Bird People (2014). Pela liberdade de se dar asas…

bird-people_2014_posterbird-people_2014_01Por Karenina Rostov.
Quase todo mundo em algum momento da vida já sonhou que pode voar. Eu mesma já sonhei que tinha asas e voava sobre uma cidade, livre, tinha esse poder de lá do alto ver pessoas, casas, carros, árvores em miniaturas. Um sonho bom, delicioso que dava a sensação de liberdade e me lembro como eu não queria despertar. Era tempo das despreocupações, nada a fazer, só estudar. Voar continua sendo o sonho possível e realizável do homem, e ele aos pouco vai conseguindo além de pôr em prática, voar através de balões, aviões, asa delta, helicópteros e outros equipamentos aprimorar essa ideia fantástica, benção dos céus, não? Faz-me pensar como pode uma coisa pesada voar sobre nossas cabeças, feito mágica? Assim como o peso de um navio flutuando em alto mar. Brincadeira a parte… Não querendo dizer que não tenha gente que morre de pavor só de pensar em entrar num avião, ou nesse outro meio de transporte e temer pela vida, mas aí talvez seja por medo de morrer. Natural; medo é uma defesa. Faz parte. E isso já é outra história! Atualmente a humanidade não se vê mais sem asas esse meio de transporte que pode te deixar nas nuvens.

diretora_pascale-ferranFico feliz quando eu vejo um filme que considero a história original e instigante, e quando surge essa oportunidade, vou logo pesquisar a filmografia do roteirista e do diretor para saber um pouco mais dos seus trabalhos anteriores, e acabo me repetindo ao afirmar isso. A responsável agora é ela, Pascale Ferran, uma diretora francesa que colaborou no argumento, roteiro e direção. Aqui no Brasil foi bem recebido entre ‘Pessoas-Pássaro’. A diretora deste longa ganhou vários prêmios internacionais por um curta-metragem que ela dirigiu na década de 1990, o ‘The Kiss“. Vide link do vídeo para conhecer um pouco mais esse trabalho dela.

E para ilustrar um pouquinho mais essa história que povoa a mente do homem num determinado período da vida, imaginar que se pode voar, deixo aqui a canção “Sonho de Ícaro” de Biafra, que na minha opinião é um carinho os ouvidos.

pessoas-passarosBird People me reportou a tantas lembranças que faço questão de compartilhar aqui algumas delas, como, por exemplo, além da música já citada de Biafra, (vide link) a da realização do sonho do brasileiro Santos Dumont ao criar uma máquina que deu ao homem a oportunidade de voar; lembrei-me também de Leonardo da Vinci que, além de muitos trabalhos artísticos, como o famoso retrato de Mona Lisa, foi poeta, matemático, arquiteto e engenheiro militar, um de seus estudos mais interessantes foi a elaboração de um dirigível, instrumento que pudesse sair da Terra; e outros meios foram aperfeiçoados para se alcançar os céus, até como o próprio pássaro.

bird-people_2014_05E voltemos ao filme – porque eu já disse que viajo, né? E com algumas escalas! Talvez eu faça isso como forma de garantir a diversão e não deixar que se perca o encanto aos que ainda vão assistir à obra. Os protagonistas de Bird-PeopleAnaïs Demoustier e Josh Charles – formam uma sequência de paradoxos, recurso expressivo presente em toda a história, a começar pela escolha dos protagonistas formada pela visão de ambos os sexos na tentativa de entender ou explicar o sentido da liberdade, através do significado ‘asas’, ‘pássaro’ ‘voar’, ‘janelas para o mundo’ masculino/feminino, ou ele / ela; pobre / rico / casado / solteiro /, concreto / abstrato, voar tal qual um pássaro e voar por meio de transporte denominado avião/ e ainda, voar na imaginação e isso parece bastar. Ambos estão concentradas na narrativa ou, até mesmo, na relação obra-espectador.

