BIUTIFUL (Biutiful. 2010)

Por: Giovanni Cobretti – COBRA.
Um diretor que acerta em todos os filmes que já participou, deve ser respeitado. Sua característica maior de fragmentação de locações e histórias de outras empreitadas, agora se inverte. Ele torna-se único e uno. Uma cidade, Barcelona. Um ator principal, Javier Bardem. Um tema, a morte. Uma câmera, granulada. Um sentimento, a inevitabilidade – da vida. E a inquietude – da platéia.

Fala de despedida, rapaz na neve, Bardem e ele conversam em primeiro plano, ambos fumam. Apresentam uma certa nostalgia e familiaridade entre si. Cena inicial. Corta. Uxbal (Bardem) está com hematúria, consulta médica, revela seu passado de drogadicto. Close monumental no rosto do ator, que é embrutecido, traços grosseiros, barba por fazer, homem feio à primeira vista, mas sua masculinidade e conjunto; agradam.

Sua vida é coalhada de tragédias, pequenas e grandes. Seu irmão vivo é um idiota que precisa se afirmar (vide seus relacionamentos e profissão) como homem. Pais estão mortos. Filhos em idade escolar, no ensino fundamental em Barcelona. Não aquela da praia, das Ramblas, mas da Ciutat Vella, de Barri del Raval. Eles, apesar de tudo vão à escola todos os dias, fazem tarefa e comem nos horários certos. A mãe? Paciente psiquiátrica, medicada, mas não controlada. Carente e agressiva. Sorridente e triste. Magra e forte. Um poço de contradições, assim como Uxbal.

Ele é médium. Ouve os mortos. E o filme gira em torno dela, a morte. No seu inefável círculo. Ele ganha dinheiro com isso. Também agencia estrangeiros para trabalhar em condições subumanas. Os senegaleses, que ficam na rua vendendo bugigangas que ninguém quer e os chineses, que as fabricam em regime de semi-escravidão.

Um subtexto forte, pois eles também têm famílias, sonhos, dificuldades imensuráveis de sobrevivência, além da óbvia barreira da língua e racial. Uxbal se preocupa com eles, mas não deixa de ser culpado pelos infortúnios que ocorrem. E são muitos, e são graves.

Sua doença é terminal. Mas o diretor não alisa, as coisas pioram para ele. Onde ficarão meus filhos? E com quem? Não há redenção e nem saídas. A câmera que se movimenta mais do que o normal contribuindo para isso. Além das passagens de cena serem marcadas por mariposas no teto, por lagartixas, por um ambiente sempre degradado e degradante. Como se o tempo todo o filme estivesse suando, nervoso, abafado, tenso. Isso incomoda deveras.

O fim está chegando. Não há um momento de conforto, de cenas claras, de grandes externas, apesar de Barcelona ser linda, assim como toda a Catalunha. O círculo se fecha. Quase um réquiem. Os poucos e breves momentos foram quando ele tentou unir a família, que um dia existiu. As outras famílias apresentadas são todas quebradas, dissociadas, perecíveis, um aspecto de finitude e fragilidade. Não há felicidade, talvez paz. Talvez.

O que há de bom: habilidade de conduzir uma história rica e complexa e nos afetar
O que há de ruim: nenhuma esperança
O que prestar atenção: repare bem no personagem que está pregado no teto, ao final
A cena do filme: ele, a filha, o anel, e o pai

Cotação: filme ótimo(@@@@)

COBRA

BIUTIFUL.(Biutiful. 2010). EUA. Diretor e Roteiro: Alejandro González Iñárritu. Elenco: Javier Bardem, Blanca Portillo, Maricel Álvarez, Rubén Ochandiano. Gênero: Drama.Duração: 147 minutos.

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COMER REZAR AMAR (2010). Um Mergulho no Universo Feminino.

