O Ano Mais Violento (A Most Violent Year. 2014)

o-ano-mais-violento_2014_cartazPor Humberto Favaro.
O ano de 1981 é considerado um dos mais violentos da história de Nova York. Fora a miséria e as incertezas do plano econômico adotado pelo então presidente, Ronald Reagan, a cidade sofreu um corte brusco de investimento, que deixou vários norte-americanos jogados aos criminosos. Para se ter ideia, os índices de roubos, assaltos, estupros e assassinatos colocaram o país inteiro em estado de alerta durante este período.

o-ano-mais-violento_2014_01O filme O Ano Mais Violento, estrelado por Oscar Isaac e Jessica Chastain, faz um retrato fiel desse assombroso contexto e aborda com inteligência a tensão e o desespero de seus personagens principais. Ao mesmo tempo em que fala da violência pura, com pessoas assaltando as outras e agressões físicas, o diretor J. C. Chandor mostra que realmente conhece o contexto da época a apresenta a atmosfera necessária para enredos desse gênero, que são bem sombrios e nebulosos.

Com uma direção segura, o tempo inteiro o público participa de alguma forma da trama, pois é instigado a entrar no ambiente de uma trama densa, que traz a sensação de que o pior ainda está por vir. Com pouca trilha sonora, Chandor é confiante ao transmitir o cenário nebuloso do protagonista Abel Morales (Isaac), dono de uma empresa de combustível que quer prosperar ainda mais nos negócios.

o-ano-mais-violento_2014_02Com um estilo de vida de alto padrão, o executivo fecha um negócio promissor e se compromete a fazer o pagamento em 30 dias no máximo. Nesse meio tempo, seus funcionários começam a ser ameaçados e agredidos, o que os levam a carregar armas ilegais para se protegerem. Para piorar, os negócios da companhia passam a ficar sob investigação da promotoria pública, que é comandada por Lawrence, personagem de David Oyelowo (Selma). Anna Morales (Chastain), esposa de Abel, passa a fazer a contabilidade da empresa e a partir daí as notícias pioram cada vez mais para o executivo, que é obrigado a achar uma saída para cumprir todos os seus compromissos financeiros e descobrir quem está por trás dos ataques aos seus funcionários.

Escalado para fazer “Star Wars: O Despertar Da Força” e “X-men: Apocalipse“, Oscar Isaac chama atenção por mergulhar em seu personagem. Seus olhar tenso é o verdadeiro reflexo de um homem preocupado, que começa a ver seu império ir por água abaixo, e também o retrato da crise de uma época em que as pessoas precisavam se reinventar na marra para não ruir de vez na sociedade. A sempre ótima Jessica Chastain também merece destaque ao transmitir o sofrimento e a melancolia de Anna, que sempre se mostra preocupada com a segurança de suas filhas e de seu patrimônio.

É verdade que algumas traduções de filmes não fazem tanto sentido, mas O Ano Mais Violento cai como luva neste caso, principalmente por seguir ao pé da letra o original, “A Most Violent Year“, e por fazer um ótimo contexto da tensão e do quanto a violência urbana prejudicou várias esferas da sociedade em 1981. Além disso, o longa conquista por também criticar o individualismo das pessoas e a necessidade excessiva de cada um querer ficar rico a qualquer custo.

Avaliação: 9.0

O Ano Mais Violento (A Most Violent Year. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant. 2013)

A-Imigrante-2013_posterPor Francisco Bandeira.
O Diretor James Gray volta a falar de família, fé e amor neste seu novo longa. Usando seu modo aparentemente “fora de moda” de contar histórias, o cineasta se mostra preocupado com os detalhes, impondo um ritmo deliberado, mantendo seu foco na polonesa Ewa Cybulski (Marion Cotillard), uma polonesa infeliz recém-chegada nos EUA, que aprende logo de cara como é difícil alcançar o tão desejado sonho americano. É um trabalho muito inteligente e maduro, onde Gray consegue extrair certo otimismo de algo tão frio e melancólico como “A Imigrante”.

a-imigrante-2013_02O cineasta construiu sua carreira em Nova York, explorando o submundo do crime contemporâneo, em filmes como “Fuga Para Odessa” (Little Odessa), seu primeiro longa-metragem. E logo se torna uma surpresa ele voltar no tempo (cerca de 90 anos) para realizar seu novo projeto. Mantendo-se contido nos paralelos de seu filme para modernos feudos políticos da América (controle de fronteiras, política de imigração), Gray sempre está mais interessado nas pessoas do que em mensagens, indo atrás de algo muito mais íntimo.

