Seus Cem Anos Fizeram Companhia a Solidão de Muitos! Valeu Gabo!

gabriel-garcia-marquez_cem-anos-de-solidaoSe o exercício da leitura é num momento de solidão, de quem escreve precisa antes estar em meio as vozes do mundo para buscar a inspiração. E então, talvez, um recolhimento para encontrar o tom certo da história. Gabriel García Márquez partiu para o mundo, mas foi numa volta às raízes que vislumbrou que tinha em sua bagagem uma grande história. Nessas tiradas em que o destino presenteia alguém, sua mãe lhe chama para vender a casa dos avós com quem passara a infância. E entre memórias da família e lendas populares do interior da Colômbia, nasce “Cem Anos de Solidão“.

Cem anos de solidão” se passa na fictícia aldeia de Macondo e acompanha ao longo de gerações a saga da família Buendía. Obra prima literária da segunda metade do século XX é um livro que dispensa apresentação e que deveria ser lido principalmente pelos latinos americanos.

Eu li Cem anos de solidão há muito tempo atrás. Com isso traçar uma análise de toda a história ficariam muitas lacunas. O mais certo seria reler o livro e que até o faria com prazer, mas com o falecimento de Gabriel García Márquez não teria tempo hábil para então prestar um tributo a esse grande escritor. Deixando essa singela homenagem a quem não chegou aos cem anos de idade, mas que por certo suas histórias nos levaram a viver tanto quanto.

Assim, contando algo que ocorreu-me tão logo terminei de ler Cem anos de solidão”, deixando como sugestão para quem for ler ou mesmo reler o livro. Pegue uma folha em branco e um lápis. Vá montando uma árvore genealógica à medida que for avançando na leitura. Comece pelo personagem principal José Arcadio Buendía; o casamento com Úrsula Iguarán; os nascimentos de filhos e netos; marcando também as mortes… Pois a trama é muito rica em personagens e histórias até particulares. Com esse diagrama em paralelo parece que fazemos a mesma trajetória ao mesmo tempo e com isso sem perder nada. E foi assim que quando eu reli e chorei no final. Quando se sente no âmago a solidão desses cem anos.

Difícil não era inventar histórias. Difícil era fazer um norte americano, um europeu acreditar na realidade de qualquer país da América Latina.” (Gabriel García Márquez)

O Escritor se vai (1927/2014), a Obra permanece!
Aplausos a Gabriel García Márquez!
Vai em Paz!.

Dente Canino (Dogtooth / Kynodontas. 2009)

Imagem“Dogtooth” explora as características da evolução da educação familiar – quando um casal decide fechar seus filhos ao mundo de um modo geral. Psicologicamente perturbador, este filme tem uma abordagem quase documental para analisar a educação mal concebida e os danos na vida dos três filhos do casal.

Imagem

Os três adolescentes sem nome vivem trancados em casa, e sendo educados no sistema “home school”-  onde os pais promovem uma educação  fora do sistema tradicional, e acrescentam uma instrução moral de acordo com suas respectivas crenças. Em muitas cenas, esses adolescentes escutam a mãe dá-lhes palavras do vocabulário do dia:  “mar” é uma poltrona de couro;  “telefone” significa saleiro; “zumbis” significa flor amarela e “b*ceta” significa luz grande. Protegido pelos pais, os adolescentes só estarão prontos para explorar o mundo exterior quando seus dentes incisivos (referencia ao dente canino) cairem.

Ocupando o seu tempo jogando jogos de resistência controlada pelo pai, os jovens tem um único contato com o mundo exterior, quando recebem a visita de Christina (Anna Kalaitzidou), que trabalha na empresa do pai. Ela entra na casa para satisfazer os desejos sexuais do filho do casal, o qual, logo como a cantora Sandy, se encanta com o prazer anal, e frustra Christina ao não querer “desfrutar” mais de sua vagina. A moça, em seguida, contamina o ambiente estéril da casa com influências externas. Se conhecimento pode ser perigoso, aqui fica mais claro, diante da reação da filha mais velha do casal, em querer explorar o mundo exterior.

