O Substituto (Detachment. 2011)

o-substituto_2011Por: Francisco Bandeira.
E eu nunca me senti tão imerso em uma pessoa ao mesmo tempo em que estou tão desapegado de mim mesmo e tão presente no mundo.” (Albert Camus)

Tony-Kaye_CineastaMas Tony Kaye escancara que os problemas da sociedade hoje são ligados diretamente a criação dos jovens e a um mal que vem tomando conta do mundo: A SOLIDÃO. Sim, essa que nos afeta, que nos faz guardar nossos segredos, ao ponto de virarmos uma verdadeira bomba relógio prestes a explodir. É a solidão que nos deprime que nos enfraquece e que nos coloca o medo e nos tira sentimentos preciosos como amizade e compaixão.

E o que falar da loucura deste mundo de hoje? Que abraçar uma pessoa pode te colocar como suspeito de um crime grave, porém matar a sangue frio um animal é algo que parece rotineiro em nosso cotidiano. Que mundo é esse que o desapego parece ser hereditário? Que mundo é esse onde os pais estão mais despreparados que os filhos? Que não sabem decifrá-los, que não sabem orientá-los para o melhor caminho. Que mundo é esse, onde as pessoas que querem fazer algo para mudar parecem perder a esperança ao ponto de escolherem tirar suas próprias vidas de tão exaustos que estão delas mesmas?

o-substituto-2011_adrien-bodryO Substituto‘ poderia soar cansativo pelo teor extremamente cru e pessimista, porém neste aspecto a montagem é brilhante por dar um ritmo agradável ao longa e usando flashbacks de forma inteligente durante o filme. A fotografia do próprio Kaye é interessante, alternando cores fortes, preto e branco, usando as sombras quando Adrien Brody aparece sozinho, fazendo meio que um depoimento e embaçando o rosto do protagonista de forma curiosa durante a projeção. Seu trabalho de direção é preciso, empregando um tom quase documental a obra, aumentando ainda mais o impacto de algumas cenas. O roteiro é o ponto forte do filme, com questionamentos fortes, inteligentes e conduzidos com maestria. Reparem no tom pessimista através dos monólogos de Barthes, como se tivesse perdido a esperança nos jovens e, especialmente, em sua família, mostrando que não resta muita coisa aos professores que operam verdadeiros milagres em sala de aula.

O elenco está fabuloso, repleto de nomes conhecidos como Lucy Liu, James Caan, Blythe Danner e Marcia Gay Harden brilhando em cena. A surpresa fica por conta da estreante Sami Gayle, que consegue pegar uma personagem meio batida e inserir uma enorme complexidade nela, graças a coragem em sua composição. Ainda tem Louis Zorich espetacular como o avô do protagonista, em um homem que sofre de Mal de Alzheimer e pensa sinceramente que sua vida não merece ser lembrada, afinal, nem ele se lembra dela mesmo. Mas o grande destaque fica pela atuação visceral de Adrien Brody. O ator vive Barthes de forma intensa, oferecendo um dos melhores (senão o melhor) desempenhos de sua carreira. E o interessante em seu desempenho vem de sua postura com os ombros curvados, do olhar cabisbaixo, devastado, da mudança em seu tom de voz, a fúria contida explodindo de dentro pra fora. Suas lágrimas, que soam verdadeiras, assim como a profunda melancolia estampada em seu rosto, em suas lembranças e na desesperança presenciada em seu dia-a-dia, mostrando todo peso que aquele homem carrega mesmo tendo como regra a INSENSIBILIDADE.

o-substituto-2011_01Bullying, suicídio, assédio, abuso, prostituição infantil, desigualdade social, sistema de ensino público e hospitais com pessoas desinteressadas e desmoralizadas regendo algo de fundamental importância. Todos esses problemas são tratados com extrema atenção por Kaye, que dá a cara para bater, nunca fugindo dos questionamentos levantados durante a fita, que permeiam este vigésimo primeiro século de vida. O filme não é uma crítica direta a “Geração Y” como muitos apontam, mas sim aos pais destes jovens de hoje. “Deve haver um currículo para ser um pai“, fala Barthe durante o longa. Nas reuniões das escolas, onde a pergunta que ecoa pelos corredores escuros e vazios são “onde estão os pais dessas crianças?“, em um tom quase desesperador. É o desapego passando quase que de forma hereditária, sendo refletida em manchetes de primeira página dos jornais, mas que ninguém parece ligar para isso.

