Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse. 2000)

Les-Glaneurs-et-la-Glaneuse_2000Por: Karenina Rostov.

agnes-varda_cineastaPara alguns são um monte de lixo, para mim, muitas possibilidades.”

Depois de assistir ao documentário “Os Respigadores e a Respigadora da cineasta Agnes Varda, começo meu parágrafo já concluindo que “respigar” é uma arte. Arte esta que designa um verbo, resultado de uma ação nobre, porém, nem tanto sob a lupa de parcela da sociedade que se dá ao luxo de julgar essa ação como repugnante e humilhante gerando até certo pré-conceito. É bem verdade que não é confortável ao ser humano testemunhar determinadas cenas do homem quando este, por exemplo, porta-se como um animal abandonado à própria sorte e ter que catar comida no lixo. A história me fez lembrar o poema “O Bicho“, de Manuel Bandeira:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Então volto a pensar na ação de respigar como arte porque, bem ou mal ela, há tempos, está representada através de várias pinturas famosas que embeleza paredes de museus pelo mundo, e alguns desses trabalhos são do pintor francês Jean-François Millet que evidencia em parte de suas obras cenas exóticas do cotidiano, integrando homem e natureza, como no consagrado quadro “The Gleaners”, ou “Os respigadores“, de 1857. Confesso que o verbo respigar não fazia parte do meu vocabulário, mas a ação embutida nela, sim, faz parte da minha vida, da sua, e de todo ser que respira, mesmo não sabendo seu significado literal, inconscientemente pratica-se essa ação. Acabei recorrendo ao dicionário para saber a definição exata da palavra e sua filologia, pois nem o meu editor de texto foi capaz de reconhecer. A propósito, Varda inicia a narrativa de “Les glaneurs et La glaneuse” a partir do conceito dicionarizado. Significado de Respigar: v.i. e v.t.d. Ação de apanhar no campo as espigas que aí ficaram após a colheita. Recolher, catar, rebuscar. Fig. Recolher daqui e dacolá o que outros disseram ou fizeram; compilar, coligir: respigar frases célebres.

os-catadores-e-eu_2000Então respigar designa ação de apanhar espigas que sobraram da colheita… faz sentido! Soa esquisito até conjugar o verbo, não? Eu respigo, tu respigas ele respiga… A novidade aqui é questão vocabular. Às vezes temos conhecimento de atos e atitudes que ficam adormecidas dentro da gente e é preciso a ação de alguém para que o mundo tome conhecimento ou fazer com que desperte em nós esse lado adormecido. Catar comida, ou coisas que ninguém mais quer, rebuscar ações, recolher frases, pensamentos, pegar alimentos e objetos abandonados por aí…isso tudo é respigar.

Muitas histórias nunca serão contadas em livros, filmes, rodas de conversas, recitadas ou cantadas; mas esta história, sim, era mesmo para ganhar vida e para a alegria do cinéfilo, nessa linguagem, quadro a quadro, registrados em cada fotograma com direito a narração, direção, roteiro, produção, enquadramentos, edições, trilha sonora, risos, lágrimas, respiração, cabelos brancos, mãos enrugadas, experiência de vida, enfim, para que o espectador nela se identificasse, uma história que o mundo inteiro deve conhecer para se conscientizar de ações como essas tão ambíguas, mensagens da mãe natureza ao homem alertando que se depender dela, jamais faltará alimento para o mundo porque a Terra fértil produz sempre além de sua capacidade, só que o homem por não dar crédito à sua inteligência não reconhece a boa vontade Dela, da natureza e, por isso, desperdiça.

Os-Catadores-e-Eu_2000_00O alimento não colhido é benção para a própria terra que, com certeza, agradece porque ganhará em adubo para novas plantações. E assim todo ciclo da vida se renova, desde a minhoca até o pássaro. E não é a toa que a escolhida para contar essa história fosse alguém especial, com a sensibilidade apurada, capaz de ver o lado bom da vida mais que outros, alguém sensível, experiente, com lembranças interessantes capaz de traçar comparações algo do tipo quem precisa ser compartilhado, comparando um respigador que faz apenas por diversão com outro que faz por necessidade.

