Tese Sobre um Homicídio (Tesis Sobre un Homicidio, 2013)

tese-sobre-um-homicidio_2013tese-sobre-um-homicidio_01Por: Eduardo Carvalho.

Roberto Bermudez (Ricardo Darín), ex-advogado, agora professor de direito penal, leva uma bem sucedida carreira como autor de livros de Direito e seus cursos de pós-graduação. Gonzalo (Alberto Ammann), um de seus novos alunos, é filho de um antigo amigo e trata-o como verdadeiro ídolo, e surge com uma inusitada tese sobre criminalidade: a Justiça preocupasse apenas em investigar casos que ameacem os detentores do poder. A insistência do rapaz em tal ideia passaria desapercebida, até que uma mulher aparece morta no estacionamento da faculdade de direito. Um detalhe faz com que Bermudez ligue Gonzalo ao assassinato, e ele se vê desafiado a solucionar o crime, provando a culpa de seu aluno.

Com a razão comprometida pela obsessão – no passado, Bermúdez havia acusado outra pessoa injustamente em um crime –, o professor vai se aprofundando na investigação, a ponto de envolver Laura (Calu Rivero), irmã da vítima, no caso, e colocá-la em provável perigo junto a Gonzalo. O diretor Hernán Goldfried vai habilmente conduzindo o espectador pela trama de “Tese sobre um Homicídio”, enquanto questiona a própria convicção de Bermúdez quanto ao suposto autor do crime, cada vez mais imerso em suas (in) certezas. Pois mesmo o provável assassino envereda por um caminho ambíguo, revelando pequenos elementos de suas ideias ao seu mestre, e que poderiam apontar ao crime cometido por Gonzalo. Mas tudo parece ocorrer na visão incerta do protagonista.

tese-sobre-um-homicidio_02O carisma de Ricardo Darín é certo. O ritmo do filme se mantém ao longo da projeção. A tensão intelectual entre professor e discípulo é complementada pelo elemento sexual, tendo uma frágil e sensual Laura como terceiro vértice do triângulo. A câmera é responsável por ótimas cenas – a sequência no museu por entre a instalação de vidros coloridos é uma delas –, e ótimos diálogos surgem aqui e ali, como o primeiro encontro entre Roberto e Laura na delegacia: ao dizer que fora advogado, logo emenda, com o devido cinismo, um “Mas não se preocupe, não exerço mais”. Apesar de tantos elementos favoráveis à película, estamos diante de uma estória com um ponto de partida, no mínimo, questionável. O que leva um professor, ainda que ex-causídico, a empreender um trabalho de detetive? Uma vez que a atuação do advogado normalmente se dá dentro de um escritório, na maior parte por meio do trabalho escrito – petições, teses de defesa, habeas corpus -, é por seus motivos pessoais que Roberto age, e são estes que estão no centro da discussão. Tais motivos lançam Bermúdez neste desafio – nunca proposto claramente por Gonzalo, diga-se de passagem –, e, em última instância, são eles que tornam o filme possível de ser levado adiante.

tese-sobre-um-homicidio_03Ao adaptar o livro homônimo de Diego Paszkowski, o diretor poderia ter optado por atualizar o embate intelectual de “Festim Diabólico” (1948), clássico de Hitchcock, onde o jogo de gato e rato ocorre num único ambiente. Ou, ainda, ter levado adiante a tese central de Gonzalo acerca da relação entre crime e poder, tema explorado com maestria por Elio Petri em “Investigação sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” (1970).  Ao invés disso, Goldfried escolhe um caminho mais palatável, misturando um certo tempero noir a um modelo retirado dos seriados americanos de investigação criminal. Embora possa não ser claramente notado durante a exibição do filme – e que, ainda assim, não compromete as qualidades da obra –, seu tom quase didático mostra que “Tese Sobre um Homicídio” tem um inequívoco apelo comercial, feito para entreter, bem próximo dos moldes do cinema de massa. Apenas assim pode-se crer em um professor que sai da sala de aula – tal qual um certo professor de arqueologia, munido de chapéu e chicote – para realizar, em campo, um trabalho que ensina na teoria.

Tese sobre um Homicídio (Tesis Sobre Un Homicidio. 2013). Argentina. Direção: Hernán Goldfrid. Roteiro: Patricio Vega. Elenco: Ricardo Darín, Alberto Ammann, Antonio Ugo, Arturo Puig, Calu Rivero. Gênero: Suspense, Thriller. Duração: 106 minutos.