O filme conta a história de uma imigrante, Ewa Cybulski (Marion Cotillard), que tenta embarcar nos EUA juntamente com sua irmã, Magda (Angela Sarafyan), que está doente e precisa ficar em quarentena por seis meses em Ellis Island. Ao receber ajuda de Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), a mulher é levada a uma vida de burlesco, vaudeville e prostituição. Ao conhecer o deslumbrante Orlando (Jeremy Renner), Ewa ver uma nova esperança de encontrar sua irmã e ir à busca de uma vida melhor na América.

a-imigrante-2013_03Um dos pontos fortes da obra é sem dúvida o domínio da mise-en-scène de Gray, sua enorme segurança na condução de seus filmes, na composição dos planos, no posicionamento de sua câmera e a facilidade com que ele faz a transição de uma cena para outra. Os trajes e cenários, juntamente da belíssima fotografia de Darius Khondji, são extremamente ricos e marcantes, lembrando filmes como “Era Uma Vez na América” e “Sindicato de Ladrões”, qualidades que o colocam na tradição do classicismo de Hollywood.

O diretor também volta a construir um triângulo amoroso tão complexo e profundo quanto em seu trabalho anterior, “Amantes” (Two Lovers). Aqui, representado por Bruno, um homem que promete ajudar Ewa, mas logo mostra sua verdadeira faceta, impondo seu poder sobre ela, incitando-a a se prostituir como forma de ganhar dinheiro para liberar sua irmã, que está prestes a ser deportada. Desesperada, a moça sucumbe à vida mundana, o que realmente abala um pouco a sua fé. Desacreditada, a moça ver uma nova esperança com a chegada de Orlando (Jeremy Renner), um mágico repleto de carisma, alegria em viver e primo de Bruno. Encantado com Ewa, o gentil rapaz logo se comove com a situação dela e resolve ajudá-la a fugir de lá, mas seu primo não tem o menor interesse de deixar isso acontecer, o que se deve a “maldição” de ter se apaixonado por aquela bela mulher.

a-imigrante-2013_01O elenco escolhido por James Gray também é maravilhoso: Joaquin Phoenix mostra o motivo de ser considerado um dos melhores interpretes de sua geração, fazendo de seu Bruno a figura mais trágica da obra. Se uma hora pensamos que ele é um homem realmente frio, sem escrúpulos e que só quer tirar benefício de qualquer situação, logo vemos no olhar do ator e nas atitudes elaboradas pelo roteiro, que seus sentimentos por Ewa são realmente verdadeiros e nunca questionamos isso. Jeremy Renner transforma seu Orlando no símbolo de esperança daquele lugar. Desde sua primeira cena, aonde o mágico chega trazendo um pouco alegria ao local (neste caso, a fotografia com cores fortes torna-se fundamental), de seu olhar simples e otimista, sempre com um sorriso no rosto, seu personagem chega devolvendo à Ewa sua fé que estava abalada, demonstrando a moça que há uma saída e que ele pode ser a solução para seus problemas. Seus confrontos com Bruno mostram isso à mulher que cada vez mais ver a possibilidade de buscar sua irmã e ir atrás de seus sonhos. Mas o grande destaque do elenco é mesmo a bela Marion Cotillard, num desempenho simplesmente magistral.

Escapando das armadilhas e exageros do gênero, a atriz entrega uma atuação fascinante, desde o seu olhar devastado até o leque de nuances que sua personagem exige, especialmente quando o filme se transforma em um estudo de personagem extremamente complexo e tocante. A intensidade do filme vem através de um olhar mais atencioso do cineasta sobre Ewa, de sua inocência inicial até o desenvolvimento de uma figura mais dura, na mudança de seu olhar (antes espantado com aquele “novo mundo” até tornar-se frio diante de sua desilusão), quando a mesma vai aprendendo o que é necessário para sobreviver na terra de falsas oportunidades.

a-imigrante-2013_04Outro ponto alto da produção, os diálogos são perfeitos, nos fazendo entender a gama de sentimentos dos personagens: em alguns momentos estão repletos de melancolia, em outros são esperançosos ou cortantes (em determinado momento, Ewa diz a Bruno: ‘Eu amo dinheiro, mas eu não te amo… Eu não me amo!‘). O melodrama está na indignação moral de Cotillard, na sua culpa católica (a cena do confessionário é memorável, fazendo lembrar um pouco de Maria Falconetti em “A Paixão de Joana d’Arc”) e no seu próprio sacrifício por sua irmã. É nela que o peso é todo jogado: na vergonha da família (ao se tornar prostituta e ser rejeitada por seus próprios parentes) e na personificação de discórdia (sendo apontada como responsável pelas desavenças entre Bruno e Orlando).

