Uma Vida Melhor (A Better Life. 2011)

Uma-Vida-Melhor_2011O Diretor Chris Weitz faz uma leitura de “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio de Sica, para “estruturar” nesse seu filme. Em vez de termos a sofrida situação vivida por italianos no pós-guerra, Weitz desenrola a trama de “A Better Life” a partir do dia em que um pobre jardineiro – e imigrante ilegal – tem a sua camionete roubada.

um-vida-melhor_2011Carlos (Demián Bichir) é um pai viúvo. Seu filho adolescente nasceu nos EUA, e enfrenta alguns problemas na escola – com gangues do gueto onde moram. O conflito entre pai e filho é basicamente o mesmo que fora explorado no filme “La Mission” (2009), mas em “A Better LifeWeitz não discute questões sobre sexualidade, apenas faz uma sincera jornada ao quão difícil se torna a vida para quem é um imigrante ilegal, pois a lei nunca pode estar ao lado deles.

Lutando para dar um vida melhor para o filho, o destino de Carlos se torna cruel quando ele compra o seu próprio veiculo – mesmo sem ter carteira de motorista-, para assim capacitá-lo a ter mais trabalho. Porém um dos seus companheiros – também ilegal – rouba a camionete. Devido a sua ilegalidade, Carlos é incapaz de comunicar o roubo para as autoridades, mas isso não o impede de sair numa missão para conseguir a camionete de volta. De uma forma estranha, esta missão lhe traz para mais perto de seu filho, enquanto compromete sua vida nos EUA.

Particularmente, o roteiro é sobrecarregado com o drama e aflições dos personagens principais, e mesmo que as intenções de provir uma vida melhor para o filho sejam as melhores, Carlos em si tem uma vida de cachorro. Mas Demián Bichir é tão brilhante que faz o filme ser digno ser visto e revisto. A raiva, a confusão e a dor expressa no rosto de Bichir eleva o roteiro excessivamente sentimental – valendo mais do que qualquer diálogo num tipo trama já tão explorada.

Nota 6.0.
Por Rogério Silvestre.

P.S.: Fiquei muito feliz que Demián Bichir ter sido indicado ao Oscar por esse papel, mas gostaria que ele estivesse ao lado de outros atores que estiveram brilhantes nesse mesmo ano como Joseph Gordon- Lovitt por “50/50“, Leonardo DiCaprio por “J. Edgar”, Michael Fassbender por “Shame” e Ryan Gosling por “Drive.”

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Sem Identidade (Sin Nombre .2009)

No ano passado, quando fui convidado por Lella para escrever neste blog, fiquei um pouco inseguro porque não sou critico de cinema— apenas gosto muito de cinema— e, quando escrevo, sinto que não consigo ser neutro, isto é, coloco muito de mim nos textos.  Escrevo algo. Depois, passo dias longe do texto, e quando me reencontro com o texto, tenho que re-escrevê-lo. Outro dia, tive a ousadia de reler alguns dos textos que escrevi para o blog, e eles não me deixaram uma boa impressão!

Em 2009, assisti grandes filmes, mas apenas dois desses filmes eu considero marcantes: “Sin Nombre”— a estréia do Americano Cary Fukunaga na direção— e, “The Stoning of Soraya M.” — dirigido por Cyrus Nowrasteh, que escreveu e dirigiu o polêmico documentário “The Path to 9/11” (2006). São filmes distintos, e tentei escrever sobre eles, mas entre tantas revisões— cinco  ao todo!—me deixaram insatisfeito, e frustrado, e por tal razão deixei os textos de lado. A primeira revisão foi muito sobre a minha opinião sobre a imigração em “Sin Nombre”, e sobre Islãmismo em “The Stoning of Soraya M“. Achei que não elaborei nada de legal sobre os filmes. A segunda revisão foi o contrário. A terceira revisão foi sobre como esses filmes foram feitos e para quem foram feitos — será que tenho esse direito? Praticamente cataloguei um filme para um determinado público. Me achei tão técnico, e tão arrogante, que resolvi deletar o texto. A quarta revisão foi muito pessoal—usando muito da minha esperiência de vida—, e aí, me envolvi tanto com os textos, que de uma forma, sofri para terminá-los e resolvi parar de revisar, pois tudo estava uma m*rda.

Se passou  alguns meses. Praticamente, esqueci dos textos por achar que não valeria a pena publicá-los. Por acidente, lendo um livro do Roger Ebert, encontrei essa citação:

Um filme não é bom porque ele chega a conclusões que você compartilha, ou ruim, porque isso não acontece. Um filme não é sobre o que ele se trata. É sobre como ele é: sobre a forma como ele considera o seu tema, e sobre como o seu verdadeiro tema pode ser diferente para a quem ele foi provido.”

