Magnólia (1999). Um Complexo Mosaico da Vida Cotidiana

magnolia-1999_cartazmagnolia-1999_01Por: Cristian Oliveira Bruno.

Uma vez montado, o quebra-cabeças de P.T. Anderson forma uma das mais belas pinturas sobre a difícil vida cotidiana, tão em voga no final do século passado.

Linda Partridge (Julianne Moore) é uma mulher que se casou por puro interesse financeiro com Earl (Jason Roboards), um milionário idoso consumido pelo câncer. Sentindo-se culpada e cada vez mais apaixonada pelo marido, Linda está entregue aos antidepressivos e contrata o enfermeiro Phill Pharma (Phillip Seymour Hoffman) para tomar conta de seu marido moribundo enquanto tenta cancelar o testamento que lhe coloca como única herdeira de toda a fortuna de Earl. Phill, tentando realizar o último desejo de seu paciente, tenta contatar Frank Mackey (Tom Cruise) o único filho de Earl, com quem ele não fala há anos. Frank é um astro do universo masculino escrevendo livros de auto-ajuda e palestrando para homens fracassados sobre ‘como dominar as vaginas’. Enquanto isso, Jim Kurring (John C. Reilly) é um religioso policial que faz sua patrulha rotineira pelas ruas do vale que acaba atendendo a um chamado de perturbação da paz. Na residência, conhece e inicia um flerte com Claudia (Melora Watters), uma drogada traumatizada que odeia seu pai, Jimmy Gator (Phillip Baker Hall) com todas as forças. Jimmy é apresentador de um programa de perguntas e respostas com crianças prodígio na TV, que esconde estar com câncer e tenta reaproximar-se de sua filha que o acusa de ter abusado dela quando criança. Stanley Spector (Jeremy Blackman)é um dos garoto prodígio estrela do programa de Jimmy, explorado pelo pai que parece esquecer-se de que trata-se de um garoto apenas e não uma máquina. No meio disso tudo, Donnie Smith (William H. Macy) ficou famoso quando criança ao participar do programa de Jimmy, mas agora luta para se auto-firmar e para assumir sua sexualidade”.

magnolia-1999_03Por esta ‘pequena’ sinopse acima, nota-se que tão difícil quanto acompanhar Magnólia (1999) é mostrar-se indiferente com a obra-prima de Paul Thomas Anderson. Exímio conhecedor e estudioso de cinema, o diretor é pertencente a uma casta cada vez mais escassa de cineastas que ainda põem o cinema e a arte em primeiro lugar. O que por vezes pode aparentar arrogância, aos meus olhos é pura e simplesmente uma demonstração de respeito para com o espectador. P.T. Anderson não apenas quer, mas exige que nos entreguemos por completo ao filme e o acompanhemos com atenção quase letárgica para assimilar ao máximo os pormenores desta magnífica e esplendorosa alegoria.

magnolia-1999_cartazAcompanhando um único dia da vida de dez personagens, cujas estórias encontrar-se-ão entrelaçadas em determinado ponto (daí a associação fantástica com as flores do título, inseridas cirurgicamente ao fundo de cenas aparentemente despretensiosas, como se cada vida e cada história fosse uma pétala que em determinado ponto se unem para formar algo muito mais complexo e bonito), o excelente roteiro de Anderson é transposto para a tela de forma brilhante em uma narrativa extremamente atípica e nada convencional. Todo aquele arsenal de jogadas e macetes cinematográficos demonstradas em Boogie Nights (1997) agora seriam elevadas à máxima potência e detalhadamente trabalhadas em 3h e 10 minutos de filme. E os artifícios empregados pelo diretor para evitar que seu filme acabe por se tornar cansativo e desinteressante (afinal não é todo mundo que tem paciência para acompanhar um filme de três horas sem uma gota de ação sequer), já que exige uma dose cavalar de boa vontade por parte do espectador, são tão amplos e ricos que chega a ser até ultrajante tentar identificá-los e enumerá-los. Mas, talvez o mais perceptível de todos seja o tempo que Anderson desprende para cada personagem e estória paralela. Quando uma das subtramas começa a tornar-se prolongada demais, Magnólia corta de imediato para aquela que a mais tempo abandonada pelo filme, obrigando você não só a tentar remontar aquele estória na memória, como também a prestar uma enorme atenção ao que está por vir. E este ciclo repete-se incessantemente até o final, quando alguns dos personagens se cruzaram. Mas também se faz necessário citar o excelente ‘clipe’ inserido no início do longa apresentando rápida, porém certeiramente cada personagem e seu universo, num momento interessante momento de instante de inspiração narrativa – bem como alguns belos planos-seqüência bem elaborados ao longo da obra.

