Série: Caras e Caretas (1982-1989). O que transmitir ou não as novas gerações?

caras-e-caretas_serie_1982-1989Por: Morvan Bliasby.
Nestes tempos aziagos de “Escola Sem Partido“¹, golpes institucionais e outras ideias ‘jeniais‘, além de uma mesmice estarrecedora das SitComs, das Soap Operas, etc., numa revisita quase mandatória à década de 80 do Século XX, a sua explosão de comédias de situação e o começo da distensão “lenta e gradual”, como preconizavam os donos do mundo, entre as potências que alimentavam a fogueira da Guerra Fria. Deste caldeirão ultra efervescente se sobressai a SitFamily Ties“², nominada, no Brasil e em Portugal, respectivamente “Caras & Caretas” e “Quem Vem Aos Seus“, neste segundo estranho título temos, claramente, uma ironia, pois parece degenerar, e muito.

O Enredo

Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter) são dois hippies classe média típicos, economicamente falando, ultra liberais nos costumes e que se casaram havia duas décadas.

Um tanto quanto nonsense, no tocante à educação dos filhos, eles creem piamente que os filhos os seguiriam em seus valores, teriam uma vida “zen” e seriam filosoficamente parecidos com estes.

O tempo lhes mostrou o quão errados estavam, mormente no tocante ao filho mais velho, Alex (Michael J. Fox). Este, um executivo, na cabeça e nos valores (um admirador incorrigível de Ronald Reagan!). Isso mesmo. Reagan. Importante para nos ambientarmos. Reagan, Tatcher e a ideia do Estado mínimo, do tamanho de uma bacia, nas palavras dos próprios. Este é o ambiente da série. Alex utilizava chavões dos republicanos e portava até mesmo um cartão de sócio do clube dos conservadores. Inteligente, ganancioso, reacionário. uma cópia (carbono) exata de seus pais. Alex se encaixa perfeitamente no estereótipo do “self-made man”, tão usual, à época e hoje.

Já a moça, Mallory (Justine Bateman), ao contrário, relaxada, preguiçosa, fútil e cujo círculo de interesse consistia em compras, rapazes e… compras e rapazes.

Vem, a seguir, Jennifer (Tina Yothers), a caçula. Todo o seu sonho era ser uma pessoa normal. Dependendo da situação, razoável, não?

Family_Ties_castA série, malgrado de forma às vezes sutil, até demais, teve a virtude de discutir preconceitos, censura, gravidez adolescente, vício (drogas), relacionamento familiar e círculos criados em torno de interesses similares. Todos os personagens da série, inclusive os papeis satélite, contribuem para uma discussão sutil e ao mesmo tempo rica sobre os valores de então.

O sucesso estrondoso da Sit tem a ver com isso. quem sabe, além do fato de ter sido a propulsora e impulsionadora de celebridades precoces, como o Micheal J. Fox.

Mas a discussão subjacente da comédia de sucesso parece ser a questão educacional (não somente educativa, educacional, de finalidade da formação). Até que ponto a formação dos nossos filhos, de uma geração, por exemplo, pode ser vilipendiada, a ponto de achar que as coisas se repetirão por osmose. Que não precisaremos assumir uma posição mais protagonista, com relação ao tipo de pessoa humana que queremos formar, subvertendo, se necessário, os valores vigentes e até a educação formal, via escola. A ‘Escola Sem Partido‘, esta aberração imposta pelos nossos nefandos “amigos” ideólogos, daqui e d´alhures, por exemplo, é uma mostra de protagonismo às avessas, ou seja, não seja inocente de pensar que existe neutralidade em qualquer aspecto da vida. Tal movimento aposta na interdição do debate natural na escola, na vida, para a nova geração de zangões…

Séries como Family Ties e “Todo Mundo Odeia o Chris” são muito eficazes em, sob o pretexto de discutir amenidades, ir bem fundo nos costumes e preconceitos e acabam, neste roldão, se tornando fotografia de uma época. Family Ties parece bem atual, traçando um paralelo com o momento em que assistimos ao desmonte de vários Estados nacionais. Esta já é uma boa razão para assisti-la, como análise comparativa. Além dos canais da tevê paga, que vez por outra a reprisa, geralmente com o título original, além de poder vê-la nos sítios dos Estúdios originais ou nos canais de “stream“.