A história narrada por Agnes Varda é crua, seria como dizer o lado bizarro da vida, cenas que o mundo varreria para debaixo do tapete, enxergando como grotesca porque lixo ninguém quer dentro de casa, e para muitos a cena dantesca chega a chocar quem dela se farta. E a diretora seguiu adiante nesse seu projeto de cair na estrada para rebuscar o que o mundo tem para oferecer, do grotesco ao sublime tudo que conseguiu capturar em sua câmera na viagem pelas estradas da França, e ainda dando carona a quem mais tivesse interesse de registrar com ela imagens, e ações aparentemente corriqueiras ou aquelas que ficarão para a eternidade retidas na memória como algumas emoções, sentimentos, depoimentos e outras descobertas nessa ação de respigar.

the-gleaners_by-jean-francois-milletEla encontrou na sua respigação, um mestre na arte de ensinar o estudo da vida, um professor de Biologia desempregado vendedor de jornais nas ruas e que rebusca alimentos largados nas feiras livres e nas lixeiras, e esse moço, um sábio, o pão deixado para ele nas lixeiras, é retribuído por ele ao dar aulas aos menos favorecidos. E a vida é um ciclo de troca, todo mundo acaba, sem querer, rebuscando. Uma ação bonita e louvável da parte dele. Nessa sua jornada, Agnes encontrou também alguém na arte de respigar imagens através de sua própria invenção a la Irmãos Lumiere. A diretora teve sorte em suas buscas e garimpagens.

Acabou me fascinado com essa história toda e nos apontando saídas da vida ou para ela na arte de respigar, exatamente como na pintura “As Respigadoras” de Millet. E a diretora também respigou na sua viagem ao Japão coisas fascinantes e estranhas e guardou algumas delas na bagagem além das lembranças do passeio e outras curiosidades que pode carregar.

São as coisas que recolho ao longo do tempo que resumem as viagens que faço… da viagem ao Japão trouxe na bagagem coisas que respiguei.

Os-Catadores-e-Eu_2000_01Esta história ganhou vida não para ser um mero entretenimento, mas para que muitos se conscientizem do que acontece com o Mundo. Tanta coisa que é deixada para trás nas grandes colheitas pela França, (só lá?) nas plantações de batatas, na colheita de maçãs e outras frutas, e tudo que é deixado pelo caminho, aquilo que não foi colhido por algum motivo, não é descartado por muita gente, felizmente é aproveitado e vai-se atrás para catá-las o que é permitido naquele país. Das coisas que são descartadas também no final das feiras, os tomates amassados e as folhas das verduras que murcharam que ninguém vai querer comprar.

Alimentos vencidos que muitos deixam apodrecer na geladeira e acabam servindo aos menos favorecidos. Pães e bolos que as padarias jogam fora sempre terá alguém que vai precisar e querer. Além disso, há o descarte de objetos de todo tipo que são deixados nas ruas quando não se quer mais. E essas coisas ganharão um novo dono e nova utilidade. Uma repaginada do lavou, tá novo!

É um exercício de reflexão sobre o desperdício de alimento principalmente de tudo que é plantado, há mais desperdício do que aproveito. Um século crítico que não dá mais para o mundo se dar ao luxo de descartar alimento.

A diretora é uma respigadora e tanto, capaz de rebuscar muito daquilo que os outros não querem ver nem fazer, e que abandonam despudoradamente nas esquinas da vida. A história é retratada em grandes pinturas realistas, a lição é antiga, mas até hoje o homem não aprendeu a fazer direito o dever de casa. Nós somos os respigadores, ela, Varda, a respigadora. Só posso agradecer por este belo filme fazer parte da minha respigação. Todos nós respigamos de alguma forma as formas de ver o mundo. Hoje eu chamaria de garimpar.

Agnes Varda é mesmo um anjo por nos ter permitido fazer parte de sua viagem.

Por: (E.B.) Karenina Rostov.

Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse. 2000)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Nota: (*¹) De quando o Documentário saiu num Festival, veio com o título de “Os Respigadores e a Respigadora”. Já passando para o circuito comercial, ganhou o título de: “Os Catadores e Eu”.