magnolia-1999_chuva-de-saposP.T. Anderson permite-se uma liberdade poética genial em alguns pontos chave, mais evidentes linda na montagem onde todos os personagens cantam a mesma canção e depois seguem as cenas de onde elas pararam e na enigmática e controversa chuva de sapos. E essa liberdade reflete diretamente no talentosíssimo elenco magistralmente dirigido por Anderson, onde todos recebem personagens riquíssimos com histórias densas e emocionantes. Isso faz com que nenhuma passagem seja gratuita ou desinteressante, pois afinal, nos identificamos seus defeitos e nos importamos com cada um deles. Impressionante como Anderson compreende que os defeitos de seus personagens são aquilo que mais nos aproxima deles, ao invés de depor contra eles. Desse modo, ao acompanharmos um filho proferindo palavras duras e cheias de ódio para seu pai no leito de morte do mesmo, não sentimos raiva dele, mas sim tristeza, pois reconhecemos ali uma intensa mágoa e uma desilusão quase mortífera em seu olhar (e o fato de ele pronunciar as frases “eu espero que você sofra muito, pois eu te odeio” e “não morra, por favor, não morra” nos dá a dimensão do real estado conflitante do personagem).

Magnólia é daqueles filmes que não é pra qualquer um. Acompanhá-lo exige mais de nós e em alguns momentos exige demais. No entanto, apreciá-lo é uma das mais magnificamente prazerosas experiências que o cinema nos proporcionou nas últimas décadas. Quem se dispor a assisti-lo, ficará maravilhado com forma como todas as subtramas se conectam perfeitamente para formar um complexo mosaico da vida cotidiana atual. Magnólia não fácil, não é simples e não é para qualquer um. É simplesmente magnífico!!! Nota 9;5.

Magnólia (1999).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Para Sempre Alice. (Still Alice. 2014)

para-sempre-alice_2014O grande diferencial do drama de Alice estaria em sua vida profissional: cátedra em Linguística. Pois para alguém com o domínio em comunicação ao se deparar com a doença de Alzheimer por certo sentirá bastante a perda da memória. Ou pelo menos deveria ter sido todo o desenrolar dessa história. É que em “Still Alice” faltou algo mais. Está tudo lá, mas…

para-sempre-alice_2014_julianne-mooreJulianne Moore parece levar o filme nas costas. Talvez por ser mais íntima dos dramas do que propriamente ter sido guiada por uma boa direção. O que me levou a saber um pouco dos que assinavam a direção, e que por sinal também assinaram o roteiro: Wash Westmoreland e Richard Glatzer. Wash tem um pouco mais de chão do que o outro, mas em comum têm o reality show “America’s Next Top Model“. Talvez daí veio os enquadramentos que levou o filme a quase parecer um comercial de margarina. Não que precisariam fazer um dramalhão, mas o problema em si ficou meio artificial no seio daquela família.

Como o filme veio de um livro, e que eu ainda não li, parece que pegaram de tudo um pouco, mas não deixando espaço para os sentimentos aflorarem. Parecendo ter havido um corte cirúrgico, preciso, como a querer mostrar tudo. O que tem o lado positivo em nos mostrar todo o drama de Alice. Mas peca em parecer mais um documental do que propriamente em nos contar a história de uma mulher que deixaria de ser a Alice que ela e todos conheciam, para ser uma Alice só um corpo vivente. Sei lá! Posso ter ido com expectativas demais. É um filme onde o impacto maior ficou na subida dos créditos finais. Esplêndido!

