A Espiã Que Sabia de Menos (Spy. 2015)

a-espia-que-sabia-de-menos_2015_cartazFazer uma paródia e de filmes do tipo James Bond pode até soar redundância. Porque convenhamos, o cara retirar uma roupa de mergulhador e por baixo já estar com um smoking impecavelmente alisado, é nonsense puro. Ou mesmo quando o 007 mergulha de um penhasco e consegue entrar num avião que despencara antes dele e sair pilotando numa boa. Com isso o Diretor Paul Feig já tinha diante de si um prato cheio, ainda mais que ele também assina o Roteiro: era brincar em cima daquilo tudo. Restando saber então se ele teria conseguido. E sim! Ele acertou a mão! Pois “A Espiã Que Sabia de Menos” é muito bom!

a-espia-que-sabia-de-menos-2015_01Se o próprio personagem James Bond já teria diante uma alta tecnologia em armamentos, é claro que um espião de hoje conta com muito mais. Como por exemplo, um olhar a lhe guiar em tempo real: satélites e drones ligando o espião em campo a alguém numa salinha a milhas dali. Os fãs de 007 podem até não gostar dessa “nova versão” para o seu querido agente, mas enfim uma paródia tem total liberdade para não o primar de um alto QI e sim liberando muito mais o sex appeal desse personagem. Assim temos em “A Espiã Que Sabia de Menos” como o agente galã, o Bradley Fine, o ator Jude Law. Não sei se ele quis participar desse filme como um laboratório tipo quem sabe um dia vir a interpretar o “007“, ou mesmo sendo um fã do personagem ter um gostinho interpretando-o mesmo que numa paródia. Enfim, mesmo para mim que sou fã do ator em Comédias Românticas, ou mesmo nas que pendem para um Drama, ele não me agradou de todo. Não sei se ele também preferiu ficar mesmo no caricato, até para “não queimar o filme” dele nesses outros tipos de filme onde ele é excelente! Mas nesse aqui ele deixou a desejar. Para a sua performance eu daria um 7,5.

a-espia-que-sabia-de-menos-2015_02O tal olhar a guiar esse agente vem de uma sala muito da esculhambada e dentro da própria agência, a CIA em questão. A ela é dado o tal QI que falta no tal agente de campo. Sendo assim usa com maestria toda a parafernália tecnológica a sua frente. Ali comandando tudo aquilo ela se sente uma agente 007 de saia. Ela é Susan Cooper, personagem de Melissa McCarthy. Eu não sei se Paul Feig escreveu já pensando nessa atriz, o certo é que acertou em cheio. McCarthy está excelente! Não apenas pelo biotipo, mas principalmente pela performance: há cenas que ficarão na memória e pela ótima atuação. Nota 10.

a-espia-que-sabia-de-menos-2015_03Por um erro de Bradley, e para não comprometer o andamento da missão, se fez necessário ter um novo agente em campo, e que fosse desconhecido. É quando Susan se oferece dela própria ir investigar mais de perto o tal traficante de armas. Bem, pelo menos é o que promete a sua superior (Allison Janney). Agora uma coisa era trabalhar atrás de um computador, e outra bem diferente era se passar por um espião. Mas de tanto ser os olhos e o cérebro do Bradley, deu a ela confiança de sobra, até em se achar meio invisível. Que de um jeito ou de outro ela vai conseguindo se infiltrar no território inimigo. Quem quase vai entornando o caldo é o agente Rick Ford, personagem de Jason Statham. Esse sim faz um ótima dobradinha com a McCarthy! Statham faz um agente bem tosco e está impagável! Para ele Nota 10.

a-espia-que-sabia-de-menos-2015_04Outro personagem que também rouba a cena é Nancy, interpretado por Miranda Hart. Nancy passa então a ocupar o lugar de Susan na tal sala. Bem, ela até tenta também conviver com os ratos que por lá aparece, mas a questão que ela se empolga com a “promoção” de Susan. Empolgação é pouco! Que pelo jeito a tal salinha ficou pequena demais! Nancy não iria perder a chance… Mesmo sendo uma comédia um pouco de surpresa também conta. Agora, se houver uma continuação para “A Espiã Que Sabia de Menos“, além claro de Melissa McCarthy e de Jason Statham, Miranda Hart também carimba sua participação! Sua Nancy até me fez pensar na personagem Lucy de “Meu Malvado Favorito 2“, que eu também gostei muito! Nota 10!