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Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo. 2011)

Li o livro de Stieg Larsson em 2008; assisti o filme sueco no final de 2009, e achei a idéia de uma nova “tradução” bem precipitada, pois a obra sueca já era um grande filme,  e que foi muito bem avaliado por LELLA, aqui: “Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2009).

Sinceramente, evitei ao máximo em ir ao cinema, e assistir ao filme de David Fincher, porque não acreditava o quão bem sucedida essa versão seria – tinha minhas dúvidas. Vamos vir e convir, assisti  a primeira “tradução” há dois anos, e como me interessaria em ver exatamente a mesma história contada de novo?.  Bem, fui literalmente levado ao cinema por um amigo, e olha que se arrependimento matasse, eu teria morrido sem ver  “Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres” (2011). Sim, poucas mudanças foram feitas no roteiro escrito por Steven Zaillian — ele acrescenta um humor inteligente que diminue a alta tensão–, e eu tenho que admitir que saber de todo o mistério não me atrapalhou em nada – o fator suspense está lá intacto!

Para assistir o filme de Fincher– preciso dizer que é muito bom!–,não é preciso ignorar o filme sueco- cada filme tem seus próprios méritos!.  Evito aqui falar sobre o enredo do filme- será que eu preciso contar algo?  — bem, qualquer coisa (re) leiam o texto da LELLA!. E,gostei muito das atuações: Daniel Craig está excelente como Mikael, um homem com uma mente inquisitiva, mas humano – mais substancial do que na adaptação sueca!. Quando o versão hollywoodiana foi anunciado, achei super estranho a escolha de Rooney Mara, pois Noomi Rapace fez uma Lisbeth Salander, de cair o queixo, e torci para que os produtores americanos tivessem escolhido própria Noomi para reviver a Lisbeth, já que a mesma é fluente em inglês, mas admito que Mara não é nada mais do que formidável no papel ( embora não entendi o sotaque estranho que ela adcionou na sua caracterização). Ela domina com seu retrato poderoso. Faz uma Lisbeth mal-humorada, mas ainda assim vulnerável. Inteligente, mas sem ser irritante ou arrogante. Christopher Plummer se não viesse a ser indicacado ao Oscar por seu papel em “Beginners” (2011), merecia ser indicado por sua magistral atuação como Henrik Vanger- não tinha nunca sentido no livro, ou mesmo na versão sueca, a perspicácia desse personagem!.

O tom do filme — o desenho de produção—, é escuro, contribuindo para as cenas externas filmadas na Suécia. Os locais são impressionantes, com seus céus de inverno—uma beleza européia distinta!—,caprichada pelas lentes do cinematógrafo Jeff Cronenweth. Os zumbidos da percussão da trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, pode até contribuir a atonalidade do filme como um todo, mas que me deixou extremamente tenso!. Escutando a trilha sem ter as imagens, eu não consegui gostar de nunhuma faixa, mas no filme tudo casa perfeitamente!.

Ganância, corrupção, crime, crise familiar, segredos de guerra, justiça, sexo e amor —  não a forma tradicional de amar–, são os temas abordados no filme. Sexo não é a única coisa que é pouco convencional neste filme –- ele tem várias funções e significados, e esses aspectos do sexo que mais gostei na obra de Larsson.

Satisfatoriamente complexo e cativante, o filme de Fincher prende a nossa atenção por todos os  158 minutos  de duração. Não é o melhor filme do ano, mas é bem superior a filmes que foram indicados ao Oscar este ano – este filme é de cima para baixo, quase perfeito!. E, é apenas a minha opinião, mas um filme não precisa copiar o livro para ser bom – filmes e livros são dois formatos diferentes de uma história, e eles precisam ser tratados de forma diferentes. E, Fincher tem o dom de tomar uma única imagem e torná-la poeticamente ressonante. Este é um filme que realmente mergulha o espectador.

