A Grande Aposta (2015). “Desenhando” a Crise/2008 Para Que Assimilem de Vez?

a-grande-aposta_2015_posterfinancial-crisis_us_comicsPor: Valéria Miguez (LELLA).
Um Professor diante de uma matéria muito complexa sabe que o caminho seria se expressar de forma lúdica. Ainda mais tendo que fazer uso de terminologias bem específicas. Explicando com humor torna a aula mais prazerosa e com isso os alunos terão mais chance de entenderem a lição de vez, ou quando não muito, o necessário. Digo isso porque foi meio por aí que “A Grande Aposta” me passou. O que em nada diminui o filme, muito pelo contrário! Mesmo tendo vindo como a didática de um Professor de Cursinho… É justamente essa aulinha para lá de bem humorada, do tipo que “mete o dedo na ferida”, que traz o diferencial do filme. Pois tendo que contar o que foi a Crise Financeira de 2007/2008, uma história tão bem decantada em 2011 por “Margin Call“, teria que ser por um outro ângulo. E meio que “desenhando” o Diretor Adam McKay conta essa história em especial para os próprios conterrâneos o ponto alto do filme! Muito embora creio que o pessoal de lá possam a vir não gostar muito, ou nada, quando de fato a ficha cair. Afinal, o “desenho” é principalmente endereçado a eles, os estadunidenses! Esse detalhamento como um PowerPoint de sala de aula fica também como um alerta para que ninguém se esqueça do que foi o maior golpe financeiro desse século. Crise essa que pode ser traduzida por “Como Aplicar um Mega 171 Impunemente!“. Algo que coloquei como subtítulo no do filme de 2011.

Agora, “A Grande Aposta” também nos traz um outro dado que não deveria ser esquecido: de que quase uma década já se passou e pelo jeito varreram tudo para debaixo do tapete… Vejam quem de fato foi o único punido. Pior! Pois as tais Agências de Classificações de Riscos (Standard & Poor’s, Moody’s…) continuam por aí “avaliando” até mercados internacionais e a serviço de um seleto grupo diretamente. Ou como temos visto atualmente no Brasil, os que usam de má fé essas avaliações para fomentarem uma crise… É! Elas seguem livres e se linchando para os que foram, são e serão ludibriados com as “projeções” dada por elas. Esses outros são os reais “patos” (Algo que também nos remete a história atual do Brasil…) Quer sejam eles pessoas físicas, jurídicas, ou mesmo países… são quem de fato pagarão as consequências desse capitalismo selvagem! Há uma cena no filme que enfatiza bem a perversidade do Sistema! Ainda restando um certo pudor no que fará, questiona uma delas por ter dado um “triplo A” para um título já em queda livre. Ainda perplexo com tudo, o personagem ouve que se ela não o fizer, perde “o cliente“. E ainda lhe põe em xeque: já que para ambos o que realmente interessa são os lucros! Que o prejuízo, os “patos” que paguem! Assim, se o Sistema do Mercado de Ações é bem cínico… Logo, Adam McKay fez muito bem em também o ser nesse filme! Bravo, McKay!

E seguindo de um jeito meio documental Adam McKay conta toda essa história em “A Grande Aposta“. Com paradas para as explicações do “economês” do Mercado de Ações usando até algumas Celebridades. Com clips bem dinâmico de acontecimentos, fatos, momentos em evidências ao longo desses trinta anos: desde a entrada dos Títulos Hipotecários no Sistema até o “desfecho” em 2008. Com uma ótima Trilha Sonora! Agora, como num desses clips eu ri muito, mas para não estragar de todo a surpresa… Direi que a inserção da foto de uma famosa dupla de um Filme já Cult, veio como: “Golpista é golpista, não importa se da plebe ou da elite!“. Perfeita a analogia! É hilário!

A-Grande-Aposta_2015_01Além disso, temos em “A Grande Aposta” um personagem como um mestre de cerimônia que ao contar como ele entrou nessa história acaba meio que contando a dos demais envolvidos diretamente na trama. Ele é o corretor Jared Vennett interpretado por Ryan Gosling. Vennett é um cara bem antenado! Ao ouvir uma certa história vai atrás de quem o ajudaria a confirmar o fato. Mas antes de falar dos demais, temos quem teve a tal grande sacada: Michael Burry. Personagem de Christian Bale. Burry é cara bem excêntrico, mas com um olhar clínico para os números, algo que o qualifica como um grande investidor, onde até então era bem quisto no meio. Foi ele quem identificou que os tais Títulos – a “menina dos olhos” de todo Sistema americano -, estava para ruir. Como ficou desacreditado decide lucrar em cima do fato. Apostando contra o mercado de então, mas com uma segurança. Ávidos não apenas com o capital de Burry, mas também com o que lucrariam dos demais, já que para eles eram favas contadas Barry perder, aceitam! Surge então os Títulos de Seguros Contra as Hipotecas. Não sei se foi proposital o Diretor colocar esse personagem com um certo problema físico… Porque sei foi, a analogia foi ótima! Por ter sido o único que vislumbrou o problema!

