Histórias Cruzadas (The Help. 2011). E a ajuda veio!

Abrindo um parêntese antes de analisar o filme. É que esse eu assisti no Festival do Rio 2011 – exibido como Vidas Cruzadas, mas que ao entrar no circuito comercial já virá como “Histórias Cruzadas“. Entre tantos a escolher… lembrei que uma amiga de blog, a Joyce, Blog Arte Amiga já o tinha citado. Então vi e amei! Valeu pela dica! Gostei tanto do filme que não entendi que só entraria no circuito comercial já quase Fevereiro de 2012. Pois uma data bem apropriada seria em 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Mas vá lá saber em como escolhem a data de exibição de um Filme no Brasil. Ainda mais esse que teve uma boa aceitação, de público e críticos, nos Estados Unidos; e da minha parte também. O filme é excelente! Até por conta disso eu resolvi deixar para publicar o meu texto já com ele em exibição. Incentivando assim a outros mais que não deixem de assitir. Agora sim, entrando no filme.

Histórias Cruzadas” traz como pano de fundo: de um lado as donas de casas e do outro as empregadas domésticas. Mas não se trata de uma luta de classe, e sim por mais dignidade e respeito entre elas. De imediato, há entre elas toda uma barreira de racismo. Herança de uma cultura escravagista. Num período de apenas algumas décadas passadas. Ambientadas em terras sulistas, mais precisamente no Mississipi. Como grande diferencial o filme traz um retrato 3×4 desses universos femininos. Mulheres iguais na essência, mas diferentes por forças das circunstâncias. O que estaria por trás, ou melhor, o que estaria de dentro dessas casas. Algo Histórico, mas focando mesmo na vida dessas mulheres. Num período bem marcante para todas. Onde se o saldo foi ruim para a elite local, veio quase como uma redenção para a classe espezinhada.

As tais donas de casas parecem terem saídos daquela escola em “O Sorriso de Monalisa”. Graduadas com mérito em: racismo, preconceito, futilidade, falta de amor visceral pelos próprios filhos. Delegando também às domésticas a criação dos filhos. Se tem como o grande vilão a segregação racial, tem como a personificação disso aquela que se auto proclamou a líder do grupo: a Hilly (Bryce Dallas Howard). Sua vilania é do tamanho e medida para aquilo que recebeu.

Se em “Domésticas – O Filme” temos uma prévia do grau do tratamento que muitas serviçais recebem das suas patroas, imaginem o que passavam na década de 60, Sul dos Estados Unidos. Época em que os Direitos Civis aos cidadãos negros tentavam entrar nesse território ainda com um tipo de milícia muito, mas muito cruel: a Kur Kurx Klan. Se por trás dessas máscaras estavam os maridos dessas patroas, o mais indicado seria que essas serviçais se calassem. Afinal, quem iriam socorrê-las?

_Coragem algumas vezes pula uma geração. Obrigada por trazer de volta à nossa família.”

A ajuda veio. Entre aquelas jovens brancas, uma resolveu ser a porta-voz das serviçais negras. Essa, nem o “casar e ter filhos” estava em seus planos. Seu sonho era ser jornalista com vôos em se tornar uma grande escritora. Da dona de uma Editora de Livros (Personagem de Mary Steenburgen) recebe uma importante dica. Que ganhasse experiência, não apenas no escrever, mas também em observar o entorno. Com isso teria o que dizer e como dizer. Essa jovem é Skeeter, personagem de Emma Stone. Se em “Amor a Toda Prova” ela não fez a diferença, em “Histórias Cruzadas” ela mostrou que está no caminho certo. Eu gostei da atuação dela.

Skeeter ao voltar para casa após se formar em jornalismo tenta se enquadrar na vida social local com as antigas colegas do colegial. Mas de imediato já destoa das demais por procurar um emprego em vez de um futuro marido. Conseguindo uma vaga no jornal local. Mas de algo que não tinha a menor aptidão. A vaga é para uma Coluna sobre Dúvidas e Sugestões em Trabalhos Domésticos. Parecia até piada, mas foi isso que a levou a se aproximar mais das serviçais. De uma em especial: Aibileen. E é por ela que conheceremos toda essa história. Eu comecei esse artigo com a Skeeter para então chegar na ligação entre as duas.

Aibileen é interpretada pela Viola Davis. Que está excelente! Por ela que temos também o porque do título original: “The Help“. Uma cena linda que foi menosprezada ao escolherem o título aqui no Brasil. Pois “Histórias Cruzadas” não faz jus as súplicas de Aibileen em suas conversas diárias com Deus. Escrevia tudo o que passava, o que percebia, o que ficava sabendo… Palavras muito mais fervorosas que qualquer oração. Skeeter na realidade foi quase uma ghost writer de Aibileen. Fora um salvo conduto num mundo onde ainda os brancos imperavam. Mas ela também teve uma história para contar no tal livro.