Sim, os pais precisam de pré-requisitos, pois o comportamento dos filhos é de grande parte influenciada por seus genitores, por aqueles que nos criam e que são nossos exemplos diários. Onde estão aqueles que se importam com seus descendentes? O que vemos é o inverso, são os que têm suas crias como verdadeiros fardos, que vão à escola brigar com os professores por ter que ficar em casa cuidando de “seu rebanho”. Cadê os sentimentos básicos como amor, amizade, respeito, cumplicidade e compreensão? Será que tudo está perdido? Em qual universo a depressão é tratada como uma mera bobagem? Em que lugar você discriminar alguém é engraçado? De que maneira desmoralizar as pessoas pode ser um estímulo para que a mesma possa tentar melhorar suas deficiências? Desde quando você tentar ajudar as pessoas é um delito? É revoltante pensar que tantas questões possam ser levantadas durante 97 minutos, e ainda serem tratadas de maneira tão banal pela sociedade. Será que todos precisam de um Henry Barthes? Porque não podemos simplesmente ser um Henry Barthes? A verdade machuca, mas aqui, é necessária… Necessária não, é obrigatória para acordarmos e começarmos a fazer nossa parte, antes que o desapego tome conta e nos faça querer desistir do amanhã.

Por Francisco Bandeira.
Avaliação: 8.5

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Louca Obsessão (Misery. 1990)

É incrível como os filmes baseados nas histórias de Stephen King que não são do seu gênero mais conhecido, o horror, são de uma qualidade impressionante. Temos vários exemplos, como “A Espera de Um Milagre”, “O Aprendiz”, “Um Sonho de Liberdade”, “Eclipse Total” e “Louca Obsessão” – todos excelentes e sem precisar valer-se de criaturas ou demônios da escuridão.

Os dois últimos desta lista foram interpretados pela magnifica Kathy Bates, sendo que neste último sua interpretação foi tão suprema que lhe valeu o Oscar de melhor atriz, além de um Globo de Ouro. Também não é para menos: o que Bates faz em “Louca Obsessão” é semelhante ao que Jack Nicholson faz em “O Iluminado” – uma aula de variações de expressões que traduzem perfeitamente o sentimento da personagem, que varia da tranquilidade para a insanidade em questão de poucos segundos.

A história não tem nada de mais: um escritor famoso por uma série de livros envolvendo uma personagem chamada Misery deseja escrever o último episódio. Ao se retirar com o manuscrito, acaba por se envolver em um acidente de carro num local distante.

Annie Wilkes, uma moradora das redondezas, socorre o escritor, que está bem debilitado, e passa a cuidar dele. Quando acorda, ele se encontra na cara de Wilkes, que se apresenta como enfermeira e fã número de sua personagem Misery. Devido à tempestade de neve que está caindo, ela fica impossibilitada de leva-lo para o hospital, então resolve trata-lo ali mesmo.

Tudo parecem flores para o escritor, que até então vinha sendo muitíssimo bem tratado até que Wilkes lhe faz um respeitoso pedido: que pudesse ler o manuscrito de Misery. Como forma de gratidão, o escritor consente sem nem imaginar os problemas que isto iria lhe trazer.

