Seus Cem Anos Fizeram Companhia a Solidão de Muitos! Valeu Gabo!

gabriel-garcia-marquez_cem-anos-de-solidaoSe o exercício da leitura é num momento de solidão, de quem escreve precisa antes estar em meio as vozes do mundo para buscar a inspiração. E então, talvez, um recolhimento para encontrar o tom certo da história. Gabriel García Márquez partiu para o mundo, mas foi numa volta às raízes que vislumbrou que tinha em sua bagagem uma grande história. Nessas tiradas em que o destino presenteia alguém, sua mãe lhe chama para vender a casa dos avós com quem passara a infância. E entre memórias da família e lendas populares do interior da Colômbia, nasce “Cem Anos de Solidão“.

Cem anos de solidão” se passa na fictícia aldeia de Macondo e acompanha ao longo de gerações a saga da família Buendía. Obra prima literária da segunda metade do século XX é um livro que dispensa apresentação e que deveria ser lido principalmente pelos latinos americanos.

Eu li Cem anos de solidão há muito tempo atrás. Com isso traçar uma análise de toda a história ficariam muitas lacunas. O mais certo seria reler o livro e que até o faria com prazer, mas com o falecimento de Gabriel García Márquez não teria tempo hábil para então prestar um tributo a esse grande escritor. Deixando essa singela homenagem a quem não chegou aos cem anos de idade, mas que por certo suas histórias nos levaram a viver tanto quanto.

Assim, contando algo que ocorreu-me tão logo terminei de ler Cem anos de solidão”, deixando como sugestão para quem for ler ou mesmo reler o livro. Pegue uma folha em branco e um lápis. Vá montando uma árvore genealógica à medida que for avançando na leitura. Comece pelo personagem principal José Arcadio Buendía; o casamento com Úrsula Iguarán; os nascimentos de filhos e netos; marcando também as mortes… Pois a trama é muito rica em personagens e histórias até particulares. Com esse diagrama em paralelo parece que fazemos a mesma trajetória ao mesmo tempo e com isso sem perder nada. E foi assim que quando eu reli e chorei no final. Quando se sente no âmago a solidão desses cem anos.

Difícil não era inventar histórias. Difícil era fazer um norte americano, um europeu acreditar na realidade de qualquer país da América Latina.” (Gabriel García Márquez)

O Escritor se vai (1927/2014), a Obra permanece!
Aplausos a Gabriel García Márquez!
Vai em Paz!.

Anúncios

Livro: Depois do Baile (Leon Tolstoi. 1903)

Moscovo I – Wassily Kandinky, 1916, óleo sobre tela

Mazurka é o nome de uma dança tradicional de origem polaca, feita por pares, formando figuras e desenhos diferentes. Certas coisas são fáceis de se compreender e outras não devido à sua complexidade. Há anos atrás, li um conto que, de certa forma, mexeu com o meu emocional. Aconteceu comigo como aquela brincadeira que fazemos com as palavras ao dizer “entendi, mas não compreendi”, mas contando aqui talvez você compreenda.

A vida é feita de pólos divergentes. Antíteses e paradoxos.

Tudo aconteceu DEPOIS DO BAILE. Um conto de Tolstoi. Fiquei anos com a história martelando dentro de mim… e de repente, como acontece com certos sonhos que vira e mexe se repete, voltei a me lembrar… É uma história de amor à primeira vista do jovem Ivan pela encantadora Várenka. Foi um encontro casual num baile e ambos dançaram juntos a mazurka praticamente a noite toda. Ele se encantou pela moça e a descrevia sempre como linda e deslumbrante; a jovem tinha uns dezoito anos na época e era o centro das atenções. O seu sentimento por ela era correspondido. Ele chegou a conhecer inclusive, o seu pai também naquela mesma noite.

De fato, tudo aconteceu DEPOIS DO BAILE. Ivan viu a sua vida inteira se resumir naquele único dia; toda ela foi radicalmente transformada por aquela infinita e inesquecível madrugada em que ele conheceu o BEM e o MAL. A partir daí sua vida nunca mais foi a mesma.

Assim como eu me lembrei dessa história, aconteceu com Ivan. Depois de muitos anos ele relembrou aquele dia e contou para os seus amigos. Contou que Várenka se casou, teve filhos e mesmo estando numa idade avançada, ele a admirava, e a achava linda e simpática. Passagem da vida de Ivan que modificou o seu modo de pensar. Depois de anos ele repensou seus valores. Concordo que certas experiências são universais, capazes de modificar a condição humana individual.

