Série: Jornadas nas Estrelas (1966/1969). E o Futuro Imperfeito

jornadas-nas-estrelas_seriePor Morvan Bliasby.
jornadas-nas-estrelas_Kirk-e-UhuraJornadas nas Estrelas, o seriado que encantou, desde a década de 1960, até os dias atuais, toda uma geração de fãs (não, não se refere aos Trekkers; eu disse fãs, sem o ‘nático’.) inovou em tudo, ou quase. Foi a primeira série a apresentar, principalmente para a sociedade estadunidense, reconhecidamente refratária, a possibilidade de coexistência de pessoas, humanas ou não, e até de haver interação e romance entre estas. Foi a primeira vez, por exemplo, que um homem australoide beijou uma mulher afrodescendente, clara e ostensivamente (a tevê estadunidense já havia ensaiado esta ousada cena, com a desculpa de esbarros, para não irritar os sulistas, reconhecidamente etnicistas) no episódio Plato´s Stepchildren (Enteados de Platão, literalmente) entre o Capitão James T. Kirk (William Shatner) e a Tenente Nyota Uhura (Nichelle Nichols).

jornadas-nas-estrelas_alimentacao-e-lixoJornadas nas Estrelas inovou em quase tudo, reitere-se. Para início de conversa, deixou Malthus falando sozinho, ao resolver o problema alimentar, pelo menos na Enterprise e onde a Federação aparecesse. Nada que as pesquisas em agrobiologia não já o fizessem, mas os sintetizadores de alimentos da Enterprise resolviam também o problema da limpeza e da reciclagem dos utensílios. O melhor de dois ou mais mundos, não?

Inovou na medicina, na tecnologia em rádio-transmissão (os comunicadores, mesmo os trambolhos da série original, são o protótipo do sistema de codificação do celular de Hedy Lamarr e dos nossos, claro).

jornadas-nas-estrelas_federacao

Uma das maiores abordagens utópicas de Jornadas nas Estrelas talvez venha a ser a possibilidade de haver paz e colaboração entre raças, não restringindo mais o problema da intolerância à espécie humana. Vulcanos, klingons, cardassianos, romulanos, vidianos, ferengui, talaxianos, todos, um a um, acabariam por se filiar à Federação dos Planetas Unidos (uma versão bem abrangente, ecumênica, sincrética, até, da Organização das Nações Unidas — se só há uma raça, aqui, a humana, então, a Federação haveria de comportar as outras espécies inteligentes dos Universos. Um bom recado aos intolerantes humanos contemporâneos). No caso dos vulcanos, malgrado seu passado violento, a aliança com a Federação pareceu mais natural, apesar disto, mas, no caso dos klingons, eles só se aliaram à Federação após ter, em um dos filmes da franquia, seu mundo iminentemente destruído, caso não recorressem à aliança; de qualquer modo, é pouco crível que uma raça beligerante e de hierarquia vertical, os klingons, consiga construir naves espaciais. É uma licença poética da franquia, sem dúvida.

Registre-se o fato de ser a Capitã[o] Janeway a primeira mulher a comandar uma nave. Há mulheres em altos postos na Federação, humanas ou não. Mas só em Jornadas nas Estrelas – Voyager, há uma capitã.

A série e os filmes da franquia pouco a pouco foram deixando ‘recados’ para as suas diversas gerações. Estes falam em tolerância, paz, avidez por descobertas, divulgação, tendo sempre como foco a Primeira Diretriz, que parece ser o mais próximo do conceito da autodeterminação das raças.

jornadas-nas-estrelas_simbolosMas há um aspecto na franquia que causa questionamentos: existe um irrecorrível apelo marcial, apesar das mensagens subliminares de paz e de congraçamento entre raças de todos os universos. Há muito símbolos náuticos na série, bem mais do que aquela saudação fúnebre, sempre que um corpo é ejetado da nave, e em toda a franquia, até aqui, mas não se discuta isso. Mais e além.

Para uma franquia que sobrepujou o preconceito étnico, pregou a paz universal, erradicou a cobiça, o dinheiro, o comércio como simplesmente fonte de lucros (a Federação comercia, mas, nota-se, claramente, numa abordagem de intercâmbio cultural, exceto, por eles claro, com os Ferengui), faz alianças com raças extremamente belicosas, como os hyrogens, ou os romulanos, etc., a inexpugnável tutela militar parece incoerente e muito mal explicada. Seria esta a verdadeira distopia conceitual de Jornadas nas Estrelas, nosso futuro imperfeito? A Federação não encontrou meios de organização civis, só há a saída pela via militar? Todas as raças elencadas, durante toda a marca Jornadas, parecem ter a tutela militar como forma irrecorrível de organização.

