Livro “TARÂNTULA” de Thierry Jonquet

Pessoal, sei que já foram feitas análises sobre o filme A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar. Entretanto o que será discutido agora é o livro de Thierry Jonquet. Apesar de focar na relação do médico Richard Lafargue e sua aparente esposa, Ève, tal qual a adaptação cinematográfica (com nomes trocados). O romance possui caminhos totalmente diferentes do longa-metragem, fornecendo personagens com atitudes distintas, porém ligados pelo mesmo segredo. Mesmo assim, o livro de Jonquet consegue, surpreendentemente, escrever uma história sobre a crueldade humana, algo mais distante do ambiente romântico do filme e próximo de “Laranja Mecânica”. Numa história envolvente onde todos possuem culpa, o autor “dá a cara a tapa” sem receios de mostrar as doenças do mundo real, evitando suavizar o lado da mocinha como o roteiro da película de Almodóvar.

Sinopse: O cirurgião plástico renomado (Richard Lafargue) e a bela mulher prisioneira de suas vontades (Ève), a adolescente que se automutila em um hospício (Viviane), o jovem acorrentado no porão obscuro depois de uma perseguição implacável (Vincent), o assaltante fugitivo condenado pelo próprio rosto (Alex). Um erro fatal do passado reúne esses personagens na mesma teia, no romance mais aclamado pelo público e crítica do autor francês Thierry Jonquet. Adaptado livremente ao cinema com o nome A Pele Que Habito sob a condução do famoso diretor espanhol Pedro Almodóvar.

Uma das coisas interessantes do livro é propor metáforas sobre zoomorfismo. O título Tarântula faz referência ao apelido dado por Ève ao seu seqüestrador, numa analogia da aranha envolver sua presa e, dessa forma, torturá-la na espera pelo pior. Além disso, a civilidade humana é posta a prova quando Vincent passa longos dias sem comer ou conversar com alguém, de maneira a ser comparado a um cachorro de estimação quando Lafargue chega, trazendo presentes e outros agrados. O sexo é retratado da forma mais cruel possível com a prostituição, criando um horrível pesadelo masculino relacionado a estupro consensual.

Já li algumas opiniões comparando a história a um Frankenstein moderno, todavia, até então, não entendia o porquê da trama lembrar-me tanto A Bela E A Fera. O item em comum com o conto-de-fadas é a Síndrome de Estocolmo, onde a vítima, numa tentativa inconsciente de autoproteção, busca uma maneira de se identificar com o raptor ou conquistar a simpatia do mesmo. Isso é uma das coisas mais angustiantes, afinal após tudo feito a Ève, ela continua tentando se aproximar do doutor, não da forma interesseira mostrada no filme, mas impulsivamente. O médico também se sente atraído, na verdade isso é ainda mais polêmico pela sugestão de que ele seja homossexual. É algo sem resposta e ofuscado pela atuação de Antonio Banderas, mas na obra de Jonquet fica no ar com a desconfiança momentânea de Vincent, fisicamente fraco demais para analisar melhor a situação. A saída do longa-metragem para essa suspeita foi fazer Vera (Ève, na literatura) com o rosto da esposa do doutor. Mas há outras peculiaridades semelhantes ao conto mencionado, o doutor a mantém presa, porém com o tempo passa a ser afetuoso, apesar do sofrimento imposto por ela a Viviane (filha de  Lafargue). Portanto, essa história  é mais próxima de uma versão ultraviolenta e sombria de A Bela E A Fera.

Tarântula e suas semelhanças macabras com A Bela E A Fera devido ao Complexo de Estocolmo, onde a vítima busca afeiçoar-se ao sequestrador, e as circunstâncias que levam o médico a aproximar-se da refém por solidão, culpa, piedade, irresistível beleza da moça, etc.