Série: Caras e Caretas (1982-1989)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

¹ Uma ideia tão imbecil para se acreditar ter saído da cabeça de educadores. Felizmente, não!.
² No Brasil, curiosamente, uma novela, tempos após, recebeu o nome literal da comédia de situação: Laços de Família.

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The Babadook (2014). Um Terror Rico em Símbolos (Psicologia)

the-babadook_2014_01Por: Charles Alberto Resende. (contém spoilers)

the-babadook_2014A Imposição do Luto

The Babadook” é um filme muito instrutivo psicologicamente e muito rico em símbolos. Se isso não bastasse, foi também considerado um ótimo filme de terror. Infelizmente, para quem não conhece um pouco de psicologia, seu sentido simbólico pode passar encoberto. Este texto busca cumprir esta finalidade.

Babadook encarna o inconsciente de Amelia (Essie Davis), que procura de todos os modos reprimir a lembrança do trágico acidente de carro em que o marido a levava para a maternidade para dar à luz a Samuel (Noah Wiseman). Qualquer possível menção à lembrança do marido é evitada e/ou negada por Amelia, até mesmo chamar Sam de “garoto”, o que o ex-marido fazia. Ela não supera os estágios iniciais do luto, a negação e a raiva. Sam, por sua vez, sofre com a inadmissão da mãe, e passa a ter pesadelos e medos inexplicáveis, além de amedrontar parentes e colegas. Isso se deve a que a psique da criança, antes da puberdade, é dotada de um Eu apenas embrionário, ainda incapaz de afirmar sua personalidade. Contudo, somos tentados e considerá-las, muitas vezes, esquisitas, cabeçudas e difíceis de educar, como se tivessem vontade própria. Puro engano. Nesses casos deve-se examinar o ambiente doméstico e o relacionamento dos pais, nos quais encontramos, geralmente, as verdadeiras razões das dificuldades dos filhos. O comportamento perturbador das crianças é muito mais reflexo das influências incômodas e embaraçosas dos pais.

the-babadook_2014_02O filho passa à mãe o livro de Babadook, que tem mensagens como: “uma vez que você ver o que está embaixo, vai desejar estar morto” e “deixe-me entrar“. Ora, o inconsciente normalmente é retratado como a parte da personalidade que vive “embaixo“, isto é, abaixo do nível da consciência, como se fosse uma espécie de porão. E ela guarda as posses do falecido justo em um porão, as quais não deixa Sam ter acesso. Nas palavras deste, a mãe não o deixa ter um pai, mesmo que morto. Além disso, Amelia parece evitar também qualquer referência a sexo e ao amor compartilhado. Também parece perceber os gestos carinhosos do filho como sexuais, mesmo quando este está dormindo e recosta em seu corpo. Então afasta-se prontamente. Amelia sofre de insônia, e não é por acaso, pois precisa estar acordada e vigilante o tempo inteiro para evitar qualquer menção ou lembrança interna aos problemas que nega veementemente. Mas, como é muito comum nesses casos, ela não tem consciência nem de que nega esses assuntos. Não mencionar ou falar sobre o falecido é, para Amelia, seguir em frente com a vida. De fato, esse seria um bom indício de que conseguiu superar a morte do ente querido, se a menção a ele não a irritasse tanto. Quem supera uma perda e não a expõe, provavelmente o faz porque o fato já não possui a intensidade afetiva quanto tinha à época dos acontecimentos. Porém, para que isso ocorra, é necessário conviver com eles.

Entretanto, assim que o filho começa a ser discriminado claramente na escola e pelos parentes, a situação se desestabiliza. Então Sam fica desobediente e agressivo. O livro de Babadook surge e fornece a ela um meio simbólico para expressar conteúdos do seu inconsciente, até então fortemente represados. O estado psíquico de Amelia, antes vigorosamente controlado, se desequilibra, em meio à instabilidade da iluminação e aos ruídos, ao que tudo indica autônomos, produzidos no ambiente. O episódio em que Sam empurra a prima da casa da árvore, quando esta expressava às claras o que sua mãe ocultava, denota seu tormento frente à situação psíquica insuportável. Ao tentar se justificar, e a mãe tentar controlá-lo, passa por uma convulsão. Samuel é medicado e, agora, só a mãe deverá lidar com sua repressão ao luto, às reais emoções que a perseguem, encarnados por Babadook.

...fechada à realidade interior.

…fechada à realidade interior.