Seria intencional, esta “marciogonia”, seria fruto da inspiração de seus roteiristas, medo de propor temas espinhosos, como a verdadeira democracia, sem protetores e sem salvadores, de propor um “indo além”, no caso, uma sociedade anárquica, autorregulada, por estarem inseridos numa sociedade, como a estadunidense, refratária a qualquer ideia que possa redundar em comunismo, em superação de Governos e de tutores?

jornadas-nas-estrelas_personagensSão muitas perguntas. Nenhuma resposta, por ora. E o leitor, o que pensa? Param aí, as inovações de Jornadas nas Estrelas? Ou Mad Max, Ellysium e outros distópicos têm razão, o futuro é sombrio, ou seja, só nos resta sermos tutelados ou rebelados? Gostaria de ouvir o que você pensa, sobre isso.

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E Agora, Aonde Vamos? (Et Maintenant on Va Où?. 2011)

e-agora-aonde-vamos_2011Qual seria o caminho para a paz entre os homens? Já que para o da guerra já se está enraizado culturalmente neles.

e-agora-aonde-vamos_03E é por tentar encontrar um jeito de deixar os homens em harmonia entre si, que um grupo de mulheres farão das tripas coração para esse feito num pequeno povoado perdido num deserto libanês. Ligado até então ao resto do mundo pelo o que restou de uma ponte. Ponte essa que mais parece uma miniatura da Faixa de Gaza. Meio auto-suficientes, os habitantes só querem desse “outro lado” alguns produtos industrializados. Assim mesmo não por uma necessidade de consumismo, mas para um pouco de prazer pessoal. Como a lata de tinta para clarear a cantina local. Um perfume… Uma meia de seda… Acontece que ao chegar o primeiro aparelho de televisão, vem junto como um aviso: “Cristãos e Muçulmanos continuam em pé de guerra. Não tendo uma saída para que possam viver em paz.”

A Diretora Nadine Labaki mais uma vez brinda não apenas a nós mulheres, mas também a todos nós que gostamos de ver e ouvir histórias de pessoas simples. Para quem também amou “Caramelo” com certeza irá também se encantar com esse. Já que “E Agora, Aonde Vamos?” nos leva às lágrimas de se divertir com todos os personagens, mas também porque há cenas que machucam. Além do peso do nome da Diretora eu não me privaria de ver esse filme porque numa lida a uma sinopse – tentar evitar um conflito entre cristãos e muçulmanos -, seria em tom de comédia. Um gênero que eu amo! Além claro da curiosidade de em que contexto o título se encaixaria. E fechou com chave de ouro a tal cena. Na qual eu exclamei um “Putz!”, mas com sorrisão no rosto. Pois assim é a vida. Ela não tem um happy end, muito menos numa região de conflitos como o Oriente Médio.

e-agora-aonde-vamos_01O filme tem um começo almodoviano. Um grupo de mulheres num cortejo fúnebre. A cena em si é quase o final do filme. Pois se volta no tempo para então conhecermos todo o drama que todos vivenciaram até então. Elas são mulheres que apesar das diferenças religiosas se unem para tentar evitar que a paz dali fosse quebrada. Viviam numa paz bem melindrosa, já que culturalmente deveriam viver em pé de guerra, e logo por pressão religiosa. E mesmo que além dos limites daquela localidade elas nada poderiam fazer, pelo menos ali elas fariam o impossível, ou melhor dizendo fariam o impensável para continuarem a viver em paz. Mas no frigir dos ovos era uma guerra insana, e não uma guerra santa entre cristãos e muçulmanos. Algo latente, como pisar em campo minado. Daí cada tentativa delas era como abrir uma ferida antiga. Que para contornar mais confusões elas se metiam.