_Sabe quando reformou a cozinha, comprou um livro de receitas, e disse que iria aprender a cozinhar? Pois bem! Isso é o mesmo que ir meditar na Índia. Só que em cultura diferente.” (*)

Deixo um convite a Todos, não importando o sexo, e quase para todas as faixas etárias – para os adolescentes também. Que vão assistir esse filme – “Comer, Rezar, Amar“. Para que conheçam, entendam, sintam o que é ser mulher. Porque nele não é mostrado apenas a cabeça da personagem principal, mas de muitas. Desde a cabeça de uma menina aos quatro anos de idade, até de mais idosas. Aos homens, fica um convite especial. Verão qual é o limite que leva a uma mulher a dar um basta numa relação. Mesmo ainda sentindo amor por ele.

Assim, após assistirem, o convite é para uma troca de impressões. O porque disso? É que a partir daqui, o texto terá spoiler. Hesitei um pouco se traria ou não, mas senti uma vontade intensa em destacar vários trechos desse filme. O que ficaria complicado sem contar os detalhes.

Não li o livro, mas fiquei com vontade de ler. Como também, de ter o dvd. Até porque nele há várias falas que eu gostei. Clichês ou não, elas traduzem uma cabeça comum: livre de um certo pedantismo advindos de muitos estudos. Mas também sempre gostei de colecionar Citações, que para mim segue junto na composição de um texto. Gosto tanto, que até abri uma comunidade no Orkut de Frases de Filmes. Em “Comer, Rezar, Amar“, essas frases, a maioria delas, são como peças de um quebra-cabeça para se chegar a mente feminina. São várias reflexões que na montagem final temos o universo singular e particular de cada uma delas. E porque não, de cada uma de nós.

A fala com que iniciei o artigo, a escolhi, primeiro por mostrar um dos propósitos da protagonista, depois pela sapiência contida nela. Pela Liz (Julia Roberts), surgiu nela uma busca espiritual. Pela frase como um todo, em mostrar que essa busca não depende muito do lugar, mas sim da ferramenta usada. Mais até, em desligar a mente da questão maior fazendo outra coisa até fora da rotina diária. O que me lembrou de uma frase que ouvi num filme (Layer Cake): “Meditar é concentrar parte da mente numa tarefa mundana para que o restante encontre a paz.“ Também por mostrar que cada pessoa agirá de um jeito próprio, quando se dispõe a se conhecer por inteiro. Alguns levarão anos, outros, o farão num tempo menor. Outros nem terão esse desejo, e nem por isso serão infelizes. O que a estória mostrará, é um encontro com a religiosidade.

Ter um filho é como fazer uma tatuagem na cara. Você precisa realmente ter certeza de que é isso que você quer antes de se comprometer.”

A Liz encontra-se às vésperas de completar trinta anos de idade. Que seria uma data marcada para uma mudança radical em sua vida. Algo decidido num passado recente, por ela e o então marido, Stephen (Billy Crudup). Talvez uma promessa feita no calor da paixão. Haviam decidido que ela sossegaria, teriam filhos, que se dedicaria mais ao lar. Tudo já planejado. Num processo depressivo, em vez de remédios, decide rezar. Pedir a Deus que lhe mostre um caminho. E é quando se houve: se sua mente estava conturbada, seu corpo, cansado fisicamente, clamava por uma boa noite de sono.

Acontece que Liz não se via como mãe. Não ainda. Diferente de sua grande amiga Delia (Viola Davis). É Delia quem tenta convencê-la a não partir, a não abandonar a casa que ela, Liz, participou ativamente da reforma à decoração, e principalmente a não se separar de Stephen. Delia sempre quis ser mãe, dai não entendia muito o fato da amiga não querer. O que me fez lembrar de um fórum recente. São escolhas que em nenhum momento denigre uma mulher. Aliás, um dos pontos positivos que esse filme trouxe, é o fato da mulher se libertar daquilo já imposto pela sociedade. Uma liberdade que ainda pesa quando parte da mulher. Um largar tudo e botar o pé na estrada ainda é um território masculino. Assim, quando uma jornada dessa é feito por uma mulher: recebe a minha benção.

As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho: a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo, para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não! Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesma, e depois vão embora.

Liz não entendia ainda o porque do desconforto sentido em seu relacionamento com Stephen. O amava, mas seu interior estava sufocado. Ao se separar, apesar do litígio, se sentia culpada pelo rompimento. Só se libertaria desse peso, em sua passagem pela Índia. Uma cena emocionante, que me levou às lágrimas. É que meus olhos já estavam marejados pela anterior a essa. Quando a vida apresenta que não podemos nem esperar muito de alguém, nem que esse alguém, também espere muito de nós, vem como uma libertação. Para alguém com o pé no mundo, cada dia era de fato um novo dia.

