Isolados (Long Weekend. 2008)

Diz um ditado que o mundo é pequeno e cheio de coincidências. De fato, e sou testemunha de duas ótimas do mundo cinematográfico tão irresistível que não comentar aqui seria maldade.

Cultivo um carinho especial pelo ator Jim Caviezel, e admiro os trabalhos do diretor Terrence Malick, duas figuras da sétima arte que recentemente me surpreenderam. Malick está nas telonas com seu maravilhoso “Árvore da Vida”, e Caviezel foi manchete dos jornais nesta semana, numa crítica relevantemente maldosa sob o título “Da Paixão à ressurreição pela via da TV”, diz que “Crucificado como o Jesus ensanguentado de Mel Gibson em “A Paixão de Cristo” o ator James Caviezel encara estréia do seriado “Person of interest”, novo projeto da grife J.J. Abrams (“LOST”), que tem escolhido mal seus projetos, que sua carreia está sucateada, e o ator que assinava Jim Caviezel desde a sua estréia , nos anos 1990, desistiu até de seu apelido, passando agora a usar profissionalmente seu nome de batismo James Caviezel.

“– A grande responsabilidade de um artista em relação à televisão é que, a cada novo episódio de uma série, você consegue se relacionar não apenas com o seu público de cinema, mas com os milhões de espectadores que não frequentam as salas exibidoras” disse Caviezel.

O primeiro filme com o ator Jim Caviezel que eu assisti foi o de guerra “Além da Linha Vermelha” dirigido pelo ótimo Terrence Frederick Malick, (que bela coincidência novamente!) (do mais novo e badalado trabalho que falei acima, “Árvore da Vida”) – no qual Caviezel interpretava um soldado americano enviado para substituir um pelotão já muito cansado, e lá ele conheceu um terror que nem imaginava, tendo uma atuação impecável deixando uma ótima impressão, e foi a partir daí que passei a admirá-lo pelo seu talento e brilhantismo, super metódico e completamente à vontade, buscando através da expressividade bastante convincente do seu olhar encontrar o do espectador… Como acontece… Às vezes se olha e não se vê, ou se vê e não se enxerga. Quando assisti a “A Paixão de Cristo” dirigido por Mel Gibson com Jim Caviezel interpretando o Filho de Deus, a minha certeza do excelente ator definitivamente se confirmou. Naquele instante pensei comigo que esse ator poderia até se aposentar, que não precisaria de nenhum outro trabalho para provar o quão bom profissional ele é. Mas Caviezel é jovem tem muita história pela frente para interpretar e dar esse prazer aos seus fãs por longa data ainda, nos divertindo e nos fazendo ir ao filme por sua causa, não acha? A vida segue e… de repente me deparei com ele que, para mim, andava sumido, em DVD em uma prateleira de locadora trazendo o próprio como protagonista de um filme, digamos, não tão grandioso como o que o consagrou, mas que vale a pena conferir.

Isolados (Long Weekend) é o título contando a história de um jovem casal que decide acampar em uma praia paradisíaca – a terra que o mundo esqueceu – a fim de tentar salvar seu casamento e aproveitar um feriado prolongado e também para surfar. O cachorro que não deveria ir, acaba sendo descoberto escondido no bagageiro para a alegria de Peter e indignação de Karla.

Vão de carro e combinaram com um casal de amigos para se encontrarem lá. Acontece que acabam se perdendo, e param em um posto à beira de estrada e pedem informações, em vão, não conseguem ajuda, e mesmo assim encontram um ótimo lugar para acampar e percebem que não estão sós: uma família teve a mesma idéia.

Nota-se que desde o início há algo de estranho no ar; coisas incomuns começam a acontecer. O casal é do tipo que não está nem aí aos bons hábitos e atitudes; bons costumes junto à sociedade, principalmente nesses tempos em que se ouve muito falar na questão ambiental, em cuidar, preservar, plantar parece não fazer parte do vocabulário dele. Essa preocupação inexiste.