Achei essa citação tão relevante, que me motivou a rever “Sin Nombre” e “The Stoning of Soraya M.” neste final de semana. Voltei aos textos e os terminei.

“Sin Nombre” começa num cenário lindo, a luz solar de tons dourados. Em seguida, se vê um jovem sem camisa— e, cheio de tatuagens—, segurando um cigarro. Depois, a camera se posiciona nas costa desse jovem—que depois ficamos a saber que o seu nome é Willy/ El Casper (brilhante atuação de Edgar Flores) —, onde podemos ver o cenário etéreo de dentro da casa para fora, e ficamos a saber que esse é o único momento de paz que Casper vai ter.

A estória de “Sin Nombre” se passa em Tapachula, no sul do México. Casper vai levar o seu novo amigo Benito (Kristyan Ferrer, que tem a mais expressiva presença cênica na tela, desde Ravi Ramos Lacerda, em Abril Despedaçado), que inicia sua vida como membro da gangue “Mara Salvatrucha” — gangue criminosa transnacional que se originou em Los Angeles e se espalhou para outras partes dos Estados Unidos, Canadá, México e América Central. O menino de 12  anos de idade é logo “batizado” de Smiley, depois de levar uma surra dos membros da gangue, e soltar o sorriso através das lágrimas.

Nesse meio termo, temos outra enredo: em Honduras, conheceremos Sayra (Paulina Gaitan, também em excelente atuação). Sayra reencontra com o seu pai e um tio distante. Eles se preparam para ir ao Mexico e, atravessar a fronteira e imigrar para os Estados Unidos. A estória de Casper e Sayara vão se mesclar durante uma tentativa de estupro no topo de um trem. E assim, ficamos no meio de duas jornadas: a de Sayra que  é  de chegar ao seu destino ( Os Estados Unidos), e a de Casper que, é de tentar escapar de seu destino. A amizade deles se aprofunda ao longo do caminho e os problemas de Casper com os seus “amigos” da gangue  também. Por um lado temos um estudo de uma cultura de gangues e da corrupção da juventude, por outro lado, “Sin Nombre” é sobre imigração e sobre a dolorosa jornada através da fronteira.

O filme é tão intenso e corajoso como “Cidade de Deus” e em outros pontos, é o oposto do filme de Fernando Meireiles. Cary Fukunaga disse que “uma vez que teve imigrantes reais,  não precisou falar nada para eles- eles sabem como sentar no topo de um trem!,” e assim enriqueceu o seu filme, fazendo o espectador esquecer que esteja assistindo um filme. Ao tratar de um tema delicado como a imigração ilegal, o diretor nos presenteou com uma uma tragédia grega, que é ao mesmo tempo comovente e dolorosa de observar: a mistura de dois mundos obscuros, a viagem para atravessar a fronteira, e os bastidores da cultura de gangues Mara.

Fukunaga também escreveu o roteiro, unindo suspense, e ilustrando a vida de muitos pessoas que se perderam do outro lado da fronteira, o que achei nada menos que chocante! O que é ainda mais chocante é que nós raramente ouvimos falar desses imigrantes, que geralmente são esquecidos, “sem nome.” O fotografo  brasileiro Adriano Goldman me impressionou com as lindas imagens. As cenas dos imigrantes em cima do trem, ou abandonados nos trilhos me pareceu em constante movimento. E, em vez de equipamentos digitais, Goldman fez uma escolha crucial estética que contrasta a miséria gráfica com muitas cores vivas, além da mensagem de documentário impressa na tela. Outro brasileiro que contribui para a riquesa de “ Sin Nombre” foi o musico Marcelo Zarvos— o impacto emocional da sua trilha sonora, que mistura uma orquesta completa, e o som adcional de violão e, acordeão, é nada mais do que perfeita!

Não pude deixar de sentir pena dos personagens do filme. Primeiramente, por ser brasileiro, e por ter vivido fora do Brasil por tanto tempo. Calma gente, eu não cheguei aqui atravessando a fronteira ilegalmente, e nem estou ilegal !. Quando vou ao Brasil sou perguntado por amigos como é a terra do tio Sam, pois eles apenas conhecem os EUA dos filmes, e dos noticiáros. Quando morei na Tailandia, e na Birmania, eu era visto e tratado como um rei, pois para muitos, eu era “americano” e eles tinham a idéia que paraíso na terra, era ir “viver” a cultura “rica” dos EUA, sem querer aceitar a verdade que eu não era, e nunca fui rico, e que nos EUA têm sim, os seus miseráveis. Milhões de pessoas só conhece os EUA, através do que vêem em filmes. Eles não sabem de Nova York, San Francisco, LA ou mesmo a linda Washington D.C como elas são, mas as cidades através dos olhos da cultura dominante. A única imagem dos Estados Unidos para eles é o resultado de uma combinação de uma ilusão, que os americanos podem entender, mas nunca vão sentir.