Liz após esse rompimento, conhece David (James Franco). Um jovem ator. Com esse romance, era mais uma tentativa de se encaixar nas tradições. Mas por ser alguém muito Zen, David leva Liz a conhecer um lado religioso. Por ele, indiretamente, lhe vem a vontade de ir a Índia. Conhecer de perto o Templo, e a comunidade da Guru. Mas isso só se concretizou, quando viu que com David também levaria um casamento tradicional. O acorda veio com uma observação de um amigo. Com David, o rompimento em definitivo, vem num email.

Aprenda a lidar com a solidão. Aprenda a conhecer a solidão. Acostume-se a ela, pela primeira vez na sua vida. Bem-vinda à experiência humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoções de outra pessoa como um modo de satisfazer seus próprios anseios não realizados.

Liz se dá conta de que passou grande parte da vida sem um tempo só pra si. Tão logo saia de um relacionamento, entrava em outro. Então resolve fazer a sua jornada. Como era alguém que queria sempre ter controle da sua vida, mesmo querendo fugir de tudo planejado, traçou uma rota. Ficaria um ano longe de família, amigos, carreira, NY… Passaria quatro meses em cada um desses países: Itália, Índia, Indonésia. Ela vê uma curiosidade na escolha dos três: começam com “I”, que em sua língua, é “Eu”. Faria um encontro com ela mesma; com o seu self. Algo que eu adorei nessa sua peregrinação foi o fato de não fazer um caminho solitário. Mesmo indo sozinha, não se isolou do mundo, das pessoas.

Seu período na Itália veio como puro prazer. Quase como o alimentar o corpo. Transgredindo o pecado da gula. Primeiro, ou melhor, a escolha por esse país partiu porque sempre quis aprender a língua italiana. Mas chegando lá, descobriu também o prazer em comer. Ela tinha fome! De comer sem culpa. Comer sem se preocupar em engordar. De comer até se fartar. Afina o seu paladar entre sabores, aromas e saberes.

A cena da Julia Roberts saboreando um espaguete – e do jeito que eu amo: com muito molho de tomates -, ficará na memória. Sabe aquele prato que te leva a esquecer do mundo? Que lhe vem à mente – Não quero que nem Deus me ajude!? A cena em si, nos leva a pensar nisso. E regada ao som de: Der Hölle Rache Kocht In Meinem Herzen.

Mas esse período não ficou só em comilanças, e conhecendo a cultura e o jeito de levar a vida dos italianos. Liz faz uma descoberta de si mesma. A de que há partes da sua personalidade que ficarão para sempre. Que se adaptarão a cada nova realidade que a vida lhe trouxer. O que me levou a pensar nessa frase da Clarice Lispector: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Liz aprenderá a canalizar essas forças dentro de si, nos períodos passados nos outros dois países.

Ainda na Itália, lhe vem o desejo de encontrar a sua palavra: aquela que a definirá. Que será o seu norte. E a palavra vem na Itália, mas só terá consciência dela em Bali. Voltarei a ela mais para o final.

Galopamos pela vida como artistas de circo, equilibrados em dois cavalos que correm lado a lado a toda velocidade – com um pé sobre o cavalo chamado ‘destino’, e o outro sobre o cavalo chamado ‘livre arbítrio’. E a pergunta que você precisa fazer todos os dias é: qual dos cavalos é qual? Com qual cavalo devo parar de me preocupar, porque ele não esta sob meu controle, e qual deles preciso guiar com esforço concentrado.”

Na Índia, antes de chegar ao Templo da Guru, fica assustada com o trânsito local. Numa de se perguntar em como do caos chegam ao equilíbrio zen. Já no Templo, constata que tal como o de NY, não há a presença física da Guru, mas sim um retrato. Depois entenderá que a busca é para dentro de si.