Nota 9,0

Indicado ao Oscar:
Melhor Fotografia- Jeff Cronenweth
Melhor Edição – Angus Wall, Kirk Baxter
Melhor Edição de Som – Ren Klyce Pendente
Melhor Mixagem de Som – David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce, Bo Persson Pendente
Melhor Atriz  – Rooney Mara

A Condenação (Conviction. 2010)

A história em si foi o que me motivou mais a ver esse filme. Em conhecer essa mulher que lutou por anos tentando inocentar o irmão. Já imaginando que com isso ela deixaria outras vidas à margem. Mais do que um amor fraternal, haveria um amor maternal dentro de si. Mas e para os próprios filhos, eles ficariam mesmo de lado durante essa missão? Lugar comum ou não, há no coração de uma mãe o se doar mais ao filho que tem mais chance de sair do caminho. O que tem uma mente mais suscetível as tentações da vida. Como na Parábola, essa irmã/mãezona vai em busca da ovelha desgarrada.

O título original é perfeito, pois se não tivesse tanta convicção da inocência do irmão o mesmo iria apodrecer na prisão.

Em ‘A Condenação’ a história é dessa personagem – Betty Anne Waters -, muito bem interpretada por Hilary Swank. Nossa! Tem hora de desejar que o irmão seja mesmo inocente por causa dela. E que quando entra em cena a personalidade do irmão… Essa convicção ganha uma oitava maior. Bravo Betty Anne!

Sam Rockwell é quem faz o Kenny, o irmão de Betty. Nossa! Ele quase rouba todas as cenas. Perfeito no papel! Talvez por conta de sua performance que no Brasil escolheram como título “A Condenação“. Com o desenrolar da história Kenny me fez pensar no personagem de River Phoenix do filme “Conta Comigo” (Stand by Me. 1986). Por conta de um temperamento instável, por vezes bem agressivo, fica mais fácil de induzir a todos que acreditem na culpa dele. Que o condenem mesmo sendo inocente.

O filme é longo, mas não perde o ritmo, como também deixa um querer ver de novo pelo menos até o julgamento onde condenaram Kenny por assassinato em primeiro grau. Onde mulheres se voltaram contra ele em testemunho, além de uma policial, Nancy Taylor, tentando mostrar serviço. Papel esse interpretado por Melissa Leo. Perfeita. Uma das mulheres que testemunhou que fora ele o assassino é interpretada por Juliette Lewis. Meio irreconhecível, mas também perfeita. Essas duas, mais a mãe da filha de Kenny, conseguem nos transmitir indignação pelo o que fizeram. E com isso das atrizes merecerem aplausos pela performance.

A Condenação” começa num tempo próximo ao presente da história. Em flashback conhecemos um pouco desde a infância desses dois irmãos. Dos dois, mesmo sendo Betty a caçula, há nela a força de salvaguardar o irmão. São arteiros os dois, mas com o temperamento pavio curto dele, e a falta de paciência dos adultos, Kenny cresce com a fama de bad boy. Com isso num local pequeno o “Recolham os suspeitos de sempre!” Kenny é sempre indiciado.

Voltando a falar do amor maternal… A mãe de Betty e Kenny praticamente só os trouxera ao mundo. O que aumenta em Betty o amor até como proteger o irmão. Mais tarde com o primeiro filho Betty chega a dizer que nunca seria como a mãe dela foi. Mas com a condenação do irmão, mesmo estando sob o mesmo teto com seus filhos, mesmo tentando ser presente na vida deles, era como se estivesse ausente. Seus filhos foram crescendo vendo a mãe com o tio dominando seus pensamentos e atos. Ela até voltou aos estudos. Queria muito cursar Direito, ser advogada, e tentar achar um jeito de inocentar o irmão. Por tudo isso, não tem como julgá-la negativamente. O máximo seria em se perguntar se faríamos o mesmo ou não. Mas há mais reflexões. Tanto dos filhos da Betty com ela. Como de quem seria Kenny se não fosse o amor da irmã.

A condenação do irmão acontece em 1983. De lá para cá a ciência evoluiu fazendo com que as Leis se adequasse em aceitar novos meios de se provar algo. Era uma nova porta que se abria. Mas… Outros obstáculos pareciam não evoluir. Admitir que errara, era um deles.

Betty fora o tempo todo incansável. Só se deixou abater por causa de um motivo. Que lhe quebrantou sua alma. Por sorte o destino colocara em sua vida uma amiga de verdade: Abra Rice. Mais uma magistral interpretação nesse filme, e de Minnie Driver. Pois é! Como se não bastassem tantos temas abordados nesse filme, ele nos presenteia com essa linda história de amizade. Abra entra na vida de Betty como uma lufada da brisa da manhã. Traz vida nova! É daquela que diz a verdade com convicção de que o faz por gostar, por querer bem, a amiga. Abra nos mostra que amizade como a dela está ficando mais raro. Pois muitos só querem amigos para massagear o ego.

