A Montanha Dos Sete Abutres (1951). A Tragédia como Mercadoria da Audiência

a-montanha-dos-sete-abutres_1951_02a-montanha-dos-sete-abutres_1951_00Por: Morvan Bliasby.
A Montanha Dos Sete Abutres — Um filme à antiga, literalmente. Não só na ambiência Noir. Do tempo em que não se fazia filme para bilheteria. Filme com mensagem, filme com moral a ser decodificada no transcorrer da trama. Antecipando e até demarcando o Noir, o mestre Billy Wilder nos brinda com um filme denso, soturno (sem fazer qualquer rapapé para com o estilo homônimo francês), gris, antecipatório até, do que se adviria, quando do domínio da imagem sobre a palavra. Outros diretores tentaram, como em O Abutre, discutir a mídia e seu poder sutil e ao mesmo tempo eficaz, massacrante. Síndrome da China, documentário com cara de filme, ou o contrário, tenta também nos mostrar este poder desmedido, aqui, pior, pois mesclado com interesses bélico-midiáticos. Uma mistura explosiva, literalmente. Jane Fonda e Jack Lemon, como sempre, arrasam. Monstros. O mais novo, e nem por por isso menos contundente O Abutre nos mostra aonde vão a ganância e afã de produzir não-notícias e como a manipulação midiática não conhece limites.

a-montanha-dos-sete-abutres_1951_01Voltando ao filme do magistral Wilder, menos não se poderia dizer do assustadoramente talentoso Kirk Douglas. O velho matriarca segura a trama do início ao fim, como só os sagrados do cinema o fazem; no papel do fracassado Chuck Tatum, sujeito muito bom no que faz, mas de temperamento forte, por isso demitido N vezes e tendo aquela que parece ser sua última chance. Tatum, num daqueles platôs do trabalho, onde não se tem o que dizer, vai ao deserto cobrir uma corrida de cascavéis. Leste certo. Não. Não era uma corrida de tatus, tão ao gosto do estadunidense, nem um trocadilho infame com o nome do personagem. Corrida de cascavéis. Isso! Num átimo, a trama muda, pois, ao parar para abastecer, ele e seu parceiro de jornada descobrem a história de Leo Mimosa, tentando encontrar relíquias indígenas, se mete num buraco de uma mina e fica encalacrado. Tatum já tem o “furo”. A oportunidade é esta. Esqueçam as meninas peçonhentas.

a-montanha-dos-sete-abutres_1951_03A partir daí, o filme ganha a musculatura pretendida pela direção e pelos roteiristas. Suspense. Apresentação dos caracteres da cidadela desértica com seus tipos humanos. Em todos os sentidos. Não é mais uma trama sobre cascavéis ou de onde o mais emocionante é uma bola de capim seco a rolar ao sabor dos ventos. Dramas humanos. Os interesses conflitantes vêm à tona; os que querem a liberação do infeliz, que só pode usar as mãos para se comunicar com o mundo à sua volta, e definha, já que não há como obter alimento ou água, a não ser pelo buraco onde, com gestos, ele fala ao mundo, os que não querem de jeito algum a soltura do garimpeiro, o próprio Chuck Tatum, nem Lorraine, esposa do infeliz Leo, pois, caso do Chuck, estamos falando em mídia. Audiência, no caso, é o que importa. Os que estão se lixando e os que querem aproveitar a deixa para sair daquele buraco de cobra, literalmente. Ir para a cidade grande, tentar carreira empreender algo, caso Lorraine, que não almeja nada que não seja sair de perto de Leo e viver a aventura da cidade grande. Cite-se ainda a completa desilusão, com o mundo e com a própria carreira, de Herbie Cookie, “parça” de Chuck Tatum. Aos poucos, seu mundo vai se esgarçando e Chuck já não é mais o seu ídolo.

a-montanha-dos-sete-abutres_1951_04 - Copia (2)Filme discutindo a si mesmo, ou mídia a se questionar, temos aos borbotões. Mas A Montanha Dos Sete Abutres (Ace In The Hole, no idioma original) merece todo o crédito pelo seu caráter premonitório de um tempo em que a mídia assumiria o protagonismo espúrio de ora. Antever isso em ´51 não parece trivial e não o é. O final do filme mostra, no roldão da exibição dos caracteres típicos de uma cidadela, o trágico a permear a vida humana e o quão não temos o timão das nossas atitudes nem o leme do nosso destino. Qualquer paralelo traçado com o modus operandi da mídia contemporânea é inevitável. Retrato vislumbrado e, infelizmente, confirmado. Ao vivo e em ‘cores Noir‘.