Essa sua passagem pela Índia, nos leva do riso às lágrimas. A diferença cultural, mais que deixá-la em choque, a levará a se por em xeque. Ela quis aprender a se devotar a algo maior. A encontrar a espiritualidade em si.

Duas forças amigas serão o peso em sua balança. De um lado, uma jovem indiana, Tulsi (Rushita Singh) que sonha seguir carreira como Psicóloga. Que gostaria de se rebelar com o seu destino: um casamento arranjado. Tradição familiar e cultural. Liz vai a cerimônia de casamento, e dá um belo presente a jovem. Algo não material. E que também fez com que Liz descobrisse mais de si. Que fazemos parte de uma engrenagem, não somos, não devemos nos ver como peça isolada o tempo todo. Há vários momentos que estaremos em contato com alguém. Então, é saber a arte de uma boa convivência. Mais! Que há vivências que não teremos como escapar. Assim, o melhor a se feito é tirar um proveito da situação.

Do outro lado, estava Richard (Richard Jenkins), o seu James Taylor. Richard ficava levando-a a conhecer seus limites, para então ultrapassá-los. Além do ex-marido, do jovem ator, ele foi mais um personagem masculino a mostrar que não basta só um querer manter a relação a dois. No caso dele, o desrespeito chegou aos extremos: bebidas, drogas, relações extra-conjugais… Ao contar a sua estória, dá um aperto no coração. Principalmente quando pessoas como ele, fazem parte do nosso ciclo, ou familiar, ou de amizade. Certa vez, eu perguntei a uma pessoa se fora preciso mesmo abraçar uma religião, para então dá valor a linda família que possuía, e ele disse que sim.

Liz, Richard e Tulsi foram parar ali por motivos diferentes, mas igual no que buscavam: depurar o passado, se adequarem ao presente, para então seguirem mais confiantes para o futuro. Inconscientemente, um ajudou o outro nessa busca. Dos três, o fardo maior trazido do passado, era o de Richard. Perdera um tempo enorme de não ver o filho crescer, por não o ter colocado antes em sua vida. Voltando ao tema do início. De que maternidade e paternidade tem que querer de fato. Até pela responsabilidade que terá com a criança. E quando Liz consegue perdoar a si própria… minhas lágrimas desceram. Leve. Por me levarem a pensar num momento meu.
Eu quero vê-la dançar novamente“… Livre, era chegada a hora de seguir em frente. Próxima parada: Bali.

Imagine que o universo é uma imensa máquina giratória. Você quer ficar perto do centro da máquina – bem no eixo da roda -, e não nas extremidades, onde os giros são mais violentos, onde você pode se assustar e enlouquecer. O eixo da calma fica no seu coração. É aí que Deus reside dentro de você. Então, pare de procurar respostas no mundo. Simplesmente retorne sempre ao centro, e sempre vai encontrar a paz.”

Da vez anterior, que estivera a trabalho em Bali, Liz conhecera um Xamã: Ketut. Uma figuraça! Então, o procura. Gostei muito mais de Ketut – até pelo seu jeito irreverente de ser -, do que da Guru da Índia. Ketut, mesmo com todo o peso de ser um Xamã, é alguém mais objetivo. Ligado com o que há por vir. Por conta disso, propõe uma troca a Liz: ela transcreveria seus manuscritos – que com a ação do tempo estavam se esfarelando – e ele a ajudaria nesse seu vôo em sua alma. Ah! A companheira de Ketut mostra-se uma mulher de grande sapiência.

Se na Índia, Liz se livrou de bagagens inúteis para seguir em frente, em sua passagem por Bali iria aprender de fato a adequar sua personalidade com tudo mais a sua volta. A ter um equilíbrio, até quando a vida lhe tirasse dele.

Em Bali, Liz conhece uma Doutora da Floresta: alguém que cura pelas plantas. Ela é Wayan (Christine Hakim). Tem uma filha, Tutti (Anakia Lapae). Uma menina que aos 4 anos de idade, dá um sábio conselho à mãe. Que mesmo sendo penoso, até por conta da cultura local, Wayan aceita. As três ficam amigas. E por elas, Liz entende que há mais religiosidade num ato, do que passar horas num templo. Seu ato, faz um resgate a uma vida condigna a essas duas amigas. Mãe e filha não precisariam mais ficarem peregrinando. Ganham de Liz, e de seus amigos, um porto seguro. O mundo carece de atitudes como essa.

