Diplomacia (2014). Uma Aula Compacta de História Geral.

diplomacia_2014_cartazDiplomacia não é simplesmente um filme, é uma aula compacta de história geral que nos leva a conhecer um pouco mais de fatos que chocaram a humanidade, de detalhes que aconteceram nos bastidores da segunda guerra mundial que os livros didáticos não contaram e que o mundo não faz mesmo questão de lembrar. E para narrar a história aqui apresentada o autor foi generoso e ‘diplomático’, preferiu o formato mais suave da linguagem, escolhendo a ferramenta poética, talvez para abrandar o tema guerra, destruição e morte, assuntos bem difíceis de se digerir. E a gente não precisa de muito esforço para entender a história, tudo está fácil, a começar pelo o título “Diplomacia” que significa arte e prática de conduzir as relações exteriores ou os negócios estrangeiros de um determinado Estado ou organização internacional e que envolve assuntos de guerra e paz numa forma de abrandar a dor de quem testemunhou aquele período de intolerância.

ParisEntre tantas coisas absurdas que aconteceram na segunda guerra mundial, desde a perseguição aos judeus, os campos de concentração, a mais estranha foi a de Hitler ter ordenado seu exército alemão a destruir Paris. Seu objetivo era ver a cidade em ruínas. E essa tentativa de destruição aconteceu mais de uma vez. A capital da França ficou bastante tempo convivendo com a ocupação do exército alemão, e todas as tentativas de varrer a cidade do mapa foram em vão. Todos os seus súditos, por alguma razão, não o obedeceram, até que apareceu um diplomata que nem francês nato era e que acabou mudando para melhor o rumo dessa história. Graças a ele, o mundo hoje pode conhecer o Museu do Louvre e a Torre Eiffel, entre outros pontos turísticos.

Este filme é baseado na obra adaptada para o teatro pelo francês Cyril Gelly, que por sua vez se baseou em fatos reais, por isso, talvez, o diretor Volker Schlöndorff ao contar este fato histórico, ele inicia usando filmes em P&B originais, documentos esses como forma de reconhecimento de área para se entrar no clima e o público poder se situar no enredo que começa a ganhar forma, e assim valorizar mais a História que o parisiense para sempre se lembrará. E a outra parte o diretor alterna contando em Technicolor numa Paris com tanques de guerra por toda cidade, civis convivendo com o exército de Hitler e sua bandeira, o medo que impera ao toque de recolher sendo minimizada apenas pelo sossego do rio Sena e nessa parte agora que é a paz reinando pelo próprio cenário, entre atores, maquiagem e pela direção que é dez.

diplomacia_2014_01E como toda obra teatral, o detalhe que separa atores do público é o palco, e por último o abrir e fechar de cortinas, o grande teatro desta comédia humana aconteceu no famoso Hotel Maurice e seus protagonistas foram Dietrich von Cholitz (Niels Arestrup), o general alemão que comandou em Paris na época da ocupação durante a Segunda Guerra, e o cônsul-geral Raoul Nordling (André Dussollier), eles se duelando em palavras num discurso racional parecendo não ter fim na qual o diplomata tenta convencer o general a não destruir Paris, plano este arquitetado pelo seu líder nazista o Senhor Hitler.

E todo o desenrolar da história é isso o que acontece; são uns cem minutos nesse estresse entre esses dois personagens lutando com palavras, e arma usada era a retórica de olhares, socos na consciência, caras e bocas e tentativas de convencimento de que quando um não quer, dois não brigam. E o representante do governo alemão acabou se convencendo disso. E sua missão de apertar o botão que destruiria a Cidade-Luz não se concretizou, graças ao Raoul Nordling que deu o melhor de si nessa missão.

E o mundo hoje até concordaria que o general poderia sim apertar não um, mas todos os botões e interruptores de Paris para deixá-la mais, muito mais linda e iluminada do que Ela já é.
E.B.

Diplomacia (Diplomatie. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

O Cinema Mostrando o Lado Sombrio da História da Humanidade

hotel-rwandaNo princípio quando o homem decidiu viver em grupo o que seria para compartilhar até tarefas veio junto o sentimento de posse. Em uns, muito mais exacerbado. Dai só um passo para que sentissem donos do mundo. Onde vidas humanas eram mercadorias sem o menor valor; descartáveis ao seu bel prazer. O pior é que isso ainda existe… Então trazendo alguns Ditadores, como também Guerras, Genocídios… Enfim, páginas lastimáveis na História da Humanidade mostradas em Filmes. Vem comigo!

