A Menina que Roubava Livros (The Book Thief. 2013)

a-menina-que-roubava-livros_2013Por Humberto Favaro.
Leve, sensível e extremamente emocionante, a adaptação aos cinemas do livro A Menina que Roubava Livros, do escritor Markus Zusak, nos mostra a história da jovem Liesel Meminger, num trabalho magnífico realizado pela atriz Sophie Nélisse (O Que Traz Boas Novas).

a-menina-que-roubava-livros_2013_01Durante a Segunda Guerra Mundial, por não ter escolha devido ao regime nazista, a mãe de Liesel, que é comunista, é forçada a entregar a menina e seu irmão para outra família, porém, antes de serem entregues, o garoto morre no trajeto e é enterrado num lugar próximo. No processo de enterrar o menino, um dos coveiros deixa um livro cair no chão e Liesel imediatamente rouba o seu primeiro livro, mesmo sendo analfabeta. É aí que a Morte se interessa pela menina e começa a narrar os acontecimentos do longa.

a-menina-que-roubava-livros_2013_02Depois do ocorrido, Liesel é entregue a sua nova família, um casal sem filhos, interpretados por Geoffrey Rush (O Discurso do Rei) e Emily Watson (Anna Karenina). De início, a jovem não se acostuma com o novo lar, mas aos poucos é conquistada de forma sutil e engraçada por Hans, seu pai adotivo, e é com quem começa ter uma relação tão amorosa que chega a ser emocionante em alguns momentos do longa. Já a mãe adotiva, Rosa, é mais “sangue frio” e trata a menina de forma mais séria, o que proporciona alguns risos.

a-menina-que-roubava-livros_2013_03Na nova vizinhança, Liesel começa novas amizades, mas logo é obrigada a ter Rudy (Nico Liersch) como seu melhor amigo, já que o menino implora a atenção dela o tempo inteiro. Apesar de terem a mesma idade (?), é perceptível a diferença de pensamentos de Rudy e Liesel. O menino é muito mais influenciado pelo nazismo do que ela. Certos momentos do longa, Liesel parece não concordar com alguns atos do regime, enquanto Rudy o segue como um carneirinho. Porém, mais tarde, Liesel consegue influenciar Rudy e fazê-lo pensar sobre quem é Hitler e o menino acaba chamando o führer de “bundão” num momento de euforia.

a-menina-que-roubava-livros_2013_04Outro personagem importante da trama é Max (Ben Schnetzer), um judeu que se refugia na nova casa de Liesel, e que é impedido de sair de lá por motivos óbvios. Com o mesmo amor que sente por seu pai, Liesel se apega a Max, que se torna de suma importância na vida da menina e é quem a incentiva a ler e a escrever. Uma das frases mais marcantes do longa é dita por ele: “Se seus olhos falassem, o que diriam?” Então a garota narra como está o tempo e, chorando Max agradece, já que a menina detalha tanto que ele consegue enxergar e fica feliz, porque está no porão e não vê a luz do sol há muito tempo.

a-menina-que-roubava-livros_a-morteA Menina que Roubava Livros conta com uma fotografia fantástica e com um figurino que não deixa a desejar. Grande parte das cenas do filme podemos ver a presença do vermelho, que reforça a presença do nazismo em todas as situações da trama. Outro fator que ajuda a dar ainda mais emoção ao filme é a trilha sonora de John Williams, indicado na categoria Melhor Trilha Sonora no Oscar 2015.
Avaliação: 6.0.