Ao longo dessa sua peregrinação, Liz convive com várias mulheres. De culturas diferentes. Algumas, como ela, nadando contra a correnteza, ou pelo menos, tentando. Mas mesmo as que seguem como reza a tradição, não estão infelizes. Esse é um dos pontos altos desse filme. É um verdadeiro ode a alma feminina.

Quando tudo parecia seguir por um caminho certo, Liz se vê literalmente jogada para fora da estrada. Bagunçando o seu equilíbrio novamente. Seria o destino testando-a? O autor dessa proeza seria o homem que Ketut viu nas linhas de sua mão? Aquele com quem teria um longo relacionamento? O que sustentaria essa ligação por anos? É quando entra em cena o personagem de Javier Bardem: Felipe. Alguém que trazia também um peso do passado.

Pausa para falar do ator, ou melhor, do homem: Javier Bardem. Ele está um tesão nesse filme. A maturidade o deixou mais sedutor. Lindo demais! Mesmo eclipsado pela performance da Julia Roberts, eu gostei dos dois juntos. Deu química.

Seu personagem é um brasileiro que adotou Bali como Lar. Tal como Liz, é alguém que ama viajar. O prazer nisso, até por força da profissão. No momento da estória, ele é um Guia Turístico em Bali. Leva Liz a conhecer aromas e sabores da cultura local.

Fazendo ele um brasileiro, fica difícil não comentar duas coisas:
– o filme passa a ideia de que pais brasileiros beijam seus próprios filhos na boca. De que isso é algo cultural. Como eu não li o livro, não sei de onde tiraram isso. Não há esse costume aqui.
– o lance dele dizer muito “Darling!”. Se é como “Querido(a)!”, também o costumeiro por aqui, ganha a conotação de algo superficial. Mas o seu personagem passa a ideia de um tratamento afetuoso, de intimidade com a pessoa.
É o único ponto negativo em todo o filme. Nem a longa duração do filme, me fez perder o brilho nos olhos. Até porque, sendo bem contada, eu gosto de uma longa estória.

Como citei anteriormente, “Comer, Rezar, Amar” traz várias falas reflexivas, e uma delas vem com a palavra que Liz então escolhe para si. Que para mim, é a que melhor traduziria como deveria ser uma relação a dois: attraversiarmo. É, ela a escolheu na língua italiana. Ela faz a ponte para a união de dois seres distintos. Donos de suas particularidades, um não anulará isso no outro. Saberão encontrar o ponto em comum, e respeitando as diferenças. Mas principalmente, respeitando o parceiro, a união, o porto seguro que farão com essa relação.

E é Ketut que leva-a a descobrir que estava pondo tudo a perder, ao voltar aos velhos hábitos. Deveria se entregar de corpo e alma a esse universo que chegara à sua porta. Isso, se colocava fé nessa relação. Até porque, os relacionamentos certinhos demais, de outrora, nunca a deixara satisfeita. Também, algo como o jovem Ian (David Lyons) propunha não era o que queria. Então, por que não vivenciar o que Felipe lhe propôs? Uma ponte entre NY e Bali… Em sua despedida ao Ketut, minhas lágrimas desceram…

A estória, ou as estórias, a Fotografia, a Trilha Sonora, as atuações… tudo em harmonia para um filme nota 10. E que entrou para a minha lista de que vale a pena rever. Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love). 2010. EUA. Direção: Ryan Murphy. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 133 minutos. Baseado no livro homônimo e autobiográfico de Elizabeth Gilbert.

(*) Foram tantas as Citações, que essa logo no início, me fugiu um pouco a lembrança palavra por palavra. Quando eu encontrar a transcrição literal, eu trarei para cá. Por hora, fica o sentido da fala.

Vicky Cristina Barcelona (2008)

vicky-cristina-barcelonaAntes de mais nada, Javier Bardem está gostosérrimo nesse filme. Aff!! rsrsrs Pra quem o viu em “Onde os Fracos não tem vez” com aquela vestimenta caricatural-pitoresca, vê-lo nesse filme dá até um susto bastante positivo rsrsrs.