O livro, depois de destruído, reaparece com outra frase: “Vou fazer uma aposta com você. Quanto mais negar, mais forte eu fico“. Nesse ponto, o inconsciente de Amelia encontra-se muito carregado de energia psíquica. Manter os sentimentos e as emoções do luto separados do seu Eu serviu apenas para fornecer mais autonomia a eles, mais independência em relação às rédeas que quer firmar. “Você começa a mudar quando eu entro. O Babadook cresce sob a sua pele. Venha! Venha ver o que está embaixo!“. O símbolo do senhor negro, de cartola, mostra que ela primeiro matará o cachorro, depois sufocará o filho, e por último suicidará. Babadook, a figura do falecido que a abraça e os insetos que a perseguem, é como se fossem a morte em pessoa que vem buscá-la por não admitir sua existência. Influências regressivas que a atraem para o que ela rejeita, e que ficam mais fortes com a aproximação do aniversário do sétimo ano do filho. Ele mostra que ela nutre sentimentos hostis em relação ao cão que fareja o porão, ao filho que confronta sua cegueira interna e a si mesma. Ele é o inconsciente que finalmente se apossa de sua personalidade para cometer atos impensáveis. Ao negarmos o que se encontra em nosso interior, o separamos de nós, provendo-o de vida independente de nossa vontade. Nós nos tornamos como uma casa à disposição de forças que agora nos são desconhecidas, porque não admitidas. E ao não reconhecê-las, corremos o risco de não perceber que passamos a atuar como elas, que nos tornamos exatamente o que antes não tolerávamos.

Sam diz que não quer que a mãe vá embora porque, como as crianças estão em íntimo contato com o inconsciente, sabe que ela aos poucos está partindo para dar lugar à bruxa, à mãe má, que o colocará em perigo. Amelia só recobra a consciência para lutar contra a possessão sombria quando Samuel a acaricia enquanto tentava sufocá-lo. Ela vomita uma massa negra, cena muito semelhante à separação de Peter Park de Venon, em Homem Aranha 3, cuja analogia é muito pertinente. À negação segue a identificação (união), e, então, uma separação (análise) mais saudável. Ao alucinar a morte do marido torna-se possível vivenciar a angústia da perda. Por último, prevalece o instinto materno na batalha contra a força maligna, que agora aloja-se no porão. Curiosamente, quando a mãe surta, o filho volta ao comportamento natural.

the-babadook_2014_03Amelia não se cura como, normalmente, se idealiza uma cura. Pode-se dizer que sua saúde mental é restabelecida na medida em que ela reconhece a realidade do que se encontra em seu interior. Também teve que contar com outra força inconsciente igualmente poderosa: o instinto ou amor materno. O inconsciente teve que gritar, urrar e se impor para ser notado e respeitado. Por isso, e para manter uma boa relação com seu inconsciente, ela deve servi-lo diariamente com um símbolo que representa a morte e, de certa forma, a primeira (e parece que última) vitória desta: vermes extraídos do jardim onde o cão está enterrado. Mãe e filho compartilham da percepção da fera negra, como se esta fosse uma realidade comum a ambos, agora aceita inteiramente, como algo interno que, vivenciado externamente, exige atenção e respeito. Não é permitido a Sam visitar a fera, mas apenas quando for adulto. É a mãe que deve se relacionar com ela, pois é um problema dela. Foi preciso que alucinasse, que saísse de sua realidade, para que atentasse ao avesso do mundo exterior, que muitas pessoas desprezam: o espaço interno.

The Babadook 2014.
Ficha Técnica: na página no IMDb.

MOmmy (2014). Se ser mãe é padecer no paraíso…

mommy_2014_poster
xavier-dolan_cineastaO longa do diretor Xavier Dolan trata, neste novo argumento, também de juventude transviada, e já começa avisando: “Esta é uma obra de ficção”, e eu continuo: Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. É bem verdade, a trama é de fato uma obra de ficção e se passa no Canadá onde uma lei permite que pais, que tem algum filho com o comportamento problemático, o próprio país se encarrega de interná-lo em um hospital psiquiátrico e tratá-lo.

mommy_2014_02E logo na apresentação das personagens o diretor exibe ela, Diane ou Die, no jardim do Éden, colhendo o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Sabe-se que ela está viúva e tem um filho ‘aborrecente’ de quinze anos. O narrador foi maldosamente perspicaz ao utilizar-se de uma metáfora contundente para mostrar o caminho da interpretação que ele quer dar a esta história. E como toda historia é uma viagem, prepare a bagagem e o passaporte!

