O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (St. Elmo’s Fire. 1985)

o-primeiro-ano-do-resto-de-nossas-vidas_1985Por Francisco Bandeira.
Não há nada melhor que um filme sobre a adolescência, com personagens encantadores, uma boa premissa, com debates ainda presentes na juventude atual, com questionamentos sobre a vida adulta, o poder da amizade, quanto o amor platônico nos consome… E o pior (ou melhor): o quão difícil é assumir responsabilidades.

Esse é o tema abordado por Joel Schumacher neste filme pra lá de simpático, simples, com rostos marcantes no elenco, onde todos estão exalando carisma, esbanjando talento e, por mais que a mão pesada do diretor e o roteiro cheio de furos deixem o filme bem longe de aproveitar seu potencial máximo, não compromete o resultado final do longa que poderia ter alcançado o mesmo “status” de clássico adolescente como os dirigidos por John Hughes na mesma década.

A fita tem alguns momentos marcantes, como quando Billy explica a metáfora do Fogo de Santelmo que dá nome ao filme para consolar sua amiga, ou os personagens se questionando sobre as amizades durarem para sempre, romances impossíveis e o peso que os mesmos têm que carregar na vida adulta. ‘O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas‘ é sim um pequeno filme meio esquecido, mas isso não o torna menos profundo, tocante e divertido, como todo bom filme dessa safra cada vez mais extinta nos dias atuais.

O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (St. Elmo’s Fire. 1985). Detalhes Técnicos: página no IMDb.

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O Homem Duplicado (Enemy. 2013)

o-homem-duplicado_posterPor Marcos Vieira.
O caos é ordem ainda indecifrada.” É com essa frase que tem início o quebra-cabeça narrativo de O Homem Duplicado. Nele, o professor de história Adam (Jake Gyllenhaal), que vive em um instável relacionamento com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), descobre que existe um homem idêntico à ele. Esse duplo é o aspirante à ator Anthony (Jake Gyllenhaal, é claro), que tem seus próprios problemas com sua grávida e desconfiada esposa Helen (Sarah Gordon). O filme trata então dos conflitos que surgem quando Adam descobre a existência de Anthony e quando os dois homens se encontram. Enquanto Adam é tímido e retraído, Anthony é impulsivo e agressivo, e o filme se desenrola a partir do efeito que a revelação da existência do outro tem sobre cada um deles.

o-homem-duplicado_01Mais do que um simples suceder de acontecimentos, a narrativa é montada de forma a colocar o espectador dentro do pesadelo que essas personagens estão vivendo, incluindo aí a namorada e a esposa. Mesmo em cenas que poderiam ser simples, como quando Adam pesquisa sobre a vida de seu duplo na Internet, uma iluminação sombria e uma trilha sonora tensa e impactante constroem um clima de suspense psicológico angustiante. Cortes bruscos e intensos nos momentos de maior desespero das personagens contribuem para esse clima. Além disso, todo o filme é permeado de uma simbologia a priori indecifrável, sendo a principal delas a presença de uma enorme tarântula em alguns momentos. É a presença dessa aranha e de algumas cenas desconexas envolvendo ela e/ou algumas das personagens que dá o tom extremamente surreal da coisa toda. “O Homem Duplicado” é daqueles filmes que deixa o espectador em suspense em relação não apenas ao que vai acontecer, mas também ao que está acontecendo.

o-homem-duplicado_02E o que está acontecendo é o maior enigma desse filme. Você pode acompanhar perfeitamente a sequência de acontecimentos, mas o segredo está em saber o que eles significam. A situação dos dois homens é absurda e nenhuma explicação lógica é oferecida pela história. Em determinado momento, o filme simplesmente acaba, e fica para o espectador a tarefa de tentar prover uma explicação lógica para o que ele acabou de ver. Isso deixa espaço para as mais loucas teorias e infinitas discussões, a exemplo do cult Donnie Darko, também estrelado por Jake Gyllenhaal (coincidência?).

Esse é um filme que vai te deixar com vontade de discutir as possibilidades e ler várias teorias na Internet. Não é por acidente que só estou escrevendo sobre ele uma semana depois de assistí-lo. É isso o que acontece quando um roteiro livremente baseado em uma obra homônima de Jose Saramago. E O Homem Duplicado é dirigido pelo já genial Denis Villeneuve, de Incêndios.