para-sempre-alice_2014_elencoPara se ter uma ideia dessa maneira que os Diretores resolveram contar essa história cito os personagens ligados a Alice. O do Alec Baldwin que faz o marido de Alice parecia ter caído ali de para-quedas. Por mais frio que o marido tenha sido na trama do livro, nem isso ele passou. Primeiro que não houve química entre ele e Julianne Moore como ocorreu por exemplo com a Meryl Streep em “Simplesmente Complicado“. Depois que não houve emoção em duas cenas pelo menos. A que encontra Alice após ela não ter achado o banheiro. E a onde passa a “batata quente” para a filha Lydia, personagem de Kristen Stewart. O choro ficou forçado. Baldwin no todo mais parecia perguntar a câmera se ficara bom. A Stewart também parece ter sido podada as asas. Como se o voo maior só poderia ser pela Alice. Para quem a viu em “Corações Perdidos” sabe o quanto de voo ela pode alçar. Lydia o oposto da mãe até em ambições pessoais teria alçado altos voos. Não sei se por também não ter dado química com a Moore. Os demais filhos de Alice também ficaram à margem. O personagem do Hunter Parish, o Tom, até pode ser ter ficado alheio. Mas creio que com a filha Anna (Kate Bosworth, de “Quebrando a Banca“) cujo impacto da doença seria maior, não apenas por conta de um joguinho online entre ambas, mas principalmente porque Anna trazia um aditivo: o de ter pressa em viver intensamente. Nessa altura, destaque então para o neurologista de Alice: o Dr. Benjamin (Stephen Kunken). Que profissionalmente deu um lado humano a doença de Alzheimer.

Viva o momento!“.

para-sempre-alice_borboletaHá outros filmes que também abordam o drama pessoal de quem padece dessa doença. Onde cada um tenta ter o domínio de pelo menos uma parte de sua própria história antes que a doença os atinjam de todo. Em “Longe Dela” houve um procurar por onde passaria seus dias quando enfim a doença se instalasse. A Alice nesse aqui, até foi ver uma Clínica, mas pela a realidade da doença que viu nesse lugar, parece ter deixado isso para a família decidir. Um outro filme seria o “Poesia“, onde a protagonista tem quase uma última tomada de decisão… Cito esse porque a Alice nota de que não há muitos movimentos em favor da doença de Alzheimer, em favor de quem padece desse mal. Então ciente de que ainda tem um pouco do dom da eloquência, procura por atrair mais pessoas pela causa em si. Cena linda com a filha Lydia durante a preparação do discurso, e depois ao lê-lo numa palestra.

Em resumo a doença bate à porta de Alice às vésperas dela completar 50 anos de idade. Onde ainda teria uma longa vida produtiva. Para alguém que tinha como o ganha pão o domínio das palavras, a doença é um duro golpe do destino. O título original do filme “Still Alice” diz melhor sobre quem padece dessa doença: que de apesar de todos os pesares ainda é a Alice naquele corpo. Mas que ela já não saiba mais disso.

para-sempre-alice_2014_smartfone_aliado-da-memoriaAinda um detalhe que eu até já tinha visto num episódio da série “Os Millers“. Uma solução para a perda de memória do personagem de Beau Bridges. Claro que por ser uma comédia tiraram o peso do problema em si. Mas que não deixa de ser de uma grande ajuda para quando ainda se tem alguma memória. É que atualmente graças a tecnologia dos Smartfones essas pessoas ganharam um aliado portátil. E Alice o usa enquanto ainda tem o controle da mente. Porque depois não terá mais a tal serventia para eles. É! É uma doença por demais castradora!

O filme por certo é muito bom: dou nota 08! Merece ser visto. Até pelo lado elucidativo para esse mal ainda sem uma cura. O que valida o rever para clarear as ideias acerca dessa doença, até para reavaliar conceitos, preconceitos… Mas por conta do que falei, de ter ficado um tanto quanto plástico, para mim ele deixou de ser um excelente me levando mais a querer ler o livro homônimo de Lisa Genova o qual o filme foi baseado. O que ficou mesmo após o filme foi a “tradução literal” da doença de Alzheimer na subida dos créditos finais. De ter exclamado um sonoro: “Nossa!”. E para quem já viu o filme a “borboleta” deixa uma reflexão…

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Para Sempre Alice. (Still Alice. 2014). Ficha técnica: página do filme no IMBb.

Porque eu Não Gostei de “Amor a Toda Prova” (Crazy, Stupid, Love. 2011)

Talvez por eu ter ido com muita expectativa até devida as críticas elogiando o filme. O certo é que esperei mais e acabei me decepcionando com “Amor a Toda Prova“. Teve momentos de fazer força para não cochilar. Alongaram por demais a estória. Se enxugassem bem, ele até que daria um bom sessão da tarde. E talvez assim, eu teria vontade de rever.

Mas o motivo principal de eu não ter gostado foi por conta do protagonista: de terem escolhido o Steve Carrel. Não é porque eu não goste dele, eu até gosto. O lance foi que “Amor a Toda Prova” ficou como um: os days after do “O Virgem de 40 Anos” se ele tivesse tido a chance de transar mais jovem. Até me peguei a pensar se com outro ator eu teria gostado do filme por um todo. E quando isso ainda acontece durante o filme, já depõe contra. Foi no meio do filme que a estória desse aqui se perdeu em querer aproveitar esse seu outro personagem. Ficou como contar a mesma piada seguidamente.

