Ferreira Gullar – O Canto e a Fúria (1994)

Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.”

Uau! O Diretor Zelito Viana fez poesia nesse Documentário. Ao traçar a vida do poeta Ferreira Gullar meio que ligou a câmera e deixou ele falar sem corte. Ora ilustrando com frases do autor, ora deixando ele mesmo declamar os poemas, ora falando de si. E ele o fez com paixão. Com o que me deixou encantada a ponto de querer rever tão logo acabou. Assisti pelo Canal Brasil.

Mas mesmo que eu tivesse ficado ali, nem assim o poema teria nascido senão agora, neste hoje, nesta página, pois a poesia tem seu próprio tempo e modo de nascer“.

Em “Ferreira Gullar – O Canto e a Fúria” além de se ter uma radiografia desse poeta, nos levar a até quebrar alguns paradigmas. Ferreira nos conta que na casa dele não havia livros, que os lia na escola. O que nos mostra que tanto o talento como o gostar de leituras, é algo nato. Ao continuar traçando a sua história, encanta em nos mostrar que poesia não é apenas um jogo de palavras. Pois de repente pequenos objetos, ao léu, explodem numa mais singular poesia.

Minha linguagem é a representação duma discórdia entre o que quero e a resistência do corpo.”

Ferreira Gullar diz que a poesia é um exercício mental, que mesmo nascendo com a pessoa se faz necessário estar atento ao entorno. Mesmo assim ela não é desprovida de sentimento. Embora seus poemas contam as fases da sua vida, não necessariamente crescem cronologicamente junto com ele. Porque ao mudar de São Luís do Maranhão para o Rio de Janeiro foi onde de fato nasceu o poeta. E volta ao passado ao ver uma fotografia aérea num arquivo de uma revista de arquitetura onde trabalhou. Ali, olhando a foto vê a sua infância! Vê o seu passado.

Eu devo ter ouvido aquela tarde um avião passar sobre a cidade / aberta como a palma da mão / entre palmeiras / e mangues / vazando no mar o sangue de seus rios / as horas / do dia tropical / aquela tarde vazando seus esgotos seus mortos / seus jardins / eu devo ter ouvido / aquela tarde / em meu quarto? / na sala? no terraço / ao lado do quintal? / o avião passar sobre a cidade“.

Fala do engajamento político. Do tempo em exílio. Do período onde se questionou como poeta. Neste documentário, ele se desnuda por inteiro, se emociona, e nos emociona também. Como também nos diverte em até quase sentindo o “cheiro de tangerina“.
Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Ferreira Gullar – O Canto e a Fúria. 1994. Brasil. Direção: Zelito Vianna. Elenco: Ferreira Gullar. Gênero: Documentário. Duração: 55 minutos.

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Livro “TARÂNTULA” de Thierry Jonquet

Pessoal, sei que já foram feitas análises sobre o filme A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar. Entretanto o que será discutido agora é o livro de Thierry Jonquet. Apesar de focar na relação do médico Richard Lafargue e sua aparente esposa, Ève, tal qual a adaptação cinematográfica (com nomes trocados). O romance possui caminhos totalmente diferentes do longa-metragem, fornecendo personagens com atitudes distintas, porém ligados pelo mesmo segredo. Mesmo assim, o livro de Jonquet consegue, surpreendentemente, escrever uma história sobre a crueldade humana, algo mais distante do ambiente romântico do filme e próximo de “Laranja Mecânica”. Numa história envolvente onde todos possuem culpa, o autor “dá a cara a tapa” sem receios de mostrar as doenças do mundo real, evitando suavizar o lado da mocinha como o roteiro da película de Almodóvar.

Sinopse: O cirurgião plástico renomado (Richard Lafargue) e a bela mulher prisioneira de suas vontades (Ève), a adolescente que se automutila em um hospício (Viviane), o jovem acorrentado no porão obscuro depois de uma perseguição implacável (Vincent), o assaltante fugitivo condenado pelo próprio rosto (Alex). Um erro fatal do passado reúne esses personagens na mesma teia, no romance mais aclamado pelo público e crítica do autor francês Thierry Jonquet. Adaptado livremente ao cinema com o nome A Pele Que Habito sob a condução do famoso diretor espanhol Pedro Almodóvar.

Uma das coisas interessantes do livro é propor metáforas sobre zoomorfismo. O título Tarântula faz referência ao apelido dado por Ève ao seu seqüestrador, numa analogia da aranha envolver sua presa e, dessa forma, torturá-la na espera pelo pior. Além disso, a civilidade humana é posta a prova quando Vincent passa longos dias sem comer ou conversar com alguém, de maneira a ser comparado a um cachorro de estimação quando Lafargue chega, trazendo presentes e outros agrados. O sexo é retratado da forma mais cruel possível com a prostituição, criando um horrível pesadelo masculino relacionado a estupro consensual.