Com isso, foi com um dos corretores se gabando do lucro certo que teria com a derrota de Barry, que a história chegou aos ouvidos de Vennett. E por conta dele ir atrás de Barry, ou não… alertou uma Corretora. Quem está a frente dessa outra é Mark Baum, personagem de Steve Carell. Esse percebe que pode estar diante de um grande negócio, mas resolve investigar primeiro. Acontece que Baum está passando por uma grave crise pessoal… Somado ao seu jeito de ser de não ter papas na língua… O leva, ou melhor, nos leva a conhecer o quanto esse mundo não tem o menor escrúpulo em arruinar pessoas, empresas, nações. No filme ele seria um dos pesos pela moralidade e ética nessas, ou dessas negociações. Até por tudo que veio depois também com a tal grande aposta de Barry: quem de fato lucrou junto com ele, quem não arcou com o monumental prejuízo deixada por ela (Algo que mais especificamente pode ser visto em “Margin Call“…

Há ainda dois personagens ligado a tudo isso onde então entrará o do personagem de Brad Pitt! Eles são dois pequenos investidores que de posse do lucro resolvem entrar na Wall Street… Eles são Charlie (John Magaro) e Jamie (Finn Wittrock) que pareciam um pouco com Barry: de investirem em coisas que a maioria não acreditava que traria lucro certo. Assim, de posse da fortuna acumulada, vão em busca de um lastro maior para grandes investimentos… Nesse breve e frustrante caminho… ficam cientes dos planos de Barry… Tentam então contatar Ben Rickert (Brad Pitt): alguém respeitado na Wall Street, mas que se encontrava fora de toda aquela máquina: daquele que seria um circo dos horrores para muitos… Entretanto, mesmo longe de lá, para Rickert business is business, ainda! Paralelo a isso, essa dupla também tenta que alguém da imprensa noticie o que já estava acontecendo e o que estaria por vir… Para que os incautos, ou até gananciosos, do andar de baixo não caíssem no golpe dos poderosos que não iriam arcar com o prejuízo que a própria ganância os cegaram também para o que o Barry a princípio tentou mostrar… Enfim, todos nós estamos cientes quem caíram. Até porque isso já faz parte da cultura deles! Perdendo ou ganhando, a têm como a principal indústria!

O filme é muito bom! Mesmo que não queiram assistir pelo receio de um déjà vú, assistam! Pois “A Grande Aposta” não apenas traz uma radiografia bem cáustica do que foi essa crise, mas também porque o filme mostra que muitos poderão voltar a cair novamente em golpes parecidos: com uma nova roupagem. Afinal, além da impunidade, a crise mostrou aos do andar de cima as falhas do próprio sistema. Mais! Dando a eles mais know-how para o perpetuarem. Além dele não nos deixar esquecer quem afinal acaba pagando o pato! E salvo raríssimas exceções do andar de baixo que terão chances de conhecer o andar de cima e recebidos com tapete vermelho!

Vale também destacar ainda as atuações! Todos em uníssonos! Alguns bem caricatos, mas talvez para mostrar que mais do que os personagens em si é a história a grande protagonista ao mesmo tempo que pelo teor, também a grande antagonista. No qual eu darei um ‘9,5’ pelo conjunto da obra em “A Grande Aposta” porque a nota máxima ainda está com “Margin Call“! Agora, enfatizo é um Filme para ver e rever!

A Grande Aposta (The Big Short). 2015.
Direção: Adam McKay (co-Roteirista)
Baseado no livro homônimo de Michael Lewis.
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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O Capital (Le Capital. 2012)

o capital_2012Costa-Gavras consegue magistralmente fazer uma releitura light das ideologias amareladas pelo tempo de “O Capital” de Karl Marx, numa forma brilhante e bem humorada, impossível de não se aplaudir. Essa mesma história tão sonhada por Seguei Eisenstein e idealizada numa megaprodução pelo alemão Alexander Kluge com aproximadamente nove horas e meia, uau, certamente já é um clássico e confesso, tenho muita curiosidade de em algum momento, quem sabe, deleitar-me dessa preciosidade acompanhada do descompromisso diário da labuta e talvez pausa apenas para um café.

Pelos ideais filosóficos do capitalismo, desde que o mundo é mundo, o dinheiro é a própria religião, fala mais alto, é porta-voz da humanidade, manda quem TEM. Tudo é possível com ele comprar, tudo pode desde o luxo, beleza, prazer e o próprio status.

Capital e Poder quase sempre caminham juntos. Para quem tem, portas são abertas com mais facilidade. Compra-se até a liberdade e amigos.

E “O Capital” do século XXI, mesmo Costa-Gravas pegando leve, mostrando um lado humano menos materialista, mas não tão diferente: o cidadão continua escravo do capital; sabe-se que ele nasce bom, até que lhe é dado um pouquinho de poder capaz de transformá-lo em Robin Hood que tira dos POBRES para dar aos RICOS, numa odisseia ilusória que parece não ter fim. E paralelamente a essa história, entra em cena a profissão rotulada como a mais antiga do mundo sob a fantasia de uma bela modelo tentando a qualquer custo “comprar” ou quem sabe, “vender” momentos felizes na sonhada companhia do poderoso chefe de um importante banco também num jogo de sedução perguntando ao espectador quem afinal é a prostituta? Ele? Ela? E quem afinal acaba pagando para devorar quem? Em um mundo consumista leva vantagem o voyeur.

