Who is Dayani Cristal? (2013)

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“Para mim é muito frustrante saber que alguém que tinha sonhos, acabou se transformando em um número, estatística.”

Acompanho a trajetória desse documentário desde muito antes de poder assisti-lo. Assim que me lembro de ter lido uma crítica muito ruim quando da exibição do filme no Festival de Cinema Sundance, no qual, aliás, ele foi premiado como melhor documentário. Acreditando nessa tal crítica, pensava comigo mesma: “Ainda que seja ruim, merece o reconhecimento por tratar de um assunto tão delicado quanto cotidiano e essencial de ser pautado”. Estritamente, a imigração clandestina para os Estados Unidos através da fronteira com o México. De maneira mais abrangente, o questionamento de inúmeras condições pré-estabelecidas e naturalizadas, mas que, na realidade, são como tudo, uma construção ao longo do processo histórico: as fronteiras, o capitalismo, a exploração do homem pelo homem, a hierarquização das pessoas e de suas vidas, a valoração da mercadoria, entre muitas outras.

Pensava eu que esse filme seria como tantos outros que se propõem a discutir questões sociais e políticas importantíssimas, mas que falham por vários motivos, como o excesso caricatural na construção de situações e personagens, por exemplo. Insiro nessa linha o filme Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000) e Déficit (Gael García Bernal, 2007). Ambos têm a proposta de retratar as relações entre a classe média e as classes populares, mas acabam se tornando caricatos e chatos. Em outra chave, temos o filme O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), cuja representação da sociedade pernambucana nos trouxe aos olhos as sutilezas da exploração cotidiana e das relações entre classes, tão mais perversas quanto mais invisíveis.

Pois bem, ainda que todos esses três filmes aqui citados sejam ficções e Who is Dayani Cristal? seja um docudrama, acho plausível dizer que ele segue nessa segunda linha de filmes que vão tratar de questões essenciais ao entendimento da sociedade sem fazê-lo de forma caricatural, simplificadora e/ou redutora. Com um posicionamento político bastante claro desde seu início, o documentário cumpre bem seu papel de denúncia e militância sem se tornar chato, maçante ou apelativo.

O filme se desenvolve em duas vertentes: a primeira, claramente documental, que retrata as dificuldades de identificação de corpos de imigrantes clandestinos encontrados no deserto do Arizona, tendo como mote um corpo com a tatuagem “Dayani Cristal” no peito. A segunda vertente, misto de drama e documentário, é aquela que mostra a reconstrução feita por Gael García Bernal da trajetória deste hondurenho encontrado morto. Não há aquelas cenas às quais costumeiramente adjetivamos como chocantes: sangue, violência, agressão. Mas há sangue, violência e agressão, expressas de maneira sutil, assim como é sutil tudo que faz com que as situações retratadas no documentário possam ocorrer todos os dias em diversos lugares sem que seu questionamento consiga bater de frente com a política que garante sua reprodução.

E esse pra mim é o grande acerto do documentário; colocar a forma fílmica e a forma social em compasso. A violência social denunciada pelo documentário é praticada na realidade cotidiana com tanta sutileza como nos é apresentada no filme. A agressão diária que faz com que homens e mulheres sejam obrigados a abandonar seus países deixando para traz sua história, sua identidade e as pessoas a quem querem bem para se arriscarem numa jornada permeada por perigo, carência e invisibilidade é tida por quase todos como natural ou, quando muito, irreversível. Daí que se reproduza há tanto tempo, cada vez de maneira mais qualificada, otimizada, deixando para trás centenas de milhares de pessoas, consideradas menos importantes e, portanto, de morte aceitável; uma estatística.

Outro ponto bastante positivo do documentário é logo no começo já deixar claro que estamos diante de uma construção metonímica, que parte de um pedaço para exemplificar o todo: a trilha dos créditos iniciais é a canção Latinoamerica, da dupla porto-riquenha Calle 13, da qual gosto muito e que, na minha opinião, é uma das produções artísticas que mais bem captaram o que é ser latino-americano e onde nos inserimos socialmente, como devemos nos portar: de pé e em luta. Como o próprio nome da canção diz, quem canta é todo latino-americano e, portanto, a história não é apenas do homem com a tatuagem “Dayani Cristal”, mas sim de muitos e tantos outros irmãos de continente e de trajetória.

