Magnólia (1999). Um Complexo Mosaico da Vida Cotidiana

magnolia-1999_cartazmagnolia-1999_01Por: Cristian Oliveira Bruno.

Uma vez montado, o quebra-cabeças de P.T. Anderson forma uma das mais belas pinturas sobre a difícil vida cotidiana, tão em voga no final do século passado.

Linda Partridge (Julianne Moore) é uma mulher que se casou por puro interesse financeiro com Earl (Jason Roboards), um milionário idoso consumido pelo câncer. Sentindo-se culpada e cada vez mais apaixonada pelo marido, Linda está entregue aos antidepressivos e contrata o enfermeiro Phill Pharma (Phillip Seymour Hoffman) para tomar conta de seu marido moribundo enquanto tenta cancelar o testamento que lhe coloca como única herdeira de toda a fortuna de Earl. Phill, tentando realizar o último desejo de seu paciente, tenta contatar Frank Mackey (Tom Cruise) o único filho de Earl, com quem ele não fala há anos. Frank é um astro do universo masculino escrevendo livros de auto-ajuda e palestrando para homens fracassados sobre ‘como dominar as vaginas’. Enquanto isso, Jim Kurring (John C. Reilly) é um religioso policial que faz sua patrulha rotineira pelas ruas do vale que acaba atendendo a um chamado de perturbação da paz. Na residência, conhece e inicia um flerte com Claudia (Melora Watters), uma drogada traumatizada que odeia seu pai, Jimmy Gator (Phillip Baker Hall) com todas as forças. Jimmy é apresentador de um programa de perguntas e respostas com crianças prodígio na TV, que esconde estar com câncer e tenta reaproximar-se de sua filha que o acusa de ter abusado dela quando criança. Stanley Spector (Jeremy Blackman)é um dos garoto prodígio estrela do programa de Jimmy, explorado pelo pai que parece esquecer-se de que trata-se de um garoto apenas e não uma máquina. No meio disso tudo, Donnie Smith (William H. Macy) ficou famoso quando criança ao participar do programa de Jimmy, mas agora luta para se auto-firmar e para assumir sua sexualidade”.

magnolia-1999_03Por esta ‘pequena’ sinopse acima, nota-se que tão difícil quanto acompanhar Magnólia (1999) é mostrar-se indiferente com a obra-prima de Paul Thomas Anderson. Exímio conhecedor e estudioso de cinema, o diretor é pertencente a uma casta cada vez mais escassa de cineastas que ainda põem o cinema e a arte em primeiro lugar. O que por vezes pode aparentar arrogância, aos meus olhos é pura e simplesmente uma demonstração de respeito para com o espectador. P.T. Anderson não apenas quer, mas exige que nos entreguemos por completo ao filme e o acompanhemos com atenção quase letárgica para assimilar ao máximo os pormenores desta magnífica e esplendorosa alegoria.

magnolia-1999_cartazAcompanhando um único dia da vida de dez personagens, cujas estórias encontrar-se-ão entrelaçadas em determinado ponto (daí a associação fantástica com as flores do título, inseridas cirurgicamente ao fundo de cenas aparentemente despretensiosas, como se cada vida e cada história fosse uma pétala que em determinado ponto se unem para formar algo muito mais complexo e bonito), o excelente roteiro de Anderson é transposto para a tela de forma brilhante em uma narrativa extremamente atípica e nada convencional. Todo aquele arsenal de jogadas e macetes cinematográficos demonstradas em Boogie Nights (1997) agora seriam elevadas à máxima potência e detalhadamente trabalhadas em 3h e 10 minutos de filme. E os artifícios empregados pelo diretor para evitar que seu filme acabe por se tornar cansativo e desinteressante (afinal não é todo mundo que tem paciência para acompanhar um filme de três horas sem uma gota de ação sequer), já que exige uma dose cavalar de boa vontade por parte do espectador, são tão amplos e ricos que chega a ser até ultrajante tentar identificá-los e enumerá-los. Mas, talvez o mais perceptível de todos seja o tempo que Anderson desprende para cada personagem e estória paralela. Quando uma das subtramas começa a tornar-se prolongada demais, Magnólia corta de imediato para aquela que a mais tempo abandonada pelo filme, obrigando você não só a tentar remontar aquele estória na memória, como também a prestar uma enorme atenção ao que está por vir. E este ciclo repete-se incessantemente até o final, quando alguns dos personagens se cruzaram. Mas também se faz necessário citar o excelente ‘clipe’ inserido no início do longa apresentando rápida, porém certeiramente cada personagem e seu universo, num momento interessante momento de instante de inspiração narrativa – bem como alguns belos planos-seqüência bem elaborados ao longo da obra.

