O Amor é Estranho (Love is Strange. 2014)

o-amor-e-estranho_2014É! O amor é estranho por levar a uma decisão que deixará ambos felizes, mesmo tendo consciência que isso terá consequências desagradáveis. Mas pelo momento em si, vai lá e faz assim mesmo! Arrojo, maturidade…? Pode ser… O amor é estranho por levar alguém a ficar de longe admirando a pessoa amada, e que depois descobre que ela fazia o mesmo, e que mesmo assim travou o desejo da aproximação. Timidez, inexperiência…? Poder ser… O amor é estranho por fazer alguém a ser quase coadjuvante na vida do outro até que decide protagonizar a própria vida quando então o outro descobre o quanto esse amor era importante. Seguir em frente? Dar outra chance?… São certezas, dúvidas que permeiam a todos, principalmente em relacionamentos… No fundo é quase um momento de olhar no espelho e dizer amigavelmente: “Olá, estranho!

Muito bom quando se vê uma Hollywood colocando como protagonistas um casal homo e que por décadas levam uma vida plena de amor! Não que isso seja o pano de fundo em “O Amor é Estranho“, mas sim porque isso é que se deveria ver em toda a sociedade moderna. O que o filme traz são as incongruências das e nas atitudes que as pessoas são levadas a fazer em nome do amor. Até pela atitudes destemperadas por falta de um diálogo mais franco. Que às vezes nem se trata de ser por falta de amor, mas sim por acumular coisas mal resolvidas. Até pelo imediato de não pesar prós e contras… Indo por uma boa intenção… Levando então as explosões que poderão deixar feridas… E aí é cada um assumindo de um jeito próprio por mais estranho que isso possa parecer.

o-amor-e-estranho_2014_01Em “O Amor é Estranho” o casal Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina) após décadas de uma relação cheia de amor resolvem oficializar a união. Família e amigos comparecem até para abençoarem o gesto. Acontece que sai das intimidades desses lares… incomodando a Igreja. Tudo porque George dar aulas de Música num Colégio Católico. Todos – pais, alunos, corpo docente – até sabiam da relação dos dois, mas ao colocar num papel… O Diretor da instituição se vê obrigado a seguir a um outro papel: onde o casamento de George e Ben peca contra os preceitos da religião.

Com isso, só a renda da aposentadoria de Ben e somada as aulas particulares de piano dadas por George não dariam para cobrir todos os gastos de onde moravam. Decidem vender o imóvel e comprar um mais acessível aos bolsos dos dois. Mas até lá precisariam ficar de favor na casa de alguém. Ben então vai para a casa do sobrinho Elliot (Darren E. Burrows) e George vai para a casa do filho Roberto (Manny Perez). E é quando se convive sob o mesmo teto com esses familiares que a coisa começa a desandar.

o-amor-e-estranho_2014_02Elliot é casado com Kate (Marisa Tomei) e têm um único filho, o “adolescente” Joey (Charlie Tahan). Kate trabalha em casa: é escritora. Ben dorme numa beliche no quarto de Joey que não gostou nada dessa intromissão. Ben fica sem saber onde passar as horas do dia, sem querer também incomodar Kate que está escrevendo um novo romance… Para piorar essa nova vida dos quatro… Algo vem à tona: um temor de Elliot em relação ao próprio filho. É! Na intimidade de um lar é que se conhece de perto alguém… Mas mais do que uma panela de pressão prestes a explodir… É de Ben que Joey recebe uma real atenção, e mesmo tendo sido tão rude com o tio. Se na outra casa é por demais silenciosa… Na casa de Roberto que vive maritalmente com Ted (Cheyenne Jackson) mais parece uma boate onde todas as noites acabam em festas. Levando George a poucas horas de sono, e acabam deixando-o sem paciência durante as aulas… À primeira vista pode-se achar que Ben e George deveriam ter trocado de casas: um poderia dormir à noite e o outro durante o dia. Enfim, mesmo parecendo terem errado nessa “estadia provisória”… Foi devido a uma dessas baladas noturnas da casa do filho que George conheceu Ian (Christian Coulson) e…

Fora um jeito do destino tentar reorganizar a vida de todos? Mesmo já tendo abalado alguns dos relacionamentos? Essa nova virada ainda estaria em tempo para aproveitá-la? As feridas se cicatrizaram? Pode até ser… Pois tendo amor no coração ele tambem deixa um convite a fechar um capítulo, tendo novas páginas para seguir em frente até como se nada tivesse acontecido… Afinal, o amor é estranho mesmo!