Os trechos a seguir contém spoiler.

Após muitas discussões, brigas que resultam em tragédia, resultando em uma conveniente “união”, pela ânsia de sobreviver, em busca de algo melhor na vida. E após uma fuga da polícia, onde o personagem de Phoenix funciona quase como um anti-herói (o sujeito é espancado e tem seu dinheiro extorquido pelos homens da lei), onde culmina numa cena poderosa de seu embate, onde acaba caindo na afeição de Ewa. E, ao abrir mão da mulher que ama por querer que ela tenha uma vida melhor, Bruno mostra que encontrou a redenção justamente em sua maior maldição.

E o belíssimo plano final orquestrado por Gray serve para nos lembrar da enorme ambiguidade de sua obra: Ewa e sua irmã estão no barco, naquela paisagem fria, porém em um caminho iluminado com destino à terra de sonhos e esperanças, enquanto Bruno vai caminhando por um lugar dourado (simbolizando a chama que se acendeu em seu coração), aonde vai desaparecendo aos poucos na escuridão, pois ali vagava apenas um homem perdido em sua própria desolação.

Por Francisco Bandeira.

Uma Dama em Paris (Une Estonienne à Paris). 2012

uma-dama-em-paris_2012A velhice em via de regra não traz ternura a pessoa, mas sim retira os freios desnudando a personalidade, libertando-a das regras impostas socialmente. Ela não potencializa qualidades e defeitos. Serão as vivências que irão influenciar seus atos nessa fase da vida. Serão as bagagens, os fantasmas… que a deixarão, mais amarga, mais ranzinza, mas autoritária… Ou pelo contrário, tornando-a mais sábia diante dos novos obstáculos, das novas limitações… mais amiga de tudo e de todos. Pois a velhice retira também o ser totalmente livre. É ter que aceitar depender de alguém em algum momento.

Em “Uma Dama em Paris” temos dois exemplos dessa polaridade. Uma já no auge da velhice e a outra entrando nela. Juntas passarão por alguns desafios. Um deles é o de se viver sobre o mesmo teto. E quem seriam elas?

uma-dama-em-paris_01Começando por apresentar  Anne (Laine Mägi). De temperamento calmo, mas firme nas atitudes. Que com a morte da mãe, com os filhos morando longe, se vê sozinha. E para piorar, se vê diante de ter que revidar mais energicamente as investidas do cunhado quando bêbado. Assim aceita deixar a Estônia e ir cuidar de uma conterrânea que mora há décadas em Paris. Mais do que ter uma nova ocupação ir morar na capital francesa era a realização de um sonho de infância. Afinal, quem não gostaria de conhecer Paris, não é mesmo? Do outro lado temos Frida (Jeanne Moreau). Uma mulher rica. Que meio que se trancou em seu luxuoso apartamento, num ponto nobre de Paris. Arrogante, Frida não aceitou o fato de precisar de uma cuidadora. Com isso não facilita em nada a vida de Anne.

A cada tentativa de Anne para animar Frida, era como receber um balde de água fria. Fria, não! Gelada! Então ela ia espairecer em longos passeios pela cidade, tanto durante o dia como à noite aproveitando também a beleza da cidade luz. Se para Anne essas caminhadas serviam também de válvula de escape, para nós é um brinde a mais ver Paris pelo olhar dessa imigrante. O clima pesou quando Anne na melhor das intenções programa um reencontro com velhos amigos. Mas acaba fazendo com que Frida reviva antigos fantasmas. Pedras rolaram. E aí? Bem, e aí ambas terão que decidir se atingiriam uma oitava maior na escala da vida, ou se continuariam levando a vida de antes. Sozinhas.

