San Francisco 2.0. Um progresso que exclui a base da pirâmide social

sao-francisco-2-ponto-0_documentario_2015sao-francisco-2-ponto-0_04Por: Valéria Miguez (LELLA).
O DocumentárioSan Francisco 2.0” (2015), de Alexandra Pelosi, retrata aquela que já foi um importante centro cultural do país, de raízes livres e anti-materialista, vivenciando uma “guerra de classes” por um progresso que exclui do caminho a base da pirâmide social e de um jeito avassalador. O que por sua vez é um retrato do que está ocorrendo no mundo onde as “parcerias” entre entidades particulares e governos visam “agradar” o topo da pirâmide social. Gerando os “apartheids” da era do mercado de capital…

Da capital mundial da contra-cultura à capital mundial das TI

sao-francisco-2-ponto-0_01Quando uma maioria jovem e rica do Vale do Silício transformaram São Francisco numa “cidade dormitório”, o mercado de capital e a Prefeitura se uniram para atrair essa indústria de ponta… Redução de impostos e um local para que essas empresas – das grandes às incubadoras – se instalassem… Assim a “San Francisco 2.0” surgiu e no que seria o “lado pobre” da cidade: o “mais fácil” de ser removido…

Os jovens tech bros usam San Francisco como seu playground, eles não estão olhando para ela como sua comunidade.

Não obstante! Além do aumento do custo de vida – dos alimentos as moradias… as construções de prédios, condomínios de luxos… também descaracterizavam a arquitetura típica local… Como também, por serem de uma imensa maioria de jovens – sem crianças e idosos – por serem adeptos de uma cultura voltada essencialmente para a internet… Consumismo… Apps para “facilitar” o dia a dia… O sonho de se tornarem milionários com suas invenções tecnológicas… O capital sem se preocupar com a base da pirâmide social.

As cidades precisam se reinventar para permanecerem vivas. A questão é: professores, bombeiros, policiais… poderão ficar nelas onde viveram por gerações? Eles estão sendo expulsos de suas comunidades.

Essencialmente político, Alexandra Pelosi mostra os prós e os contras dessa “modernidade” em São Francisco: a gentrificação em alta escala. De que o mesmo fluxo para “agradar” aos mais ricos não é nem de longe o mesmo até para os que foram expulsos de suas moradias… Sem planos para a comunidade local acaba fazendo a cidade perder a sua própria identidade…

É! O mundo parece caminhar para tornar inacessível as classes C, D e E de morarem nas grandes cidades. É o mundo do mercado de capital aumentando a desigualdade social…

sao-francisco-2-ponto-0_02San Francisco está mostrando a nova economia mundial. É por isso que devemos prestar atenção a San Francisco.

Enfim, o Documentário “São Francisco 2.0” até por deixar uma sensação de que há muito mais por vir… Nos deixa de que mais do que escolher um lado estaria em tentar fazer a diferença na busca pelo meio termo desse “progresso” que chega nas grandes cidades.

Exibido pelo canal HBO Signature. Assistam! Nota 10.

Curta: A Inovação da Solidão (2013). As Redes Sociais e o Medo da Solidão

curta_a-inovacao-da-solidaoPor Josie Conti
A sociedade atual valoriza o individualismo e a competitividade.

Os funcionários das empresas, hoje chamados erroneamente de colaboradores, recebem mensagens de que trabalhar em equipe é um valor da empresa. Entretanto, qualquer pessoa com um pouco de bom senso e olhar crítico verá que o que acontece o tempo todo é um total aniquilamento da individualidade e da fidelidade entre eles. Quem não se destaca é demitido. As terceirizações não param de crescer. Logo, o colega de trabalho é tido como rival.

A pessoa passa muito mais horas trabalhando em um ambiente que é hostil e onde não pode confiar verdadeiramente nas pessoas, portanto, sem vínculos verdadeiros. Resultado: menos tempo com família e amigos, pois precisa manter o emprego.

Quando chega em casa, muitas vezes sozinha, a pessoa ainda tem que vender uma imagem de felicidade e boas relações (isso faz parte de seu papel social). E é aí que chegamos no ponto, pois é esse o questionamento relativos às redes sociais, por exemplo, onde as pessoas fabricam e postam imagens de viagens, fotos felizes, reuniões de amigos. É só entrar e veremos a infinidade de pessoas felizes (na maioria aparentemente mais felizes do que nós) falando de seus eventos sociais e outras realizações.

as-redes-sociaisSendo assim, é possível perceber que as redes sociais tornaram-se mais uma vitrine da imagem que as pessoas gostariam de passar do que propriamente um espaço para relações.