Ève não é santa ou inocente na história original, na realidade ela é capaz de tocar “The Man I Love” ao piano só para irritar Lafargue e abrir as pernas provocando o desejo proibido sentido por ele, o qual evita até tocá-la por conta do segredo. Mesmo tendo razões gigantes para torturar a “esposa”, Tarântula consegue ser perverso. O simples ato de prostituí-la e observar o ato é horrível, mas tudo é confrontado quando sabemos a identidade da mulher. Honestamente, li o livro após assistir ao filme e esse conflito de opiniões é bastante evidenciado. Afinal, o médico está certo ou não impondo sua tortura? a humanidade existente no homem deve ser ignorada, mesmo havendo motivos suficientes para fazer alguém culpado sofrer? Cabe ao médico condenar Vincent ao sofrimento até o fim da vida?

Nesse ponto descobrimos o porquê do título ser justamente Tarântula, o personagem chave é Lafargue, uma vítima tentando se vingar e sendo confrontado com sua natureza: tenta fazer durar seu ódio, mas a piedade na consciência é pesada, ainda precisa controlar seu desejo pela aparência de Ève, sente orgulho de sua criação e não pode usufruir dela por dogmas unidos ao passado sombrio.  Após esse texto, consegue-se descrever o livro em uma palavra: desafiador. Tudo isso condensado em apenas 150 páginas, provando algo esquecido por alguns autores: estimar qualidade ao invés de quantidade. Não focando apenas na questão de manter a identidade sexual da pessoa, o livro vai bem além dos temas do filme, explorando o sentimento de punição aos limites com um resultado intrigante através de reviravoltas inusitadas onde o conflito de humanidade e castigo é debatido sem o temor de não agradar um público acostumado a distinguir personagens bons de maus.

Por Alexandre Cavalcante (Alecs)

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O Advogado do Diabo (Devil’s Advocate. 1997)

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O Advogado do Diabo“. Um filme excelente e brilhante! Quem assistiu com os olhos na beleza do Keanu Reeves e não prestou atenção nas ações dele, por favor, corra à locadora e reveja essa obra! A palavra Diabo, em alguns, já trás uma resistência, como algo do MAU e MAL. Você mesmo que me lê, faça o favor de suspender os preconceitos, as religiosidades, as igrejinhas e os credo de todo santo dia e de todo dia santo.

Al Pacino, o Diabo, no filme chamado John Milton, levantou questões primordiais: Livre-arbítrio, Humanidade, Ambição, Vaidade, Amor, Amor-Próprio, Culpa. Mas ainda não é hora de falar sobre isso. Agora é hora de apresentar a ficha técnica da obra:

Título Original: Devil’s Advocate
Suspense
Origem/Ano: EUA/1997
Duração: 144 min
Direção: Taylor Hackford

Kevin Lomax (Keanu Reeves) é um brilhante advogado convidado a trabalhar na empresa de advocacia de John Milton. E aceita! Então ele e sua esposa Mary Ann (Charlize Theron), que tinham uma vida mais simples, mas mais amorosa, mudaram completamente suas rotinas: mudaram para NY, Kevin praticamente não tinha mais tempo para a esposa. A partir daí, os testes começaram…

Aliás, como diz Milton, as negociações começaram…

Que negociações são essas? As do livre-arbítrio. Afinal, o que é livre-arbítrio? É a doutrina filosófica de que os homens têm o poder de escolher suas ações. Veja bem, aqui não se trata de dizer que o sujeito é livre para voar ou qualquer coisa parecida.

Levando-se em conta que algumas coisas são pré-determinadas e exigem certas predisposições, estou dizendo que o homem têm o direito à escolher, mesmo que dentre as opções impostas.

O que muda absolutamente tudo.

E Kevin escolheu… escolheu não ter tempo para a família, mesmo com sua esposa adoecendo a olhos vistos, que também escolheu permanecer doente. Kevin escolheu a profissão, a vaidade de vencer sempre, a ambição de ser o melhor advogado criminal de NY, o que equivale dizer ser o melhor advogado dos EUA.

E a vida cobrou o preço disso… sempre alto! A vida não cobra barato nunca! As pessoas devem se conscientizar disso: pra tudo tem um preço. Esse preço, essa dívida simbólica é cobrada ao longo da existência e ninguém tem alguma culpa de sua dívida, ela é apenas sua e de suas escolhas.