Se não fiz uma análise mais profunda da história nos parágrafos anteriores, foi para evitar a revelação de detalhes que podem estragar um pouco a experiência de quem ainda não assistiu. Porém, não posso deixar de compartilhar com vocês algumas das explicações nas quais pensei. E é por isso que…

Os parágrafos a seguir contém SPOILERS:

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são…[Continua aqui.] Voltando

Essas são apenas algumas das explicações possíveis e não é possível afirmar que nenhuma delas é a correta sem sombra de dúvidas, e essa é a beleza da coisa. Antes de escrever esse texto, eu acreditava que essa última hipótese era a mais aceitável, mas durante a escrita da primeira hipótese que apresentei aqui, passei a crer que ela é a que deixa menos pontas soltas. Quantas vezes ainda iremos mudar de versão?

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

coracoes-perdidos_2010Por Norma Emiliano.

A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe”. Allá Bozarth-Campbell

A morte de um filho, principalmente jovem, bem como a da mãe quando se é criança, provoca sentimentos ambivalentes, nos quais a culpa, a raiva, o desalento constroem muros, isolando as pessoas até de si mesmo.

O filme Corações Perdidos cruza as vidas de um casal (Lois e Doug), que perdera sua filha adolescente, e de uma jovem órfã (Allison) que perdera a mãe desde os cinco anos.

O silêncio impera entre o casal que não fala da morte e de nada que os incomode; na casa, o quarto da filha mantém-se intacto sinalizando a negação da morte. Alisson vaga solitária pela vida sem amor a si própria, trabalhando como strip, sujeitando-se à prostituição.

Na trama, Lois, após a morte da filha, fica deprimida, não consegue sair de casa e sua relação com Doug é distante e conturbada. Ele vive uma relação extraconjugal, e a morte abrupta da amante o deixa sem direção. Porém, quando viaja à negócios, seu encontro com Allison lhe desperta os cuidados paternos e ele abandona a esposa.

Lois tenta superar seu pânico e vai ao encontro do marido e acaba também se envolvendo com as questões de Alison. No desenrolar do roteiro, Allison fará com que o casal lembre-se do real motivo que os uniu e sua relação com eles transforma suas vidas.

O luto é inevitável; superar a dor da perda é um processo cujo tempo é subjetivo, pois cada pessoa tem um “tempo emocional”. No filme os personagens encontram-se aprisionados à negação, “dormência emocional”. O cruzamento das histórias (casal e jovem prostituta) dispara o movimento para cura através da quebra do silêncio, da recuperação da autoestima e da mudança de hábitos.

As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995)

Por Kauan Amora.

As Pontes de Madison é um conto sobre amor, e sobre honestidade, sobre todas coisas que buscamos e as coisas que temos, e como somos obrigados a nos acostumar com elas.

Robert Kincaid, jornalista fotográfico da National Geographic e Francesca Johnson, uma dona de casa do Iowa, não estavam à procura de qualquer reviravolta nas suas vidas. Cada um já tinha chegado a um ponto da vida em que as expectativas pertenciam ao passado. Contudo, quatro dias depois de se conhecerem não querem perder o amor que encontraram. Meryl Streep premiada com Oscares da Academia (foi nomeada pela 10ª vez por esta interpretação) e Clint Eastwood (que produziu e realizou o filme) encantam com uma brilhante e poderosa interpretação dos personagens criados pelo escritor Robert James Waller neste best-seller de amor, decisões e consequências. O Entertainment Weekly afirma: “Streep e Eastwood, tanto em imagem como em espírito, estão tão perfeitos que parecem sair das páginas do livro”. Também perfeitos estão os pequenos detalhes e as grandes emoções do grande amor de uma vida. Com sorte, mais cedo ou mais tarde, um amor destes acontece na vida de cada um. Para Robert e Francesca foi tarde. Mas foi glorioso.

Francesca tem uma sinceridade dolorosa sobre a vida, é uma mulher que busca inconscientemente pelo novo, pelo especial, aquilo que a faça tremer, mas que já está acostumada com o convencional e comum, uma espécie de rendição própria, mas todos os seus sonhos e desejos vêm na figura desse homem fotógrafo e forasteiro que a faz sentir viva de novo, mas como ela já está tão acostumada a se render e entregar seus sonhos ao passado é exatamente isso que ela faz, ou pelo menos tenta fazer.

As Pontes de Madison que recentemente foi adaptado para o teatro cativa pela simplicidade em sua essência, que pode ser a palavra chave para melhor descrever a obra adaptada do romance de Robert J. Waller, sem jamais ir para o absurdo e exagerado. É sobre duas pessoas que se amam mas são inteligentes o bastante para enxergar os dois lados dessa relação, sem nunca tirar os pés do chão.