mommy_2014_01Na verdade o jovem Steve sofre de DDA, ou Distúrbio de déficit de Atenção. Quem é professor sabe bem o que é isso, pois quando se depara com determinada situação, é um deus nos acuda, ter em uma turma de 40 alunos, por exemplo, e um que sofra desse mal, dessa disfunção neurológica, dar aula torna-se impraticável, e o mestre, além de ter que se desdobrar em pelo menos uns dez, tem que ser bem criativo.

E aqui me fez lembrar o ditado: “Ser mãe é padecer no paraíso”, pois a personagem que tem um filho diagnosticado com DDA, difícil de ser tratado, terá que conviver para sempre com problemas e consequências que esse transtorno de muitos sintomas herdado geneticamente, será capaz de ser paciente, talvez abandonar o emprego, abrir mão de outros laços afetivos e também do lazer. Enfim, cada um com a sua cruz…e se alguém for capaz de dizer a essa pobre senhora: – Está com pena, talvez seja capaz de ouvir como resposta algo que não queira do tipo: “- Se está, leve para casa!”. Lamentável, porque até a mãe é meio desregrada. Ou não?

Bem o filme foi super elogiado pela crítica, levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, mas não sei, não conseguiu me seduzir, peço desculpas. E Cannes também pode se enganar, ou por isso o prêmio ficou pela metade e a outra parte foi para o “Adeus à Linguagem” de Jean-Luc Godard.

Não senti firmeza na atuação do ator, Antoine-Oliver Pilon achei meio apelativo, e ele me transmitia certa insegurança e parecia não estar tão à vontade no papel escrito para viver o adolescente problemático.

mommy_2014_03E para quem ainda não assistiu, atente à personagem de Suzanne Clément como Kyla, a vizinha, super prestativa que ajuda ambos, a mãe e o filho, e perguntas surgem sobre a sua vida e como seu destino pode estar ligado a Die e Steve. E Kyla que na história tem dificuldade com a fala, e toda a explicação básica, fatos e acontecimento em torno dessa misteriosa pessoa é revelado aos poucos no decorrer da narrativa.

Confesso que me identifiquei mais com a história dela, desta personagem, gostei! Fica como sugestão ao roteirista que crie uma história tendo ela como protagonista.

Ah! Esqueci um detalhe: o que mesmo significa PADECER?
E.B.

O Garoto da Casa do Lado (The Boy Next Door. 2015)

o-garoto-da-casa-ao-lado_01Por Humberto Favaro.
Jennifer Lopez é uma das mais bem sucedidas e influentes artistas de ascendência latina em Hollywood. Além do trabalho como cantora, compositora e estilista, J. Lo também se arrisca na atuação como podemos ver em “A Sogra” e na comédia romântica “Dança Comigo?“, em que vive um romance com o galã Richard Gere.

Em “O Garoto Da Casa Ao Lado” ela é Claire Peterson, atraente professora de literatura clássica que passa por problemas no casamento após descobrir que seu marido (John Corbett) teve um affaire. Em meio a conturbada fase, tudo que ela deseja é cuidar do filho adolescente Kevin (Ian Nelson) e se concentrar em suas aulas na escola local, tarefa que se torna difícil após a chegada de Noah (Ryan Guzman), jovem sedutor que se muda para a casa ao lado para cuidar do tio idoso.

Apesar das características físicas notáveis de Noah, é através do carisma e prestatividade que ele se aproxima de Claire e seu filho. Aos poucos, a tensão sexual entra os dois cresce e o jovem não economiza no jogo de sedução, seja nos elogios à mãe de seu amigo, ou nas aparições sem camisa na janela.

o-garoto-da-casa-ao-lado_02Apoiada pela amiga Vicky (Kristin Chenoweth), ela tenta enfrentar a difícil tarefa de retomar a vida amorosa. Por isso, aceita participar de um encontro duplo, mas acaba descobrindo que seu acompanhante é um completo babaca. A fragilidade de Claire se torna a armadilha perfeita e ela acaba tendo uma tórrida noite de amor com o vizinho. Na manhã seguinte, ela deixa claro para o rapaz que tudo não passou de um erro, mas se surpreende ao perceber que o pacato rapaz se torna agressivo diante da rejeição. Ali começava seu inferno. Não demora para que ela descubra que o garanhão é um Stalker misógino e inconsequente que ameaça espalhar vídeos e fotos íntimas dos dois e consegue colocar Kevin contra o pai quando desconfia que ele pode atrapalhar seus planos.

