Philomena (2013). “Eu não abandonei meu filho.”

philomena_2013Por Pedro H. S. Lubschinski.
A história narrada pelo jornalista Martin Sixsmith em seu livro, The Lost Child of Philomena Lee (que por aqui recebeu o extenso título Philomena: uma Mãe, Seu Filho e uma Busca Que Durou Cinquenta Anos), nasceu para ganhar as telas de cinema. É uma daquelas histórias que, de tão incríveis, só poderiam ter ocorrido do lado de cá, na vida real. A Philomena (Judi Dench) do título é uma senhora de idade que 50 anos depois de ter seu filho pequeno tirado à força dela e colocado para adoção no convento em que vivia, decide procurá-lo com o auxilio do jornalista Martin (Steve Coogan), com quem embarca para os Estados Unidos onde a criança cresceu ao lado dos pais adotivos.

philomena-2013_stephen-frearsO grande mérito da produção dirigida por Stephen Frears se encontra na abordagem adotada pelo roteiro de Steve Coogan e Jeff Pope, que contrariando toda a dramaticidade presente na jornada de Martin e Philomena, opta por rechear o longa com um bem-vindo tom de leveza e comédia, que acaba por tornar o longa muito mais eficiente do que seria caso se enveredasse por um dramalhão barra-pesada. Assim, podemos acompanhar a relação entre a personagem-título e Martin ser estabelecida com calma e de maneira gradual, sem apelar para cenas que busquem emocionar o espectador com o drama de sua protagonista. Assim, por contraste, quando finalmente a obra de Frears assume sua dramaticidade, o choque que essas cenas proporcionam se torna maior, resultando em emoção genuína para a narrativa.

E já que mencionei a relação entre a dupla de protagonistas, é inegável que são esses dois personagens tão distantes em personalidade, mas próximos a partir do estabelecimento de um objetivo em comum, a grande força de Philomena. Encarnado com um preciso tom ácido por Steve Coogan (o nome não é coincidência, ele também assina o roteiro), Martin é um homem cínico e incrédulo. Jornalista que há pouco tempo possuía prestigio e um belo cargo em uma grande emissora, o personagem agora surge como um homem deprimido em função de sua demissão injusta e forçado a explorar uma “história de interesse humano”, algo que tanto repudiara em outros momentos. Assim, é interessante como ao longo da projeção Martin se vê mais próximo do drama de Philomena, indo de um jornalista interessado em sua história a um amigo que em um momento de particular desespero não se inibe em abraçar aquela mulher que chora em sua frente. Não que o filme – e aqui reside mais um grande acerto do roteiro – tente nos fazer aceitar que o personagem é mudado pela personagem de Judi Dench. O filme apenas estabelece uma ligação entre aquelas figuras, mas jamais tenta mudar as personalidades dispares que se mantém até o fim da produção.

philomena_2013_01Da mesma forma, a protagonista é devidamente desenvolvida pelo roteiro, surgindo como uma senhora simpática e de bem com a vida – “você é um em um milhão” é seu bordão ao conversar com alguém -, Philomena logo vai revelando marcas de sua tragédia pessoal que não poderíamos supor em um primeiro momento, substituindo seu sorriso marcante por uma expressão fechada e a decepção de que talvez seu filho que tanto procurou, jamais tenha ao menos pensado na existência dela. Além disso, é interessante a relação da personagem com sua própria fé, já que foi num local onde o amor à Deus e ao próximo deveria ser celebrado onde ela sofreu sua grande perda, o que a leva em determinado momento deixar de se confessar, como se percebesse que nem tudo o que um dia lhe disseram ser errado é realmente pecado, algo que, no entanto, não a impede de desculpar uma mulher que tanto lhe causou dor por não querer viver o resto de sua vida com raiva. E agarrando com talento inegável toda a complexidade da protagonista, temos a excelente Judi Dench, que utiliza cada ruga e linha de expressão de seu rosto para entregar uma atuação emocionante.

philomena_2013_02O texto a seguir contém spoiler.
Mas se elogiei à exaustão o roteiro no que diz respeito ao desenvolvimento de seus personagens e das relações entre eles, devo dizer que o texto não está isento de deslizes. Tudo parece fácil demais para a dupla de protagonistas quando eles chegam aos Estados Unidos – toda informação chega facilmente nas mãos deles, as pessoas abrem a vida do filho de Philomena sem questionar a possibilidade dela não ser realmente mão de quem procura e, quando convém uma pequena ameaça ao roteiro, o companheiro do filho de Philomena se faz de difícil em cooperar com sua busca, apenas para ser convencido facilmente pela velhinha. Da mesma forma, a filha da personagem de Judi Dench é esquecida pelo filme, não surgindo nem ao menos para ligar para a mãe preocupada com a viagem que lhe faz atravessar o oceano.