Outra coisa que as redes sociais parecem ilusoriamente sanar é a sensação de que estamos cada vez mais isolados e sem vínculos reais, ou seja, os amigos e os contatos virtuais preenchem de alguma forma o medo e a solidão.

Eu compartilho. Portanto eu existo”. Esse é o tema da animação intitulada “The Innovation of Loneliness” (A Inovação da Solidão, em tradução livre), inspirado no livro da psicóloga Sherry Turkle: Alone Together, onde ela analisa como os nossos dispositivos e personalidades online estão redefinindo a conexão humana.

Simplesmente Acontece (Love, Rosie. 2014)

simplesmente-acontece_2014Eu resolvi fugir do lugar comum, do meu é claro, e começar falando da Trilha Sonora de “Simplesmente Acontece“. Primeiro porque as músicas parece terem sido escolhidas a dedo tamanho é o casamento entre cada uma delas com a respectiva cena do filme. Depois mesmo sem ser um Musical, além de destacar também a passagem do tempo na história, de deixar uma sensação de “minha vida tem trilha sonora“, de quase como uma pausa para um café… É que para mim a Trilha Sonora veio como o diferenciador de ambas as mídias: o filme do livro o qual foi inspirado (“Where Rainbow’s End”, de Cecelia Ahern). Só por conta dela eu já daria os parabéns ao Diretor Christian Ditter! Agora, pelo filme por um todo,  seguem também os votos de uma carreira longa!

A nossa vida é feita de tempo. Nossos dias são mesurados pelas horas… Agarramos uns minutinhos do nosso dia sempre ocupado… bem lá no fundo você se pergunta se… foram gasto da melhor maneira possível.”

simplesmente-acontece_2014_00Em “Simplesmente Acontece” temos sim todos os clichês de uma Comédia Romântica: o “casal” que até levam um tempo para admitirem que estão apaixonados um pelo o outro… o “causador” de um afastamento entre eles… Por aí! Assim, é um filme para os que também amam esse gênero. Que mesmo assistindo sem barreiras, fica um querer que ele traga um diferencial ao mostrar sua história nos levando a se encantar! E nesse tem um sim! Que é o tempo que se vive durante essa tal “separação”. Que diferente da “Cinderela” que dormiu por décadas… A protagonista aqui encarou de frente a virada do destino…

Acho que a vida gosta de fazer isso com a gente de vez em quando; te joga num mergulho em alto-mar e, quando parece que você não vai suportar, ela te traz pra terra firme de novo.”

simplesmente-acontece_2014_02Aliás, há uma tirada ótima sobre as protagonistas dos Contos de Fadas com a realidade das mulheres. Num mundo ainda machista, até em se farrear – beber, transar… – ainda na adolescência pode não ser encarado como uma “despedida” antes de encarar as responsabilidades da fase adulta da vida. Ponto para o suporte que vem por pelo menos um dos próprios pais. Que nessa história vem da relação dela com o pai. Pode até ser um clichê… Mas que não deixa de ser um porto seguro importante na vida de um ser que ainda tem muito a aprender. Destaque também para a atuação de Lorcan Cranitch!

Como a vida é engraçada, né? Bem na hora que você pensa que está tudo resolvido, bem na hora em que você finalmente começa a planejar alguma coisa de verdade, se empolga e se sente como se soubesse a direção em que está seguindo, o caminho muda, a sinalização muda, o vento sopra na direção contrária, o norte de repente vira sul, o leste virá oeste, e você fica perdido. Como é fácil perder o rumo, a direção…

simplesmente-acontece_2014_01Muito embora não se tratando de um Suspense, muito embora tenha ficado com vontade de esmiuçar a vida principalmente dos dois protagonistas, Rosie (Lily Collins) e Alex (Sam Claflin), optei em não trazer spoiler. Até porque o filme também mostra que no mundo de hoje muito do que fica exposto pela internet não é a visão real de cada pessoa: seu dia a dia, seus dramas, seus choros, nem seus momentos felizes. E nem se trata de mentir, muitas das vezes trata-se de omitir. Tal qual Rosie fez em não contar a Alex ao ganhar uma bolsa de estudos e indo então morar nos Estados Unidos. Para Alex nem seria ir atrás do american dream… nem meio que para fugir do cotidiano bucólico de onde cresceram… a questão que ficando ali seria como caminhar pelos pés do próprio pai… Ele queria mesmo ser protagonista da própria história. Ele até tentou colocar Rosie nesse contexto, mas…