Sei que seu personagem em “O Virgem de 40 Anos” ficou como marca registrada. Fará parte da memória cinéfila de quem viu. De ser até o primeiro filme que vem à mente ao ouvir seu nome: Steve Carrel. Nem a sua performance em “Agente 86” não terá a mesma intensidade nesse tipo de associação, já que para os fãs da Série de Tv será o rosto de Don Adams que será (e)ternamente lembrado como o Maxwell Smart.

O que é uma pena! Carrel é um ótimo ator. Só para citar um exemplo de um perfil parecido ao de “Amor a Toda Prova“, onde ele faz um cara romântico, ligado a um único amor, um pai preocupado com quem a filha namora…, mas sem cair no caricatural, nem em cópia, temos ele em “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”. Onde está ótimo, e num filme gostoso de rever!

Para mim, em “Amor a Toda Prova” apelaram atrás de faturamento nas bilheterias, já que na quase totalidade das cenas, seu personagem, o Cal, parecia ter pulado do “O Virgem de 40 Anos”. E nem era preciso! Pois seu personagem já mostrava o seu perfil logo no início com a cena melodramátrica quando salta do carro em movimento por não querer ouvir as explicações da esposa ao querer o divórcio. Mais do que orgulho ferido, ficou como “meu mundo caiu”. Por ser justamente um cara muito romântico. E o filme deveria ter seguido por ai, com um roteiro original. De acordo com o título original do filme: em que também se faz coisas estúpidas em nome do amor.

Mas o roteiro quis trazer as gracinhas do outro filme, não apenas se perdeu como desperdiçou boas estórias na trama, e que na verdade nem eram situações paralelas já que todas se interligavam; e de acordo com o título. A principal era com seu casamento sendo desfeito já no início do filme. Uma relação de décadas, cuja chama se apagou. Até que durou bastante para um casal tão sem sal: não houve química entre Steve Carrel e Julianne Moore. Até por isso foi desperdício em plagiar esteriótipo de outro filme.

Mesmo que fosse um “discutir a relação” com muito atraso, ainda assim era válido. Poderia sair lances engraçados, sem forçar barras. Ficou desconexos as atitudes patéticas dele e fora de realidade as estória da Emily. Uma dona de casa que não percebe que tem alguém cuidando do jardim, por exemplo. Que mesmo tendo tido uma relação extra-conjugal com um colega de trabalho, não a fez mudar internamente. Só lhe deu um sentimento de culpa pela traição, dai pediu abruptamente o divórcio. Na verdade, essa traição veio mesmo como gancho para as cenas seguintes. Ou, para aproveitaram-se de “O Virgem de 40 Anos”.

O filme deslancha com a entrada do personagem de Ryan Gosling, o Jacob. Esse, já não aguentando mais os repetitivos e em bom volume desabafos do Cal, resolve ajudá-lo a encontrar sua auto estima. Foi quando pensei: Legal! Teremos um Pigmaleão atual. Jacob até consegue mudar, melhorar a aparência do Cal. Esse por sua vez, tenta seguir os passos do mestre, mas a sua essência o atrapalha. É onde fica uma cópia do outro filme.

Outro ponto alto, mas que depois também desperdiçaram, foi com a personagem de Marisa Tomei. Se os opostos costumam atrair, os iguais tendem também. Sendo que nesses casos, periga um ver o outro como uma tábua de salvação. E com isso não ter o clima só de “ficar”, pelo menos para o que estiver se sentindo mais no fundo do poço. Foi o que aconteceu com Kate (Marisa Tomei) após passar uma noite com Cal. Mas o roteiro quis mais um gancho para o Cal agir como o do outro filme. E depois, a gracinha virou algo grotesco, para não dizer estúpido, de Cal para Kate. Algo cafajeste, e nada a ver com a personalidade dele. A cena seria aceitável entre adolescente. Enfim, me deu pena de ver.

Assim, após as aulas de Jacob, onde Cal tenta colocá-las em prática, o filme cai num tédio. E nem deveria, já que plagiavam “o Virgem de 40 Anos”, a pretexto de fazer, trazer a graça desse outro para o atual. Voltando a esquentar quando Jacob volta com uma novidade: estava realmente apaixonado por alguém.