Claro que um outro “coadjuvante” de peso é a Trilha Sonora. Começando com “Who Can You Trust“, de Ivy Levan, dando uma cara de um real “007”. Para mais tarde “Dancing Lasha Tumbai” mostrar que se trata mesmo de uma comédia escrachada! Até tem um love incendiante com a participação do cantor 50 Cent. Tudo num acorde perfeito, mesmo quando as figuraças parecem sair do tom!

Whoopy-Goldberg_e_Melissa-McCarthyO Diretor Paul Feig está de parabéns! Soube tirar proveito dos nonsenses dos filmes de espionagem num roteiro enxuto. E embora também tenha me levado lembrar do filme “Salve-me Quem Puder” (1986) por conta da personagem de Whoopy Goldberg, talvez numa de uma ideia que leva a outra, mas que acabei vendo como uma homenagem e a ambas atrizes com suas personagens que mesmo que atrapalhadas se saíram bem em suas missões, inclusive em divertir o público! Então é isso! O filme “A Espiã Que Sabia de Menos” é muito bom! Nota 9!

Por: Valéria Miguez.

A Espiã Que Sabia de Menos (Spy. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb

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O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel. 2014)

O Grande Hotel Budapeste-2014_personagensÀ primeira vista, O Grande Hotel Budapeste parece ser uma divertida comédia para todas as idades, mas seu humor e muitas das temáticas tratadas vão além dos 18 anos. O filme gira em torno das aventuras de Gustave H. (Ralph Fiennes), lendário concierge (algo entre recepcionista e gerente geral) do magnífico Hotel Budapeste, e seu fiel lobby boy Zero (Tony Revolori), que é o narrador “raiz” da história. E a narrativa é justamente um dos muitos pontos de destaque dessa obra. Dentre outras coisas, o filme é uma homenagem a arte de se contar uma história, o que é revelado nas várias camadas de narrativa que ela possui: nos dias atuais, uma garota lê um texto de um renomado escritor, no qual ele relata uma história que lhe foi contada em 1968 por um velho senhor em um velho hotel; tal história tem início em 1932, no auge do sucesso do Grande Hotel Budapeste. Sendo assim, a realidade em tela é uma versão de uma versão de uma história (ou seria uma interpretação de uma interpretação?), o que lhe dá a licença poética necessária para essa exuberante obra.

O Grande Hotel Budapeste-2014_01Mas para falar desse filme e justificar os adjetivos utilizados no parágrafo anterior, vamos, por enquanto, nos concentrar em seu protagonista. Gustave H. é o que podemos chamar de um nobre, ingênuo e adorável cafajeste. Apesar de sua sensibilidade e jeito afetado (o que lhe rende algumas ofensas homofóbicas ao longo da película), ele gere com punho de ferro todo o staff do hotel, exigindo perfeição em cada detalhe. Sua fiel clientela de mulheres “ricas, velhas, inseguras, vaidosas, superficiais, loiras e carentes” é mantida graças à sua amabilidade e ao intenso relacionamento sexual que ele mantém com todas elas.

A propósito, ela é pura dinamite na cama.”
Ela tem 84 anos…”
Já fiquei com mais velhas.”

É sua fina educação e mesmo sua cômica pedância (ele insiste em recitar pomposos poemas mesmo nas situações mais triviais ou inapropriadas) que oferecem um contraponto às principais ameaças à sua grandiosa realidade: guerra e ganância. A aventura começa quando uma de suas mais fiéis clientes é assassinada e seus gananciosos herdeiros armam para que ele seja acusado do assassinato. Paralelamente, o fictício país no qual a história se passa está sendo invadido por fascistas estrangeiros. Esse simbolismo é um tanto óbvio: essa situação representa a invasão da Áustria pelo regime nazista, evento que seria o estopim da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, isso não é o suficiente para abalar sua civilidade.

Vocês são o primeiro esquadrão da morte oficial ao qual nós fomos formalmente apresentados. Como estão?

E sua civilidade é um dos principais pontos do filme, apesar de que em alguns momentos até ele duvide da relevância de suas cordiais atitudes diante de uma realidade brutal e selvagem.