Por tudo isso, e muito mais que eu dou Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Condenação (Conviction. 2010). EUA. Direção: Tony Goldwyn. Roteiro: Pamela Gray. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Baseado em fatos reais.

Bravura Indômita (True Grit. 2010)

Em termos técnicos, o novo “Bravura Indômita” (2010) é muito bom, e o elenco é excelente, mas como nunca assisti ao original de 1969, tenho como evitar comparações. Não me interpretem mal- existem aspectos positivos neste filme-, mas o mesmo não me tocou.

Pelo que li, Joel e Ethan Coen usaram a fonte original (o romance de Charles Portis), em vez de refazer o filme com John Wayne. Creio que a história seja relativamente igual: uma garota de 14 anos, Mattie Ross (Hailee Steinfeld) vem à cidade para recuperar o corpo de seu pai. Ela também busca justiça pelo assassinato, e quando as autoridades locais não a ajuda, Mattie resolve “empregar” o implacável Marshall Rooster Cogburn (Jeff Bridges) para ajudá-la. Usando persistência e determinação, Mattie acompanha Cogburn e  LaBoeuf (Matt Damon) em uma missão para trazer o assassino do pai à justiça. A história de vingança, valentões rápidos no gatilho e humor negro (não creio que haja na versão, de 1969) dão o tom ao filme.

Os pontos altos:

Não sei o quanto bom John Wayne está na versão que lhe valeu o Oscar de melhor ator, mas Jeff Bridges brilha no papel de Marshall Rooster Cogburn. Não consigo nem colocar em palavras a atuação dele neste filme. Bridges atinge outro nível, do que eu posso chamar de “impressionante.” Pena que ganhou um Oscar no ano passado, por uma atuação tão sem graça, em um filme tão sem alma como “Crazy Heart” (2009), e este ano, provavelmente, ficará de fora das indicações.

A fotografia de Roger Deakins é simplesmente de tirar o fôlego, se colocando no coração da ação e faz a platéia se sentir como se estivesse no deserto com os personagens. Da mesma forma, a música é forte, e muito bela!

Sou fã do Josh Brolin, e achei uma pena que a sua participação nesse filme seja tão pequena- mesmo assim, é marcante, assim como o desempenho de Barry Pepper. Se houvesse um Oscar para os dentes, Pepper iria competir nessa categoria com a magistral interpretação de Juliette Lewis em Convicção (2010). Há uma ótima cena, onde a câmera está olhando para cima em Pepper, enquanto ele está conversando com Bridges. Se pode ver claramente os seus dentes nojentos e a saliva voando para fora da boca. Apesar de sua parte seja pequena, mas é muito memorável.

Os Pontos fracos:

Sinceramente, gostei do tom cômico do filme- o humor negro típico dos Coens, mas há diversas cenas longas, onde os diálogos demoram a ir direto ao ponto. Por exemplo, enquanto a maioria dos personagens – principalmente Mattie -, falam “500” palavras por minuto, Marshall Rooster Cogburn é o unico que diz algo perfeito, no momento certo. E, isso, me fez perder conexão com a narrativa.

Pelo que li, os críticos apontam Steinfeld como a alma do filme.  Sim, ela está bem, e além disso, é uma criança encantadora, mas não senti que ela se transformou em Mattie Ross. Achei apenas uma presença bonita na tela: uma menina brincando de ser atriz, nada de tão especial para Oscar- principalmente ainda levando em consideração que ela não é coadjuvante, mas a personagem principal.

O novo “Bravura Indômita” é certamente uma grande produção, não sei se é um filme melhor do que o original, mas certamente, não é o tipo de filme que gosto de rever!

 

Lançamento no Brasil em 21/01/2011.

Bravura Indômita (True Grit. 2010). EUA. Direção e Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen. Elenco: Matt Damon (LaBoeuf); Josh Brolin (Tom Chaney); Jeff Bridges (Rooster Cogburn); Hailee Steinfeld (Mattie Ross); Barry Pepper (Lucky Ned Pepper);  Dakin Matthews (Col. Stonehill); Jarlath Conroy (Undertaker); Paul Rae (Emmett Quincy). Gênero: Aventura, Drama, Western. Duração: 110 minutos. Baseado em livro de Charles Portis.