Fica a minha recomendação do filme, bastante interessante, contundente e honesto. Ainda não está disponível em DVD e, infelizmente, acho que uma exibição nos cinemas brasileiros é improvável. De qualquer forma, pode ser encontrado para baixar na internet, mas sem legendas. Quem é Dayani Cristal? Bora treinar o espanhol e o inglês, pessoal… Vale a pena! Para assistir ao trailer do documentário, clique aqui. Link no IMDB.

“Sem guardas, sem controles. Aqui não se necessitam passaportes. Talvez assim devessem ser todas as fronteiras.” – Gael García Bernal, sobre a fronteira entre a Guatemala e o México

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“NO” (2012). E a Derrota das Velhas Ideologias

no-2012_posterPor Eduardo Carvalho.
NO 01Em sua “retomada” nos anos 90, o cinema brasileiro parece ter perdido muito de sua veia política. A extensa variedade de ofertas – filmes históricos, comédias, dramas com crítica social, policiais, documentários musicais – não privilegiaria hoje obras como “Terra em Transe” ou “Pra Frente Brasil” (talvez com exceção do documentário “Marighella”, de 2011). Em vista de tal lacuna – e pelo fato de muita gente ter saudades da ditadura militar -, ver “No” já seria imprescindível. O longa de Pablo Larrain aborda o período em 1988 no Chile, em que o ditador Augusto Pinochet, sob pressões internacionais, convocou um plebiscito para legitimar sua permanência no poder. Assim, a oposição, constituída por uma esquerda dividida, inicia uma campanha pelo “Não” a Pinochet; o governo, certo de manter o ditador no cargo de uma forma ou outra, começa uma indolente campanha pelo “Sim”.

NO 03Mas a simples sinopse não faz jus ao filme. A escolha de Larrain em centrar o desenvolvimento da narrativa na campanha publicitária, e não propriamente no embate político, é um dos grandes achados da obra (na verdade, baseada numa peça inédita, El Plebiscito). René Saavedra (Gael Garcia Bernal) é um publicitário e filho de exilado que, ao ser contatado pela esquerda, aceita colaborar com a criação da campanha do “Não”. Por sua vez, o chefe de Saavedra, Lucho Guzmán (Alfredo Castro), simpatizante da ditadura e com contatos na alta cúpula, passa a chefiar a campanha governista. Aos poucos, a princípio sem deixar-se levar pelas paixões políticas ou pela pressão do chefe e rival, Saavedra adere à campanha, insistindo em um tom alegre e festivo da mesma, como se tratasse de uma mera conta publicitária da Coca-Cola ou do MacDonald’s, certo de que teria melhores resultados. Insatisfeita com a decisão de Saavedra, a qual contraria por completo a seriedade do tema e suas ambições, a oposição paulatinamente torna-se simpática à insistência do publicitário, à medida que a campanha vai ganhando pontos junto à população. Quando o governo acorda, já é tarde, e vale-se da truculência para intimidar os virtuais vencedores. Ao final, é mostrado como a vitória do “Não” abriu caminho para a derrocada do regime de Pinochet.

NO_2012O maniqueísmo passa longe de “No”, quase um paradoxo, já que trata de uma “simples” escolha entre duas (o)posições. Seria fácil criar uma identificação do espectador calcada nessa ou naquela escolha política, em um herói e um vilão excessivamente estereotipados e/ou ideologicamente bem definidos. Mas não; o diretor se vale de outros artifícios para conseguir seu intento. Como componente visual, auxiliando o mergulho da plateia no clima da época, Larrain inseriu cenas reais dos filmes publicitários, além de filmar no formato utilizado nos anos 80 com uma câmera utilizada naquele período, arrematada no site Ebay, de forma a não haver quase distinção entre real e ficcional. E Bernal e Castro – este, com menor tempo de projeção na tela – criam dois profissionais de publicidade cheios de ambiguidade, pragmatismo, e fiéis a uma outra ideologia que não a das partes envolvidas: para eles, o capitalismo, acima de tudo. Alguns críticos perguntaram: vitória da esquerda ou do marketing? A História, bem como a conclusão do filme, parece mostrar que é a lógica da linguagem da publicidade que prevalece e vence, e não uma simples crença no certo ou no errado. Inequívoco sinal dos tempos.