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Curta: Ilha das Flores (1989)

ilha-das-flores_curtaPor: Joma Bastos.
Este filme, Ilha das Flores, embora seja de 1989, continua atual e simboliza as mais variadas situações de profunda Desigualdade Social existentes na nossa Sociedade.

Os políticos só vão ter credibilidade quando sobrepuserem os valores da População aos dos seus partidos, e procurarem as melhores soluções para atender à Sociedade, sem olharem a diferenças econômicas, sociais e sem fazerem distinção entre as Pessoas.

São cerca de 60 milhões de brasileiros muito pobres, que vivem na miséria ou perto dela, quase que excluídos da sociedade, e acontece que pouco fazemos para os inserir econômica e socialmente entre todos nós.

Esperemos que haja um desenlace, um término para o grave problema da miséria e da pobreza no Brasil, e não podemos dar oportunidade para a existência de políticos picaretas, que têm como finalidade o enriquecimento ilícito e a destruição do potencial econômico e social desta Nação.

Por um Brasil com maior Igualdade Econômica e Social!

Ilha das Flores (1989). Brasil. Direção e Roteiro: Jorge Furtado. Elenco: Paulo José (Narração), Ciça Reckziegel (Dona Anete), Douglas Trainini (o marido), Júlia Barth (a filha), Igor Costa (o filho), Irene Schmidt (a compradora), Gozei Kitajima (Sr. Suzuki 1), Takehiro Suzuki (Sr. Suzuki 2), Luciane Azevedo (Ana Luiza Nunes), Antônio da Silva (o dono do porco), Marcos Crespo (o empregado). Gênero: Curta. Duração: 13 minutos.

Sinopse: Um tomate é plantado, colhido, transportado e vendido num supermercado, mas apodrece e acaba no lixo. Acaba? Não. ILHA DAS FLORES segue-o até seu verdadeiro final, entre animais, lixo, mulheres e crianças. E então fica clara a diferença que existe entre tomates, porcos e seres humanos.

Curta: Ilha Das Flores (1989)

Por Sara Lasi.

O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser Livre. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”

Podem me chamar de idealista, romântica, sentimentalóide, tola, sonhadora, mas eu creio numa coisa: o Capitalismo rouba a Liberdade das pessoas. Liberdade no seu conceito mais puro e desejado, que traz intrínseco todas as causas e consequências que o estado nos expõe.

Então, aqui e agora, você terá a ‘liberdade’ de achar que estou falando besteira, mas mesmo que discorde de mim, ou até concorde (é mesmo?!), assista este curta e deixe-se conduzir pela lógica simples, que tão inteligente e ironicamente ele expõe, sobre o funcionamento da sociedade de consumo, que em muitos momentos chega a ser tão podre quanto o lixo que produz.

Ainda dentro do tema trouxe algo sobre a teoria da indústria cultural, para reflexão e apreciação de quem gostou desse Curta:

Os meios de comunicação de massa (veículos da indústria cultural) nos prometem, através da publicidade e da propaganda, colocar a felicidade imediatamente em nossas mãos, por meio da compra de alguma mercadoria: seja ela um CD, um calçado, uma roupa, um comportamento, um carro, uma bebida, um estilo etc. A mídia nos promete e nos oferece essa felicidade em instantes. O público, infantilizado, procura avidamente satisfazer seus desejos. Uma vez que nos tornamos passivos, acríticos, deixamos de distinguir a ficção da realidade, nos infantilizamos e, por isso, nos julgamos incapazes, incompetentes para decidirmos sobre nossas próprias vidas etc. Uma vez que não nos julgamos preparados para pensar, e desejamos ouvir dos especialistas da mídia o que devemos fazer, sentimo-nos intimidados e aceitamos todos os produtos (em formas de publicidade e propaganda) que a mídia nos impõe.” (http://www.urutagua.uem.br//005/14soc_barbosa.htm)

Ilha das Flores“, criado há mais de 20 anos, mas extremamente atual. Não deixem de assistir, é muito, muito bom!!

ILHA DAS FLORES – curta metragem
Brasil – 1989 – Direção: Jorge Furtado – Elenco: Paulo José (narração) e Ciça Reckziegel (D. Anete).