Não sei se foi algo proposital pela Nadine Labaki, como uma homenagem. Nem sei se o termo certo seria esse. É que uma importante parte desse filme, pelo menos a mim me levou a pensar no “Tartarugas Podem Voar“, com o jovem Satélite procurando um local com melhor recepção para a antena parabólica. Ambos os filmes denunciam a estupidez humana espalhando, e largando, minas terrestres.

e-agora-aonde-vamos_02Em “E Agora, Aonde Vamos?” ao sintonizarem o primeiro aparelho de televisão acabou trazendo a guerra para dentro daquela localidade. E justamente um dos muitos conflitos que os colocavam como grandes inimigos. Por sorte pela má recepção da tv a notícia fora breve, como também as mulheres estavam antenadas iniciando ali uma de fato guerra santa para manter a paz entre os homens da região. Elas foram para a frente de batalha, unidas, rompendo até os conflitos interiores na tentativa de também dar um basta em tantas mortes de uma guerra que nem a eles pertencia. A bem da verdade as guerras interessam mesmo as indústrias bélicas.

e-agora-aonde-vamos_04Há momentos ternos que dói na alma. Em ser desumano não poder chorar a perda de um ente querido. Alguém que ousava sair daquelas cercanias para trazer um pouco de modernidade para os moradores locais. Mas no geral acompanhamos com sorriso no rosto e numa torcida por todas elas. Pois sem tempo hábil para pesar os prós e os contras, a cada virada do destino elas seguiam em frente. Nada as detinha. Será mesmo? Já que o título do filme meio que entrega. Voltando então a reflexão inicial pela busca do caminho para que todos os povos vivam em paz. Esse pequeno microcosmo perdido numa região do Líbano nos traz um.

Performances excelente. Fotografia ímpar. Trilha Sonora como um grande coadjuvante. Mais um filme que coloca Nadine Labaki entre os grandes Diretores. Um filme para ver e rever. Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

E Agora, Aonde Vamos? (Et Maintenant on Va Où?. 2011). Líbano. Diretora: Nadine Labaki. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 110 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos.

Filho da Babilônia (Son of Babylon. 2009)

Filho da Babilônia do diretor iraquiano Mohammed Al Daradji conta a história de um menino de doze anos e de sua avó que no meio do caos de uma pátria destruída, saem pelas estradas e ruínas pós-guerra do Golfo e da queda do regime de Saddam Hussein, ocorrido em 2003, em busca do seu querido pai desaparecido depois de ser preso pela Guarda Republicana Iraquiana. O filme é uma espécie de documentário road-movie, mostrando essas duas gerações – infância e velhice – porém o mesmo sentimento de dor e perda, o sofrimento físico e emocional daquela gente, o desgaste causado pela intolerância que só uma guerra lamentavelmente é capaz de produzir.
Ahmed e sua avó, ambos curdos, passam por várias situações inusitadas nessa louca aventura sem fim e o desespero pela luta de vender todos os seus bens, e com a cara e a coragem vagar em busca de uma esperança de realizar esse lindo sonho de encontrar o ente querido. Embarcar literalmente num novo tempo de esperança e de recomeço.
Filho da Babilônia foi rodado no próprio Iraque, narrado sob a ótica do garoto sonhador e cheio de imaginação e, literalmente, uma viagem através das tragédias mais obscuras dos últimos tempos, a Guerra do Iraque, ressaltando a miséria humana, a destruição do país, as inúmeras covas rasas, corpos empilhados, desfigurados, sem identificação de inocentes vítimas desse conflito. Ahmed, como todo menino de sua idade, apesar dos pesares, sempre envolvido em brincadeiras, segurando com carinho a flauta mágica, presente do seu querido pai, não esquecendo essa condição, às vezes descuidando-se até mesmo de sua avó, para ir brincar com outras crianças que encontrava pelo caminho. Conheceu um garoto de sua faixa etária, que no meio da guerra trabalhava vendendo cigarros, e tornam-se amigos e entre uma brincadeira e outra Ahmed some por um tempo enquanto a sua avó tirava um cochilo aguardando a chegada do ônibus que os levaria para a próxima cidade. Ela leva um susto quando acorda e não o encontra. Agora são dois desaparecidos o seu filho e o neto? Ela cai em desespero, e ao seu redor, ninguém pode ajudá-la porque não falam o mesmo idioma. Algum tempo depois, Ahmed, aparece com seu amiguinho e ela, dá-lhe uma pequena bronca, pois quase perdem o ônibus por causa desse sumiço momentâneo. O retrato do Iraque atual é de destruição, ruínas, sujo e o povo sem perspectiva. Ao chegarem à cidade de Babilônia, conhecem um ex-soldado que passa a ajudá-los e essa experiência muda completamente a vida de Ahmed.
O menino fez amizade com esse ex-soldado do exército de Saddam; foi amor à primeira vista da parte de ambos. O ex-soldado confessou a avó do menino que matou a contragosto, nessa guerra muitos inocentes, e isso deixou a idosa bastante magoada e com raiva. Ela não o queria por perto e não conseguia de jeito nenhum perdoá-lo, talvez achando que ele também pudesse ter matado o seu filho, mas percebia-se pela fisionomia do rapaz que ele estava sofrendo por isso. E no fim ela acaba o perdoando e ele se apegou ao seu neto como sendo seu filho. Há várias passagens emocionantes neste filme. Uma delas é o ato de a avó ter levado um par de roupas novas para o neto se trocar no caminho a fim de que ele se encontrasse com o pai apresentável. O filme é recheado de simbolismos marcantes, e de antíteses entre guerra e paz; vida e morte; amor e ódio, sonho e realidade. Logo no início, a imagem retratada é de um mundo controverso cheio de vida, e a bela paisagem do verde da natureza prevalece; já o desfecho emblemático: a natureza morta, a vegetação seca, esperança no início e desilusão final.
Ahmed é um sonhador e sonhar é permitido em qualquer idade. Durante a viagem pelo Iraque ele viaja também através da imaginação de poder passear pelos JARDINS SUSPENSOS DA BABILÔNIA que só tinha conhecimento através dos livros didáticos.
O sonho do menino era pisar nesse Jardim que ele apenas conhecia de ouvir falar e que o fazia viajar nesse fantástico mundo da utopia.
O mundo da fantasia realmente é fascinante e eu fui lá pesquisar a história desse Jardim que tanto Ahmed queria conhecer. Aguçou minha curiosidade e quis saber com mais detalhes sobre esse lugar considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Os Jardins Suspensos da Babilônia foram construídos no século VI a. C., na antiga Babilônia, sul do Iraque. O rei Nabucodonosor (604-562 a.C.), teria mandado construir o monumento em homenagem a uma de suas esposas preferidas, Amitis, que sentia saudades das montanhas de sua terra natal. Uma escadaria de mármore dava acesso aos terraços, construídas sob seus montes de terras artificiais, que eram apoiados em colunas, onde havia vários tipos de árvores e flores conhecidas na época e alamedas de palmeiras.
Babilônia foi o centro cultural, comercial e financeiro do mundo antigo.