Rob Cohen, conhecido por “Velozes E Furiosos” e “Triplo X“, parece indeciso quanto ao tom da trama, que ora se trata de um drama, ora de um suspense, além de inserir elementos gore totalmente desnecessários nas cenas finais.

A história é batida e a direção não faz questão alguma de explorar novas oportunidades dentro do enredo, tanto que é possível prever diversos pontos de virada na trama – ué, a graça desse recurso não é exatamente a expectativa e imprevisibilidade?

No final, “O Garoto Da Casa Ao Lado” não passa de um de já vú de um filme ruim exibido em algum “Corujão” da vida. Certamente será mais um longa esquecível a compor o “currículo” de Jennifer Lopez.

O Garoto da Casa do Lado (The Boy Next Door. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Um Santo Vizinho (St. Vincent. 2014)

um-santo-vizinho_2014.Parodiando a máxima: dinheiro ou a necessidade dele que faz com que as pessoas mudem. Quer seja internamente ou mesmo por encarar novos desafios… o bom é quando não se deixa que certos sentimentos fiquem de fora… Mesmo que ela venha como uma trombada de um caminhão… Ops! Como uma trombada do destino de que mal se tem tempo de parar e pesar prós e contras. E foi meio por aí que o destino mexeu com a vida de uma mãe com um filho ainda criança, um veterano de guerra meio ranzinza, uma prostituta e por tabela um professor de uma escola católica. Tudo devidamente mexido… em “Um Santo Vizinho“.

O filme é muito bom! Não a ponto de ser uma obra prima, mas sim porque conferiu bem tudo ao que se propôs apresentar e indo além. O que me levou a uma dúvida em como contar essa história: se com ou sem spoiler. Mesmo não sendo um Suspense, mesmo o título no Brasil já meio que entrega um pouco a trama… Mas até porque o filme abre um leque com temas tão interessantes que mesmo numa simples análise corre-se esse risco. Como também até por não querer deixá-los de fora. Por tudo isso daqui em diante será por sua conta e risco! Eu até tentarei, mas ao traçar um perfil desses quatro personagens pode ocorrer sim algum spoiler.

um-santo-vizinho_2014_02.Sou fã do Bill Murray acho que desde os “Os Caça-Fantasmas“, de 1984. Daí tendo ele no elenco eu assisto e sem medo de que encontrarei ou não um bom filme no geral! Bill Murray navega muito bem entre a Comédia e o Drama, dando a tônica perfeita que prende a atenção. Por mais tédio que o personagem esteja passando fica uma pulguinha nos atraindo para cada cena com ele. Quem o viu em “Encontros e Desencontros“, de 2003, ou mesmo em “Flores Partidas“, de 2005, pode constatar. Para quem não viu ambos os filmes poderão ver nesse aqui e na subida dos créditos finais um melhor exemplo disso. Ele é de fato ótimo até estando o seu personagem entediado! Em “Um Santo Vizinho” é o tal veterano de guerra, Sr. Vincent. Um cara meio alheio aos problemas de sua casa, tendo nela mais um abrigo, ou quem sabe a deixe com um péssimo aspecto numa de “Afastem-se!” para com seus vizinhos… Cuida melhor do gato do que com sua própria alimentação. Avesso às mudanças. Tanto que continua usando os préstimos de uma mesma prostituta que se encontra numa avançada gestação. Ela é Daka, personagem da sempre ótima Naomi Watts. Daka também terá a sua vida afetada, mas não apenas pela gravidez. É que um certo menininho também a levará reavaliar sua vida.

Não sei se a escolha do elenco partiu do Diretor – que também assina o Roteiro -, Theodore Melfi. Creio que sim porque também é o produtor do filme. De qualquer maneira deixo aqui meus parabéns! Muito bom em se vê uma gama diversificada de atores interpretando pessoas que comumente encontramos a nossa volta. Sinal também de que Hollywood está mais “pé no chão“.

