E Agora, Aonde Vamos? (Et Maintenant on Va Où?. 2011)

e-agora-aonde-vamos_2011Qual seria o caminho para a paz entre os homens? Já que para o da guerra já se está enraizado culturalmente neles.

e-agora-aonde-vamos_03E é por tentar encontrar um jeito de deixar os homens em harmonia entre si, que um grupo de mulheres farão das tripas coração para esse feito num pequeno povoado perdido num deserto libanês. Ligado até então ao resto do mundo pelo o que restou de uma ponte. Ponte essa que mais parece uma miniatura da Faixa de Gaza. Meio auto-suficientes, os habitantes só querem desse “outro lado” alguns produtos industrializados. Assim mesmo não por uma necessidade de consumismo, mas para um pouco de prazer pessoal. Como a lata de tinta para clarear a cantina local. Um perfume… Uma meia de seda… Acontece que ao chegar o primeiro aparelho de televisão, vem junto como um aviso: “Cristãos e Muçulmanos continuam em pé de guerra. Não tendo uma saída para que possam viver em paz.”

A Diretora Nadine Labaki mais uma vez brinda não apenas a nós mulheres, mas também a todos nós que gostamos de ver e ouvir histórias de pessoas simples. Para quem também amou “Caramelo” com certeza irá também se encantar com esse. Já que “E Agora, Aonde Vamos?” nos leva às lágrimas de se divertir com todos os personagens, mas também porque há cenas que machucam. Além do peso do nome da Diretora eu não me privaria de ver esse filme porque numa lida a uma sinopse – tentar evitar um conflito entre cristãos e muçulmanos -, seria em tom de comédia. Um gênero que eu amo! Além claro da curiosidade de em que contexto o título se encaixaria. E fechou com chave de ouro a tal cena. Na qual eu exclamei um “Putz!”, mas com sorrisão no rosto. Pois assim é a vida. Ela não tem um happy end, muito menos numa região de conflitos como o Oriente Médio.

e-agora-aonde-vamos_01O filme tem um começo almodoviano. Um grupo de mulheres num cortejo fúnebre. A cena em si é quase o final do filme. Pois se volta no tempo para então conhecermos todo o drama que todos vivenciaram até então. Elas são mulheres que apesar das diferenças religiosas se unem para tentar evitar que a paz dali fosse quebrada. Viviam numa paz bem melindrosa, já que culturalmente deveriam viver em pé de guerra, e logo por pressão religiosa. E mesmo que além dos limites daquela localidade elas nada poderiam fazer, pelo menos ali elas fariam o impossível, ou melhor dizendo fariam o impensável para continuarem a viver em paz. Mas no frigir dos ovos era uma guerra insana, e não uma guerra santa entre cristãos e muçulmanos. Algo latente, como pisar em campo minado. Daí cada tentativa delas era como abrir uma ferida antiga. Que para contornar mais confusões elas se metiam.

Não sei se foi algo proposital pela Nadine Labaki, como uma homenagem. Nem sei se o termo certo seria esse. É que uma importante parte desse filme, pelo menos a mim me levou a pensar no “Tartarugas Podem Voar“, com o jovem Satélite procurando um local com melhor recepção para a antena parabólica. Ambos os filmes denunciam a estupidez humana espalhando, e largando, minas terrestres.

e-agora-aonde-vamos_02Em “E Agora, Aonde Vamos?” ao sintonizarem o primeiro aparelho de televisão acabou trazendo a guerra para dentro daquela localidade. E justamente um dos muitos conflitos que os colocavam como grandes inimigos. Por sorte pela má recepção da tv a notícia fora breve, como também as mulheres estavam antenadas iniciando ali uma de fato guerra santa para manter a paz entre os homens da região. Elas foram para a frente de batalha, unidas, rompendo até os conflitos interiores na tentativa de também dar um basta em tantas mortes de uma guerra que nem a eles pertencia. A bem da verdade as guerras interessam mesmo as indústrias bélicas.

e-agora-aonde-vamos_04Há momentos ternos que dói na alma. Em ser desumano não poder chorar a perda de um ente querido. Alguém que ousava sair daquelas cercanias para trazer um pouco de modernidade para os moradores locais. Mas no geral acompanhamos com sorriso no rosto e numa torcida por todas elas. Pois sem tempo hábil para pesar os prós e os contras, a cada virada do destino elas seguiam em frente. Nada as detinha. Será mesmo? Já que o título do filme meio que entrega. Voltando então a reflexão inicial pela busca do caminho para que todos os povos vivam em paz. Esse pequeno microcosmo perdido numa região do Líbano nos traz um.