Veja, ainda existem fracos vislumbres de civilidade restantes nesse bárbaro matadouro que já foi conhecido como humanidade. De fato, é isso que provemos em nosso modesto, humilde e insignificante… ah, dane-se.”

O Grande Hotel Budapeste-2014_02Sua ingenuidade quase infantil está no fato de achar que essa civilidade é o suficiente para aplacar a barbaridade do mundo que de repente o cerca; e que mesmo o mais rabugento dos seres humanos precisa apenas ser amado. Ela também se revela em sua prontidão em ajudar qualquer um que precise, mesmo que sejam perigosos criminosos que desejam fugir da prisão na qual ele também foi jogado. Em todas suas relações, seja com os criminosos, seja com Zero, seja com suas clientes, fica clara a sua vocação em ser um fiel servente e fazer o máximo possível para ajudá-los, ainda que em todas elas ele também desfrute de inúmeras vantagens. Além de ingênuo, Gustave também parece ser amoral.

Tal personagem é mais fácil de ser escrita/imaginada do que interpretada, e é aí que entra toda a experiência de Ralph Fiennes, que a interpreta de forma tão magnífica que não conseguimos imaginar nenhum outro ator em sua pele. A elegância, a afetação, a pedância, as raras e contidas explosões de fúria: tudo isso é perfeitamente equilibrado pelo ator, que se destaca e está aqui em uma de suas melhores interpretações. Esse destaque tem ainda mais relevância quando levamos em conta o elenco absurdamente estelar desse filme, que conta com muitas participações e personagens menores interpretadas por nomes como Tilda Swinton, Adrien Brody, Harvey Keitel, Jude Law, Jeff Goldblum, Williem Dafoe, Tom Wilkinson, Edward Norton, Mathieu Amalric, Saoirse Ronan, Bill Murray, Owen Wilson, dentre outros (se você não conhece algum dos nomes, certamente reconhecerá todos os rostos). Outro que não desaparece em meio à essa fantástica constelação é Tony Revolori, interprete de Zero. Eu poderia falar um pouco mais sobre essa interessante personagem e seu empolgante caso de amor, mas o texto já está longo o suficiente.

Além do humor negro nas passagens citadas acima, o filme também é divertidamente impiedoso com as personagens secundárias, e algumas delas terão mortes violentas, sangrentas e com alguns requintes de crueldade. Isso aumenta o nível de tensão e contrasta ainda mais com o pitoresco e vibrante colorido dos cenários e do figurino; além de contrastar com o tom leve da narrativa.

Então é isso: uma divertida, estimulante e amoral aventura para aqueles que acham graça em piadas de dedos sendo decepados e gatos sendo atirados da janela de edifícios.

Por Marcos Vieira.
★★★★☆

Terapia de Risco (Side Effects. 2013)

Terapia De Risco-2013A evolução da geração prozac para a felicidade da indústria farmacêutica.

A dupla Steven Soderbergh e Scott Z. Burns, Diretor e Roteirista, conseguiram uma oitava maior em “Terapia de Risco“. Apararam as arestas após e com “Contágio“. Dando a esse outro um grau de excelência. É um Thriller Psicológico de querer rever tão logo o filme termina. O porém ficou com essa análise: se teria ou não spoiler. Optei por não trazer.

Num resumo, o filme conta a história de uma jovem, a Emily (Rooney Mara), que mesmo tendo o marido, o Martin (Channing Tatum), novamente ao seu lado vive numa fase depressiva e que após uma tentativa de suicídio se vê tendo que fazer terapia com o psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law). Esse por sua vez receita um novo antidepressivo sem antes verificar os efeitos colaterais.

Terapia de Risco” traz como pano de fundo a indústria farmacêutica no mercado dos Estados Unidos, e pelo título original “Side Effects” num detalhamento maior sobre o efeito colateral danoso de um medicamento em especial.

Quem como eu gostou, gosta da Série ‘House’ viu em alguns episódios ele confrontando com os fabricantes dessas drogas lícitas. Por ser ele um médico voltado ao diagnóstico – e numa fase bem crítica do paciente -, com isso para não deixá-lo morrer, Dr. House e sua equipe precisam entender e bem dos medicamentos que irão ministrar nesse paciente. Como também o conhecimento se faz necessário para que os efeitos secundários não prejudiquem o tratamento. Tal qual a vida real, uma grande parte dos médicos pensam no tratamento e cura do paciente.