A Menina que Roubava Livros (The Book Thief. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Cinco Dias Sem Nora (Cinco Días Sin Nora. 2008)

A última instância de recurso é a observação e a experimentação. Não a autoridade.” ( Thomas H. Huxley)

Valeu o ingresso! Assim como a ida até outro ponto da cidade. O que faz valer também uma reclamação aos Distribuidores que limitam as Salas onde filme que não são tidos como comerciais serão exibidos. Mais! Ao determinarem também o local, demonstram preconceitos aos que moram no Subúrbio, numa de que ai não há cinéfilos que gostam desses filmes. Se visam o número de ingressos vendidos, nessa sessão tinham menos de 20 pessoas. Enquanto que para a Sala ao lado o pipocão “Se Beber, Não Case 2” já estava com ingressos esgotados meia hora antes do início da sessão. O que os Shoppings nos Subúrbios deveriam fazer: exibir na maioria das Salas os caça-níqueis e deixando uma delas para os tidos como Cult. Bem, reclamação feita, ora e vez de comentar o filme.

Cinco Dias Sem Nora” traz um tema que nem todos digerem bem: a morte de um ente querido. Ele vai além, já que foi por suicídio. O filme não determina que tipo de problema específico a personagem título, a Nora, tinha, mas ao longo da estória ficamos sabendo que houve outras tentativas. O que mesmo para um leigo denota que ela tinha um distúrbio psíquico. Mas a doença em si não vem muito ao caso. O perfil dela como um todo sim.

Logo no início do filme vemos o quanto Nora é metódica. Segue numa preparação de uma grande ceia. Mesa posta para vários comensais. Vários potes etiquetados com alimentos na geladeira. Envelopes endereçados para algumas pessoas. Sendo que uma das fotos de um deles, por um descuído cai embaixo do sofá. Algo não planejado que irá alterar o que ela planejara para o seu Funeral.

Por mais macabro que possa parecer de alguém organizar o próprio funeral, não se cabe aqui em um julgamento a ela. Porque o que vem à mente é algo como: os fins, justificando os meios. E até porque nos pegamos a rir com quem ela encarregou de dar vida ao seu plano. Ele é José (Fernando Luján), seu ex-marido. Pelo seu comportamento, se vê que era o oposto de Nora. José até tenta boicotar os planos de Nora. Mas se hora o destino está a seu favor, noutra ele se vê preso a trama.

Se o livre-arbítrio leva até alguém a se matar, termina por interferir na vida de quem irá enterrar o corpo. E é quando entra em cena a Religião. A desse filme é a Judáica. Se por um lado Nora tramou de morrer às vésperas de um feriado judeu – Pessach -, o que reteria a todos nessa celebração, lhe escapou que o suicídio não é bem aceito no Judaísmo.

José, ateu, está se lixando para todo o cerimonial que o Rabino pretende fazer. Ambos se desentendem. Até pelo jeitinho que o Rabino sugere a título de encobrir o suicídio e por conta do sogro do filho de Nora e José. Por ser ele uma figura importante na Sociedade local. Já contrariado por se vê obrigado a seguir em frente com os planos de Nora, meio enojado com que os dogmas da religião abre caminho por conta de quem tem dinheiro, José ainda se vê atado ali no apartamento de Nora porque o filho está tendo dificuldade em encontrar uma passagem aérea, e por conta do tal feriado. E o filho, junto com a esposa e filhas, quer estar presente no enterro.

Enquanto vela o corpo, José vê a chegada de mais pessoas que como ele, não sabiam que Nora estava morta. Durante isso, José descobre a tal foto. Nela, Nora está em trajes de banho, numa praia, com um homem que não é ele. Pelo tempo mostrado na fotografia, ele acredita que ainda estavam casados. Como sabe que a esposa escrevia tudo, tenta abrir a escrivaninha. Mas quem consegue, é uma prima que se mostra não ser tão cega assim. Ela esconde dele o Diário de Nora.

Sem a presença das Religiões, o que se enterra não passa de um corpo sem vida. Mas que elas terminam dando um peso maior, até porque irão lucrar, financeiramente com esse, e mais tarde com os demais, num ciclo perpétuo.

Pai e Filho entram em choque, e em xeque. Num balanço de tudo que ficara enterrado até então. E ambos saem revigorados, cientes que perderam um tempo estando afastados um da vida do outro. Quando o filho cai em si, e que não quer que sua mãe seja enterrada na parte do cemitério junto com criminosos, cabe a José a decisão final. Numa de: “A vez é sua Nora!”