E a medida que ele ia contando aos amigos esse fato, as suas lembranças daquele dia e pensamentos afloravam. Ivan contou que conheceu o pai da jovem também naquele baile. Ele era um militar do exército. O coronel se retirou mais cedo do baile deixando a sua filha ficar um pouco mais naquela festa, talvez até o fim. A noite foi esplêndida para Ivan. Viu-se perdidamente enamorado pela jovem. Foi o dia mais feliz de sua vida.Trocaram olhares e e-mails. Este último é por minha conta.

Como acontece com o conteúdo de uma garrafa que, após a primeira gota vertida, começa a fluir em grandes jatos, também na minha alma o amor por Várenka liberou toda a capacidade de amar que se ocultava no meu íntimo.”

A felicidade de Ivan durou pouco. Ao partir, foi testemunha de algo desagradável que aconteceu no caminho. Ele, DEPOIS DO BAILE, ouvia outro tipo de música que era do tipo áspera, desagradável e maldosa acompanhado ao som de flauta. Eram soldados castigando um tártaro por tentativa de fuga. O tártaro foi maltratado de inúmeras formas, espancado, surrado e arrastado por aqueles militares que apenas cumpriam ordens vindas de seu superior e numa procissão pelas ruas cobertas de neve tudo sob o comando do coronel, pai de Várenka.

Ivan teve em uma única noite a melhor e a pior experiência de sua vida. Conheceu o Amor (bem) e a Dor (mal) no mesmo dia. As pessoas sabem de coisas que não sabemos. Foi exatamente isso que Ivan pensou do coronel.

Se eu soubesse o que ele sabe, talvez eu o compreendesse, e aquilo que eu vi, não me atormentaria assim.”

E por causa dessa noite, Ivan nunca mais foi o mesmo; sua vida inteira foi transformada por esse dia. E ele próprio chegou à conclusão que não prestou para nada. É claro e lógico que ele contando isso aos amigos, eles, evidentemente, não concordaram e achavam tudo isso uma grande tolice. Eles ficaram intrigados com a questão sentimental de Ivan, o que aconteceu com todo aquele amor e por que a sua amada se casou com outro? Então perguntaram:

– Bem, e o amor? Em que deu?
– O amor? O amor, daquele dia em diante começou a minguar. … o amor definhou e acabou.”

Não se chega ao fim sem se passar pelo início; não se morre sem se ter nascido. Trocar uma margem pela outra elimina a possibilidade de totalização. Pode-se até escolher entre a noite e o dia. A aurora  é uma nova possibilidade. Bom quando se faz a coisa certa, mas errar faz parte. Os opostos se atraem: amor e ódio, bem e mal, guerra e paz… dois lados de uma mesma moeda. Uma coisa existe em função da outra.

Às vezes é necessário esquecer o que nos ensinaram e tentar aprender sozinho, pois só assim se acerta ou se erra ainda mais. Adquire-se experiência. Certas passagens da vida ficam registradas para sempre. Guarda-se o que se quer. Lembranças que não se escolhe podem vir à tona quando menos se espera. O ser é resultado daquilo que lê, que come, que faz, que vive; são tantas as possibilidades que o permeiam… do nada pode-se viver situações inusitadas….agora, por exemplo você lendo isto, poderia estar fazendo outra coisa….

Decerto, DEPOIS DO BAILE, depois de um filme, depois do almoço, depois de um beijo, depois de uma leitura de um poema ou um conto… não se é mais o mesmo.

As coincidências do mundo ficcional não são obras do acaso. Tudo depende das circunstâncias. Ela imita a arte da vida.

Anos depois, Ivan, ao contar essa história aos amigos o modo de pensar já era outro; o que ele viu e viveu no passado poderia ser uma perversão. Se a história do tártaro aconteceu era porque alguma coisa eles sabiam que Ivan não sabia, e ele nunca descobriu o que era. E ele conclui que é uma das coisas que podem modificar e dirigir a vida de um homem para sempre.

E a questão do ‘entender e não compreender’ achava terrível e inconcebível que uma obra ficcional não terminasse na forma convencional do ‘Foram felizes para sempre’ como acontece nos contos de fadas.