A cena de Aibileen escrevendo essas cartas para Deus, emociona. Até por algo sofrido, e muito especial. E pelo todo, me fizeram lembrar também da música do Gilberto Gil, “Se Eu Quiser Falar com Deus“. Aibileen mais que a Skeeter trazia em si o dom de escrever. O talento pode até vir de um aperfeiçoamento, de estudos, mas o dom é algo inato. Como também, só o fato de transcrever para o papel os sentimentos sofridos, já é um modo de exorcizá-los.

E é seguindo esse elo entre Fé e Realidade que ficamos conhecendo as histórias também das outras serviçais. Claro que todas essas histórias se cruzavam. Afinal todas elas, patroas e empregadas, moravam na mesma cidade, mesmo que em condados separados pela segregação racial.

O filme é longo, mas em nenhum momento perde o ritmo. Pois a atenção se mantém até por querer conhecer todas as demais histórias. As demais vidas. Saber da reação de todas quando o livro é publicado. Vibrar pela irreverência de Minny, personagem da Octavia Spencer. Minny é uma empregada que não deixará barato as injustiças que sofrera até então. Como também em soltar um palavrão na cena onde uma das amigas da mãe (Allison Janney) de Skeeter a obriga fazer, e até pelo motivo que a outra viu como afronta. Em se solidarizar com uma outra branca excluída pelas demais, a Celia, personagem de Jessica Chastain. A dupla Minny e Celia é uma comédia! Não tem como não se encantar com elas. Ri junto com a personagem da Sissy Spacek numa certa cena. E muito mais!

Uma das reflexões que o filme deixa é de que ainda há muitas dessas histórias nos dias atuais. Sob a égide de: cada um no seu lugar. Uma certa hierarquia dentro do campo profissional por certo há de se aceitar. Mas sem humilhações, nem constrangimentos com os subalternos. Na intimidade de uma casa, assim como numa empresa, precisa que haja um bom relacionamento entre todos para que tudo funcione bem. Do contrário, é uma ladeira abaixo até a falência familiar. Então a égide seria em valorizar quem realiza de fato as funções essenciais. É preciso respeito mútuo entre todos. E tirando o lado empregatício há de se pesar também o carinho que se recebe desses que em muitas das vezes terminam como sendo um membro “da família”.

Histórias Cruzadas” também deixa outras questões. Uma delas seriam com os homens. Em porque de terem sido ora passivos demais, noutras até violentos demais em meio a toda essa trama. Se eles são o que são por também serem produtos desse meio? Mas como citei, são reflexões após o filme. As máscaras deles não foram retiradas. O filme é delas!

Até pelas performances dos atores, destacando também a Direção e o Roteiro de Tate Taylor. Não li o livro de Kathryn Stockett, o qual o filme foi baseado, mesmo assim a história foi muito bem contada.

Então é isso! Entre emoções, risos e lágrimas, o filme entrou para a minha memória afetiva. De querer rever.

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

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Histórias Cruzadas (THe Help, 2011)

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Baseado no romance de Kathryn Stockett, “The Help”, o filme de Tata Taylor, narra a história de uma determinada jovem branca, que se sente injuriada com o tratamento que as empregadas domesticas afro-americanas são vitimadas por suas patroas, em Jackson, Mississipi, na década de 1960.

Não li o romance de Stockett, mas o roteirista e diretor Tate Taylor não sacrifica muito, pois nada é explicíto no seu modo de narrar. A violencia vivida pelos negros no conturbado anos 60 nos Estados Unidos, não tem a mesma visão realista usada por Alan Parker, em “Mississipi em Chamas” (1988). Em “The Help”, o saldo se mede em comédia, drama- o que permite que os espectadores sintam compaixão e tornem parte do mundo das personagens.

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“The Help” é uma vitrine para seus atores. Viola Davis e Emma Stone, aparecem como fio contudor do filme. Stone vive Skeeter, a tal determinada jovem, que luta pela causa da classe minoritaria. Aibileen (Davis) é a voz que representa todas essas mulheres afro-americanas violadas pela discriminação racial. E, o seu testemunho serve de base para o livro “The Help” escrito por Skeeter, que subsequentemente representa outras multiplas vozes, dispositando uma Metaficção, onde Tayler exponhe ficção na ilusão ficcional, para dar um clima de verdade a narrativa.

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Curiosamente, achei as performances de apoio bem melhores do que as que foram entregues a Viola Davis e Emma Stone. Por examplo, a bela Bryce Dallas Howard como Hilly, encarna a personificação do mal como uma dona de casa racista, e ignorante. No entanto, o destaque do filme pertence a Octavia Spencer como a amiga de Aibileen, Minny, e Jessica Chastain como adoravel Celia Foote. Esta ultima é vista como uma “white trash” por Hilly e outras senhoras.  Chastain brilha em todos os filmes que fez este ano- “The Tree of Life”, “Take Shelter”,  “Debt” e Coriolanus-, e deveria concorrer ao Oscar contra si mesma da categoria de melhor atriz coadjuvante de 2011.  A Celia de Chastain é uma personagem cheia de vida, mas que sofre por não se enquadrar no grupo das senhoras respeitadas da cidade. Como Minny, Spencer está em fuso. Com os olhos arregalados e de fogo, ela comanda a atenção do público tanto quanto ela chama a atenção dentro da narrativa. Minny é o personagem que você torce, ri e deseja ser. Se Davis e Stone são o coração deste filme, Chastain e Spencer são o sangue pulsando a alma, e corpo  de “The Help”.