Acontece que a indústria farmacêutica é poderosa por demais, e que por conta disso ganha por todos os lados. Mais ainda dentro dos Estados Unidos. Até com a disseminação do medo. Como também com o mercado de ações. Sem esquecer que culturalmente extrapolam no quesito competitividade com o binômio ‘looser x winner’. Por conta disso se apoderam também de um grande filão que é a automedicação. Proliferando os calmantes e os estimulantes.

Um outro fator que a farmaco também conta é com a cobiça. Vence o mais ladino. Aqui entra em campo a Dra. Vitoria. Personagem da Catherine Zeta-Jones. Banks que além de um cargo público, possui uma pequena sala onde atende os pacientes particulares, se encanta com o consultório dela numa bela mansão.

Nessa guerra nem precisa estar realmente doente para virar joguetes para esses fabricantes. Mas focando na temática do filme que mostra depressão como primeiro plano, claro que a descoberta de novas drogas se faz necessário. O que leva pensar se fabricam sempre um novo, em como chegam com essa nova droga no mercado e nos médicos, em particular na psiquiatria. Quanto maior pesarão o lucro, mas dinheiro lançarão em campo. Luxuosas “cortesias”. Já que não jogam para perder, se cercam de grandes escritórios de advocacia aptos a pular na jugular de quem sai do esquema. Pois é! O sistema que corrompe não se restringe apenas ao mundo da política.

Agora, alguém sairá perdendo. Nem causa estranheza que seria o lado mais fraco, ou menos esperto. Mas mais do que se descobrir quem seria, o impacto mesmo fica em torno de como banalizam toda essa teia. Essa sim assusta! De ao final do filme me deixar por alguns longos segundos sem fala, para logo em seguida sonorizar um “Uau!”. Mas também me deixou na dúvida se seria politicamente correto aplaudir com entusiasmo pelo teor da trama. Porque o filme como um todo merece sim muitos aplausos. Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Terapia de Risco (Side Effects. 2013). EUA. Direção: Steven Soderbergh. Gênero: Crime, Drama, Thriller. Duração: 106 minutos. Classificação etária: 12 anos.

Anna Karenina ( 2012)

92942_galDe todos os filmes que assisti este ano, Anna Karenina foi o mais impressionante em termos visuais– fiquei realmente encantado! Essa nova tradução da obra de Tolstoi,  não é um musical, mas poderia ter sido. E, isto se deve a presunção de Joe Wright, principalmente de colocar uma peça-dentro-de-um-filme. O uso do palco elaborado define muito bem o mundo, a nossa vida, o tempo e o lugar, onde tudo é nada mais do que ilusão e uma construção de que “o mundo é um palco “,  ou uma projeção do que acreditamos.

Na primeira parte do filme, os cenários sobem e descem, a câmera em traveling vai de um canto a outro, seguindo os atores, que tem seus passos e gestos lindamente coreografados!. E depois, temos a cena do baile, que é de encher os olhos pela sensualidade, e harmonia. Enquanto, Anna e Vronsky dançam como se estivessem possuindo um ao outro, temos os outros atores congelados. Magistralmente emoldurado pela tocante trilha sonora escrita por Dario Marianelli, que se não ganhar o Oscar este ano, ficarei profundamente revoltado!-, e o lindo trabalho de edição, direção de arte, figurinos e fotografia!

Infelizmente, a segunda parte do filme é fraca, porque Anna Karenina exige não apenas um belo rosto, mas uma boa atriz, coisa que Keira Knightley não é. Reconheço que neste filme ela está linda, principalmente nas cenas onde não fala (lindos closeups) e nem mostra sua boca “escancarada; cheia de dentes, esperando a morte chegar…” Não entendo como essa atriz super limitada consegue protagonizar tantos filmes. Ela faz uma Anna Karenina que é a própria paranóia em pessoa, longe da personagem que li no livro de Tolstoi: uma mulher que se torna cruel, vingativa, e auto-destrutiva– e que apenas consegue ver a sua existencia, de acordo com seu objetivo único – manter a sua relação de amor com Vronsky.