Dirigido com sutileza por Stephen Frears, Philomena apresenta, no entanto, um deslize que acaba por sabotar uma importante cena de seu terceiro ato: a inserção de flashes de vídeos com o filho da protagonista ao longo da projeção castra boa parte da emoção do momento em que a personagem finalmente assiste os tais vídeos. Por outro lado, é digna de aplausos a coragem da produção em retratar o “lado feio” da Igreja e da profissão de jornalista: da segunda, o filme critica, ainda que de maneira discreta, a posição de jornalistas e editores que alheios ao sofrimento de diversas pessoas busca apenas a noticia em acontecimentos trágicos, ignorando os sentimentos dos envolvidos. E da primeira, denuncia e critica as atrocidades cometidas ao longo dos anos com pessoas que tiveram como único erro expressar os próprios sentimentos – e ver Martin questionar a certa altura “por que Deus nos daria desejo sexual se fosse pecado” é algo que serviria para tantas outras questões que algumas partes mais conservadoras da Igreja insistem em atribuir como pecado, negando a própria natureza do amor defendido pelo mesmo Deus que utilizam para oprimir.

Equilibrando-se muito bem entre os extremos do drama e da comédia e oferecendo no caminho uma obra agradável de assistir, Philomena surpreende – ao menos me surpreendeu, já que não esperava nada do filme – ao se revelar uma obra que, se não está entre as melhores do ano, ao menos é um bom filme recheado de qualidades.

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“Sete Dias com Marilyn” (My Week with Marilyn, 2011)

O pronome possessivo “meu” no título original se refere a Colin Clark (Eddie Redmayne), um jovem obcessado por cinema, que se torna assistente de  Laurence Olivier ( Kenneth Branagh, perfeito no papel), no filme “ O Príncipe Encantado” (1957). Durante as filmagens, ele se torna o único confidente de Marylin Monroe, depois que o marida da estrela  Arthur Miller ( Dougray Scott) se ausenta.

Portanto, “Sete Dias com Marilyn” não é uma cinebiografia sobre a vida da deusa hollywoodiana, mas um relato do relacionamento de Marilyn com Clark, e consequentemente com Laurence Olivier, enlouquecido com a neurose da deusa.

Claramente, a densidade poética do filme é focada na figura de Marilyn. Michelle Williams faz um excelente trabalho mostrando Marilyn de sua elegância cativante a sua neurose. E, acho que se não fosse Williams, o filme não seria tão gostoso de acompanhar.

Entre as indicadas ao Oscar deste ano, Williams era a minha atriz favorita. Dando uma olhada na sua filmografia, ela se tornou especialista em representar mulheres comuns: sua sofrida Alma em “Brokeback Mountain” (2005), a deprimida Wendy, do maravilhoso drama “ Wendy & Lucy” (2008); a esposa maníaca-depressiva com um olhar de “peixe morto”, no intenso “ Ilha do Medo ( 2010); a infeliz e  mal-humorada Cindy, do triste “Blue Valentine” ( 2010); e a perdida Emily, do belo, em busca de uma metáfora e significado subjacente “Meek’s Cutoff”(2011). Depois desses filmes, eu nunca poderia imaginar Williams fazendo uma mulher sedutora do porte de uma Marilyn Monroe. Honestamente, fiquei surpreendido como ela recriou o ícone hollywoodiano, de uma forma humana, sem tentar imitar-la!.
Quando Michelle está na tela ninguém consegue prestar atenção em mais nada, mas em Marilyn Monroe. Sim, Williams não se parece com Marilyn, mas isso não é um problema, pois ela vai te seduzir como Marilyn sempre faz.