Por conta disso é muito bom também em ver Melissa McCarthy fugindo do esteriótipo de “gordinha“. Em “Um Santo Vizinho” ela é Maggie, uma mulher que ciente de que o marido a traía abandona até as mordomias que o casamento lhe oferecia para se aventurar com o filho num outro local. Até para provar que conseguiria dar um certo conforto ao filho, assim como uma boa escola. Acontece que nesse início se de um lado parecia já estar num fundo do poço… Por outro era então aproveitar que não teria mais de onde cair… Aceitando seu novo vizinho como um babysitter de seu filho, o Oliver. Até porque esse é meio que atraído por esse estranho vizinho. Numa relação meio simbiótica já que com ele Oliver não se sentiria o único “ser estranho“… Maggie capta colocando fé na relação dos dois. Oliver é muito bem interpretado por Jaeden Lieberher. Não tem como não se encantar com sua performance. Sendo assim, Vida longa a esse jovem ator!

um-santo-vizinho_2014_01Faltando entrar nessa história o tal professor. Ele é Irmão Geraghty, interpretado por Chris O’Dowd, cujo um outro trabalho que eu também gostei muito foi em “Missão Madrinha de Casamento”, de 2011. Geraghty apesar de ter que seguir tanto os preceitos da Igreja como o da Escola Católica, mais do que catequizar seus alunos, segue pelo caminho em levar a religiosidade até eles, até o dia a dia de cada um deles. Geraghty parece mais seguir a filosofia do Papa Francisco. Se bem que esse toque partiu mesmo de Oliver.

Assim, se foram questões financeiras e até um certo endeusamento que acabou colocando todos no mesmo barco, com certeza foi Oliver o mais frágil de todos que mostrou a eles o quanto uma mudança pode ser benéfica. Até em se notar que algumas vezes somos levados a continuar dando murros a esmo por uma rotina doentia. Com Oliver todos aprendem que o real valor dessa vida não está em ter, mas sim em ser por mais estranho que possa parecer aos olhos de todos. Algo que com certeza o final do filme mostra…

Então é isso! Creio que eu não trouxe spoiler significativo, até porque há muito mais para se ver inclusive com outras boas participações. “Um Santo Vizinho” é um filme muito bom! Para ver e rever! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Santo Vizinho (St. Vincent. 2014). Ficha Técnica: página no IMDb.

Quase Famosos (Almost Famous, 2000).

quase-famosos_2000Por Francisco Bandeira.
Cameron Crowe entregou em “Quase Famosos” um dos retratos mais honestos e cativantes sobre as descobertas dos adolescentes sobre drogas, sexo e rock’n roll. Todo aquele deslumbramento acerca de seus ídolos, uma atmosfera de curtição quase inquebrável – mesmo com tantos conflitos – e, especialmente, a liberdade de um jovem, transformando aquela aventura juvenil em um belo road movie.

O primeiro contato com a música, fama, famosos, artistas, empresários, mulheres e o amor. O que torna tudo tão perfeito? As músicas que pontuam cada passagem especial do filme (a cena do ônibus ao som de Tiny Dancer, do Elton John, é espetacular). Penny Lane (Kate Hudson, perfeita) é aquele tipo de mulheres que procuramos a vida inteira, que não saem das cabeças, que ecoam em nossos pensamentos e sonhos, porém tão frágil e desolada, que a torna alcançável ou ainda mais apaixonante.

quase-famosos_2000_01Crowe inseriu suas experiências pessoais no filme, mostrando que nos deparamos com diversos tipos pela vida: a mãe protetora (Frances McDormand, divina), a irmã libertadora (Zooey Deschanel, ótima), a jovem e bela inocente que quer ser descolada (Anna Paquin, encantadora), ou o jovem preocupado que descobre que a vida pode ir de sonho a pesadelo em questão de segundos (Patrick Fugit, espetacular) ou aquele típico sacana que nos proporciona as melhores experiências de nossas vidas e, por mais imbecil que seja não conseguimos odiá-lo… Nem sequer por um minuto (Billy Crudup, impecável). São tantos sentimentos em cena, que fica difícil não se sentir atraído por personagens tão mágicos, em um universo de sonhos que é a vida, e desejamos vive-la cada vez mais.

Ser famoso é ótimo, ser anônimo tem suas vantagens, porém fazer parte do grupo dos QUASE FAMOSOS não é nada menos que perfeito.

Quase Famosos (Almost Famous. 2000). Ficha Técnica: página no IMDb.