bird-people_2014_02A moça (Anaïs Demoustier), uma francesa, livre, desimpedida, sem um companheiro sem filhos, leva uma vida aparentemente tranquila e simples e faz jus ao seu emprego como camareira num hotel nas proximidades de um aeroporto de Paris e a rotina daquele serviço impera, ela sabe de cor e salteado quantos quartos deve limpar e por onde começar, o diferencial nela e que está sempre viajando, na leitura que faz, nas músicas que ouve e de repente, passa a sonhar acordada: ela literalmente dá asas à sua imaginação! O moço (Josh Charles), um quarentão norte-americano engenheiro de informática, é literalmente seu oposto em tudo: um emprego maravilhoso e dos sonhos de muita gente de viver viajando, ficando mais tempo fora de seu país e distante da família por causa desse trabalho; casado há mais de uma década e filhos. E esse o paradoxo maior nessa aventura que de certa forma faz unir o casal dando-lhes asas para que cada qual busque seu caminho.

bird-people_2014_04Alguma coisa inusitada acontece com o moço nessa viagem a Paris que faz com que a história de vida dele tome novo rumo. Conversando com a esposa pela janela de seu pc, ele percebe que alguém está preso numa gaiola de pássaro? Seria ele? Ou seria a esposa? Uma conversa sui generis entre o casal acontece, e ele pede para sair e não mais voltar, que esse jogo acabe, que ela abra a janela porque ele precisa voar dali, voar de verdade.

Bird People foi classificado na categoria ‘Fantasia’. Após assistirem o espectador pode concordar que é isso mesmo ou não. Viajei mesmo nesse filme, peço desculpas!

Bird People (2014) – Ficha Técnica: na página no IMDb.

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)

O-Conto-da-Princesa-Kaguya_2013Por: Carlos Henry.
Mais uma vez, o Estúdio Ghibli brinda sua audiência com uma pérola rara. Dirigido por Isao Takahata, “O Conto da Princesa Kaguya” segue a mesma linha dos trabalhos do estúdio exaltando a supremacia da natureza, que como em “Meu amigo Totoro” coloca os bens materiais num último plano.

Singelamente artesanal, “Kaguyahime no Monogatari” tem movimentos e sequências que muito impressionam. A apurada técnica manual, que não tem medo de mostrar a textura e as pinceladas da ilustração, acrescenta mais poesia, um humor muito peculiar e certa verossimilhança à fantástica história do conhecido conto japonês:

Um casal de pobres camponeses acha um pequeno ser dentro de um bambu que eles acreditam ser uma princesinha e portanto se esforçam para transformá-la numa, sem se darem conta que estariam assim, afastando-a da felicidade na sua simples missão na Terra.

Com raros recursos digitais, o trabalho de desenhar cada quadro levou cerca de 8 anos para ser completado e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. A julgar pela assombrosa beleza dos últimos momentos do filme no fabuloso resgate de Kaguya reunindo música e emoção numa apoteose onírica, o esforço realmente valeu a pena.

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Thérèse D. (2012). Sem pesar os próprios atos.

therese-d_2012Por Marcos Vieira.

Thérèse se sente sufocada pelo casamento com um homem que ela não ama e resolve matá-lo. Fosse simples assim, esse filme não estaria nessa lista.

therese-d_01Thérèse Desqueyroux (Audrey Tautou) é inteligente e introspectiva. Ao contrário dos outros moradores de sua fazenda e das fazendas vizinhas, ela vive enfiada em livros e não tem medo de dizer o que pensa. Por isso, apesar de não concordarem com ela, todos a respeitam. Seus pensamentos a levam a lugares muito mais distantes do que a maioria ali jamais imaginou ir. Mas Thérèse não é uma questionadora. Ela vê as regras e tradições daquela França rural do início do século XX como parte da vida. Ninguém a força a se casar com o herdeiro da fazenda vizinha. Ela o faz basicamente por dois motivos: primeiro, porque, uma vez juntos, eles terão uma das maiores ou a maior propriedade da região, e Thérèse quer aumentar sua riqueza; o outro motivo é um tanto mais inusitado: ela espera que a vida matrimonial a “conserte”, que tire de sua cabeça todos aqueles pensamentos estranhos ao mundo ao qual ela pertence. Thérèse quer que o casamento mate (e não que satisfaça) a sua curiosidade do mundo exterior.