“Sete Dias com Marilyn” é um filme interessante e bem feito, mas satisfaz apenas por ter a figura de Marilyn, pois como um filme em geral fica aquém.

Nota 7,0

“J. Edgar” ( 2011)

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J. Edgar Hoover era gay? Será que o seu amigo, Clyde Tolson era gay? Será que eles tiveram uma estreita amizade ou era algo mais? Talvez estas perguntas são a chave para entender o novo filme de Clint Eastwood. Se eu podesse definir o que exatamente o filme “J. Edgar” é, eu deria que é a história da relação do diretor da FBI, com o seu amigo Clyde Tolson e o desprezo de ser desaprovado por sua mãe. É uma história de um homem em todas as frentes com as barreiras que ele deveria superar para fazer qualquer coisa, mas a parede que ele nunca foi capaz de romper foi o que lhe permitiria finalmente aceitar Tolson como um amante e não apenas como um bom amigo. Pena que tudo isso é apresentado de  uma forma sem sentido, e, finalmente, coloca menos ênfase sobre o que poderia ser considerado aspectos mais interessantes da vida Hoover.

J.Edgar” tem algo de “ Brokeback Mountain” (2005), e “ O Discurso do Rei ( 2010), mas a única diferença é que a amizade entre o rei George VI e seu terapeuta parecia uma amizade de verdade, assim como o amor dos cowboys em Brokeback Mountain. Esses filmes tinham uma história para contar, e não uma dica e, assim se esconder como Eastwood e o roteirista Dustin Lance Black faz. Não há uma evidência histórica concreta sobre a homosexualidade Hoover, mas o filme sugere demais sem ser sutil, pois muito poderia ser dito em um olhar, mas revela demais, e não soa verdadeiro, quando tenta “dizer” que Hoover era um homossexual enrustido e até um cross- dresser !.

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Eastwood conta a história de Hoover em uma narrativa fraturada, traçando mais de 5 decadas. O filme desnecessariamente vai e volta entre diferentes eras com Hoover recitando as suas memórias, contando as vitórias do passado e construindo a história para se adequar a sua imagem. Por que Eastwood não apenas narrou o filme de forma linear? E por que, ele não contratou atores para viver Hoover e Tolson nas suas versões mais velhas, em vez de transformar as personagens em caricaturas de espuma de borracha?

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Leornardo DiCaprio realmente se entrega ao personagem- mesmo com a maquiagem exagerada, ele se sobressai com dignidade, mas o mesmo não diria do competente Armie Hammer, que alem da borracha na cara, exagera na tremedeira!. Ja Naomi Watts tem o desempenho mais convincente do filme, e oferece uma personagem com mais perguntas a serem feitas. Quem foi essa mulher que dedicou sua vida inteira a carreira profissional, nunca se casou e ficou com Hoover até a sua morte? O filme não se preocupa em responder a estas perguntas, mas talvez o desempenho Watts nunca foi feito para ofuscar todos os outros. E, detalhe, a sua maquiagem suada em Watts é a unica que parece natural!

Eastwood e o diretor de fotografia Tom Stern, mais uma vez usam os tons de cinza de aço, limitando a quantidade de cores no filme-  escuro demais!. O diretor também continua escrevendo a trilha sonora para os seus filmes, aqui usa tons suaves de piano, assim como temos ouvido em praticamente todos os filmes que ele compôs sozinho, e acrescenta mais um aspecto negativo em “J. Edgar”, dando ao seu filme uma alma cansada e preguiçosa. A edição também é uma outra bagunça. Mas sera que se os editores Joel Cox e Gary D. Roach tivessem cortado 40 minutos do filme, o mesmo ficaria menos chato? Não sei não…

No final, “J. Edgar” é um filme que apresenta uma falta de confiança enorme, mas mesmo assim pode dar o Oscar de melhor ator a DiCaprio!. Ele merece mesmo que vença por um filme ruim!

