As Férias da Minha Vida (Last Holiday. 2006)

as-ferias-da-minha-vida_2006Por Leandro Salgentelli.
“As Férias da Minha Vida” num Álbum das Possibilidades
Eu quero ser cremada. Passei a vida inteira num caixote, não quero ser enterrada em um”. Assisti ao filme “As férias da minha vida” várias vezes e nunca havia prestado a atenção na reflexão e a mensagem que o filme entrega de bandeja.

Georgia Byrd trabalhava em uma loja como vendedora de panelas, sonhava em realizar vários sonhos. Tinha com ela um álbum das possibilidades, lá ela guardava todas as suas vontades na esperança de que um dia pudesse realizar. Queen Latifah, a personagem protagonista do filme, descobre que têm apenas três meses de vida e vai à busca de realizar seus sonhos, os sonhos que estava no álbum das possibilidades.

as-ferias-da-minha-vida_queen-latifahSe todos nós fizéssemos isso teríamos uma vida mais saudável. Passamos a maior parte da nossa vida preocupando-se com os problemas, tentando levar o mundo nas costas, tentando agradar a todos, buscando metas irreais acreditando que isso nos levará para a felicidade. Com o passar do tempo vamos percebendo que felicidade não é ter o carro do ano, o melhor emprego. Isso dá uma certa alegria, mas nada se compara a paz de espirito que poucos buscam.

Passamos a maior parte do tempo em busca do êxtase, do orgasmo e esquecendo-se de celebrar a própria existência. Passamos a maior parte da vida, preocupados com o que vão pensar de nós. Alguns asfixiados pelo “eu”. Eu posso, eu quero, eu vou. Enquanto outros sempre se asfixiando pela pluralidade. Se soubéssemos equilibrar esses dois… Se refletíssemos. Se déssemos conta de que felicidade é um detalhe, é o respirar, é o viver. Se parássemos de pensar no corpo ideal e aceitássemos como somos. Se abríssemos um sorriso diante da frustração.

Queen Latifah e Gérard Depardieu

Queen Latifah e Gérard Depardieu

(O texto a seguir contém spoiler.)
Podemos não ter tudo o que queremos, mas temos sorte. Sorte para por em pratica o que deixamos de fazer ontem e que podemos fazer hoje. Sorte para fazer algumas coisas que deixamos de fazer por medo do que vão pensar, do que vão achar. De frente para o espelho a personagem de Queen Latifah diz pra si mesma: “Você tem tido muita sorte, você não conseguiu tudo que queria, mas… Da próxima vez vamos fazer diferente, vamos rir mais, vamos amar mais, vamos ver o mundo, não vamos ter tanto medo”.

O medo da vida nos impede de ver coisas lindas. “Passei minha vida inteira engolindo sapo, acho que eu era medrosa. A gente abaixa a cabeça, e aguenta, e aguenta, até que um dia a gente se pergunta como é que permite isso. Muito daquilo que queremos na vida não tem o menor valor”. Tão humano. Tão verdadeiro. Ainda bem que a personagem descobriu a tempo que precisava viver. O destino algumas vezes entra na nossa vida para mostrar algumas coisas, nos dar uns tapas na cara e nos fazer acordar. É uma pena que algumas pessoas buscam viver intensamente quando está no deleito da morte. Já para Georgia foi tudo um equivoco. Ela não morreria coisíssima nenhuma, a vida só deu uma chance de mostrar pra ela o que ela estava perdendo.

Com um pouco de atitude e sorte um dia acordamos e damos espaço para o álbum das possibilidades, e claro, para virar realidades.album-das-possibilidades

As Férias da Minha Vida (Last Holiday. 2006). EUA. Diretor: Wayne Wang. Elenco: Queen Latifah, Gérard Depardieu, LL Cool J, Timothy Hutton, Giancarlo Esposito. Gênero: Aventura, Comédia, Drama. Inspirado no Roteiro de J.B. Priestley do filme “Last Holiday” (1950) com Alec Guinness.