Lixo Extraordinário (Waste Land. 2009)

Yes, nós temos esperança!

Assisti ontem ao documentário Lixo Extraordinário, produzido em 2009 e dirigido a seis mãos pelos brasileiros João Jardim e Karen Harley e pela diretora inglesa Lucy Walker. A obra me causou uma sensação gratificante e de esperança.

Lixo Extraordinário é o lixo comum, produzido por estabelecimentos comerciais e residenciais até uma determinada quantidade, e são classificados como lixo domiciliar, para diferenciar do lixo infectante.

A palavra ‘extraordinário’ foi uma escolha acertada para qualificar o substantivo lixo, e com certeza não podia ser melhor, já que seu significado de sentido forte e imponente, caindo como uma luva para este documentário.

O adjetivo extraordinário significa: excepcional; singular; raro; excessivo; em elevado grau; muito grande; descomunal; anormal; assombroso; estupendo, exatamente o que a história vem nos contar.

O filme me fez viajar por algumas situações: um brechó em meu bairro de nome Lixúria, a mistura de lixo ao luxo. Outra lembrança que veio à tona é de uma senhora de uns 60 anos, com problemas mentais que vivia e trabalhava no aterro sanitário, ou lixão de Gramacho, e foi por acaso descoberta no ano 2000 pelo fotógrafo e diretor Marcos Prado que apresentou ao público em 2004 através do documentário sob o nome dela: Estamira. Este aterro sanitário é um dos maiores do mundo, o maior da América Latina, localizado em Jardim Gramacho, bairro periférico de Duque de Caxias e que recebe os resíduos produzidos na cidade do Rio de Janeiro.

A minha outra viagem foi em um texto lido casualmente hoje, intitulado: Vai dar bichos e cheirar mal. Gostei tanto que reproduzirei alguns trechos dele:

“Querer ter mais do que o necessário é demonstração de insensatez. É revelação da falta de entendimento do que é a vida, do que representam as riquezas materiais: “porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui.” Segundo Rubem Amorese (Ultimato – Set/Out – 2003), os pensadores modernos associam felicidade à saciedade, à satisfação plena dos desejos. Há sérios riscos e perigos em querer ter mais do que o necessário; perigos que dizem respeito ao tempo, aos recursos financeiros, aos talentos, aos bens materiais em geral, à própria vida, enfim. Sejamos cuidadosos: estejamos vigilantes, a fim de que aquilo que ajuntamos, não dê bichos e não cheirem mal.”

Esta passagem descreve perfeitamente o documentário Lixo Extraordinário que mostra o encontro de Vik Muniz, um artista plástico brasileiro de São Paulo que atualmente vive em Nova Iorque, com pessoas que por falta de oportunidades, trabalham num aterro sanitário recolhendo material reaproveitável: papelão, garrafa pet, plástico, alumínio, ferro. O trabalho desse artista é reutilizar todo tipo de material impensável para fazer arte, tais como açúcar, terra, pneus, brinquedos mobília, aparelhos elétricos e eletrônicos etc, mesclando tudo com seus registros fotográficos.

Vik Muniz tomou a decisão de voltar ao Brasil e ficar por dois anos no Rio de Janeiro; firmou acordo com esses trabalhadores informais numa troca favores. Os catadores trabalhariam para ele durante esse período recolhendo materiais e servindo de modelo vivo para a sua arte e posando para fotos; e receberiam os valores monetários correspondentes e algo mais no final. Foi gratificante para os dois lados: para o artista e para esses trabalhadores que ganharam além de tudo, um amigo e novas oportunidades de saírem daquela condição, olhar o mundo daquele ponto e enxergar coisas novas além do horizonte.

No primeiro ano o artista plástico fez o reconhecimento da área, travou relacionamento com muitos deles, e a partir daí passamos a conhecer algumas histórias comoventes. Ele comenta com o seu colega de trabalho que não nota ninguém ali trabalhando naquela condição, infeliz ou deprimido. São pessoas comuns, como qualquer outra, apenas não tiveram chance de ter um trabalho melhor. Pessoas felizes, em uma renda de R$ 50,00 por dia, sabendo-se que há profissões em nível superior que não chega a ganhar isso.