Na Arte tudo é possível. Relendo um livro, facilmente se consegue tirar novas conclusões, repensar valores e alterá-los; já na vida, devido a muitas circunstâncias diferentemente da ficção, pode-se também rever conceitos e até modificá-los. É difícil, mas não impossível.

Depois do Baile – Leon Tolstoi – Cotação: *****

Série de Tv: Elementary

elementary_serie-de-tvarthur-conan-doyle_escritorSir Arthur Conan Doyle fez uma bela contribuição a humanidade com seu personagem Sherlock Holmes. Primeiro por ser ele atemporal, já que transita muito bem por uma Londres vitoriana ou por uma Nova York moderna. Local esse escolhido como cenário para a Série de Tv “Elementary”, uma criação de Robert Doherty inspirada no detetive criado por Conan Doyle. E transmitida aqui no Brasil pelo Universal Channel.

Eu não advinho. Eu observo. E depois deduzo.”

Agora a grande contribuição que transcede o tempo estaria no fato de nos levar a usarmos mais a razão do que a emoção. Para os políticos isso seria péssimo já que controlam a massa justamente porque a grande maioria se deixa levar pelos sentimentos do momento. Muitas das vezes não enxergando nem o óbvio. O que me leva a dizer: leiam mais historias com Sherlock Holmes, como tambem assitam a Série “Elementary“.

elementary_serie-de-tv_01Em “Elementary” temos um Sherlock Holmes com uma mente hiper ativa: focando-se em várias coisas ao mesmo tempo. Não sei se foi por aí que resolveu buscar por uma certa pausa mental pelas drogas ilícitas. Talvez esse recente passado iremos conhecer em outros episódios. O certo é que ele saiu recentemente de uma Clinica de Reabilitação para drogados; aliás, ele fugiu horas antes de receber alta.

A escolha do ator foi mais que perfeita: Jonny Lee Miller. Do chocante filme “Trainspotting – Sem Limites”. Sua caracterização para esse novo Sherlock Holmes prende a nossa atenção. Para os da Área Psico esse é um personagem que dará bons estudos. Para nós leigos será em observar essa relação do homem com um problema comportamental que se torna irrelevante perto do dom nato que possue. Pois Holmes é como um CSI ambulante: com toda uma equipe numa única mente.

Já no primeiro espisódio conhecemos uma outra particularidade dele. Gostar das várias televisões que possui ligadas em canais diferentes e com programações variadas. Como a observar toda a cultura novaiorquina mais rapidamente. Vindo de Londres ele tem pressa em conhecer não apenas os crimes locais, mas também os costumes e gostos das pessoas. Além de uma fome exagerada por cultura, todas e quaisquer informações que assimilar tornam-se fontes que o ajudará nas investigações.

elementary_serie-de-tv_02Tendo pai rico que o sustenta tem nesse trabalho um tipo de exercício mental para tentar em deixá-lo focado em uma coisa por vez. Uma maneira de descarregar a adrenalina que lhe vem da mente e à mente. Já que ela não para nunca, e que está sempre focada nos menores detalhes. Assim, trabalha sem uma renumeração.

Em Nova Iorque Holmes então torna-se um Consultor direto do Capitão Toby Gregson, personagem de Aidan Quinn. Um bem complacente Chefe de Polícia. Admirador de Holmes desde quando ele era então um consultor da Scotland Yard. E que vê nele uma importante ajuda na elucidação dos crimes. Gregson não impõe um ego acima da solução da investigação realizada por Holmes. Pode ate ser que essa calma aparente tenha sido conquistada ao longo da carreira. Talvez um personagem mais novo ficaria batendo de frente com Holmes. Até porque esse se mostra um tanto quanto arrogante por saber que é muito bom no que faz. Que o personagem de Aidan Quinn não se aposente tão cedo. Até porque deu química entre essa dupla.

