O Homem Duplicado (Enemy. 2013)

o-homem-duplicado_posterPor Marcos Vieira.
O caos é ordem ainda indecifrada.” É com essa frase que tem início o quebra-cabeça narrativo de O Homem Duplicado. Nele, o professor de história Adam (Jake Gyllenhaal), que vive em um instável relacionamento com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), descobre que existe um homem idêntico à ele. Esse duplo é o aspirante à ator Anthony (Jake Gyllenhaal, é claro), que tem seus próprios problemas com sua grávida e desconfiada esposa Helen (Sarah Gordon). O filme trata então dos conflitos que surgem quando Adam descobre a existência de Anthony e quando os dois homens se encontram. Enquanto Adam é tímido e retraído, Anthony é impulsivo e agressivo, e o filme se desenrola a partir do efeito que a revelação da existência do outro tem sobre cada um deles.

o-homem-duplicado_01Mais do que um simples suceder de acontecimentos, a narrativa é montada de forma a colocar o espectador dentro do pesadelo que essas personagens estão vivendo, incluindo aí a namorada e a esposa. Mesmo em cenas que poderiam ser simples, como quando Adam pesquisa sobre a vida de seu duplo na Internet, uma iluminação sombria e uma trilha sonora tensa e impactante constroem um clima de suspense psicológico angustiante. Cortes bruscos e intensos nos momentos de maior desespero das personagens contribuem para esse clima. Além disso, todo o filme é permeado de uma simbologia a priori indecifrável, sendo a principal delas a presença de uma enorme tarântula em alguns momentos. É a presença dessa aranha e de algumas cenas desconexas envolvendo ela e/ou algumas das personagens que dá o tom extremamente surreal da coisa toda. “O Homem Duplicado” é daqueles filmes que deixa o espectador em suspense em relação não apenas ao que vai acontecer, mas também ao que está acontecendo.

o-homem-duplicado_02E o que está acontecendo é o maior enigma desse filme. Você pode acompanhar perfeitamente a sequência de acontecimentos, mas o segredo está em saber o que eles significam. A situação dos dois homens é absurda e nenhuma explicação lógica é oferecida pela história. Em determinado momento, o filme simplesmente acaba, e fica para o espectador a tarefa de tentar prover uma explicação lógica para o que ele acabou de ver. Isso deixa espaço para as mais loucas teorias e infinitas discussões, a exemplo do cult Donnie Darko, também estrelado por Jake Gyllenhaal (coincidência?).

Esse é um filme que vai te deixar com vontade de discutir as possibilidades e ler várias teorias na Internet. Não é por acidente que só estou escrevendo sobre ele uma semana depois de assistí-lo. É isso o que acontece quando um roteiro livremente baseado em uma obra homônima de Jose Saramago. E O Homem Duplicado é dirigido pelo já genial Denis Villeneuve, de Incêndios.

Se não fiz uma análise mais profunda da história nos parágrafos anteriores, foi para evitar a revelação de detalhes que podem estragar um pouco a experiência de quem ainda não assistiu. Porém, não posso deixar de compartilhar com vocês algumas das explicações nas quais pensei. E é por isso que…

Os parágrafos a seguir contém SPOILERS:

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são…[Continua aqui.] Voltando

Essas são apenas algumas das explicações possíveis e não é possível afirmar que nenhuma delas é a correta sem sombra de dúvidas, e essa é a beleza da coisa. Antes de escrever esse texto, eu acreditava que essa última hipótese era a mais aceitável, mas durante a escrita da primeira hipótese que apresentei aqui, passei a crer que ela é a que deixa menos pontas soltas. Quantas vezes ainda iremos mudar de versão?

Anúncios

Contra o Tempo (Source Code. 2011)

Uau! Foi o que exclamei quase no finalzinho de “Contra o Tempo“. Pela estória em si, já ficamos conhecendo durante o desenrolar do filme. A perplexidade, e de tirar o fôlego, ficou em cima do que ousaram fazer. Um Robocop da era virtual. Abrindo espaço para o que é ético daquilo que fazem uso no mundo militar. Até que ponto um soldado, e sem esquecer de que ele é uma pessoa, pertence aos seus superiores? Mas pela trama em si, logo em seguida, veio um “E por que não?