O filme tem ótimas sacadas nas entrelinhas. Convidativo como só Konstantinos mesmo fazer seu público merecer essa joia rara de presente. O Capital é uma ilusão. Bravo!
E.B.

Hotel Ruanda (Hotel Rwanda. 2004)

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África – Que Continente é este? O que sabemos de seus habitantes, hoje?

Uma parte da história dessa gente está nos livros. Mas ficamos nisso? Será que ao ouvirmos esse nome o que vem de imediato é esse “passado”? Ou os animais nos safáris? Um tempo atrás ‘tomamos’ conhecimento de que lá haviam crianças passando fome (Biafra, Nigéria). Foram imagens chocantes; e que nos tocou. Para quem assistiu “O Jardineiro Fiel” pode ver do que a indústria farmacêutica é capaz. Parte desse povo virou “cobaia”. Outra grande indústria que usa e abusa de seu poder mundial é a bélica. “Tiros em Columbine” mostrou esse alcance. Visando lucro, ora fornecendo armas para os “governantes”, ora para os “rebeldes”. Sem se importar com os “inocentes”.

Por querer saber mais sobre essas pessoas, sobre a história recente nesse Continente, também motivada pelo ator principal, Don Cheadle, assisti Hotel Ruanda. Para alguns ficará como uma aula de História que pulou das páginas dos livros, ou melhor, da tela da Tv – retrato de uma guerra que dividiu a população de um país. Um genocídio.

Um pouco dessa tragédia: Em um dos massacres mais sanguinários de que se tem notícia Ruanda foi palco de uma política de extermínio. Sem intervenção internacional um grupo de hutus radicais matou – usando facões – cerca de 1 milhão de tútsis.

Agora, deixo as minhas impressões em cima de alguns personagens e seus respectivos atores. Mas com certeza o documento histórico é muito importante. O título também tem razão de ser; muito bem escolhido.

E o que é mostrado nesse Filme?

Mais do que mostrar um genocídio ele traz a determinação de um homem. Alguém que em meio ao caos, ciente das suas limitações ante uma guerra, segue em frente. Poderia ter sido mais um joguete nas mãos dos que detém o poder, mas até nisso ele usou como inspiração. Administrando bem as situações críticas. Por ter pouco tempo sua tomada de decisão é em cima do fato; e o faz a cada reviravolta. Quem o interpreta é Don Cheadle (Brilhante em “Crash – No Limite“). Faz um gerente de um Hotel 4 estrelas; de um Grupo belga. E o que faz? De que armas utiliza? É impressionante! É comovente! Ele, o ator, é perfeito! No olhar, na postura, na expressão! Não cai no caricato.

Por falar em caricato… Há uma cena dele com o Nick Nolte onde a expressão facial desse último até que veio a calhar. O diálogo assusta; vendo entenderão porque. Os dois ali no bar do Hotel, o Nolte sentado num banquinho, o Cheadle em pé do outro lado do balcão servindo… A câmera indo de um ao outro… Nos faz pensar: “Quem é ou está subserviente ali? Qual dos dois? E servindo a quem, ou a que?”.

Outra cena tocante do qual se eu apenas falar que ele se atrapalha em fazer o nó da gravata não entenderão porque ela emociona. Fiquei com lágrimas nos olhos. Um momento romântico dele no terraço com a esposa também nos toca. E ainda nessa cena um toque alegre com um merchan da Volkswagen.

Ele faz uma “dobradinha” também com Jean Reno. Que para mim suas participações são sempre ótimas! Ele interpreta o presidente da Rede de Hotéis. Aqui também há a tal da subserviência – a serviço de quais valores. A cena final entre eles é tocante! Cada um sentado em seu escritório, em seu país, ao telefone, dizendo… O texto choca… E a postura de ambos é um brinde em interpretação!

Ainda citaria o personagem de Joaquim Phoenix. Um fotógrafo que por sua ousadia mostra ao mundo o que de fato está acontecendo com aquelas pessoas. E ao se despedir de Paul nos traz uma verdade cruel.

Paul dos obstáculos retira ideias. E sem contar o antes, nem o depois, trago uma delas. Mais ou menos assim: “Devem contar o que vai nos acontecer. Dizer adeus. Mas ao dizer adeus façam como que se através do telefone segurassem a mão deles. Façam com que saibam que se eles soltarem a mão, morreremos…”

Uma trilha sonora linda!

Assistam! Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Hotel Rwanda. 2004. Reino Unido. Direção: Terry George. Com: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Nick Nolte, Cara Seymour, Joaquin Phoenix, Jean Reno. Gênero: Drama, História. Duração: 121 minutos. Classificação: 14 anos.