Nota 5

Jane Eyre (2011)

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Frio e isolado é a melhor maneira de descrever o romance gótico dirigido pelo talentosissimo Cary Fukunaga, que é baseado no clássico de Charlotte Brontë. Nunca li a obra de Brontë, e por tal me falta familiaridade com sua prosa, mas é muito fácil de reconhecer o quando a roteirista Moira Buffini pegou emprestado do livro. Fácil ficar impressionado com aqueles momentos em que as palavras não são necessárias para expressar o que os personagens estão sentindo, graças em parte pela atuações dos atores principais.

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Creio que haja mais de 20 adaptações do livro de Bronte entre filmes, e series de TV. Independentemente disso, Jane Eyre é excelente – certamente, a melhor adaptação de um romance do século 19, deste “Orgulho e Preconceito” (2005) de Joe Wright. Outra coisa muito boa nessa nova adaptação é a parte visual do filme. Filmado em grande parte em luz natural pelo fotografo brasileiro Adriano Goldman, Jane Eyre ganha uma atmosfera densa. Os mouros são inundados com nevoeiros – coisa que poucos encontrarão em filmes de terror-, e  que provavelmente nem mesmo na narrative de Brontë.

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Nos breves vislumbres de sua infância tumultuada, a Jane Eyre de Mia Wasikowska é timida, mas tem um equilíbrio perfeito de força.  Se torna governanta na Thornfield Hall, onde cuida de uma jovem francesa e, finalmente, se apaixona por seu patrão, Edward Rochester Fairfax (Michael Fassbender). Fassbender e Wasikowska estão maravilhosamente perfeitos – almas de seus personagens solitários e isolados, eles alimentam a linha da história inicialmente vista como desesperados.

O filme, no entanto, não está livre de falhas. Por exemplo, o uso de flashbacks – embora a história se junte muito bem, parecem de forma ocasionalmente abruptos. E, tambem a personagem vivida por Jamie Bell, é bastante vaga!.

Mesmo assim, esse é um filme que vale a pena ser visto!. Os figurinos são lindos, a suave e tocante trilha sonora escrita por Mario Marinelli é bem “emoldurada” pela espetacular fotografia de Goldman.

Nota: 8

Notas Sobre um Escândalo (Notes on a Scandal. 2006)

Confesso que relutei um pouco a ver esse filme. Talvez pelo cansaço em ver em muitos a propagação de mais que estereótipos, o de acharem que uma homossexual é uma mulher recalcada, e o que é pior, quando veem que é por falta de uma…. com licença da palavra: piroca. Afe! Ainda mais quando isso sai do reino da ficção e vem para o mundo real e atual. Já que existem países onde a homossexualidade é crime. Ou até como ocorre na África do Sul com a aberração humana com o tal do “estupro corretivo“. Enfim, venci esse meu cansaço-pré-conceito e…

Fiquei aliviada em ver que o filme não veio com o chavão de mulher mal amada que por conta disso ficou homossexual. Muito embora há quem só se encontre numa relação homo, como pode ser visto em “Banquete de Amor“. Só que esse não é bem o caso da personagem de Judi Dench, a Bárbara. “Notas Sobre um Escândalo” até traz uma personagem homossexual, mas é de alguém que necessita, e muito, ter alguém aos seus pés… De um tipo de plateia particular, e submissa. E isso independe da sexualidade de uma pessoa. Tem a ver com algum tipo de sociopatia. Mas essa não é a minha praia, muito embora sempre fica como fonte de pesquisa em distúrbio comportamental.

Nessa personagem nem se trata apenas de um ciúme doentio, nem muito menos de medo da solidão, é mais. Aqui é sim de alguém vampirizando a outra. Até que essa sua vítima consiga sair por si só dessa teia. Fazendo-a escolher uma nova vítima.

Logo no início do filme há um caminho a nos guiar num quebra-cabeça psicológico. Em ir traçando o perfil de Bárbara. A primeira peça dele é de alguém que não quer que o sistema mude. Mudança para ela vem como fazer uso do lado lógico do cérebro. Pois esses, são mais difíceis de se controlar. Deixa de ser uma marionete.

Bárbara é uma Professora já perto da aposentadoria. Sem ter feito amigos pela vida lhe vem o medo de nem mais ter os seus dias preenchido com a balbúrdia dos alunos. Se fosse apenas o medo da solidão, poderia aproveitar os dias livres para pequenas ou longas viagens. Conhecer pessoas, lugares, culturas, comidas… Ou até escrever um romance ficcional. Já que gostava de escrever pequenas anotações como páginas de um Diário.