O Fim da Escuridão (Edge of Darkness. 2010)

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Thomas Craven é um policial veterano, conhecedor de truques e que se define como homem perigoso quando porta uma arma. É também um bom pai, que tem uma filha mestre em engenharia nuclear pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e que vem passar uns dias com o pai. Lá chegando, começa a sentir os sintomas ruins de algum problema grave e na porta de casa é assassinada.

Enquanto todos da polícia e mídia pensam que o atentado era na verdade para atingir Thomas, o policial parte em busca dos verdadeiros culpados e descobre uma rede de chantagem, corrupção e segredos de segurança que podem comprometer todo o sistema político do país. Entra na jogada um misterioso grupo de contenção (com o pretexto de defender a segurança nacional) na pessoa do misterioso Capitão Jedburgh (a cena é impagável), que entra na jogada para calar quem sabe demais.

Só que assim como Thomas, Jedburgh tem seus motivos para lutar por justiça, e ambos (um por vingança, o outro por redenção) buscam o fim da sua escuridão particular. O caminho que cada um percorre, é contado nesse filmaço, que marca o retorno do lendário Mel Gibson atrás das câmeras. Trata-se de um suspense policial bastante eficiente e inteligente, com subtramas interessantes e com um enredo que, por mais que seja batido em alguns momentos, consegue ser renovado com bons momentos e diálogos ácidos.

Desde 2003, quando atuou no delicioso Crimes de um Detetive, Mel Gibson apareceu na direção de dois filmes que fizeram bastante sucesso e foram um tanto controversos pelo conteúdo. Causou polêmica com A Paixão de Cristo e fez uma (mesmo que muito violenta) aventura bastante divertida na língua Maia Apocalypto. Em O Fim da Escuridão ele vem no papel que de certa forma o consagrou, o de policial.

Mas nada do motorizado Mad Max nem do impagável Martin Riggs de Máquina Mortífera. Aqui ele é um homem que age principalmente pela razão, sem se deixar levar pela emoção.

Ele começa querendo vingança (o que seria muito mais óbvio), mas a partir do momento que se depara com todas as implicações e perseguições políticas, descobre que é hora de lutar por um bem maior. Vendo assim até parece patético, mas o desenvolvimento dado ao seu personagem no filme é um estudo tão aprofundado que vale a assistida. Diferente de outros filmes, ele não sai por aí matando adoidado, nem perseguindo nem nada. Seu personagem torna-se rico em detalhes e torna-se tão fascinante que torcemos por ele até o fim. Não é qualquer um que faz com que o filme envolva tanto a platéia.

Creio que muitos vão esperando um movimentado filme de ação, mas não é bem assim. O filme tem um enredo louvável e bem fundamentado, sem contar o tratamento todo especial em nos fazer enxergar e compartilhar das dores e desafios daquele homem. E Mel Gibson arrasa. Seus olhos azuis são o espelho de sentimentos desconfortantes, e isso é o que mais chama atenção, pois acabamos criando uma simpatia e uma fé grande nas atitudes dele. O mesmo acontece com Jedburgh, mas como personagem secundário, não é tão trabalhado quanto o de Mel Gibson. Entretanto, perto do fim é impossível não elogiar e nem torcer pelo que ele faz.

E o homem por trás da direção, Martin Campbell (que dirigiu a popular e premiada – 6 BAFTA – minissérie “Edge of Darkness” (1985)) não aparece com as cenas de ação de tirar o fôlego de seus outros trabalhos, como A Máscara do Zorro ou o recente 007 Cassino Royale. Ele cria momentos de uma melancolia tão sincera que emociona sem soar piegas ou gratuito. Dirigindo muito bem e comandando o filme de maneira competente, ele garante cenas interessantes, que mesmo apelando para a fé e o espiritismo – que chega a forçar algumas cenas – não deixam o ritmo cair.

Um exemplo interessante para isso, é quando a filha do Thomas leva o tiro e ele lamenta, chorando e rezando, um dos momentos mais lindos e tocantes do filme. Só que em momento nenhum, ele apela para a emoção como ferramenta para envolver quem assiste, o que faz o filme subir mais ainda no conceito. Ele soube medir muito bem emoção e ação e trouxe um equilíbrio interessante ao filme. Nada é exagerado, nada é gratuito, tudo é racional, tudo é o mais verdadeiro possível.