O cineasta Giorgos Lanthimos foi agraciado com o premio  “Un Certain Regard” em 2009 no Festival de Cannes, e chegou a receber uma inesperada, mas justa indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado, mas perdeu o premio para o drama a la telenovela “In a Better World” (2010). Lanthimos me envolveu instantaneamente com sua narrativa, simplesmente porque me senti solto neste mundo louco que ele criou – em vez de fazer uso de “voice over” para guiar a história, ele  nos coloca dentro das emoções dos personagens, evitando os “reaction shots“,  isto é, não temos “close-ups” da emoção expressa pelos atores, mas o efeito é sentido!. Lanthimos também faz um belo uso da cultura pop para nos dar uma conexão com a história; enquanto o uso de sexo, incesto e violência, agita as nossas emoções.

Imagem

Os atores não atuam, mas vivem as suas personagens. Nem notei que o filme era falado em grego, de tão fascinado, e chocado com as cenas, principalmente vendo um pai encorajar os membros de sua família a ficarem de quatro e latirem como cães em seu quintal. Não achei engraçado, mas me encontrei intrigado como tal experiência afetaria os personagens mais tarde na história.

Não me importei tanto com o humor negro do filme, e nem foi por isso, que ja revi “Dogtooth” por 2 vezes, mas porque Lanthimos traça um olhar sobre o quão suscetíveis nós seres humanos somos quando somos condicionados a um passo em falso na educação de uma criança e como isso pode causar sérios danos.

Nota 10

A Casa de Alice (2007)

A ideia de família modelo tem sido abordado sempre em crise por filmes independentes, mas sempre achei que o cinema brasileiro ficou mais focado ao fator favela (e suas violências) ou a seca e pobreza no nordeste (como se a região fosse restrita a isso!). Acho que último filme brasileiro que amei que trazia a família como pano de fundo foi “ Lavoura Arcaica”- que é um dos melhores filmes feito nos anos 2000!.

Em DVD, tive a chance de assistir a “Casa de Alice”, que me apresentou uma interessante e triste leitura da família suburbana brasileira. Vi o filme de Chico Teixeira como vendo a família alheia, e pensando que as vezes, a realidade incomoda!

Alice (Carla Ribas, que atriz incrível! Não acho que ela seja um rosto conhecido no Brasil, mas espero vê-la mais vezes no cinema!) faz uma manicure, mãe de três filhos, e tentando de um certo modo salvar o casamento. Ela divide a vida entre o papo com as colegas do trabalho e com as clientes, e em casa com a mãe. Vivendo uma vida cheia de frustração e sonhos, Alice encontra nas suas mentiras uma fuga para evitar ser ridicularizada pelas pessoas ao seu redor. Ela cobiça o homem alheio- um antigo namorado, que e se deu bem na vida e, que parece estar afim de lhe propor um vida melhor. Contudo, ela não quer perder o homem que tem em casa.

O que mais me encantou foi o fato da vida de Alice ser uma roleta russa, fazendo crer que qualquer um de nós somos sujeitos a passar pelos mesmas sentimentos vividos pela personagem. Em sua busca por sua felicidade, Alice parece nem querer ver o declínio da sua própria família. E o mais interessante no filme e que tudo é visto pelos olhos da matriarca, a avó interpretada por Berta Zemel. Na verdade, é das visões e descobertas da avó que ficamos a saber dos atos dos membros da família: o marido infiel de Alice, que está tendo um caso com uma jovem, que se passa como amiga confidente da sua filha (Alice); o neto mais velho, que parece um modelo do pai, mas que tem uma vida dupla, trabalhando como michê, e que só parece gostar do irmão mais novo (incesto?!), e o neto do meio, que comete pequenos delitos.

Achei que Teixeira abriu diversos “leques” até interessantes, mas não explora as tramas que ele sugere, ficando uma visão vaga na conclusão do filme. Mas, ao mesmo tempo, a “Casa de Alice” é um filme de qualidade (grande pedaço disso pertence a Carla Ribas!). Nada contra os filmes sobre favela e pobreza no Nordeste, mas o cinema do Brasil pode explorar coisas mais interessantes assim como ilustrado no filme de Teixeira.

Fiquei encantado como esse filme!

Preciosa – Uma História de Esperança

Por: Sam Shiraishi.
Finalmente hoje tomei fôlego e assisti a um dos filmes mais comentados do ano: Precious, Based on the Novel “Push” by Sapphire (no Brasil Preciosa – Uma História de Esperança).