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Série: The Newsroom (2012/2014). Por Um Jornalismo Mais Ético!

the-newsroom_serie-de-tvthe-newsroom_01Por: Valéria Miguez (LELLA).
Ele é um âncora que acredita que mesmo um programa sem ter um cunho jornalístico possa se manter íntegro e ter audiência sem ter que apelar para o sensacionalismo ou mesmo inverdades. Avesso a fama advinda de polêmicas… Ele se vê saindo de uma hibernação ao ser contratado justamente para trazer a audiência de volta a um telejornal no horário nobre de um canal a cabo. Ele é Will McAvoy, personagem muito bem interpretado por Jeff Daniels! Afastado das mídias também por problemas pessoais… Mas mais por uma participação num programa onde McAvoy juntamente com outros convidados foram entrevistados por jovens estudantes. Esses, cientes até deu seu posicionamento político – o tinham como alguém em cima do muro… focam nele as perguntas… Bem, McAvoy até tentou se segurar… Mas num certo ponto, ele “explodiu”… Mas como um professor tentando colocar ordem na classe! Não para se calarem, mas sim para que raciocinassem até com o que estavam falando. Assim, e se valendo de uma das perguntas – “Por que a América é o melhor país do mundo?” – McAvoy então deixa a sua marca! Antológica, por sinal! Que até me fez lembrar de uma cena do filme “Obrigado por Fumar“, de 2006. Se nesse outro a lição fora para o filho… Neste, McAvoy sem querer acabou dando até para o mundo…

Como McAvoy passou a dominar a tudo e a todos no tal programa, de certa forma mostrou o paradoxo em sua personalidade. O saber falar em público, pensamentos próprios ou não, há de se ter que ponderar até por princípios éticos. Se carisma e até eloquência pode levar alguém a uma certa notoriedade, também pode levá-la a um domínio manipulador. Algo que McAvoy abominava! Algo que também não gostava, de até irritasse, era em não ver outra pessoa fazendo uso da própria inteligência. Que dirá então diante de uma platéia de jovens mais afeitos às celebridades! Um prato feito para ele! Como numa onde devolve uma pergunta com outra já emplacando um questionamento: “Privatizar? Eu não gostaria de que o Corpo de Bombeiros só fosse apagar as chamas na minha casa se eu estivesse com as mensalidades em dia!” E por ai segue… Mesmo mantendo a atenção para si, ele queria levá-los a se questionarem sempre, que não se mantivessem fechados a uma só “ideologia”, menos ainda a do “individualismo”, que se mantivessem abertos ao “socialismo”… O que acaba lhe uma nova legião de fãs. Pois mesmo que a princípio ele tenha ferido a exagerada xenofobia dos americanos: eles “se acham”… Agradando a muitos ou não… Mesmo não gostando, ele polemizou sim no tal programa. Até por já se mostrar contrário a tal pergunta no início desse texto. Aproveitando de tudo que fora falado até então, ele dá uma verdadeira aula para aqueles jovens! Englobando Geo-Política, Humanismo, História, Economia… McAvoy os conduziu ao seus próprios cérebros… Que estudassem mais antes de fecharem uma questão… Que questionassem sem aceitar de imediato uma informação dada vinda de quem vier… Porque o mundo não é só bem e mau, feio e bonito… Enfim, atônitos e êxtases… McAvoy deu uma grande aula para aqueles jovens!

the-newsroom_02Aula essa que também ficou memorável para uma outra pessoa. Que mesmo contrariando a CEO de próprio canal (ACN), a Leona Lansing (Jane Fonda), fora mais do que por estar atrás de audiência, fora por um olhar romântico dos bastidores de uma redação, que o presidente da divisão de notícias desse mesmo canal, Charlie Skinner (Sam Waterston, numa ótima atuação) que levara McAvoy para estar ser o âncora e o editor-chefe dando uma cara nova ao “News Night“. E para comandar toda a estrutura a dar base para ele, é contratada a produtora Mackenzie MacHale (Emily Mortimer, numa ótima atuação e que deu química com Daniels). Ambos também traziam na bagagem uma história pessoal e mal resolvida… Que acaba dando um tempero a mais na então nova relação profissional de ambos. Do qual Skinner não abria mão em tê-los no “News Night“. MacHale ciente do desafio, aceita! Ciente também da batalha diária, sabe que precisará de uma equipe bem compromissada também.

