rica e tradicional família novaiorquina. Onde o Diretor Andrew Jarecki leva o espectador a conhecer de perto toda a estória. Mesmo ela sendo contada pelo principal suspeito, o marido da jovem. Em “Entre Segredos e Mentiras” mais que tirar conclusões sobre como ocorreu o desaparecimento – já que o filme lança suspeita de como aconteceu o sumiço -, ele nos leva analisar os principais envolvidos: além do jovem casal, o pai do suspeito. Até por conta disso eu fiquei na dúvida: mergulhar na personalidade de cada um desses três personagens – David Marks (Ryan Gosling), Katie Marks (Kirsten Dunst) e Sanford Marks (Frank Langella) -, ou fazer um resumo de modo a motivá-los a ver esse filme. Pois o filme é muito bom! Tentarei não trazer spoilers. Muito embora o filme nos leva mais a um estudo dessas personalidades.

Não sei se pelo fato do ator, ou da estória desse sumiço que fica sem uma punição, ou até por ambos, o lance foi que pensei em “Um Crime de Mestre“. Sem que isso deponha contra o filme, talvez reforce a performance de Ryan Gosling para esse gênero de filmes. Nesse aqui, é ele quem brinca com todos que queiram penalizá-lo pelo sumiço da esposa. Parodiando o outro: “Matei minha esposa. Agora provem!

O filme começa com duas vozes em off, dentro de um tribunal, em 2002. Uma dessas vozes é de David. E nesse interrogatório, ele retrocede no tempo. Esses flashback começam na sua infância. Onde tudo parecia ser saudável. Principalmente a relação dele com a mãe. Depois o filme avança até o dia em que ele conhece Katie. A estranheza que ambos sentiram pela ida dele até o apartamento dela, é meio que explicado mais tarde, já num almoço entre Sanford, David, Katie e a mãe dela.

Aos olhos de Sanford, Katie era uma interesseira. Mas sendo ela culta, e pelo filho estar muito apaixonado, ele faz vista grossa. Só interferindo depois. Mas não a ponto de ver o filho como um sociopata. Aos olhos dele, David era um fraco. Com o desenrolar da estória ficamos sabendo o porque de carregar uma culpa. E que devido a ela, fez o que fez pelo filho. Só não deu a ele o controle da empresa.

Katie se encanta com David, e até com tudo que ele pode lhe oferecer. Mas depois vai descobrindo que o marido não era quem ela imaginava. Fantasiara, mesmo ele tendo lhe dito certas coisas. Não que isso o abone pelo o que ele fez. Mas fica uma reflexão no porque dela ter voltado atrás no rompimento ao saber que sairia sem grana nenhuma. É fácil falar com conjecturas, mas vem a ideia de que sairia sim sem um tostão, mas sairia viva desse casamento.

Sobre a personalidade de David, deixo a sugestão em especial a todos da área psico: terão nele um excelente material de estudos. Para mim, leiga no assunto, o relaciono a uma sociopatia num grau maior. Para os não leigos, talvez já dariam-no como um psicopata.

E o que levou, ou melhor, o que trouxe à tona vinte anos depois esse desaparecimento, tem como consequência esse julgamento que ouvimos desde o início do filme. Levando David a uma queima de arquivos.

Além de toda essa trama, que nos deixa até perplexos, é interessante ver como era a Times Square naquela época. Esse é daqueles filmes que dá vontade de rever logo em seguida, pois deixa a impressão que perdemos uma peça desse jogo. Tamanho é o fio condutor sobre tudo o que aconteceu. Tudo amarradinho num filme muito bom!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre Segredos e Mentiras (All Good Things. 2010). EUA. Direção: Andrew Jarecki. Roteiro: Marcus Hinchey e Marc Smerling. Gênero: Crime, Drama, Mistério. Duração: 101 minutos.Censura: 16 anos.

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Frost/Nixon (2008)

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Quão longe se pode levar privilégios executivos antes que se tornem algo anti-democrático?

Filmaço! De ainda faltar uma meia hora e eu querer que não terminasse. O duelo que temos na entrevista com os personagens do título é sensacional. ‘Frost/Nixon‘ nos traz mais que a falta de Ética de um Presidente, e sim um ato criminoso que fez e tentou encobrir. Esse é um filme que dá vontade de rever logo em seguida.

Pois nessa primeira vez, claro que não dá para não pensar que um deles representa o Richard Nixon. O primeiro Presidente dos Estados Unidos da América a renunciar não apenas para se livrar de um impeachment, mas livrar a si próprio de um ato ilegal que fizera usando-se do cargo ocupado. O escândalo Watergate manchou a Casa Branca de forma definitiva aos olhos do mundo. É algo que não puderam esconder debaixo do tapete.

Depois, ciente do que foi revelado, ou mesmo por ter refrescado a memória, seria então para ver o duelo de dois homens, desacreditados por todos, tentando voltar ao topo. Acontece que nessa tábua de salvação só deixaria lugar para a volta de um deles. E nem seria pela diferença de idade entre ambos. Mas sim por ser o preço da arma que iriam usar: a televisão americana. Para retornarem ao palco pretendido, precisavam agradar ao grande público. O cidadão comum que endeusa quem sai bem na telinha. Até por querer também estar nela. Independente do que já fez no passado.

O filme começa mostrando os que estiveram por trás dos dois. É o primeiro escalão dos bastidores sendo entrevistado. Mas creiam, nem dá para fazer idéia do que irão ver, e saber, na entrevista principal.

Segue mostrando como Frost e Nixon chegaram a ela. Pois de um lado temos David Frost (Michael Sheen), então apresentando um programa de auditório; na Austrália. Logo, tendo uma claque por trás a lhe dar um suporte falso se realmente seria bom no que fazia. Querendo muito voltar a febre novaiorquina, as televisões da grande maçã. No outro, Nixon (Frank Langella), três anos após a sua renúncia, às vésperas de publicar um livro, e cansado do ostracismo político. Precisando para isso, ser entrevistado por alguém nada intelectual, nem com os vícios dos já famosos entrevistadores, ou dos jornalistas. Ambos, pensando que seriam o caçador, que o outro seria presa fácil.

Há, quando ambos se conhecem. Também como Frost tenta captar recursos financeiros para realizar a entrevista, e até para pagar o alto cachê de Nixon. Para então começar as gravações de fato. Como não há o ponto eletrônico, vence o round de cada uma das sessões quem fez bem a lição de casa. É fascinante! Principalmente num certo encontro onde apenas estão só os dois. Aqui, por um acreditar que fará picadinho do outro, acaba por…

Bem, mesmo mostrando um fato real, contar mais, ficaria difícil não trazer spoiler. Assim, paro por aqui, reforçando o convite para não deixarem de ver esse filme. A que eu dou nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

FROST/NIXON (Frost/Nixon). 2008. EUA. Direção: Ron Howard. Elenco: Frank Langella (Richard Nixon), Michael Sheen (David Frost), Sam Rockwell (James Reston Jr.), Kevin Bacon (Jack Brennan), Matthew Macfadyen (John Birt), Oliver Platt (Bob Zelnick), Rebecca Hall (Caroline Cushing), Toby Jones (Swifty Lazar). Gênero: Drama, História. Duração: 122 minutos.