Sempre com sua câmera, Vik registra tudo e todos, para depois selecionar o material e explorar isso em seu processo de criação e da sua arte final.

Um deles é Tião, presidente da Associação dos Catadores do Jardim Gramacho, personagem marcante da comunidade que encontrou uma banheira em perfeito estado, e o artista teve a idéia de fotografá-lo na pose do revolucionário Murat que fora assassinado em sua casa dentro da banheira e foi pintado por Charlotte Corday. O quadro de Vik ficou bem parecido com a pintura original que ele resolveu levar para ser leiloado em Londres, e nessa viagem levou Tião para participar. Aproveitou e levou-o para conhecer um museu onde havia obras de Basquiat e outros artistas contemporâneos e conversaram muito sobre arte. O rapaz ficou encantado com tudo que viu e ouviu e não fez feio.

O filme começa e termina no mesmo ponto: no Programa de Jô Soares apresentando o brasileiro Vik Muniz como o artista dos remakes de obras mais famosas, porém usando material inusitado; e ao término mostrando um dos catadores que termina dizendo ao entrevistador algo como:

“- Não somos catadores de lixo; somos catadores de material reciclável.”

Lixo é tudo igual, o do pobre e o do rico se misturam no aterro sanitário e tornam-se únicos. Há até um momento de descontração entre eles comentando o lixo de cada um. E o filme nem por um momento varre seu lixo para debaixo do tapete. Sabe-se que incomoda; os preconceituosos dizem que o nosso país só gosta de mostrar favela e miséria. E eu digo que não se trata mais de favela, mas de comunidade, não são catadores de lixo, mas catadores de material reaproveitável. E neste aterro que prometeram fechar suas portas em 2012, nenhum deles gosta de ser tratado como coitadinho, são pessoas, são histórias, são vidas que trabalham, pagam contas, sabem ler, se apaixonam, sorriem, choram, sentem dor de dente e falam bonito.

Em Lixo Extraordinário aprende-se, nas entrelinhas, que 99 não é 100; aprende-se com a dor da perda de um filho a ser solidário e dar o ombro a quem precisa; aprende-se que O Príncipe pode estar no lixo e que Maquiavel serviu para um leitor voraz conhecê-lo e criar uma biblioteca na comunidade.

E essa história não acaba aqui. Foi parar na exposição do Museu de Arte Moderna – MAM – RJ, e esses protagonistas da vida real estiveram lá, como convidados ilustres para conferir sua arte final.

E cada um desses protagonistas recebeu da mão do artista Vik Muniz, cópia de sua imagem, um belíssimo quadro.

Vik Muniz já foi um grande consumista. Ao mostrar a casa onde morou, seu quarto de paredes e teto úmidos por causa da chuva frequente de São Paulo, em um bairro de classe média-baixa, comentou isso, dizendo que, como todo jovem sempre sonhava em ter, comprar, gastar, possuir. E um lindo dia acordou e descobriu que não se precisa ter tanta coisa para ser feliz.

Gratificante. Uma lição de vida. Uma obra de arte. Sem dúvida, merecedor de todos os prêmios. É bem verdade que sempre torci pelo meu país, só que agora torcerei um pouco mais.

Bem, o filme durou 99 minutos, o aterro no Jardim de Gramacho fechará as portas (ou só mudará de endereço?), mas a vida continua. Não se sabe o que será dessa gente que precisa desse trabalho para viver, mas certamente não ficarão desempregados.

Parece que desta vez o Brasil (em co-parceria) conquistará o tão cobiçado prêmio de academia. Caso nada ganhe, saiba que já te elegi o melhor, mesmo não tendo assistido aos outros.

Karenina Rostov

*****
Título: Lixo Extraordinário
País: Brasil e Reino Unido
Ano de produção: 2009
Tempo: 99 minutos min
Direção : Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley
Gênero: Documentário
Idioma original: Inglês

Ôpa! Isso não faz parte do filme, ok? :*

Wall-E

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Assisti vários filmes nessa semana e o que se destacou em todos os aspectos foi Wall.E

Atualíssimos os temas que o filme aborda; gira em torno da questão ambiental e dos impactos provocados pela má educação do Homem e o mau uso de nosso Planeta.  O filme inicia-se mostrando uma hipótese bastante plausível que é a da devastação da vida na Terra em nome dos excessos de poluições e degradações ambientais.