Por mais estranho que possa parecer uma grande parte das invenções estão voltadas para as guerras. E desde os primórdios das civilizações. Atualmente, esse percentual não mudou muito. Talvez tenha se minimizado por forças de um vazamento para além das cercanias desses laboratórios militares. Com a sociedade tomando conhecimento do que estão fazendo. O que até pode vir como um alento que não irão muito fundo em novas armas de guerras. Agora, no mundo da ficção não há limites nessas criações. Em transformar um quase soldado anônimo numa máquina bem especial a serviço da nação. Realidade ou ficção, seguem a máxima de que os fins justificam os meios.

O Thriller é excelente! O que leva a um cuidado maior em não deixar spoilers ao contar um pouco da estória do filme.

Mesmo sem lhe perguntar se aceitaria ou não tal missão, o herói desse filme já se viu no circo armado. Ele é o personagem de Jake Gyllenhaal: o capitão Colter Stevens. Ele acorda dentro de um trem num corpo que não é dele, nem muito menos tem o mesmo nome. A jovem a sua frente parece conhecer o cara do corpo. O que ninguém sabe é que Stevens tem apenas 8 minutos para identificar o terrorista que colocou uma bomba nesse trem de passageiros, que vitimou milhares de pessoas.

É, Stevens é levado a um passado recente. Essa volta a um momento antes de um grande atentado é ainda algo experimental, denominado: Código Fonte (Source Code). O sucesso de sua missão é o que esperam para a aprovação nos escalões superiores. Na base, e diretamente ligada a ele, fica a oficial Colleen (Vera Farmiga). É quem fará a ponte entre ele e o que é ético num experimento dessa magnitude.

Falar mais, corre-se o risco de estragar a surpresa. Mas deixo a sugestão de que aproveitem cada trecho desse filme. Deixem que só o personagem é quem está correndo contra o tempo. Pois é um filme de querer rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Contra o Tempo (Source Code. 2011). EUA. Direção: Duncan Jones. +Elenco. Gênero: Ação, Mistério, Sci-Fi, Thriller. Duração: 93 minutos.

Entre Irmãos (Brothers. 2009). Se nem os dedos da mão são iguais…

Entre Irmãos nos leva a algumas reflexões. Embora trechos dele remete a outros filmes, num todo, ele ganhou uma estória única: a relação entre dois irmãos. Num momento da vida deles. Como canalizaram os ressentimentos guardados com os acontecimentos presente. Mais! Será que o amor constrói, ou destrói a vida de um homem? E o desamor, que consequências futuras trará? Já adiantando que mesmo sendo um bom filme, não me deixou uma vontade de rever.

A relação entre esses dois irmãos – Sam (Tobey Maguire) e Tommy (Jake Gyllenhaal) -, não é transparente. Embora se gostem, não há intimidades, entre eles. Como se vivessem em lugares distantes. Há um tipo de competição entre eles. Inconscientemente. Traçando um paralelo com a realidade… Que como toda relação entre irmãos, essa competição começa na primeira infância. Como também, com o passar dos anos ela se intensifica. Mais! Em vez de acabarem com ela, é alimentada pelos próprios pais. Por conta das comparações entre seus filhos. Será que não entende que cada um é um ser único?

Como se quebra um ciclo vicioso desses? De imediato: seria se dando conta de que tem algo errado consigo próprio, e que não tem como resolver sozinho. Do contrário, poderá chegar num momento que irá explodir. Mais que arcar com as consequências, não deve é transferir para outros, esse seu erro.

O Mito Caim e Abel não se encaixa nessa história. Já que Sam sempre recebeu muito amor do pai, Hank (Sam Shepard). Era tido como o filho exemplar. Se ele fez o que fez, fora levado… talvez por uma superproteção. Sam pelo seu temperamento meio introvertido, pelo peso em ser um bom filho, tenha preferido seguir a carreira militar para sentir-se sobre controle. Nem era porque o pai também fora um militar. Sentia-se muito mais em casa no Quartel, do que em sua própria casa. Mas uma coisa era estar aquartelado, em plena segurança. Outra coisa era estar num campo de batalha. Ai, se vive e como se comete atos desprezíveis.