A foto inicial é do filme “Hotel Ruanda“, de 2004, que nos mostra um genocídio real e de um passado recente, em que o personagem do Joaquim Phoenix diz na cena desta foto ao de Don Cheadle vem com o efeito de um soco no estômago de tão verdadeiro. Assistam e vejam o que ele está dizendo. Ainda em território africano… “Lágrimas do Sol“, de 2003, nos mostra sobretudo a bestialidades de alguns homens quando estão em guerra. O pior é que fazem as barbáries também com mulheres… É! Aonde vão com a tortura… É por demais chocante! E saindo do território africano indo para a Europa, mas onde temos também um outro que mostra as selvagerias com mulheres, é o “A Vida Secreta das Palavras“, de 2005. São fatos que chocam até por saber por quem foi feito! Além do que é muita crueldade em todos.

in-the-valley-of-elah-posterUm pouco antes da internet invadir os lares, as guerras reais foram parar nas televisões: num acompanhamento quase ao vivo… Numa delas e desse passado recente foi a da invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Claro que há inúmeros filmes sobre esse fato, mas eu citarei dois deles e saberão o porque. Num para não apenas conhecer um pouco do tão sem propósito foi essa guerra, mas principalmente porque “Soldado Anônimo“, de 2005, traz como enfoque maior quem são os que se alistam nessas guerras que o título original traduz bem: são mentes vazias na espera de encher com ideais dos outros. Um quase aliciamento desses jovens até no propósito de continuar com a cultura do porte de armas para qualquer cidadão americano. Agora, esse outro mostra com propriedade o quanto eles são programados para matar, mas que depois se esquecem de “desprogramar” esses mesmos jovens quando voltam dos campos de batalha, é o “No Vale das Sombras“, de 2007. Filmaço!

Focando essa região ainda, Oriente Médio, mas voltando o tempo em alguns anos, chegaremos ao Afeganistão… Mostrando um pouco da invasão pelos russos temos o “Caçador de pipas“, de 2007. Muito embora o filme trouxe uma versão muito mais leve do que foi relatado no livro… Mas temos nele a visão dos que moram nesses territórios sitiados. Dos que perdem muito mais do que os bens materiais. Agora, mostrando como os russos saíram de lá do Afeganistão, assistam “Jogos do Poder“, de 2007. Por ele também se vê como se dá as reais regras do jogo, e que só por isso já vale a pena assistir!

Paradise-Now-2005_02Subindo no mapa… E parando ali entre a Palestina e Israel… Um filme que muito que querer tentar entender o que se passa na cabeça de um homem-bomba, “Paradise Now“, de 2005, nos deixa a certeza que tanto por uma nação como para outra os jovens não passam de joguetes nas mãos desses que detém o poder. Que são meras peças dessa engrenagem até para os que continuam fomentando a guerra e num conflito que não tem previsão de acabar. Principalmente por Israel pois poderia vir a perder grande parte de um território que usurpou ao longo desses anos. Mas também é um filme que mostra como é viver num território muito sitiado. Sem o direito de ir e vir onde se vive.

Essa outra história ocorreu em 2002… E na apuração dos fatos ao ataque as Torres Gêmeas, um jornalista americano é sequestrado no Paquistão. O filme é “O Preço da Coragem“, de 2007, quem conta essa história é sua esposa. O que pesou também sobre ele era o fato de ser judeu. Um filme que também de certo modo faz uma homenagem aos jornalistas que apuram os fatos, que não ficam nos achismos. Vale muito a pena ser visto!

der-untergangPor falar em judeus… Não dá para esquecer do carrasco-mor desse povo: Hitler. Nesse filme “A Queda – Os Últimos Dias de Hitler“, de 2004, quem conta a história foi a secretária particular desse ditador. Nele também se vê o que motiva mais as pessoas, como também o quanto disso “ajuda” aos que se aproveitam disso. Esse é um dos filmes que deveria ser passado sempre nas escolas até pelo documento histórico. Agora por outro lado tem quem resolve contar de um jeito muito divertido essa terrível perseguição aos judeus: o filme “Trem da Vida“, de 1998. Onde os esteriótipos são inseridos de propósitos até para ver o quanto é insano todas as guerras. E ainda por conta do nazismo… Naqueles que conseguiram sair… Um que retrata uma única família, mas por ser contada por alguém que era criança nessa época, o enfoque foi onde foram morar fugindo dessa perseguição nazista: na África. É um belíssimo filme o “Lugar Nenhum na África“, de 2006, até em mostrar quais são as reais bagagens a se levar quando se vê  frente até em escapar de uma guerra insana ao abraçar uma nova terra, como também por fazer frente ao preconceito racial muito mais do que ao cultural.