therese-d_02Esse casamento se torna sufocante não por causa da falta de um amor verdadeiro, ou mesmo por falta de afeto (já que seu esposo sempre demonstra um irritante amor paternal), ou mesmo por falta de satisfação sexual (satisfação essa que realmente não há). Misteriosamente, Thérèse não parece precisar de nenhuma dessas coisas. O que ela realmente precisa é de estimulo intelectual, alguém com quem ela possa conversar sobre coisas mais profundas do que pinheiros, terras e caças. Ela precisa de conversas e rotina mais interessantes, e de ideias que a desafiem. E é daí que surge a tentativa de assassinato. Veja bem, Thérèse não tem um plano para escapar dessa situação, e não é em busca de liberdade que ela tenta matar o marido. No fim das contas, parte dela nem quer ser tão livre assim e nem quer vê-lo morto. Ela o faz porque tem a oportunidade. Dessa forma, alguma coisa minimamente interessante passa a acontecer naquela casa. Basicamente, ela o faz para sair da rotina. Tudo bem, a vontade de se ver livre daquele homem e daquela vida chata está lá inconscientemente, mas em momento algum ela racionaliza em relação a isso. Em determinado momento, quando questionada sobre o motivo, ela responde com um comentário: “Você sempre sabe o motivo dos seus atos.” Ela não.

therese-d_04.jpgO que se vê nesse filme é Thérèse falhando em ser a mulher que a sociedade e o matrimônio exigem que ela seja. Ela quer ser essa mulher, ela tenta, mas não consegue. Thérèse não é uma boa mentirosa, ela não consegue blefar. Ela pode até mentir para si mesma e para os outros, mas seus atos não mentem. Curiosamente, encontramos a antítese de Thérèse na divertida comédia Blue Jasmine, que também está entre os melhores que assisti em 2013. A Jasmine do título é puro blefe. Ela faz o máximo possível para não ter uma só gota de autenticidade. Ela precisa tornar real a narrativa de mulher casada, rica e sofisticada ao qual se propõe. Quando essa narrativa é ameaçada, ela perde o controle, pensa apenas em si e toma atitudes destrutivas para todos ao seu redor. Em sua histeria, Jasmine fica cega pela frustração e não mede as consequências de seus atos. Esse é um Woody Allen triste e obrigatório.

therese-d_03Mas voltando à Thérèse: essa é a segunda adaptação cinematográfica do livro de François Mauriac. A primeira é de 1962 e um tanto diferente dessa nova. Enquanto Audrey Tautou tenta expressar por meio de gestos e olhares as angustias de Thérèse, no primeiro a própria personagem narra em off o que ela está pensando e sentindo. Li uma crítica que considera o primeiro um tanto melhor justamente por essa explicação, não ficando satisfeita com a atuação de Tautou. Fui conferir. Nesse, o clima sombrio é um tanto mais pesado, mas a narração realmente deixa tudo muito bem explicado. E é justamente por isso que prefiro a nova adaptação: por Thérèse estar limitada a gestos e olhares, o telespectador pode ele mesmo tentar decifrá-la, ou até completá-la com partes dele próprio. No final, seu entendimento de Thérèse diz muito mais sobre você do que sobre a personagem que o filme tenta apresentar.

Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter. 2012)

O filme “Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros” é uma obra cinematográfica deliciosa e divertida de se assistir, recheada de efeitos especiais e muitas alegorias linguísticas, tomando emprestadas principalmente a metáfora de que criaturas vampirescas coabitam com o ser humano e deste se alimentam. São ideias muito bem construídas e arrematadas, e aqui bem exploradas, deixando claro a partir de seu subtítulo de que eles existem, estão por toda parte sugando mais que a matéria, até a última gota da alma, e por isso, só mesmo alguém de coragem para livrar-se dessa praga, cortando o mal pela raiz.