NO (2012). Chile. Direção: Pablo Larraín. Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Luis Gnecco, Marcial Tagle, Diego Muñoz, Manuela Oyarzún, Jaime Vadell. Gênero: Drama. Duração: 110 minutos.

Cartas para Julieta (Letters to Juliet. 2010)

Doce contentamento já passado,
em que todo o meu bem já consistia,
quem vos levou de minha companhia
e me deixou de vós tão apartado?
” (Camões)

Ter Vanessa Redgrave atuando já é um belo convite para que eu assista a um filme. Franco Nero, também. Se bem que com ele nos Westerns de outrora a memória já não ajuda mais. Com ele o que ainda está na memória é seu personagem em ‘Querelle‘. Somado a eles em saber que veria a Itália. Suas paisagens sempre me agradaram. Completaria se tivesse uma Trilha Sonora apaixonante já que Romances na Itália me faz pensar em músicas lindíssimas. Mas isso viria com o desenrolar do filme. Assim, lá fui eu assistir ‘Cartas Para Julieta‘.

Com o início do filme também me peguei a pensar em porque o casal escolheria para uma pré lua de mel Verona. Mas precisamente cenário de ‘Romeu e Julieta’ – de Shakespeare. Seria um teste para ver se o amor deles não morreria?

O porque da escolha de Verona. Para Sophie (Amanda Seyfried) não restara outra opção. Ela queria sim um tempo maior com seu noivo, Victor (Gael García Bernal), porque ele logo inauguraria o seu próprio restaurante. Então ela queria uns dias juntos, só ela e ele. A questão é que o local fora escolhido por Victor. Porque iria ver os fornecedores – vinhos, queijos, frios, azeites… -, para o restaurante. Assim, o cenário shakespeariano para ele era de fato uma viagem de negócios. Nada a ver com a viagem romântica que Sophie planejara.

Embora Sophie trabalhasse numa grande Editora seu trabalho era de apurar dados de um fato. E talvez por ter estado envolvida com a sua mais recente pesquisa – encontrar quem seria o marinheiro sorridente na famosa foto ‘O Beijo na Times Square‘… -, a levou a fantasiar que encontraria a inspiração sob o balcão da Julieta. Além de uns dias in love com Victor. Bem, eu me considero uma pessoa muito romântica, mas também não posso negar o meu lado prático. Dai, se o meu propósito seria escrever uma longa história romântica eu estaria sim fazendo pequenas anotações. Sophie só passou a anotar, a escrever, a partir de uma história que já contarei. Quase uma história pronta como se só lhe faltasse transcrever; colocar no papel uma história alheia. Posso até aceitar como o iniciar de uma carreira literária, mas a personagem parecia um tanto quanto superficial.

Pois se Sophie queria ser mesmo uma escritora… Por que não ia colhendo dados ao acompanhar Victor nas fazendas? Pelo menos já teria um belo background para uma história, e até uma romântica. Acontece que ela não se sentia integrada naquele contexto do seu noivo. Isso já fica evidente quando sente que a sua mão ficou suja com a farinha (trigo) da massa que Victor fizera. E ele estava entusiasmado, como se tivesse inventado o macarrão.

Como podem ver a tal lua de mel estaria relegada aos intervalos que possivelmente ambos teriam com essa viagem. Enquanto isso, Victor era um entusiasmo só, saboreando, como também aprendendo: receitas e a História de cada produto. A única coisa que estava lhe escapando do olhar, era a sua noiva. Que sentiu suja a mão de farinha, mas não fez o mesmo com um sorvete na cara de um outro cara…

Sem a companhia do noivo Sophia vai visitar os pontos turísticos de Verona. Sentada sob o balcão de Julieta fica observando e quem sabe clamando por uma inspiração. Aqui, um outro detalhe a faz uma personagem sem consistência. Pois se queria tanto aproveitar a viagem para escrever um livro e sendo a trama do filme no tempo atual, logo há a internet. Ela já deveria ter lido antes sobre o que fizeram do tal cenário de Shakespeare nas últimas décadas lá em Verona. Até me causou espanto do dela ao ver uma jovem indo embora chorando muito. Não lhe passou pela cabeça que a jovem estava sofrendo por amor?