O Homem deveria acordar todos os dias se perguntando se sempre existiu lixo em nosso Planeta. Obviamente que não. wall-e-3 Dado esse fato, não é natural sujarmos tanto. Esse excesso de sujeira é terminantemente cultural, vêm desde os nômades que produziam lixos e deixavam em cada local visitado por eles. Mas eram lixos orgânicos, de fácil decomposição. Hoje os excessos tecnológicos caminham indiretamente proporcional ao suporte Terrestre para tanta porcaria. O pior é que esse material é inorgânico, de dificílima decomposição. É preciso milhares, bilhares de bactérias para decompor uma garrafa de dois litros de coca-cola, por exemplo.

Portanto, a problemática ambiental vivenciada atualmente exige urgentemente mudanças de atitudes e hábitos em relação aos recursos naturais. Um dos grandes desafios atuais relaciona-se à questão, também, da água, por sua vez, cada dia mais escassa comprometendo, assim, desde o bem-estar até a sobrevivência dos seres vivos em nosso Planeta. O consumo desenfreado e a poluição das águas acarretam sérios problemas nos aspectos ambientais, sociais e culturais.

O filme também mostra mais uma hipótese possível para daqui a alguns anos robóticos: ao invés do Homem se conscientizar e perceber o quão destruidor é para assim, mudar seus hábitos diários e viver em um ambiente sadio, naturalmente próprio para a existência, o Homem simplesmente ignora os sinais da natureza, vira as costas, vai embora.

No filme, isso é posto quase de forma metafórica, em minha opinião. Pois a Terra se encontra completamente desabitada e sem chances de habitação; LOGO, por consequência lógica da mentalidade medíocre o que se espera? Que o Homem ao invés de cuidar de sua casa ALUGADA, ele rompe com o contrato e muda de imobiliária e de residência. E mais, põe defeito nos vazamentos, na encanação, nos vizinhos, sem se dar conta do próprio umbigo.

Em Wall-E tem um outro Planeta que comporta os seres humanos enquanto a Terra tá de mal a pior.

Nesse outro Planeta a vida é robótica. Seres humanos em suas cadeiras voadoras com os controles remotos do tipo click e obtenha o que deseja, vive em série (produção em série): gordos, ociosos, parasitas da própria vida.

Isso não está distante. Antigamente, pensar em Celular era uma coisa pro ano 3000. Hoje tem celular até com televisão. Não é “viagem” e muito menos “ficção científica” pensar em carros que voam, instrumentos que amenizem o poder da Gravidade na Terra etc.

Hoje já ocorre um sedentarismo enorme por causa dos excessos de CONTROLES remotos… não tão remotos assim, né?

As pessoas esquecem que tem pernas e braços, pois o Homem cria objetos perversos, como diria Marx, fingindo que é pra conforto. wall-e-4 O Homem acredita nesse conforto e passa a ter necessidade disso no dia-a-dia. Ou seja, HOJE celular não é mais um artigo de luxo, um acessório para playboys e patrecas. É necessário ter um telefone.

É necessário ter N coisas desnecessárias para a existência. E aquilo que é NECESSÁRIO para a existência, o Ser Humano não valoriza e não cuida.

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Bem mais fácil achar uma adolescente de 15 anos preocupada com seus materiais escolares: cadernos, fichários, lápis, borracha, lapiseiras, canetas, canetinhas; do que preocupada e interessada na árvore que tiveram que derrubar para fabricar tudo isso…

O fichário da moda é MUITO MAIS importante… claro! Alguém duvida disso? rsrsrs Assim como é bem mais fácil achar um adolescente em busca de uma revista Playboy do que em busca de ser voluntário em alguma instituição que preserva as plantas e espécies vegetais da Amazônia (lugar de fornecimento do papel que compõe a revista)…

Percebe o quanto os valores são invertidos?

