Léo e Bia. (2010). A Radiografia de uma Época

Quem não pode atacar o argumento, ataca o argumentador.”

A frase acima dita no filme “Léo e Bia” meio que define não apenas toda a obra de Oswaldo Montenegro, mas também os seus fãs, em qual eu me incluo. Um artista que não teve medo de se mostrar por inteiro, em cantar em verso e prosa o seu lado romântico, de não ter sido um engajado ferrenho em plena ditadura, por ter sido um pequeno burguês como muitos de nós. Que sonhava com um mundo melhor em conversas com amigos. Alguém assim termina aos olhos de muitos se tornando um poeta maldito. Mas ele sorri para os críticos de um jeito sereno. Abstrai como uma religião essas pedras pelo caminho. E assim nos identificamos com ele.

Se tudo fosse claro, tudo nos pareceria inútil.”

Oswaldo Montenegro transpos a peça teatral homônima dos anos 80 para a tela do cinema. E o fez de modo magistral! Em “Léo e Bia” o teatro está ali, já que o filme todo se passa num único cenário. Onde quase não há objetos cênicos que me fizeram lembrar de “Pina“, de Wim Wenders. Sendo que nesse filme aqui, mesmo as cenas que saem do tal palco do teatro, são passadas escurecendo o entorno. Para quem assiste nota e não nota essa ausência de cenários porque a presença dos atores aliados ao roteiro e a trilha sonora prende a atenção até a cena final.

Quando você estiver triste, a gente vai fazer teatro, quando você estiver feliz, a gente vai fazer teatro e quando você estiver arrasado, a gente vai fazer teatro”.

Léo e Bia” está centrada num período marcante da História do Brasil. Ambientada na época da Ditadura. Início dos Anos 70. Onde um grupo de amigos usam o teatro também como uma catarse. Se sentem meio deslocados em Brasília. Uma cidade erguida meio que para se ter um poder central, ou o sentimento dele. São jovens nascidos ou levados para morar nela que buscam por uma identidade, e o fazem com essa paixão em comum pelas artes cênicas.

Lúcio Costa e Niemeyer resolveram o problema da pobreza no plano piloto varrendo todos os pobres para as cidades satélites.”

Nessas reuniões, mais que para apenas um laboratório para a peça que irão encenar, eles se desnudam interiormente. Não são jovens alienados, mas sabem que a melhor arma é se ajudarem mutuamente. Existe amor entre alguns deles, mas acima de tudo há a amizade, o companheirismo. Alguns são mais abastados, outros mais humildes.

A ditadura acha que protege, mas na verdade ela tortura.”

O filme aborda o contexto político da época, mas mostrando que muita das vezes ela está dentro de casa. A personagem Bia sofre até fisicamente toda a opressão vinda da própria mãe, mas não se rebela por pena. Como também se sente presa pela forte cobrança que a mãe sempre faz. Já um outro personagem, o Cabelo, sofre pela homofobia tão repressora na época. Mas que ainda é forte atualmente. Também mostra que não se pode transar livremente, ou impunimente. Até porque o peso recairá na mulher. É a gravidez não planejada. Um outro tema tem a ver com as drogas. Até onde ela aprisiona a pessoa.

O povo é burro”. / “O povo é vítima”.

Os jovens estão encenando uma história que faz um paralelo entre Jesus Cristo e Lampião. Política e Religião sempre andam juntas, mas quando uma começa a perder terreno, não medirá esforço para recuperá-lo. “Antonio Conselheiro” que o diga! Não fazem de Lampião um herói, mas um produto do meio. A encrenca maior que arrumam será com a “dona Censura“. Que me fez lembrar do nome “Solange” na assinatura do documento exibido antes de cada filme na época.

Brasília lá em baixo, …era mais do que toda a possibilidade de vôo. Eu sentia a dor que o Léo tava sentindo… Eu amava o Léo. …todo mundo sabia… O Rio me assustava …mas até ter medo era novo. A gente tinha um tédio …de tudo. E aí percebi que seria diretora e protagonista do filme da minha vida. …não ia permitir que nenhum patrocinador influísse… Começou …e ele não é bom nem mal… Mesmo que doa, é o nosso filme! …conduziríamos o barco… o caminho era mais lindo que o barco… Valeu Brasília! Já fomos!