O filme é ótimo! De querer rever. Com momentos hilários! E um final emocionante! Tomara que saia logo em Dvd para que mais pessoas possam ver. É o Cinema Mexicano nos presenteando com mais esse. Bravo!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Cinco Dias Sem Nora (Cinco Días Sin Nora. 2008). México. Direção e Roteiro: Mariana Chenillo. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 92 minutos. Censura: 14 anos.

Santa Paciência (The Infidel. 2010)

Uma santa paciência é o que se tem que ter para quem escolhe os títulos nos filmes no Brasil. O título original desse, além de pontuar em quase todo o filme, a cena onde de fato ele é dito – o infiel -, é ótima!

O que me leva a adentrar na análise citando que temos no Roteiro um dos pontos positivos. Um misto de Sacha Baron Cohen com Monty Python. O que já dá para imaginar que sobrará críticas para todos os lados. Além de garantir ótimas risadas. Em destaque: judeus x muçulmanos. Mas não fica apenas nessa guerra santa, vai além das etnias, das nacionalidades. Porque mostra que tudo isso pode afastar as pessoas.

Um amigo que o entenda!

No filme, uma amizade começa por conta dessa guerra dos tempos modernos. Um não tão pacato cidadão inglês. Um muçulmano nenhum um pouco ortodoxo. Vê sua casa cair ao descobrir que sua origem é judia. Ele é Mahmud (Omid Djalili). Ótimo, por sinal! Sem ter com quem desabafar, recorre a um judeu, vizinho de sua falecida mãe, a quem nos últimos dias travou intensos impropérios: o taxista de origem americana, Lenny Goldberg (Richard Schiff). Para mim, que costumo dizer que não busco por amigos como saídos de uma montadora, todos em séries, vi nessa amizade outro ponto alto desse filme. Pois chega de guetos no planeta!

Pai e Filho! E não versus, por conta de Religião.

Podemos até lembrar de um outro filme, o “A Gaiola das Loucas”. Por ambos mostrar a pré-ocupação de um filho pelo comportamento do pai. Num, pelo pai ser homossexual. Nesse, pelo pai não seguir todos os ritos do Islã. Em ambos também porque os filhos estando para casar, precisam reunir as famílias, as deles com as das futuras esposas. Mas essa semelhança em nada diminui esse filme. Pelo contrário! É mais um a reforçar que muitos dos preconceitos são impostos pela sociedade, e alimentado por grande parte da imprensa. Rashid (Amit Shah) também terá que rever seus conceitos.

A Família!

Mahmud por recear contar a esposa essa nova descoberta, termina por levar a mulher a pensar que ele tem uma amante. Mas Saamiya (Archie Panjabi) talvez preferisse isso, ao real motivo do comportamento estranho do marido. E novamente teremos a religião separando uma união feliz.

As Religiões.

Na própria, não encontra um apoio. Pelo contrário! Por parecer que falam línguas diferentes, é tido por um gay. Descobre que o provável pai biológico, é um rabino. Ou foi, por já estar à beira da morte. Um religioso que colocou o próprio filho para ser adotado!? E para completar, o padastro da noiva do filho, prega um islã mais conservador pelo mundo.

Cenas em destaque:
– a descoberta do nome judeu.
– a que mostra o título.
– o amigo judeu o recolhendo da calçada.
– aprendendo a ser judeu.

Ponto negativo.

O ritmo cai um pouco na metade do filme. Um pequeno enxugamento o deixaria redondinho. Como também por não ser exibibo no circuito comercial. Pois isso fará com que muitos nem saibam da existência dele. Afinal, um humor britânico é algo imperdível.

The Infidel” não é uma comédia ao longo de todo o filme, afinal temos um homem passando por uma crise de identidade. Seu drama não virará uma tragédia, porque já está ocidentalizado demais. E é por ai que abrirá seus olhos na tentativa de resgatar a sua família, como também em mostrar que mesmo por diferentes credos, todos podem viver em paz. Ou não!