Além do fator Keira, que não pode carregar o filme, o Vronsky de Aaron Taylor-Johnson é bastante extravagante, e um completo idiota.  Um menino bonito, mas um ser não confiável, e enfeitado demais para ser crível — me poupe os close-ups de seus olhos azuis! E, tudo é tão óbvio em relação a natureza desse personagem, que é duro de compreender a louca decisão de Anna de deixar seu marido e filho, jogando tudo ao vento por tal amor!. Antes mesma da sua primeira noite de amor com Vronsky, já queria ve-la se jogando debaixo do trem!.

Matthew Macfadyen faz o irmão adúltero de Anna, que parece que saiu do filme de Mike Leigh, Topsy-Turvy (1999). Jude Law faz o marido sofrido da protagonista, e se sai ileso, mas é o desempenho sutil de Domhnall Gleeson, que quase rouba o filme , fazendo o idealista Levin. Não conhecia esse ator, e me encantei!

Sim é verdade, a beleza cansa!. E, por mais que gostei do filme, Anna Karenina necessita de paixão, pois seus 130 minutos de  duração, pareceram intermináveis para mim!

Nota 7/10

Hugo (2011) + Scorsese + Uso Inteligente do 3D = Obra-Prima!

Mesmo já tão decantado em versos e prosa – e com todo mérito -, mesmo com um certo atraso, eu não poderia deixar de registrar a minha impressão desse filme. Até por conta das referências de eu ir assistir numa Sala em 3D. Então fui conferir, e…

Depois do sucesso de bilheteria de “Avatar“, de James Cameron, vulgarizaram tanto o 3D atrás de rendas grandiosas, que talvez seja esse o motivo que tal feito no filme de Martin Scorsese não tenha se repetido. Pelo menos em relação ao Oscar 2012 lhe fizeram justiça. Mas faltou o de Melhor Diretor. Pela grandiosidade do uso da tecnologia do 3D. Como também por nos manter atentos por duas horas de filme. É uma pena que o grande público não pode absorver a belíssima história contada por Martin Scorsese. E quem assistiu “A Invenção de Hugo Cabret” numa Sala em 3D, com certeza ficou com vontade de aplaudir ao final do filme.

Já ciente de que o filme seria longo, mas também de que era muito bom, arrisquei e levei, junto comigo para assistir, três “termômetros”: um adulto que gosta muito mais do Gênero Comédia, um adolescente o qual desconheço o gosto, e uma criança que iria ver seu primeiro 3D. Minha dúvida recaiu-se nesse, até pela duração do filme. De início ele ficou encantado com essa tecnologia; naquela de até querer tocar na imagem. Mas lá pela metade do filme resolveu explorar a Sala de Cinema. Como fez isso em silêncio, como também não tinham nem umas vinte pessoas, relaxei e voltei de todo minha atenção ao filme, mas ainda a tempo de ver três mulheres saindo da Sala. Cheguei a pensar se teria sido por algo que comeram antes da sessão. Mas enfim, voltei ao filme.

O talento para algo pode ser genético. Faltando a um adulto mais próximo mostrar a chave para que o jovem a descubra, por vezes ainda na infância. Mas a vida traçou uma linha torta para Hugo Cabret (Asa Butterfield). Lhe tirando seu bem mais precioso: seu pai. Uma pequena grande participação de Jude Law. Viviam felizes os dois entre responsabilidades, estudos de forma prazeirosa, e muita diversão. Fora o seu pai que despertou nele a paixão por Cinema. Mas um incêndio leva o seu pai. Então seu tio Claude (Ray Winstone) se torna o responsável levando-o para morar com ele. E Hugo leva algo que ele e o pai vinham consertando nas horas vagas: um autômato encontrado num museu. Assim, era como ter o pai junto a si. Aplausos para Asa Butterfield!

Sem o coração, não pode haver entendimento entre a mão e o cérebro”.

Claude morava numa Estação de Trem, em Paris. Era ele quem fazia a manutenção dos relógios. Ensinando o seu ofício ao menino. Beberrão, a vinda do menino lhe daria mais folga não apenas para beber, mas também para sair daquelas cercanias. Para Hugo, todo aquele mundo que via através dos grandes relógios ajudou a amenizar a dor pela perda do pai. E aprendendo a consertar relógio, lhe deu um caminho para a tal engenhoca. Mantendo os relógios pontuais, ambos se tornavam invisíveis aos olhos de todos.

