Série: Gotham (2014-). Uma Nova Ótica Lançada Sobre um Conteúdo Aparentemente Inesgotável

Gotham_seriePor: Cristian Oliveira Bruno.
Batman_KaneQuando adapta-se uma cosmologia tão rica e tão famosa quanto a do Batman, icônico personagem de Bob Kane, se faz necessário manter uma cautela toda especial no que diz respeito às alterações que serão feitas tanto na cronologia quanto na concepção dos personagens. No caso do super-herói em questão, tudo é mais complicado ainda, pois quase não há o que já não tenha sido feito. O tom mais cartunesco já fora ditado e orquestrado com maestria por Tim Burton em seus Batman (1989) e Batman – O Retorno (1992). A atmosfera mais sombria e pesada a qual parece ter sido a versão definitiva dada ao personagem nos anos 80, com O Cavaleiro das Trevas, do Deus dos quadrinhos Frank Miller – a melhor série já feita sobre o Homem-Morcego – foi recente elevada a um outro estágio com a consagrada trilogia de Christopher Nolan (Batman Begins [2005], The Dark Knight [2008] e The Dark Night Rises [2012]). Mesmo a inocência e a fantasia dos primeiros exemplares dos quadrinhos teve sua vez entre 1966 e 1968, com uma série de TV contendo 60 episódios da dupla dinâmica. Assim sendo, o que de novo e diferente o produtor Bruno Heller (The Mentalist [2008-2015]) e o diretor e produtor executivo Danny Cannon (O Juiz [1995]; Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado [1998]) poderiam apresentar em mais uma adaptação para a TV? A resposta veio com o título da série: Gotham.

Gotham_01Voltando pelo menos 15 anos no tempo, a proposta desta vez é apresentar uma nova ótica e lançar o olhar sobre a cidade, ao invés de seu mais ilustre residente, e mostrar como uma cidade tão corrupta e dominada pelo crime chegou ao ponto de precisar de um justiceiro mascarado para manter a ordem. E isso é o mais interessante em Gotham. Mais do que acompanhar os primeiros passos e a origem de vários personagens do universo dos quadrinhos (alguns famosos, outros nem tanto), a série se baseia no fato de que ainda não há um justiceiro mascarado para defender Gotham. E com a polícia, a justiça e o próprio prefeito Aubrey James (Richard Kind) e o comissário Loeb (Peter Scolari) nas mãos dos dois chefões das famílias mafiosas que controlam todo o crime da cidade, Carmine Falcone (John Doman) e Salvatore Maroni (David Zayas), cabe ao ainda jovem detetive James Gordon (Ben McKenzie) assumir o papel de paladino solitário da justiça. E quando eu digo solitário, não é força de expressão. Embora com o passar do tempo Gordon vá adquirindo aliados em sua inspiradora jornada de combate ao crime mais do que organizado, até um certo ponto dela ele se vê abandonado por seus companheiros, chefe e seu parceiro Harvey Bullock (Donal Logue).

gotham_02O plot da série é o assassinato de Thomas e Martha Wayne e a promessa feita por Gordon ao pequeno Bruce Wayne (David Mazouz) – retratado aqui aos 12 anos – de encontrar o responsável. A partir desse momento, Gordon adentra de vez no submundo e começa a entender como a cidade funciona. Não é que todos os seus habitantes sejam corruptos, mas todos têm família e jamais arriscariam oporem-se a Falcone ou Maroni. Essa faceta de uma Gotham dominada por figuras poderosas, mas sem super-poderes acaba por tornar-se, naturalmente, o segmento mais interessante da série. Não que a relação tutor/serviçal/pai entre Alfred Pennyworth (Sean Portwee) e seu determinado protegido não seja deveras comovente, ou que a luta da ambígua e maliciosa Selina Kyle (Carmen Bicondova) para sobreviver nas ruas não tenha seus momentos – embora seja a ramificação mais trôpega do programa -, mas é no núcleo criminoso que encontram-se os melhores personagens, situações e conflitos mais tensos e interessantes.