Saindo um pouco da ficção e falando de Turismo e Marqueting… É que quando governos pensam de fato em investir no Turismo local, conseguem mesmo. Porque turistas geram Receitas. Claro que tem que ter um planejamento, um certo controle para não causar danos ambientais ao local. E foi por ai que fizeram em Verona. Aproveitaram da história do livro para também atrair um outro tipo de Turistas. E a Casa da Julieta alugam até para casamento. Um pouco de Verona:
Verona sabe muito bem o que a faz famosa: a história que data dos tempos romanos, uma localização que a fez ser disputada pela Itália e por outros países europeus, além de algumas das mais bonitas arquiteturas romana, românica, gótica e renascentista de toda a península. Mas tirando os veroneses, pergunte a qualquer outra pessoa o que mais ela conhece sobre a cidade? Romeo e Julieta. Isso mesmo. Em Verona também temos uma casa com balcão.
A família Capuleto, de Romeo e Giulieta, realmente existiu, embora nunca tivessem morado na casa que hoje se chama Casa Giulietta (Via Cappello 23, 045 803 4303). Mesmo assim, os turistas ainda se espremem no pequeno pátio para olhar a varanda, que na verdade foi construída nos anos 1920 para que tivessem algo palpável para olhar. A casa pode ser visitada, mesmo que seja para pisar na varanda e voltar.
” Tem mais aqui: http://www.guiatimeout.estadao.com.br/italia_verona_contexto .

Voltando ao filme… Numa tarde, já quase hora do fechamento, ela vê uma jovem recolher as cartas deixadas por turistas num muro da casa da Julieta. Curiosa, Sophie a segue. A mulher encontra-se com outras num restaurante que tem como nome: Cartas para Julieta. Elas vão para o interior da casa. Sophie as segue e pergunta do porque de recolherem as tais cartas. A jovem em questão é Isabella (Luisa Ranieri). Que explica que ela e as outras – Francesca, Donatella e Maria -, respondem as cartas. Patrocinadas pela Prefeitura. À cada uma um tema específico nessas respostas: conflitos matrimoniais, doenças, perdas

Interessada em algo de fato desde que chegou a Verona Shophie então investe seu tempo em acompanhar o que elas fazem. Indo ajudar Isabella com as cartas, ao retirar uma cai uma pedra do muro. Ela retira uma carta que estava lá dentro. Ao ler vê que fora escrita a 50 anos atrás. E que contava de um grande amor entre dois jovens: ela, uma inglesa, e ele, um italiano. Se conheceram durante uma passagem dela pela Itália. Na carta dizia que estava dividida entre ficar, fugir com ele, ou seguir de volta a Londres com os pais. Já que esses proibiram o namoro. Todas começam a divagar sobre o que teria acontecido depois: se Claire ficara na Itália com o Lorenzo, ou não. Sophie pede para responder a Claire.

Continuando sem ter o noivo ao seu lado… Eis que um jovem inglês bravo se faz presente. Era Charlie (Christopher Egan), o neto de Claire. Ele acompanhara a avó à Itália. Claire aceitara a sugestão de Sophie na carta. Embora décadas se passaram ela queria estar com o seu grande amor Lorenzo. Charlie achava aquilo uma loucura, mas amava a avó para deixá-la sozinha nessa aventura. Claire conta que o conhecera em Siena; viera fazer um Curso de Arte em Toscana. Se valendo do seu talento em apurar dados, Sophie traça num mapa os vários Lorenzo Bartolini daquela região. Então os três seguem juntos nessa busca. Desde aquele que se diz ser o seu jovem Lorenzo, passando até por aquele que a própria esposa pede que o leve, será um longo caminho a ser percorrido…

Cartas Para Julieta‘ trata-se de uma Comédia Romântica com um pouco de Drama. Assim, com todos os ingredientes desse gênero. Logo, não há surpresas no que irá acontecer. O Roteiro também não ajuda muito: é bem mediano. A Trilha Sonora que poderia ser um grande coadjuvante ficou perdida. Com uma ou outra música que combinaram de fato com a cena.

