San Francisco 2.0. Um progresso que exclui a base da pirâmide social

sao-francisco-2-ponto-0_documentario_2015sao-francisco-2-ponto-0_04Por: Valéria Miguez (LELLA).
O DocumentárioSan Francisco 2.0” (2015), de Alexandra Pelosi, retrata aquela que já foi um importante centro cultural do país, de raízes livres e anti-materialista, vivenciando uma “guerra de classes” por um progresso que exclui do caminho a base da pirâmide social e de um jeito avassalador. O que por sua vez é um retrato do que está ocorrendo no mundo onde as “parcerias” entre entidades particulares e governos visam “agradar” o topo da pirâmide social. Gerando os “apartheids” da era do mercado de capital…

Da capital mundial da contra-cultura à capital mundial das TI

sao-francisco-2-ponto-0_01Quando uma maioria jovem e rica do Vale do Silício transformaram São Francisco numa “cidade dormitório”, o mercado de capital e a Prefeitura se uniram para atrair essa indústria de ponta… Redução de impostos e um local para que essas empresas – das grandes às incubadoras – se instalassem… Assim a “San Francisco 2.0” surgiu e no que seria o “lado pobre” da cidade: o “mais fácil” de ser removido…

Os jovens tech bros usam San Francisco como seu playground, eles não estão olhando para ela como sua comunidade.

Não obstante! Além do aumento do custo de vida – dos alimentos as moradias… as construções de prédios, condomínios de luxos… também descaracterizavam a arquitetura típica local… Como também, por serem de uma imensa maioria de jovens – sem crianças e idosos – por serem adeptos de uma cultura voltada essencialmente para a internet… Consumismo… Apps para “facilitar” o dia a dia… O sonho de se tornarem milionários com suas invenções tecnológicas… O capital sem se preocupar com a base da pirâmide social.

As cidades precisam se reinventar para permanecerem vivas. A questão é: professores, bombeiros, policiais… poderão ficar nelas onde viveram por gerações? Eles estão sendo expulsos de suas comunidades.

Essencialmente político, Alexandra Pelosi mostra os prós e os contras dessa “modernidade” em São Francisco: a gentrificação em alta escala. De que o mesmo fluxo para “agradar” aos mais ricos não é nem de longe o mesmo até para os que foram expulsos de suas moradias… Sem planos para a comunidade local acaba fazendo a cidade perder a sua própria identidade…

É! O mundo parece caminhar para tornar inacessível as classes C, D e E de morarem nas grandes cidades. É o mundo do mercado de capital aumentando a desigualdade social…

sao-francisco-2-ponto-0_02San Francisco está mostrando a nova economia mundial. É por isso que devemos prestar atenção a San Francisco.

Enfim, o Documentário “São Francisco 2.0” até por deixar uma sensação de que há muito mais por vir… Nos deixa de que mais do que escolher um lado estaria em tentar fazer a diferença na busca pelo meio termo desse “progresso” que chega nas grandes cidades.

Exibido pelo canal HBO Signature. Assistam! Nota 10.

As Neves do Kilimanjaro (2011). Ou: Um Homem Posto À Prova

Tudo o que está morto como fato, continua vivo como ensino.” (Victor Hugo)

Atualmente, só em ter o nome de Jean-Pierre Darroussin nos créditos, já carimba minha vontade em ver o filme. Isto feito! E mais uma vez ele dá um show de interpretação. Mas o melhor de tudo, é que mesmo tendo cacife em roubar todas as cenas, ele, elegantemente, divide o palco com os demais. Em “As Neves do Kilimanjaro“, eu destacaria a dobradinha dele com dois atores. Um é com Gérard Meylan, que faz o amigo e co-cunhado: Raoul. A outra é com Ariane Ascaride, que faz a sua esposa, a Marie-Claire.

Darroussin faz Michel, que no início do filme também coloca seu pescoço na forca. Embora o filme se passa na França, mais precisamente em Marselha, a guilhotina agora é outra: a crise que atinge a empresa onde trabalhou por tantos anos. Como o Sindicalista responsável pelo acordo com os patrões, pelo seu caráter não se esquivou em retirar seu nome de um sorteio cruel: vinte homens perderiam seus empregos. E eis que o destino o leva a sortear seu nome. Causando surpresa em Raoul. Mas Michel quis assim! Pois isso o deixaria em paz com seus ideais. Tendo como espelho: Jean Jaurès. Um político da virada do Século XX que lutava por uma revolução social democrática e não violenta.

As Neves do Kilimanjaro” traz como pano de fundo a Luta de Classes. Mas sem ser didático, sem querer catequisar ninguém. Porque a frente de tudo está o real valor do ser humano. Machuca um pouco certas verdades, principalmente quando a vida lhe põe em xeque. Quando te leva a reavaliar a tua história pessoal. O filme faz isso com o personagem de Darroussin. Michel é um cara bom na essência. Que já estava aceitando essa forçada aposentadoria. Livre enfim das obrigações com o Sindicato, tinha agora mais tempo com a família. Mais tempo com os netos, tempo livre esse que não teve com os filhos.

Na comemoração das Bodas de um longo e feliz casamento, sua bondade acaba despertando a cobiça de alguém. E o objeto dessa cobiça fora o presente que Michel e Marie-Claire ganharam dos familiares e amigos, que se cotizaram para lhes dar uma quantia em dinheiro e passagens para verem o Kilimanjaro de perto. Os dois amavam uma canção com o então título do filme: As Neves do Kilimanjaro.