É uma adaptação livre do romance de Seth Grahame-Smith, sendo ele próprio responsável por roteirizar tão eficientemente quanto a direção impecável de Timur Bekmambetov que procura manter num ótimo enquadramento entre muitos planos e em close a ideia central dos fatos reais em torno da biografia de um dos maiores e mais queridos presidentes americanos – Abraham Lincoln – mesclando, na dose exata, fatos ficcionais com verídicos. E com muita competência, numa miscelânea, transforma esses dois importantes gêneros artísticos – o literário e cinematográfico – que mesmo sendo linguagens distintas cria uma nova e singular obra e fantástica de se testemunhar. E o resultado não poderia ser melhor ao gênero inventivo escolhido que não foi possível rotular. As imagens são eloquentemente bem construídas.

O prólogo nos apresenta rapidamente, em flashback, Abraham Lincoln como presidente dos EUA, e durante os primeiros anos de sua vida, mostrando um jovem de futuro promissor, de personalidade e caráter marcantes, lutando bravamente contra os que representam perigo à família e aos amigos, ou sanguessugas da nação, na obra representada por vampiros, esses são seus inimigos declarados e que para se libertar desses mal e defender tudo o que acredita ser certo, ele aprendeu desde cedo que é preciso ir à guerra, preparando-se, primeiramente, a retórica, daí, só mesmo estudando leis do direito civil para não ferir a Constituição e posterior defesa pessoal.

O homem nasce bom, o vampiro é que o corrompe. Porém, nem todo homem é somente bom, seria fácil se assim fosse, mas sempre se opta e se torce que esse lado se sobressaia à maldade humana. Pode-se ter um amigo não tão anjo como se espera, e quando a amizade é verdadeira, respeito e admiração às vezes são mais importantes que nos próprios laços sanguíneos. E o personagem Abraham Lincohn tinha um amigo vampiro que lhe abriu os olhos e lhe revelou muitas coisas como também o ensinou a lutar.  E vampiro bom e que se preze precisa se cuidar e se proteger com um bom filtro solar, senão…

benjamin-walker_abraham-lincoln-cacador-de-vampirosQue arma escolher, Senhor Presidente? Entra em ação a simbologia do “machado” objeto considerado destruidor de bloqueios e barreiras. O machado é um objeto pesado, cortante e dilacerante feito de aço e de madeira que um dia foi vida, representando Liberdade. Enquanto o direito do homem de ser livre não for respeitado, todos sofrerão as consequências e considerados escravos, sem o direito de ir e vir, de pensar, falar, decidir e muito mais.

A liberdade justa é uma conquista diária e uma luta sem fim.

E a obra é quase que politicamente correta: a luta contra o bem e o mal, devendo sempre prevalecer o bom senso daquilo que se almeja conquistar nas batalhas da vida não tão simples como parece e que se gostaria que fosse. E quem conhece a história desse Presidente, sabe que não foi tão fácil assim, e que a vida não é uma peça de teatro, e o povo não é mero espectador. A vida é um palco e seu protagonista contracena com conflitos diários, chancelando a sangue cada página escrita na busca de um final feliz esperado, mas que nem sempre será possível e com direito a aplausos e pedido de bis! O espetáculo não acaba ao correr da cortina. Faz-se intervalo para que dê oportunidade de todos atuarem, sem exceção,  mesmo que em pequenos papéis ou como figurantes.

Uma obra de muita ação, suspense, aventura e humor inteligente e ainda permeados por fatos e citações históricas do período da guerra civil americana. Bom poder recordar essa senhora aula de história universal.

O ator Benjamin Walker está bem à vontade na pele do presidente, além do carisma, seu  porte físico – altura, peso tudo nos conformes. Muitas cenas de ação e efeitos especiais bem produzidas, além de  cenários e trilhas sonoras impecáveis! Diversão garantida!

Para quem gostou do filme, fica a dica: leia o livro! É a arte imitando a vida.

Karenina Rostov
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Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter. 2012). EUA. Direção: Timur Bekmambetov. Roteiro: Seth Grahame-Smith, baseado em seu próprio livro. Elenco: Benjamin Walker, Dominic Cooper, Anthony Mackie, Mary Elizabeth Winstead, Robin McLeavy, Marton Csokas. Gênero: Ação, Fantasia, Thriller, Terror. Duração: 105 minutos.