Então, Bárbara precisa de uma nova presa. Algo para se ocupar nos dias que virão. E lhe vem como um presente: uma professora novata e com problemas pessoais. Como também, alguém cheia de ideia para mudar um esquema educacional, que eu não o veria como falido, mas sim como acomodado. Assim, essa “estrangeira” lhe vem como uma presa fácil. Ela é Sheba (Cate Blanchet).

Sheba é alguém sedenta de amor. Casada com um homem mais velho, em vez de sair dessa união, acaba se envolvendo com um aluno bem mais jovem. Alguém que se sente a tentar mudar toda uma estrutura acomodada no campo profissional, deveria primeiro fazê-lo no pessoal. Essa contradição na vida que leva vem como uma peça chave para traçar o perfil de Sheba. Em fazer o quanto de uma personalidade como a dela vai de encontro a uma como a de Bárbara. Mais! Se haveria nela, intimamente, a igual necessidade de ter alguém a seus pés. Levando a crer, que os iguais também se atraem.

Sheba, a princípio, vê em Bárbara uma amiga em quem se pode confiar, e até sentir nela um olhar de mãe. Mas isso não fazia parte dos planos de Bárbara. Assim, vamos acompanhando essa caça-ao-ratinho, ver até onde vai esse gato, como também o que fará esse ratinho para se livrar disso, tendo certeza de que será um escândalo não de notinhas, mas sim de uma manchete.

Não deixem de ver! O filme é muito bom!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Notas Sobre um Escândalo (Notes on a Scandal). 2006. Reino Unido. Direção: Richard Eyre. Roteiro: Patrick Marber (Closer – Perto Demais). +Elenco. Gênero: Drama, Romance, Thriller. Duração: 92 minutos. Baseado no livro homônimo de Zoe Heller.

NINE (2009) – Luz! Câmera! …e Corta! Deu Bloqueio.

Deslumbrante! Um dos bloqueios criativos mais encantadores da História do Cinema. Mais! O personagem com toda certeza era mesmo para ser dele: Daniel Day-Lewis. E ele nos leva a um mergulho de tirar o fôlego. Literalmente, também. Pois há uma cena que… se forem assistir num Cinema com alta definição… chega a dar um calafrio, uma sensação de quase cair do alto da estrada naquele mar de águas tão transparentes.

Ainda falando nessa resolução da fita… Procurem por um Cinema que lhes dêem essa qualidade na projeção. Se gostam mesmo de Musical, sairão gratificados ao assistirem ‘NINE‘. Ambos merecem: você e o filme. E não é só para cenas  externas. Numa, também com ele, onde ele se questiona em frente a um telão, fica a sensação de que ele está dentro da Sala onde estamos vendo o filme. (*¹)

Quem seria esse personagem que Daniel Day-Lewis interpreta tão bem? (*)

Ele faz Guido Contini. um importante Diretor, e também Roteirista, de fama internacional. Seu público bebe nas suas fontes uma Itália romântica, sedutora, deslumbrante, misteriosa, provocante, sexy… Enfim, um país apaixonante! E não poderia ser de outro jeito, já que Guido desde a infância ama as mulheres. Por elas, seus filmes decanta o país dos sonhos de todos.

Mas com os seus últimos filmes foram um fracasso de bilheteria… mais a meia idade batendo à porta… ele passa por uma crise existencial. Vindo a refletir em seu trabalho atual. Não adiantando muito, seu Produtor, Dante (Rick Tognazzi – filho de Ugo Tognazzi), o cercar de mimos, até por conta do atraso, mas o texto não sai. Tem o cenário – um Itália com toda a sua arquitetura clássica -, a atriz principal – Claudia Jenssen (Nicole Kidman), os figurinos… Toda a equipe a postos. O título contendo ‘Itália’. E não consegue escrever uma linha sequer.

Assim, Guido faz um mergulho em seu passado e presente, numa tentativa de resgatar a si mesmo. Passará por nove questionamentos: da infância ao momento atual.

Vamos juntos nesse mergulho? Ah! O texto terá spoiler.