o-amor-e-estranho_2014_diretor-e-proagonistasO Diretor Ira Sachs merece aplausos pelo conjunto da obra: atuações, trama, trilha sonora…! Um filme que pelo o que consta gerou polêmica nos Estados Unidos até pela “liga da moralidade e dos bons costumes” a MPAA – órgão censor daquele país -, que classificou-o como inapropriado para menores de 17 anos. Caramba! Só por beijos na boca entre homens? Mas enfim, querendo saber mais sobre essa tal MPAA, sugiro o Documentário “Este Filme Ainda Não Foi Classificado“, do Diretor Kirk Dick. Há um porém nesse filme e numa fala que o liga ao Brasil, a um certo estigma, e que eu fiquei sem entender até porque quem também assina o Roteiro é o brasileiro Mauricio Zacharias (de “O Céu de Sueli”). Ele bem que poderia não ter colocado tal estigma. Seria ele um “coxinha”?

No mais, “O Amor é Estranho” é muito bom! Merece ser visto! Quanto a rever, quem sabe algum dia… Nota 08!

O Amor é Estranho (Love is Strange. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Pariah (2011) – Lutando pela própria identidade!

pariah-2011_posterPor Lidiana Batista Corrêa.
Trama dirigida e escrita por Dee Rees e que conta a história da adolescente Alike (Adepero Oduye), moradora do Brooklin e que tenta de todas as maneiras esconder sua homossexualidade dos pais (Kim Wayanes e Charles Parnel). A única pessoa que sabe seu segredo é sua melhor amiga Laura (Pernell Walker) que também é lésbica e por essa razão, a mãe desaprova esta amizade. Juntas, as duas frequentam boates GLS na esperança de que Alike encontre uma namorada. Filme vencedor do festival de Sundance 2011. [Pariah = uma pessoa sem status, um membro rejeitado pela sociedade.]

“Para onde voava o pássaro sem patas, encontrava árvores sem galhos.” (Andre Lorde)

Pariah-2011_00É com esta citação que começa o filme Pariah. E em seguida vemos Alike e Laura em uma boate GlS, Alike vestida de menino, feliz, sentindo-se livre, mas ao mesmo tempo apreensiva, pois queria conhecer alguém. O tempo passa, Laura e Alike precisam ir embora, Alike se veste de menina dentro do ônibus, nesta cena já podemos concluir que os pais não aceitam a homossexualidade da filha.

Li muitos comentários à respeito desse filme e um deles é que as lésbicas ficaram estereotipadas. Discordo completamente dessa afirmação, pois o que vemos é uma adolescente de 17 anos lutando para viver sua sexualidade, a não aceitação da família, o preconceito que ela e outras garotas sofrem no bairro, isso não é estereotipo, é a realidade de muitos jovens retratada na tela dos cinemas.

Um outro fator que merece destaque, é a aproximação de Lee (Alike) e uma amiga do colégio. É claro que a garota sabia que Alike era lésbica, e se aproveitou disso para brincar, ou para matar sua curiosidade (isso é só uma hipótese minha), já que a garota foi totalmente indiferente no dia seguinte, sem se importar com os sentimentos de Alike, apenas diz: “Não conte para ninguém.”

E podemos dizer que isso acontece? Sim podemos. Com tantas declarações de famosos que se dizem bissexuais, parece que que virou modinha entre os jovens experimentar de tudo, ser de todo mundo e dane-se o resto! Nada contra os bissexuais! Pelo contrário! Sei perfeitamente que é possível sim um homem ou uma mulher sentir atração pelos dois sexos, mas o que questiono aqui é a banalização. A garota dormiu com Alike em uma noite e no outro dia estava com um menino! E disse ainda: “Eu não sou gay!” É claro que isso provocou um caos em Alike, afinal era sua primeira experiência, para ela foi verdadeiro, foi entrega total, e não só um passatempo.

Pariah-2011_01Não há nada de errado comigo.”

A mãe esta sempre preocupada em vestir sua garotinha como menina e garantir que ela ande com companhias femininas. O pai é relapso, sabe da homossexualidade da filha, mas não quer aceitar. Afinal, ele é um policial, e isso seria vergonhoso, não? Ele não suporta a esposa com seus fundamentalismos, ele a trai, até sentimos raiva dele, mas é este homem quem estenderá a mão para Alike no momento em que ela mais precisará.