O que era para dar certo, acabar sendo uma tragédia anunciada. Já ouviu gente gorando que a natureza é vingativa? O que o homem faz de errado a ela recebe de volta? Mas essa bizarrice é pura fantasia desmitificando que nem sempre Vox populi, vox Dei, simplesmente porque a natureza não faz mais que seguir o seu curso… o rio correndo em direção ao mar, os pássaros procuram os céus, os animais a mata, e as sementes a terra. No decorrer dos dias, coisas misteriosas começam a acontecer com Peter e Karla.

Na estrada, Peter, da janela do seu carro, lança seu toco de cigarro que acaba provocando um incêndio na floresta; ao chegar ao paraíso perdido, sem motivo algum, sem necessidade, ele começa a derrubar uma árvore; Karla encontra um ovo de águia e o quebra propositalmente. E a partir daí coisas muito bizarras começam a perturbá-los e os aterrorizar.

A impressão que fica ao espectador é que a natureza entende que está sendo destratada e dá o troco. Há outro ditado que diz que aqui se faz aqui se paga…

O filme é basicamente a desconstrução psicológica de ambos. Como sair dali? Procuram pela válvula de escape em vão… e a natureza ou a mão de algum ambientalista tentando reverter a situação não deixando que destruam ainda mais o maravilhoso cenário que a bela fotografia nos brinda: mar, montanha, mata, animais, céu… parece que só o homem está sobrando ali e ele não é bem-vindo.

O filme não é nenhuma obra de arte, mas vale a pena conferir pela instigante história e como forma de conscientização na tentativa de ouvir o que a natureza tem para nos dizer levantando sua bandeira branca como forma de alerta aos de boa vontade e desavisados como que gritando sem agonizar para se defender “- E aí, esqueceu a educação em casa?” São alguns pequenos detalhes que deixamos escapar entre os dedos…

Para quem é fã de Jim Caviezel, vale conferir!

Karenina Rostov

 *

Sinopse: Um jovem casal decide acampar em uma praia isolada durante um feriado prolongado como uma última tentativa para tentar salvar seu casamento. Peter (James Caviezel) e Karla (Claudia Karvan) pensando apenas neles mesmos não se preocupam em preservar o local, fogueira, churrascos, serra elétrica e até uma espingarda fazem parte da diversão. Vale tudo nesse feriado. Agora, esse casal vai enfrentar a fúria da natureza e conhecer o seu lado mais sombrio.

ISOLADOS
Título original: Long Weekend
Duração: 88 minutos (1 hora e 28 minutos)
Gênero: Drama / Terror
Direção: Jamie Blanks
Ano: 2008
País de origem: AUSTRÁLIA

Anúncios

O Apedrejamento de Soraya M. ( The Stoning of Soraya M.) 2008

O Apedrejamento de Soraya M.” narra a história angustiante de uma mulher condenada à morte depois de ser acusada pelo marido por ser infiel. Soraya, na verdade, era regularmente abusada, insultada e espancada pelo marido, que queria se casar com outra mulher, 19 anos mais jovem. O filme é baseado no livro do jornalista Friedoune Sahebjam, que vale a pena ser lido antes ou depois do filme.

O livro de Sahebjam é Testimonio — de narrativa de teor coletivo, isto é, o autor descrever o drama de Saraya a partir do ele ouviu de Zahra (tia da vitima), vivida no filme, pela atriz iraniana Shohreh Aghdashloo. Zahra fala de Soraya, e sobre Soraya, assim como representa a cultura da sua comunidade, mas será que tudo escrito por Sahebjam, é autêntico?. Tanto no livro quanto no filme de Cyrus Nowrasteh, Zahra é vista sobre um ponto de vista político, isto é, ela fala e representa todas as mulheres  abusadas moral, fisica, e psicologicamente, sendo elas muçulmanas ou não. Ao representar Soraya, Sahra não abandona a sua responsabilidade contra a injustiça que a sua sobrinha foi vitima, pois segundo os fatos, Soraya era inocente.

Dividido pela crítica, “O Apedrejamento de Soraya M.” foi pouco visto nos cinemas, mas é acima da média. O elenco é muito bom,  destacando rostos conhecidos como o de Aghdashloo, e James Caviezel, que faz o jornalista Freidoune Sahebjam. Além disso o filme tem um lindo trabalho de fotografia assinado por Joel Ransom e, John Debney escreveu uma emocionante trilha sonora. Mas a força do filme, está  no seu tema: “crimes de honra,” embora para muitos seja sobre o papel dos extremista islâmicos, e o papel na mulher.