magnolia-1999_chuva-de-saposP.T. Anderson permite-se uma liberdade poética genial em alguns pontos chave, mais evidentes linda na montagem onde todos os personagens cantam a mesma canção e depois seguem as cenas de onde elas pararam e na enigmática e controversa chuva de sapos. E essa liberdade reflete diretamente no talentosíssimo elenco magistralmente dirigido por Anderson, onde todos recebem personagens riquíssimos com histórias densas e emocionantes. Isso faz com que nenhuma passagem seja gratuita ou desinteressante, pois afinal, nos identificamos seus defeitos e nos importamos com cada um deles. Impressionante como Anderson compreende que os defeitos de seus personagens são aquilo que mais nos aproxima deles, ao invés de depor contra eles. Desse modo, ao acompanharmos um filho proferindo palavras duras e cheias de ódio para seu pai no leito de morte do mesmo, não sentimos raiva dele, mas sim tristeza, pois reconhecemos ali uma intensa mágoa e uma desilusão quase mortífera em seu olhar (e o fato de ele pronunciar as frases “eu espero que você sofra muito, pois eu te odeio” e “não morra, por favor, não morra” nos dá a dimensão do real estado conflitante do personagem).

Magnólia é daqueles filmes que não é pra qualquer um. Acompanhá-lo exige mais de nós e em alguns momentos exige demais. No entanto, apreciá-lo é uma das mais magnificamente prazerosas experiências que o cinema nos proporcionou nas últimas décadas. Quem se dispor a assisti-lo, ficará maravilhado com forma como todas as subtramas se conectam perfeitamente para formar um complexo mosaico da vida cotidiana atual. Magnólia não fácil, não é simples e não é para qualquer um. É simplesmente magnífico!!! Nota 9;5.

Magnólia (1999).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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O Ditador (The Dictator. 2012)

Sacha Baron Cohen! Esse nome trouxe algo um tanto inédito nos últimos tempos: o de “Ame-o ou deixe-o!”. Por causa dos seus filmes. Para um público internacional o peso disso surgiu com o seu “Borat“. Continuando em “Bruno“. Personagens e tramas marcantes e controversos. Agora, não sei se para conquistar um novo público, e quiça uma nova legião de fãs, que temos em “O Ditador” um filme mais comerciável. Diria mais: mais mastigado. O que pode não agradar seus fãs mais puristas. O que seria uma pena! Até por mostrar que mesmo gostando muito de seus personagens não precisa ser tão radical. Os personagens de Sacha mesclam entre um ar patético dos de Jerry Lewis com o humor displicentemente ferino dos do grupo Monty Python. Só que exagerando na dose.

Se Chaplin nos emociona até hoje com seu discurso de o seu “O Grande Ditador” (1940), creiam, “O Ditador” de Sacha, o General Aladeen, nos leva a chorar com o seu discurso na ONU, mas chorar de rir. Só essa cena – texto + performance -, já vale ter visto o filme. E mais! Deixando até uma vontade de rever. Sem tirar a surpresa de todo: o General Aladeen mostra a “diferença” entre uma Ditadura do Oriente Médio e uma Democracia como a dos Estados Unidos. A cara que ele faz dá um peso maior ao que discursa. Diria que é cruelmente hilário!

Sem as cenas escatológicas dos seus dois filmes anteriores citados, e que também foram dirigidos por Larry Charles, “O Ditador” mete o dedão na ferida do jogo político que há entre países ricos: a disputa não pelo poder maior, mas sim em se manter nele. Porque é um poço sem fim de lucros advindos das comissões em grandes transações. Muitas tendo até como fachada: fins humanitários.