As outras duas paixões mostradas no filme, até que ficou bonitinho. A do filho (Jonah Bobo) de Cal pela babá (Analeigh Tipton). E da babá pelo Cal. Já o do colega de Emily para com ela só veio mesmo para o Cal repetir exaustivamente o nome do rival: David Lindhagen. Tanto a estória se perdeu, como o próprio personagem. Desperdiçando o ator Kevin Bacon. Emma Stone cujo personagem vira a cabeça de Jacob, também foi desperdiçada, ela e a estória.

Então, em vez de loucuras por um grande amor, TUDO foi para mostrar as tentativas do Cal em paquerar, mas como cópia de um outro importante personagem de Steve Carrel. Minha nota é 07.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love. 2011). EUA. Direção: Glenn Ficarra, John Requa. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 118 minutos. Classificação etária: 12 anos.

Tudo Sobre Minhas Mães

Dois filmes lançados no verão americano tem como tema a maternidade- “Destinos Ligados” ( Mother and Child, 2010), dirigido por Rodrigo Garcia, junta maternidade/adoção e, Minhas Mães e Meu Pai ( The Kids are All Right, 2010) de Lisa Cholodenko, junta maternidade/familia, e, em ambos casos, os filhos não estão bem.

O foco de “Destinos Ligados” é praticamente nas três personagens centrais – interpretada por Annette Bening (Karen), Naomi Watts (Elizabeth) e Kerry Washington (Lucy). São três mulheres simpáticas, mas nenhuma é extremamente agradável. Karen vive uma eterna amargura desde que aos 14 anos foi forçada pela mãe a colocar a filha para adoção. Elizabeth é a filha “perdida” de Karen. Hoje, aos 37 anos de idade, é ainda solteira, fria, sexualmente permissiva, ambiciosa, e bem sucedida como advogada. Ela seduz seu novo chefe, Paul (Samuel L. Jackson), que vive “embriagado” e aterrorizado pelo seu auto-controle. Elizabeth também, fora do que parece, é pura maldade, vai para a cama com o vizinho. Numa cena, ela deixa sua calcinha dobrada na gaveta de roupas íntimas da mulher do vizinho, que é alegre e está gestante – numa maneira de fazer todos ao seu redor  infelizes assim como ela!  Depois, Elizabeth engravida, abandona o emprego sem maiores explicações, e sua estória obviamente se conecta com a vida de Lucy, que é uma bem-sucedida dona de padaria. Casada com Joseph, mas frustrada pelo fato de não poder ser mãe, ela entra num processo complicado de adoção, e é “esmagada” quando a mãe biológica, de repente muda de idéia. E, ainda pior, o marido do nada diz que quer ter seu próprio filho, algo que Lucy é incapaz de lhe dar.  Lucy adota a filha de Elizabeth, e vemos na tela que ser mãe não é algo tão fácil assim.

Pontos Fortes:

O elenco é excelente, mas destaco a Bening, que faz a desequilibrada, infeliz, estranha e problemático Karen, de uma forma tão natural, que quando a personagem se torna mais amável e compreensivel, é facil de notar que uma atriz menor não teria sido capaz de dar sentido as ações de Karen.

O tema adoção é algo bastante delicado, pois foge da ordem natural, onde pode confundir ou alienar, e o filme faz uma boa leitura sobre o tema.

Ponto Fraco

O roteirista e diretor Rodrigo Garcia entrelaça três estórias, num estilo bem “Crash” ( 2005)-, mais parecido com  o recente “The Burning Plain” ( 2009), onde os pecados dos pais são frequentemente visitados em cima dos seus filhos, e como nós precisamos nos relacionar com outras pessoas para sermos plenamente humanos- não apenas para nosso próprio bem, a fim de levar uma vida plena (embora também por esse motivo), mas para salvar nossas crianças a seguir o mesmo caminho. Mas o problema do filme de Garcia é sua cara de novela das 9. Além disso, achei os personagens masculinos  superficiais e estereotipados- todos são fortes e razoáveis e as mulheres são neuróticas ou totalmentemente instáveis.

Já “Minhas Mães e Meu Paié um filme melhor, mas longe de ser um grande filme. Achei-o um caso raro de filme, que descreve a cultura pop de hoje- é uma comédia dramática-, composta principalmente de atuações expressivas e belos diálogos. As conotações de tristeza há dentro de cada personagem- por isso é mais importante prestar muita atenção ao que eles nem sempre estão dizendo. Cada indivíduo neste filme estão à procura de algo para preencher suas vidas.