Um ótimo filme. De querer rever.

Por: Valéria Miguesz (LELLA).

Uma curiosidade: Ao citarem brazilian, é por conta da depilação que extrai todos os pelos pubianos.

Santa Paciência (The Infidel. 2010). Reino Unido. Diretor: Josh Appignanesi. Roteiro: David Baddiel. +Elenco. Trilha Sonora: Erran Baron Cohen. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 105 minutos. Classificação: 12 anos.

Amen. (2002)

Como este artigo irá falar sobre os problemas e implicações do ser humano através do filme Amen., do cineasta grego – e totalmente politizado – Costa-Gravas, vale ressaltar que contém alguns SPOILERS que podem estragar o prazer daqueles que gostam de desfrutar uma história sem conhecer sua trama principal. Porém vale ressaltar que Costa-Gravas não faz filmes de suspense, nem de terror, nem de comédia, sendo que nada do que for dito aqui irá comprometer o resultado impactante do filme. Sendo assim, fica a seu critério: ler este artigo para se interessar pelo filme ou assistir o filme para se interessar pelo artigo. Dado o recado, vamos as devidas análises que proponho discutir.

Não irei falar sobre os detalhes do filme. Não irei me ater ao nome dos personagens, situações corriqueiras, e outros afins. O que interessa é apenas a ideia principal.

O filme se passa na Alemanha em pleno nazismo, diversos soldados alemães vivem o seu dia-a-dia normalmente: têm rotinas de patrulhamento, visitam suas famílias nos dias de folgas, vão à igreja e se divertem no tempo livre. Diversos judeus estão sendo recrutados para trabalharem em campos nazistas em atividades que desenvolvam ainda mais o país. Um dos soldados alemães – e também um dos dois personagens principais da trama – é um químico que desenvolve um produto de limpeza eficiente, onde uma pequena quantidade basta para limpar grandes proporções.

Porém, inesperadamente, o exército alemão começa a encomendar grandes quantidades deste produto. De pronto, este soldado atende a demanda com bastante satisfação, ao saber que sua invenção está a contento os militares. Porém, no decorrer do tempo, ele estranha que esta quantidade sempre aumente, visto que não existe a possibilidade de utilizar este produto apenas com fins de limpeza. Decidido a investigar o que estaria por trás, primeiramente ele questiona um dos responsáveis por fazer a encomenda: rasgando elogios, o questionado e mais um pequeno grupo decide levar este soldado para observar com seus próprios olhos o porquê encomendas maiores se fazem necessárias.

Ao chegar no local, o questionado pede para o soldado espreitar através de um buraco criado para observar uma enorme casa. Enquanto isto acontece, ele começa a explicar: “Antes de utilizarmos o seu produto, demorávamos horas e horas para matar os judeus através destas câmaras de gás. Eles ficavam agonizando por grandes tempos, o que era muito caro para nós, visto que a demanda aumentou e precisávamos cumprir a nossa meta de chacinas diárias. Com o seu produto, as mortes se tornam muito mais rápidas. Bastam apenas alguns minutos.”

O soldado observa perplexo e fica desorientado. O questionado responde que ele está fazendo um grande bem aliviando as dores daquelas pessoas de forma rápida e ajudando a Alemanha a fazer uma verdadeira limpeza racial. Não irei me ater a isto, porém perceba a interessante relação entre o produto de limpeza comum, para limpar imundices, e a utilização do mesmo com o propósito de limpeza racial. Só esta comparação nos levaria a longas discussões no que se refere as divergências no tratamento humano orientado à uma posição social (seja religiosa, econômica ou racial).

A primeira coisa que podemos afirmar em relação à reação do soldado é que ele desconhecia os fatos, que tratavam do genocídio e extermínio de judeus na Alemanha. Se ele desconhecia os fatos, surge a esperança de que outras pessoas no exército nazista também desconheciam. Em segundo lugar, a sua reação após conhecer estes fatos não foi de alegria ou aceitação, pelo contrário, foi de angústia e enorme surpresa. Ou seja, as motivações para aquele extermínio não estavam explicitas, logo, não era um consenso.