Só que claro, não poderia desperdiçar os dotes justiceiros do Mel Gibson tão bem aproveitada em outros filmes, e com muita classe, cria momentos que chega a causar uma certa nostalgia, como uma cena que ele enfrenta um carro descarregando uma arma no seu condutor e depois desviando, sem a menor piedade, como fazia antigamente, ou quando entra no carro do vilão e o faz se borrar de medo. Vendo isso, tive a convicção de que Mel Gibson voltou, e tão bom quanto antes.

E o filme não precisava de grandes perseguições e tiroteios sem noção para ser bom. Tudo o que precisava (uma boa história) ele soube usar e analisando pelo conjunto de tudo, não deve em nada. Se apelasse para ação descerebrada, seria um filme bem aquém da capacidade do Gibson, e Martin Campbell não nos brindaria com algo diferente do que ele está acostumado a fazer. Mesmo com os produtores (o mesmo de Os Infiltrados)pedindo mais cenas de ação, o filme não seria um desperdício.

Outro ponto favorável do filme é a excelente trilha sonora, que também passou por um probleminha. John Corigliano teria feito uma trilha sonora, mas foi descartada porque queria algo melhor para atenuar a tensão e as cenas de ação do filme. No lugar dele foi escalado Howard Shore (a pedido do produtor de Os Infiltrados Grahan King, onde Howard havia trabalhado também), e o resultado foi fabuloso. A trilha é muito boa, atenuado as cenas de ação, tornado Thomas Craven é um herói, mas um herói mais humano. As cenas mais dramáticas são embaladas por acordes belos e que deixam as cenas com uma emoção mais sincera.

Tecnicamente é bem feito, tem uma fotografia diferente, onde tudo começa com um tom mais escuro e ao longo da fita, vai ficando mais claro. O grande parceiro de Martin Campbell, Phil Meheux acerta bem na sua fotografia. Martin Campbell brincou muito com a luz nesse filme e a jogada é bem válida, criando uma conexão interessante com o título – mesmo a tradução sendo o contrário da original.

O roteiro se perde em alguns momentos, na hora de resolver seus próprios subtramas, dando algumas soluções fáceis e previsíveis, o que de certa forma é sentido também na direção, que contém certas falhas narrativas, só que elas pouco incomodam.

A dupla Willian Monahan (vencedor do OSCAR por Os Infiltrados e talentoso para criar momentos tensos) e Andrew Bovell, deixaram a desejar apenas nisso. Mas acertaram em diálogos que soam politizados sem querer ser (o filme não tem pretensão nenhuma, que fique bem claro). Usando a indústria nuclear como pano de fundo, citando desde energia a armamentos (problemas vivenciado nos dias de hoje), eles abusam de possibilidades criativas para contar a sua história.

E pra fechar, porque não um elenco afiado?

Começo com Mel Gibson, equilibrado e atuando de forma convincente, ele não perdeu a forma, quem ver o filme pode até se incomodar com a aparência mais velha do ator, mas só vê-lo em ação e dirá “Mel Gibson voltou!”, e voltou mesmo. Tem também Ray Winstone, personificando o misterioso Jedburgh. Antes, quem interpretaria Jedburgh seria Robert De Niro, chegou a ser contratado e rodar algumas cenas, mas logo se desligou do projeto por conflitos criativos. No lugar dele entrou Ray Winstone, que mesmo não tendo a atuação mais estupenda da sua carreira, é muito competente e atua direitinho. Os outros coadjuvantes são bem colocados, também atuam direitinho, sem exageros nem nada. Destaque para Damien Young, que vive um senador bem falso. Pra mim, ele foi o melhor coadjuvante do filme.

Bem dirigido, com elenco afiado e um enredo bonzão, criativo e inteligente, O Fim da Escuridão é um presente para fãs de suspenses policiais, fãs do Mel Gibson e fãs de bons filmes. No fim de tudo, é algo que justifica seus meios, possui um fim lindo (sim, o final é lindo mesmo!) e que dá fim a escuridão de seus protagonistas. Tudo redondo e bem encaixado, um filmaço.

Eu recomendo.

Nota: 8,5

Edge of Darkness, Reino Unido/EUA (2010)

Direão: Martin Campbell.
Atores: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Caterina Scorsone, Shawn Roberts.
Duração: 111 minutos.