Você deveria sair e se divertir, parar de carregar o peso do mundo sobre as suas costas. E parar de esperar por ele.”

simplesmente-acontece_2014_04Rosie e Alex se tornaram amigos ainda no Jardim de Infância. Meio que subvertendo a ordem das coisas onde nessa fase já começam se separar meninas de meninos, a amizade deles os levaram até a trocarem os assuntos mais íntimos. Com isso, até o fato dele ir morar em outro continente ajudou nessa sua tomada de decisão… Seria então algo importante demais em sua vida que não iria compartilhar com Alex. Tudo mais continuaram a compartilhar muito mais via internet… Para Rosie deixá-lo ir era que pelo menos um deles pudesse ir atrás do próprio sonho… Onde o dela seria em ter seu próprio hotel, mesmo que um dos pequenos… Sonho esse que seu pai a incentivava, e que nem seria para não mais trabalhar em abrir portas para os hóspedes do hotel de luxo, mas sim em se livrar do gerente que vivia controlando os horários de todos… Mas…

Às vezes você não percebe que as melhores coisas que irão lhe acontecer estão bem do seu lado…”

simplesmente-acontece_2014_03Bem, se o destino pregou uma peça em Rosie, algumas até bem tristes… Ele também foi generoso… Lei da compensação? Talvez por um olhar a vida por um outro ângulo… E quem sabe assim descobrir certos “presentes” advindos desses dramas que o destino nos impõe… Alguns deles, seriam tremendos spoilers… Assim, até seguindo pelo pano de fundo em “Simplesmente Acontece” que é o tempo… Rosie ganhou uma grande amiga, Ruby (Jaime Winstone). Uma amizade que veio para ficar! Ah! O tempo também mostrou a Alex o significado dos seus “sonhos estranhos“…

Estou tentando encontrar sentido na frase ‘tudo tem uma razão para acontecer’, e acho que descobri essa razão: para me irritar.”

Em “Simplesmente Acontece” tudo está em uníssono! Além da Direção de Christian Ditter e da Trilha Sonora já citados no início… Atuações, com total química entre eles! Um Roteiro afinado, e assinado por Juliette Towhidi; que talvez até por ser de uma mulher conseguiu não deixar cair nos esteriótipos principalmente os personagens femininos. Não tem como não se encantar em especial por Rosie! Um filme que além de me deixou vontade de rever, também me fez querer ler o livro. Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Simplesmente Acontece (Love, Rosie. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Curiodades:
– O livro do qual o filme foi baseado é o “Where Rainbow’s End”, de Cecelia Ahern, e de 2004. Foi publicado no Brasil em 2006 como “Onde Terminam os Arco-Íris”… Mas com o filme, o livro volta com nova roupagem: título igual “Simplesmente Acontece” e com os personagens do filme na capa. E Cecelia Ahern também é autora do livro que inspirou o filme homônimo “P.S. Eu Te Amo”, de 2007″. 
– As frases do filme que permeiam esse meu texto eu as trouxe daqui:
http://www.mensagenscomamor.com/livros/frases_simplesmente_acontece.htm

Trailer Dublado

Confiar (Trust. 2010)

Uau! Um filme que retrata uma realidade tão atual, e sem mascarar, com tanta verdade que me fez querer aplaudir a todos empenhados nessa produção. Também me leva a desejar que seja exibido e debatido em Sala de Aula. Mas não apenas com o Professor e os Alunos. Que estejam presentes profissionais da área psico, como também os da área de crime pela internet que envolva pedofilia e bullying.

Confiar” mostra um dos lados negativo da Internet, em primeiro plano. E no aprofundar nesse tema, abre-se um leque. Onde veremos que educar, criar filhos não há uma fórmula única a ser seguida. Mesmo se cercando de amor, respeito… é a  confiança mútua que deve prevalecer sempre. No filme “Pecados Íntimos” um pedófilo foi mostrado como alguém com distúrbio psíquico. Claro que foi válido traçar esse perfil. Acontece que também é uma Tara que pode vir de um cidadão acima de qualquer suspeita. Alguém que se cerca de todos os cuidados para não ser pego. Porque assim ele poderá continuar estuprando outras jovens.