Performances excelente. Fotografia ímpar. Trilha Sonora como um grande coadjuvante. Mais um filme que coloca Nadine Labaki entre os grandes Diretores. Um filme para ver e rever. Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

E Agora, Aonde Vamos? (Et Maintenant on Va Où?. 2011). Líbano. Diretora: Nadine Labaki. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 110 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos.

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A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes. 2011)

Fui ver “A Fonte das Mulheres” embalada pela expectativa de assistir a uma comédia, no entanto,  é  um filme com momentos de humor e que bom, a abordagem no estilo de fábula agregado ao humor permite que se apreenda a história da comodidade e do machismo humano sem revolta, liberando  nossa capacidade de observação.

 SOCIEDADE                                                                                                                                             A verdade de que a injustiça só é realmente injusta quando nos atinge. O tabu da obrigatoriedade da mulher satisfazer o homem, ainda que ela não tenha orgasmo. A mudança nos papéis sociais que chegam  em caráter de emergência e tornam-se tradições com o respaldo daqueles que passam a se beneficiar. A história leva o nosso olhar para a importância da educação num contexto onde a manutenção da ignorância  de uma parte do povo passa a ser o interesse pela parte dominante, sem que necessariamente  os dominadores deixem de ser ignorantes criando um sistema de  exploração institucionalizada do ser humano, um ciclo que somente a coragem aliada ao preparo,  ao estudo é capaz de romper.

HISTÓRIA

Então os homens iam às guerras para defender suas famílias, plantações e territórios e  as mulheres assumiram as funções das suas casas e aprenderam a viver sozinhas, executando trabalhos árduos.  Chega o dia em que não há mais inimigos para se combater e os homens cuidam das suas plantações e comércio, até que chega uma seca que se estende por anos, excluindo essas atividades masculinas da suas listas de tarefas, que são substituídas pelo ócio, fofoca, preguiça corrupção e suas necessidades de satisfação sexual.
Para se ter água na aldeia as mulheres sobem a uma distante fonte no alto de uma montanha, sob um sol de mata. Mesmo as grávidas são obrigadas a esta tarefa ainda que pesada, o que causa acidentes levando a ocorrência constante de abortos e claro, às mulheres que não conseguem ter seus filhos é atribuída a fama de incompetentes.  Por tantos afazeres importantes no grupo, é vedado às mulheres o direito de aprender a ler e escrever, elas nessa vida embrutecida com rotina dura, vão por acaso ter tempo de pensar nisso?
Além das atividades de rotina ainda compete a elas divertirem com seus cantos e danças os turistas que trazem divisas para sua cidade, divisas essas consumidas pela corrupção dos governantes que não cuidam da infra-estrutura das cidades para que o progresso não chegue, num raciocínio simples é explicado que tendo luz elétrica a mulher irá querer uma máquina de lavar, o que  acarretará uma conta alta par ao marido pagar e dará a ela tempo livre. Com o tempo livre, a mulher há de querer estudar se instruir e assim não será mais dócil e obediente. Simples assim. Algo de outro mundo? Não. 
FÁBULA:
Leila é estrangeira casada por amor com um professor e tem uma sogra digna das bruxas dos contos de fadas, perde um bebê por causa de um tombo a caminho da fonte e precisa conviver com a felicidade de outra mulher que acaba de dar à luz um filho homem. Diante de tanta opressão e trabalheira, restam a essas mulheres o único poder que lhes resta, o sexo e partem para uma greve de amor. E é de amor que nos fala esse filme, o amor, único instrumento capaz de mudar tradições  impostas justamente por  falta dele. Também fala do quanto mulheres podem ser insensíveis às parceiras de infortúnio, do tabu da virgindade, dos casamentos tratados pelas famílias, das interpretações convenientes dos dogmas religiosos, da influência das autoridades religiosas nas vidas das pessoas e na administração do Estado. Da ausência do poder de decisão das mulheres nas questões intrinsicamente femininas.
O FILME Rodado no Marrocos, representando uma aldeia  num ponto remoto do  Oriente Médio, é inspirado numa história real acontecida na Turquia em 2001 e faz alusão à peça “Lisístrata”, de Aristófanes  que por sua vez inspirou Chico Buarque e Augusto Boal a compor a canção  “Mulheres de Atenas”.
Tem um elenco que mistura rostos de atores conhecidos com atores que não conhecemos,  falado em árabe fortalece a carga de drama e empresta textura às piadas nos Sá a sensação de que tudo isso foi há muito tempo, muito tempo num lugar muito distante de nós…
A Fonte das Mulheres vendeu meio milhão de ingressos na França em apenas um mês e foi indicado à Palma de Ouro no último Festival de Cannes, tudo dentro  da trajetória  de sucessos  do diretor, judeu romeno Radu Mihaileanu: “O concerto” (2009) e  “Trem da vida” (1998). É um filme com uma fotografia linda, belezas exóticas, uma trilha sonora usada como recurso a se admirar uma cultura da qual nos mostra aspectos críticos e performances excelentes. Ficha técnica:
A Fonte das Mulheres (La Source des Femmes) – 135 min
Bélgica, Itália, França – 2011
Direção: Radu Mihaileanu
Roteiro: Alain-Michel Blanc 
Elenco: Leila Bekhti, Hafsia Herzi, Biyouna, Saleh Bakri, Sabrina Ouazani, Hiam Abbass, Mohamed Majd
Estreia: 20 de janeiro 