Não me atenterei a expor sinopse aqui, pois perderia muito do filme. Ressalto, no entanto, duas falas: uma de Javier e outra de Penélope Cruz para dizer o que penso sobre esse filme; acho que essas duas passagens marcam toda a essência dessa obra.

“É engraçado. Maria Elena e eu somos feitos um para o outro e não feitos para estarmos juntos. É uma contradição. Para entender, é preciso ser um poeta, como meu pai, porque eu não consigo”. -Javier Bardem, no personagem João Antonio-

A outra passagem é:

“Nosso amor, nosso amor é eterno mas não dá certo. É por isso que será sempre romântico, porque não pode ser completo.” -Penélope Cruz, na personagem Maria Elena-

vicky-cristina-barcelona-7As pessoas são desde sempre e para sempre faltosas. Buscam, por sua vez, completarem-se com objetos de amor de toda espécie, desde os compráveis ao nomeáveis abstratos. A falta é uma constante. A angústia, para Lacan, é justo quando a falta falta, quando ela não comparece.

Passamos a vida em busca de um objeto para sempre inominável, perdido, que nos complete, que nos preencha. Por sorte, temos a arte como maneira subversiva de dizer: Sou faltoso, em mim há um buraco, uma hiância, e isso que criei é uma tentativa de falar disso.

Muitos pensam que a Arte é uma forma de “completar a incompletude”. Mas na verdade, a arte é uma maneira de expressar, de dizer, de falar dessa eterna falta-a-ser.

É claro que o relacionamento deles é faltoso, incompleto. Tenho pra mim que quanto mais cônscio o sujeito é dessa realidade, mais chances de dar certo o relacionamento terá. Sim, pois os fracassos sentimentais ocorrem por se depositar no outro uma expectativa de o outro irá suprir todas as carências/buracos/faltas. Só que o Outro também é carente, é faltoso, é esburacado e não tem a menor obrigação de completar nada. E então, os relacionamentos acabam, e o movimento eterno da busca pelo objeto continua…

Não sou poeta, mas entendo bem a fala de Javier, afinal, os desencontros fazem parte de qualquer vida, até mesmo das vidas de almas que se pretendem gêmeas.

Por: Deusa Circe.

Vicky Cristina Barcelona

Direção: Wood Allen

Gênero: Comédia Romântica

Espanha – 2008

Vicky Cristina Barcelona (2008)

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Prestes a completar 73 anos, sendo 42 dirigindo, com média de um filme por ano, Woody Allen parece não estar nem próximo de esgotar o seu repertório. Quem acha que Allen já representou todos os tipos de neuroses que o homem é capaz é porque não viu a Maria Elena, soberbamente interpretada por Penélope Cruz, de Vicky Cristina Barcelona. Com a personagem, o diretor e roteirista demonstra que não são necessariamente os conflitos de personalidade e padrão de comportamento social que determinam tal qualidade.

É notório que todo o trabalho de Woody Allen serve, no mínimo, como um espelho onde podemos enxergarmo-nos muito além das aparências, talvez por isso consiga trabalhar com situações-clichês sem assim sê-las; a exemplo da cena em que Vicky (Rebeca Hall) não sabe que roupa vestir para se encontrar com Juan Antonio (Javier Bardem) e acaba decidindo por um modelo bastante parecido com aqueles que a amiga Cristina (Scarlett Johansson) geralmente usa, demonstrando que Vicky espelha-se na forma ousada de encarar a vida da amiga, porém sem conseguir ir muito além dos seus locais de referência.

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Em Vicky Cristina Barcelona, em que as duas amigas estadunidense partem para uma temporada na cidade espanhola, Woody Allen representa, até onde é possível, a cultura “catalã” com a arquitetura de Gaudí, a culinária de frutos do mar, os solos de violão e, principalmente, com a intensa identidade “transgressora”; artística, com seu estilo trata questões já presente na obra de Almodovar como paixão, traição, ciúmes e o amor sem gênero humano, não tratado como homossexualismo, mas com a ausência de “rótulo” mesmo.