Lee além de corajosa é uma grande escritora, e fez sua escolha. Isso exigiu que ela atravessasse um caminho árduo, mas escolhas exigem sacrifícios, exigem renúncias, exige coragem.

Diga a mamãe que Deus faz as coisas certas.”

Detalhes Técnicos: http://www.imdb.com/title/tt1233334/

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.

Rezando por Bobby (2009). Meu protesto contra Marco Feliciano!

rezando-por-bobbyPor Lidiana Côrrea.
“Rezando por Bobby”
conta a verdadeira história de Mary (Sigourney Weaver), uma mãe de família religiosa, que se sente abalada quando seu filho Boby (Ryan Kelley) revela ser gay. Começa então uma corrida na tentativa de “curar” Bobby, no entanto, depois de se culpar por ser quem era, Bobby se atira de uma ponte aos 20 anos de idade e Mary começa a refletir sobre seus próprios conceitos até se tornar uma militante da causa gay. Filme dirigido por Russell Mulcahy.

Assisti esse filme já tem um certo tempo. Embora tenha sido feito para a TV, a atuação de Sigourney Weaver não passa despercebida, foi simplesmente tocante. Não é um grande filme, mas é uma grande história, e em tempos de Marco Feliciano nada mais sensato que escrever sobre uma trama com temática GLS.

Eu poderia ter escolhido outro filme, há muitos filmes bons com temática GLS. Mas lembrei-me deste quando li um comentário de uma moça com relação a uma matéria da revista Época, que dizia que Feliciano insiste em dizer que os negros são amaldiçoados, e entre tantos comentários dos leitores, é claro que suas declarações homofóbicas vieram à tona. E a moça escreveu mais ou menos assim: “toda mãe sonha que o filho se case de forma tradicional, tenha filhos, eu não sou homofóbica!” Me pus então a refletir sobre o que ela escreveu, e imediatamente Orações para Boby me veio à mente.

rezando-por-bobby_01Bem, no filme, assim como na realidade, Mary sonhava exatamente isso para Boby, mas não era isso que ele sonhava. E ele tentou seguir à risca a cartilha da mãe, mas isso só gerou tristeza, infelicidade, depressão, e um fim trágico. Então, fica a pergunta: os pais querem que os filhos sejam uma extensão deles mesmos, ou que tenham vida própria e sejam felizes?

Mesmo com os leitores já sabendo o final do filme, ele não termina aí. Com a morte de Bobby, Mary vê a chance de recomeçar, de entender o filho, e para isso ela terá que quebrar seus próprios paradigmas. Uma luta consigo mesma, com aquilo que acreditou a vida inteira e sobretudo com seu amor de mãe.

Esta história aconteceu na década de 70, mas acontece ainda nos dias de hoje. Basta ver as declarações de Feliciano, Joelma (nossa como Joelma me lembrou essa mãe!) Nos coloquemos no lugar dos homossexuais, como eles se sentem tendo seus direitos violados, sendo motivo de escárnio para toda a sociedade? Como você se sentiria?

Mais resenhas sobre filmes com temáticas gay virão. Então, se você é homofóbico ou algo do gênero, me faça um favor: não leia este blog.

Esta é a verdadeira Mary em uma parada gay.

Esta é a verdadeira Mary em uma parada gay.

Eu não posso deixar ninguém saber que não sou hétero. Isso seria tão humilhante. Meus amigos iriam me odiar, com certeza. Eles poderiam até me bater. Na minha família, já ouvi eles falando várias vezes que odeiam gays, que Deus odeia os gays também. Isso realmente me apavora quando escuto minha família falando desse jeito, porque eles estão realmente falando de mim. Às vezes eu gostaria de desaparecer da face da terra…Às vezes sofro tanto…Estou assustado e sozinho. Estou condenado. Estou afundando lentamente num vasto lago de areia movediça. Um poço sem fundo. Gostaria de rastejar para debaixo de uma pedra e dormir para sempre. […] Posso sentir os olhos de Deus olhando para mim com pena.” (Trecho extraído do diário de Bobby.)

Léo e Bia. (2010). A Radiografia de uma Época

Quem não pode atacar o argumento, ataca o argumentador.”