Tudo que expresso no ultimo parágrafo, não vem do filme “Sin Nombre. Tudo isso eu trago para o filme, porque eu vivi em 3 paises, e convivi com miseria—principalmente, no campo de refugiados na Tailandia, onde todos os birmaneses continuam sem nomes, e sem nacionalidades —, que nunca vão ver os locais que eles um dia viram  através do cinema. O que é ainda mais interessante é que todos esses pensamentos foram desencadeados em mim por um filme: “Sin Nombre”. Aqui está um filme de estréia, dirigido por um americano que apresenta os fatos como eles são. “Sin Nombre” injeta no espectador  a realidade de passar por aquilo que muitos emigrantes experimentam.

Mas, o filme não é sobre imigração e gangues (como uma questão política). É sobre a busca de um lugar melhor. É sobre a natureza humana de buscar um ambiente mais saudável e um melhor ambiente. Não é sobre ir para os Estados Unidos, mas em ir para um lugar mais seguro!

Nota: 10

Diretor: Cary Fukunaga

Elenco: Marco Antonio Aguirre, Leonardo Alonso, Karla Cecilia Alvarado, Juan Pablo Arias Barrón, Rosalba Belén Barrón, Sixto Felipe Castro, Rosalba Quintana Cruz, Marcela Feregrino, Kristian Ferrer, Edgar Flores, Giovanni Florido, Paulina Gaitan, Ariel Galvan, Diana Garcia, Gabriela Garibaldi

Produção: Gerardo Barrera, Pablo Cruz, Gael García Bernal, Diego Luna

Roteiro: Cary Fukunaga

Trilha Sonora: Marcelo Zarvos

Duração: 96 min.

Ano: 2009

País: México/ EUA

Gênero: Drama

Cor: Colorido

Estúdio: Canana Films

À Procura de Eric (2009). Em vez de um Divã, Fumou um Baseado

É! Já iniciei com um baita spoiler nesse subtítulo que coloquei. Sorry! Confesso que não resisti. Até por querer que muitos mais vejam ‘À Procura de Eric‘. Um filme que para muitos passaria batido. Cheguei a cogitar em avisar que o meu texto seria proibido para menores de 18 anos. Mas a censura dada ao filme é de 14 anos. Então…

Nunca fiz, nem faria uma apologia as Drogas. Como também não vejo graça em se drogar. Mesmo para o exemplo do personagem desse filme. Falo dele já. O lance é que sendo um filme o grande propósito é nos entreter. Assim como eu amei e recomendei ‘O Barato de Grace‘, também o faço com esse. Dois que buscaram uma saída em algo politicamente incorreto, mas que não deixa de ser uma diversão garantida.

Creio que o pessoal da área Psico se forem cuca fresca também irão gostar. Deixo claro que sou à favor de uma Terapia com um Profissional. E aos menores de idade: não entrem nesse mundo das drogas. Poderá ser um caminho sem volta. Mesmo sendo maconha, melhor não entrarem nessa.

Em ‘À Procura de Eric‘ temos no próprio um surto. Que só com o desenrolar do filme que descobriremos o que foi a fagulha que desencadeou o surto. É! Ele já vinha acumulando cargas… que represadas um dia vem à tona. O de se comparar com alguém muito querido do seu passado, foi o motivador. E ai é que está: o ego não aguentou. Nesse lance pinta até algo machista: de que para ele, ela não poderia estar tão bem, e ele um caco. Homens!

Se o Ego está no chão… um ‘nobre’ alter ego fora a solução.

Após o surto seus amigos carteiros tentam ajudá-lo. ora animando-o com piadas, ora com lições de livros do tipo auto-ajuda. E sempre presentes. Essa parte o filme também valoriza a amizade. Mas sem querer invadir a privacidade dele, eles não poderiam ajudar na raiz do problema.

Eric foi perdendo o controle da sua vida, da sua casa… Nela, só não reinava um caos total porque o quarto dele era uma ilha de limpeza em meio a tanta sujeira. Seus dois enteados não queriam nenhum tipo de responsabilidade. Pior! Um deles se vende por muito pouco ao líder da gangue local.

Então numa de aliviar a tensão Eric pega escondido no quarto do filho um baseado. É quando surge seu ídolo maior: o jogado de futebol Eric Cantona. Esse fora um grande artilheiro do seu clube favorito: Manchester United’s. Cantona tinha como alcunha: ‘The King’.