Mesmo ainda muito jovens, eles sentem quando chega a hora de cortarem o cordão umbilical para ir ao encontro do sonho maior: viver do teatro. E aí é hora de saber quem irá carimbar esse passaporte para a felicidade. Saber quem está preso a outros compromissos, outras responsabilidades. É o amadurecimento advindo da tristeza para uns. A dor de não poder ser livre. De não poder ser o protagonista da própria história de vida.

São sete bichos / Sete regras do jogo / Sete provas de fogo / Para a lógica de cada um / São sete mundos / Pelo mesmo planeta / A mesma bola na roleta / E apostando no número um / São sete dores e sorrisos em jogo / Apostando sete corpos em ponto comum / Observando na mesma estação / Os anjos e demônios de cada um.”

E quem são esses sete amigos de “Léo e Bia“?
Léo é o líder do grupo. Adora estimular a todos para que ponham em xeque suas emoções confrontando com o lado racional. Muito criativo, partindo dele as ideias para a peça. Um crítico da realidade, sem perder o lado terno. Tem um ponto fraco: é apaixonado por Bia.
Bia se encontra emocionalmente frágil. Totalmente submissa a mãe. Contida em seus sentimentos até por medo de expor o ódio que sente às vezes pela própria mãe. O que a faz passar por um momento muito sensível. Sabe que terá que escolher entre o amor de Léo ou cuidar da mãe.
Marina é um jorro de otimismo. Mas bem equilibrada. De essência solidária. Mas bem racional. Ufanista. E apaixonada por Léo.
Encrenca é o brincalhão do grupo. Contestador. Adora fazer citações, o que o deixa como um clichê-ambulante. Mesmo que aparenta ser um cara imaturo, será o apoio de uma amiga.
Cabelo é o que veio da cidade-satélite. Por esforço próprio se fez um cara culto. Poliglota. Boa pinta. Elegante até nas atitudes. Sensível, sofre por ter que esconder a sua homossexualidade por causa das reações das pessoas. Só diante dos amigos se pode mostrar por inteiro. Um sonho maior: Paris.
Cachorrinha é a mais animada do grupo. Pelos termos da época: Porraloka. Meiga. Ingênua. Riponga só no exterior, pois ama o conforto da cidade grande. Por acreditar piamente no namorado, irá entrar numa fria.
Brook é o mais rico da turma, ou melhor, o único. Um típico filhinho de papai. Daí, um tanto e quanto inconsequente. Boa gente, mas sem correr risco por alguém. Como também não pesar os contras daquilo que faz. Namora a Cachorrinha.

Ditadura não tem a ver com sexo, tem a ver com estupro.”

A Trilha Sonora é sensacional! Além das cantadas em cena, as de fundo contam com algumas participações como Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Zé Ramalho, Sandra de Sá, Paulinho Moska. Um coadjuvante de peso que juntamente com o elenco afinado e afiado contam, cantam e encantam a história de uma época, que literalmente curta no contexto – 1973 -, marcou profundamente esses jovens. O filme foi baseado em alguns personagens reais. Tudo isso é contado com humor leve, mas por vezes apimentado. E que prende a atenção do começo ao fim. Para uma atualidade mais individualista, é altamente recomendado. Enfim um filme de querer rever! Que eu assisti pelo Canal Brasil.
Nota Máxima!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

LÉO E BIA. 2010. Brasil. Direção e Roteiro: Oswaldo Montenegro. Elenco: Paloma Duarte (Marina), Emílio Dantas (Léo), Fernanda Nobre (Bia), Pedro Nercessian (Encrenca). Pedro Caetano (Cabelo), Françoise Forton (Mãe da Bia), Brookie (Ivan Mendes), Cachorrinha (Vitória Frate). Gênero: Comédia, Drama, Romance, Musical. Duração: 95 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos. Trilha Sonora: Oswaldo Montenegro.

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Selvagens (Savages. 2012)

Tempos atrás, uma famosa crítica americana declarou estar aliviada no momento de sua aposentadoria por nunca mais ser obrigada a ver um filme de Oliver Stone. Ela tinha razão, pois embora o diretor tenha inegável talento, seus filmes costumam ser longos e chatos. Até mesmo seus melhores trabalhos como “Assassinos por natureza” são difíceis de ser suportados por mais de uma vez de exibição.