Sabendo destas coisas, o soldado entrou em conflito: estavam usando o seu produto para matar pessoas – sim, pessoas – sem o seu consentimento. E ainda aproveitaram a deixa para encomendarem ainda mais produtos para a mesma finalidade. Ele não podia negar uma solicitação do seu próprio exército, que representava os interesses de seu país. Então, como ele poderia salvar as vidas que estariam condenadas por sua criação? Como ele poderia denunciar esta abominação sem ser considerado traidor? Será que, ao saber destes acontecimentos, o povo e as autoridades de seu país aprovariam o que estava acontecendo? Eram muitas as questões que estavam em sua cabeça no momento.

A pressão começou a fazer com que o soldado começasse a tomar algumas atitudes estranhas. Não sabendo como fazer, resolveu se aconselhar com o padre de sua igreja local. Para ele, era óbvio que a igreja não toleraria a morte de outras pessoas de forma tão covarde e desleal. Ao mencionar os acontecimentos ao padre local, e inclusive solicitar que seu relato fosse transmitido aos frequentadores da igreja, o mesmo se recusou a prestar-lhe a ajuda necessária, afirmando que ele jamais poderia ficar contra os interesses do exército, visto que eles representavam a vontade dos comandantes de seu país. Se ficasse seria acusado de traidor e seria condenado a pena de morte.

Um jovem padre, com menor autoridade e que escutou tudo (este é o segundo protagonista do filme) resolve ajudar o soldado e recontar a sua história para uma hierarquia mais elevada da igreja, visto que seu pai era muito influente dentro do Vaticano e trabalhava como assessor de imprensa do Papa. Mesmo com o relato chegando nos mais altos níveis de hierarquia, a igreja se recusa a se intrometer nesta questão, chegando à dizer que o problema dos judeus não é um problema cristão.

O desenrolar do filme, e seu tronco principal, demonstrar as diversas tentativas frustradas de, tanto o soldado como o jovem padre, quererem denunciar o extermínio dos judeus e as pessoas, principalmente a igreja, fecharem os olhos e os ouvidos sobre estes acontecimentos. Chega ao cúmulo do jovem padre forçar um encontro com o próprio Papa, relatar os acontecimentos, receber a promessa de que a santidade falaria ao vivo, em rede internacional, sobre o que acabara de ouvir, como forma de intervenção, e ele não cumprir com a sua promessa.

No fim, os dois entram em colapso: o jovem padre entra em um trem com diversos judeus, com uma estrela de Israel costurada em sua batina, rumo a um campo de concentração, e passa os seus dias trabalhando no local. Como ele foi reconhecido como padre, e por portar a estrela de Israel, os soldados nazistas o forçam a trabalhar no enterro de corpos de judeus (que seria considerado um castigo muito cruel).

O soldado-químico tenta novamente argumentar com outros soldados do exército se o povo alemão sabia o que estava ocorrendo ali. A resposta: “O mundo inteiro sabe!“. Esta resposta deixa o soldado-químico ainda em maior crise, visto que a resposta enaltece a sua ingenuidade simultaneamente com a certeza que independente do que ela faça, nada mudará pois as pessoas não querem mudar.

A maioria das conclusões deste filme podem ser retiradas de suas próprias análises. Costa-Gravas é um cineasta que faz provocações para lhe permitir refletir acerca das situações colocadas. O ponto de destaque que gostaria de apontar é a capacidade do ser humano em não se intrometer em assuntos que não lhe diz respeito, independente do que seja. Isto amplifica a visão egoísta e egocêntrica a respeito do homem, que se preocupa apenas com os fatos que estão dentro do seu próprio universo de relações. Parece que tomar isto como verdadeiro pode ser um disparate, visto que entre o nazismo e a contemporaneidade há uma enorme diferença, porém perceba que a fórmula essencial continua a mesma: podemos ver um mendigo na rua e achar suas vestes ou sua aparência engraçada, e diante de uma tragédia anunciada, conseguimos sorrir e sermos indiferentes aos acontecimentos. Pai mata filho e filho mata pai, e, diante desta realidade, descobrimos como fazer uma ótima piada contendo estes ingredientes.