Assim, ao contabilizar quem estará junto com ela, MacHale se vê com algumas baixas levadas mais por conflitos com o McAvoy. Ele também não facilita nada nessa “seleção”. Entre os aceitos temos: Neal Sampat (Dev Patel) – escritor do blog de McAvoy e que vasculha a internet procurando por notícias; Jim Harper (John Gallagher Jr.) – o produtor sênior do “News Night” e que se verá entre dois chefes para lá de exigentes; Maggie Jordan (Alison Pill) – uma estagiária em busca de se tornar também uma produtora; Sloan Sabbith (Olivia Munn) – a analista financeira do “News Night“. Também no elenco fixo, entre outros tem: Don Keefer (Thomas Sadoski) – o antigo produtor executivo do tal telejornal saindo então para trabalhar em um outro programa na emissora.

Com a velocidade das informações dadas atualmente por conta da internet, a Série “The Newsroom” também vem como um remember com fatos ocorridos e há bem pouco tempo. Já que ela também levava no contexto da trama, acontecimentos reais. À contar de quando começou a produção, em 2011, até o cancelamento dela, em 2014. Mesmo eu que amo o Gênero Comédia, me levo a questionar do porque um Série com conteúdo sério é cancelada! Custo a crer que não dê audiência por lá, nos Estados Unidos. Tem tantas e sem relevância que duram tanto tempo… Enfim, mesmo ciente que esta teve vida curta… Para quem não tem os canais da HBO, mas tem o sinal aberto do Cinemax, aproveitem! A série está sendo exibida por ele, nas noites de sexta-feiras. Ainda no início da 1ª Temporada.

E mesmo dando para notar meu entusiasmo em mostrar o perfil do protagonista, o McAvoy… Vale ressaltar o quanto estou gostando de “The Newsroom“! Com acontecimentos reais como pano de fundo para os bastidores de um telejornal, intercalados com a história dos personagens. Com pinceladas de um humor bem inteligente! Uma pena mesmo que não teve vida longa! Enfim… Fica a sugestão dessa Série Nota 10!

The Newsroom (2012 – 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Curiosidades:
– O cenário de “The Newsroom” estava localizado no Sunset Gower Studios, em Hollywood. Mas o fictício prédio da Atlantis World Media, na realidade, foi a torre do Bank of America no cruzamento da 6ª Avenida com a Rua 42 em Manhattan, com efeitos visuais utilizados para alterar o nome do prédio acima da entrada.

– Âncora – O termo âncora (anchorma) surgiu em 1948 nos Estados Unidos para definir o profissional que centralizava todas as informações de uma cobertura jornalística. Tudo isso aconteceu em uma Convenção realizada na cidade de Philadelphia nos Estados Unidos, transmitida pela CBS.
A partir dessa definição de âncora, o termo foi se difundindo e se consolidando como o principal mediador dos telejornais, através dos quais as notícias seriam difundidas. Existem muitos mitos sobre a profissão, entre eles está o mito de que o âncora só trabalha na hora em que está gravando na bancada, que é muito diferente da realidade destes profissionais da televisão, que são antes de qualquer coisa jornalistas que fazem de tudo para transmitir a informação para os telespectadores.

– E um vídeo com a tal aula que McAvoy dá:

Philomena (2013). “Eu não abandonei meu filho.”

philomena_2013Por Pedro H. S. Lubschinski.
A história narrada pelo jornalista Martin Sixsmith em seu livro, The Lost Child of Philomena Lee (que por aqui recebeu o extenso título Philomena: uma Mãe, Seu Filho e uma Busca Que Durou Cinquenta Anos), nasceu para ganhar as telas de cinema. É uma daquelas histórias que, de tão incríveis, só poderiam ter ocorrido do lado de cá, na vida real. A Philomena (Judi Dench) do título é uma senhora de idade que 50 anos depois de ter seu filho pequeno tirado à força dela e colocado para adoção no convento em que vivia, decide procurá-lo com o auxilio do jornalista Martin (Steve Coogan), com quem embarca para os Estados Unidos onde a criança cresceu ao lado dos pais adotivos.

philomena-2013_stephen-frearsO grande mérito da produção dirigida por Stephen Frears se encontra na abordagem adotada pelo roteiro de Steve Coogan e Jeff Pope, que contrariando toda a dramaticidade presente na jornada de Martin e Philomena, opta por rechear o longa com um bem-vindo tom de leveza e comédia, que acaba por tornar o longa muito mais eficiente do que seria caso se enveredasse por um dramalhão barra-pesada. Assim, podemos acompanhar a relação entre a personagem-título e Martin ser estabelecida com calma e de maneira gradual, sem apelar para cenas que busquem emocionar o espectador com o drama de sua protagonista. Assim, por contraste, quando finalmente a obra de Frears assume sua dramaticidade, o choque que essas cenas proporcionam se torna maior, resultando em emoção genuína para a narrativa.