Para o público “virgem” se ao assistir o filme focar nesse tipo de mensagem já terá percorrido meio caminho para se tornar fã desse ator. Do tipo de humor do Sacha. Como também para curtir esse filme por um todo. Se divertir com o seu General Aladeen. E quem seria ele? Aladeen não passa de um meninão riquíssimo, mimado, que leva uma vida nabanesca, se achando o maioral em ser um ditador sanguinário da República de Wadiya. Mas que acima de tudo: tem muita sorte em sair ileso dos inúmeros atentados. Tem como braço-direito Tamir; personagem do também sempre ótimo, Ben Kingsley.

Tudo seguia seu rumo em Wadiya, quando Aladeen é persuadido a comparecer na ONU para dizer que não está fazendo armas nucleares com fins militares. É quando descobre que morto será o tesouro dos “Quarenta Ladrões”. Assim, escapando de mais um atentado, numa engraçada cena com a participação do também ótimo John C. Reilly, Aladeen se vê perdido numa terra inóspita. Para ele, é claro! Já que se encontra em plena Nova Iorque.

“O Rei está nu!” Despido até do seu poder, Aladeen chama a atenção de uma jovem com jeitinho moleque. Ela é a dona de um Empório de produtos naturais, sem agrotóxicos. Vegan convicta. Uma Pacifista meia ferrenha. Mas uma empresária que não sabe bem gerenciar os empregados da loja. Pois até à frente de uma loja há de se ter um respeito a hierarquia. Ela é Zoey, personagem de Anna Faris. Aladeen que até então pagava, e muito bem, para prazeres carnais momentâneos, desconhece a atração que começa a sentir por essa mulher com aparência de um menino. Como também fará novas descobertas, até em saber que a arte em comandar não precisa passar por distribuir tesouros.

O filme traz a grosso modo uma radiografia do capitalismo versus o socialismo, mas mais pelo radicalismo dos e nos posicionamentos. Agora, sem esquecer de que essa reflexão mais séria vem com a cara/marca do Sacha. O que me leva a continuar fã desse ator, sem ser xiita.

Então é isso! Um filme para os já fãs e os que ainda não são. Pois terão também em “O Ditador” um humor escrachado. Com quase liberdade total. Onde o “quase” vem pelo fato de que em vez de ter a religião que estaria mais de acordo com a região, Sacha, até para continuar livre e vivo para novos filmes, prefere cutucar os judeus. Safo, não!? No mais, há participações especiais que complementam a trama de um ótimo filme!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Ditador (The Dictator. 2012). EUA. Diretor: Larry Charles. Roteiro: Sacha Baron Cohen, Alec Berg, David Mandel, Jeff Schaffer. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 94 minutos. Classificação: 14 anos.

Os Acompanhantes (The Extra Man. 2010)

Já se sentiu meio deslocado achando que nasceu em época errada? Ou até que se sentiria mais integrado trazendo um tempo passado para a realidade atual? É meio por ai que temos em “Os Acompanhantes” a busca de um jovem em encontrar o seu “eu” perdido em algum tempo entre o passado e o presente.

Confesso que nas primeiras lidas acerca de “Os Acompanhantes“, até pelo fato dele estar como Comédia, pura e simplesmente, eu pensei que viria nos moldes de “Os Safados” (1988). Mas o filme segue um outro caminho, e que mais seria uma leve Comédia Dramática. Aliás, há trechos meios tristes. Não cai tanto em se ficar penalizados pelos dramas de vida de cada um dos personagens principais porque escolheram levar a vida desse jeito. Como também porque a excelente Trilha Sonora deixou o filme mais leve.

Agora, sem sombra de dúvida, quem nos faz acompanhar atento toda essa história é o carisma do ator Paul Dano. Por mais momentos tristes que há no filme, o seu Louis Ives meio que nos hipnotisa. Embora em certos trechos eu cheguei a pensar no Cillian Murphy em “Café da Manhã com Plutão“, não foi por comparar os dois personagens, nem muito menos as primorosas atuações de ambos os atores, a lembrança ficou mesmo com partes da história de vida dos dois personagens, porque escolheram dar uma outra história paralela para si próprios. Não indo pelo caminho de alguma Bipolaridade, mas sim dando um realce a vida que vinham tendo. Um jeito de não se sentirem tão deslocados no presente mundo.