Logo nos primeiros capítulos, Wilkes fica possessa com o vocabulário chulo de Misery, porém quando ela descobre que a protagonista morre no final do livro é que a mulher se converte numa figura pior que o próprio diabo: tem início o terror psicológico e a tortura física que irá impor ao seu convidado.

Com momentos extremamente tensos e aterrorizantes, provenientes de situações inesperadas, “Louca Obsessão” tem um resultado muito acima da média do gênero, fruto dos diálogos bem construídos somados com as interpretações magistrais de Bates e de James Caan. Outro filme imperdível que não pode ficar de fora.

Crueldade e Hipocrisia: Uma Visão Analítica Sobre “DOGVILLE”

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Aviso: O texto a seguir contém spoilers. Se ainda não viu esse filme, e queira não perder as surpresas, já que se trata de um thriller, seria melhor deixar para ler após assistir.

Por: Eduardo S. de Carvalho.
Dogville” é mais do que uma fábula anti-americana. Ao criticar a hipocrisia típica do povo norte-americano, o diretor dinamarquês Lars von Trier desmascara a crueldade existente em todo e qualquer ser humano. Se em “Dançando no Escuro”, seu filme anterior, von Trier se vale dos conceitos freudianos de princípio de prazer e princípio de realidade para mostrar uma vida real insuportável para sua protagonista – e que é engolida por esta realidade –, “Dogville” é ainda mais massacrante. Seus únicos elementos que remetem à fantasia são os ruídos de portas inexistentes se abrindo, um cão que late mas que não está lá.  A secura minimalista do cenário é ainda maior do que em muitas montagens teatrais, o que nos aproxima ainda mais de uma estranha impressão: isto não é entretenimento. Parece muito uma sessão de terapia em grupo – sinto que o cinema se presta muito bem a isto, cada vez mais –, onde vemos nossas próprias mazelas estampadas na tela.

dogville-mapaA protagonista, Grace, surge como vítima, assim como a Selma de “Dançando no Escuro”. O nome da personagem, “Graça”, pode soar com um tom católico, mas não tenho a menor noção das convicções religiosas do diretor. O fato é que, depois de todo o tipo de humilhação a que é submetida ao longo da fita, Grace torna-se tão cruel quanto seus algozes. Não poupa nenhum ser humano, nem mesmo uma criança, uma vez que é uma criança que deflagra toda a crueldade dos habitantes. Violência gera violência; isto é e sempre será natural no ser humano. Isto é que torna Grace mais humana e retira a cruz  (= coleira ?) de mártir religiosa que carregou durante toda a projeção do filme.

Enquanto hipócrita, o maior personagem da fita parece ser Tom. Sua psicologia remete ao sujeito que utiliza a intelectualidade para fugir de suas emoções, desconhecendo a si mesmo (vocês conhecem alguém assim?). Sutilmente, ele vai manipulando as reações dos habitantes da cidadezinha a seu bel prazer, sempre com a máscara da ética e da virtude. Quando Grace faz Tom enxergar a si mesmo, ele decide quebrar o espelho. Não quer ver desmoronar a persona que construiu para si, e revolta-se contra Grace. Esta última ação acende o pavio da cólera da protagonista, que decide destruir Tom pessoalmente.

Ao final, é singular a idéia de Grace em poupar a vida do cão. O animal é o único ser que não renega seus instintos, e torna-se ameaçador apenas quando ameaçado. “Ele rosnou para mim quando quis roubar seu osso”, ela diz. A violência animal difere completamente da violência humana; ele torna-se agressivo quando tem sua sobrevivência ameaçada, e nós, muitas vezes, por fraqueza, vaidade e capricho descabidos.

Fica em mim uma impressão: por vezes, a civilização é civilizada demais.

DOGVILLE. 2003. Dinamarca. Direção e Roteiro: Lars Von Trier. Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan, Patricia Clarkson, Ben Gazzara, Phillip Baker Hall, John Hurt (Narrador – voz). Gênero: Drama, Thriller. Duração: 177 minutos.