Então, o que fez valer a pena ter assistido? Além de um belo Tour por essa região da Itália.

Gael Garcia parecia uma criança brincando feliz num parque de diversão. Tão esfuziante que acabou passando do tom num solo onde a trama do filme não pedia. Por suas outras passagens em outros filmes fiquei pensando que a Direção falhou muito. Em relação a Amanda Seyfried me peguei a pensar se já fui com um certo olhar crítico já que não gostara também da atuação dela em ‘Querido John‘. Enfim, quem fez de fato valer a pena ter assistido ‘Cartas Para Julieta‘ foi ela: Vanessa Redgrave. Uma das Grandes Divas do Cinema. Vê-la atuando é uma grande aula. Além do que é muito bom em ver em cena um par romântico com atores mais maduros. Franco Nero, casado com ela na vida real, deu química no romance da tela. Como um cavalheiro à moda antiga não catalizou para si os olhares mesmo tendo tão belos olhos. Foi também para a Vanessa a emoção sentida no reencontro.

Então é isso! ‘Cartas Para Julieta‘ é um bom filme, mas que não entrou para a minha lista de querer rever. Quem sabe passado um longo tempo e numa exibição pela televisão.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Cartas para Julieta (Letters to Juliet). 2010. EUA. Direção: Gary Winick. +Cast. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 105 minutos.

(1*) A foto do Balcão da Julieta, foi cortesia desse site: http://www.freefoto.com/

Ensaio Sobre a Cegueira (2008): Uma Análise

Acabo de sair do cinema. Me encontro em estado de êxtase contemplativo. Estou pasmo, feliz e um tanto quanto emocionado. Um dos meus maiores temores já não tem razão de ser, pois Fernando Meirelles conseguiu a façanha inédita de adaptar com maestria a obra maior de José Saramago. Creio que as palavras que melhor descrevem o meu estado neste momento são estas duas: orgasmo mental.

José Saramago, em minha franca opinião, é o melhor escritor de literatura de todos os tempos. Me desculpem Dostoiévski, Tolstói, Hemingway, Kafka, Dante, Herman Hesse, Fernando Pessoa – também amo todos estes – mas Saramago, além de sua excepcional criatividade, tem uma maneira singular de contar histórias: ele sabe escolher as palavras certas e como encaixá-las no texto, graças a sabedoria popular adquirida durante toda uma vida levada com simplicidade. Sua narrativa é um espetáculo a parte e não posso simplesmente tentar explicar a sensação de ler um texto de Saramago justamente porque as palavras me limitam a fazer justiça à sua obra.

Li o livro Ensaio Sobre a Cegueira em Junho de 2001. Poucos dias se passaram entre o início e o fim, pois a história era tão instigante que não conseguia chegar à um ponto que me bastasse. Acabei por ficar tão envolvido com toda a magia do livro que não queria saber de mais nada, a não ser apreciar lentamente e com delicadeza página-por-página daquela história que nunca saiu de minha mente. Se tivesse que escolher apenas um livro para ler durante toda a minha vida, não hesitaria em escolher o Ensaio Sobre a Cegueira como principal candidato.

Este não é o único livro que li de Saramago. Ao contrário, faltam apenas alguns para que eu tome conhecimento de toda sua obra, porém o Ensaio chega a ser tão bom que ofusca outras histórias. Conforme estes meus comentários, vocês devem imaginar que eu sou uma espécie de fanático pelo autor português, então imaginem a minha preocupação e angústia ao saber que a melhor história de todos os tempos seria filmada?

A primeira coisa que veio em minha mente foi: como? Como uma obra considerada por mim e por muitos como intransponível para as telas poderia ser filmada? Coisa boa é que não poderia surgir de tamanha ousadia. Desta forma, será que os realizadores do filme não iriam assassinar o livro dourado escrito em nosso tempo? Como ficariam os diálogos ácidos de Saramago? Como eles poderiam ser traduzidos em imagens?

Não irei assistir! Pronto! Seria persistente em meu ponto-de-vista e valeria de minha teimosia para bater o pé e não ceder. Porém um vídeo no YouTube, me fez mudar de idéia.