O Apedrejamento de Soraya M. ( The Stoning of Soraya M.) 2008

O Apedrejamento de Soraya M.” narra a história angustiante de uma mulher condenada à morte depois de ser acusada pelo marido por ser infiel. Soraya, na verdade, era regularmente abusada, insultada e espancada pelo marido, que queria se casar com outra mulher, 19 anos mais jovem. O filme é baseado no livro do jornalista Friedoune Sahebjam, que vale a pena ser lido antes ou depois do filme.

O livro de Sahebjam é Testimonio — de narrativa de teor coletivo, isto é, o autor descrever o drama de Saraya a partir do ele ouviu de Zahra (tia da vitima), vivida no filme, pela atriz iraniana Shohreh Aghdashloo. Zahra fala de Soraya, e sobre Soraya, assim como representa a cultura da sua comunidade, mas será que tudo escrito por Sahebjam, é autêntico?. Tanto no livro quanto no filme de Cyrus Nowrasteh, Zahra é vista sobre um ponto de vista político, isto é, ela fala e representa todas as mulheres  abusadas moral, fisica, e psicologicamente, sendo elas muçulmanas ou não. Ao representar Soraya, Sahra não abandona a sua responsabilidade contra a injustiça que a sua sobrinha foi vitima, pois segundo os fatos, Soraya era inocente.

Dividido pela crítica, “O Apedrejamento de Soraya M.” foi pouco visto nos cinemas, mas é acima da média. O elenco é muito bom,  destacando rostos conhecidos como o de Aghdashloo, e James Caviezel, que faz o jornalista Freidoune Sahebjam. Além disso o filme tem um lindo trabalho de fotografia assinado por Joel Ransom e, John Debney escreveu uma emocionante trilha sonora. Mas a força do filme, está  no seu tema: “crimes de honra,” embora para muitos seja sobre o papel dos extremista islâmicos, e o papel na mulher.

Foi difícil para eu assistir esse filme. Diria que por ser baseado numa história verdadeira, o diretor Cyrus Nowrasteh exagerou na crueldade, que muito me fez lembrar da violência que Mel Gibson usou e abusou em “Paixão de Cristo”(2004)— não por acaso, ambos os filmes foram produzidos por Steve McEveety. Quase não consegui dormir depois das cenas mostrando Soraya ser parcialmente enterrada viva, e brutalmente apedrejada até a morte por uma multidão de homens, que incluiu seu próprio pai, marido e dois de seus filhos. Depois, me perguntei o porque um filme como este, com 20 minutos de violência que retrata a morte lenta de uma mulher “real” não é considerado tão violento? Os retratos de atos brutais de violência baseados em casos reais me vem como uma verdadeira catarse— quando o filme terminou, me senti purificado por causa da descarga emocional que essa história me provocou, e ao mesmo tempo com um vontade de gritar, de expressar a minha revolta.