E já que mencionei a relação entre a dupla de protagonistas, é inegável que são esses dois personagens tão distantes em personalidade, mas próximos a partir do estabelecimento de um objetivo em comum, a grande força de Philomena. Encarnado com um preciso tom ácido por Steve Coogan (o nome não é coincidência, ele também assina o roteiro), Martin é um homem cínico e incrédulo. Jornalista que há pouco tempo possuía prestigio e um belo cargo em uma grande emissora, o personagem agora surge como um homem deprimido em função de sua demissão injusta e forçado a explorar uma “história de interesse humano”, algo que tanto repudiara em outros momentos. Assim, é interessante como ao longo da projeção Martin se vê mais próximo do drama de Philomena, indo de um jornalista interessado em sua história a um amigo que em um momento de particular desespero não se inibe em abraçar aquela mulher que chora em sua frente. Não que o filme – e aqui reside mais um grande acerto do roteiro – tente nos fazer aceitar que o personagem é mudado pela personagem de Judi Dench. O filme apenas estabelece uma ligação entre aquelas figuras, mas jamais tenta mudar as personalidades dispares que se mantém até o fim da produção.

philomena_2013_01Da mesma forma, a protagonista é devidamente desenvolvida pelo roteiro, surgindo como uma senhora simpática e de bem com a vida – “você é um em um milhão” é seu bordão ao conversar com alguém -, Philomena logo vai revelando marcas de sua tragédia pessoal que não poderíamos supor em um primeiro momento, substituindo seu sorriso marcante por uma expressão fechada e a decepção de que talvez seu filho que tanto procurou, jamais tenha ao menos pensado na existência dela. Além disso, é interessante a relação da personagem com sua própria fé, já que foi num local onde o amor à Deus e ao próximo deveria ser celebrado onde ela sofreu sua grande perda, o que a leva em determinado momento deixar de se confessar, como se percebesse que nem tudo o que um dia lhe disseram ser errado é realmente pecado, algo que, no entanto, não a impede de desculpar uma mulher que tanto lhe causou dor por não querer viver o resto de sua vida com raiva. E agarrando com talento inegável toda a complexidade da protagonista, temos a excelente Judi Dench, que utiliza cada ruga e linha de expressão de seu rosto para entregar uma atuação emocionante.

philomena_2013_02O texto a seguir contém spoiler.
Mas se elogiei à exaustão o roteiro no que diz respeito ao desenvolvimento de seus personagens e das relações entre eles, devo dizer que o texto não está isento de deslizes. Tudo parece fácil demais para a dupla de protagonistas quando eles chegam aos Estados Unidos – toda informação chega facilmente nas mãos deles, as pessoas abrem a vida do filho de Philomena sem questionar a possibilidade dela não ser realmente mão de quem procura e, quando convém uma pequena ameaça ao roteiro, o companheiro do filho de Philomena se faz de difícil em cooperar com sua busca, apenas para ser convencido facilmente pela velhinha. Da mesma forma, a filha da personagem de Judi Dench é esquecida pelo filme, não surgindo nem ao menos para ligar para a mãe preocupada com a viagem que lhe faz atravessar o oceano.

Dirigido com sutileza por Stephen Frears, Philomena apresenta, no entanto, um deslize que acaba por sabotar uma importante cena de seu terceiro ato: a inserção de flashes de vídeos com o filho da protagonista ao longo da projeção castra boa parte da emoção do momento em que a personagem finalmente assiste os tais vídeos. Por outro lado, é digna de aplausos a coragem da produção em retratar o “lado feio” da Igreja e da profissão de jornalista: da segunda, o filme critica, ainda que de maneira discreta, a posição de jornalistas e editores que alheios ao sofrimento de diversas pessoas busca apenas a noticia em acontecimentos trágicos, ignorando os sentimentos dos envolvidos. E da primeira, denuncia e critica as atrocidades cometidas ao longo dos anos com pessoas que tiveram como único erro expressar os próprios sentimentos – e ver Martin questionar a certa altura “por que Deus nos daria desejo sexual se fosse pecado” é algo que serviria para tantas outras questões que algumas partes mais conservadoras da Igreja insistem em atribuir como pecado, negando a própria natureza do amor defendido pelo mesmo Deus que utilizam para oprimir.