uma-dama-em-paris_02Uma Dama em Paris” tem como pano de fundo a velhice. Num belo cartão postal que é Paris. Como também entre duas classes sociais distintas. Mas que traz em primeiro plano a solidão. Que pode pegar desprevenida mesmo aquele que sempre se doou. Como também há quem queira deixar esse ninho ciente que antes terá que retificar uma eterna gratidão. Por isso precisa partilhar com outra pessoa o fato de ir viver a sua vida. O peso de estar abandonando alguém o leva a querer alguém que o entenda. Mas seu – “Tome conta dela para mim!” -, não deve ser algo imposto. Ele é Stéphane (Patrick Pineau), que foi quem contratou Anne. O fez como última tentativa de cortar um cordão umbilical. Será que os três irão realmente aceitar com leveza esse confronto com o destino?

Uma Dama em Paris” é de se acompanhar atento e com brilho nos olhos a solidão que bate à porta com o passar dos anos. Numa história nada incomum. Mas com um certo charme. Regada a chá e croissant saído do forno da boulangerie da esquina. Enfim, um bom filme para um fim de tarde.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Uma Dama em Paris (Une Estonienne à Paris). 2012. França, Estônia. Diretor: Ilmar Raag. Elenco: Jeanne Moreau (Frida), Laine Mägi (Anne), Patrick Pineau (Stéphane). Gênero: Drama. Duração: 94 minutos.

Soul Kitchen. 2009

É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração
“.

Segundo filme que vejo de Fatih Akin. O anterior, foi ‘Do Outro Lado‘. Que eu também recomendo. Agora, ambos nos deixa uma emoção oposta a da outra. Enquanto ‘Do Outro Lado’ fica uma tristeza por algo que perdemos, e não tem mais como mudar… ‘Soul Kitchen‘ é um libelo ao que ainda podemos mudar, até com certas mudanças avassaladoras em nossas vidas. Mais do que não desistir, é que se tem que querer ir atrás do sonho. Esse é daqueles filmes que nos faz sair da sessão: leve, dançando, cantarolando… E até querendo dar uma Chef na nossa própria cozinha. Mesmo que seja para fazer uma refeição rápida com o que se tem na geladeira.

Em ‘Soul Kitchen‘ temos um jovem com raízes turca, mas que abraçou a Alemanha como sendo a sua verdadeira pátria. Assim, além de tentar se adequar a realidade local, meio que chama para perto de si, outros na mesma situação. Ele é Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos). De um velho galpão que comprou numa zona decadente de Hamburgo fez um restaurante, e que nomeou de Soul Kitchen – soul, como a música. Primeiro, ainda bem que não traduziram o título do filme no Brasil. Depois, o Soul é um ritmo onde tudo deve fluir junto: melodia, voz, instrumentos, artista… E acompanhando o filme, vemos que é isso que Zinos quer para o seu restaurante: que todos se sintam integrados, estando ali. Tanto, que nem se importa de usarem um espaço do galpão para ensaio de uma banda.

Mas de repente a vida de Zinos parece ir de ladeira abaixo. Os clientes locais ficam na mesmice de só querer os mesmos pratos. As despesas estão maiores que o caixa. Para ainda lhe desconcentrar, tem a namorada, Nadine Krüger (Pheline Roggan), indo trabalhar em Xangai. Tem também seu irmão, Illias (Moritz Bleibtreu), que lhe pede um emprego para poder cumprir sua pena saindo diariamente da prisão. Mas Illias não quer trabalhar. Quer continuar na maladragem, nas apostas e jogos. Zinos consegue um Chef um tanto excêntrico: Shayn (Birol Ünel). De alma cigana, Shayn gosta de Zinos lhe ensinando umas receitas básicas que traria toda a diferença para o seu local, mas  pelo paladar geral da clientela fica o impasse se irão aprovar.

Como se não bastasse a pressão, Zinos encontra com um amigo de escola. Esse, Neumann (Wotan Wilke Möhring), tem uma imobiliária. Mas tem também, um outro tipo de trabalho, e ilícito. Neumann se interessa pelo restaurante. Mas precisamente, seu foco de interesse é o terreno. Assim, vai jogar sujo para conseguir a compra do Soul Kitchen.