Algumas vezes As Pontes de Madison consegue até ser erótico, mas do seu próprio modo, como na cena em que Francesca toma banho na banheira que Robert tinha acabado de usar.

Meryl Streep e Clint Eastwood são competentes ao perceber que a força do filme não está somente em suas performances, mas no roteiro do filme, percebem que Francesca e Robert se apaixonam um pelo outro por motivos opostos, ela se apaixona por ele por ser um forasteiro cheio de histórias e experiências do mundo, e ele se apaixona por ela por ser uma dona de casa comum e triste, eles percebem que se completam.

O fato é que As Pontes de Madison é um dos romances mais honestos da década de 90.

NOTA: 8,5
Por Kauan Amora.

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

coracoes-perdidos_2010

A vida é uma história contada por loucos, cheia de som e de fúria, que nada significa.” (Macbeth – Cena V, Ato V)

Logo no início do filme me veio uma fala já ouvida tantas vezes: “Ruim com ele, pior sem ele!“. É! Ela é dita por uma escolha de tantas mulheres casadas. Por talvez terem medo da solidão, terminam fechando os olhos às puladas de cerca do marido. Mas também por ainda amá-lo como antes. Sem saber o que fazer ao certo, termina por afastá-lo de vez. Mais ainda há um outro fator que em muita das vezes acaba roubando toda a sua atenção: os filhos. Um filho é para somar a uma relação. Mas se a balança está pendendo toda para ele, mais a frente virá uma cobrança.

Em “Corações Perdidos” me deixei pensar no porque de um homem estando casado, e ainda amando sua esposa, teria uma amante cativa. Uma relação sem cobranças. Mantida há 4 anos. Onde tendo um único dia da semana para se encontrarem e transarem. Algo também estagnado. Sem paixão. Sem tesão pela vida por estarem vivos.

Assim conhecemos um pouco do casal Rileys: Doug Riley (James Gandolfini) e Lois (Melissa Leo). Que após a perda da única filha pareciam não ter mais um sentido na vida. Ambos, sentiam-se culpados. Lois por ter se intrometido demais na vida da filha. Doug pelo contrário, por ter ficado ausente demais.

Se uma morte os fez ficarem assim apenas sobrevivendo, uma outra leva Doug a acordar. Mas ainda sem saber que novo rumo vai dar a sua vida, aproveita uma viagem de trabalho para pelo menos ficar longe da esposa. Vai a uma Convenção Anual em Nova Orleans. E ali, em meio a rostos conhecidos, vendo todos fazendo tudo igual, Doug foge também dali.

Nessa fuga, até de si mesmo, Doug conhece uma jovem stripper. Ela é Mallory (Kristen Stewart). Alguém a quem o destino também lhe tirou algo caro: sua mãe. Levando-a a enfrentar às ruas bem cedo. Onde para sobreviver, coloca uma couraça em seu coração. Ainda não sabendo ao certo o que estava fazendo, Doug resolve cuidar de Mallory. Tentar dar a ela uma outra expectativa de vida. Mas Mallory não estava acostumada a gentilezas. Nem muito menos em ter um homem querendo apenas ser um pai. Que não queira transar com ela.

Doug então comunica a mulher que vai ficar em Nova Orleans. Vendo que estaria perdendo de vez o marido, Lois tenta vencer o pânico de sair de casa, e viaja até lá dirigindo um carro. Ela também estará acordando para a vida nesse longo trajeto. E será o contraponto na relação entre Doug e Mallory.

Entre fazer uma longa análise com esses três corações perdidos, o que levaria a spoilers, eu preferi traçar apenas um breve perfil e de como o destino levou suas vidas se cruzarem, e ter algum sentido. E com isso motivá-los a assistirem. Pois o filme é ótimo! Com atuações brilhantes!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010). Reino Unido / EUA. Direção: Jake Scott. Gênero: Drama. Duração: 110 Minutos.

LUZ SILENCIOSA (2007). A Manutenção da Tradição pela Paixão

Por: Pedro Moreira da Silva Neto.
A ideologia de Luz Silenciosa participa de uma situação eminentemente moderna para uma organização que se determina na tradição. O contraponto entre ordem estabilizada e modernidade em seu abrupto tempo não determinado, não esperado se acondiciona na paixão.

Novamente se estabelece no relacionamento a condição de se petrificar, isto é, de se manter na ordem. Essa aparência é deslocada quando se percebe que é a troca conservadora por outra, a ação de um passe, de situação estruturada para outra é também tradicional no sentido de retificação do sujeito na perda de uma seguridade vivida na tradicionalidade.