Além desta falta de sensibilidade, é possível destacar também outro ponto: a satisfação em saber que um adversário ou concorrente está por baixo. Neste caso, me matéria de religiões, é a igreja católica satisfeita em saber que os judeus estão sendo massacrados. Pois poderia haver interferência! Não houve, justo que não era de todo ruim para o catolicismo que esta tragédia acontecesse. Nos dias de hoje, podemos ilustrar com torcidas de futebol: palmeirenses estão satisfeitos com a tristeza dos corinthianos, devido ao rebaixamento para a série B do futebol brasileiro. Num nível mais agressivo, são paulinos estão satisfeitos, ainda que não tenham participado diretamente, em verem torcedores santistas sendo agredidos violentamente, de tal forma que não interferem na briga (não para que não se machuquem, mas para que seus opositores possam apanhar ainda mais).

Para concluir, segue um terceiro ponto-de-destaque: histeria coletiva gerada por um acontecimento de massa. Como a própria descrição sugere, é quando a boiada estoura. Não há nenhuma razão aparente para desencadear uma série de acontecimentos anormais, que inibe a racionalidade, aumenta a animalidade, assim como a força e o descontrole, de tal forma que sugerimos que o homem é um animal irracional. No filme, esta expressão se dá com o nazismo e o massacre dos judeus. Por mais que a ordem venha de cima, o homem tem a sensibilidade de executar ou não tal ordem, mas justamente por não ser uma iniciativa própria, não consegue se sentir culpado. O nazismo é uma histeria que contagiou a todos os soldados alemães. Passou a ser divertido matar judeus, ainda que fossem crianças de colo.

Eles passaram a enxergar judeus como insetos, e não havia nada de errado neste estado de ânimo que eles se encontravam. Nos dias de hoje, podemos aplicar esta histeria coletiva em alguns atos de vandalismo que observamos, como no exemplo dos garotos de classe alta que incendiaram um índio que estavam dormindo. Laranja Mecânica In Loco. Algo totalmente irracional despertou nestes selvagens, motivados não-sei-pelo-quê e não-se-sabe-por-onde a cometer tamanha atrocidade. Os chamados PitBoys, que são garotos que fazem lutas marciais e que saem a noite em busca de confusão, se enquadram no mesmo princípio.

Enfim, entre tantos pontos-de-destaque, o filme serve, acima de tudo, para demonstrar a ignorância, a mesquinhes, e incapacidade do homem em ser humano. Demonstra que a ética e a moral são apenas disciplinas de Direito e de Filosofia, e que não servem na praticidade para absolutamente nada.

E sabe o que é o pior? É que o filme, infelizmente, não mostra nada de novo. Serve, entretanto, para relembrar quem somos e isto incomoda bastante. Filme perturbador. Eu recomendo!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiO / Universo Hiper-Real.

Era uma vez… os Bastardos Inglórios! (2009)

Inglourious Basterds_posterQuando se acha que não tem mais como contar sobre o tema 2ª Grande Guerra, eis que o Diretor Quentin Tarantino vem com algo diferente. Faz um mix de filmes com temas do Velho Oeste, de Baseball, de Gângsters… e o resultado são os ‘Bastardos Inglórios‘. Great!

O filme nos é apresentado em capítulos. E quem nos conta essa história é Samuel L. Jackson. Narrando em off.

Inglourious Basterds_Christoph Waltz Logo no primeiro, ficamos conhecendo aquele que virá a ser a pedra no meio do caminho desses bastardos e dos demais. É o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz). Um personagem que quase rouba todas as cenas. Quase, porque tem domínio de cena sabendo dividir bem com o outro ator. Vida longa a sua carreira cinéfila! Eu não o conhecia. Tarantino faz dele um vilão para ficar na história do Cinema.