Mas não farei pela sequência do filme. E trata-se de um ponto de vista meu. Já que o filme é baseado em ‘Fellini Oito e Meio’, de 1963 – após oito filmes produzidos, um bloqueio não lhe deixa terminar o próximo. Nesse site terão toda a história do filme original e da montagem para a Broadway, num belo artigo.

One – Se temos a Itália, temos a Religião Católica com todas as culpas e expiações aos seus fiéis. Querendo mais que uma absolvição, Guido clama por uma ajuda divina. O Cardeal não o ajuda muito. ou, até sem querer, leva a Guido ver, que não é ali a raiz do seu problema. O Cardeal, confessa ser fã de seus filmes, mas dos antigos. Lhe dá um tema para seu novo filme.

Two – A Religião também marcou a sua infância. Guido apanhava dos Padres por ir admirar uma linda mulher. Ela morava à beira mar. Os meninos levavam suas economias para vê-la fazendo poses provocativas. Saraghina (Stacy “Fergie” Ferguson) era de fato bem provocante. Era a puberdade precoce de Guido. A natureza sendo castrada pela Igreja. Dela, Guido só lembra da sua exuberância. Em sonho acordado lhe dá um musical a sua altura. O primeiro amor do Guido menino. Sua primeira musa a lhe inspirar.

Three – A figurinista Lilli (Judi Dench) é mais que sua amiga. É uma mãe para Guido. Mas não como uma Mamma italiana. Tem um ótimo humor! Embora zombe um pouco dele, gosta muito dele. Até por mantê-la junto nesse mundo do Faz de Contas, que é o Cinema. Lilli veio do Folies Bergère. Ama o efeito de que quem está no palco, proporciona ao público. Como um termômetro… da à Cesar, o que é de Cesar… Lilli é o seu suporte. Mas ela sabe quando é a hora de cortar o cordão umbilical.

Four – Guido vai até onde sua mãe está enterrada. Tem nela a sua fã numero um. Mas a Mamma (Sophia Loren) deixou à educação de Guido, quando menino, aos cuidados dos Padres. Bem, Guido até antes desse bloqueio deu provas de que a rigidez da Igreja não lhe causou traumas. E ele ama a sua mãe. Para mim, a Sophia Loren foi uma presença apagada. Para não dizer: patética. Plásticas demais, lhe tiraram as atuações de outrora. Uma outra atriz teria feito uma Mamma inesquecível. Pena! Deveria saber envelhecer.

Five – Quando ele não pode deixar de ir a uma coletiva com a impressa, Lilli o incentiva com algo assim: ‘Vai lá! Você mente muito bem!’ Durante a entrevista, Guido conhece a jornalista de moda, Stephanie (Kate Hudson). Ela flerta sem pudor esse homem fascinante. É a Imprensa que dá vida ou acaba de vez com a fama de alguém. Assim, é uma via de mão dupla, pois um precisa do outro. Stephanie escreve seus artigos banhando-se nos filmes de Guido. Seu musical em estilo retrô, narra o poder que seus filmes tem sobre seu público, e no caso dela, em seus leitores. Eu não sei porque, mas vendo essa cena, me fez lembrar de uma cena/clip com Elvis Presley: Jailhouse Rock.

Six – Se o seu mal não é espiritual, Guido recorre a um médico para saber se é algo físico. Quer dar vida novamente as suas inspirações. Mas também não há nada com ele nessa parte.

Seven – Durante os exames, surge sua amante: Carla (Penélope Cruz). Ele quer estar com ela. Numa de que uma paixão tórrida, volte a lhe inspirar. Mas ela já não o excita mais como antes. Guido sabe que essa relação está terminando. Pela situação atual, com tantos jornalistas no seu pé, temendo um escândalo, resolve ir aos poucos. Mas Carla pressente. Como se estivesse subindo os créditos finais, e lá um ‘The End’ bem grande. E não um; ‘E foram felizes para sempre!’. Então, resolve fazer uma saída dramática… O que sepulta de vez a paixão que Guido sentia por ela. Devolvendo-a de vez para o seu marido. Sobre a Penélope, em papéis dramáticos, ela se sai muito bem. Mas naqueles que deveria mexer com a libido… ainda não. Eu cheguei a falar sobre isso em ‘Fatal‘.