Vamos a trama: Ali, o marido abusivo, pede ao mulá (nome dado ao líder da mesquita, mas também é como o prefeito da comunidade) a convencer Soraya a lhe conceder o divórcio. Ela se recusa. Em seguida, o mulá propõe que Soraya se torne amante de Ali, em troca de proteção e apoio financeiro para cuidar dos filhos. Em meio termo, após a morte súbita da esposa de um vizinho, o mulá pede a Soraya para trabalhar na casa do viúvo. E, assim, Ali articula algo para se livrar da esposa: acusando-a de dormir com o vizinho. Entre chantagem e mentiras, o destino de Soraya foi traçado.

Tem uma cena de “tribunal”, onde os homens da lei, baseado no sharia—  a lei sagrada do Islã—,  decidem o destino de Soraya: Ser condenada a morte por apedrejamento. É perturbador vê como os radicais islâmico subvertem o Alcorão para justificar assassinatos tortuosos, pois em nenhum lugar no livro sagrado do Islã, é mencionado o apedrejamento como uma punição. É sabido que poligamia  é parte da cultura islâmico, por exemplo:

E se tu ficares apreensivo por não seres capaz de fazer justiça aos órfãos, podes se casar com duas ou três ou quatro mulheres da tua escolha. Mas compreendes que talvez não sejas capaz de fazer justiça a elas, então se case apenas com uma mulher…” (Sura 04:03, minha tradução)

O Alcorão ensina que o homem dever ser responsável pelas suas mulheres, mas a destaca que haja a desigualdade de sentimentos, então o homem  não é obrigado a ter 4 esposas. Allah fortemente proíbe o sexo fora do casamento, afirmando que os crentes não deve cometer adultério ou fornicação (17:32, minha tradução). A maioria dos muçulmanos acreditam que o Sharia estabelece as revelações divinas encontradas no Alcorão, e nos exemplos dados pelo profeta Maomé. Mas a lei do Sharia diverge quanto ao que exatamente ela implica. Os modernistas, os tradicionalistas e fundamentalistas todos têm opiniões diferentes do Sharia, indo além do que está no Alcorão.

A partir do topo a esquerda: a lapidação iraniano real, o apedrejamento na Somália. Embaixo à esquerda: a lapidação na Somália, o apedrejamento do Oriente Médio. Centro: a verdadeira Soraya Manutchehri aos 9 anos de idade.

No Código Penal iraniano, uma mulher casada não tem direito ao divórcio, que é um privilégio reservado para o marido. As mulheres não têm direito da guarda dos filhos após sete anos de idade, como resultado, as mulheres podem obter o divórcio se provar que seus maridos sejam abusivos ou viciados, mas optam a não se separar, temendo a perda de seus filhos. Um homem pode casar com até quatro esposas ao mesmo tempo, e pode estabelecer um relacionamento sexual com outra mulher por meio de um único casamento temporário sem as exigências de registro de casamento. Assim, se um homem está sexualmente insatisfeito, e num relacionamento infeliz, ele tem muitos caminhos abertos para dissolver o casamento.

É inaceitável que alguém seja condenado a ser apedrejado até a morte, mas é ainda mais inaceitável que este castigo seja dispensado às mulheres. E, mesmo se Soyaria tivesse sido infiel ao marido, seria justo apedrejá-la?  O filme ainda  assim seria cruel. Não se justifica a crueldade das leis do sharia.  Triste que a poligamia, ou o adultério clandestino em outras religiões e civilizações, ainda reduzem a mulher a uma posição subalterna, sendo violentadas e mortas pelos nojentos “crime de honra.”

Se você é como eu, que sofre com filmes que retratam o sofrimento humano, especialmente aquelas baseados em uma história verdadeira, vejam “O Apedrejamento de Soraya M” e aproveite para assistir esse vídeo no youtube com Mozhan Marnò, e o diretor Cyrus Nowrasteh: 

Nota: 7

“O Apedrejamento de Soraya M.” ( The Stoning of Soraya M.) 2008. Alemanha / Inglaterra. Direção Cyrus Nowrasteh; Roteiro: Betsy Giffen Nowrasteh ; Elenco: Shohreh Aghdashloo ( Zahra), Mozhan Marno( Soraya), James Caviezel ( F. Sahebjam), Ali Pourtash ( Mula). Gênero: Drama. Duração: 116 minutos.