O filme se passa na ensolarada Califórnia, onde Ophelia (Blake Lively) divide a cama e os frutos de uma rentável plantação de maconha “da boa” com uma dupla de rapazes musculosos: Ben (Aaron Johnson) e seu melhor amigo Chon (Taylor Kitsch). O lucro fabuloso dos jovens traficantes chama a atenção de uma milícia criminosa comandada por uma mexicana durona.

Conforme esperado, no caso de “Savages” as imagens são bem enquadradas, a fotografia primorosa, o som espetacular, tudo certinho como manda o figurino. Até o trio de atores amantes ligados ao comércio de entorpecentes ilegais é tão perfeito e belo que chega a enjoar.

Como o filme não tem muito foco e vários núcleos, a dispersão é natural. Na segunda metade, a coisa toda se agrava irreversivelmente. Numa sarabanda pasteurizada de acontecimentos atropelados, o que não falta são cenas patéticas como a do jantar de Ophelia com seu algoz, a malvada rainha do pó ou a sequência final quando a maior parte do elenco se reúne no deserto para um confronto inexato com direito a duas versões do desfecho sangrento. Não consegue excitar nas mornas cenas de sexo onde a mulher aparece sempre com muita roupa, nem chocar apesar de pretender ser ultraviolento, ou seja, fica difícil acompanhar a trama sem dar uma olhadinha no relógio mesmo quando a pintura de Sir John Everett Millais (Já melhor utilizada como referência em outros filmes) surge na toca do bando de traficantes. Seria uma homenagem inacreditável do grupo de criminosos para receber a bela refém Ophelia?

A alardeada e pequena participação do ótimo John Travolta como um agente federal corrupto também não merece grande destaque. A boa interpretação do astro não consegue salvar este desastre que no fundo é mera apologia às drogas feita por alguém notoriamente adepto a elas, em todos os sentidos.

Quebrando o Tabu. 2011

Antes de se posicionar contra ou favor da descriminalização do uso da maconha, ou mesmo de sua legalização, é preciso louvar um documentário que se propõe a debater a ética de uma guerra contra as drogas e avaliar, ainda que sob uma perspectiva bastante parcial, seus efeitos.

Quebrando o tabu representa um marco evolutivo na carreira do cineasta Fernando Grostein Andrade, que às vésperas de completar 30 anos, promove uma sacudida daquelas no gênero documentário no cinema nacional. Não que Quebrando o tabu e Coração vagabundo, filme de 2009 que acompanhava Caetano Veloso em turnê, sejam obras que rompam esteticamente com cânones do cinema ou que se insurjam contra paradigmas narrativos. Os filmes se encaixam dentro de um esquematismo didático disponível em qualquer manual de roteiro. Mas em compensação, transbordam coragem, poesia e propriedade.

Grostein inicia Quebrando o tabu apresentando seu principal personagem: Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente e sociólogo colaborou com Grostein na confecção do argumento do longa. FHC surge como um questionador que já tem uma certeza. A guerra contra as drogas faliu. É preciso, segundo suas ilações, rever medidas e posturas. O filme acompanha a jornada de FHC em busca de embasamento para uma tese que o filme já defende de pronto – e a bem sacada animação que dá início à fita não faz questão de esconder esse fato. Essa aparente arrogância (os macacos bêbados ao som da potente trilha sonora de 2001: uma odisséia no espaço dão vez ao letreiro do filme) cede espaço a uma construção ideológica bem arquitetada por meio de depoimentos precisos de valiosos cabos eleitorais como os ex-presidentes americanos Bill Clinton e Jimmy Carter, o médico Drauzio Varela e autoridades sanitárias e políticas da Suíça e Holanda.

Quebrando o tabu, no entanto, não se desvia de argumentos antigos dos defensores da legalização da maconha. Contudo, ao sublinhar a hipocrisia e leniência dos governos em relação ao álcool e ao tabaco, o filme atinge seu melhor momento. A ideia de mudar a política de combate às drogas é pontual e itinerante. Mas cercá-la de demandas pouco substanciais – como dar voz a usuários que admitem preferir se arriscar no trato com o traficante do que respeitar a lei – enfraquecem a discussão em seu traçado mais humanitário, reforçando seu viés ideológico.

Quebrando o tabu arranha questões interessantes. Ao abordar as bem sucedidas intervenções dos governos de Portugal, Suíça e Holanda na questão das drogas, o filme dá um passo à frente a seus opositores. Sugere que a famigerada guerra contra as drogas perde de vista a questão da saúde pública e o impacto positivo passível de efeito mediante uma mudança de abordagem. Mas o filme ignora que a simples legalização da maconha não representa o fim do tráfico de drogas como conceito. Não só pelo fato de que outras drogas proibidas continuarão em oferta (e muito provavelmente mais ampla e barata), como que outras vias de acesso à maconha se viabilizarão.