O filme entra para lista dos ótimos do diretor, porém demora a engrenar. Os primeiros minutos parecem não levar para lugar algum, mas a partir de determinado instante a história começa a desenvolver-se graças a introdução de duas novas “peças” na história: Maria Elena, a ex-mulher de Juan Antonio, e Doug (Chris Messina), o noivo de Vicky.

O elenco está excepcional, mesmo assim Penélope Cruz sobressai em todas as cenas nas quais aparece, portanto forte candidata ao Oscar de Atriz Coadjuvante. Javier Bardem interpreta outro personagem interessante como sempre fez, demonstrando que sabe escolher os papéis. Desta vez Woody Allen não colocou Scarlett Johansson para interpretar nenhuma das “grandes cenas”, o que faz mais louvável sua atuação “costurando” todos os elementos, já que é Cristina que permeia os dois núcleos da trama. Porém, não há como não comentar a cena em que estão retornando de Oviedo e a atriz personifica Woody Allen em um momento de neurose tão bem que sinto estar vendo o próprio em uma cena de Annie Hall. Rebeca Hall tem uma boa participação e demonstra grandes qualidades em seu primeiro papel de destaque. Já Patricia Clarkson dispensa comentários.

Vicky Cristina Barcelona fecha a temporada européia de Woody Allen positivamente. Fase que contou com Match Point, Scoop e O Sonho de Casandra. Em 2009 lançará um novo filme (Whatever Works) em Manhattam onde consagrou-se e onde não filmava desde Melinda e Melinda.

Por: Daniel Caumo.   Blog:  Daniel Caumo.

Vicky Cristina Barcelona. 2008. Espanha. Direção e Roteiro: Woody Allen. Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Chris Messina, Patricia Clarkson, Chris Messima. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 96 minutos.

O Amor nos Tempos do Cólera (Love in the Time of Cholera. 2007)

Eu não li o livro ao qual o filme foi baseado. Logo, vou me ater a história do filme. E qual seria ela?

É uma longa, longa… e longa história de amor… Que atravessou mais de meio século para então se consagrar. No início, dois jovens não puderam levar a frente o amor por imposição do pai da jovem. Pois ele queria um marido rico para a filha. O jovem em questão trabalhava nos Correios. Foi quando ao entregar um telegrama, que a viu.

Amor à primeira vista, da parte dele. Pois dela, fora mais por se sentir admirada. Como também, por ser a musa inspiradora das poesias dele. Pois a paixão percorrendo seu corpo, foi pelo médico tocando em seu corpo. O jovem até que tentou ser fiel em se manter casto, mas quando foi agarrado por uma misteriosa e voluptuosa mulher, também pode se deliciar com os prazeres da carne. E estando sua amada casada, decidiu que esperaria por ela, mas sem deixar de transar. Decidiu anotar cada uma das experiências. Algumas, totalmente descartáveis. Outras, ganharam versos nessa sua caderneta. E foram muitas, essas aventuras.

Quando então o seu primeiro amor fica viúva, e ele já sendo um homem rico, resolve reconquistá-la. Levou mais um tempo nisso. Até que ela por fim, cedeu. Deixando uma dúvida se para ele foi mesmo amor, ou a conquista/transa mais difícil que faltava no caderninho.

Sei que estou contando a trama central. Um baita spoiler. Poderia até dizer que é para poupa-lhes tempo indo assistir outro. Até é. Mas é também para mostrar que se o roteiro tivesse apenas se inspirado na obra de Gabriel Garcia Márquez, diminuindo o tempo de duração do filme essa história poderia ter sido contada bem melhor. Mas do jeito que está, o filme ficou sonolento. Eu cochilei várias, como tive que fazer força para ir até o final do filme. Isso porque na primeira vez que tentei ver, eu dormi direto.

Péssimo filme. Atuações medíocres. Não recomendo a ninguém.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Amor nos Tempos do Cólera (Love in the Time of Cholera). 2007. EUA. Direção: Mike Newell. Elenco: Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt, Fernanda Montenegro, John Leguizamo, Hector Elizondo, Catalina Sandino Moreno. Gênero: Drama, Romance. Duração: 139 minutos. Baseado em livro de Gabriel Garcia Márquez.