Desde que li reportagens sobre ele no final de 2009 eu queria ver, mas, confesso, temia minha reação emocional ao filme. Sempre me revoltei com a injustiça aos menores de idade e o descaso com que a sociedade trata os menores em situação de risco, mas depois que tive filhos, ver certas coisas me deixa arrasada mesmo. Não foi diferente do que eu imaginava. Chorei muito – e se você é do tipo que internaliza as coisas, sinceramente, eu recomendo que não veja o filme. Mas se tem um pouco de coragem e quer pensar no que nossa sociedade (o filme se passa nos EUA em 1987, mas poderia ser numa região empobrecida do Brasil ou de outro país em que a desigualdade de vida seja grande) aconselho que veja e pense sobre a história de Clareece “Precious” Jones (interpretada pela atriz estreante Gabourey Sidibe).

Eu chamava Enzo de “my precious” quando ele era bebê, uma brincadeira que fazia com o fato de ele ser tão amado e sua presença tão almejada por todos das duas famílias que ele era disputado como o Anel de Lord of the rings. A Preciosa do filme não teve esta sorte – na verdade, a impressão que temos é de que ela não teve sorte alguma, amor algum, cuidado algum na vida. Mas sobreviveu e aos 16 anos, quando o filme começa, é uma adolescente com obesidade mórbida grávida do segundo filho (ambos fruto de estupro paterno), que frequenta a escola para fugir de casa, mas continua analfabeta e diuturnamente é agredida verbal e fisicamente pela mãe – muito bem interpretada por Mo’Nique (de Garotas Formosas). Não há uma fada madrinha de verdade, mas a garota dá a volta por cima – e aqui nem tem spoiler, porque a história é real e a autora sobreviveu.

Vale registrar e enaltecer a presença, na produção ou na divulgação do filme, de personalidades como a apresentadora de TV Oprah, que tem se dedicado à divulgação do filme em seu programa e site. O cantor Lenny Kravitz  interpreta o enfermeiro John, Mariah Carey é Mrs. Weiss, a assistente social que acompanha a segunda gestação de Precious, Paula Patton a professora Ms. Rain. E é com ela, a inspirada e inspiradora mentora da escola alternativa Let Each One Teach One, que Precious passa a descobrir seu lugar no mundo.

A história nos dá fé quando mostra que a educação pode mudar a vida de alguém – mas é preciso ter um elemento humano para que a mágica aconteça. E este elemento pode ser vivido por mim, por você, por cada um que se permite enxergar no outro uma figura que pode ser diferente, mas é igual a nós em sua humanidade  – aliás, isso me lembra uma passagem de Up in the air, sobre o qual fico devendo uma resenha 😉 .

Por: Sam Shiraishi (aka @samegui). Jornalista e blogueira responsável pelo A vida como a vida quer e diversos outros projetos de mídia online.

Preciosa – Uma História de Esperança (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire). 2009.

Do Começo ao Fim

Fui assistir, não nego, com muitas expectativas. Quase todas frustradas, talvez por termos expectativas dentro daquilo que conhecemos ou sabemos que existe. Li por aí que esse filme viria para chocar, mas o que vi na telona foi um filme que veio pra agradar aos olhos dos expectadores com bom gosto estético, apreciadores de corpos masculinos jovens e lindos. Do Começo ao Fim é um conto de fadas ou um conto de elfos, maldito, mas ainda assim um conto de fadas (elfos)

Dois meio-irmãos (apenas por parte de mãe) são tão unidos que se tornam íntimos e de tão íntimos se tornam amantes. A mãe (Júlia Lemmertz) cedo percebe e mediante a dúvida de estar maculando a grande afinidade infantil dos irmãos ou mesmo despertar a “maldade” neles, deixa a cargo do filho mais velho a responsabilidade lhe contar caso venha a perceber algo ‘diferente’ nos seus sentimentos em relação ao irmão. Seu ex-marido e pai do filho mais velho, percebe e conversa com a ex-esposa que lhe diz que isso é coisa de criança, afinal eles são muito novinhos.

A platéia convive-se com os dois irmãos ainda meninos por um período tão longo do filme e eles se transformam em adultos de uma forma tão repentina, que possivelmente não se enxergue ali, os dois irmãos e sim dois amantes, de forma que o choque prometido ficaria por conta de héteros homofóbicos que porventura estivessem na sala de projeção (o que felizmente, não foi o caso da sessão que assisti, afinal, é mais do que desagradável encontrar homofobia em qualquer lugar que seja).

Para pessoas acostumadas ou curiosas em ver beijo entre iguais, propagandas de creme de barbear, notebooks iMac, ondas e praias ou quem sente saudades do bom e velho fusca conversível e para aqueles que não tenham muita pretensão que não a de se deleitar com a beleza física dos atores, o filme é o calmante certo para uma noite de sono tranqüila.