Bem, como citei lá no início para um tête-à-tête comigo mesma eu não iria mesmo me drogar. Mas para quem curte a ervinha… pode ser um caminho. Eric no passado já dera indícios que não aguentava pressões… Talvez por isso escolhera uma profissão metódica, que exigia muito mais força física que uso do raciocínio. Sem desmerecer aqui a Profissão de Carteiro, ok?

A conversa entre os dois Eric é de rir muito. Usam e abusam da psicologia-das-frases-feitas. Até que uma encaixa na busca pela solução. Ai é a vez do Eric, carteiro, tentar por ajuda dos amigos. Todos torcedores fanáticos e companheiros de copos. É quando Eric toma de vez o controle de sua vida, de sua casa… e com um ego remoçado.

Tal como em ‘O Barato de Grace’… esqueçam o politicamente correto¹, pois o filme é ótimo! Não deixem de ver!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

À Procura de Eric (Looking for Eric). 2009. Reino Unido. Direção: Ken Loach. +Cast. Gênero: Comédia, Drama, Fantasia, Esporte. Duração: 116 minutos.

(¹) – Quando fica dando voltas, sem condições de encontrar uma solução, melhor pedir ajuda de um Profissional.

Topo.

A Outra História Americana (American History X. 1998)

a-outra-historia-americanaAs únicas pessoas que realmente mudaram a história foram as que mudaram o pensamento dos homens a respeito de si mesmos.” (Malcolm X)

Será que o meio pode realmente corromper uma pessoa? Ou é algo inato? As influências, pressões externas não seria apenas pretexto para trazer à tona o próprio caráter? Pois encontrar desculpas, ou mesmo culpar, jogar seus próprios fracassos no outro, é muito mais fácil.

Em ‘A Outra História Americana‘, temos um canalha mor. Alguém que alicia os jovens pegando no ponto fraco: se sentirem frustrados. Como não usam suas mentes para fazer algo que os tornem um ser humano apto a enfrentar as vicissitudes da vida, ele, Cameron (Stacy Keach) tem acesso livre nessas cabeças. E assim, doutriná-los com ideais nazistas.

Por outro lado há também um outro tipo de mentor. Um Diretor de Colégio que usa a sua autoridade para que os jovens raciocinem por si mesmos. Que avaliem a vida que estão levando. Ele é Sweeney (Avery Brocks). A porta de sua sala está sempre aberta a quem quer uma chance de mudar.

Enquanto Cameron aumenta cada vez mais as suas gangues, Sweeney é como o pastor que vai atrás de cada ovelha perdida. No filme o veremos em ação com dois irmãos: Derek (Edward Norton) e Danny (Edward Furlong). Indo de uma manhã a outra. Por Danny ter feito uma redação sobre Hittler, Sweeney lhe dá até a manhã seguinte para fazer uma outra: com a história de seu irmão, Derek, em sua vida. Assim, entre as situações atuais, em flashback vamos conhecendo toda a história dessa família. Com Derek preenchendo as lacunas que Danny até então desconhecia.

Nesse mesmo dia Derek está saindo da penitenciária. Após cumprir 6 anos por ter matado dois jovens que tentavam roubar o seu carro. Mas os anos passados na prisão, pelo o que vivenciou lá dentro, e pela ajuda de dois negros, o fez refletir. O fez querer mudar de vida. Tinha então dois desafios iminentes: se desligar de Cameron e tirar Danny de suas garras. Cameron estava fazendo dele, Danny, um novo líder de gangue.

Para mim ficou a ideia de que o ‘X’ no título original – American History X -, refere-se a Malcolm X.

O filme tem cenas chocantes. Uma delas ficará registrado por um longo tempo em nossa mente. Todos atuam muito bem. Mas Edward Norton está incrivelmente bem. Excelente filme! Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Outra História Americana (American History X). 1998. EUA. Direção: Tony Kaye. +Elenco. Gênero: Crime, Drama. Duração: 119 minutos.

Laranja Mecânica (Clockwork Orange. 1971)

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Existem obras clássicas das mais variadas espécies em nossa vasta literatura: algumas focam o comportamento específico do homem como ele é, sob o ponto de vista antropológico, outras vezes o foco são as ações do intramundano e a influência direta nos atos das personagens – numa leitura filosófica. Ainda há obras cuja característica maior é o desenvolvimento das personagens complexas e ainda há outra espécie onde a veia artística apela para a sociedade como a única responsável pela formação do homem enquanto ser arremessado no mundo.

Existe, não obstante, um refinado e seleto grupo de histórias que conseguem mesclar um pouco de cada um dos elementos citados e se tornam os chamados clássicos. Laranja Mecânica (no original Clockwork Orange) é uma destas pinturas únicas que de tempos em tempos surgem para colocar pontos de interrogação em nossa mente.