Mar Adentro (2004)

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Um filme emocionante! E o que mostra? “Um homem tetraplégico que luta na justiça pelo direito de morrer.” Que luta também com os dogmas religiosos. Uma morte digna – é seu desejo. Um personagem adulto, lúcido, determinado. Sua bandeira: “Viver é um direito, não uma obrigação.

Me tocou fundo… Chorei várias vezes ao longo do filme. É lindo em fotografia! Em trilha sonora! A viagem que Ramón faz ao som de “Nessun dorma” (Turandot) arrepia!! Merece aplausos também por abordar um tema como a eutanásia de maneira… inteligente??? Não sei se seria essa a palavra, mas com certeza o faz num ponto de vista de alguém lúcido; e adulto. Logo, não será uma perda de tempo assistir esse filme.

Antes de vê-lo, revi o “Antes do Pôr-do-Sol” (Before Sunset). Um filme bom de rever! Por mostrar as identificações e as diferenças que aproximam ou afastam as pessoas. Mas principalmente fala também de fatos inesperados que mudam a vida das pessoas.

Mudanças inesperadas…

Dependendo de quem ou como ocorre, ela deixa a sensação de perda, de ficar sem chão; sem norte. Mas também há pessoas que até numa adversidade buscam por alternativas. Por vezes não é fácil lidar com o novo rumo que a vida tomou. Para quem está de fora é tão fácil julgar, criticar. Por outro lado para quem o vivencia, ou até vivenciou uma dessas  “trombadas do destino” entende, ou pelo menos tenta entender, não julgando precipitadamente. Nem movido só pela emoção.

Mas em “Mar adentro” a mudança é irreversível. Castradora. Opções chega a ser um eufemismo para esse personagem. De um jeito ou de outro o filme nos leva a refletir. Reavaliar conceitos. Posturas. Atitudes. E sobretudo, o filme emociona!

O acidente de Ramon…

Pode ser uma viagem minha, mas… Há um detalhe sobre o acidente que eu precisaria revê-lo para talvez tirar essa dúvida. Fatalidades acontecem. Mas alguns imprevistos ao serem analisados mais friamente com o passar de um tempo mostram que foram simplesmente ignorados alguns sinais tanto anteriores, como até durante. Então voltando ao acidente de Ramon. Ele sabia do risco naquele salto. Uma coisa seria mergulhar aproveitando uma maré alta, já que essa leva um tempo maior para baixar. Outra bem diferente é em mergulhar aproveitando uma onda. Já que nesse caso o tempo é mínimo, precisando ficar antenado ao salto.

Daí não sei se a idéia do suicídio, ou mesmo o não ligar para a vida, já estava em seu inconsciente. Sei lá… Uma tristeza profunda já passava por ele. Uma certa apatia com a vida que levava. Era jovem, podia tentar mudar, sair daquela rotina. Teria medo em ousar sair dali? Bem, de qualquer forma, o destino o reteve por ali. Enfim…

Não sei se numa segunda vez, eu irei chorar tanto quanto da primeira. Mas com certeza quero rever esse filme um dia. Eu amei! É emocionante todo o drama de Ramon numa excelente performance de Javier Bardem.

Nota Máxima.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Mar Adentro. Espanha. 2004. Direção: Alejandro Amenábar. Com: Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas, Mabel Rivera, Celso Bugallo, Clara Segura, Joan Damau, Alberto Jiménez . Gênero: Drama, Biografia. Duração: 125 minutos.

Os Sonhos – Ramón Sampedro
Mar adentro, mar adentro,
E na leveza do fundo,
Onde se cumprem os sonhos,
Juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.
Um beijo incendeia a vida

Com um relâmpago e um trovão,
E em uma metamorfose
Meu corpo já não era meu corpo;
Era como penetrar no centro do universo: O abraço mais pueril,
E o mais puro dos beijos,
Até sermos reduzidos
Em um único desejo: Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
Mais adentro, mais adentro,
Até o mais além do todo
Pelo sangue e pelos ossos. Mas sempre acordo
E sempre quero estar morto
Para seguir com minha boca
Enredada em seus cabelos”.