Rindo à Toa (LOL – Laughing Out Loud ®. 2008)

Bem-vindos ao Século XXI, Queridos!

Pois é! Uma das falas do filme. Pontuando o tempo. Onde Pais e seus Filhos Adolescentes vivem em um mundo com internet e celulares. E isso a princípio seria o ponto que faria a diferença de quando eram esses pais, os adolescentes. Mas ao longo do filme vem é a frase símbolo da música de Belchior: “Nós ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais.” Só que ela teria que vir sempre com uma “interrogação”. Como um alerta. Como uma parada para uma reflexão. Como lições.

O que mudou de uma geração para outra? Não pode só ser os avanços tecnológicos. Os anseios, os medos, os conflitos, os abusos, os desejos… Enfim, todas as emoções vivida quando se é bem jovem não podem ser esquecidas. Ou usando um termo atual, toda essa história passada não deveriam ser deletadas da mente. Se quando adultos, e com filhos querendo também construir a sua própria história, e num período onde a sexualidade está à flor da pele, muitos desses pais acabam por ser tornarem reacionários. Mas por que? O “É Proibido Proibir!” tomou outro rumo? Levando-os agora a terem uma marcação cerrada com seus filhos, e até com uso da tecnologia cerceando as pequenas fugas no meio da noite. A liberalização que tanto ansiaram deixou de existir quando se tornaram pais?

Então o que de fato mudou? Ou melhor, qual seria a tônica nesse filme?

Embora a trama põe no centro a jovem Lola, o que pontua mesmo é: Filhos ontem, pais atuais numa rota de colizão. Creio que muitos de nós, ainda na adolescência, ao ouvir um sonoro “Não!” dos pais, também ouviu como uma explicação, um: “Filho hoje, Pai serás!“. E em vez de se especular sobre esse passado real, fica a sugestão para assistir esse filme que no Brasil ganhou o título de: “Rindo à Toa“. Uma tradução literal de uma expressão do mundo da internet: LOL. Um acrônimo de: laughing out loud. Para mim seria como: “Adolescência – última parada para curtir a vida sem compromissos!”.

Até porque o filme traz os adolescentes voltando das férias escolares mais longas. Para alguns, foram as últimas dessa fase descompromissadas. Por aflorar talentos, e então investirem nisso que já pode ser um passo para uma carreira futura. Mas também para muitos ainda terá a vez e o tempo de zoar com tudo e todos. E nessa volta ao colégio, entre vivenciarem mais um tempo juntos, há o de querer saber o que aconteceu nesse período em que estiveram afastados.

Lola, também chamada de Lol, descobre que seu namorado transou com outra. Com raiva, resolve ter a primeira transa com o melhor amigo de ambos, mas… Paralelo a isso, outros conflitos entre pais e filhos. A própria Lola também está passando por um com a mãe. Pelas páginas de seu Diário é que vamos conhecendo toda a trama. Ou todo o drama dos personagens que por conta da diferença de idade, acaba tendo dois pesos. Pois é! O que pode ser um verdadeiro drama para um, pode não ser para outro.

Nessa em ter “dois pesos – duas medidas”, segue a mãe de Lol, Anne. Personagem da sempre linda Sophie Marceau. Ela que no passado sonhou por uma liberização feminina em relação a sexualidade, no presente se reprime por conta da sociedade local. Assim, transa furtivamente com o ex-marido. Os filhos fingem que não sabem. Como também não ligam pelo fato. Anne também se vê presa a outros preconceitos. Um deles quanto a um cara na moto. Age como se ele tivesse saído de “Sem Destino“. Depois, numa palestra na escola de Lol, percebe a grande mancada. Ele é Delegado da Narcótico. Envergonhada, tenda fugir, mas acabam se encontrando de novo. Mas certos pré-conceitos acabam sendo como manuais para alguns. Como para ele que por força do trabalho consegue traça o perfil de um jovem pelo esteriótipo. Mas diferente de Anne, a sua balança não é de discriminação, e sim em sacar se terá repercussão futura ou não esses pequenos deslizes de quando se é adolescente.