Foi difícil para eu assistir esse filme. Diria que por ser baseado numa história verdadeira, o diretor Cyrus Nowrasteh exagerou na crueldade, que muito me fez lembrar da violência que Mel Gibson usou e abusou em “Paixão de Cristo”(2004)— não por acaso, ambos os filmes foram produzidos por Steve McEveety. Quase não consegui dormir depois das cenas mostrando Soraya ser parcialmente enterrada viva, e brutalmente apedrejada até a morte por uma multidão de homens, que incluiu seu próprio pai, marido e dois de seus filhos. Depois, me perguntei o porque um filme como este, com 20 minutos de violência que retrata a morte lenta de uma mulher “real” não é considerado tão violento? Os retratos de atos brutais de violência baseados em casos reais me vem como uma verdadeira catarse— quando o filme terminou, me senti purificado por causa da descarga emocional que essa história me provocou, e ao mesmo tempo com um vontade de gritar, de expressar a minha revolta.

Vamos a trama: Ali, o marido abusivo, pede ao mulá (nome dado ao líder da mesquita, mas também é como o prefeito da comunidade) a convencer Soraya a lhe conceder o divórcio. Ela se recusa. Em seguida, o mulá propõe que Soraya se torne amante de Ali, em troca de proteção e apoio financeiro para cuidar dos filhos. Em meio termo, após a morte súbita da esposa de um vizinho, o mulá pede a Soraya para trabalhar na casa do viúvo. E, assim, Ali articula algo para se livrar da esposa: acusando-a de dormir com o vizinho. Entre chantagem e mentiras, o destino de Soraya foi traçado.

Tem uma cena de “tribunal”, onde os homens da lei, baseado no sharia—  a lei sagrada do Islã—,  decidem o destino de Soraya: Ser condenada a morte por apedrejamento. É perturbador vê como os radicais islâmico subvertem o Alcorão para justificar assassinatos tortuosos, pois em nenhum lugar no livro sagrado do Islã, é mencionado o apedrejamento como uma punição. É sabido que poligamia  é parte da cultura islâmico, por exemplo:

E se tu ficares apreensivo por não seres capaz de fazer justiça aos órfãos, podes se casar com duas ou três ou quatro mulheres da tua escolha. Mas compreendes que talvez não sejas capaz de fazer justiça a elas, então se case apenas com uma mulher…” (Sura 04:03, minha tradução)

O Alcorão ensina que o homem dever ser responsável pelas suas mulheres, mas a destaca que haja a desigualdade de sentimentos, então o homem  não é obrigado a ter 4 esposas. Allah fortemente proíbe o sexo fora do casamento, afirmando que os crentes não deve cometer adultério ou fornicação (17:32, minha tradução). A maioria dos muçulmanos acreditam que o Sharia estabelece as revelações divinas encontradas no Alcorão, e nos exemplos dados pelo profeta Maomé. Mas a lei do Sharia diverge quanto ao que exatamente ela implica. Os modernistas, os tradicionalistas e fundamentalistas todos têm opiniões diferentes do Sharia, indo além do que está no Alcorão.

A partir do topo a esquerda: a lapidação iraniano real, o apedrejamento na Somália. Embaixo à esquerda: a lapidação na Somália, o apedrejamento do Oriente Médio. Centro: a verdadeira Soraya Manutchehri aos 9 anos de idade.

No Código Penal iraniano, uma mulher casada não tem direito ao divórcio, que é um privilégio reservado para o marido. As mulheres não têm direito da guarda dos filhos após sete anos de idade, como resultado, as mulheres podem obter o divórcio se provar que seus maridos sejam abusivos ou viciados, mas optam a não se separar, temendo a perda de seus filhos. Um homem pode casar com até quatro esposas ao mesmo tempo, e pode estabelecer um relacionamento sexual com outra mulher por meio de um único casamento temporário sem as exigências de registro de casamento. Assim, se um homem está sexualmente insatisfeito, e num relacionamento infeliz, ele tem muitos caminhos abertos para dissolver o casamento.