A frase acima dita no filme “Léo e Bia” meio que define não apenas toda a obra de Oswaldo Montenegro, mas também os seus fãs, em qual eu me incluo. Um artista que não teve medo de se mostrar por inteiro, em cantar em verso e prosa o seu lado romântico, de não ter sido um engajado ferrenho em plena ditadura, por ter sido um pequeno burguês como muitos de nós. Que sonhava com um mundo melhor em conversas com amigos. Alguém assim termina aos olhos de muitos se tornando um poeta maldito. Mas ele sorri para os críticos de um jeito sereno. Abstrai como uma religião essas pedras pelo caminho. E assim nos identificamos com ele.

Se tudo fosse claro, tudo nos pareceria inútil.”

Oswaldo Montenegro transpos a peça teatral homônima dos anos 80 para a tela do cinema. E o fez de modo magistral! Em “Léo e Bia” o teatro está ali, já que o filme todo se passa num único cenário. Onde quase não há objetos cênicos que me fizeram lembrar de “Pina“, de Wim Wenders. Sendo que nesse filme aqui, mesmo as cenas que saem do tal palco do teatro, são passadas escurecendo o entorno. Para quem assiste nota e não nota essa ausência de cenários porque a presença dos atores aliados ao roteiro e a trilha sonora prende a atenção até a cena final.

Quando você estiver triste, a gente vai fazer teatro, quando você estiver feliz, a gente vai fazer teatro e quando você estiver arrasado, a gente vai fazer teatro”.

Léo e Bia” está centrada num período marcante da História do Brasil. Ambientada na época da Ditadura. Início dos Anos 70. Onde um grupo de amigos usam o teatro também como uma catarse. Se sentem meio deslocados em Brasília. Uma cidade erguida meio que para se ter um poder central, ou o sentimento dele. São jovens nascidos ou levados para morar nela que buscam por uma identidade, e o fazem com essa paixão em comum pelas artes cênicas.

Lúcio Costa e Niemeyer resolveram o problema da pobreza no plano piloto varrendo todos os pobres para as cidades satélites.”

Nessas reuniões, mais que para apenas um laboratório para a peça que irão encenar, eles se desnudam interiormente. Não são jovens alienados, mas sabem que a melhor arma é se ajudarem mutuamente. Existe amor entre alguns deles, mas acima de tudo há a amizade, o companheirismo. Alguns são mais abastados, outros mais humildes.

A ditadura acha que protege, mas na verdade ela tortura.”

O filme aborda o contexto político da época, mas mostrando que muita das vezes ela está dentro de casa. A personagem Bia sofre até fisicamente toda a opressão vinda da própria mãe, mas não se rebela por pena. Como também se sente presa pela forte cobrança que a mãe sempre faz. Já um outro personagem, o Cabelo, sofre pela homofobia tão repressora na época. Mas que ainda é forte atualmente. Também mostra que não se pode transar livremente, ou impunimente. Até porque o peso recairá na mulher. É a gravidez não planejada. Um outro tema tem a ver com as drogas. Até onde ela aprisiona a pessoa.

O povo é burro”. / “O povo é vítima”.

Os jovens estão encenando uma história que faz um paralelo entre Jesus Cristo e Lampião. Política e Religião sempre andam juntas, mas quando uma começa a perder terreno, não medirá esforço para recuperá-lo. “Antonio Conselheiro” que o diga! Não fazem de Lampião um herói, mas um produto do meio. A encrenca maior que arrumam será com a “dona Censura“. Que me fez lembrar do nome “Solange” na assinatura do documento exibido antes de cada filme na época.

Brasília lá em baixo, …era mais do que toda a possibilidade de vôo. Eu sentia a dor que o Léo tava sentindo… Eu amava o Léo. …todo mundo sabia… O Rio me assustava …mas até ter medo era novo. A gente tinha um tédio …de tudo. E aí percebi que seria diretora e protagonista do filme da minha vida. …não ia permitir que nenhum patrocinador influísse… Começou …e ele não é bom nem mal… Mesmo que doa, é o nosso filme! …conduziríamos o barco… o caminho era mais lindo que o barco… Valeu Brasília! Já fomos!

Mesmo ainda muito jovens, eles sentem quando chega a hora de cortarem o cordão umbilical para ir ao encontro do sonho maior: viver do teatro. E aí é hora de saber quem irá carimbar esse passaporte para a felicidade. Saber quem está preso a outros compromissos, outras responsabilidades. É o amadurecimento advindo da tristeza para uns. A dor de não poder ser livre. De não poder ser o protagonista da própria história de vida.

São sete bichos / Sete regras do jogo / Sete provas de fogo / Para a lógica de cada um / São sete mundos / Pelo mesmo planeta / A mesma bola na roleta / E apostando no número um / São sete dores e sorrisos em jogo / Apostando sete corpos em ponto comum / Observando na mesma estação / Os anjos e demônios de cada um.”