Em “Confiar” também há o em confiar demais no des-conhecido que está do outro lado. Astuto, sabe como ir quebrando a desconfiança. Num jogo de palavras, faz o que quer da vítima. Contando ainda em fazê-la acreditar que são duas almas gêmeas que se encontraram. Foi o que fez, o de nick Charlie (Chris Henry Coffey) com a jovem de 14 anos, Annie (Liana Liberato). Ao longo de alguns meses, com bate-papos diários, Charlie foi se fazendo enamorar. Da parte dele, em segredar mentiras, como também em mentir a idade. Primeiro, diz ter 16, depois 20, 25… E Annie só foi ver sua idade real, no primeiro e único encontro com ele. Encontro esse que irá marcá-la para sempre.

Nem com o sumiço dele, nem com o agente do FBI a lhe mostrar que isso é muito comum, Annie deixa de acreditar que ele não a amou. Que só queria sexo. Ser o primeiro a transar com ela e outras mais. Então, se vira contra a amiga que notificou à direção da escola que Annie fora vítima de um pedófilo. Como também com seu próprio pai, Will (Clive Owen), que ficou transtornado.

Outro ponto a se destacar no filme vem do trabalho de Will. Trabalhando com Publicidade, e com uma Marca para um público bem jovem, ele, e todos nós que assistimos, nos deparamos com o tanto de apelo sexual na venda de um produto. Em até que ponto é abusivo. Até que idade se quer alcançar. É a erotização atingindo aos muito jovens ainda. Annie virou mercadoria, e pior, um produto descartável logo depois de se doar na internet.

Eu preferi não me alongar muito até por ser um Thriller, mas motivá-los para que vejam esse retrato 3×4 do que pode sim ocorrer onde a jovens com acesso livre a Internet. Um alerta que não nos deixa indiferentes. Nos mais, elogiar as performances de Clive Ower e Liana Liberato, estão perfeitos. Ela, em um momento me fez querer exclamar um “Acorda, Menina! Cai na real!“. Ele, me levou às lágrimas no final. Os demais atores também estão muito bem. E um aplauso em especial ao Ross, de “Friends”…rsrs Sério, agora! É que a Direção de “Confiar” é de David Schwimmer.

Um filme nota 10. Até pelo final, cruelmente real!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Confiar (Trust. 2010). EUA. Direção: David Schwimmer. +Elenco. Gênero: Drama, Thriller. Duração: 106 minutos. Censura: 14 anos.

Um Quarto Em Roma (Habitación en Roma. 2010)

Vários diretores já se trancaram em um único ambiente para dar vida a roteiros diversos,  o que significaria nenhuma novidade para este Julio Medem. No entanto, além da inovação do casal trancafiado no quarto em  Roma ser formado por duas mulheres (lindas, diga-se de passagem) o  ambiente único,  geralmente  claustrofóbico desta vez,  é arejado pela atuação convincente de Elena e poderosos auxílios como sensível fotografia, vigor da trilha sonora e  interação entre a vida naquele quarto com hora certa para se extinguir, influência da vida exterior e a presença desta através das incursões do garçom e produtos eletrônicos modernos.  Elena Anaya e Natasha Yarovenko dão vida a personagens muito interessantes e diferentemente do que imaginei, não é aventura do corpo que toca o coração, mas justamente o contrário.

Existe um crescendo na confiança que vai aos poucos se estabelecendo entre as duas mulheres. A célebre atitude de dar nomes inventados à ” paquera da hora”  que acabamos de conhecer, já mostra que havia se não o desejo ou  curiosidade, pelo menos uma certa intenção entre aquelas duas estranhas, por mais que a princípio a atmosfera romântica não prevalecesse.  Não mostrar quem são na vida lá fora, a derrubada dessas mentiras que visam proteção ou mesmo torná-la seres mais interessantes, fez-me pensar como é curioso o ser humano, que mesmo numa situação transitória e vivendo momentos com prazo definido para um final, não deixa a peteca cair. O corpo, o sexo é alvo de tanta teorização e no entanto estando duas mulheres nuas num quarto, escondem seus nomes e suas histórias como forma de protegerem suas vidas. É a potencialização do pensamento difundido por aí que entre quatro paredes tudo e válido desde que ali se mantenha.