Laranja Mecânica é frequentemente associado com outros dois clássicos igualmente importantes (por sinal, também escritores britânicos): 1984 – de George Orwell – e Admirável Mundo Novo – de Aldous Huxley. Juntos eles formam uma espécie de tríplice distópica pós revolução industrial, a qual as consequências do movimento geram críticas em forma de ficção científica, quase sempre com máquinas que tomam o lugar dos homens, alto consumo de produtos industrializados e um aparente bem estar como máscara de uma realidade caótica a qual não temos acesso devido a estes signos de condicionamento.

De fato, Laranja Mecânica não é somente uma leitura, mas uma provocação e um convite para imergir numa reflexão ilimitada, onde os diversos pontos inconclusivos de uma narrativa profunda permitem que textos, como este, possam ser criados a partir de um lado do prisma que até então não foi vislumbrado, ou então pelo olhar no mesmo texto através de uma nova ótica.

Temos Laranja Mecânica disponível em duas mídias de fácil acesso: o livro, de autoria do inglês Anthony Burgess, e o filme de 1971, dirigido pelo imortal cineasta Stanley Kubrick. O filme é extremamente fiel ao livro, com a exceção da reflexão final de Alex, personagem principal, que não está presente na película, mas que não altera em nada o contexto e a mensagem final (ainda que o filme termine de forma mais pessimista do que o livro).

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Quanto ao livro, quando Laranja Mecânica foi concebido, um falso prognóstico havia dado à Burgess somente mais um ano de vida. Temendo pela bem estar de sua família, o autor decidiu que naquele período escreveria 10 livros que pudessem render algum sustento para os seus. Ao término daquele ano Burgess havia escrito 5 livros e meio: o meio livro era Laranja Mecânica, que não havia sido finalizado não pela questão da história em si, mas porque Burgess queria imortalizar a sua obra.

Uma vez que a morte não veio, o autor pode finalizar o seu trabalho da forma que achou mais conveniente. Apaixonado pela linguagem, e influenciado expressamente pelo escritor irlândes James Joyce, Burgess pretende ir adiante de seu tempo e propor algo único: criar expressões e gírias que pudessem ser aplicadas ao tema central – gangues de adolescentes – sem que elas perdessem o valor ao longo dos anos.

Foi então que Burgess criou a nadsat – um vocabulário marginal que mescla palavras russas, eslavas, inglês e cockney (expressões utilizadas pelos trabalhados britânicos na época). A compreensão deste vocabulário exige a contextualização das palavras em torno do texto, o que aumenta ainda mais experiência imersa de um leitor desorientado arremessado na história. Um exemplo de uma fala de Alex – o protagonista:

“A rot do vekio estava cheia de krov(sangue) vermelho quando lhe demos um toltchock; tiramos as platis da devotchka e seus grudis eram horrorshow.”

Além disto, Burgess se preocupou com a semântica de seu texto e dividiu todo o livro em três partes de sete capítulos cada. Cada parte é perfeitamente distinguível das demais e contém, implicitamente, uma espécie de trilogia onde cada capítulo representa, metaforicamente, um ano de vida. Então somente ao final do livro, no capítulo 21, temos Alex atingindo a maturidade necessária para seguir adiante (21 capítulos representariam 21 anos).

O cenário é um “futuro próximo” numa Inglaterra caótica e acinzentada, onde um governo opressor domina e a segurança é inexistente por parte do descaso de seus líderes. Toda história é narrada em primeira pessoa por Alex, um adolescente problemático, que assim como muitos do seu tempo, participa de uma gangue como líder dos vândalos. Entre os prazeres sádicos de Alex estão a violência, acima de tudo, e as drogas que lhe colocam num outro plano da realidade. É através deste plano que observamos o desenrolar de toda a trama.

Alex e sua turma aterrorizam as ruas sombrias, onde a falta de ordem e segurança obrigam os seus moradores a se trancafiarem dentro de suas residências, a mercê do enunciado de seus televisores e do conforto proporcionado por seus móveis. E mesmo assim eles não estão a salvo, visto que gangues invadem casas e estupram mulheres por pura diversão.

orange_clockworkA primeira parte da história conta toda esta tragédia onde Alex impera como senhor do caos, onde o crime é cometido pelo prazer do sofrimento alheio. Numa sociedade que é má, esta juventude representa os frutos colhidos do abandono do homem pelo homem. Logo a sociedade opressora colhe os seus podres – figurado sobre o alto índice de violência exagerada e sem sentido de ser.