E não acabou não! Tem mais! Além dos Impostos atrasados, o restaurante terá que passar por reformas, por ordens do Fiscal da Vigilância Sanitária. Zinos, ainda ganha uma baita dor lombar. Sem plano de Saúde, Zinos conhece Anna (Dorka Gryllus), uma Fisioterapeuta. Que como as dores de Zinos se intensificaram – após carregar nas costas, Lucia (Anna Bederke), sua garçonete, que apagou de tanto beber -, Lucia leva Zinos a um Knochenbrecher (quebrador de ossos). Onde ficamos na dúvida se rimos, ou se sentimos a dor junto com ele. Essa cena me fez lembrar do Conde Joffrey de Peyrac, da saga ‘Angélica – A Marquesa dos Anjos’, de Anne e Serge Golon.

Assim, entre incêndio, prisões, despejo, traição, dores, leilão… Zinos terá que decidir onde está de fato a sua alma. E que, como falei no início, ficamos de alma leve, após o filme. Até por nos mostrar mais de um renascimento.

A Trilha Sonora também é excelente! Assistam até os créditos finais, por ele vir como um complemento ao filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Soul Kitchen. 2009. Alemanha. Direção: Fatih Akin. Roteiro: Adam Bousdoukos e Fatih Akin. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 99 minutos.

Tempos de Paz

tempos-de-paz“Não serei o poeta de um mundo caduco”

A paz é um estado de espírito; é a busca frenética de sossego, uma conquista diária prazerosa e confortável para qualquer pessoa, tão necessário quanto o ar que se respira. Quando se tem paz interior, se tem fora dela e em qualquer lugar. Já dizia o escritor russo Tolstoi “Sempre haverá guerra e paz”, significa que a paz é apenas um momento de trégua. E o escritor alemão Brecht dizia que só se encontra paz na guerra. Contradições à parte…

O novo filme brasileiro TEMPOS DE PAZ, dirigido por Daniel Filho, nos leva a essa reflexão. O enredo é a 2ª Guerra Mundial. Imigrantes fugiam DELA para qualquer terra estrangeira. Entre os imigrantes estava um ator de teatro, tentando entrar no Brasil, se passando por um agricultor. É claro que ele enfrentará um obstáculo para que realize esse sonho. Esse imigrante travará uma batalha para conseguir a tão almejada paz. Será um duelo de titãs. Para conquistar a sua liberdade e receber seu salvo conduto, terá que lutar contra um investigador e torturador de polícia; terá que pegar em armas para conseguir vencer essa guerra. O ex-oficial Segismundo interpretado pelo ator Tony Ramos tenta a qualquer custo cumprir a sua função de barrar e impedir que comunistas e nazistas entrem no país, e um deles é o ator polonês interpretado por Dan Stulbach pelo fato de se mostrar um sujeito muito suspeito. A partir do encontro de ambos, o interrogador alfandegário Segismundo com o ex-ator polonês Clausewitz começa uma nova batalha. Trava-se uma nova guerra. A guerra, na verdade, são de lembranças que parece que jamais se apagarão. E ninguém está isento tê-las, independentemente de boas ou más.

Um ator que consegue sobreviver a um campo de concentração perdendo todos os parentes e amigos, perdendo a sua língua de origem, sua identidade e seu país, deixando para trás uma guerra para entrar em outra. Um ator que aprende uma língua latina por amor, declama Drummond, terá que provar que não é melhor do que ninguém nem mesmo ao próprio torturador brasileiro, pois, apesar de tudo foi o único que sobreviveu da família para contar a historia. Como fugir de um país em guerra se terá que levar na bagagem as eternas lembranças?

Quando começa o embate entre ambos, há um momento que nos faz pensar que ele deveria desistir de querer ficar, que seria melhor enfrentar a guerra em seu país e nem ter saído de lá. Comparando as duas guerras, a de lá era até branda, pois a de cá ele ouviria coisas mais terríveis da boca desse alfandegário, as mais duras e dolorosas lembranças do outro, suas torturas às suas vítimas, que talvez, guerra nenhuma seria pior.

Por ser confundido com um nazista fugitivo, é que se desenrola na sala de imigração a desconfiança nesse sujeito. E o ex-torturador alfandegário, era a própria guerra, capaz de fazer as coisas mais bárbaras e horrendas possíveis; das piores torturas inimagináveis tanto que o próprio médico interpretado por Daniel Filho, salvador de sua irmã, interpretada pela atriz Louise Cardoso, ele sem piedade torturou, quebrando as suas mãos os seus instrumentos de trabalho. A maneira encontrada pelo interrogador foi de fazer um trato com o imigrante; ele deveria fazê-lo chorar. Se conseguisse essa façanha, receberia a tão sonhada liberdade e a nova vida. Poucos atores, porém atuações magistrais. Um filme sublime. E o melhor o diretor deixou para o final, homenageando grandes imigrantes que contribuíram para o engrandecimento do país e todo o amor pela nova pátria.
Tempos de Paz. Assista com carinho.