Em Louis Ives batia uma tristeza tão profunda, que nem se incomodou de ter sido demitido injustamente. Fora pego num flagrante pela Diretora do Colégio onde lecionava Literatura Inglesa. Por uma pequena tara. Nem sei se o termo correto seria esse. Mas o lance também fazia parte dessa sua busca futura, como também a atitude preconceituosa da tal Diretora, era algo a pesar nessa balança. As aparências pesando no julgamento dos outros. O não ter peito para assumir o seu jeito de ser.

Louis ainda leva um tempo para ir morar em Manhattan. Um sonho antigo. Uma cidade que lhe daria não apenas o fato de não se sentir deslocado, como também suporte para transpor para o papel sua fértil imaginação. Queria muito se tornar um escritor do porte de quem muito admirava: F. Scott Fitzgerald. Louis meio que se sentia um personagem de o “Um Grande Gatsby”. Alguém em plena Década de 20. Mas quem?

Embora por caminhos tortos, o destino conspirou a seu favor. Louis vai morar num quarto de um senhor muito excêntrico. Mas que aos olhos de Louis, o apartamento assim como o dono, eram um mundo num tempo onde queria viver. Acontece que essa convivência não seria nada calma. Mas Louis estava disposto a enfrentar aquele Mar das Tormentas. Até porque, de vidinha pacata ele já estava cheio.

Quem faz o tal senhor excêntrico é Kevin Kline. Seu Henry Harrison é um personagem que em outros tempos, cairia como luva para David Niven. E foi por esse pensamento que me perguntei do porque Kevin Kline não fez dele memorável. Competência, ele tem de sobra. Não sei se o casal de Diretores, Shari Springer Berman e Robert Pulcini, travaram-no um pouco. Se sim, foi bobagem. Já que ter os dois – Louis Ives e Henry Harrison -, numa performance soberba, daria ao filme um ingresso direto a um Clássico. Kline atuou bem, mas o seu “Harrison, H” com o tempo se apagará da memória.

Um cavalheiro e seus impulsos devem viver em constante negociação.”

O personagem de Kline, também um professor, é um acompanhante de senhoras viúvas e ricas. Que moram numa das partes privilegiadas de Manhattan: o Upper East Side. Mais que um Personal Friend, esse seu lado B, tem como de ainda sentir o gosto de tudo que já viveu. Pois Henry já fora um rico herdeiro. Mais que “o dinheiro comprando por um homem à mesa de jantar”, é tentar manter e viver o glamour de outrora. Louis quis vivenciar em ser um desses acompanhantes. Mas a oportunidade só veio por um outro acidente do destino.

Enfim, será o peso a se dar a essa situação por um todo. Os dois lados dessa balança. Com que olhos verá o usar e ser usado! Ou, para ser mais romanceado: com que papel se sentirá nessa atual realidade. É a solidão pesando? É se aceitar em harmonia com os seus próprios princípios? Ditando suas próprias regras. Mesmo que elas fujam do convencional? Mesmo que aos olhos de muitos não vejam nada ético no que estão fazendo. Mas se é onde se vê de fato integrado ao mundo atual também pondo em prática o seu lado B, fica um: E por que não?

Os demais personagens, em destaque – John C. Reilly, Katie Holmes, Dan Hedaya, Marian Seldes e Celia Weston -, estão em uníssonos com toda a trama. De certo modo, eles também irão a um encontro consigo mesmo. Onde os dramas de alguns fariam de “Os Acompanhantes” um filme depressivo, mas como citei, Louis Ives é tão cativante que ao final do filme fica uma certa leveza como numa exaltação silenciosa: “Que bom, Louis!” E o peso se dissipa.

Então é isso! Se chegou até aqui, teve uma ideia do que encontrará. É um filme que não agradará a muitos. Mas me arrisco em dizer que será difícil alguém achar que perdeu tempo em assistir. Eu gostei! Como também posso rever um dia. Embora Kevin Kline não roubou o filme, talvez por cavalheirismo, pelo todo é muito bom! E o personagem de Paul Dano ficará por um longo tempo na memória, numa cativante lembrança.