A segunda parte da história vai mostrar Alex sendo traído pelos membros de sua gangue e pego pela polícia sob acusação de assassinato. Em troca, recebe 14 anos atrás das grades como forma de punição. Entretanto, um tratamento psicológico experimental para reprimir as tendências violentas e os impulsos sexuais é oferecido como alternativa a pena que resta para cumprir, sendo que Alex aceita ser cobaia da experiência sem nem mesmo hesitar.

O que vemos, na sequência, é uma sessão de tortura psicológica e, consequentemente, física – devido ao desgaste do experimento: Alex é drogado e submetido à uma série de imagens violentas e sexuais, ao som de música erudita, numa poltrona onde ele nem mesmo pode piscar, devido aos ganchos presos em seus olhos. Cada sessão é acompanhada de muita dor e desespero por parte de Alex, que pouco a pouco não consegue nem mesmo pensar em violência ou ouvir música clássica, pois era o mesmo que repassar o tratamento.

Logo Alex não mais pensa nas maldades que lhe proporcionavam prazer anteriormente, ainda que seja agredido: o protagonista é considerado um caso de sucesso e toda a imprensa toma nota da eficiência de um tratamento que converte um marginal em um cidadão pronto para voltar à sociedade.

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Após esta lavagem cerebral, a terceira parte é iniciada com Alex recolocado na sociedade: logo ele será rejeitado por seus pais, espancado por aqueles que ele espancou antes de ser capturado, seus ex-colegas de gangue também se reencontram com ele e acabam por agredi-lo até que Alex, cansado, resolve pedir ajuda em uma casa qualquer. Lá ele é drogado e a pessoa que supostamente lhe ajudaria (que era marido da vítima a qual Alex fora condenado) coloca uma composição de Bethoven no ultimo volume. O protagonista, devido ao seu tratamento, não mais aguenta tanta tortura e se joga da janela.

Acaba por sobreviver e vai parar no hospital. Diante do fracasso de “cura” enquanto cidadão comum, a mídia começa a pressionar o governo, que oferece uma real cura para o protagonista: eles desfariam o bloqueio que reprimia Alex por seus pensamentos e até mesmo ofereciam um emprego com um alto salário. Porém Alex deveria preservar os interesses do governo fingindo que o tratamento havia funcionado.

Alex aceita e volta a sentir desejo sexual e vontade de praticar vandalismo, porém entra num dilema após ver um ex-membro de sua gangue casado, responsável e vivendo uma vida comum: será que valeria a pena ser um gangster ou viver uma vida justa? Afinal Alex havia crescido e agora era tempo de replanejar o seu caminho (esta reflexão final não está no filme).

A primeira reflexão sociológica que podemos iniciar reside no comportamento dos jovens que são maus enquanto convivem numa sociedade que é tão má quanto eles. De certa maneira, temos um efeito influente causado por um estilo de vida dominado pela mecanização de processos sociais, como aqueles provenientes da revolução industrial, que condenou todos os seres à uniformidade de comportamento. Desta maneira, visando sempre o lucro, a nova sociedade capitalista impõe um modo comum aos seus habitantes, cuja domesticação do ser impede que ele olhe para a sociedade e passe a enxergar apenas a si mesmo (conceito já explorado pelo filósofo Michel Foucault em outras ocasiões).

Desta maneira temos tantas pessoas preocupadas somente em viver suas vidas adornadas de tecnologia, como a televisão, que se esquecem da vida social e param de dar atenção à problemas que estão longe de seu campo de visão (como política, segurança e educação – pontos fundamentais de compreensão da narrativa). Desta forma, os jovens desamparados estão por sua própria conta, o que faz florescer um levante de gangues que apenas devolvem, de alguma maneira, o medo e a dor que a atual sociedade lhes ofereceram. Ou seja, as gangues e a juventude transviada nada mais representam do que uma abstração menor da sociedade como ela é na visão apocalíptica de Burguess.

Enquanto praticantes de atos violentos, Alex e sua turma existem para o mundo, onde em situação oposta eles simplesmente ficariam invisíveis ao sistema. No próprio modo distópico de pensar, o mundo é ruim e ignorar a violência tem resultados catastróficos, que traduz a linha “causa e consequência” ou “ação e reação” com enorme clareza.

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A segunda reflexão tem origem na segunda parte da história, quando Alex é submetido ao tratamento experimental sugerido pelo governo. A substituição da pena do protagonista não é tão diferente do que o ex-vândalo cometia enquanto perambulava pelas ruas inglesas: violência. Enquanto uma é física e ilegal, a outra é moral e respaldada pela lei. Foucault também já discursou sobre este assunto logo no primeiro capítulo de seu livro Vigiar e Punir: punir a violência com violência, punir o assassinato com assassinato, enfim, fazer o outro pagar na mesma moeda. Mas não estaríamos transgredindo a lei, uma vez que ela deveria ser universal, ao praticarmos estes atos? Sim, portanto vivemos numa sociedade de desiguais.