São poucos os que lembram que água é um recurso não-renovável, mas são muitos os que deixam luzes acesas nos cômodos sem ninguém usufruindo do ambiente. O que uma coisa tem a ver com a outra? Só temos energia elétrica porque temos usinas HIDROelétricas… *pisc*

O filme mostra tudo isso de uma maneira leve, romântica, engraçada e bem sedutora.

Quem nos dera pensar que quando o caos total se instaurar as coisas serão bonitinhas como no filme… Mas a esperança, dizem, é a última que morre.

Bom filme! Eu indico!

-Deusa Circe-

Wall-E (2008)

Eu não quero sobreviver, eu quero é viver!“.

O filme faz referências há alguns Clássicos até de um jeito implícito. Mas os dois de maior peso são: ‘2001 – Uma Odisseia no Espaço‘ e ‘ET – O Extraterrestre‘. Embora o robozinho central, o Wall-E, me fez lembrar de um filme que eu curtia assistir nas Sessões da Tarde, o ‘Um Robô em Curto Circuito‘. Esse por sinal com cenas onde ficava em lágrimas. Eu gosto de robôs desde criança por conta do ‘Perdidos no Espaço‘. Indo mais para frente, esse filme também me fez lembrar do ‘O Milagre veio do Espaço‘. E é isso que ‘Wall-E‘ deixou em mim: de um ótimo sessão da tarde! De ver e rever com pipoca e guaraná.

Mas ainda tenho outras considerações. E adentrando na história…

O planeta Terra foi inundado por uma quantidade assustadora de lixo. Num pouquinho de propaganda do ‘Blade Runner‘… os habitantes foram viver numa colônia no espaço. A Companhia encarregada de tentar reverter todas aquelas montanhas de lixo… lembrando um pouco o filme ‘Coma‘… por não conseguir fez com que esquecessem da Terra. Com tudo robotizado por lá, nem o simples caminhar exerciam mais. Ficaram obesos. E perdendo todo o contato humano – o tocar um no outro não existia mais.

Mas e o planeta Terra, o que restou dele? Ainda era habitado por um ser vivo?

Bem, daquilo que já ouvimos falar há um animal que sobrevive a qualquer cataclisma: sim, uma barata. Por me fazer lembrar da ‘Kafka‘, não guardei o nome dela. Ela era a companheirinha do Wall-E. Não tinha o pirlimpimpim da Sininho do Peter Pan, mas era também divertida.

Wall-E (Que na verdade era um sigla: Waste Allocation Load Lifters – Earth) era o último remanescente dos robôs programados para tentarem dar uma maquiada naquela lixarada. Sua visão dos humanos vinha de um video-cassete. É, uma fita em VHS. Por conta de que o que ainda funcionava era esse aparelho, e não um para CD? Um caso a se pensar. Ele mantinha a rotina diária ao qual fora programado. Mas por conta do filme que assistia tinha a esperança de que um dia os humanos voltariam. À noitinha, gostava de olhar o céu.

Meio que ‘suas preces foram atendida‘, num dia abrindo uma caixa descobre uma plantinha viva. Tendo como recipiente uma velha botina. A plantinha parecia um broto de feijão. Logo depois chega uma robozinha de nome Eva. Significativo, não? Como Adão e Eva. Mas cadê o paraíso? Eva era um pouco temperamental. Mesmo assim Wall-E ficou encantado.

Ainda com o destino conspirando a favor, mesmo por linhas tortas, mas para não tirar mais a surpresa de vocês, o casalsinho irão passar por maus pedaços. Não apenas para salvar a última plantinha do planeta, mas também todo ele. E a Terra quando vista lá da colônia o continente que mais se destacava era a América do Sul: numa clara alusão a Floresta Amazônica. Agora, reparem em qual é focado quando é o ‘go home‘.

Para finalizar senti falta de uma população mais diversificada. A grande maioria eram branquinhos. Ah sim! A trilha sonora é ótima! Enfim, como disse no início, é um ótimo sessão da tarde!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Wall-E. 2008. EUA. Direção e Roteiro: Andrew Stanton. Gênero: Animação. Duração: 97 minutos.