Os diálogos tem muito de fábula e a fotografia é de grande  beleza plástica, onde ver duas mulheres fazendo sexo não choca e ainda estimula. Interessante perceber a co-atuação da tecnologia moderna interagindo e oferecendo informações sobre a vida extra-quarto das personagens, arejando o “Quarto de Roma”

Natasha (Natasha Yarovenko) moça heterossexual se  vê num quarto com Alba (Elena Anaya) moça homossexual e por aqueles motivos que não se explica se envolvem numa intensidade onde qualquer um poderia  enxergar a si próprio. Elas vão se revelando uma para a outra entre pequenas e grandes mentiras a respeito de si mesmas, os grandes dramas que cada uma carrega na vida real, em 12 horas vivem um relacionamento com densidade  infinitamente superior a muitas relações que sobrevivem do lado de  fora.

Por que carregam esses dramas em suas histórias, não consegui entender, confesso que sou inexperiente em Julio Medem e , não ouso afirmar que em suas histórias pessoas encucadas fazem sexo bem e se entregam à curiosidade até que ela se torne prazer e se vista de amor.  À pergunta que me surgiu durante a exibição:  será que uma pessoa sem fatos pesados na sua biografia, não se entregariam daquela forma ao amor ou a um sexo de uma forma fora do seu habitual ? Tentarei responder vendo outros de seus filmes.

O requinte de detalhes nos leva a ver a cena em que  Natasha, a mulher heterossexual  solicita um vibrador  ou algo que a penetre enquanto que a lésbica afirma não utilizar esse tipo de recurso, pode para alguns, confirmar a lenda que a penetração é indispensável ao prazer feminino como pode desmentir  a verdade que o falo acompanhado do corpo é inteiramente  dispensável em detrimento  de qualquer coisa em forma similar ou mesmo uma garrafa de vinho da Toscana…

Amigos que assistiram antes de mim comentaram sobre a falta de consistência dos diálogos do que discordo, entendo que deve ser complicado diálogos profundos e complexos estando-se em par num quarto de hotel, diante de um corpo atraente, perante alguém que admira e demonstra gostar do que vê, da mesma forma que ter atenção nos diálogos diante de cenas tórridas não deixa de ter certa porção desafio… Contudo, não é justificada a piadinha de que com aquelas moças nuas e suas ações na tela o filme seria apenas imagens a se observar… Esta reclamação, não tenho .

O filme mostra muito do que uma mulher  pode ser capaz quando tem sobre a pele o toque certo, o quanto falar de si pode ser importante no trajeto cama-chuveiro-banheira. Mostra a capacidade do ser humano de se envolver e encantar, vivendo um grande amor num espaço pequeno e  tempo reduzido, em que muitos sequer conseguiriam entrar no primeiro sonho. É grande a capacidade de amar das mulheres, ouvir a voz do corpo pode ser muito diverso de buscar a traição, no momento em que se está onde se está,  estaremos sempre fiéis a nós mesmos.

Se tivesse que dar uma nota no filme como um todo, incluindo os diálogos daria um honroso 8.

Um Quarto Em Roma (Habitación en Roma)

Espanha, 2010

Gênero: Drama

Diretor: Julio Medem

Elenco:  Elena Anaya (Alba) Natasha Yarovenko (Natasha) Enrico Lo Verso (Max) Najwa Nimri (Durne)

GAMER

Este injustiçado filme tem em sua espetacular trama diversos ingredientes que fornecem bons frutos para análises dentro do tema mais discutido por mim dentro deste blog: hiper-realismo. Antes de iniciarmos, porém, eu não consigo entender por que o público em geral não acolheu tão bem este filme como outros do gênero, afinal temos aqui, ao meu ver, mais um clássico de ficção-científica. Se este filme não segue uma linha tênue entre imaginário e real, como Matrix, Minority Report, Equilibrium e Vanilla Sky deve-se ao fato de uma grande homenagem à filmografia oitentista do gênero, tal como Blade Runner e O Vingador do Futuro. Trata-se de mais uma história num cenário distópico, porém aqui o pano de fundo se assemelha muito ao nosso – envolvido por uma série de dispositivos tecnológicos que nos acompanham a cada passo.