Para os gays que desejem desestressar, esquecer as durezas da vida, descansar do preconceito e dos amores impossíveis é a história perfeita! Imagine um mundo onde você possa buscar o grande amor da sua vida na maternidade.  Que possa conviver com ele desde sempre, numa vida confortável, numa casa de luxo com toda a privacidade. Imaginou? É o paraíso “Do Começo ao Fim”.

Bem, para não parecer a história de Adão e Adão no paraíso: Pedro (JEAN PIERRE NOHER) é ex-marido de Julieta (Júlia Lemmertz) e ambos são pais de Francisco (JOÃO GABRIEL VASCONCELLOS). Pedro foi namorado de Rosa (Louise Cardoso) e Rosa mora na casa de Julieta, que agora casada com Alexandre (FÁBIO ASSUNÇÃO) tem o segundo filho, Thomás (RAFAEL Cardoso). Thomás é narrador em off do filme e começa contando que nasceu e demorou duas semanas para abrir os olhos fato que sua mãe não se importou, por pensar que quando ele estivesse pronto abriria. O bebê Thomás por sua vez só abriu os olhos quando viu o meio-irmão mais velho. Eis aí uma história, pois de predestinação!

Se por um lado temos a mãe que percebe o excesso de intimidade entre os irmãos e prefere fechar os olhos para isso, por outro, temos o pai que não sabemos exatamente o quanto enxerga desta situação. O roteiro tem uma maneira muito prática de eliminar as supostas dificuldades da vida conjugal dos meninos representadas pelas pessoas mais próximas. As que permanecem, se suspeitam não comentam. As que poderiam comentar ou gerar qualquer entrave, não existem. O pai,se percebe prefere amá-los à distância de modo a deixar espaço e privacidade para que desfrutem em plenitude o amor que sentem um pelo outro que chega às vias de fato com a doce libertação causada pelo desaparecimento da mãe.

Que mundo feliz!

Esses meninos não tiveram crise de adolescência, dúvidas angústias nem mesmo incertezas e inseguranças inerentes à sexualidade adolescente em ebulição face ao desejo por uma pessoa do mesmo sexo.

Que maravilha!

A primeira transa é desencanada, repleta de decisão quase um jogo que apesar de plasticamente viável e interessante, vem na sequência de uma cena que a faz ficar pouco provável. Por fim, o drama que chega com possibilidade de separação dos meio-irmãos-amantes, abre um pequeno leque de novas oportunidades que não empolgam.

Então ficamos assim:

Não faço idéia do que fazer com a informação que Louise Cardoso foi a namorada mais velha do atual marido da Júlia Lemmertz, mas aprendi que dois irmãos podem se amar e se entregar  com tranqüilidade a esse amor. Dois rapazes bonitos e saudáveis chegam virgens aos 21 e 27 anos, aguardando o melhor momento para efetivarem sua maturidade sexual. Pai e mãe podem olhar esse amor com plena naturalidade e pessoas ao redor não terão a menor curiosidade e sequer tecerão comentários a respeito. É possível beijar alguém com o rosto repleto de creme de barbear. Neste filme ainda participamos de  um teste de averiguação do nosso nível de canalhice, a partir da nossa imaginação conforme o que nos sugerem algumas cenas.

Este filme é o paraíso “Do começo Ao Fim”. A perfeição a serviço da imperfeição num mundo perfeito e improvável.

Interessante são as sessões lotadas com uma antecedência de dar inveja aos lançamentos de superproduções americanas. O Arteplex no domingo, sessão das 22:00 parecia Odeon às 21:00 na última sexta do mês!

Finalmente o público Gay vai ganhando seu mercado, conquistando seu espaço, mas seria realmente preciso lançar mão de um incesto pra falar de amor homossexual?

Por: Rozzi Brasil.  Blog Eh-Ventos do Bem.

Do Começo ao Fim. 2009. Brasil. Direção e Roteiro: Aluisio Abranches. Elenco: JULIA LEMMERTZ – Julieta; FÁBIO ASSUNÇÃO – Alexandre; LOUISE CARDOSO – Rosa; JOÃO GABRIEL VASCONCELLOS – Francisco; RAFAEL CARDOSO – Thomás; GABRIEL KAUFMMAN – Thomás (criança); LUCAS COTRIM – Francisco (criança); JEAN PIERRE NOHER – Pedro; MAUSI MARTINEZ – Lucrécia. Gênero: Drama, Romance. Duração: 90 minutos.