É inaceitável que alguém seja condenado a ser apedrejado até a morte, mas é ainda mais inaceitável que este castigo seja dispensado às mulheres. E, mesmo se Soyaria tivesse sido infiel ao marido, seria justo apedrejá-la?  O filme ainda  assim seria cruel. Não se justifica a crueldade das leis do sharia.  Triste que a poligamia, ou o adultério clandestino em outras religiões e civilizações, ainda reduzem a mulher a uma posição subalterna, sendo violentadas e mortas pelos nojentos “crime de honra.”

Se você é como eu, que sofre com filmes que retratam o sofrimento humano, especialmente aquelas baseados em uma história verdadeira, vejam “O Apedrejamento de Soraya M” e aproveite para assistir esse vídeo no youtube com Mozhan Marnò, e o diretor Cyrus Nowrasteh: 

Nota: 7

“O Apedrejamento de Soraya M.” ( The Stoning of Soraya M.) 2008. Alemanha / Inglaterra. Direção Cyrus Nowrasteh; Roteiro: Betsy Giffen Nowrasteh ; Elenco: Shohreh Aghdashloo ( Zahra), Mozhan Marno( Soraya), James Caviezel ( F. Sahebjam), Ali Pourtash ( Mula). Gênero: Drama. Duração: 116 minutos.

Sacrifício e Redenção em ‘A Paixão de Cristo’

passion-of-the-christPor: Eduardo S. de Carvalho.

Quando “A Paixão de Cristo” estreou nos EUA, ouvimos muito sobre o grau de violência da fita. No maior país católico do mundo, isso seria uma propaganda negativa. Ao estrear o filme em terras brasileiras, instaurou-se a mesma polêmica, levando porém milhares de pessoas às salas de cinema e perguntando-se: por quê tanta violência no filme?

O catolicismo exacerbado de Mel Gibson levou-o a uma visão muito particular sobre a questão do sacrifício enquanto caminho para a redenção. Em seu filme “Coração Valente”, o protagonista William Wallace, também vivido por Gibson, sofre uma violência similar, digna de Jesus. Wallace chega a ser esticado pelos braços por cordas, adotando a posição de um crucificado. Não é de estranhar, portanto, que Gibson tenha filmado as últimas horas de Jesus com tal intensidade. Sua obra anterior dava as pistas deste projeto.

Passada a polêmica inicial, podemos pensar em tudo o que causou-a. Por menos religiosa que uma pessoa diga ser, a formação moral na maioria das famílias brasileiras passa pela educação cristã, seja católica ou protestante, em suas várias ramificações. A figura de Jesus está impregnada no imaginário coletivo. Por isso, discutiu-se muito sobre religião e muito pouco sobre as qualidades do filme em si. Ouviu-se muitas vezes a frase “Não vi e não gostei”. Um terapeuta ligado a cinema chegou a dizê-la, o que mostra a força de valores religiosos em um profissional que deveria, no mínimo, ter uma visão mais abrangente e imparcial sobre o tema.

passion-of-the-christ-01O que nos leva a tal identificação extrema, seja ela positiva – “Vou conferir se a violência é tão grande assim” – ou negativa – a já citada “Não vi e não gostei”? Uma certa fixação pela crucificação aponta para um recalcado sentimento masoquista, onde o sofrimento alheio exerce um atrativo a quem assiste. Pouco falou-se em relação à sutil e belíssima cena final do filme, quando da ressurreição de Jesus; a celeuma girou toda em torno da violência e da morte do Cristo.

O conceito freudiano de pulsão de morte, representada aqui pela crença neste sacrifício que salva e redime, instaura-se, assim, na origem da formação de nosso psiquismo durante a apreensão dos primeiros valores morais e religiosos. Um ponto a ser discutido e revisto na educação infantil, cujas conseqüências não podemos medir.

A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ). 2004. EUA. Direção e Roteiro: Mel Gibson.  Elenco: James Caviezel, Maia Morgenstern, Monica Bellucci, Hristo Jivkov, Hristo Shopov, Rosalinda Celentano. Gênero: Drama. Duração: 126 minutos.