Os prós e os contras não tiram o mérito de Quebrando o tabu; pelo contrário, os reafirma. Incidir sobre uma questão tão polêmica e revestida de ideologias tão proativas é um serviço à sociedade. Em um mundo em que Michael Moore subverte verdades a seus caprichos, não dá para dizer que Grostein erra ao defender tão veementemente a legalização da maconha. É uma postura corajosa que precisa ser respeitada e discutida dentro do jogo democrático que o cinema conclama. Quebrando o tabu pode até soar ingênuo de enxergar um país melhor do que o Brasil demonstra ter vocação. Os exemplos buscados na Europa não convenceram um importante interlocutor do filme; um coordenador de um programa social desenvolvido pelo AfroReggae disse em determinado momento à FHC que não vê o país suficientemente maduro para legalizar a maconha. Quebrando o tabu faz parte desse processo de amadurecimento. Justamente por isso, com seus erros e seus acertos, além de bem vindo, é muito importante.

Por Reinaldo Matheus Glioche.

Quebrando o Tabu. 2011. Brasil. Diretor: Fernando Grostein Andrade (Coração Vagabundo). Elenco/depoimentos: Fernando Henrique Cardoso, Bill Clinton, Jimmy Carter, Anthony Papa, Ruth Dreifuss, Paulo Coelho, Drauzio Varela, Ethan Nadelmann. Roteiro: Fernando Grostein Andrade, Ilona Szabó, Ricardo Setti, Thomaz Souto Correa, Bruno Módolo, Rodrigo Oliveira, Carolina Kotscho. Gênero: Documentário. Duração: 80 minutos. Classificação: 18 anos.

Muita Calma Nessa Hora (2010)

Vale o ingresso! Cinema Brasileiro continuando em alta. E com uma Turma nova, cheia de gás, querendo continuar nessa estrada. Merecem Aplausos!

Lembram das aulas de Redação? A partir de um tema/frase lá íamos nós contar uma estória, e quando cada um lia o seu texto, além da diversão, tinha aquela redação que fazia a diferença. Não sei se a ideia do filme nasceu do título. Agora, quando se chega no ponto onde o – Muita Calma Nessa Hora – aparece, e pelo desenvolvimento de toda a estória, é texto Nota 10!

Da forma como é dita, aconselhando a jovem em questão, tudo mais caiu como luva. Diversão garantida por todo o filme. Tem pontos que leva a reflexões, mas creiam o legal é se deixar levar nessa viagem até Búzios. Mesmo os mais não tão jovem, se verão lembrando de quando saíam em viagens com amigos, e nessa faixa etária. Mais. Verão que pouco mudou! Que a mudança significativa se faz com a Tecnologia atual.

Está tudo lá, ou, estão todos lá! Tem o grupo de amigas que dividiram uma mesma casa; o grupo que tentará descolar onde pousar sem gastar quase nada; o playboyzinho orgulhoso do carrão somado as novidades em tecnologia; os que querem só azarar; o que se acha esperto; a riponga que traz a erva… Isso sem esquecer dos moradores locais. Ah sim! Se o percurso é por estradão, há de se pintar uma Patrulha Rodoviária.

O “Muita Calma Nessa Hora” veio quando a noiva traída, desabafa às amigas que quer uma revanche não apenas à altura, como naquela hora. Mas sabiamente, uma das amigas diz para aproveitarem a casa que fora alugada para a lua de mel. Com direito a uma empregada doméstica. E assim elas partem para Búzios. Um lugar paradisíaco no litoral fluminense, que Brigitte Bardot internacionalizou.

Em Búzios o agito corre solto, 24 horas ininterruptas. Perde, quem dorme demais. Ou, quem fuma demais… Pois é! Como citei não houve mudanças, nem nesse contexto: drogas. A maconha se faz presente. Experimenta quem quer. Já que não há imposição do grupo. Assim, não acho que o filme faz apologia. O que ele fez foi mostrar. A mim não me deixou nenhuma vontade de experimentar. Para um tête-à-tête comigo mesmo, não preciso de aditivo. Aliás, basta lembrar do sonho (onírico) para procurar saber o que o seu eu interior está lhe contando.