Equilibrando-se muito bem entre os extremos do drama e da comédia e oferecendo no caminho uma obra agradável de assistir, Philomena surpreende – ao menos me surpreendeu, já que não esperava nada do filme – ao se revelar uma obra que, se não está entre as melhores do ano, ao menos é um bom filme recheado de qualidades.

Gata Velha Ainda Mia (2013)

Gata-Velha-Ainda-Mia_filmeRegina Duarte tem a chance de escapar mais uma vez do estigma de “namoradinha do Brasil” que ainda a persegue desde quando estreou na televisão na década de 60.

Neste engenhoso e tenso trabalho de Rafael Primot, Regina encarna a velha escritora ranzinza, Gloria Polk, que não escreve faz tempo. Nessa pausa com as letras, ganha a vida como cozinheira, mas resolve retomar um antigo personagem na forma de um novo livro. O problema é que não sabe como definir o desfecho do romance. Sua mente já perturbada confunde ficção e realidade quando a jovem Carol (Bárbara Paz) chega para entrevistá-la.

gilda-nomacce_em-gata-velha-ainda-miaO encontro das duas suscita uma discussão interessante num embate de gerações cheio de ideias divergentes. Num dos diálogos, a escritora Gloria Polk responde porque gente velha acumula tanto cacareco. Ela explica que os bibelôs agem como alavanca para acionar a memória senil. Complementa que os jovens estão cada vez mais impessoais por não saberem preservar a textura do passado. Digitalizam, editam, deletam, mas não retêm. Essa contenda difícil de concluir é habilmente interrompida pela chegada do bizarro personagem Dida (Gilda Nomacce), uma vizinha estranha e intrometida que começa a dar uma nuance soturna à trama.

Ainda que precise de um ou outro pequeno ajuste, especialmente em sua segunda parte, quando o roteiro ganha tons mais pesados, o filme tem o mérito da ousadia, quando flerta deliciosamente com os gêneros noir e terror, raros no Brasil.

Carlos henry

A Grande Beleza (La grande bellezza. 2013)

A-Grande-Beleza_2013_cartazDifícil ficar impassível diante do filme “La Grande Bellezza” de Paolo Sorrentino, assim como é difícil acompanhá-lo. É uma obra complexa e que convém ser vista mais de uma vez. Intensamente belo como o título, desfila imagens de Roma de tirar o fôlego até os créditos finais. Remete a Fellini quando evoca a religião em quase todos os momentos da estória, mas de uma forma bem menos satírica ou debochada, ainda que cheia de humor.

O ponto central é um figurão da alta sociedade italiana cujo desencanto aos 65 anos é amparado em festas repletas de bizarrices e situações decadentes acompanhadas por um séquito não menos incomum (Sua editora, por exemplo, é uma anã bem resolvida com seu tamanho). Ele é jornalista e procura motivação para voltar a escrever. Sua personalidade é ácida, mas compreensiva. Consegue enxergar tudo com sensibilidade e sarcasmo, o que cria passagens fantásticas como quando visita os monumentos de Roma (Marforio), ou nas ricas conversas com a empregada ou com a “santa” madre que ele tenta entrevistar. A suposta santa-freira acredita ter poderes, dorme no chão, só come raízes e fala com os pássaros. Ela é protegida por um estranho cardeal metido a chefe de cozinha que já foi exorcista e aspira ao cargo papal.

O ponto chave da procura incessante da grande beleza pelo protagonista parece estar na sequência do mágico que frustra o desejo do rico escritor quando pede para desaparecer como a girafa da cena. A resposta é reveladora: “– Você acha que se eu soubesse de fato fazer alguém sumir, estaria aqui fazendo essas bobagens? É só um truque.”

A mais provável resposta dessa busca é que a grande beleza é ilusória, inconclusiva, não existe. Mas também pode estar numa peça maluca onde a artista corre nua para bater num muro, na criança que se esfrega de tinta colorida numa enorme tela diante de uma plateia extasiada, na exposição de fotos de cada dia da vida de um homem desde os quatorze anos até sua maturidade, na inocência do primeiro amor ou na beleza interior da freira que abdica de tudo para virar santa. O espectador escolhe.

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.