Guerras! As insanidades, as atrocidades… cometidas e avalisadas por ela. Onde não há códigos de ética, já que atendem aquele que se sente soberano. Ou, as potencias que lucram fomentando as guerras. Por trás delas, uma indústria maior: a bélica. Embora fato real como o com o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, até por não respeitarem a Bandeira da ONU, os Estados Unidos pecaram em invadir o Iraque. Como também em “convencer” até as crianças de seu país, que estavam indo combater o povo mau. A ONU também, nessa Guerra, se preocupava mais com os combustíveis, do que com a população inocente… A estória desse filme, é um desdobramento dessa invasão. No Afeganistão.

“Na guerra, o único heroísmo é sobreviver“. (Samuel Fuller)

Em outras palavras: melhor ser um covarde vivo, do que um herói morto. Agora, é um “vale tudo” mesmo para se manter vivo? Sam mostrou que não estava preparado para esse “poder de matar”. Mas alguém em sã consciência estaria? Mais! Será que faríamos o mesmo que ele? E o que faríamos depois?

Bem, Sam transferiu sua culpa em quem não tinha nada com isso. Por conta disso, é que se eu fosse definir esse filme numa única palavra, ela seria transferência. Mas já dizendo aos da área psico, que aqui eu não sei se teria o mesmo significado do que tem para vocês. Porque esse transferir seria em arrumar um outro pretexto onde culpar alguém por algo, com isso fugindo do seu problema. Não é fuga, mas um descarregar. Sam, por exemplo, não fez aquilo que cobrou do irmão…

Agora ele, seu irmão Tommy. A ovelha desgarrada… Tommy, mais expansivo, ou seria mais explosivo? Um rebelde com causa… Está saindo da prisão, às vésperas de Sam embarcar para o Afeganistão. Como está em condicional, sabe que terá que se comportar. Pagando pelo seu erro. Mas faltava ainda se libertar de outras prisões… Fiquei pensando se alguém mais extrovertido, ou com propensão a ser assim, se levaria mais chances de uma volta por cima.

Sam é dado como morto. Recebeu enterro como Herói de Guerra. Tommy, primeiro se rebela com essa notícia. O amava. Mas sabendo também que ganharia mais um estigma se não se endireita-se de vez. O estigma seria: ‘Por que ele morreu, e não eu?’ Para a Família ele nada valia. Assim, resolve ajudar a cunhada, Grace (Natalie Portman) cuidar das suas sobrinhas: Isabelle (Bailee Madison) e Maggie (Taylor Geare). Carismático, Tommy acaba conquistando as três. Por tabela, uma aproximação do pai.

Ao voltar para a casa… com um pesado fardo… Sam percebe que sua casa ganhou vida com a sua “morte”. Que sua Família estava feliz com o novo Tommy. Mas quem de fato mudara? Sam ou Tommy? Mesmo tendo vivido num inferno, Sam teria o direito de descarregar naqueles que o amavam tanto? Quem mostrou-se mais apto a resolver a questão? Tommy, ao longo da vida, viu, viveu, as mazelas do ser humano. Sam e Hank, só viram, viveram esse lado sombrio da humanidade, nas Guerras.

Sobre os atores… O homem-aranha cresceu! Brincadeirinha! É que ainda está vivo na memória esse personagem de Tobey Maguire. Ele até que atuou direitinho nesse aqui. Mas queria o seu Sam mais arrebatador. De fazer dele um quase vilão, quando fez o que fez. Jake Gyllenhaal sim, esse quase rouba o filme. Só não fez, porque a trama do filme se destaca mais. É uma estória “patrocinada” pela cultura de guerrear com a desculpa de combater o mal. Como a não enxergar que, diante de um desafio, quais valores sobressairão. Em relação aos outros atores, uns, também atuaram direitinho.

Como falei no início, é um bom filme. Vale ser visto mais pela estória desses dois irmãos. A Trilha Sonora está ótima! Mas o filme por um todo não me deixou saudades.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre Irmãos (Brothers). 2009. EUA. Direção: Jim Sheridan. +Cast. Gênero: Drama, Guerra, Thriller. Duração: 105 minutos.

P.s(17/03/10): Faltou contar que o ciclo dessa Família iria continuar. Na cena do aniversário da caçula, a filha mais velha mostrou-se ser igual ao pai. Para sua felicidade pessoal, não se intimidaria em mentir, humilhar, magoar, ferir… quem quer que fosse.