Código de Conduta (Law Abiding Citizen)

Vi o trailer desse filme quando fui ver ‘Substitutos‘, e gostei da trama. Assim, assisti. E… Eu também gosto de filmes que nos traz os bastidores de um Tribunal de Júri. Os acordos entre as partes. Ou seria, os conchaves? Mais uma outra motivação veio se unir. Foi em lembrar do Conselho de Ética do Senado em 2009. Chega a dar náuseas. Como teve “acordos” nos bastidores. Tudo elevando a uma oitava maior: a impunidade na política do Brasil.

Impunidade! Só tendo esse termo em mente, que eu engoli o fato de em ‘Código de Conduta‘ ter um final politicamente correto, mas para o Tio Sam. É! Torci para um P.I. Meio paradoxal. Embora querendo ver o fim da impunidade nos Três Poderes, no mundo real, eu quis desse filme, algo do tipo: que exploda com eles. Seria catártico!

Nossa! Já comecei falando do fim, sem nem contar do início. E qual seria ele? Uma tragédia que bate à porta de um pacato cidadão, Clyde Shelton (Gerard Butler). Dois ladrões – Darby (Christian Stolte) e Ame (Josh Stewart)s -, não contente no saque na casa, matam a esposa e a filha de Clyde. Nem é um spoiler, porque isso é que irá deslanchar toda a trama do filme. Entrando o outro lado da balança: O ambicioso Promotor Público Nick Rice (Jamie Foxx). Ao longo do filme, cheguei a pensar se um outro ator teria agigantado esse personagem. Não que o Foxx tenha saído mal. Mas ficou devendo uma grande atuação. Quero vê-lo como em ‘Ray‘.

Rice pensando muito mais nos seus – 96% de causas ganhas -, faz um acordo nojento. O que deixa Clyde com raiva de todo aquele circo. Que Justiça era aquela que aceitava aquilo? É de enlouquecer um cara que estando amordaçado e amarrado, viu assassinarem cruelmente seus bens mais preciosos: filha e esposa. E agora se via também atado e com um cale-a-boca-e-aceite vindo de quem estava ali era para punir os infratores. Que Lei era essa? Ou, que servidores públicos eram esses que fecharam os olhos a um crime tão hediondo?

Então o filme dá um salto de 10 anos. De cá pensei: ‘É muito tempo!‘ Daria tempo até do cara recomeçar sua vida. Catar os cacos. Enfim, seguir em frente mesmo com uma grande ferida no coração. Já que dizem que o tempo cicatriza essas dores na alma. Por outro lado, até pelo o que eu contei no início, fiquei foi na torcida por ele. Que não faria somente uma simples vingança. E não fez!

Clyde quis mais que lutar, provar o quanto o Sistema era injusto. Já que a Justiça responde mesmo ao o que se pode provar à ela, ele usaria da mesma arma. Numa de: ‘Prove, se for capaz!‘. Mas nem conseguiram provar, como o Sistema mais uma vez fechou os olhos. Fazendo pior! Mandando às favas toda conduta ética. E o que fizeram dessa vez foi injusto!

Esse filme também me fez lembrar algo dito pelo jornalista Caco Barcellos numa entrevista na TV. Que por conta do seu livro – Rota 66 -, fez uma pesquisa, e nela viu que 93% da população carcerária no Brasil tem uma renda inferior a 3 salários mínimos. 93% é um percentual muito grande. Como se aqueles que podem pagar por Firmas de Advogados sairão impunes de seus delitos. (E eu gostaria de saber de quanto seria esse percentual agora.)

Mais que uma caça ao rato Rice corta um dobrado em, primeiro descobrir como parar um assassino que já está atrás das grades, depois em tentar mostrar que o Sistema funciona sim. Imperfeito, mas necessário ao mundo civilizado. Afinal, não se deve fazer justiça com as próprias mãos. Se bem que vez por outra também se faz necessário dar-uma-mãozinha à Justiça de direito.

Um spoiler, até porque me fez exclamar um ‘Merda!’: É que Rice não fez justiça de fato. Dai o Sistema mostrou que continua imperfeito. Até por avalizar atitudes assim.

É um ótimo filme! Cumpre bem a sua proposta. Eu recomendo.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Código de Conduta (Law Abiding Citizen). 2009. EUA. Direção: F. Gary Gray. +Cast. Gênero: Ação, Crime, Drama, Suspense. Duração: 109 minutos.