Eight – Enfim, Guido teria em seus filmes uma atriz que ele adorava: Claudia Jenssen (Nicole Kidman). Uma Celebridade ciente do seu fascínio. Mas se chegou onde chegou, foi por amar a profissão, e pelo seu profissionalismo. Tal qual o Guido. Claudia, primeiro ironiza os seus testes, depois decide ir embora. Dizendo que só voltará quando lhe entregarem o Roteiro do filme. Guido consegue que ela o deixe levá-la ao seu hotel. No caminho, param para conversar. Trocam confidências… Não é uma relação de ‘criador e criatura’. Até pela sua presença em cena – um talento nato -, ela tem sido uma fonte de inspiração para ele. Aproveitando o momento íntimo, Claudia aproveita para fazer um balanço dessa dependência… resolve então pensar por ele. Já que também o ama. Claudia descobre assim, que nunca teria dele um amor pela sua pessoa. Que Guido é 100% um Cineasta. É hora dela sair de cena… O faz com muita elegância…

Todos os musicais são lindos! Mas para mim, dois estão no topo. E um é com a personagem de Nicole Kidman. Um que estão perto de uma fonte… É! Fontes em cenários na Itália é algo bem comum, mas que estando tão bem incorporados, são sempre românticos. Agora, com uma cena entre uma louraça e um homem + filme de Fellini + fonte… não dá para não pensar nessa outra cena aqui:Nine – O princípio, meio e… desfecho desse bloqueio. Princípio, porque sua esposa, Luisa (Marion Cotillard) foi atriz de um dos seus fracassos de bilheteria. Ela então abandona a sua carreira. Passando a ser a esposa que fecha os olhos para as escapadas de Guido. Embora ele diga que a sua opinião conta muito nas escolhas do Elenco, Figurino… Luisa descobre o que a Claudia também descobriu… Mas à ela, sendo a esposa, doeu mais. Mesmo sendo uma grande romântica, a isso ela não perdoa. Saindo da vida de Guido. Indo atrás da sua própria identidade. Até para mostrar que também sabe ser provocante.
Com ela, tem o segundo clip que eu amei! Um segundo que ela faz, a mim, mostrou-se muito mais sedutora do que o que a Penélope Cruz fez. Marion Cotillard deu um show! Bravo!

Guido abandona tudo. Após se despedir de toda a equipe, cai no mundo. Voltando alguns anos depois… E numa conversa com Lilly, enfim vence o bloqueio. Achando o tema certo para um novo filme… Então… é: Luz! Câmera! …AÇÃO! Agora, se foi por conta do ego ferido, ou não… Como todo excelente filme, deixa que o público dê asas a sua imaginação.

Nem preciso mencionar que a Trilha Sonora de ‘NINE’ veio a somar nesse excelente filme. Aqui, no site oficial, tem como ouvir as músicas na íntegra. Entrou para a minha lista de que vale a pena rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Nine. 2009. EUA / Itália. Direção: Rob Marshall. Elenco: Daniel Day-Lewis (Guido Contini), Marion Cotillard (Luisa Contini), Penélope Cruz (Carla Albanese), Judi Dench (Lilliane La Fleur), Kate Hudson (Stephanie Necrophuros), Stacy “Fergie” Ferguson (Saraghina), Nicole Kidman (Claudia Jenssen), Sophia Loren (Mamma). Gênero: Drama, Musical Romance. Roteiro: Michael Tolkin  e Anthony Minghella. (*)Baseado no livro de Arthur Kopit, de 1982. Que foi derivada de um jogo italiano de Mario Fratti inspirado pelo filme autobiográfico de Federico Fellini 8 ½.

(*¹) – Eu fui assistir num dos Cinemas UCI, no UCI New York City Center. Se por mais um lado, estão de parabéns, por terem colocado o espaço para o cadeirante no meio. Por outro, quem projetou não visualizou que colocaram o telão muito baixo. Os recostos das poltronas da fileira a seguir, tampam a legenda que está na segunda linha. E as cabeças dos que sentam ali, tampam a primeira linha da legenda. É algo simples de resolverem: só subirem com a tela. Ai sim sim, seria um Cinema Nota 10.

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