A Emoção Reprimida em O Segredo de Brokeback Mountain (2005)

Neste texto busca-se analisar o filme ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a partir da reflexão do ‘lugar’ da emoção tanto na ciência como na sociedade. Sabendo-se tratar de um tema fundamental para o indivíduo que é obscurecido pela vida social, a emoção passa a ser uma das temáticas mais recorrentes na Arte – como no cinema. Ela (Arte) expõe e desenvolve temas importantes, e inconvenientes, sem a obrigatoriedade de ampliação de questionamento e busca de solução – já que o que é exposto pode ou não ser tomado para si, podendo-se pensar na Arte como importante instrumento dessa significação no mundo.

Porém, especialmente no cinema, é na própria maneira de se apresentar ao espectador que a obra impacta emocionalmente e mostra sua força comunicativa. Em ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a emoção é trabalhada e tratada de maneira refinada. Trata-se basicamente de um filme de amor – romance como convém à classificação do cinema – porém a dificuldade da própria sociedade em absorver um romance homossexual o faz ser classificado como drama – talvez o grande drama esteja na própria constatação desse amor pelo público e na obrigatoriedade em aceitar aquilo que ali é posto.

Essa questão poderia, inclusive, ser alvo de maiores investigações, já que a emoção é construção (ou constitutivo) social e, neste caso, o medo existente em lidar com determinadas emoções pode ser relevante para a compreensão de quais emoções são valorizadas para o homem do nosso tempo.

Este romance expõe a história de amor entre dois típicos cowboys do interior dos Estados Unidos. A tomada inicial do filme nos apresenta uma paisagem erma e desoladora, tamanha a potência natural e a pequenez do homem e de sua ocupação. Todas as imagens causam um grande impacto na ‘subjetividade’ do espectador, atingindo suas necessidades cognitivas (de leitura de imagem) e provocando suas emoções.

As paisagens naturais são recorrentes durante todo o filme, estão presentes como cenário dos momentos românticos ou de conflito do casal central, já que seus encontros são sempre escondidos entre as montanhas de Brokeback. Esse cenário tornasse incrivelmente versátil, o que inicialmente nos provoca uma leitura de solidão total, ao longo do desenvolvimento da história passa a nos provocar emoções variadas como aconchego, paz, esperança, como se fosse o único local no mundo a possibilitar a realização de necessidades fundamentais à existência, onde se pode ser o que é – assim como aos protagonistas.

Após a primeira tomada que nos torna pequenos diante do que está por vir, os protagonistas (Jack e Ennis) se encontram em uma procura por serviço, ambos se olham disfarçadamente, mas não se cumprimentam. Somente na saída, após o empregador (Aguirre) confirmar o trabalho para ambos cuidando de um rebanho de ovelhas em Brokeback Mountain, Jack toma iniciativa e se apresenta a Ennis que, sem muita energia, diz seu nome e retribui o aperto de mão.

Podemos observar já na vestimenta e na postura dos dois cowboys diferenças relevantes, Jack tem uma aparência mais sofisticada, combinando suas roupas e procurando reforçar um estilo de peão de rodeio, cheio de iniciativa e élan se expressa com maior desenvoltura. Ennis é mais simples no seu vestir, humilde e tímido mantém seu olhar sempre baixo e não toma iniciativa.

Pensemos então no corpo como vitrine da identidade, confunde e carrega o sujeito de preconceitos e conceitos de si mesmo. Sendo o corpo e a alma partes indistintas de mesma matéria é no corpo que estarão materializados as emoções do sujeito.

Portanto, as diferenças (entre eles) que aparece ao longo de todo o filme, como características de personalidade influenciarão na sua maneira de lidar com os sentimentos e com as situações apresentadas pela vida. É em Brokeback Mountain, durante a execução do trabalho que os dois passam a se conhecer. Após uma grande emoção de medo e de perda, imposta por um urso, Ennis recusa violentamente os cuidados de Jack, mas passa a falar mais sobre si.