Inglourious Basterds_Mélanie LaurentNesse mesmo capítulo também conhecemos uma jovem judia que vê toda a sua família ser executada por ordens de Landa. E consegue fugir. Ela é Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent). Mais tarde já com outra identidade – Emmanuelle Mimieux -, terá um importante papel na luta em matar os nazis. E justamente por ter um Cinema.

Esqueçam o politicamente correto para curtir esse filme. Há cenas que mesmo sanguinárias, fica irresistível não rir. Fica difícil não torcer por esse grupo de homens liderados pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt). Juntos, ele e seus homens formarão uma Tropa muito especial: Os Bastardos. Ou, algo como os Sacanas Sem Lei. Porque trabalharão na clandestinidade. Para essa missão um fator era essencial: de serem judeus. Pois a missão era matar os alemães nazistas sem dó, nem piedade. E fariam isso em solo francês.

Aldo por descender de apaches vai mais longe nessas execuções. Exige de seu grupo o escalpo de todo nazista que matarem. Cada um já terá como tributo: 100 escalpos. Assim eles partem. Espalhando seus modus operandi entre os nazistas. E para aquele que deixam sair vivos, justamente para espalhar o que fazem, deixam algo de lembrança.

Ao ficarem sabendo que um oficial alemão fora preso por matar treze oficiais da Gestapo, vão resgatá-lo. Ele é o Sargento Hugo Stiglitz (Til Schweiger). Ficando mais um nesse inusitado grupo. Se o Sargento Stiglitz gosta de degolar, o Sgt. Donny Donowitz “O Urso Judeu” (Eli Roth) – usa um bastão de baseball como arma para trucidar os nazis.

Michael FassbenderParalelo a isso, da Inglaterra, partiria a Operação Kino. À frente dela, estaria o Tenente Archie Hicox (Michael Fassbender). Winston Churchill (Rod Taylor) está presente nessa convocação. O objetivo dessa missão seria explodir um cinema onde estaria toda a cúpula do III Reich. Seria a pré estréia do filme do Goebbels (Sylvester Groth): ‘Orgulho da Nação’. Sobre um feito do jovem Fredrick Zoller (Daniel Brühl).

Inglourious Basterds_Daniel BrühlZoller ao se encantar por Emmanuelle, tenta convencer Goebbels a transferir a sessão para o cinema dela. Dando a ela a chance de eliminar a todos de uma vez: colocando fogo em seu próprio cinema. Sendo o seu cinema bem menor, facilitaria aos planos da Operação Kino. Acontece que ela não sabia que teria essa ajuda em seu plano. Essas coincidências do destino. Ou seriam viradas do destino!? Enfim, parecia que viria a calhar. Mas…

Inglourious Basterds_Diane KrugerHicox a princípio teria a colaboração direta da agente dupla Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), e também da equipe de Aldo. Ela é uma notória atriz alemã. Ciente da avant première, foi quem passou a idéia para a Operação Kino.

Bridget e Emmanuelle também vestem a camisa dos Bastardos: de querer exterminar com os maiorais nazistas. E são ótimas as suas atuações. Destaque para as cenas que ficam cara a cara com o Coronel Landa. Bem, ainda acho que Tarantino deve a nós, mais filmes com mulheres como mostrou nesse. Elas foram brilhantes!

Assim, com o supra sumo de matar toda a nata da ‘raça pura’, incluindo o Hitler, Tarantino consegue nos manter atentos até o final. Filmaço! De querer rever esse longo e sensacional filme! A trilha sonora é espetacular! Uma palinha:

Valeu Tarantino! Que venha logo o próximo!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds). 2009. EUA. Direção e Roteiro: Quentin Tarantino. +Cast. Gênero: Drama, Guerra. Duração: 153 minutos.