Isso também se torna uma aula de Conan Doyle para nós. Essa linha tênue entre o dom da pessoa que o leva ser perfeito no que faz, mas sem que se esqueça que ele não é onipotente. Já que o levaria ao ego inflamado. Sem ao menos creditar que um outro ponto de vista no mínimo o levaria a rever o fato em si. E então ver se deixara escapar algo.

elementary_serie-de-tv_03Além do Chefe de Polícia, Holmes também estará sempre em contato com tiras subordinados a esse. Podendo ser por ai uma certa disputa de egos com Holmes. Sendo que só ficaria na cabeça deles, pois o contratempo mesmo de Sherlock Holmes é um outro grande personagem dessa história de Conan Doyle. Que embora uma frase sobressaia a esse personagem, ele vira quase como um paradoxo ao legado de Holmes. A frase em si nasceu numa versão teatral a “Elementar, Meu Caro Watson!“. Então o personagem Watson seria ou levaria Holmes a ficar focado sempre pelo lado direito do cérebro. É que tendo Holmes uma mente muito ativa ele precisa de um freio. Relaxar um pouco. Não dando à intuição, asas demais. Daí o “quase parodoxal”, já que é o próprio Holmes quem nos leva a focar primeiros detalhes antes de já sair julgando. Ou melhor, antes de sair pré-julgando fatos e/ou pessoas. Ponto importante para os da Área Jornalística analisar.

Agora, se a famosa frase inspirou o título da Série, como Watson entraria nessa nova versão?

_Notei que aqui não há espelhos, diz Watson.
_E o que isso significa? Pergunta Holmes.
_Acho que você reconhece uma causa perdida quando você vê uma. Responde Watson.”

elementary_serie-de-tv_04Confesso que uma das minhas motivações em acompanhar essa Série seria porque Watson viria como uma personagem feminina. Achei brilhante a ideia! Ficava a dúvida se Lucy Liu o faria a altura de tão ilustre e também carismático personagem de Conan Doyle. Até porque para mim até então a simples menção de seu nome o que me vinha logo à mente era o filme “As Panteras”, onde atuou. Lucy Liu até que sai bem como Watson. Pela química com o ator Jonny Lee Miller, como também por seu personagem trazer um drama pessoal a trama. Que é a ponte que a leva até Holmes. Ela é a Dr. Joan Watson, monitora nessa sua reintegração à vida social. Fiscalizando se ele conseguirá viver longe das drogas, condição imposta pelo próprio pai para continuar sustentando-o.

Vindo esse personagem como uma monitora, e portanto uma ocupação com um tempo determinado na vida de Holmes, a dúvida em como manteriam Watson até o final, foi apagada ao longo dessa mesma 1ª temporada: porque ela passou a gostar da parceria com ele; ajudando-o nas investigações. Primeiro com seus conhecimento no campo da medicina. Depois por ir aprendendo a se ligar no micro dentro de um macro.

O último episódio exibido em 2012 trouxe uma outra surpresa. Ou teria sido uma nova dúvida? A de que papel ela terá na vida de Holmes nas próximas temporadas? Para quem também acompanha a Série está ciente do que houve. Para quem não viu, seria um tremendo spoiler. Até porque é algo que trará algo divertido a história. Mais atividade para um gênio que já é muito ativo. Ainda a esses que não viram a Série aproveitem as reprises dos episódios dessa primeira temporada antes das próximas. Que eu já aguardo motivada! Até para saber o destino da “Watson”. Pois ainda não está tão “elementar” assim.

É um grande erro teorizar antes das provas, já que predispõe à capacidade de julgar.” (Arthur Conan Doyle)

Vida longa a “Elementary”! O mundo urge de se olhar mais para o que é obvio, mas por uma lógica dedutiva e não de forma passional. Uma Série para ver e rever! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Curiosidades:
– “Elementary” em 2012, aqui no Brasil, teve a exibição de parte da 1ª Temporada: foram 8 episódios. Os últimos episódios ainda dessa temporada estão sendo exibidos esse ano. E pela página da Série no IMDb já há vários episódios emplacando assim uma segunda temporada. Para grande alegria dos fãs da Série, onde me incluo.

Filmes que Citam Livros

Já falei aqui numa outra ocasião que o cinema está sempre citando os clássicos da literatura ou é a própria literatura.