Por mais que haja aquela mensagem social, o filme de Taylor é vago. “The Help” não me tocou depois que acabou. Não que seja ruim, pois não é, mas não me deixou com aquele gostinho de querer rever.

P.S.: Sucesso de público e crítica, o filme provavelmente vai receber muitas indicacões ao Oscar. E, merecidamente Davis vai ser indicada como atriz – mesmo que o material aqui não chegue aos pés do seu desempenho em “Doubt” ( 2009).

Lindissima a trilha escrita pelo sempre injusticado Thomas Newman, que diferente do seu pai, o maravilhoso Alfred Newman, esse ganhou 9 Oscars, nunca ganhou nada, e esse ano provavelmente nem indicado aos Oscar vai ser! 😦

 Nota: 6

Recém-Chegada (New in Town)

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Para aquela gente, o lema era: Um por todos, e todos por um!

Como comédia romântica, a fórmula não mudou. ‘Recém-Chegada‘ trouxe os ingredientes básicos. De diferencial, é que me levou a ficar em lágrimas duas vezes, já perto do final. Gostei da química entre Lucy (Renée Zellweger) e Ted (Harry Connick Jr). Muito embora, me fizeram lembrar de uma que gostei muito mais, com essa temática: ela, da cidade x ele, do interior. São eles – Diane Keaton e Sam Shepard -, em ‘Presente de Grego‘ (Baby Boom).

Para a mulher, mostrar sua competência como Executiva, é um caminho muito mais difícil do que para o homem. A cobrança é muito maior. Assim, quando surge uma chance de subir, será preciso estar muito bem antenada. Para não entrar numa fria. Não foi o caso de Lucy. Mas ai, não teríamos essa história.

Numa reunião, onde só há ela de mulher, se todos os homens não se ofereceram a ir fazer a tal empresa dar lucro, algum motivo maior, teria. Lucy então aceita. Vendo apenas como um degrau maior na sua carreira. Algo que prometera a alguém. Mas que para mim, não veio como uma homenagem, pareceu-me mais que sentira vergonha quando soube da verdade. Mesmo fantasiando, se havia algo errado, era em si própria. Vendo, tirarão suas conclusões. Nessa nova fase, ela conhecerá pessoas tal qual a do seu passado. De onde o  ‘Acorda!’ virá.

recem-chegada_01Num país continental, como os Estados Unidos, também se faz necessário conhecer um pouco do lugar para onde estar indo, e mais, até por conta da missão que levava. Vacilou nisso. Ou, o que me leva a pensar no tipo de ensino escolar que levam lá; e no real. Pois uma saída da Flórida, no inverno, em direção a uma cidadezinha num Estado bem ao norte do pais, ver neve, não seria um milagre de Natal. É um fato! Aí, não importa tão caro sejam seus trajes, paga mico do mesmo jeito. Até de tiritar de frio.

Lucy, acostumada a viver sozinha, fica incomodada com a amistosidade que os moradores têm entre si. O qual, depois de quebradas as barreiras, alguns tiveram com ela. Algo meio esteriotipado para a mulher executiva, em mostrar uma postura fria. No caso dela, não pareceu ter um temperamento introspectivo.

Blanche (Siobhan Fallon) é daquelas pessoas que meio que invade a vida de outra pessoa, mas sem maldade. Gosta de ajudar a Todos. Quis ser amiga de Lucy, logo de cara. Lucy não gostou nada do jeito dela. Blanche será a salvadora da pátria para Lucy, e os demais.

Se sua missão era implantar maquinários robóticos para substituírem mão-de-obra humana, ela conhece o Presidente do Sindicato local: Ted. Bem, como citei no início, eis um dos ingredientes desse gênero: os atritos iniciais entre o casal de protagonistas. E se noutras histórias, poderia ser o empecilho, aqui, a filha adolescente dele + o entender de moda da Lucy, acaba reaproximando um pouco mais os dois. Pelo menos quebra uma barreira. Mas se Lucy, exige de si mesmo ser uma excelente profissional, ele também não fica atrás.

Se o pessoal das grandes cidades gostam de mexer com os caipiras, eles também gostam de zoar deles quando em seu território. Assim, por tripudiarem dela, Lucy acaba demitindo o funcionário mais querido de todos, Stu (J.K. Simmons). O que faz piorar e muito sua situação. Para aquela gente, o lema era: Um por todos, e todos por um. Com eles, Lucy cresce sim, ficando mais humana.

Deixo a sugestão. É bonzinho. Do tipo sessão da tarde. E que eu voltaria a ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Recém-Chegada (New in Town). 2009. EUA. Direção: Jonas Elmer. +Elenco. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 97 minutos.