O único inconveniente é que um filme como esse atrai uma galerinha teen que fica zanzando até encontrar o local em definitivo para sentarem. Com isso ao ficarem passando na nossa frente, acabam quase nos fazendo perder o que está escrito em cartazes ao longo do filme, que aparecem mais vezes no início. Outro ponto alto do filme. E lá fui eu pensar um: “Muita Calma Nessa Hora!” Ôh saudades do Lanterninha! Providencial numa hora dessa.

Então é isso: peguem a pipoca que “Muita Calma Nessa Hora” é ótimo! De querer rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Elenco:
* Andréia Horta (Tita)
* Gianni Albertoni (Mari)
* Fernanda Souza (Aninha)
* Débora Lamm (Estrella)
* Lúcio Mauro (Mascarenhas)
* Marcelo Tas (Pai de Aninha)
* Ellen Rocche (Verônica)
* Bruno Mazzeo (Vítor)
* Maria Clara Gueiros (Rita)
* Marcelo Adnet (Augusto Henrique)
* Dudu Azevedo (Juca)
* Luís Miranda (Buba)
* Nelson Freitas (Pablo)
* Lúcio Mauro Filho (Playboy)
* Leandro Hassum (Policial militar)
* Marcos Mion (Cebola)
* André Mattos (Revolucionário)
* Heloísa Périssé (Esotérica)
* Creo Kellab (Atendente de restaurante).

BICHO DE SETE CABEÇAS, Rodrigo Santoro e algo mais…

Se vocês gostarem do filme, indiquem para os seus amigos. Se não gostarem, indiquem para os inimigos. Mas, por favor, indiquem. Rodrigo Santoro.
BICHO DE SETE CABEÇAS, Rodrigo Santoro e algo mais…

Abro este espaço para  registrar a minha admiração e meu carinho ao jovem e talentoso ator brasileiro Rodrigo Santoro. Ele é o cara, como se diz na linguagem moderna  e não se pode deixar de elogiar quem é merecedor, ainda mais quando é um produto nacional tipo exportação.

A primeira vez que vi Rodrigo Santoro na telona, foi atuando em  seu primeiro longa, o BICHO DE SETE CABEÇAS, e me deixou impressionada, com a certeza de seu talento e apostando que ele teria um futuro promissor. Minha curiosidade de  fã levou-me a pesquisar a sua biografia. Rodrigo Junqueira dos Reis é de Petrópolis,   nasceu no dia 22 de agosto de 1975 e o ‘Santoro’ é sobrenome de fantasia. Estudou jornalismo na PUC do RJ e cursou  a Oficina de Atores da Rede Globo, mas em seu primeiro teste para a minissérie Sex Appeal ele foi reprovado, porém naquele mesmo ano conseguiu uma ponta na novela Olho no Olho, depois, entrou no elenco de Pátria Minha, e a partir daí não parou mais, e decolou para a carreira internacional.
Rodrigo Santoro atuou internacionalmente pela primeira vez no ano de  2005, em um comercial de um perfume ao lado da atriz Nicole Kidman. Depois se deu ao luxo de recusar  convite para protagonizar a novela Bang Bang da Rede Globo, aí ele já despontava  carreira mundial atuando na terceira temporada de LOST que estreou no Brasil em 2007, e mesmo sem tempo aceitou também o convite para a  minissérie  Hoje é Dia de Maria. No fim de 2006 foi indicado para o ranking dos homens mais sensuais do planeta, promovido pela revista norte americana People. Ele foi considerado o MELHOR ator no Primeiro Festival Iberoamericano de Cine “Cero Latitud” do Equador. Ganhou também prêmios de melhor ator em vários outros festivais de cinema do Brasil e do Exterior.
Quando a história é boa, o ator ótimo, e a direção maravilhosa, o resultado só podia ser uma obra de arte. O filme Bicho de Sete Cabeças é ficcional, mas pode-se assistir como um documentário, baseado em fatos reais do próprio autor do livro Canto dos Malditos,  o brasileiro Austregésilo Carrano Bueno, no qual ele  conta sua experiência nos hospitais psiquiátricos e denuncia os absurdos cometidos diariamente nessas instituições.

A expressão Bicho de Sete Cabeças tem origem na mitologia grega, mais precisamente na lenda da Hidra de Lerna, monstro de sete cabeças que, ao serem cortadas, renasciam. Matar este animal foi uma das doze proezas realizadas por Hércules.