Infelizmente não são poucas essas páginas lastimáveis na História da Humanidade e que o Cinema sempre traz.. Sendo assim posso voltar à elas com outros Filmes… E para encerrar esse, a história contada por um jovem quando conviveu com um dos mais cruéis ditadores desse passado, é o “O Último Rei da Escócia“. Até porque é mais um a mostrar o quanto alguém se deixa iludir por um podre poder. Ficando a esperança que as novas gerações venham até com mais humildades para não perpetuarem um poder que enoja e que em nada é pensando na população.

Uma ótima releitura a Todos!
See You!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

P.s: Esse texto faz parte de uma coletânea que escrevi e postados numa coluna de uma revista eletrônica, a qual não exite mais. Dai readquiri o direito sobre eles até para postar onde eu quisesse. Por conta disso tenho trazido eles para cá. Já trouxe outros dando uma repaginada. Neste aqui também. E que é 2008.

O Evangelho Segundo São Mateus (Il vangelo secondo Matteo. 1964)

o-evangelho-segundo-sao-mateus_1964Por Lidiana Batista.
Dirigido pelo italiano Pier Paolo Pasolini (Salò ou 120 Dias de Sodoma), a obra retrata fielmente a vida de Jesus Cristo segundo o Evangelho de São Mateus. Desde o seu nascimento, os milagres, suas pregações até sua morte e ressurreição.

Este filme me surpreendeu em vários aspectos. Primeiro porque para quem não conhece o diretor italiano Pasolini, atrevo-me a dizer que ele foi um gênio incompreendido não só na sua época como também nos dias atuais.

pier-paolo-pasolini_1964Pasolini era assumidamente homossexual, ateu e comunista. Todos os seus filmes são uma crítica à política italiana e à igreja católica que influenciava diretamente na política da época. Em Salò, sua última obra e talvez a mais criticada, Pasolini utilizou um conto do Marquês de Sade e transformou em uma grande denúncia não só contra o fascismo, mas contra todos os regimes ditatoriais. Infelizmente foi assassinado de forma brutal e a causa ainda é desconhecida, embora no filme Nerolio que retrata os últimos dias de vida do diretor, mostra que ele foi espancado até a morte por um garoto de programa, mas existe a hipótese de ter sido uma emboscada política.

Amado e odiado, Pasolini quando lançou O Evangelho Segundo São Mateus, muitos não entenderam já que ele era ateu. O que queria Pasolini com um filme que mostrava a vida de Jesus Cristo? Eu mesma fiquei surpresa. Se estamos falando de um diretor tão polêmico, esperava algo tão incompreendido quanto “A Última Tentação de Cristo” de Martin Scorsese.

o-evangelho-segundo-sao-mateus_1964_02No entanto, Pasolini fez uma obra belíssima, filmada em preto e branco com uma trilha sonora irretocável. O Jesus Cristo deste italiano não é como os dos americanos e europeus (representado sempre na figura de um homem loiro e com olhos azuis, como se no oriente-médio fosse fácil encontrar alguém com tais características). Pasolini escolheu um ator amador ( ele gostava de trabalhar com amadores), alto, moreno, com sobrancelhas grossas para fazer o papel de Jesus. Já saiu do estereótipo de vários filmes sobre a vida de Cristo que foram lançados nesta época.

Mas enfim, o que levou um ateu filmar a vida de Cristo? Modismo? Não. Depois de muito pensar, cheguei à conclusão que não foi por modismo e muito menos por fé, mas por política. Pasolini sendo comunista admirava a figura de Jesus Cristo que era um reacionário, lutava contra o sistema opressor, estava sempre à favor dos mais humildes e indefesos e não seria esta uma das premissas do comunismo?

Não estou querendo dizer com isto caro leitor que Jesus era comunista, mas talvez era para Pasolini, ou talvez Pasolini acreditava na existência de Cristo e admirava o trabalho e a coragem que ele teve, ironicamente morrendo por questões políticas.

Filmado em algumas terras áridas da Itália a fotografia é bela, olhares que expressam dor, alegria, a música que toca a alma. Pasolini conseguiu transformar a vida de Cristo em poesia. É uma obra imperdível de um dos maiores cineastas de todos os tempos e que ainda conta com a participação de sua mãe, Sussana Pasolini no personagem de Maria já com idade mais avançada.