Esses paradoxos também é um dos pontos altos desse filme. Como quando Anne sem querer se depara com o Diário da filha. Não resistindo, lê. E fica assustada pelo o que está escrito ali. Ao mesmo tempo que sabe que foi uma invasão de privacidade e se sente culpada, também pensa num jeito de dar um castigo para a filha. Nem passando por sua cabeça de que ali estaria um talento de Lol aflorando: um dom para romancear seu dia-a-dia. Nem pensou que ali se misturavam ficção e realidade. E a cobrança termina por afastar a filha.

Para os jovens, uma excursão da escola à Inglaterra ganha a dimensão de ficarem juntos e sem a vigilância dos pais. Para esses, também. Só que se tivessem um diálogo maior com os filhos poderiam canalizar toda essa gana por essa breve liberdade numa sutil conversa de que irão conhecer uma outra cultura, de um costume diferente, que terão acesso a uma outra língua, por ai. Sem ser careta, despertar no filho a curiosidade em aumentarem a própria cultura de forma prazeirosa nesse intercâmbio. Até para não estranharem tanto as pessoas como fizeram por lá.

A cada vivência nessa fase, a vida parece não acompanhar a pressa dos adolescentes. Mas de certa forma, para alguns o amadurecimento vem sim rapidamente. Assim, em vez dos pais criarem só barreiras, deveriam deixar umas portas abertas. Inclusive a do coração. Porque num aperto maior, serão a esse pai/mãe que irá pedir por ajuda. E diálogo sempre traz bons resultados.

Por último, embora esses conflitos entre pais e filhos adolescentes seja algo universal, a história do filme tem-na na França. Mesmo não sabendo muito dos costumes desse país transparece em “Lol” que a história nasceu ali. Que é dali. Essa identidade salta aos olhos. Tanto que me levou a pensar se a Diretora, e também Roteirista, conseguiu transferir toda essa história e identificá-la com a cultura estadunidense quando aceitou também dirigir a versão hollywoodiana.

Então é isso! Paisagens lindas. Uma ótima Trilha Sonora! Todos estão em uníssono! Um filme gostoso até de rever!
Nota 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Rindo à Toa (LOL – Laughing Out Loud ®. 2008). França. Direção e Roteiro: Lisa Azuelos. Elenco: Sophie Marceau (Anne), Christa Theret (Lola), Jérémy Kapone (Maël), Marion Chabassol (Charlotte), Lou Lesage (Stéphane), Émile Bertherat (Paul-Henri), Félix Moati (Arthur), Louis Sommer (Mehdi), Adéle Choubard (Provence), Jade-Rose Parker (Isabelle de Peyrefitte), Warren Guetta (David Lévy), Alexandre Astier (Alain), Jocelyn Quivrin (Lucas), Françoise Fabian (Mãe de Anne), Christiane Millet (Mãe de Charlotte), Liza Azuelos (Psiquiatra). Gênero: Comédia. Duração: 103 minutos.

O Porto (Le Havre, 2011). Ainda Tinham Brios Pelos Ideais da Bandeira

Era uma vez, num reino distante, o povo passava seus dias numa rotina meio doente por não ter mais os ideais do passado. Mas eis que num belo dia algo veio para mudar suas vidas. Reacendendo a chama para um novo presente. E quem sabe, uma nova história para o futuro…” E eu até poderia contar desse jeito a história desse filme. Que mescla História do Passado com algo ainda recorrente nos dias de hoje. Se as grandes migrações – espontâneas ou não – no passado povoaram os continentes, atualmente elas se tornaram um problema para vários países. Questões não apenas de ordem social, como também política. Mas em vez de um amargo “Não temos vagas!” o Diretor Aki Kaurismäki, que também assina o Roteiro, traz esse tema numa leve Comédia Dramática, em “O Porto“.

É sempre válido manter essa questão em pauta: a do imigrante ilegal. Até por nos levar a refletir qual seria o nosso posicionamento. Até onde ir ciente de que estaria burlando a lei ao ajudar uma pessoa nessas condições. Moral e ética tentando achar um meio termo. Na trama o grupo veio da África. Onde no mundo real vão em busca não apenas de uma vida condigna, mas que muita das vezes estão fugindo da gana assassina de algum Ditador. No filme por um deles ficamos ciente de também um outro fator e bem recorrente também no contexto real. Enfim, dentro ou fora da tela, sempre fica a busca pela terra prometida.