Anúncios

A Mulher Canhota (Die Linkshändige Frau. 1978)

a-mulher-canhota_1978Por Kauan Amora.
É verdade que nossa sociedade vive em uma ditadura da felicidade, onde todos aparentemente são felizes e sabem exatamente o que isso significa, o que nos qualifica ensinar ao próximo o que é ser feliz, e empurrar goela abaixo todos os nossos parâmetros e regras que ninguém pode deixar de seguir.

A Mulher Canhota nos apresenta uma Alemanha pós-guerra, triste, gélida, desconsoladora e que nos convida ao afastamento humano aliás, me arrisco a dizer que o lugar funciona como personagem coadjuvante da história, já que esta sempre se apresenta como um local desconfortável, suas ruas têm sempre pouquíssimas pessoas e sua paisagem para ser estar em um constante estado de depressão, traduzindo o estado de espírito de sua personagem principal, como por exemplo, um bosque que se apresenta com suas árvores cortadas, logo depois da fatídica decisão.

O filme é baseado no livro de Peter Handke, e conta a história de Marianne, mulher inteligente e de meia idade, que por um motivo desconhecido resolve mandar o marido sair de casa e resolve viver sozinha com seu filho ainda pequeno, abrindo mão da família, do conforto financeiro para viver uma vida sozinha e por vezes solitária.

O fato é que nunca descobrimos por parte de Marianne porque esta se separou do marido, já que este se revela um homem ideal, trabalhador, fiel e preocupado com a família. Ela toma a decisão e sequer se dá o trabalho de justificá-la. O diretor Peter Handke, parece sempre nos instigar a descobrir o motivo, mas sem nunca dar pistas ou conclusões suficientes para que possamos fazê-lo, o que só aumenta mais o interesse Parece que Marianne resolveu se desafiar e desafiar as pessoas próximas de que é capaz de levar uma vida sozinha, mas não solitária, embora todos ao seu redor achem um absurdo sua decisão e tentem a todo o momento convencê-la de voltar atrás, e esta se mostra irredutível.

Marianne lança a mão de uma vida segura, confortável e aparentemente feliz para viver sozinha em uma casa imensa, perambulando nas ruas de sua cidade, vivenciando a sua vida consigo mesma.

Hoje, tomar uma decisão como essa parece loucura, já que vivemos em uma sociedade normativa que estabeleceu regras que servem como manuais de como sermos felizes, especialmente para as mulheres, que desde cedo são educadas para serem boas esposas, donas de casa e mães. Aqueles que abdicarem dessa ideia são loucos e não têm a menor chance de serem felizes.

O roteiro parece ser criado ao acaso, onde depois da decisão de sua protagonista nada mais acontece, não possui ação dramática, é como se estivéssemos testemunhando uma vida acontecendo livremente sob os nossos olhos, Marianne vai sendo levada pelo espaço e pelo tempo, imóvel e desinteressada de mudar de vida.

No final das contas, A Mulher Canhota aparentemente conta a história de uma mulher que resolveu se questionar esses valores rígidos e não foi em busca da felicidade, mas atrás de si mesma, seguindo um caminho completamente diferente das outras (daí o nome A Mulher Canhota). Ao longo da projeção acompanhamos Marianne vivendo momentos de extrema alegria, como passear com seu filho ou mesmo com seu pai, e momentos de extrema solidão, ao chorar sozinha durante a noite olhando a paisagem lá fora. O que prova que tanto as pessoas casadas, com famílias perfeitas e construídas quanto as pessoas sozinhas, que vivem por si mesmas, tem seus momentos de alegria e tristeza e que esses valores são apenas reflexos de uma sociedade fria, autoritária e que não se reconhece, nem a si mesma e nem o seu lugar no mundo. Marianne é um anti-heroína.