A expressão ficou popularmente conhecida, no entanto, por representar a atitude exagerada de alguém que, diante de uma dificuldade, coloca limites à realização da tarefa, até mesmo por falta de disposição para enfrentá-la.

A adaptação e a história real, em certos momentos, fundem-se.  Austragésilo (autor) e Neto (personagem), adolescente de 17 anos, usuário de maconha e outros medicamentos de uso restrito, passa por maus bocados quando o seu pai depois que encontrou a erva  em sua mochila, resolve interná-lo em um  hospital psiquiátrico, sem ao menos comunicá-lo. O rapaz só descobriu ao chegar lá. O pai,  pensou que estaria fazendo o bem tentando curá-lo do ‘vício’, mesmo sabendo que o moço era apenas usuário. Neto foi transferido de um hospital a outro sem ao menos ter sido examinado, e foi submetido a muitas torturas e eletrochoques. Isso durou, aproximadamente, três anos, até que, desesperado, ele ateou fogo em sua própria cela, para chamar a atenção das autoridadess por tudo o que estava passando, e conseguiu. O ato despertou seu pai, que depois o tirou do manicômio. Neto acabou sofrendo muito, inclusive nas mãos da polícia, que lhe proporcionou doses extras de humilhação e espancamento. As conseqüências das torturas sofridas nos hospitais tornaram-se irreversíveis. O moço ficou impotente e meio idiota.

O título do filme vem da canção Bicho de Sete Cabeças interpretado por Zeca Baleiro na qual a própria letra é referência aos acontecimentos trágicos dessa história protagonizado  por  Neto (Rodrigo Santoro) e seus amigos moradores da periferia de São Paulo, onde a historia se passa. Sem recursos financeiros, o lazer e o entretenimento, dos jovens   era pichar muros e fachadas públicas, ou distrair-se fumando maconha nas madrugadas, até que um dia o rapaz cai nas mãos da polícia.  Maconha, por lei, é droga ilícita, considerado crime. Contrário do o cigarro, ainda dito charme da burguesia. O vicio da mãe do rapaz interpretado por atriz Cassía Kiss, é menos hediondo do vício de seu pai, vivido pelo ator Othon Bastos, bebedor de cervejas, vendidas livremente nos bares, mercados, praias, rotuladas como drogas lícitas. Hoje só considerado crime “SE dirigir, NÃO beba!” Assunto que daria muitas filosóficas defesas de teses.

No hospital psiquiátrico é que começa a tortura e a tragédia do moço; lugar que deveria salvá-lo, é que acaba destruindo-o aos poucos; um lugar horrivelmente real, verdadeira fábrica de loucos, sujo, pessoas maltratadas, sem alimentação, sem cuidados pessoais, em péssimas condições de higiene, e diariamente dopadas, deixando seqüelas para toda a vida.

A trilha sonora foi  composta por canções de diversos estilos, desde mpb, rock, rap e punk.
Bicho de Sete Cabeças
Zeca Baleiro

Não dá pé

Não tem pé, nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem nem talvez ter feito
O que você me fez desapareça
Cresça e desapareça…
Não tem dó no peito
Não tem jeito
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem pé, não tem cabeça
Não dá pé, não é direito
Não foi nada
Eu não fiz nada disso
E você fez
Um Bicho de Sete Cabeças…
Não dá pé
Não tem pé, nem cabeça
Não tem ninguém que mereça (Não tem ninguém que mereça)
Não tem coração que esqueça (Não tem pé, não tem cabeça)
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito (Não dá pé, não é direito)
Não tem nem talvez ter feito (Não foi nada, eu não fiz nada disso)
O que você me fez desapareça (E você fez um)
Cresça e desapareça… (Bicho de Sete Cabeças)
Bicho de Sete Cabeças!
Bicho de Sete Cabeças!
Bicho de Sete Cabeças!
(Repetir a letra)

Bicho de Sete Cabeças foi dirigido por Laís Bodanzky e  o autor do  roteiro é Luiz Bolognesi. Laís teve muita dificuldade para captação de recursos porque os patrocinadores  não queriam ver o nome da marca vinculado a um filme que falava de drogas, preconceito e hospícios. Mesmo com poucos recursos ela conseguiu fazer bonito, este maravilhoso filme.