Não obstante, temos a questão do condicionamento por imagens, que são capazes de gerar sentimentos, opiniões e traçar direções para cada ser tomar como seu caminho. Entramos numa questão fundamental do livro, que é o nosso direito a liberdade. Uma vez que nosso comportamento pode ser moldado e mesmo a nossa essência pode ser transformada por imagens, perdemos o referencial. Ser livre se torna um estado utópico da condição humana. Numa época onde as imagens predominam cada um dos nossos lares através de televisores, nossa vida vai sendo ditada e nós vivemos como marionetes manipuladas.

O livre arbítrio deixa de ser uma opção e passamos a viver sem pensar, fazer sem medir e responder sem nos questionar. Esta mecanização do homem o faz um ser “tão bizarro quanto uma laranja mecânica” (expressão anglo-saxônica de onde o título do livro foi retirado). Parece-me razoável associar esta análise à invasão tecnológica presente em nossa vida.

Outro ponto de reflexão importante a ser observado pela sociologia é o resgate do homem selvagem em homem útil ao sistema, sem que a sociedade esteja disposta a acolhe-lo novamente. Este mesmo ponto já foi levantado pela psicologia – com Irvin D. Yalom – num ponto onde ele diagnosticou a recuperação de diversos pacientes, porém a desconfiança constante da família fazia com que o paciente entrasse em recaída, num momento onde, segundo as palavras do americano, “quem precisava de terapia era a família para aprender a aceitar que o seu parente estava curado“. Quando Alex sai da prisão não é diferente, assim como acontece nos dias de hoje: não há garantias para a sociedade que o acusado jamais voltará a cometer o mesmo erro, por isto notamos uma postura de discriminação massificada.

Por fim, Alex aprende o jogo das imagens e do interesse. Em pró de sua salvação, aceita um acordo do governo onde ele finge para as pessoas que está curado em benefício de um grupo privilegiado de comandantes. Logo ele entende que o mundo é composto de hipocrisia e maldade. E se é assim com Alex, que é um caso superficial em relação aos demais, imagine nos bastidores do poder? É bem provável que Burgess esteja nos oferecendo uma crítica aos controladores do sistema capital.

Se no livro temos uma semântica intransponível para as telas, Kubrick magistralmente pinta com cores sombrias algo que jamais veremos no livro. Ele não só manteve todo o dialeto nasdat: além da habilidade com sua câmera, o diretor introduziu uma trilha sonora (mescla entre música clássica e música de sintetizadores eletrônicos) de uma forma que deixou as tomadas ainda mais sombrias do que no texto original. Aposto todas as minhas fichas que a cena de abertura do filme é uma das mais memoráveis de todos os tempos.

Portanto não experimentar um pouco desta suculenta laranja mecânica é deixar de entender o mundo como ele é, a construção de um sistema totalitário, a liberdade aparente e o pensamento alienado à algo que não é mais você. Burgess nos oferece a oportunidade de caminhar entre trilhos sinuosos e a tomar uma postura crítica em relação ao mundo. Sendo assim, não percam por nada este clássico. Se você não leu ou viu o filme, faça isto até o final da próxima semana após ter lido esta breve análise e sejam bem-vindos ao mundo de Alex.

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

LARANJA MECÂNICA. 1971. Reino Unido/EUA. Direção: Stanley Kubrick. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Warren Clarke, Michael Bates, John Clive, Adrienne Corri, Carl Duering, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Gover, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley, Sheila Raynor. Gênero: Crime, Drama. Duração: 136 minutos. Baseado no livro de Anthony Burgess.

Juventude Rebelde (Kidulthood. 2006)

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Se eu não tivesse assistido ‘Kids‘, ‘Trainspotting‘ ou ‘Romper Stomper‘, talvez eu tivesse me surpreendido um pouco mais com este filme, visto que a fórmula é a mesma: o retrato de uma juventude selvagem, cega e ignorante que só pensa em drogas, sexo e crimes, como furtos à lojas e bullying. Vemos aqui adolescentes de 15 anos que se acham os maiorais, os intocáveis, e que pouco importam-se com o legado deixado por seus pais, que geralmente batalham muito e não sabem – ou fingem não saber – das coisas más que seus filhos fazem.

Ainda que não tenha ficado surpreso, é impossível não ficar sentido ao revermos todos estes atos de selvageria. Talvez a intenção seja justamente esta: alertar os pais e as pessoas para a realidade de nossos jovens, que cada vez mais se envolvem em ciclos de “amizades” fúteis e que servem apenas para desconstruir todos os valores éticos e morais sobre como conviver em harmonia e parcimônia na sociedade.