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.” C.D.A.

Por: Karenina Rostov.

Tempos de Paz. 2009. Brasil. Direção: Daniel Filho. Elenco: Tony Ramos (Segismundo), Dan Stulbach (Clausewistz), Daniel Filho (Doutor Penna), Louise Cardoso (Clarissa), +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 82 minutos.

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs. 2008)

entre-os-muros-da-escolaÉ um filme que leva a várias reflexões. Com cenas que serão difíceis esquecer. Parece que estamos ali dentro daquela sala de aula. Invisíveis, mas podendo sentir toda a tensão presente. Chega a ser meio angustiante, até numa de querer interferir. Parabéns ao Diretor Laurent Cantet. O filme ‘Entre os Muros da Escola‘ ficará como um documental de que ainda tem que se fazer muito pelos adolescentes. Principalmente com tantas etnias dentro de um espaço tão pequeno.

Não dá para não deixar de traçar paralelos com outros filmes. Trarei dois em especial: ‘Ao Mestre com Carinho‘ e ‘Escritores da Liberdade‘. Com esses três teremos de imediato o universo cultural e social de três países: Inglaterra, Estados Unidos e França. Até por serem muito procurados por imigrantes. Que fogem da repressão, da fome… Que vão em busca de uma vida condigna. Dos ideais que há na bandeira francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Mas até legalizarem sua permanência, ficarão sob tensão. Temerosos. Com isso seus filhos mesmo tendo nascidos nesse novo país, poderão se sentir sem uma pátria.

entre-os-muros-da-escola_elenco-teenA Escola mais do que nunca assume uma responsabilidade na formação social dos jovens. Um papel que era exclusivo dos pais. Até para ir quebrando um ciclo, o Corpo Docente deve adequar o ensino a realidade da turma. No filme, uma mãe diz que preferiria que seu filho estudasse noutro colégio. Por esse outro nivelar por cima. Seria ótimo, mas se todos pudessem acompanhar o ritmo daquilo que é ministrado. Mas há quem não acompanhe. O que dá margem para uma outra discussão, mas para não me alongar cito que o Professor tem que encontrar um jeito de se fazer entender. Se conseguir esse canal, poderá elevar o nível do ensino.

Uma outra discussão que o filme deixará, seria como estabelecer limites. Para que o jovem saiba que a liberdade dele não pode prejudicar a do próximo. Que saiba que há hora e local para tudo. É um dos grandes estresses dos Professores, ganharem o respeito em sala de aula. Em mostrar que a autoridade dele é por hierarquia. Agora, há um outro fator cultural que não dá para esquecer. É que para os franceses ainda é normal o castigo físico nos filhos. Palmadas, e até tapa na cara. Em casa, ou na rua, eles veem nisso como fator disciplinador. Mas e entre os muros da escola? Isso não é aplicado, claro. Mas para jovens de outras etnias, que são sabedores disso, pode virar como uma arma para afrontar seus professores.

O Professor Marin (François Bégaudeau), primeiro tenta ensinar a língua pátria a turma. Mas nesse ano em questão, o penúltimo, antes de decidirem qual caminho trilharão, eles parecem mais arredios. Por aqueles que já conhecia, dá para avaliar as mudanças. Só que na reunião dos professores, não encontra um denominador comum. Algo que os unissem para resgatarem aqueles adolescentes. Sozinho, vulnerável, ainda tenta tenta conciliar a sua aula com um lado meio paternal.

Para finalizar, esses pequenos rebeldes, também têm muito a ensinar aos seus mestres. É uma via de mão dupla: Professores e Alunos; e não ‘versus‘. Que esse filme seja mais um a ser levado às salas de aulas. E que suscite várias debates. Para que cada vez mais um número maior de adolescentes não se enverede pelo mundo do crime.

O filme é muito bom! De querer comentar mais aspectos. Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs). 2008. França. Direção: Laurent Cantet. Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Dalla Doucoure. Gênero: Drama. Duração: 128 minutos. Baseado em livro homônimo de François Bégaudeau.