Assisti a uma reportagem na tevê educativa falando do projeto Cine Tela Brasil sob a responsabilidade dessa cineasta e do seu marido Luiz Bolognesi,  cujo objetivo seria exibir  sessões gratuitas itinerantes em cidades dos estados brasileiros de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.  É claro que o projeto tem um patrocinador, mas estou comentando isso porque a ideia de levar o cinema aonde não chega e para quem não pode pagar é formidável. O Cine Tela Brasil funciona dentro de um caminhão que transporta todo o equipamento profissional,  necessário, além de cadeiras que são montadas e desmontada a cada exibição, (quatro sessões por dia) e para a minha alegria, sempre com exibição de um filme brasileiro.  Não sei se o projeto ainda existe, mas de uma coisa tenho certeza: por onde passou, fez muita gente feliz, gente que nunca havia assistido a um filme, viveu essa experiência única.
Rodrigo Santoro, Cássia Kiss, Othon Bastos, elenco de primeira, assim como a montagem o roteiro, a fotografia, a música, tudo nos conformes. Considero Bicho de Sete Cabeças um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Cenas marcantes, emocionantes, e a realidade de muitos jovens de maneira crua e real.
Penso que todo brasileiro deve se orgulhar do seu país e da sua gente quando alguém brilhantemente o representa mostrando que o Brasil é tão capaz quanto outras nações destacando-se na ciência, nos esportes, nas artes em geral, fazendo bem o dever de casa em qualquer área.

Desejo a Rodrigo Santoro tudo de bom, que continue brilhando em sua carreira e nos representando muito bem com todo o seu talento. Nota 10 para ele e para este filme!

Aplausos.
*
Para quem gostou de Bicho de Sete Cabeças deve prestigiar também “AS MELHORES COISAS DO MUNDO” que está na lista dos filmes nacionais pré-candidato ao Oscar 2011. Torçamos.

Karenina Rostov

Um Homem Sério (A Serious Man. 2009)

uhs

Por Rafael Lopes.

Um legítimo filme dos irmãos Coen, não há forma melhor de definir. E se tratando de um legítimo filme dos irmãos Coen, torna-se um excelente filme. E quando chega a esse ponto, a linha tênue que separam excelentes filmes de obras primas é quebrada, e os caras conseguem mais uma vez. Assistir a Um Homem Sério é assistir a algo que vamos levar pra frente. Não é apenas um filme de duas horas cativante e levemente divertido, é na verdade uma grande lição sobre a vida.

Autoral até o talo, em certos aspectos experimental – refinando o jeito dos irmãos de filmar – e absurdamente sincero na hora de narrar um pouco do que é a conturbada vida de uma pessoa. Uma coisa admirável no trabalho dos dois está no fato de que melhoram a cada filme, trazem mais bons gosto a seus enredos e sem a menor pretensão ou ganância, contam histórias tão próximas de nós que deixam seus filmes tão humanos e tão sublimes, que as vezes é inexplicável a sensação que vem depois de ver um filme deles.

Descartando O Amor Custa Caro e Matadores de Velhinha, que são algo mais passatempo da carreira deles, todos os outros vem com algo que os interliga: as questões humanas. Sempre com idéias e um estudo que se aprofunda cada vez mais, desde o humor nonsense de O Grande Lebowski até o uso da compaixão para falar de violência no mais sério Onde Os Fracos Não Tem Vez, o que fizeram em seus filmes foi por a prova o ser humano, testando suas limitações, seu comportamento e o seu psicológico. Chegam ao ápice com Um Homem Sério.

O ano é 1967 e o sistemático professor de física Larry Gopnick (Michael Stuhlbarg – ótimo) e ele vem tentando ser um bom homem.

Ele vive numa comunidade Judaica, cumprindo a risca os ensinamentos da religião e aparentemente vivendo sua vida sem perturbar ninguém. O problema é que na verdade ele limpou a sujeira e jogou debaixo do tapete, e essa sujeira acumulou.

Sua esposa, Judith (Sári Lennick) cansada dos problemas conjugais, encontra consolo nos braços de Sy Ableman (Fred Melamed) e decide deixá-lo; o irmão Arthur (Richard Kind) não teve tanta sorte na vida e está na casa de Larry como agregado e dando mais dor de cabeça que um filho birrento; o filho Danny (Aaron Wolff) é viciado em maconha e as rebeldias da adolescência estão refletindo na sua vida e pra completar, a filha rouba dinheiro da sua carteira para uma futura cirurgia plástica no nariz.