Assim como em Kids, o enredo foca na história de diversas personagens em paralelo, sendo que todas as personagens se conhecem e possuem elos que permitem que na trajetória da personagem A conhecemos detalhes da personagem B, e assim por diante.

Numa escola de periferia, uma garota não aguenta mais ser vítima de bullying e acaba por se suicidar, tamanha é a pressão. Na mesma escola, Sam é um negro que comanda uma gangue que aterroriza todos os alunos. Ele é um dos que maltratam a pobre garota.

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Trife, Jay e Moony são amigos de infância inseparáveis. Pequenos vândalos, eles gostam de falar em gírias e se vestirem como cantores de hip hop. Eles estudam na mesma escola que Sam, que apenas por diversão, amedronta o trio e rouba um videogame portátil de um deles. O que Sam não sabe é que Jay está tendo um caso com a namorada de Sam.

Alisa é a ex-namorada de Trife, que acaba de descobrir que está grávida dele. Vive um dilema entre assumir a criança ou abortá-la. Sua melhor amiga, Claire, é uma garota que descola drogas e dinheiro vendendo o seu corpo para adultos e só pensa em se divertir. Ela ficará responsável por aconselhar Alisa o que deve fazer.

Esta é a premissa básica do filme. A partir daí uma série de eventos vai desenrolar a história. O suicídio da garota fará com que na escola onde todos os jovens estudam não tenha aula. Neste dia, o trio composto por Trife, Jay e Monny resolve aterrorizar a cidade: vão a algumas lojas, azaram algumas garotas e arrumas pequenas brigas nas ruas de Londres. De repente eles têm uma idéia: pegar o videogame portátil roubado de um deles. Vão até a casa de Sam, dão uma surra nele, derrubam a sua mãe no chão e ainda pegam a namorada do cara.

Obviamente Sam não irá deixar barato e vai atrás de cada um deles. Durante todos os eventos daquele dia, Trife decide que não quer ser mais um marginal, que irá mudar e que irá cuidar do filho que Alisa, sua namorada, espera. Mas é tarde demais: Sam o encontra, dá um surra em Trife, mas passa da conta. Trife falece na frente de todos.

Embora o enredo seja simples, alguns arranjos acabam por dar um certo destaque no filme e justificam uma série de atrocidades marginais: Monny, negro e vestido como um rapper americano, quer pegar um taxi, porém diversos passam e nenhum para. Se ele quiser chegar ao seu destino, terá que ir a pé. Numa das lojas que eles entram, então vendo uma série de bonés. O segurança praticamente cola neles. Ao sair, são abordados e Trife é acusado de ter pego um boné da estante (visto que ele vestia um igual ao daquela seção). O gerente é chamado e também o acusa. Trife argumenta que ele já havia entrado na loja com aquele boné, mas eles não querem saber e pedem pela polícia, até que uma vendedora confirma o que Trife havia falado: ele realmente já estava com aquele boné.

O que o escritor Noel Clarke, que também interpreta Sam, deixa claro é que nenhum daqueles jovens são criminosos em potencial, mas adeptos de um modismo transviado onde todos parecem fazer parte. Eles querem, apenas, aparecer para seus amigos e para sua tribo. Querem demonstrar que eles são insuperáveis e que podem fazer o que bem entender. Querem mostrar para todos que as leis não valem para eles, que eles são livres para fazerem o que bem entenderem e que não devem justificativas para ninguém. Querem mostrar que são destemidos, que não é por causa da pouca idade é que eles devem ser desrespeitados. Enfim, necessitam da violência para ser firmarem como ser num mundo onde ninguém parece prestar atenção em nada. No mundo das aparências, eles também querem aparecer.

Talvez o alerta seja para darmos mais atenção aos nossos jovens e vigiar para que eles não se percam em más companhias. Há um consenso que aquilo que irá determinar a formação moral e ética de um jovem tem mais a ver com suas amizades do que com a sua família. A sabedoria popular uma vez disse que ao saber com quem andamos é possível saber quem somos, e isto é verdadeiro. Isto explica porque irmão criados debaixo do mesmo teto podem seguir caminhos tão diferentes. Ademais, o filme também deixa claro que cada ação tem uma consequência e que certas ações também devem ser vigiadas por a consequência pode ser fatal.

Enfim, embora seja mais do mesmo, eu recomendo este filme para que esta preocupação, que as vezes insiste em dormir em nosso íntimo, seja desperta e assim possamos agir enquanto ainda é tempo, pois a omissão também é um ato que também gera uma consequência.

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Juventude Rebelde (Kidulthood). 2006. Inglaterra. Direção:  Menhaj Huda. Elenco: ImDb. Gênero: Drama. Duração: 91 minutos.