Já li algumas opiniões comparando a história a um Frankenstein moderno, todavia, até então, não entendia o porquê da trama lembrar-me tanto A Bela E A Fera. O item em comum com o conto-de-fadas é a Síndrome de Estocolmo, onde a vítima, numa tentativa inconsciente de autoproteção, busca uma maneira de se identificar com o raptor ou conquistar a simpatia do mesmo. Isso é uma das coisas mais angustiantes, afinal após tudo feito a Ève, ela continua tentando se aproximar do doutor, não da forma interesseira mostrada no filme, mas impulsivamente. O médico também se sente atraído, na verdade isso é ainda mais polêmico pela sugestão de que ele seja homossexual. É algo sem resposta e ofuscado pela atuação de Antonio Banderas, mas na obra de Jonquet fica no ar com a desconfiança momentânea de Vincent, fisicamente fraco demais para analisar melhor a situação. A saída do longa-metragem para essa suspeita foi fazer Vera (Ève, na literatura) com o rosto da esposa do doutor. Mas há outras peculiaridades semelhantes ao conto mencionado, o doutor a mantém presa, porém com o tempo passa a ser afetuoso, apesar do sofrimento imposto por ela a Viviane (filha de  Lafargue). Portanto, essa história  é mais próxima de uma versão ultraviolenta e sombria de A Bela E A Fera.

Tarântula e suas semelhanças macabras com A Bela E A Fera devido ao Complexo de Estocolmo, onde a vítima busca afeiçoar-se ao sequestrador, e as circunstâncias que levam o médico a aproximar-se da refém por solidão, culpa, piedade, irresistível beleza da moça, etc.

Ève não é santa ou inocente na história original, na realidade ela é capaz de tocar “The Man I Love” ao piano só para irritar Lafargue e abrir as pernas provocando o desejo proibido sentido por ele, o qual evita até tocá-la por conta do segredo. Mesmo tendo razões gigantes para torturar a “esposa”, Tarântula consegue ser perverso. O simples ato de prostituí-la e observar o ato é horrível, mas tudo é confrontado quando sabemos a identidade da mulher. Honestamente, li o livro após assistir ao filme e esse conflito de opiniões é bastante evidenciado. Afinal, o médico está certo ou não impondo sua tortura? a humanidade existente no homem deve ser ignorada, mesmo havendo motivos suficientes para fazer alguém culpado sofrer? Cabe ao médico condenar Vincent ao sofrimento até o fim da vida?

Nesse ponto descobrimos o porquê do título ser justamente Tarântula, o personagem chave é Lafargue, uma vítima tentando se vingar e sendo confrontado com sua natureza: tenta fazer durar seu ódio, mas a piedade na consciência é pesada, ainda precisa controlar seu desejo pela aparência de Ève, sente orgulho de sua criação e não pode usufruir dela por dogmas unidos ao passado sombrio.  Após esse texto, consegue-se descrever o livro em uma palavra: desafiador. Tudo isso condensado em apenas 150 páginas, provando algo esquecido por alguns autores: estimar qualidade ao invés de quantidade. Não focando apenas na questão de manter a identidade sexual da pessoa, o livro vai bem além dos temas do filme, explorando o sentimento de punição aos limites com um resultado intrigante através de reviravoltas inusitadas onde o conflito de humanidade e castigo é debatido sem o temor de não agradar um público acostumado a distinguir personagens bons de maus.

Por Alexandre Cavalcante (Alecs)

Cinema, a Grande Fábrica de Sonhos

Sempre acreditei que um filme não se resume pura e simplesmente em uma única palavra ou frase “gostei”, “não gostei”. Há muita coisa envolvida que supõe minha vã filosofia além dessa fronteira que começa antes mesmo da elaboração da idéia pelo seu criador até a consumação da matéria prima final.

Aprecio a ideia original em um filme, aquela história que parece que ninguém ainda tinha pensado. Vejo de tudo um pouco, não importa o gênero. Sou criticada quando digo que aprecio determinado filme de terror. Tem gente que não entende. Não vou citar título ou nome de diretor, mas é um desses que tem continuação 2, 3, 4… Acho que aqui nem é pelo fato de entender ou não.

A ideia do diretor de “Dogville” (Lars Von Trier)  foi boa e  independente de qualquer coisa, pode-se tirar algum ensinamento. Um filme sempre tem uma mensagem que, se não servir para mim, serve para alguém.

E eu também gosto da ideia de ser feita do mesmo material desse sonho…

Karenina Rostov