Não bastassem os problemas dentro de casa, no emprego, cartas anônimas ameaçam seu futuro na Universidade onde leciona, há um problema de suborno com um aluno Sul Coreano, uma dívida que ele não contraiu e que vem lhe dando dor de cabeça. Juntando as pressões do trabalho, com os problemas em casa, Larry começa a passar por uma fase turbulenta. Uma pessoa normal pegaria uma arma e atiraria na própria cabeça, mas Larry é um homem sério, e busca ajuda de três rabinos, que tentarão lhe aconselhar o melhor caminho a seguir e se ver livre de seus problemas.

E tudo o que os Coen gostam de tratar em seus filmes está aqui. Da fabulosa introdução ao desfecho maravilhoso, eles constroem uma cadeia de situações que levam a uma tragédia, e quando isso tudo termina e tudo volta a normalizar, a vida vem com novas surpresas e assim, colocando à prova os personagens mais uma vez.

Entram aí questões que envolvem a razão e a fé, não como coisas distintas, mas elas de alguma forma passam a andar juntas. Por exemplo, a cena que o irmão de Larry, Arthur, lamenta o azar que teve e põe a culpa em Deus, mesmo ciente de que quem constrói a vida não é Deus, mas sim cada um, ou as saídas encontradas por Larry para se ver livre dos problemas, seja espiando a vizinha gostosa, ou dividindo um cigarro de maconha com a mesma vizinha gostosa.

E eles vão desenvolvendo cada um, dando mais espaço para Larry e seu filho Danny, mostrando eles como a equação e o produto dela. Tudo na vida de Larry se baseia em física e matemática; tudo na vida de Danny é a própria física e a própria matemática. Os outros, mesmo que tratados como secundários, não perdem espaço e suas relações são de suma importância para o acontecerá quando chegar ao fim do espiral formado por essas frustrações.

Cada rabino significa um passo dado por Larry até que ele chegue à solução que precisa. E até ele chegar a essa solução, passará por provações que vão mostrar quão sério ele é, mesmo rodeado de tanta coisa chata. E no fim de tudo, o que temos é a mostra de que os problemas encarados e a forma como são encarados, definem o que você realmente é, se é covarde, se é normal, se é sério. O filme chega nessa conclusão e admiramos o que Larry faz como redenção para ele mesmo. Mesmo que seu desfecho não seja dos mais esperados, admiramo-lo como um grande homem.

Lindamente fotografado e com uma recriação belíssima dos anos 60, o filme é um charme só. A edição dos Coen (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes) é ágil e engrandece o trabalho deles na direção. E que trabalho soberbo.

Cada situação matematicamente planejada, dando um toque de humor, melancolia, tristeza e esperança. Eles levam a sério o papo de que a vida é uma grande comédia, e ainda que sempre acabássemos nos pondo no lugar de suas personagens (os Coen conseguem como ninguém fazer isso), estamos sempre rindo do óbvio, do que acontece debaixo de nossos narizes.

E acho que isso que torna seus filmes tão envolventes e fascinantes, ainda que esse se arraste em alguns momentos, os Coen brincam com a vida, parodiando ela e ao mesmo tempo nos fazendo enxergar que é assim que as coisas são. Cada personagem riquíssimo, o texto sempre inteligente e com as sutilezas características de seu trabalho e como tudo no filme é trabalhado só torna ainda mais prazeroso a assistida do filme. Eles conseguem fazer com que tudo em cena contribua para que cada uma delas seja única. Enquanto me emociono com um irmão abraçando o outro numa despedida, dou risada do filho chapado em pleno Barmitsva e é assim o filme todo.

Aqui os Coen chegam com tudo, mostrando que o prêmio que levaram por Onde Os Fracos Não Tem Vez só os tornou ainda melhores nessa grande arte que é fazer cinema. Um Homem Sério é um grande estudo do que é viver e como a vida, mesmo pregando suas peças, pode ser vivida. Sem dúvida, um dos melhores do ano, um dos melhores da dupla, um dos melhores da década.

Excelente.

Nota: 9,6

A Serious Man, França, Reino Unio, EUA (2009)

Direção: Joel Coen , Ethan Coen.
Atores: Michael Stuhlbarg , Richard Kind , Fred Melamed , Sari Lennick , Aaron Wolff.
Duração: 106 min.