O livro O Apanhador no Campo de Centeio deve ser o recordista, tanto que já perdi a conta de quantos filmes o citaram, (exagero da minha parte) aparece em “Teoria da Conspiração” e no filme “Capítulo 27“. “Oliver Twist” é o Charles Dickens, não? Woody Allen cita constantemente Dostoievski em suas obras. Em “Match Point”, no desfecho, o protagonista está lendo Crime e Castigo, depois de se tornado assassino, comemorando por não ter sido descoberto (Crime perfeito?). Em O Morro dos Ventos Uivantes é o próprio de Emily Bronte; e é citado no filme “A Proposta”. “Meu Primeiro Amor” cita Guerra e Paz de Tolstói. Já o filme “10 Coisas que Odeio em Você” é o próprio de Shakespeare. O filme “O Clube de Leitura” de Jane Austen que obviamente fala sobre as obras da própria. Em “Um Amor para Recordar“, há uma encenação de obras de Shakespeare. No filme “O Leitor” cita obras de Tchekhov, e por aí vai…

O filme “A Casa do Lago” que revi recentemente, além de citar Persuasão de Jane Austen, cita também o clássico de Dostoiévski, Crime e Castigo, logo na cena inicial na conversa entre mãe e filha:

Kate (Sandra Bullock) – O que é isso?
Mãe – Nada de importante. É um livro do seu pai.
Kate – Dostoievski?
Mãe – Huuuummm, sim! É sobre um homem que quebra o pescoço de uma pobre mulher com um machado. Aí ele se martiriza e se arrepende.
Kate – Gostou?
Mãe – Gostei, muito bom!
Mãe – Hummm, o que está pensando?
Kate – Nada…
Mãe – Quando seu pai faleceu foi penoso…. ao segurar os livros dele eu sinto que está comigo… saber que ele leu as mesmas páginas, as mesmas palavras…

*
CRIME E CASTIGO – DOSTOIEVSKI (Fragmentos):

Há muito tempo que já se enraizara e crescera nele toda a tristeza que sentia agora; nos últimos tempos ela se acumulara e se reconcentrara, assumindo a forma de uma horrível, bárbara e fantástica interrogação que torturava o seu coração e a sua alma, reclamando uma resposta urgente.”

Mas a ciência hoje diz: ‘Antes de mais nada ama-te a ti próprio, porque tudo no mundo está baseado no interesse pessoal. Se amares a ti próprio farás os teus negócios como devem ser, e o teu cafetã permanecerá inteiro’.”

Acham que eu estou assim porque eles mentem? Tolice! Eu gosto que eles mintam! A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais. Mente, que vais acabar atingindo a verdade! É precisamente por ser homem que eu minto. Nem uma só verdade poderias alcançar se antes não mentisses quatorze vezes, e até cento e quatorze vezes, o que representa uma honra sui generis; simplesmente, nós nem sequer sabemos mentir com inteligência! Tu mentes, mas mentes de uma maneira especial, e eu ainda por cima te dou um abraço. Mentir com graça, de uma maneira pesssoal, é quase melhor que dizer a verdade igual todo mundo; no primeiro caso é um homem e, no segundo, não se é mais que um papagaio! A verdade não anda depressa, mas podemos fazer a vida correr; há exemplos disso.”

Nesse sentido, efetivamente, todos nós, e com muita frequência, somos quase dementes, com a única diferença que os doentes são um pouco mais loucos do que nós, porque repare, é preciso distinguir. Mas é verdade que não existe o homem normal, de maneira nenhuma; talvez entre dezenas, e pode até ser que entre centenas de milhares, apenas se encontra um, e, ainda assim, em exemplares bastante fracos…

Após ter pronunciado essas palavras tornou a ficar perplexo e empalideceu; outra vez como que uma nova e terrível sensação de frio mortal lhe correu pela alma, de repente compreendeu claramente que acabara de dizer uma mentira horrível, que não só não teria mais oportunidade de falar com ninguém, como jamais teria de que nem com quem falar. Foi tão violenta a impressão que essa dolorosa idéia lhe causou que, por um momento, se esqueceu praticamente por completo de tudo, levantou-se do seu lugar e, sem olhar para ninguém, quase saiu do quarto.”

*
Folhear livros que alguém já tenha lido e uma sensação estranha e uma experiência única. Não sei bem quem leu antes de mim ou quantos leram o meu Crime e Castigo comprado num sebo na época de estudante. Ler é viajar através das palavras e quando o livro é usado, então, como diz um filme que fala de livros, é uma “Historia sem Fim“, queremos saber quem, quando, onde, e tudo o mais do livro e dos leitores anteriores, do autor, dos personagens, lugares… lemos e descobrimos novos encantos ao relermos.

K.R.