Que tal um passeio em Paris?

ratatouilleCom uma taça de champanhe, ou mesmo uma xícara de café, convido-os a conhecerem Paris, essa cidade que faz parte do nosso imaginário. Pelos Filmes, é claro! Vem comigo!

champs-elyseesQuerendo ver que por lá num país de primeiro mundo também há uma rede de corrupção entre o setor público e o privado assistam esse ótimo filme: “A Comédia do Poder” (L’Ivresse du Pouvoir). Quisera ter por aqui no nosso país duas juízas como as desse filme. Mais detalhes aqui.

Para quem gosta de Thrilher, “Caché” (Hidden) é uma boa! O filme também foca a discriminação entre franceses e argelinos. A cidade das classes mais favorecidas, como do lado carente. Muito embora eu em minha análise preferi ir por um outro ângulo. Um trechinho:

paris_01Há certas tomadas de atitudes que soam como gritos silenciosos de pedidos de atenção. Algo como: “Oi, estou aqui!” São pedidos mudos que por vezes tresloucados na forma, mas que foram como uma última tentativa. E quando não são de fato a derradeira – aquela que não tem mais volta. Alguns desses pedidos, mesmo que incômodos, podem até serem vistos como atitudes infantis. Mas seja lá como foi, ou mesmo de quem partiu, não querem nada de material.

Pois é, um Drama que envolve a vida dos personagens de Daniel Auteuil e Juliette Binoche. Quer saber mais? Tem aqui o texto na íntegra.

Aqueles que curtem uma Comédia irão se deliciar com essa: “O Closet” (Le Placard). Com Daniel Auteuil e Gérard Depardieu. Essa dupla deu química. A tônica aqui, muito mais que uma homofobia, fica em como certas pessoas viajam na maionese. O personagem do Auteuil para não perder o emprego deixa que pensem que é gay. E o seu jeito metódico que até então incomodava passa a ser visto de outra forma. O que mudou foi a cabeça das pessoas. Conto mais aqui.

Na empolgação esqueci de deixar registrado a quem ainda não está familiarizado com o Cinema Francês de que ele não tem o mesmo ritmo dos filmes de Hollywood. Muitos o acham lentos demais. O pior é que acabam perdendo ótimos filmes.

amelie-poulainHumm! Pausa para um delicioso café. Ou mesmo um chocolate quentinho. Que ir saborear num lado de Paris onde a vida passa tranqüila? Saindo do centro frenético da capital parisiense e indo parar no subúrbio. Melhor ainda! Sendo servidos por uma doce garçonete: Amélie Poulain. É! Quem já viu “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain) se apaixona por esse filme. Eu já o vi algumas vezes. Quem ainda não viu, assista. Veja, ou melhor, rememore os próprios prazeres de outrora que por conta do corre-corre atual nem os sinta mais. Veja um pouco mais pelas lentes mágicas de Amélie.

Não podendo esquecer que Paris também nos leva às Galerias de Artes. Para esse filme caso não queira assistir sozinho chame um amigo e vejam: “Meu Melhor Amigo” (Mon Meilluer Ami). Uma deliciosa comédia onde a um Marchand sua sócia lhe impõe um prazo para apresentar um grande amigo. Ele para não perder o objeto da aposta, aceita. Mas não será tão fácil como imaginava encontrar um verdadeiro amigo. E nessa procura ele segue de táxi.

paris-francePara finalizar um pouco de tudo que nos remete a essa cidade: luz, moda, arte, paixão… Em “Paris, eu te amo” (Paris, je t’aime), há tudo isso e muito mais. São 21 Curtas na visão que cada Diretor tem por ela. E por eles, com eles, nosso giro é maior. Temos uma radiografia completa da cidade, dos seus moradores e dos que apenas estão de visita. Um foco maior, aqui.

Eu sou Valéria Miguez, mas podem me chamar de Lella. Se foram olhar meus textos na íntegra, viram que tenho um jeito peculiar de analisar um filme. E que tento ao máximo não tirar a surpresa, e sim motivá-los. See you!

[Em 06/07/2008. Meu primeiro texto para uma Coluna numa Revista Eletrônica.]

Mamute (2010) – O importante não é o destino, mas a jornada.