Um Ato de Liberdade (Defiance)

defianceNão conhecia essa história. Mais uma a mostrar a perseguição nazista aos judeus. Em ‘Um Ato de Liberdade’, ela trava-se nos limites entre a Polônia com a Bielo-Rússia. Onde um contingente resolve se esconder no meio da floresta no lado russo, e assim tentar escapar da sanha assassina dos nazistas e seus colaboradores.

Acontece que tudo começou meio por acaso. Aos poucos, ele foram se juntando e seguindo os Irmãos Bielski: Tuvia, o mais velho (Daniel Craig – Nem Tudo é o que parece), Zus (Liev Schreiber – X-Men Origens – Wolverine), Asael (Jamie Bell – Billy Elliot) e o pequeno Aron (George MacKay), ainda traumatizado. Seus pais foram assassinados. A Polícia já estava na captura de Tuvia e Zus. Por isso vieram se esconder na floresta; deixando para trás suas esposas e filhos. Numa das saídas de Tuvia à casa de um russo amigo de seus pais para arrumar uma arma, ele volta com um pequeno grupo que estava escondido no celeiro. Aron, ao sair sozinho pela floresta, também encontra um outro grupo.

Zus se exaspera. Além de ser o mais pavio-curto, ainda não assimilara aquilo que o destino colava em suas mãos. Para ele, aquela guerra não era sua. Ele só se via como um foragido da polícia. Tuvia, mais centrado, toma para si a responsabilidade em salvar aquela gente. Afinal, mesmo não sendo tão ortodoxo, aquela era a sua gente. Mas a sua diplomacia não combinava muito com o estado de guerra que então vivenciavam. Além de aumentar o atrito com Zus.

Tuvia e Asael fazem mais, conseguem entrar num dos Guetos. Foram resgatar os pais da jovem por quem Asael se apaixonara. Mas chegando lá, Tuvia consegue convencer um grupo maior a sair dali com eles. O Patriarca ainda acreditava que tudo acabaria logo. Ledo engano. O Holocausto estava apenas começando. A Segunda Grande Guerra já se alastrara por toda a Europa.

Assim, embora livres, tinham como desafio maior: sobreviver. Sufocar as perdas dos que não conseguiram. Essa raiva reprimida irá se descarregar numa cena mais adiante. Olhar para ela… e se perguntar se teria feito o mesmo. Ali não era apenas um ato de vingança, mas de justiça. Tuvia, como o comandante daquela comunidade itinerante, não fez nenhum obstáculo.

daniel-craig-and-liev-schreiber_defianceZus e Tuvia, após uma briga violenta, seguem caminhos opostos. Zus se une a uma unidade militar de resistência aos alemães. Tuvia, segue com toda aquela gente, mudando o acampamento a cada aproximação dos inimigos. Não é nada fácil abrigar, alimentar e proteger todos. Além do inverno, da escassez da comida, havia uma ameaça de tifo.

Aos trancos e barrancos, todos, ou melhor, quase todos vão percebendo que ali, escondidos naquela floresta, correndo sempre perigo, não deveriam dar sequência aos preconceitos. Pois estariam se igualando aos nazistas. Até Zus acorda para isso mais a frente. E o destino o faz seguir por um caminho certo.

A floresta é linda. De por momentos vê-la como em contos de fadas. Que em vez de um nazi, sairia detrás das árvores um duende. Mesmo assim, pelo teor da história há cenas que deixam um nó na garganta. Ainda mais por retratar um fato real. Outras, que deixam os olhos marejados. O filme pode não receber os louros da ‘A Lista de Schindler‘, mas deixará lembranças. Até pela atuação de Craig e Schreiber. Além da belíssima trilha sonora.

Gostei muito. Entrou para a minha lista que vale a pena rever. Nota: 10. E meus aplausos a esses heróis que salvaram 1200 judeus do holocausto!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Ato de Liberdade (Defiance). 2008. EUA. Direção: Edward Zwick. Elenco. Gênero: Drama, Guerra, História, Thriller. Duração: 137 minutos. Baseado na Obra de: Nechama Tec (Defiance: the Bielski Partisans).