gotham_03Com um elenco bastante regular e em sua maioria experiente, os personagens acabam ganhando uma roupagem diferenciada e uma cara própria, embora não abandonem os aspectos e traços mais fortes pelos quais ficaram mundialmente conhecidos. Ben McKenzie (do seriado OC e de 88 Minutos) compõe um Jim Gordon intenso e forte, com uma segurança e uma presença em cena muito boas, mostrando o quanto evoluiu com o passar dos anos. Sua parceira inicial, Erin Richards – que interpreta Barbara Keen, primeiro par romântico de seu personagem na trama – não está tão mau, mas carece de uma química maior com o protagonista. Falha esta corrigida absurdamente com a inserção da personagem da Dra. Leslie “Lee” Thompson, interpretada pela brasileira Morena Baccarin (do seriado V – Invasores), cônjuge do ator, tornando a interação entre ambos algo natural, e isso reflete-se na tela. Também destaca-se neste quesito, sem a menor sombra de dúvidas, Oswald Cobblepot, o Pinguim, de Robin Taylor Lord, tão afetado e tresloucado quanto ameaçador e doentio. Taylor Lord vive a dolorosa saga de ascensão daquele que será o futuro Rei do crime da cidade. Donal Logue recebe uma tarefa ao mesmo tempo motivadora e arriscada ao viver o Det. Bullock como um dos protagonistas, já que o personagem não havia ganhado tanto destaque até aqui fora dos quadrinhos – olhe lá uma rápida aparição no primeiro filme de Tim Burton – e sempre fora retratado como policial corrupto e desonesto, com o perdão da redundância. Aqui, Bullock ganha um novo ponto de vista e é retratado não apenas como um mau policial, como alguém que viveu a vida inteira em Gotham e conhece aquela cidade e como ela funciona, sabendo jogar de acordo com suas regras. O choque de personalidades com Gordon faz com que Bullock passe de um obstáculo para ser o primeiro aliado de Gordon – e um importante aliado, pois Bullock conhece o crime da cidade.

gotham_os-viloesCriada especialmente para a série, Fish Mooney (interpretada com muita ferocidade e ímpeto por Jada Pinkett Smith) não só possui um papel importantíssimo na trama, tanto no andamento desta quanto na formação de background de demais personagens, e com certeza agradou (ou agradará) grande parte dos fãs – embora o desfecho dado a ela não seja dos mais agradáveis, ou mesmo bem pensados, provavelmente sua relação com seu fiel capanga Butch Gilzean (Drew Powell) promete arrebanhar muitos fãs para a dupla. Vários outros personagens tradicionais nas páginas das revistas da DC Comics dão as caras por aqui, sendo que alguns são bastante conhecidos do público, como Harvey Dent (Nicholas D’Agosto) – o Duas-Caras -, Edward Nygma (Cory Michael Smith) – O Charada -, Victor Szasz (ANthony Carrigan), Dr. Francis Dulmacher (Colm Feore) – o Mestre dos Bonecos -, Dr. Gerald Crane (Julian Sands) – criador do gás alucinógeno usado por seu filho Jonatan, o futuro Espantalho – e outros mais conhecidos apenas pelos mais familiarizados com o universo Batman, como Jack Buchinski (Christopher Heyendahl) – o Eletrocutador -, a policial Renee Montoya (Carmen Cartagena), Richard Sionis (Todd Stashwick) – o Máscara Negra -, Aaron Helzinger (Kevin McCormick) – o Amígdala, vilão muito semelhante e freqüentemente confundido com Bane – e Larissa Diaz (Lesley-Ann Brandt) – a Cobra venenosa.

gotham_04Mas dois vilões destacam-se neste paraíso dos “Batmanáticos“, cada um a sua maneira. O primeiro deles é Jerome Valeska (Cammeron Monaghan) que, mesmo sem ser oficialmente apresentado como tal, trata-se da versão do seriado para o maior inimigo do Homem-Morcego: o Coringa. O episódio onde o vilão aparece não é um dos melhores da temporada, mas Monaghan destaca-se no diálogo final quando a referência ao coringa é feita, em uma atuação muito boa. O outro é apresentado apenas no episódio 19 (e mantém-se ate o episódio 21, penúltimo da temporada – tendo sido especulado também na segunda temporada, embora fique claro e óbvio que isso não ocorrerá). Jason Solinski, o “Ogro” (Milo Ventimiglia), surge como o principal vilão da série até então, oferecendo sensação de risco real para os mocinhos. O Ogro é aquele com quem todo policial da cidade tem medo de mexer. Gordon também, mas isso não o faz recuar. Esse ponto da trama é um dos pontos altos da série e poderia ser, inclusive, o desfecho (não que o episódio 22 não seja satisfatório, mas o 21 é ainda melhor.

gotham_06Mas a própria Gotham City é a principal personagem da série. Todo personagem da cosmologia criada por Bob Kane, de Bruce Wayne à Mr. Freeze, é composto com base em traumas, seja a perda de um ente querido ou a sensação de impotência perante as situações enfrentadas diariamente. E Gotham está repleta de traumas os todos os cantos. Traumas e mitos. Em Gotham qualquer um pode ser o que quiser. Heróis e vilões usam máscaras visíveis, enquanto a alta sociedade usa máscaras políticas e diplomáticas. Por isso o Bandido do Capuz Vermelho representa mais do que um simples elemento daquela sociedade, mas também um sentimento. Gotham resume o sonho americano de ser a terra das oportunidades. Qualquer um pode ser rei em Gotham, basta tomar o que é seu por direito. Mesmo que não seja seu de direito. E a maneira como Heller e Cannon retratam esteticamente a atemporalidade da mística cidade é curioso. Há celulares e computadores, o que nos põe imediatamente nos dias de hoje. Os carros são das décadas de 60, 70 e 80 e os prédios e as ruas remetem aos anos 30 e 40. Sabemos que Gordon lutou recentemente em uma guerra, mas não sabemos qual foi. Nada é dito sobre o que ocorre além das fronteiras da cidade. Quem é o presidente, de onde vêm as pessoas de fora e tudo mais que não envolva Gotham permanece um mistério. Gotham é uma cidade que existe apenas no imaginário e está sempre em constante formação e Cannon e Heller nos permitem preencher estas lacunas, cada um a nosso modo.