As mães aqui são um casal de lésbicas, e elas não recorrem a um processo de adoção, mas de um laboratório de esperma, onde cada uma tem um filho.  Quando Joni (a filha) à beira de ir para a universidade, é encorajada por seu irmão mais novo (Laser) a descobrir quem é o doador de espermas, toda a familia descobre que a reunião com o doador (Paul) será o maior erro de suas vidas. O filme faz o ajuste dos papéis na construção familiar moderna.

Pontos Fracos

Não achei que haja química entre o casal de lésbicas interpretado por Bening (Nic) e  Moore (Jules). Nic é uma mulher perfeccionista, de personalidade forte,“butch”(o homem na relação com seu modo de se vestir e da linguagem), dependente de vinho tinto, mãe controladora, e uma esposa um pouco ausente por causa de sua profissão- médica. Na verdade, não consegui me envolver com o dilema de Nic, que é basicamente ser a mãe-modelo/perfeita, e demonstrar total insegurança diante da presença de Paul. E, como médico, Nic me pareceu um tanto quanto cega, que não percebe que seu filho está usando drogas.

Moore faz uma dona de casa insatisfeita, irritada e insistente em seu suposto potencial artístico e criativo. Sim, me envolvi com o drama de Jules, mas achei precipitado o começo da  relação sexual entre ela e Paul, me deixando a impressão que ela se sente mais realizada transando com Paul, do que fazendo amor com Nic- por sinal,  achei a cena de sexo entre as duas, de puro mau gosto, como se o sexo entre mulheres ficasse a base de um consolo, e de assistir filmes pornôs masculinos!. Eu posso dizer honestamente que eu nunca conheci nenhuma lésbica, mãe ou não, que assistam filmes pornôs masculinos. Me pareceu que a Cholodenko, que é lésbica, quis destacar o fato que a indústria pornô representa o sexo lésbico de forma não realista, mas o que torna as pessoas homossexuais não são os atos de determinado sexo, mas a atração para o sexo, coisa que a Cholodenko esqueceu de acrescentar em Nic e Jules.

Também achei que Cholodenko deveria ter dado um tratamento melhor ao personagem Laser (Josh Hutcherson). No início do filme fica a impressão que o personagem seria o fio conduto da estória. Por exemplo, Laser quer conhecer o doador de esperma como se quisesse preencher algo na sua vida, mas praticamente, Cholodenko deixou o personagem meio perdido, sem saber o que fazer, e mesmo a sua relação com o melhor amigo Clay, permaneceu vazia.

Pontos Fortes

Paul (Mark Ruffallo) é um cara descontraído, amável, imaturo, não confiável, proprietário de um restaurante, e dono de estilo sonhador. O único indivíduo com algum senso entre a satisfação profissional e pessoal. E, pouco exigente em um relacionamento sexual com a bela Tanya (Yaya DaCosta). Mesmo assim Paul me pareceu o individual mais traumatizado no decorrer da estória. Ele começa a aparecer menos simpático e menos cômico, e ao fim do filme, Paul  não consegue voltar ao que era antes, depois de se apaixonar por Jules. Ruffalo, um ator que sempre achei fraco, rouba todas as cenas que aparece nesse filme.

A cena quando Nic canta com Paul, a canção de Joni Mitchell “All I want”-as expressões faciais de Bening são gloriosamente embaraçosas, mas retratam muito bem a mensagem da canção:

I want to talk to you, I want to shampoo you
I want to renew you again and again
Applause, applause – life is our cause
When I think of your kisses
My mind see-saws
Do you see – do you see – do you see
How you hurt me baby
So I hurt you too
Then we both get so blue

Particularmente, achei a cena linda, e me fez querer ouvir Mitchell durante todo o filme.

Politicamente engajado, o filme de Cholodenko faz um belo retrato sobre o casamento (quer seja gay ou não), descrito pelo persongem Jules como “algo realmente dificil.” Porém, no fundo, achei que tanto “Destinos Ligados” quanto “Minhas Mães e Meu Pai” não acrescentaram nada de novo- tem muito potencial, mas mereciam melhores diretores…ah, se eles tivessem sido dirigidos por um Robert Altman, ou por um Ingmar Bergman… ou até mesmo por um Paul Thomas Anderson… seriam algo mais do que apenas “UM FILME.”