Um filme tosco contando uns dias na vida de um cara mais tosco ainda.

Talvez por isso que ficou restrito a poucas Salas de Cinemas. O que é uma pena porque passará despercebido para a maioria dos cinéfilos. Se bem que até por parecer um filme de amadores não deva atrair a esse contingente muito mais afeitos em apontar detalhes técnicos específicos nas grandes produções do que ver o filme por um todo. Algo mais a ressaltar estaria no fato de mostrar os atores sem os exageros de maquiagem, verdadeiras máscaras faciais tão comuns nos filmes hollywoodianos. Para o Cinema Francês, as rugas, a passagem dos anos nas faces dos atores não ficam escondidas. O que é ótimo!

Tosco é o termo que melhor define o personagem de Gerárd Depardieu: Serge Pillardosse.

Diferente do seu personagem em “Minhas Tardes com Margueritte“, já que esse era um simplório e muito carismático, em “Mamute” até há uma cena onde um ex-patrão o define como um idiota no sentido em ter dificuldade nos estudos – como era também seu personagem nesse outro -, Gerárd Depardieu conseguiu diferenciar os dois mesmo com esse ponto importante em comum.

Serge é um cara fechado, sem ser antipático.

Durante o filme ficamos sabendo o porque: há um peso pesado que vem carregando desde muito tempo. De poucos amigos. Se não tem quem goste dele, também não tem quem desgoste. Só não passa despercebido pelo seu tamanho. Cabeludo. Ainda guarda uma moto antiga: uma Mammuth. E é com ela que ele irá fazer uma jornada ao seu passado.

Aposentar de que?

Serge sempre trabalhou, mas ao requerer sua aposentadoria lhe dizem que faltam um período. Então é aconselhado pela esposa, Catherine (Yolande Moreau) a procurar por seus antigos patrões. Sem outra opção ele monta na moto e parte em busca dessa papelada que comprove que ele trabalhou. Mas ao fazer essa viagem de volta irá também reviver um velho fantasma. Velho, pelo tempo. Porque mesmo com um rosto muito marcado não dá para desviar o olhar de Yasmine (Isabelle Adjani).

O importante não é o destino, mas a jornada.

Assim, vamos na garupa dessa Mammuth, embalados ao som da deliciosa “Des Questions Me Reviennent“, de Gaëtan Roussel, nessa viagem com Serge. Onde há cenas surreais, de uma eu exclamar sorrindo: “Não estou acreditando no que estou vendo isso!” Essa cena é para um Top Ten especial. Só não posso falar qual para não tirar a surpresa. Direi apenas que é dele com um primo.

Em “Mamute” vemos um homem já não dando valor a si mesmo, achando meio perdido com aposentadoria, descobrir que se antes trabalhou como a formiga, que agora seria uma cigarra. Livre, também na essência! Eu gostei! De querer rever. Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Mamute (Mammuth. 2010). França. Direção e Roteiro: Gustave de Kervern, Benoît Delépine. +Elenco. Gênero: Comédia, Drama.

Potiche: Esposa Troféu (2010)

Primeiramente se faz necessário destacar a data da estória: ano 1977. Onde a mulher ainda tinha como papel principal: ser uma dona de casa. Algo realçado até nos comerciais de margarina, geladeira… Sempre bem vestida, bem penteada, bem maquiada… Sorridente. Feliz da vida. Tendo ela uma ótima situação financeira, o que lhe daria quase um séquito de serviçais domésticos, seu papel ficaria de gerenciar esse lar. E que para muitos maridos, teriam-nas como um troféu para exibirem aos demais. Onde certos locais, mesmo na moda, para esses mesmo maridos, não era adequados às damas da sociedade.

A personagem da Nicole Kidman, no filme “De Olhos Bem Fechados” (1999), jovem ainda, questiona-se por se ver como um jarro (potiche) decorativo da casa. Ressentido-se de uma falta de atenção, ou mesmo de tesão vindo do marido. Mas para Suzanne, a personagem da sempre bela Catherine Deneuve neste filme aqui, “Potiche: Esposa Troféu“, esse acordar para deixar de ser um mero adorno de casa veio quando uma modernidade bateu à porta da empresa da família: uma fábrica de guarda-chuvas.