Nota 8,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Os Acompanhantes (The Extra Man. 2010). EUA, França. Direção: Shari Springer Berman, Robert Pulcini. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 108 minutos.

Deus da Carnificina (Carnage. 2011)

Parece que Polanski andava engasgado com alguma coisa e finalmente conseguiu vomitar literalmente suas angústias em cima de grandes obras de artes e na frente de estranhos. E não satisfeito, lavou roupa suja em público. Uma chacina moral numa ‘análise grupal’ sendo quatro divãs número suficiente para se economizar no troco, complementando com vozes em off da mamy de um do…s envolvidos. Freud explica? Um dos protagonistas seria vendedor de drogas consideradas lícitas, matando aos poucos seus pobres consumidores, o da poltrona consegue testemunhar pela conversa entre Walter e Alan via aparelho celular; o outro é vendedor de quinquilharias domésticas, e um dos seus produtos seria descarga de privadas.

E as Tulipas não foram escolhidas, como um dos adereços, por acaso. Elas têm um significado singular.

O significado principal da tulipa é o amor perfeito, as tulipas sempre dão um sentido de charme e elegância para qualquer ambiente.

As tulipas vermelhas são fortemente ligadas ao amor verdadeiro, enquanto que a tulipa roxa simboliza quietude e paz; quanto as tulipas amarelas uma vez representam o amor impossível ou a luz do sol generoso. As tulipas brancas são vistas para reivindicar os valores ou emitir uma mensagem de perdão.

Não se iluda: gente elegante também quebra barraco… e com classe! É questão de oportunidade.

E tudo começou num parque de diversões… brincadeira de criança grande…

Clap,clap clap! Roman POLANSKI sempre nos surpreendendo com suas deliciosas inovações.

Karenina Rostov

Deus da Carnificina (2011). Mostrando Quando Um Peso Tem Duas Medidas

Uau! O texto da Yasmina Reza, aliado a sagacidade de Roman Polanski mete o dedão na ferida e com vontade! É de um brilhantismo ímpar! Onde nos deparamos com a desconstrução da sociedade atual na pele de dois casais. Por uma fachada de que se vive em prol da coletividade, são os valores individuais que irão imergir. Será muito mais do que um lavar a roupa suja, irão se despir ora dos conceitos, ora das armaduras, mas numa troca muito rápida de posicionamento. Será um mergulho profundo e individual que não ficará pedra sobre pedra. Um dia que lembrarão para sempre.

A trama do filme é calcado em diálogos que variam do desconcertante para os massageadores de ego. Se foram edificantes, só saberão no day after. O melhor de tudo é que temperada com muito humor. Para nós, é claro!

Onde ainda no início parece que alguns deles não se deram conta de que usam de um peso com duas medidas. Mesmo ela sendo mostrada numa simples fala de um dos personagens. É o óbvio encoberto por: “coisas do passado“, “agora os tempos são outros“, “vivemos num mundo civilizado“… O Roteiro é tão genial, que essa cutucada vem com essa simples fala: “– Não é tão diferente.”. Acompanhem a cena, e tirem as suas próprias conclusões.

Claro que desde o início do filme há muito mais questões levantadas, até nas entrelhinhas. Onde todo o contexto parte de um ato entre dois adolescentes: um, portando um galho de árvore, agride um outro, e tendo como testemunhas oculares um grupo na mesma faixa etária. Na área recreativa de um Parque. Aliás, essa cena é mostrada meio de longe. Numa de que seu parecer ficará em cima do que os seus olhos viram, mas sem ouvir as partes envolvidas. Ouviremos sim, mas relatados pelos pais. E ai, com o peso e medida deles.

Para mim, em “Deus da Carnificina“, Polanski nos coloca em cadeiras de um corpo de jurados onde a sentença também levaria em conta os nossos próprios valores. E é ai que eu digo que esse filme deveria ser visto pelas pessoas de mão única. Que nem mostrando por a+b que estão se contradizendo, não aceitarão. Até porque seguem a máxima que seus valores são irrefutáveis.

Houve uma agressão, num local público, onde há danos físicos, e entre dois adolescentes. Após esse incidente, caberia aos pais que papel nessa história? Até porque não estavam presentes no tal parque. Um local que para a mãe do agredido era imune a violência como essa, por ser frequentado por uma classe social de mais posse.