O Leitor, A Dama do Cachorrinho e Tchekhov

Três histórias de paixão: paixão por Anton Tcheckov, paixão pelo filme O LEITOR e pelo filme OLHOS NEGROS ou  A DAMA DO CACHORRINHO, um dos mais célebres do já citado escritor russo.

A Dama do Cachorrinho é um dos contos mais populares da literatura russa. Tão popular que recentemente se teve a oportunidade de ouvir a história sendo contada pelo protagonista Michael no filme O LEITOR lançado em 2008, e anteriormente também nas telonas sob o título OLHOS NEGROS, em 1987 pelas mãos do cineasta Nikita Mikhalkov. Evidentemente que em 118 minutos de duração, perde-se muito, já que se tem o hábito de comparar alhos com bugalhos, não se pode esquecer que a obra literária e a cinematográfica são linguagens distintas, ficando mais ou menos assim a sinopse do dirigido pelo russo:

A bordo de um navio no final do século XIX, italiano de meia idade conta sua história de amor a um russo. Ao visitar um spa, o homem, ainda casado, conhece uma mulher russa por quem se apaixona. Ela é infeliz no casamento e os dois transam. Ao voltar para casa, o homem está resolvido a deixar a esposa e se casar com a russa.
—-*—–
Essa história fala sobre desencontros e encontros da vida; casamento, sentimentos falidos, amor, traição, adultério, vergonha, culpa…

Viajando um pouco mais pela obra literária, transcrevo aqui o resumo do conto.

Dmítri Dmítrich Gurov, casado e com três filhos, entediado com a vida matrimonial, há algum tempo passara a trair sua esposa. Mantinha aventuras passageiras com suas amantes e, amargurado com suas fúteis experiências amorosas, passa a referir-se às mulheres com desprezo.

Dmítri morava em Moscou e estava em Ialta, já há duas semanas, para descansar. Lá comentavam sobre uma dama que aparecera à beiramar e andava em companhia de um cachorrinho, como não sabiam seu nome a chamavam simplesmente: A dama do cachorrinho. Interessado, Dimitri a vê em diversos lugares passeando com seu cãozinho, até que, certa noite, ambos jantam no mesmo local e ele tenta aproximação, atraindo o cachorrinho.

Ana Sierguéievna, a dama do cachorrinho, era natural de S. Petersburgo e morava na cidade de S. com seu marido. Também se sentia infeliz no casamento e como estava sozinha em Ialta, conversa com o estranho para diminuir sua solidão. Os dois passaram a se encontrar todos os dias e Dmítri sente-se muito atraído por aquela mulher, até que o marido manda uma carta a Ana pedindo que ela retorne, pois ele está doente. Eles se despedem com a promessa de não mais se verem.

Dmítri retorna a Moscou e não consegue esquecer Ana. Mudado já não trata as mulheres com arrogância e percebe que está apaixonado. Resolve então ir para a Cidade de S. para reencontrar Ana. Descobre onde ela mora, mas não a procura esperando um encontro casual. Vai à estreia de uma peça teatral e encontra Ana que, perturbada com a presença do amante, revela que também não o esquecera, mas pede que ele vá embora, temendo o flagrante do marido.

Ana promete ir a Moscou e cumpre com a palavra. Passa a viajar periodicamente para encontrar o amante. Amam-se com sentimento de culpa, mas se perdoam ao perceber que aquele amor os transformara. Juntos conversam sobre o desconforto do amor às escondidas, pensam começar uma vida nova, mas não sabem como recomeçar. Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.
—-*—–
E por último, a sinopse do filme O Leitor

Nos anos de 1950, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o jovem Michael Berg adoece e passa a ser cuidado por uma bela e estranha mulher, Hanna, que tem o dobro de sua idade. Michael logo se recupera, mas Hanna foi embora. Ao encontrá-la, os dois têm um breve, mas intenso romance. Uma paixão cada vez maior, temperada com as leituras de obras clássicas que Hanna sempre pede para que o amado leia. Apesar disso, Hanna misteriosamente desaparece outra vez. Passados oito anos, Michael é agora um aluno de Direito que acompanha julgamentos de crimes de guerra cometidos pelos nazistas. É nesse momento que Hanna reaparece na vida do rapaz. Mas para a surpresa dele, a mulher está no banco dos réus do Tribunal. Enquanto o passado de Hanna é revelado, Michael descobre um segredo que poderá impactar na vida de ambos.
—-*—–

O filme O Leitor é uma história bastante fiel ao livro e acaba abordando os mesmos sentimentos como em Olhos Negros: culpa, amor, vergonha, remorso pelo que não foi feito no momento oportuno. Define-se em uma única palavra: Romance. Uma singela história de amor.