O vai e vem diário dos passageiros, assim como dos trabalhadores e frequentadores das lojas na Estação de Trem, era para Hugo como a tela de um filme. Dos seus pontos de observação, ele já conhecia os hábitos de todos. Por caminhos internos, de desconhecimento geral, Hugo ia de um ponto a outro. Sempre a observar. Sonhando em voltar a sentir o calor e carinho de uma família. Até esse dia chegar, ia vivendo uma aventura solitária. Mas com o relapso tio, para não passar fome, se via obrigado a roubar pães, frutas, leite… Sendo que para isso teria que se fazer de fato invisível aos olhos do Inspetor da Estação. Personagem de Sacha Baron Cohen. Que está formidável!

Se você já se perguntou de onde vem os seus sonhos, olhe ao seu redor. É aqui que eles são feitos.”

Hugo também tentava se tornar invisível para o dono da loja de brinquedo. É que Hugo precisava de pecinhas dos brinquedos de corda, para a tal engenhoca. Mas um dia, o dono da loja, Georges Méliès (Ben Kingsley), lhe dá um flagrante. Dando início a uma nova aventura. Sendo que dessa vez Hugo não mais estará observando, ele fará parte desse roteiro de vida. Tudo porque George lhe toma o livro de anotações do seu pai. O que leva Hugo a conhecer e ficar amigo da sobrinha de George, a jovem Isabelle (Chloë Grace Moretz). Essa, sedenta por vivenciar uma aventura real, como dos livros que lia. Ela levará Hugo para conhecer o seu mundo dentro da Estação de Trens: a loja de livros do Monsieur Labisse. Outra grande participação nesse filme, pois quem interpreta é Christopher Lee. Aplausos também para Ben Kingsley e Chloë Grace Moretz!

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.” (Chaplin)

A história de “A Invenção de Hugo Cabret” é fascinante: em colocar paixão naquilo que fizer. Mesmo o filme estando bem redondinho, fiquei com vontade de ler o livro homônimo de Brian Selznick, no qual o filme foi inspirado. O Roteiro de John Logan conseguiu contar e bem toda a aventura e desventura de Hugo. E Martin Scorsese conseguiu sim fazer um excelente uso do 3D. O que até me leva a ser repetitiva, mas é por uma torcida de que os demais Diretores só usem esse recurso de modo inteligente. Como também que as crianças que assistirem esse filme, além de ser tornar um cinéfilo, que também passem a gostar de lerem livros. O filme também tem isso de bom: incentivo à leitura. Great!

Um vídeo muito bom para quem não viu, ou viu e queira rever, de um Making Of dos Efeitos Visuais em “A Invenção de Hugo Cabret“: Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Então é isso! Uma Obra-Prima que vale o ingresso para assistir em 3D. Um filme onde não se resiste em aplaudir no final.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011)

É o filme mais-que-perfeito que vi nos últimos cem anos. Parece que todos os deuses da sétima arte resolveram colaborar com o mestre Scorsese a superar seu próprio recorde de genialidade. Uau! Nessas horas até podemos nos dar ao luxo de esquecer por alguns minutos da eterna pergunta “Quem surgiu primeiro: o ovo ou a galinha?” Ou quem foi que inventou o cinema: Thomas Edison ou irmãos Lumière? Em Hugo, os dois eis que contracenam.

O importante é lembrar que também somos feitos da mesma matéria do cinema e a história resume-se na re-união de todos os elementos desde sua criação.

“A chegada do trem na estação” pode-se dizer que esse veículo sai dos trilhos pegando de surpresa os passageiros na poltrona: um 3D para ninguém reclamar de susto. E um presente com um pouco dos 80 filmes de Georges Méliès foi “A viagem à Lua”,… e as mais acertadas escolhas para nos brindar são as presenças de Christopher Lee, Ben Kingsley, Chloë Grace Moretz, Sacha Baron Cohen, grande elenco, grandes nomes, filme fantástico.

Bravo, bravíssimo!
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