Claro que não dá mais para banalizar a violência do dia-a-dia, como em algo já decantado por João Bosco: “Sem pressa foi cada um pro seu lado…“. Mas por outro lado não se deve fechar questão entre o que está certo ou errado. Acima de tudo, ainda não passam de crianças onde o instinto fala mais alto que a razão. Mesmo que o ato seja reflexo do que se sente em sua própria casa, há algo cultural, milenar, de que na rua é o instinto de sobrevivência que fica em alerta. Quando se sente ameaçado, usará as armas que tem, no ali e agora. E é aqui, nesse ato-reflexo, que entrará também como bagagem quem ele é na essência. Voltando ao fato de que se fechar a questão poderá não ver alguém que fez o que fez porque só quis ser aceito pelo grupo.

– Crueldade e esplendor.
– Caos e equilíbrio.”

E é por ai, uma das premissas em “Deus da Carnificina“: pesar os atenuantes expostos. Tentar ser impessoal porque serão os pontos de vistas de cada um dos personagens que estarão em julgamento. Só que não em um Tribunal de Júri e sim numa Sala de Estar que até poderia ser em um Lar qualquer se não pertencesse ao casal Penelope (Jodie Foster) e Michael Longstreet (John C. Reilly), pais do filho agredido, recebendo o casal Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz), pais do filho agressor, para o que na cabeça de Penélope: se houve um ato condenável deve haver um castigo.

Mas a lição que fica é: “Conte até 10, até 100… antes de entrar numa contenda entre crianças.”

Um filme Nota 10 em tudo! De não querer perder nem um gesto dos personagens, muito menos das falas. Os quatros atores estão soberbos. Em nenhum momento eu pensei em outros. Aliás, é um filme que se piscar corre o risco de perder algo. No filme todo, só há duas cenas externas. A do início, que eu já mencionei. E a outra que fecha o filme com chave de ouro. Explêndida!

Preferi não trazer spoiler. Muito embora cada um dos quatros personagens daria análises mais detalhadas. Onde como argumentavam seus posicionamentos me levaram a sonorizar baixinhos uma interjeições meio impróprias. Como também, o personagem do Christoph Waltz me fez lembrar do filme “Obrigado Por Fumar“. Ele parecia ser o advogado do diabo dessa história. Seu cinismo foi bárbaro, bem condizente com sua profissão. John C. Reilly transitava entre um Fred Flinstones e um político daqueles cheios de “agrados”, muito embora seja um vendedor de itens domésticos. Kate Winslet soube pesar bem um hamster com a agressão que seu filho praticou. Jodie Foster com suas caras e bocas meio histriônicas, mas bem de acordo com “uma mulher à beira de um ataque de nervos” pelo casamento que levava. Será que os opostos se atraem de fato? E quem teria rodado a baiana em primeiro lugar nessa contenda? Hilária, por sinal!

Então é isso! É mais um filme que entrou para a minha lista de que vale a pena rever. Ô! E como vale!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Deus da Carnificina (Carnage). 2011. França. Diretor: Roman Polanski. Roteiro: Yasmina Reza. Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Reilly, Christoph Waltz. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 80 minutos. Adaptação da peça homônima de Yasmina Reza.

Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

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Olá, pessoal. Hoje farei uma crítica que já planejo há um bom tempo, entretanto preferi esperar para que o filme estreasse nos cinemas brasileiros para que as pessoas que lessem tivessem a oportunidade de assistir. Quem leu meu post sobre Adaptações Cinematográficas de Livros deve lembrar que citei esse filme como sendo uma das adaptações mais diferentes que já assisti. Quando digo diferente não é no sentido de não haver fidelidade para com o livro, e sim do longa não ofender o romance, mas apresentar uma visão bastante particular da trama. Taxado como polêmico, assustador e surpreendente. “Precisamos Falar Sobre o Kevin está chocando o público, vocês devem estar perguntando o porquê disso. E é simplesmente por que tudo aquilo é algo bastante realista e não há nada mais assustador no cinema do que nós acreditarmos que aquilo mostrado nas telas pode acontecer na realidade. O relacionamento de amor e ódio de uma mãe com o filho, possivelmente, psicopata é algo que realmente instiga as pessoas. Numa das cenas geniais, Kevin comenta em tv aberta o fato do público televisivo dar tanta atenção aos psicopatas, afinal será mesmo que as pessoas não gostam de ouvir esse tipo de coisa? essa é uma das sugestões polêmicas que a história coloca.