Filho da Babilônia foi produzido e financiado por sete países que acreditaram no projeto e no talento do jovem diretor, tanto que recebeu vários prêmios entre eles o da Paz e da Anistia Internacional em Berlim 2010 e recebeu convite de mais de 70 festivais ao redor do mundo.

Recebeu Prêmios da Paz e da Anistia Internacional em Berlem 2010.
Vó, Não me deixe sozinho, estamos na Babilônia!” Finaliza-se sobre a necessidade de um símbolo concreto a fim de dar consistência ao querer da continuação de um caminho incerto.
Um filme comovente. Imperdível!
Karenina Rostov
Sinopse
Em 2003, três semanas depois da queda do regime de Saddam Hussein, Ahmed, garoto curdo de 12 anos, viaja com a avó pelas estradas desertas e empoeiradas do norte do Iraque. Eles vão em direção ao sul, a procura do pai dele, preso pela Guarda Republicana de Saddam ao fim da Guerra do Golfo. No caminho, encontram diversas pessoas em situação semelhante, mas esperançosas de um novo futuro. Ao chegarem na cidade de Babilônia, conhecem um ex-soldado da Guarda que talvez possa ajudá-los. A experiência muda completamente a vida de Ahmed. Prêmios da Paz e da Anistia Internacional em Berlim 2010.
Ficha Técnica
Direção: Mohamed Al-Daradji
Roteiro: Mohamed Al-Daradji, Jennifer Norridge, Mathel Khasea
Elenco: Yasser Talib, Shazada Hussein
Fotografia: Mohamed Al-Daradji, Duraid Al-Munajim
Montagem: Pascale Chavance, Mohamed Jabarah
Música: Kad Achouri
País: Iraque / Reino Unido / França / Holanda / Emirados Árabes Unidos
Produção: Isabelle Stead, Atia Al-Daradji, Mohamed Al-Daradji, Dimitri de Clercq
Estúdio: Roissy Films
Duração: 90 minutos
País: Iraque
Ano: 2009
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Curiosidades acerca dos Jardins – Os Jardins e Sadam Hussein
Sadan Hussein ofereceu, certa vez, uma recompensa de milhões de dólares para quem pudesse apresentar uma explicação plausível de como os Jardins Suspensos eram irrigados. As condições de vitória eram que não poderiam utilizar quaisquer métodos modernos, como computadores, e calculadoras para calcular a hipótese.

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