Outro momento marcante é quando resolvem mudar de posto, pois um sempre tinha que passar a noite no alto das montanhas junto às ovelhas enquanto o outro permanecia no pé da montanha cuidando do acampamento e da alimentação, e Ennis passa a noite sozinho. O isolamento faz Ennis tomar uma postura mais falante ao retornar; Jack até exclama que ele nunca havia falado tanto, Ennis responde: “Falei mais agora do que em todo o último ano.”. O carinho, admiração, consideração de um pelo outro já atingira grandes proporções, sempre havendo, de ambas as partes, uma certa ansiedade pelo encontro.

Naquela noite Ennis não volta para o alto da Montanha, apesar do frio insiste em ficar fora da barraca de Jack, este acorda durante a noite e ouve os gemidos de frio do companheiro, o chama para dentro, este vem correndo cai no colchonete e dorme. Jack acorda novamente durante a noite, pega a mão de Ennis e tenta masturbar-se. Ennis se afasta violentamente, Jack tenta fazer carinhos no rosto de Ennis, colando seus rostos e permanecendo assim. Com respirações ofegantes e se contendo em emoção pura, Jack tira sua calça e Ennis o vira de costas, eles transam violentamente, essa cena lembra mais uma luta – a luta interna de Ennis frente a emoção que se escancarava naquela situação.

No dia seguinte, Ennis olha ao redor, sai da barraca e monta em seu cavalo, não se dirige a Jack, ninguém saberá o que houve entre eles. Mas, ele viu, ouviu e sentiu, tem a certeza de que nunca mais será o mesmo. O seu julgamento interno e possível julgamento social é maravilhosamente representada por Ang Lee: Ennis sobe até a Montanha e encontra uma ovelha morta, dilacerada, com suas víceras reviradas, é assim que Ennis se sente?

Jack está olhando a paisagem, Ennis chega e senta em sua frente, não se encaram, o único comentário a ser feito: não são “veados”, e o que ocorreu só foi vivido ali e permanecerá ali em Brokeback Mountain.

A partir desse momento os dois se permitem viver o grande amor de suas vidas apenas naquele cenário. Os momentos que seriam os mais valiosos e verdadeiros de sua existência se passam ali, por 20 anos. Ambos constroem famílias, Ennis casa-se com Alma (como planejava antes de encontrar com Jack) uma mulher carinhosa, tímida, ‘caipira’, simples e com sonhos pequenos. Jack casa-se com Lureen, uma mulher forte, poderosa e cheia de iniciativa.

É interessante perceber como esses homens encontram mulheres que representam tão bem a sua própria personalidade, elas são seus alteregos mais perfeitos. Quando aparecem em sua vida cotidiana de homens casados, trabalhadores estão sempre infelizes, sozinhos – mesmo quando cercados de pessoas. Sempre aparecendo em ambientes fechados a solidão dos protagonistas é mais evidente e a pequenez de sua existência se faz mais clara do que na imensidão da montanha.

Desde o início Jack propõe a Ennis uma vida feliz em um rancho na montanha, porém o medo e a repressão social em Ennis são tão fortes que ele não vê esta vida como possível. Tornando a sua vida e a de Jack uma eterna espera por Brokeback Mountain. Os encontros são sempre curtos e inesquecíveis por sua potência.

Acreditando na ideia de que o bom é relativo ao sujeito – já que está ligado ao que é desejado e capaz de aumentar nossa potência de ação –, o único julgamento que caberia à sociedade é o do aproveitamento da potência de ser (ou do ser) e não o julgamento moral baseado em valores menores ligados ao medo do desconhecido e do diferente que atinja o conhecimento religioso vigente. Mas, no filme, é o medo do julgamento social que paralisa Ennis e o impede de ser e fazer feliz, sendo neste caso um mau sentimento, pois diminui a atuação do indivíduo e gera tristeza.

A questão central de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, que serve como questionamento até aos mais conservadores, é a dificuldade em expressar a emoção. Essa é uma questão essencial e, até agora, sem resposta já que a manifestação emocional é uma construção social e, em cada cultura, a possibilidade expressiva é diferente. Parte daqui, então, uma abertura para reflexões independentemente da compreensão e identificação com a história do filme. Ou seja, esta história não se finda com o aparecimento dos créditos finais.

Por: Carol Marola.

Donnie Darko (2001) – Uma Análise

donnie-darko

Introdução

Donnie Darko não é apenas mais um filme. É uma daqueles películas que ficará por anos em sua mente, que possibilita uma série de discussões entre pessoas que analisaram a história. Inúmeras conclusões são possíveis. De certo, temos aqui mais uma pérola da sétima arte.