A ficção e a realidade nas obras de Tchekhov (con)fundem-se de tal maneira que nos faz devanear tanto quanto o tocante filme O LEITOR, e este, por sua vez em inúmeras nuances de muitas outras histórias sensacionais brindando o expectador duas vezes pelo menos: 1º a obra cinematográfica, e 2º conhecendo histórias da literatura universal. Considerei super válido o diretor Stephen Daldry de uma sensibilidade  ter traduzido o romance do escritor alemão Bernard Schlink em outra linguagem artística, transformando-nos em protagonistas de sua obra, ou melhor, nos colocando na posição de Hanna –  a ouvinte – que se apaixona pelo adolescente Michael na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial e ambos começam uma aventura que marcará a vida do rapaz para sempre. Ela tem o dobro da idade dele o que não impede que daí nasça um sentimento de amor e desejo carnal. Há muitas outras diferenças entre o casal.  Em cada encontro, antes do sexo, ela pede que ele leia algo para ela, o que ele faz com prazer, lendo os clássicos da literatura: A Odisséia, Guerra e Paz etc, até chegar em A Dama do Cachorrinho. Ele é O LEITOR e nós somos OS OUVINTES, contracenando com a obra. Relembrei a história com saudosismo. Hanna as ouve com muita   atenção e só mais adiante que se entende o seu drama. É analfabeta. Sente vergonha dessa sua condição e em momento algum revela esse seu “segredo” ao amado.

Culpa dela e vergonha dele. Muito tempo depois quando já não estão juntos é que ele acaba descobrindo isso, por mero acaso esse segredo dela. Ela é julgada e condenada por crimes de guerra, e ele poderia salvá-la da condenação mas por vergonha decide se calar.

Culpa e vergonha são os ingredientes principais na tocante obra O LEITOR. Um filme riquíssimo em significados e interpretações que  levam a questionamentos perturbadores. É sem dúvida uma obra-prima.

A 4a paixão é que sou uma ótima ouvinte. Gosto que me contem histórias interessantes. É uma viagem indescritível. Explicar é impossível. Guardo boas recordações dos tempos de ouvinte. Acho que não tive infância…

Assista ao filme, leia o livro, não deixe de prestigiar. Aproveite para ver também MOSCOU de Eduardo Coutinho e conhecerá um pouco mais de Tcheckov. Deleitem-se! Afinal faz um  bem danado para a alma.

Karenina Rostov

Greta Karenina Tolstoi & histórias mais…

O Velho e o Novo

O mundo atual anda estressante e um pouco assustador, o corre-corre, o avanço tecnológico e suas constantes transformações, tudo isso contribui para me dar um certo medo e frio na barriga. Nem tudo dá para se acompanhar. Eu confesso que parei no tempo.  A mudança rápida de modelos de aparelhos eletrônicos chega a me causar calafrios, e medo é apelido. Onde o mundo vai parar assim? O que mais falta para ser inventado? Não que isso seja ruim, aliás, em qualquer situação, nada de exageros, nem 8, nem 800. Eu simplesmente é que parei na máquina de escrever, parei no PC 486, tenho fitas K-7, tenho filmes em VHS, o toca-discos é movido a manivela, o celular é bloqueado e com um único chip, meu meio de transporte é bicicleta, e ainda gosto de namoro no mundo real, ao vivo e em cores. Nada contra a tecnologia, mas, sei lá, será que precisamos mesmo nos tornar robôs, escravos de objetos e coisas, e mudar de hora em hora de aparelho celular para aquele modelo moderninho, com internet, GPS, mp10, máquina fotográfica, diabo a quatro?

Certamente necessitamos de determinados objetos em nosso dia a dia, e se o que temos suprem nossas necessidades materiais básicas, não vejo motivo para o troca-troca desnecessário. Penso que é uma grande bobagem.