O preço que Kevin pagou foi o suicídio de sua esposa. Depois de internada numa clínica psiquiátrica, num momento delirante, ela se matou. E Lomax foi pedir as contas com Milton…

Chegando na Torre de Milton, Kevin o acusa de ter matado Mary Ann.

E aí, no final do filme, há um fechamento, uma síntese de todo desenrolar do filme, de forma brilhante!

Reproduzirei:

Milton diz:

-“ Livre-Arbítrio. É como as asas da borboleta. Se tocar, não saem do chão. Eu só preparo o palco. Você só manipula suas cordas. Nunca perdeu uma causa. Por quê? O que você acha? Por que você é bom? Sim! Mas por quê? Ninguém ganha sempre, Kevin”.

E continua, ao falar de Mary Ann:

-“Mary Ann… Você poderia tê-la salvado. Ela só precisava de amor. Você não tinha tempo… Pare de se iludir! Eu mandei você cuidar de sua mulher. O que eu falei? O mundo vai entender! Não falei? E o que você fez? “Sabe o que me assusta, John? Eu largo o caso, ela melhora, e eu começo a odiá-la”. Lembra-se? Eu não fiz isso, Kevin? O que eu disse naquele dia do metrô? Talvez fosse sua hora de perder. Você não concordou.

John então respondeu:

-“Perder? Eu não perco! Eu ganho! Eu ganho! Eu sou advogado! Essa é minha profissão!

E Milton responde brilhantemente, em minha opinião:

-“A vaidade é, com certeza, o meu pecado predileto. Amor-próprio, a droga mais natural. Sabe, não que você não gostasse de Mary Ann, é que você estava mais envolvido com outra pessoa. Contigo mesmo…

Estou te dizendo, a culpa é um saco cheio de tijolos. Tudo que você tem de fazer é largá-lo. Pra quem você está carregando esse saco de tijolos?

Deus? É isso? Pra Deus? Escute aqui! Vou te dar algumas informações sobre Deus.

Deus gosta de observar. Ele é um gozador. Pense! Ele dá instintos ao homem. Ele lhe dá esse extraordinário dom, e o que faz depois?

Eu juro, para a própria diversão, para a própria comédia cósmica particular, ele cria regras contrárias. É a maior piada de todas:

Olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula.

E, enquanto você pula de um pé para outro, o que ele faz?

Ele fica se mijando de tanto rir! Ele é um sacana!! Ele é um sádico!!! Ele é um patrão ausente! Adorar isso? Nunca! … Eu me preocupei com seus desejos e nunca o julguei. Por quê? Porque eu jamais o rejeitei, apesar de suas imperfeições. Eu sou fã do homem! Eu sou um humanista! Talvez o último humanista”…

Ficaram sem fôlego rs?

Confesso que essa parte do filme é demais!

Bom, o mal da humanidade é se prender ao pré-julgamento interno do que seja mal e bem. Do fazer bem e mal… Onde nada disso conta, pois tudo não passa de ser Humano, demasiadamente humano…

Ninguém conseguirá ser imagem-semelhança de Deus. Pois ser Homem é ser instintivo, é ser ambicioso e é colocar em jogo a auto-preservação; o que nos torna egoístas e competidores natos de uma cadeia alimentar vasta.

Os instintos “que Deus nos deu” são imperfeitos para o objetivo de ser igual a ele desde e para sempre. Nosso duplo é o diabo, como já dizia o Filósofo Cioran. O Diabo é humano!!! Deus é desumano…

Como Lestat falou em Entrevista com o Vampiro: o Mal é um ponto de vista.

Kevin queria dinheiro, sucesso profissional e fama! Isso é um mal? Quem não quer isso que atire a primeira pedra! Isso é HUMANO!!!

Obviamente que temos o livre-arbítrio de termos uma vida mais simples, de tomarmos na cara sempre, de tentarmos ser a perfeição de Deus… Tudo é uma escolha! Escolha que jogo jogar lembrando-se sempre que SEMPRE há um preço nisso, independente da escolha feita.

Por: Vampira Olímpia.