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave. 2013)

12-anos-de-escravidao_2013_cartazFilme de 2013 dirigido por Steve McQueen (Shame), a obra é baseada em fatos reais e conta a história de Solomon Northup (brilhantemente interpretado pelo ator britânico Chiwetel Ejiofor), um negro livre que vivia com sua mulher e filhos na época da escravidão dos EUA, até receber uma proposta falsa de trabalho e ser sequestrado para ser vendido como escravo para o então impiedoso fazendeiro (Michael Fassbender). Começa então para Solomon 12 anos de trabalhos forçados e a luta para provar que ele não era um escravo.

Creio que qualquer história que relate torturas com seres humanos sempre é emocionante e chocante. Este filme não é mais um filme sobre escravidão. A história de Solomon e esses sequestros que aconteceram são pouco conhecidos, mas quando o filme termina você chega à conclusão de que isso não era difícil de acontecer. Motivo: negros livres, com cartas de alforria não representava muita coisa em uma época que negro não era gente. Imagino que muitos passaram por necessidade (o que não era o caso de Solomon, já que sabia ler e escrever e ainda era um exímio violonista), mas imaginemos aqui no Brasil com o fim da escravidão. É sabido que muitos ex-escravos não tinham para onde ir e não conseguiam emprego. Imagino que o mesmo aconteceu naquela época. Muitos negros livres cheios de falsas esperanças foram vítimas desses sequestros, algo brutal, toda forma de escravidão e tortura é brutal.

12-anos-de-escravidao_chiwetel-ejioforEu não quero sobreviver, eu quero viver!

12 Anos de Escravidão‘ foi muito bem construído e dirigido, sem cair na pieguice. Steve McQueen conseguiu dar realismo às cenas de açoite e aos trabalhos forçados aos quais os escravos eram submetidos. Vemos Solomon e pensamos que ele esta resignado com aquela vida. Mas Chiwetel Ejiofor tem os olhos tão expressivos, e em muitas cenas ele não diz nada, aliás, ele diz, mas diz com os olhos e nós entendemos o que eles falam: “Eu vou lutar, vou ver minha família de novo. Isso vai acabar.” Sua expressão facial é algo fantástica!

O cenário e o figurino também merecem destaque. Tudo foi minuciosamente pensado para retratar uma parte da história que merecia ser contada. E tenho que destacar o pequeno papel de Brad Pitt que interpreta um abolicionista, e também foi um dos produtores do filme.

12-anos-de-escravidao_steve-mcqueenNão tenho dúvidas de que Steve McQueen já entrou para o roll dos grandes diretores. Depois do excelente “Shame” eu não poderia esperar nada inferior que viesse dele, sem sombra de dúvidas um grande cineasta que ousou contar a história de um grande homem que foi Solomon e que vale à pena conhecer.

Cotação: 4 estrelas

Por Lidiana Batista.

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave. 2013). Reino Unido. Diretor: Steve McQueen. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Brad Pitt, Paul Dano, Paul Giamatti, +Cast. Gênero: Biografia, Drama, História. Duração: 134 minutos. Baseado no livro homônimo de Solomon Northup.

Curiosidade: Oscar 2014 de Melhor Filme, Atriz coadjuvante – Lupita Nyong’o -, e o de Roteiro Adaptado.

A Imagem que Falta (L’Image Manquante. 2013)

a-imagem-que-falta-2013_posterL’image Manquante” é um pungente relato de uma época avassaladora para o Camboja sob o olhar simplificado e lúdico de uma criança, testemunha de um genocídio histórico nos anos setenta.

Rithy Panh era apenas um menino quando o regime do Khmer Vermelho aproveita a esteira da guerra do Vietnã para criar uma cruel reestruturação de engenharia social, sob a liderança do cínico revolucionário Pol Pot. O partido secreto denominado “Angkar” acaba por escravizar, torturar e dizimar a população disfarçada numa suposta política igualitária de justiça plena.

É um documentário realizado de forma diferente, pois lança mão de um cuidadoso e singelo artesanato em argila para tentar suprir as imagens que faltam no quebra-cabeça de um acontecimento aterrorizante. O diretor Rithy Panh após sobreviver àquele massacre assistindo a morte lenta de sua família e amigos, resolve contar a triste estória do seu povo mesclando bonequinhos de barro e imagens reais da época.

O resultado é assombroso, por conta de uma memória vívida e dolorida que pode ser ainda mais impactante do que qualquer registro visual que porventura tenha se perdido.