Já sabe que coleciono algumas velharias das quais não consigo abrir mão. Uma delas é o filme em VHS Anna Karenina com a atriz Greta Garbo que não posso, não quero, não devo me desvencilhar. E como descartaria assim Leon Tolstoi, a eterna e divina musa de Hollywood e Anna Karenina?

…no entanto ela sobressaía da multidão como uma rosa num ramo de urtigas, ela era o sorriso que tudo ilumina em redor… evitando olhá-la de frente, como ao Sol; mas, tal como ao Sol, não precisava de a olhar para a ver.”

A propósito, a atriz escocesa fez duas versões para a mesma história do romance russo: o primeiro filme Anna Karenina foi rodado em 1927 sob o título Love em interpretação muda e em preto e branco.

Uma curiosidade interessante sobre a primeira versão de Anna Karenina é que gravaram dois finais: o primeiro respeitando na íntegra a obra original de Tolstoi; o segundo com  final alternativo a fim de agradar a platéia americana que queria um happy end.

Anna Karenina de 1935 é a versão falada do filme mudo anterior, estrelado pela própria diva Greta Garbo e agora respeitando o final original, mas com uma curiosidade nos bastidores: o ator que fez o papel de Vronsky, o amante de Anna, Fredric  March, tinha fama de mulherengo e de dar em cima das atrizes com quem contracenava. Greta Garbo sabendo disso, como forma de afastá-lo, vivia mastigando alho para ficar com mau hálito e evitar as investidas do ‘galã’.  Dizem que essa nova versão do romance russo foi um presente de natal para Greta Garbo e valeu para ela o prêmio de melhor atriz segundo o Círculo de Críticos de Cinema de Nova Iorque.

As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.”

O filme Anna Karenina, conta a história de uma mulher na Rússia do Século XIX, casada com um influente político russo e com um filho, que joga tudo para o alto em nome de uma paixão impossível por um ardente conde russo. Greta Garbo e John Gilbert, estavam namorando na época, e a MGM quis tirar proveito do filme para fazer uma propaganda do romance deles, tanto que nos EUA mudaram o título do filme para Love, para poder fazer uma frase assim: “John Gilbert in Love with Greta Garbo”, e o filme teve dois finais, um original e outro alternativo.

No final original, que foi mostrado na Europa, mostra Anna Karenina, a personagem de Greta Garbo, sem mais nada a perder, pois não pode mais ver o filho por imposição do marido, é mal vista pela sociedade, foi abandonada por Alexei Vronsky, o personagem de John Gilbert e sua paixão, já que ele teria que servir o exército russo; com isso, Anna se suicida ficando parada na linha do trem, esperando o próprio passar. Esse é o final que tem no livro.

O final alternativo, foi criado para as platéias americanas, onde Anna, três anos depois do romance com Vronsky, visita seu filho com frequência, este que está estudando e praticamente se formando, e descobre também que Karenin, seu marido, morreu, e o filho dela está junto com Vronsky, à espera de Anna, que quando se encontram, os três vivem felizes para sempre. Final típico de contos de fada, que não existe no livro de Leon Tolstoi, e que foi criado simplesmente para promover o romance entre Greta Garbo e John Gilbert.

Atualmente, dizem que é possível acessar o filme com os dois finais, assim agradando ambas as partes, os que preferem o trágico final original do livro, e os que preferem o feliz final alternativo.

Acabara de ouvir as palavras que a sua razão temia, mas que o seu coração desejava.”

Em 2 de Janeiro de 1928, mais um filme com Greta Garbo e John Gilbert estreava, Anna Karenina, ou Love, como preferirem chamar o filme. O filme foi uma divisão de opiniões entre americanos e europeus, devido aos já citados finais diferentes. Seu romance com John Gilbert acabou, após ele tê-la pedido em casamento e ela não ter comparecido.

*
Greta Garbo recebeu uma estrela na Calçada da Fama e ficou em 38º lugar na lista das 100 maiores estrelas do cinema, que foi realizado pela revista britânica Empire.
Ela ela merecia o 1º lugar, não?

E essa é a história do clássico da literatura russa, Anna Karenina, transformado no clássico da sétima arte e guardado num clássico objeto obsoleto que é o VHS. Como me desfazer de uma raridade dessas? Não tem como, né? E hoje Tolstoi, Greta Garbo e Eu vamos de LOVE. Por enquanto, é isso… inté!

Karenina Rostov