Os empregados da fábrica clamando por direitos trabalhistas, mantém o presidente preso. Ele é Robert, personagem do sempre ótimo Fabrice Luchini. Ciente de que seu marido não irá ceder em nenhum dos itens reivindicados pelos grevistas, Suzanne vai falar diretamente com o Deputado que está por trás desse movimento. Ele é Babin, personagem de Gérard Depardieu. Abrindo um parêntese para falar da performance desse ator. Não sei se ele ficou intimidado com a Deneuve. Ou se o Diretor não conseguiu retirar dele um jeito sedutor. Numa cena, onde abraça Suzanne, em vez de paixão, o que transpareceu foi como um cumprimento entre duas comadres. Depardieu não ficou tão à vontade como esteve em “Minhas Tardes com Margueritte“, por exemplo.

Babin liberta Robert, com a promessa de Suzanne em fazer um acordo com os líderes grevistas. Para não ser ele a ceder, Robert simula um ataque de coração. Acreditando que se ausentando por doença mais a total inexperiência da Suzanne na gerência de uma indústria, ele sai em férias. Tranquuilo, até porque a secretaria, e amante, Nadège (Karin Viard), o manteria informado. Mas teria uma surpresa com Nadège, influenciada pela nova postura de Suzanne.

Para surpresa geral, Suzanne não apenas se mostra uma excelente negociadora, como ve brotar em si um ótimo tino empresarial. Alavanca as vendas. E com o filho Laurent (Jérémie Renier) introduz novos modelos, com guarda-chuva coloridos. Dando aos antigos guarda-chuvas um lugar na Moda. Mãe e Filho felizes com o rumo que deram as suas vidas. Já de Joëlle (Judith Godrèche), sua filha, que vivia a criticá-la por ser tão submissa, tão dona-de-casa, em vez de elogios, Suzanne receberá uma estocada.

Com o crescimento da fábrica, pelo tédio em ser um dono-de-casa, assim como não teria sido ele a ceder às exigências dos grevistas, Robert quer o seu posto de volta. Levando a um racha na Família. Porque Suzanne não quer mais voltar a vidinha de antes. E no ano de 1977, numa província francesa, uma dona-de-casa deixa de sê-lo conquistando um lugar onde os homens tinham supremacia. Para Suzanne, o ano veio como um divisor de água.

Gostei do filme! No geral, diria que é muito bom. Mas me levou a pensar se nas mãos de outro Diretor, teria sido bem melhor. Uma interessante e divertida estória + artistas de peso, não foram sucientes para François Ozon. O que é uma pena. Nem me deixou vontade de rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Potiche: Esposa Troféu. 2010. França. Direção: François Ozon. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 103. Classificação: 12 anos.

Minhas Tardes com Margueritte (La Tête en Friche. 2010)

Creio que cada um de nós tem um tipo de listinha invisível onde selecionamos qual o amigo mais indicado para determinada atividade. Onde até o mais ranzinza há de se querer a companhia dele. Aquele que gostamos de tê-lo junto num jogo, num acampamento, comprando roupas, indo ao mercado, num barzinho, no cinema, conversar… Nos mostrando o quanto é legal essa variedade em personalidades. Que não é nada legal se todos parecem saídos de uma linha de montagem: todos iguais a você. Agora, nessa listagem completa, houve aquele que entrou na sua vida como um divisor de água? Aquele que apareceu de repente e fez toda a diferença.