O que faz de Donnie Darko tão diferente do que já foi realizado para o cinema? Simplesmente não estamos diante do convencional. Ao contrário, temos algo único em mãos. Donnie Darko é uma espécie de jogo intelectual semelhante ao quebra-cabeças. Diversas peças são apresentadas e resta a quem está do outro lado da tela decifrar os enigmas que compõe o enredo.

Era de se esperar que logo após o lançamento do filme, tão logo ele despertaria a curiosidade do público cult. O que observamos foi um fenômeno interessante: uma série de debates entre inúmeros fóruns na internet para tentar explicar os acontecimentos no decorrer da história. O próprio diretor – Richard Kelly – lançou uma versão em DVD onde tenta explicar algumas coisas e dar novas dicas para os aficionados. No site oficial de Donnie Darko, temos alguns jogos que, teoricamente, resolvem alguns mistérios. Ademais, existem outros diversos sites especializados na tentativa de explicar o filme. Há poucos anos foi lançado um livro em 2003 e até mesmo uma FAQ (com diversas perguntas e respostas) para uma melhor compreensão.

Fora todos estes mistérios que envolvem a construção da história, Donnie Darko é uma bela crítica à sociedade-padrão, além de ser uma excelente metáfora do movimento existencialista.

São nestes dois pontos que iremos trabalhar a análise do filme. Diferentemente de outras obras que eu comentei, sugiro que antes de continuar a leitura você assista o filme, pois a experiência que você terá durante a exibição certamente será comprometida, visto que existem muitas possibilidades de compreensão e a idéia é justamente que você tire suas próprias conclusões para então debater, investigar, questionar e formular suas próprias teorias.

Dado o recado, quem ainda não assistiu e não quer saber a trama, que não leia os posts seguintes onde iremos tentar desvendar a vida de Donnie Darko a partir da perspectiva existencialista. Por termos em mãos um grande objeto de estudo, iremos quebrar este trabalho em diversas partes para não tornar a leitura cansativa. Vale recordar que este filme não permite uma única análise – o próprio ponto-de-vista do diretor é somente mais uma opinião acerca de sua criação e não pode ser considerada a única.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte II: A Preparação do Terreno: Existencialismo e Fenomenologia.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte III: A Família Perfeita.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte IV: Einstein e Alice no País das Maravilhas.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte V: Significação da Vida.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte VI: Olhar de Foucault: Instituições de Ensino e a Domesticação do Sujeito.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte VII: A aula com a perturbada professora Karen Pomeroy.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte VIII: O medo de enfrentar a vida.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte IX: O seu poder de mudar as coisas.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte X: Eles me obrigaram a fazer isto.

Ver Donnie Darko – Uma Análise: Parte XI: Smurfs, Complexo de Édipo e Desejos Sexuais.

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

Donnie Darko. 2001. EUA. Direção e Roteiro: Richard Kelly. Elenco: Jake Gyllenhaal (Donnie Darko), Holmes Osborne (Eddie Darko), Maggie Gyllenhaal (Elizabeth Darko), Daveigh Chase (Samantha Darko), Mary McDonnell (Rose Darko), James Duval (Frank), Arthur Taxier (Dr. Fisher), Patrick Swayze (Jim Cunningham), David St. James (Bob Garland), Jazzie Mahannah (Joanie James), Jolene Purdy (Cherita Chen), Stuart Stone (Ronald Fisher), Jena Malone (Gretchen Ross), David Moreland (Diretor Cole), Noah Wyle (Prof. Kenneth Monnitoff), Drew Barrymore (Karen Pomeroy), Katharine Ross (Dra. Lilian Thurman). Gênero: Drama, Sci-Fi, Suspense. Duração: 113 minutos.

O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain)

brokeback-mountain-05Uma pena já sabermos do que se trata o filme, antes de assisti-lo. Tira a surpresa e influencia na avaliação. Mesmo não lendo absolutamente nada a respeito, eu sabia. São dois homens. Década de sessenta. Uma paixão tórrida. Um local mágico. E vinte anos de suas vidas medíocres com intervalos de paz e compreensão.