P.S.: ah, se o Oscar fosse justo, o pessoal por trás desse lobby de premiação, poderiam ser mais sensatos, pois Bening nem mesmo merece ser indicada por “ Minhas Mães e Meu Pai”, levando-se em conta trabalhos mais relevantes de atrizes como Hilary Swank ( Conviction, 2010), Michelle Williams (Blue Valentine, 2010), Lesley Manville ( Another Year, 2010), Noami Watts (Fair Game) e até a propria Bening está bem melhor no melodrama,  “Destinos Ligados” (2010). Vir com a idéia que Bening nunca ganhou e merecer ser agraciada, é uma vergonha, pois, por que não a Julianne Moore? Ela merece muito mais do que a Bening, pois mesmo perdendo a conta das mulheres frustratas que a Moore já fez no cinema, más o que mais me encanta nesse atriz é sua capacidade de transmitir tanta veracidade em cada olhar, e em cada palavra que fala, e em cada sorriso- contagiante!-, e em cada choro- que vai do medo, da tristeza, da depressão, da dor, da alegria exagerada, e da aflição. Sempre natural!. Mas, uma certeza tenho, em 2010 não vi  nenhuma atuação que chegasse ao patamar na magistral  Natalie Portman em “Cisne Negro.”

Destinos Ligados (Mother and Child, Estados Unidos, Espanha , 2009) – 125 min. Drama Direção: Rodrigo García. Roteiro: Rodrigo García. Elenco: Annette Bening, Naomi Watts, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Lisa Gay Hamilton, Cherry Jones, David Ramsey, Jimmy Smits, Amy Brenneman, David Morse, Tatyana Ali, Gloria Garayua, Carla Gallo

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are All Right, 2010)- 101 min. Comédia Dramática. Direção e roteiro: Lisa Cholodenko. Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Josh Hutcherson, Mia Wasikowska, Mark Ruffalo, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Eddie Hassell, Rebecca Lawrence e Joaquín Garrido

A Vida Íntima de Pippa Lee. Ou, deixando de ser uma Doméstica em seu Lar Doce Lar

Não sei se assisti a esse filme num dia sem a menor paciência para ‘prendas do lar’. O certo é que tive que fazer força para não cair no sono na primeira meia hora do filme. Aliás, esse é um daqueles filmes que se enxugassem uns vinte minutos, ficaria mais amarradinho. Mas como esse filme me levou a uma divagações, terá spoilers.

Tudo bem que nesse período entediante… era mostrado a vida de uma dona de casa branquinha dos Estados Unidos. Algo como a própria Pippa Lee definiu: de que a maioria queriam e viviam como a de um comercial de margarina. Digo o branquinha, por aquilo que vimos nos filmes. Principalmente retratando há mais de trinta anos atrás. Uma dona de casa negra, não teria sido retratada assim. Seria mais como em ‘Corina‘, com a Whoopy Goldberg. E se for para esteriotipar com comicidade, creio que ‘Y Love Lucy‘ é ainda imbativel. Ok! Essa era uma Série de Tv, mas que eu adorava assistir.

Pippa Lee (Robin Wright Penn) começa o filme como uma dona de casa de uma classe média… diria que alta, pela casa. Como num comercial… mesmo servindo um jantar feito por ela… parecia era ter saído de um salão de beleza. Muito elogiada por todos, mas algo dito pelo seu filho, lhe faz parar e reavaliar a sua vida. De algo eu gostei muito: embora faça isso aos cinquenta anos de idade, deixa a mensagem que nunca é tarde demais para um ‘Acorda Mulher!’.

Acontece que ao longo do filme, vemos que poderia ter feito isso bem antes de casar, ter filhos… É quando começa a contar sobre a sua relação com a sua mãe, Suky (Maria Bello). Em criança (Madeline McNulty), se sente responsável pelo comportamento de sua mãe. Suky, por sua fraqueza emocional, se aproveita dessa dependência. Até porque suas outras tábuas de salvação seriam as anfetaminas, e sonhando que vivia como num filme, num comercial… Pippa era uma também, mas que lhe dava um eco…

Pippa só descobre o que deixava a mãe entre fase depressiva, e eufórica, já adolescente (Blake Lively). Assim mesmo, porque seu irmão contou. Resolve então experimentar… para ver se vivenciando encontraria a causa. Mas por esse caminho, era como pegar um atalho direto para uma das consequências. Pois uma das causas, seria uma vida onde se excluísse por completo. Seguindo o determinado culturalmente – casar, engravidar, cuidar do marido, filhos, casa… -, e de si, só cuidados com a aparência. Para não quebrar o ciclo. De ser uma dona de casa elogiada por todos. Sempre solícita. Sem negativas.