O desenvolver da história é simples, porém a sua plataforma é sensacional: estamos há apenas alguns anos no futuro e duas novas febres do momento praticamente tomam conta da humanidade: a rede social chamada Society (uma clara referência ao Second Life) e o jogo online multiplayer Slayers (uma referência à jogos como o Counter Strike). Embora há cerca de 50 anos isto já seria algo impensável, em nossa atual sociedade não temos nenhuma novidade até aí. Porém no filme é inserido um elemento assustador: um nerd chamado Ken Castle (interpretado pelo especialista em personagens excêntricos Michael C. Hall – vulgo Dexter e Six Feet Under) inventa uma espécie de nanochip que controla a mente das pessoas. Isto lhe deixa bilionário da noite para o dia, virando uma verdadeira celebridade em seu tempo. Com isto, pessoas reais são inseridas no tabuleiro e controladas mentalmente por seus jogadores (que podem até mesmo sentir o que seus “avatares” sentem no jogo).

Os jogadores controlam seres humanos de verdade dentro de uma comunidade “virtual/real”, abandonando de vez a vida fora dali. No centro temos Logan Lerman, um jogador sensação de 17 anos que controla Kable (interpretado por Gerard Buttler), o personagem que está há mais tempo livre dentro do game Slayers. Mais algumas partidas vivos e Kable estará livre para voltar ao mundo “real”, porém o Ken Castle, o nerd por trás de tudo isto, tem outros planos e não pretende facilitar para Kable.

Muita tecnologia online, contratos multimilionários, marketing e consumo desenfreado, além da migração da vida real para a vida virtual são os grandes atrativos para que eu considere Gamer um dos clássicos do cinema atual. Se alguns podem pensar que o filme foi feito para outros nerds, eu afirmo que o seu caracter distópico e niilista está para os olhos que observam mensagens diversas por entre as linhas principais.

Do ponto de vista analítico, podemos observar uma relação confusa e intíma entre o sujeito (aquele que conhece) e objeto (aquele que é conhecido). Se antes tinhámos o sujeito era caracterizado por matéria viva e o objeto por matéria morta, nesta realidade a coisa é um pouco diferente. Como disse Baudrillard uma vez, pela primeira vez temos o objeto modelando o comportamento do sujeito, visto as extremas relações de hiperconsumo como modo de satisfazer uma necessidade básica.

Se outrora necessidades como sede e fome são essenciais para satisfazer requisitos para o bom funcionamento do corpo, temos no consumo a necessidade de satisfazer um desejo proveniente da psiquê. Hoje estar alinhado as ultimas tecnologias, vide revolução de dispositivos móveis como o iPhone e a invasão de Google Androids, é estar alinhado com o meio social. A sociedade pede por isto. Com a internacionalização e globalização proporcionada pela internet, fazer parte de qualquer modismo ou adentrar-se em novas ferramentas online se torna pré-requisito para fazermos parte do meio.

O alerta do filme Gamer é demonstrar até onde iremos chegar para satisfazer esta necessidade que até então nem existia. Até onde a indústria do entretenimento pretende chegar para nos tirar de uma vida e nos inserir em uma outra. De fato, o que acontece é que saímos de um mundo injusto, amoral e cruel para sermos incluidos num mundo mágico, encantado, onde pude ser feito sem que ninguém se machuque (muito embora seja um universo fictício e surreal). Se observarmos que cada ser procura aquilo que é melhor para si, iremos até chegar num argumento que justifica a prática, porém é um argumento egoísta e mesquinho.

Visto que os homens não escolhem os seus locais de nascimento, a vida não se trata de liberdade, mas sim de escolhas limitadas que somos obrigados a fazer dependendo da direção a qual nos encontramos. Há famílias que adquirem mansões milionárias, outros que adquirem barracos em centenas de prestações. Porém o desejo dos ser é ilimitado e ambas as classes podem sonhar a mesma coisa. Onde reside a justiça aqui?

Enfim, precisamos buscar uma solução deste mundo ferido, porém real, no próprio mundo ferido. Se criarmos multi-universos virtuais, estaremos multiplicando o hiper-real em níveis onde jamais saberemos o que existe por trás do virtual. Em Gamer, temos os Humanz, que são hackers dispostos a mostrar para as pessoas condicionadas neste mundo de faz-de-conta que há vida por trás das telas. Pior, que há interesses comerciais em manter os seres ocupados com entretenimento, uma vez que os males do mundo não são descobertos.

É por estes e outros motivos que Gamer ingressa na lista dos meus favoritos. Excelente filme, excelente mensagem. Precisamos de mais obras que alertem as pessoas quanto este tipo de prática, que esta aí para quem quiser ver. Devemos avançar sim (sempre), porém rumo a um avanço tecnológico equilibrado e consciente. Precisamos nos manter no controle para não sermos controlados.

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.