Carlos Henry

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte I

festival-do-rio-2013_os-documentarios– OS DOCUMENTÁRIOS:

BLACKFISH – FÚRIA ANIMAL (BLACKFISH.) é um documentário esclarecedor e reflexivo de Gabriela Cowpertwaite contando a chocante estória das baleias orcas criadas no famoso parque temático Seaworld em Orlando. A velada crueldade do cativeiro explode em terríveis ataques a seres humanos culminando na noticiada morte de uma treinadora do show.

INVADINDO BERGMAN (Trespassing Bergman) de Jane Magusson e Hyne Pallas. Para os fãs do cultuado e atormentado diretor Ingmar Bergman, somente. Trata-se de uma visita de cineastas famosos a sua protegida residência na inóspita Ilha Faró no mar Báltico. Recheado de cenas de seus filmes e depoimentos curiosos, infelizmente o documentário pouco revela de seus mistérios e segredos.

EU SOU DIVINE (I am Divine) de Jeffrey Schwarz desvenda a estrela preferida de John Waters como nunca vista antes. O gordinho Harris Glenn Mistead de Baltimore sempre se sentiu diferente, mas nunca poderia imaginar alcançar uma carreira meteórica transformada numa drag abusada e muito famosa. O documentário é perfeito simplesmente porque não é superficial. Supre a curiosidade dos fãs revelando detalhes muito além da conhecida, escatológica e antológica cena das fezes caninas de “Pink Flamingos”. Divine fazia shows, cantava e começou a ser reconhecida por trabalhos mais sérios como “Hairspray” quando teve sua breve vida interrompida. Talento genuíno.

CORREDOR DA MORTE – 2 Retratos (On Death Row – 2 Portraits) conta com a direção e a voz gutural do renomado cineasta Werner (Nosferatu) Herzog para apropriadamente contar estórias macabras de dois condenados à morte nos Estados Unidos. Os dois casos impressionam e muito. O primeiro episódio fala sobre Blaine Milan acusado de matar a marteladas a filha de 13 meses num suposto ritual de exorcismo. A ignorância dos entrevistados revela o grau de estupidez que culminou na tragédia. Uma das mulheres afirma que tudo que viu no filme “O Exorcista” aconteceu de verdade. Já Robert Fratta, um fisiculturista atinge o ápice do narcisismo quando decide matar a esposa revelando uma frieza assustadora. Seu discurso baseia-se em dogmas nazistas e teorias de racismo incontestável segundo sua concepção doentia. Apesar de sua arrogância, é possível notar o medo infinito que o envolve com a proximidade da execução. Absolutamente aterrador.

A BATALHA DE AMFAR (The Battle of Amfar) é um documentário conciso, mas esclarecedor e muito bem realizado sobre os últimos avanços nas pesquisas para vencer o vírus HIV.  A fundação AMFAR foi criada em 1985 no auge da epidemia, tendo à frente a cientista Dra. Mathilde Krim e o ícone do cinema Elizabeth Taylor que muito contribuiu para a luta contra a doença. Após a morte da estrela, outros artistas abraçaram a causa como Goldie Hawn que deu o ar de sua graça no Espaço Rio em Botafogo. Muito apressada, Goldie mal respondeu a uma pergunta no pequeno debate, não falou com os fãs nem com os repórteres e ficou um bom tempo no banheiro. Será que teve um mal súbito?

FOGO NAS VEIAS (Fire in the Blood) também trata do tema da Aids concentrando-se na má distribuição dos milagrosos remédios ao redor do mundo. Dylan Mohan Gray preferiu um tom didático ao seu documentário o que o tornou um pouco modorrento, embora importante.

OS FILHOS DE HITLER (Hitler’s Children) de Chanoc Ze’evi mostra como vivem os descendentes dos poderosos nazistas ligados à figura do líder. A convivência com a sociedade é difícil por conta do estigma que carregam com seus nomes. Uma cena emocionante é quando um deles submete-se às perguntas de filhos de suas vítimas em plena Auschwitz, o célebre campo de concentração onde morreram muitos judeus na guerra. Sentimentos de perdão e condenação se misturam ao evento.

CIDADE DE DEUS – 10 ANOS DEPOIS de Cavi Borges mostra o destino dos participantes do premiado filme de Fernando Meirelles desenhando um autêntico panorama do país cheio de desigualdades e mazelas. A conclusão é que, apesar do filme ter sido reconhecido mundialmente, poucos dos que debutaram na fama conseguiram manter o ritmo do sucesso meteórico da época do lançamento do filme como Seu Jorge, Alice Braga e Thiago Martins. A maioria sucumbe ao triste esquecimento na sombra de uma obra premiadíssima que rende muito dinheiro até hoje.cidade-de-deus-10-anos-depois