Best-Seller de Lionel Shriver

O livro de Lionel Shriver foi recusado por muitas editoras e quando finalmente foi aceito, virou sucesso. A trama acompanha a história de uma mãe, Eva (Tilda Swinton), que sofre as conseqüências dos atos de seu filho Kevin (Ezra Miller), já preso por cometer uma chacina na escola. Como se não bastasse ser julgada e perder todo o dinheiro no tribunal, acusada de negligência materna, Eva tem que suportar diariamente o preconceito nas ruas, as pessoas acreditam que a revolta do rapaz possa ter vindo de falhas maternas. Então ela faz uma recapitulação, narrando tudo para Franklin (John C. Reilly), seu marido que a deixou levando a filha pequena. A partir daí acompanhamos do nascimento de Kevin até a data do massacre, sempre alternando entre o presente e as memórias de Eva. Quando tudo começa, ficamos espantados com a relação entre os dois. Kevin não era uma criança fácil e sempre fez questão de expôr sua natureza fria utilizando a mãe como alvo. Eva também não fica muito atrás, seus pensamentos de raiva pelo menino nos deixam na dúvida se realmente seus atos influenciaram no que Kevin se tornou. E é aí que surgem nossas dúvidas. Por que Kevin fez aquilo? Será que sua monstruosidade é justificável pelo elo fraco com a mãe? Eva é ou não culpada? Kevin sempre foi psicopata? Eva estaria paranóica desde que a criança nasceu ou é verdade que o tempo todo notara as inclinações assassinas do filho?

Momentos tensos

As respostas para as perguntas acima são bastante relativas, o que faz com que cada pessoa saia da sala de cinema com um filme diferente na cabeça. Acredito que a monstruosidade do rapaz seja tamanha que ficará bastante constrangedor para alguém defendê-lo, no livro até o advogado se sente desconfortável pela reação de Eva. Ela tenta “permanecer de pé”, evita chorar na frente dos outros, o que faz com que a maioria pense que é uma mulher fria. Eva guarda a culpa para si mesma, o que torna tudo tão doloroso. Ela sente que precisa ser castigada pelo que seu filho fez, por isso não se zanga com a reação violenta das pessoas. Cabe a nós sabermos se ela realmente influenciou.  Quando chegamos ao final da trama, temos uma revelação que mudará todo o jogo. O assustador final é inevitável e alerto para que as pessoas estejam preparadas para a indignação.

Falando em indignação, estou profundamente decepcionado com a Academia do Oscar que não indicou Tilda Swinton como Melhor Atriz, mas indicou Rooney Mara. Não que a novata não mostre talento, mas quem assiste a “Precisamos Falar Sobre o Kevin” sabe muito bem que aquele talvez tenha sido o papel da vida de Tilda. Ela se entregou completamente para o papel, não assisti a nenhuma atuação tão surpreendente durante todo o ano. Logo é natural que a credibilidade do Oscar caia no meu conceito. John C. Reilly não tem quase nada a ver com a aparência do Franklin do livro. Apesar dele não ter muitos diálogos, só sua imagem é suficiente para o associarmos com um pai preocupado e que tenta simplesmente acreditar que seu filho é normal. Kevin se transforma na presença do pai, o que faz com que Eva sempre seja julgada como exagerada pelo marido.

A água como a vida aparentemente calma de Eva, até Kevin acabar com tudo com apenas um toque.

Ezra Miller parece que vem se preparando involuntariamente para Kevin através de outros papéis. Após interpretar um garoto com possíveis tendências psicopatas em outro filme de Cannes (Depois das Aulas), o jovem agora pode ser conhecido como o bad boy de Hollywood. A participação de Ezra como Kevin não é longa, porém marcante. Quem rouba a cena como Kevin é o ator mirim Jasper Newell, que provavelmente conseguiu a proeza de despertar a vontade de todas as mães, na platéia, de lhe dar uma bela surra.