Uma história gay? Nunca! Um conto de amor? Nem tanto… Um panorama de duas décadas, com seus costumes, roupas? Um pouco. O perfil de uma sociedade machista, egoísta e por que não, até infantil? Sim, muito disso. Mas o que vejo é o cerne da existência humana. O amor idílico, na natureza, versus a vida comum dos meros mortais. Essa de colocar dois homens juntos foi para acender a curiosidade e atrair o público. A história em si, é universal.

Cuidando de ovelhas, passando frio, fome e raiva. Um veadinho percebe dentro da introspecção e total solidão do outro, um parceiro sexual numa noite gélida e escura. Porém a coisa não fica ali. Para surpresa de ambos, há o apaixonamento. São dias de intenso prazer e companheirismo. Qualquer homem gostaria de ficar semanas com seu amigão, só batendo papo, comendo, tomando umas, e vendo os bichos. Mas essa de levar atrás é duro… porém às vezes acontece.

brokeback-mountain-03

Separados até geograficamente, o Wyoming é longe do Texas, eles tocam suas vidas. Casam-se com quem podem. O primeiro com uma mulher tosca como ele, de poucas palavras, de cara fechada que nem abre a boca direito para falar. O segundo com uma menina rica, dominadora e bonita. Até que passados quatro anos se reencontram. E, para nova constatação, com uma eletricidade violenta.

Não conseguem nem esconder a ânsia de estarem juntos. Primeira avaliação é bem sintomática. Enquanto o bruto ama aquele que deu a ele os únicos momentos de conforto emocional e carinho, o outro deseja compor uma família, com ele. O Enis é machista, trata mal a mulher e ignora as filhas. O Jack é alheio e submisso em sua vida de genro-de-merda. Ambos “outsiders”.

brokeback-mountain2

A diferença básica está que Enis ama o Jack e não aparenta sentir atração por nenhum outro macho. Já Jack se envolve. Não resiste ficar muito tempo sem uma vara… Mas quando estão juntos, são sinceros e honestos consigo mesmos e com o outro. O problema é que a vida não é uma montanha isolada.

O tempo passa e o nó não desata. O filme –único erro pro mim detectado- começa a se arrastar. Cenas dispensáveis, tais como a do jantar de Ação de Graças, ou os fogos de artifício. Ou até mesmo alguns encontros de ambos. Poderia ser mais curto. Entretanto julgo que o diretor tenha imprimido esse ritmo mais lento, nos obrigando a reflexões.

Neste instante perscruto a sala de projeção e os rostos da platéia. A maioria das mulheres está emocionada e vivamente interessada. Os homens hetero –sim há muitos casais homo no cinema- sentem certo desconforto. E os homossexuais masculinos são bem analíticos e relaxados. São os únicos que riem em determinadas cenas.

O final é arrasador. Pungente. Um deles jamais poderá reencontrar o outro. A família acolhe o parceiro e suas lembranças. Ambas as esposas carregam a mágoa e a nódoa de terem sido apenas receptáculo de filhos e de frustrações. Cada atriz é soberba. Gosto da mãe do Jack. Quase todo homo tem uma mãe muito bacana e amorosa. Fica a pergunta: a vida é feita de momentos na montanha ou se passa com contas a pagar, família, responsabilidades e um profundo, bem fundo mesmo, vazio?

O que há de bom: a composição do complexo e sofrido Ennis Del Mar, excelente atuação de Heath Ledger (se não levar o Oscar, é injusto)
O que há de ruim: a sociedade só verá os caras e não o sentimento que os une
O que prestar atenção: o Ennis não envelhece direito… erro de maquiagem?
A cena do filme: o final, uma foto da Brokeback em contraste com o quadrado da vida lá fora

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Por:  Giovanni Cobretti – COBRA.   Blog:  C.O.B.R.A.

O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain). 2005. EUA. Direção: Ang Lee. Elenco: Jake Gyllenhaal (Jack Twist), Heath Ledger (Ennie Del Mar), Michelle Williams (Alma Beers Del Mar), Anne Hathaway (Lureen Newsome Twist), Randy Quaid (Joe Aguirre), Linda Cardellini (Cassie Cartwright), Anna Faris (LaShawn Malone). Gênero: Drama, Romance, Western. Duração: 134 minutos. Baseado em história de Annie Proulx.