Nele, temos Saramago, ao lado de Meirelles, em lágrimas dizendo que a emoção que estava sentindo era a mesma de quando ele havia terminado de escrever o livro. Fiquei arrepiado dos pés a cabeça! O próprio autor dera o seu parecer, e de forma tão intensa que não havia como a adaptação ter ficado ruim. Enfim, fiquei ainda mais confuso e curioso. De certo, somente a decisão que iria, a qualquer custo, assistir a película no cinema.

Enfim, minha mente era um turbilhão de pensamentos. Eis que chega o grande dia. Quando entro no cinema entro também numa batalha contra todos os pré-conceitos formulados anteriormente. Tenho medo do resultado final. Desejo, com antecedência, que o filme seja ruim, pois então estaria vingado de todos os diretores que insistem em dizimar um autor consagrado ao tentar prostituir uma bela história nos cinemas hollywoodianos.

Deveria ter me recordado que do outro lado não estava qualquer diretor. Estava um que não insulta a mente do telespectador e que respeita a sua inteligência. O brasileiro Fernando Meirelles já provou que é um dos maiores nomes do cinema internacional. Em algumas entrevistas, ele disse que já foi convidado para dirigir grandes blockbusters, mas este não é o seu foco, mas sim fazer filmes tocantes. Foi assim anteriormente com “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”. Obviamente ele trataria com carinho o maior clássico de Saramago. Ele não entraria num projeto que considerasse inviável apenas para ganhar projeção. Meirelles, ao aceitar o desafio, teve coragem superior aos espartanos na batalha contra os persas. Era o seu nome e sua carreira que estava em jogo. E ele superou todas as minhas expectativas.

ATENÇÃO: Contém SPOILERS a respeito da história. Se não quiser saber o que acontece, então não leia o conteúdo abaixo.

O que aconteceria se as pessoas passassem, de súbito, a perder a visão – e não uma cegueira escura, mas branca, como uma luz cintilante e intensa? Este é o tema explorado por Saramago em seu livro de 1995. Por trás de uma idéia simples surge um leque tão grande de possibilidades que Saramago consegue explorar o que há de mais selvagem e humano nos homens e colocar-lhes em frente à um espelho: hora refletimos bestialidade, hora fragilidade.

Um homem, em meio ao trânsito, fica cego. Logo, outros vão ficando. Passa-se algumas semanas, e a proporção de cegos aumenta de forma que o governo e as forças armadas se vêem forçados a tomar medidas drásticas e colocar os infectados pela “maldição branca” em quarentena numa espécie de alojamento, de modo que acredita-se que o vírus seja contagioso. No começo apenas um casal fica encarcerado, mas em pouco tempo surgem dezenas e dezenas de pessoas, a maioria sem saber o que realmente está acontecendo. Quem está dentro desta prisão improvisada não tem contato algum com o mundo exterior.

Dentro desta situação, temos uma mulher que enxerga, que resolveu entrar em quarentena para ajudar o marido em sua cegueira. Porém ninguém, a não ser o próprio marido, sabe de sua condição. Logo, grupos irão se dividir, e eles entrarão em conflito por necessidades básicas. Depois são apenas os demônios presentes em cada ser que irão orientar o seu caminho, de modo que eles chegam a se tornar figuras selvagens de uma selva sem lei.

A primeira coisa a observar é o caráter existencialista da história: inesperadamente somos devastados com uma epidemia de cegueira. Em nenhum momento sabemos como ou porquê. Sendo os homens seres que entendem que são controladores de todas as situações, ao se deparar com tamanho absurdo entram em crise de identidade. Nestas situações extremas, a figura do homem real, sem influências e sem moderações, costuma aparecer de forma intensa e irracional. O homem tem a necessidade de explicar o início e o fim de todas as coisas, logo quando se depara com algo inexplicável, uma dor muito intensa toma conta de si, de modo que ele beira a falta de sanidade e passar a cometer atos inexplicáveis.

Ainda nesta linha existencialista, temos a figura de uma mulher que enxerga num universo de pessoas que só vêem branco a sua frente. No inicio ela acha que é questão de tempo até ficar cega, como todos os outros, porém logo ela entende que não irá perder a visão. Então porque ela? Como ela pode ser imune à algo que atinge a todos? São perguntas que não temos respostas em nenhum momento. O certo é que ela está sozinha. E a aparente vantagem que ela leva em relação ao resto se converge em sofrimento ao vislumbrar o que há de mais bárbaro nos atos dos homens. Como dizem no popular, as vezes é preferível não vermos do que vermos tantas coisas ruins. Esta é uma verdade.