No filme ‘O Sorriso de Monalisa‘, creio que foi a personagem de Kirsten Dunst que diz para a de Julia Roberts, que uma mulher também pode se sentir plenamente realizada sendo apenas dona de casa. Embora aceite tal argumento, ainda assim me pego a pensar se no fundo Pippa não estaria ocultando uma inaptidão para uma realização profissional. Ou mesmo por não saber viver só.

Após ver que tomara o caminho errado, Pippa foge de casa. Indo morar com uma tia, Trish (Robin Weigert). Lá, descobre a homossexualidade da tia. Algo que para ela, vê como uma subversão. Que a deixa excitada, mas no sentido de rebeldia. Embora sua tia diz que terá que voltar aos estudos, Pippa se deixa seduzir pela companheira de sua tia, Kat (Julianne Moore). Pelo trabalho dela… E quando a tia descobre… acabou-se o que era doce.

Pippa era meio limitada. Intelectualmente fraca. O que a levou a seguir o ciclo, em vez de quebrá-lo. Não chegou a fazer o que sua mãe fazia. Mas colocou na cabeça que queria ser indispensável para as pessoas. Sem aptidão profissional, só lhe restava ser uma dona de casa nota mil.

Conhece Herb (Alan Arkin), um escritor, e trinta anos mais velho. Ele estava casado com Gigi (Monica Bellucci). Mas Herb foi se apaixonando perdidamente por Pippa. Até que por um acontecimento trágico… Pippa que antes gostava de ser o centro das atenções dele, é levada a ser esposa dele. Conseguindo ai mostrar o seu valor como dona de casa, mãe, e esposa exemplar. Deixando a si mesmo de fora desse pacote. No final… bem, é como se trocasse da casa: trocando uma fixa por uma móvel.

Herb até tenta lhe dá meios para que adquira muito mais cultura. Mas não era mesmo a praia de Pippa.

De volta ao seu presente… Pippa descobre que tal qual a sua mãe, também tinha um segredo. Algo onde extravasava a sua frustração. Mas fazer um balanço do passado é bem mais fácil. Já do seu presente, não. E para confundir ainda mais suas emoções, descobre que seu marido a está traindo com sua melhor amiga, Sandra (Winona Ryder). Bem mais jovem que ambos. Ela é casada com Sam (Mike Binder). Este nutre uma paixão por Pippa. Até por achá-la a esposa que todo homem deveria ter. Talvez, por destratar, humilhar publicamente a esposa, é que Sandra quis dar-lhe um troco. Mas por também se sentir por baixo, encontra no amigo Herb a sua tábua de salvação.

Eis que surge um não tão jovem meio rebelde no caminho de Pippa. Ele é Chris (Keanu Reeves). Que após uma separação, volta à casa paterna. Esses, vizinhos de Pippa. A mãe de Chris, é mais uma dona de casa a se preocupar mais com o que os outros irão dizer, do que consigo própria. Chris, é daqueles cara sem a menor aspiração profissional. Mas não que isso lhe pese tanto. O que o leva a tentar afastar-se das que seguem essa cartilha.

Pippa, inconscientemente, tenta ver nessa relação o porque de sua filha menosprezá-la. Grace (Zoe Kazan) se ligou mais ao pai. Pippa novamente, busca por uma causa, pegando um atalho que a leva para longe. Até que dessa vez, o destino deu uma mãozinha… Embora uma cena curtinha, mãe e filha se entendem.

Após repassar toda a sua vida a limpo… Pippa vai viver, vivenciar algo que não vivera no passado. Por ter-se ligado logo a um homem bem mais velho. Em busca de uma adolescência/juventude tardia. Errada, não estava. Até porque carreira profissional nunca fizeram mesmo parte do seu ideal de vida. Ambos, Chris e ela curtiam essa vida… mediana.

Como falei no início, com menos uns 20 minutos de filme, ficaria melhor. Se chegou até esse trecho, e se interessou pela história, assista. Mas se tiver um outro que queira muito ver, ou rever, nem pense duas vezes. Esse aqui, seria um que já poderia ter ido logo para a tv. É um filme mediano. E confessando que fiquei pensando porque a Julianne Moore aceitou fazer esse filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Vida Íntima de Pippa Lee (The Private Lives of Pippa Lee). 2009. EUA. Direção e Roteiro: Rebecca Miller. Gênero: Drama. Duração: 93 minutos.