Ela percebeu as tendências do filho desde o princípio

O defeito do filme é em alguns momentos deixar escapar a semelhança de Kevin com outros monstrinhos do cinema. É inevitável não lembrar de Damien de A Profecia. A diferença de Kevin para Damien é que o filho de Eva é praticamente uma abordagem nova sobre a psicopatia. Se em A Profecia, o menino não tinha um bom elo com a mãe por ser o anticristo, em Kevin a situação é explorada sem receio. A realidade é que muitas mães sofrem por não conseguirem ter uma boa ligação com seus filhos (exemplo disso é a depressão pós-parto), isso sempre foi visto de maneira assustadora pela sociedade, mas é algo que acontece. Em A Profecia, isso foi transformado numa fantasia onde a desculpa pela falta de vínculo materno ocorre pela criança não ser o filho verdadeiro do casal e, sim, do diabo. O que torna “Precisamos Falar Sobre o Kevin” tão assustador é justamente o fato de não haver fantasias. Kevin não é adotado e não é o anticristo. Eva teve muita dificuldade em gostar da criança no princípio, porque para ela aquele bebê significava a perda da independência. Nós sabemos que a criança sente quando isso acontece, o problema é a reação de Kevin. Quando a mãe tenta se aproximar dele, ele sempre recua e não deixa uma oportunidade de machucar a mãe passar em branco.

Eva imaginando o afogamento do filho

Há uma situação que talvez alguns não entendam completamente no filme, porém que fica bastante claro no livro. A cena em que Eva quebra o braço de Kevin num acesso de fúria pelo que o menino faz. O menino estava com um leve sorriso no rosto quando isso aconteceu. Kevin não contou para ninguém o feito da mãe. O que nos deixa intrigados é o porquê dele fazer isso. Ao mesmo tempo que Kevin mantém segredo, ele utiliza isso como arma para “aprontar” sem que a mãe o delate, senão ele conta sobre o braço. Mas, como todas as atitudes de Kevin têm dois lados da moeda. É possível também que ele não tenha contado para ninguém porque, como Eva cita no livro, aquele foi o único momento em que ele pôde se identificar com a mãe, pois se sua natureza era violenta ele buscava alguém com quem se identificar, e é terrível sua alegria quando a mãe demonstra raiva. Parece uma maneira de “atiçar” Eva como desculpa para também ver o lado obscuro de outra pessoa. Em uma das partes do livro, Kevin na escolinha convence uma menina com doença de pele a descascar a pele ruim (até sair sangue), como se desejasse libertá-la daquele incômodo ou fazê-la se machucar. Não há limites para as crueldades do menino até a adolescência, poucos notam sua verdadeira face, mas suas atitudes sempre possuem duas possibilidades. E o mesmo jamais demonstra culpa.

Kevin sente culpa?

Sobre o conteúdo, não é fácil para algumas pessoas ler os diálogos cruéis do livro. Por isso algumas coisas foram suavizadas no filme. Um exemplo são as visitas de Eva a Kevin, onde no romance há uma troca de farpas de deixar qualquer pessoa horrorizada com tamanha crueldade do filho e as respostas terríveis da mãe. No longa isso não aconteceu, deixando o silêncio tomar conta das cenas como uma forma de expressar a dificuldade que Eva possui ao ter de visitar o filho. No final da leitura e da projeção percebemos o porquê dela odiar o filho em tantos momentos. Mas não se assuste, você (leitor dessa crítica). Apesar do filme revelar que não há limites para a crueldade humana, também coloca a ausência de barreiras para o amor de uma mãe. Eva continua vendo Kevin porque ainda tem a esperança de que um filho que a ama esteja ali dentro. “Precisamos Falar Sobre o Kevin” prova isso da maneira mais realista possível. Enquanto assistimos a esse filme é importante ficar claro a quantidade de mulheres que estão passando por esse sofrimento de culpa ao presenciar a prisão do filho. A verdadeira pergunta que deixo aqui é: Será justo julgá-las sempre negativamente?

Tilda Swinton na cena mais emocionante, a da descoberta. Digna de Oscar.