Temos no título original o nome da cidade francesa de onde se passa essa história: Le Havre. Pelo contexto histórico, como ela faz parte da Normandia, no passado pertencia ao Reino Unido. Que num passado mais recente foi palco na ajuda para se livrarem do julgo nazista. Então ainda há um orgulho mesmo que quase adormecido em seus habitantes. Mas o filme não vem com nada didático, todo esse contexto é de um jeito en passant nas conversas dos homens nos bares.

O filme se dá na zona portuária, tanto nas docas como no lado pobre da cidade. Seria os mais pobres os mais solidários? O lugar parece que parou no tempo. Onde a modernidade é vista numa antena parabólica numa das casas. Também num celular. Que põe em xeque se quem fez a delação também o fez por princípios ou não. No nome de um dos Café Bar onde os homens se encontram, o La Moderne. Mas também vem na manchete sensacionalista de um jornal. Com a foto do incidente fio condutor dessa história. E é por conta dessa matéria que o Chefe de Polícia local se vê obrigado a elucidar o “crime”: há um imigrante ilegal a solto pelas redondezas.

O bairrismo também se faz presente nesse filme, e de um modo divertido: entre os trabalhadores do porto com os da “capital”. Por conta de um erro burocrático, um contêiner ficara retido no lado francês do Canal da Mancha. Pela data, já deveria ter chegado em solo britânico. Por causa disso um grupo de pessoas vindo da África é descoberto. Grande aparato policial que acabou atraindo um foca. Registrando assim o incidente, como a fuga de um deles.

Acontece que o pé-no-calo do Inspetor Monet (Jean-Pierre Darroussin), o tal fugitivo, não passava de uma criança: o jovem Idrissa (Blondin Miguel). Monet tão acostumado a caçar bandidos se vê perdido para descascar esse abacaxi que o Prefeito lhe impôs. Até porque havia um contingente maior ajudando Idrissa. Algo que até surpreendeu aquele que primeiro tomou a iniciativa, o aposentado Marcel Marx (André Wilms). No geral, são gente simples que sentem, pressentem que não estão tão velhos assim para mudarem o jeito que iam levando a vida. Ainda era tempo de lutar pelos ideais da Bandeira – Liberdade, Igualdade, Fraternidade -, mesmo que numa revolução silenciosa; sem armamentos.

Idrissa pelo jeito iria operar milagres naquela gente. Mas que ainda manteriam um jeito romântico de ser.

O filme também brinca com leves homenagens nos nomes dos personagens. Mas ai, sem uma confirmação por parte do Diretor, fica como um Quiz num brinde a mais do filme. Assim vejamos! O Monet seria a Claude Monet que passou a infância e adolescência em Le Havre. Idrissa, talvez ao Diretor Idrissa Ouedraogo com trabalhos premiados em Cannes, mas ainda um desconhecido internacionalmente. O de Marx seria a Karl Marx? Por ai! Sem pesar no contexto da trama do filme, mas sim como um tempero a mais ajudando no sabor da história.

Então é isso! Um filme para quem gosta de ouvir histórias. Essa é de acompanhar com brilho nos olhos, sorriso no rosto, e confesso que meus olhos marejaram no final. Um filme que eu voltaria a rever, para então saborear com mais tempo todas as referências até implícitas. Eu que só conhecia o ator Jean-Pierre Darroussin por sua ótima atuação em “Conversas com meu Jardineiro“, também gostei das performances dos demais. Temos em “O Porto” um ótimo filme.
Nota 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O PORTO (Le Havre, 2011). França/ Alemanha/ Finlândia. Direção e Roteiro: Aki Kaurismäki. Elenco: André Wilms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blondin Miguel, Elina Salo, Evelyne Didi, Quoc Dung Nguyen, Laïka, François Monnié, Roberto Piazza. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 93 minutos. Classificação: 12 anos.