E quem são esses sete amigos de “Léo e Bia“?
Léo é o líder do grupo. Adora estimular a todos para que ponham em xeque suas emoções confrontando com o lado racional. Muito criativo, partindo dele as ideias para a peça. Um crítico da realidade, sem perder o lado terno. Tem um ponto fraco: é apaixonado por Bia.
Bia se encontra emocionalmente frágil. Totalmente submissa a mãe. Contida em seus sentimentos até por medo de expor o ódio que sente às vezes pela própria mãe. O que a faz passar por um momento muito sensível. Sabe que terá que escolher entre o amor de Léo ou cuidar da mãe.
Marina é um jorro de otimismo. Mas bem equilibrada. De essência solidária. Mas bem racional. Ufanista. E apaixonada por Léo.
Encrenca é o brincalhão do grupo. Contestador. Adora fazer citações, o que o deixa como um clichê-ambulante. Mesmo que aparenta ser um cara imaturo, será o apoio de uma amiga.
Cabelo é o que veio da cidade-satélite. Por esforço próprio se fez um cara culto. Poliglota. Boa pinta. Elegante até nas atitudes. Sensível, sofre por ter que esconder a sua homossexualidade por causa das reações das pessoas. Só diante dos amigos se pode mostrar por inteiro. Um sonho maior: Paris.
Cachorrinha é a mais animada do grupo. Pelos termos da época: Porraloka. Meiga. Ingênua. Riponga só no exterior, pois ama o conforto da cidade grande. Por acreditar piamente no namorado, irá entrar numa fria.
Brook é o mais rico da turma, ou melhor, o único. Um típico filhinho de papai. Daí, um tanto e quanto inconsequente. Boa gente, mas sem correr risco por alguém. Como também não pesar os contras daquilo que faz. Namora a Cachorrinha.

Ditadura não tem a ver com sexo, tem a ver com estupro.”

A Trilha Sonora é sensacional! Além das cantadas em cena, as de fundo contam com algumas participações como Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Zé Ramalho, Sandra de Sá, Paulinho Moska. Um coadjuvante de peso que juntamente com o elenco afinado e afiado contam, cantam e encantam a história de uma época, que literalmente curta no contexto – 1973 -, marcou profundamente esses jovens. O filme foi baseado em alguns personagens reais. Tudo isso é contado com humor leve, mas por vezes apimentado. E que prende a atenção do começo ao fim. Para uma atualidade mais individualista, é altamente recomendado. Enfim um filme de querer rever! Que eu assisti pelo Canal Brasil.
Nota Máxima!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

LÉO E BIA. 2010. Brasil. Direção e Roteiro: Oswaldo Montenegro. Elenco: Paloma Duarte (Marina), Emílio Dantas (Léo), Fernanda Nobre (Bia), Pedro Nercessian (Encrenca). Pedro Caetano (Cabelo), Françoise Forton (Mãe da Bia), Brookie (Ivan Mendes), Cachorrinha (Vitória Frate). Gênero: Comédia, Drama, Romance, Musical. Duração: 95 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos. Trilha Sonora: Oswaldo Montenegro.

Curta: O Ataque Homofóbico das Laranjas (2010)

Calma gente não precisa fazer alarde ou mesmo protestos é apenas um curta do Festival ZineGoak realizado na Espanha em que as regras são bem simples fazer um curta ( gay ) em quatro dias com um objeto dado pela organização, neste caso uma laranja .

Neste caso é um trailer falso de El ataque de las naranjas homofobas de Pablo Isidro [HQ] Mas com muito bom humor ..

Adorei 🙂

Curiosidades: O Show do Gongo, evento do Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual, é tão incrível que está fazendo escola. O Zinegoak, festival de cinema gay de Bilbao, na Espanha, se inspirou no concurso brasileiro para criar o Show del Txistu. A fórmula é a mesma que conhecemos: qualquer pessoa pode inscrever um vídeo, que é submetido ao crivo de uma voraz plateia. Quem resiste ao gongo do público ganha um prêmio absurdo.
E o campeão do primeiro Show del Txistu foi mais que merecido. Em “O Ataque das Laranjas Homofóbicas”, frutas cultivadas e modificadas geneticamente em solos do Vaticano querem porque querem exterminar homossexuais da face da Terra. (Irving Alves)