É por ai que o Diretor Jean Becker nos brinda mais uma vez: com um amigo divisor de águas. No anterior, o “Conversas com Meu Jardineiro“, ele se alongou mais. Já nesse aqui, “Minhas Tardes com Margueritte“, ele resolveu contar a estória mais enxuta. Eu gostei muito do outro, mas esse aqui me fez querer assistir de novo, e logo em seguida. Apesar de ambos partirem de uma mesma temática – a pessoa que entra de repente na sua vida, conquista a sua amizade e que faz toda a diferença -, são estórias diferentes. Mostrando que cada estória de vida é única. Com capítulos guardados com muito carinho.

Em “Minhas Tardes com Margueritte” temos um cara meio bronco, mas no sentido de pouco estudo. Porque é dono de um coração enorme. Ele é Germain, personagem de Gérard Depardieu. Ao longo do filme, em flashback, vamos conhecendo o passado dele. Onde chega dar um nó na garganta, prendendo um xingamento diante da estupidez de pelo menos duas pessoas que deveriam educá-lo, e não destratá-lo. Um, o seu Professor que por conta de ridicularizar sempre, terminou levando Germain abandonar a escola. Se achando incompetente para continuar com os estudos. A outra pessoa, é a própria mãe de Germain. Que nem no presente, o trata com carinho. Mesmo envelhecida, o maltrata, além de tentar estragar a horta do filho.

Ora nossos olhos ficam marejados condoídos com o tratamento que ele recebeu de algumas pessoas. Para logo em seguida, brilharem de encantamento por esse homenzarrão. Pois Germain é mais um a corroborar com um pensamento meu: de que o homem não é produto do meio. Que trazem dentro de si a resposta que dará ao mundo: nem todos pagam na mesma moeda. Germain até causa espanto aos amigos por cuidar bem da mãe. Ele é gentil por natureza.

Quebrando o bucolismo do local – onde as pessoas se cumprimentam à rua -, temos um moderno ônibus que faz a linha local. Não sei se é por conta de um merchan, mas pela aquela que o conduz, ele vem como uma esperança futura para Germain. Mostrando que ele tem sim muita coisa para ensinar, para educar, para finalmente dar muito carinho. A motorista é a bela Annete. Apaixonada por Germain. Ela terá um papel importante numa decisão tomada por Germain. E em relação a outra pessoa.

Germain ganha a vida fazendo pequenos serviços, o que lhe deixa um tempo livre para ir lanchar numa pracinha. Numa dessas vezes, uma senhorinha puxa conversa. Que pelo teor, ela já o observava há um tempo. A partir dai, é quase como um encontro marcado de Germain com Margueritte (Gisèle Casadesus) nas tardes de folga. Sendo ela uma leitora voraz, a conversa recai em livros. O que a princípio o apavora. Mas com o tempo, ele se apaixona pelas estórias que Margueritte ler para ele. Mas nem tudo são flores nessa nova amizade. Parecendo que o destino iria tirar o prazer dessas tardes. Germain toma uma importante decisão.

Margueritte entrou na vida de Germain com delicadeza, e carinho. O fez gostar de livros, a descobrir mais palavras para usar no seu dia-a-dia, a acreditar que ele era capaz de aprender a ler… Enfim deu a ele um novo futuro. Embora quisesse continuar perto desse novo e dileto amigo, a vida lhe impôs outra grande tristeza. E é quando Germain toma outra grande decisão. Ele que até então não batalhara, aceitando o que o destino lhe reservara, não iria aceitar dessa vez. Por essa dádiva que entrou na sua vida iria lutar sim.

O final é emocionante! Não contive as lágrimas. Ficou um querer ver de novo. Um excelente filme!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Minhas Tardes com Margueritte (La Tête en Friche. 2010). França. Direção e Roteiro: Jean Becker. Elenco: Gérard Depardieu (Germain Chazes), Gisèle Casadesus (Margueritte), Sophie Guillemin (Annette), Maurane (Francine), Patrick Bouchitey (Landremont), Jean-François Stévenin (Jojo), François-Xavier Demaison (Gardini), Matthieu Dahan (Julien), Claire Maurier (Mãe). Gênero: Comédia, Drama. Duração: 82 minutos. Baseado no livro de Marie-Sabine Roger. Classificação: 12 anos.