O segundo ponto a ser observado é que a epidemia é de cegueira. Num mundo onde imagem é tudo, não acredito que Samarago inseriu a deficiência coletiva de forma desproposital. Ao contrário, ao retirar a visão das pessoas, o autor removeu toda a referência disponível para seres subordinados a apenas aquilo que vêem. Ele desnudou o homem e o colocou na frente do espelho para mostrar quem realmente é: o homem sem referência de imagens é um homem desesperado, pacato e covarde, que não se entende e não entende o que está ao seu redor. Imagens funcionam como signos de fé. Logo, acredito naquilo que eu vejo, pois o que eu vejo é evidência daquilo que realmente é. Porém com este raciocínio podemos concluir que quando não vemos não entendemos, logo, deixamos de existir.

O terceiro ponto inicial que gostaria de mencionar é a cegueira branca. No escuro, temos a tendência de ficarmos relaxados. Já no claro, ficamos mais agitados. O dia é para viver e a noite para dormir. Agora imagine que quando você fechasse os olhos, ao invés da escuridão, enxergasse um branco ofuscante como se tivesse olhando para o próprio sol? Como você iria conseguir dormir? Nesta linha, Saramago frisa que o homem começa, vagarosamente, uma jornada rumo a loucura. Sendo assim, cada dia que passa, mais próximos estamos de um colapso generalizado.

Somente com estes três pontos podemos apreciar a obra com um olhar mais crítico e contemplativo. Creio que Meirelles entendeu a sacada e se preocupou mais em trabalhar a trama e estes conceitos do que transpor os diálogos e a narrativa de Saramago no livro. E foi por isto que a adaptação foi estupenda. Justamente porque o filme não inibe o prazer de ler o livro mesmo após ter assistido o filme ou vice-versa.

A direção do filme é soberba e exemplar. É sombria, como deveria ser, e transita os nossos sentimentos entre o desespero e o alívio, a indignação e a resignação. A história não foi criada para ser bonita – ainda que seja – mas para dar um tapa em nossa cara e dizer: “Aí esta você! Acorde antes que seja tarde!”. Meirelles trabalha com o branco e o negro de forma mágica: tons desfocados são inseridos no canto da tela e ao fundo, as vezes temos sobreposições de imagens e efeitos fantasmas, quando então ele decide dilatar a pupila da câmera. Então somos arremessados num mar de leite, a tela fica branca, os diálogos são construídos sob a perspectiva das personagens e quase nos tornamos um deles.

Algumas cenas são perturbadoras e deixarão cicatrizes por anos em minha mente. Servirá para lembrar que para situações extremas podemos esperar atitudes extremas, ainda que sem justificativas. É o desencontro do homem. A fuga que ele necessita para acobertar suas atrocidades sem sentimento de culpa. No fim, jogamos a dignidade numa lata de lixo e o que nos sobra é este nada que representa o ser humano no contexto universal. Não um nada no sentido mais vazio, mas um nada quando comparado que ele não é a única força que rege o mundo e que a própria vida tem as suas regras que desconhecemos, sendo que todos estão sujeitos a sofrerem as conseqüências dela.

Na busca pela sobrevivência acabamos por nos encontrar novamente e vemos uma outra face no espelho. Ficamos envergonhados de certos atos ao fazer uma genealogia de nossa vida. É tempo de recomeçar e aceitar as coisas como elas são. Esta é a única maneira de recuperar a nossa dignidade e extrair alguma bonificação que a vida possa nos dar: aprendendo a conviver consigo mesmo, assim como entendendo suas limitações.

Belíssimo! Belíssimo!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO  Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Ensaio sobre a Cegueira (Blindness). 2008. Brasil. Direção: Fernando Meirelles. Elenco: Julianne Moore, Danny Glover, Alice Braga, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Don McKellar, Maury Chaykin, Martha Burns. Gênero: Drama, Suspense. Duração: 124 minutos. Censura: 16 anos. Adaptação do livro de José Saramago.