Além do presente, os assaltantes levaram mais dinheiro dos dois casais: o que o caixa eletrônico “permitiu” que sacassem com os cartões de Michel e Raoul. A irmã de Marie-Claire, casada com Raoul entrou em crise. A amizade desses dois homens, que vinha desde a infância também fica abalada. É que tal fato levou a outro, depois a outros, numa reação em cadeia. Michel tinha que ter de volta o controle dos seus atos. E isso se resumiria na verdadeira bagagem que ele e a esposa levariam!

Sempre quis fazer filmes que mostrem que o sentimento de humanidade pode se revelar talvez ainda com mais força onde é vilipendiado. Nos instantes em que a sociedade está em crise, tento, com meus filmes, encorajar comportamentos que seriam exemplares.” (Robert Guédiguian).

O filme é um libélulo aos reais valores da vida! Que há esperança nos homens de boa vontade! Um drama, sim! Que emociona! Minhas lágrimas rolaram em dois momentos no finalzinho do filme. Mas é um filme que te deixa leve! Diria que é iluminado! E muito bem sonorizado: Trilha Sonora mais que perfeita!

Não deixem de ver! Um filme Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

As Neves do Kilimanjaro (Les Neiges du Kilimandjaro. 2011). França. Direção: Robert Guédiguian. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 90 minutos. Baseado “Les Pauvres Gens” de Victor Hugo, um poema que fala da solidariedade entre os pobres.

Curiosidade: A citação que Michel diz ao arrumar seus pertences após ser demitido: “Coragem é compreender a própria vida, especificá-la, aprofundá-la, estabelecê-la e ajustá-la à vida em geral. Coragem é controlar com precisão a própria máquina para tecer, a fim de que nenhum fio se rompa, e preparar ao mesmo tempo uma ordem social mais ampla e mais fraterna na qual aquela máquina será a serva comum dos trabalhadores livres. Coragem é amar a vida e olhar para a morte com olhos tranquilos; é procurar o ideal e compreender o real; é agir e dedicar-se a grandes causas sem saber que recompensa o universo profundo dará ao nosso esforço e nem se haverá alguma recompensa.” De Jean Jaurès.

O Leopardo (Il Gattopardo. 1963)

o-leopardoEm 1860, Garibaldi inicia o movimento de unificação de Itália. D. Fabrício (Burt Lancaster) é um aristocrata que tenta manter o anterior modo de vida, apesar dos tempos de mudança. Para ele, a ascensão da burguesia é uma ameaça. Mas numa manobra astuta, combina o casamento do seu sobrinho Tancredi (Alain Delon) com Angélica (Claudia Cardinale), filha de um rico e influente administrador de propriedades. Fiel aos seus valores, este aristocrata consegue assim manter acesa a chama do antigo regime.Tudo deve mudar para que tudo fique como está.’ (Giuseppe T. di Lampedusa)”

Não vi muito do Luchino Visconti, mas dos que conheço, esse, ‘O Leopardo‘ é o melhor. Um verdadeiro tratado sobre a decadência (tanto quanto de um homem quanto de uma classe) e a autoridade como uma busca pela compensação à fragilidade.

Tudo transpira genialidade aqui. A caracterização dos cenários e figurinos, a trilha… O plano inicial focando na mansão é belíssimo. A cena em que o empregado avisa que algo está acontecendo lá fora e todos permanecem calados esperando o personagem do Burt Lancaster terminar suas preces demonstra o respeito e a autoridade que ele impunha, mesmo que apenas como um escape para disfarçar sua insegurança, afinal os tempos mudavam e outra classe estava para assumir o poder.

Ele precisava lidar com isso e o sentimento de ‘Ninho Vazio‘, sentimento este cada vez mais profundo e externado na (genial) sequência do baile, quando ele dança com a jovem no baile e, mesmo galante, é rejeitado pela moça que o acha ‘velho’. Nessa hora, ele para diante de um espelho e pela primeira vez se vê velho… E chora! Uma das mais belas do filme ao lado da que ele permanece de pé com o olhar vidrado em um quadro que retratava um homem morto em sua cama (esse momento onde o personagem parece estar em transe demonstra a estreita relação dele com esse sentimento de uma morte próxima).

Aliás, as sequências do baile são o melhor do filme (ou não – é tanta coisa maravilhosa aqui). Carregada de sutilezas, impossível julgar com uma assistida apenas (eu só vi 3 vezes e considero muito pouco), sendo a maior delas o próprio baile, uma grande alegoria que à transição de uma classe dominante à outra.

No mais, cito o Alain Delon, carismático como sempre, carregando com perfeição no cinismo de seu personagem e um elenco de apoio sobre o qual não posso comentar mais a fundo por não conhecer bem, mas que se mostra muito bem no longa.

E algo que não pode deixar de ser dito…

Esse filme é uma das maiores provas de que o Oscar não pode ser considerado como referência de nada

Num dos anos mais vergonhosos de sua história, ‘As Aventuras de Tom Jones’ leva a estatueta de Melhor Filme, desbancando ‘A Conquista do Oeste’ do Ford e ‘Cleópatra’. E ‘O Leopardo’ nem mesmo indicação recebe.

É uma dessas que me faz ter (mais) orgulho do meu amado ‘Rocky‘.

Por: Luiz Carlos Freitas.

O Leopardo (Il Gattopardo). 1963. Itália. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Terence Hill, Giuliano Gemma, cast. Gênero: Drama, História, Romance, Guerra. Duração: 187 minutos.