Não ser tradicional, não pertencer a uma ordem não conservadora é uma atitude, por assim dizer estritamente tradicional e conservadora já que a tentativa de uma liberalidade de amor está também presa, petrificada no sentido de paixão, isto é, de uma determinação voluntariosa que se organiza na perda. Quero dizer que a perda de uma referência, de uma posição tal frente à comunidade, no caso Menonita (mas poderia ser outra) se encontra nessa dualidade entre ganhos e perdas, legitimação de um bem paixão pela morte. Que mesmo é isso, no sentido cristão que a representação do amor exacerbado se encaminha, à morte, à transmutação.

O que define por fim, essa condição de perda é, portanto, o despojo do amor, o desencontro que ocasiona a irracionalidade e a organização. Nesse sentido, penso que esta necessidade da perda é uma construção de perdas que, sem retorno se encaminha à entrópica situação do sujeito frente ao meio, uma localização geográfica da morte no território da paixão.

Luz silenciosa não é para mim uma luminosidade ascendente, senão a perda da clarificação do estado de ser. A ética amorosa, com ou sem conservadorismo é a lógica da permanência reestruturada e não do corte, da amarra, mas de uma impossibilidade de ascensão cultural do indivíduo, de sua autopercepção enquanto falho, enquanto criador de oportunidade, e relacionado não ao objeto individual do desejo, mas da transmutação do amor paixão pelo amor. O sentido de amor maior que é perdido para uma criatura que não consegue, portanto, se estabelecer.

A aculturação, ou a inversão de valores, ou o racional e emocional num embate de qualificação. A perda da memória afetiva, interna, e a percepção externa de uma realidade sociocultural, entre tudo, filhos, futuro, posição, conhecimento, atividade produtiva, fatores que são substituídos por uma posição diversa, mas muito comum e conhecida: amor paixão, indefinição às ordens culturais, motivações emocionais, pouca percepção ou um individualismo que é levado por outro que apesar de conhecido é indeterminado, contrariedade ao controle social da cultural estabelecida, entre outros aspectos.

O que se percebe que Luz Silenciosa não trata do direito de amar, mas a ocasião da paixão e a perda sim de um olhar referencial ao estado do sujeito em sua comunidade. Uma posição do indivíduo -vestido de mundo, em sua mundanidade- que necessita de uma opção de qualidade para si, de um desejo seu e não de uma relação do sujeito frente a seu universo de conhecimento, ou de pertencimento local, ou de sentido comunitário, e mesmo de realização.

A modernidade implanta um sujeito deslocado do cotidiano da vida relacional num casamento com a fratura do sentido sociocultural. A opção é mais um acontecimento na vida da individualidade frente à ordem familiar e cultural.

Elizabeth Fehr faz o papel da mulher traída por Johan (Cornelio Wall Fehr) menonita (comunidade religiosa que defende o pacifismo radical e rejeitam o progresso) se apaixona por outra mulher. O ator é de fato também um menonita e se espantou em se ver no vídeo. No filme não está em cheque a questão de opção comunitária, mas as esperanças de uma família, de organização apaixonada pela paz ontológica de se realizar bem por reciprocidade. A comunidade onde foi realizado o filme está ao norte do México. Uma comunidade menos radicalizada nos preceitos, mas determinada em prover o sentido comunitário em sua tradição. Apesar de possuírem carros, e outros equipamentos tecnológicos a comunidade de Johan se mantém na direção de sua crença e organização.

O fato de se apaixonar por outra é antes de tudo um acontecimento humano, mas também é um símbolo de que os fatos exteriores invadem a mais estruturada organização tradicional. Por outro lado se faz como uma definição de que havendo o senso de poder, isto é, o sujeito está em posse de algo que o mobiliza, talvez implícito pela concussão tecnológica, pela impregnação da vontade que o faz redentor, o apaixonado. A vontade de poder então é mais uma presença na vida de todos nós como nos diz Nietzsche e a sua relação com o futuro nos torna vagos e independentes, nos faz a caminho sem direção, mas justificados por aquilo que nos permite realizar a paixão e dentro dela a sua alteração com a morte. Morre com a fé o homem, e nasce do homem a fé em sua condução inexorável à morte.

No espaço estruturado finito não é possível o engano, a mentira e não pode haver perda sem a reposição ideológica presente no outro.

A morte da mulher é o resultado da paixão (alguém deve morrer mesmo que de forma simbólica), morre para que a outra se anteponha à ordem, para que continue a estrutura desejada e amada, para que sublime o amor e retorne à tradição.

A quem assiste ao filme percebe que está inclinado a partir que é em última instância um desejo de permanência que é “obliterado” pela partida.