gotham_05A primeira temporada, apesar do caráter experimental, foi melhor do que o esperado. Sofre alguma irregularidade com relação ao ritmo e a consistência – coisa mais do que comum em séries sem um diretor fixo -, mas no fim das contas Heller e Cannon seguram bem as pontas e trilharam um belíssimo caminho para ser expandido nas próximas temporadas já anunciadas. Foi muito bom ver que ainda há o que explorar – com dignidade – de um universo já tão esmiuçado no decorrer dos anos. Este que vos escreve é fã do herói em questão e confessa sem vergonha que estava desesperançoso com esta série, mas fiquei bastante satisfeito com o resultado final desta primeira temporada e a recomendo sem medo para os fãs de Batman e até mesmo para os não fãs, dada a boa distribuição dos núcleos.

Avaliação Geral da Primeira Temporada: 7,5.

Série: Gotham (2014 – )
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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O Profeta (Un Prophète. 2009)

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Por Roberto Vonnegut.
O Profeta conta uma estória simples de forma magistral.

Malik el Djebena (excelente atuação de Tahar Rahim) tem um dia quase rotineiro: ele acaba de ser mandado mais uma vez para trás das grades. O detalhe é o “quase” – como ele agora é maior de idade, desta vez ele é mandado para a penitenciária central em algum lugar no sul da França. E com convite para ficar alguns anos por lá.

Nenhuma cena que se passe antes da prisão nos conta do passado de Malik, mas os detalhes como roupas e marcas no corpo nos contam tudo o que precisamos saber. A prisão que “acolhe” Malik se situa em uma França em transformação, e nos seis anos de sua pena ele vê a penitenciária mudando.

o-profeta_filmeComo o personagem Jamal de Slumdog Millionaire, Malik tem uma qualidade: ele é maleável, sujeita-se sem reclamar às pancadas que recebe da vida. Mas ao contrário do inocente indiano que aceitava a miséria como parte da vida e cujo final feliz era simplesmente destino “it is written” (ou não), Malik aprende rapidamente e assume a responsabilidade pelo seu futuro. Ele rapidamente descobre que sobreviver na prisão envolve troca de favores – e cabe a ele matar um prisioneiro para ser protegido pela facção inimiga. O Profeta mostra, assim, como um personagem pode agarrar uma oportunidade desde que esteja realmente interessado em se aproveitar dela, custe o que custar. Um dos méritos do diretor Jacques Audiard é mostrar claramente o quanto custa.

Gostei muito do filme. A narrativa praticamente linear é enriquecida pelo mais manjado truque de Shakespeare: nada melhor do que um fantasma (ou um bobo da corte) na hora certa. O fantasma de O Profeta aparece pouco, mas é decisivo para a trama – mesmo sendo totalmente desnecessário. Poucos roteiros conseguem trazer um fantasma tão conciso e relevante.

O filme tem cenas memoráveis. Flashes que mostram os pequenos trambiques e a vida na carceragem, os sapatos na sala de visita por exemplo. A sequência que mais me marcou foi a primeira viagem de avião de Malik – sensacional, especialmente na cena em que ele passa pela inspeção do aeroporto. É um detalhe que vale por mil palavras.

E olha que nem falei da trilha sonora, que para muitos vai soar inesperada em um filme francês.

Violência Urbana: Onde Vamos Parar?

the-brave-oneAtualmente se sai de casa, mas sem a certeza de que irá retornar. Cruel? É. Mas o nível chegou ao ponto de ser morto até por tiras. Onde o certo, ou o esperado, seria ser salvo por eles. Como exemplo um fato desagradável ocorrido recentemente (2008) no Rio de Janeiro onde uma pessoa fora seqüestrada, e ainda em poder do bandido, em vez de ser socorrida pelos tiras foi morta por eles. Mas fatos como esse outros Blogs poderão desenvolver melhor. Pois nosso papo é sobre filmes. Vem comigo!

Como citei antes, o de não saber se volta são e salvo para casa. Em “Valente” (The Brave One) o casal de noivos ao levar o cachorro para uma caminhada no parque são brutalmente espancados. Ele não resiste morrendo no local, ela, personagem de Jodie Foster, sobrevive. E após um tempo vai atrás dos assassinos. Até por conta da indiferença dos policiais. Filmaço!

irreversibleEsse outro filme é bem forte. A mim, ficou um não querer rever. É o “Irreversível“. Onde à saída de uma festa, uma jovem é brutalmente estuprada e espancada. Um outro, onde após sofrer um estupro, uma jovem grávida morre, mas no hospital conseguem salvar a criança. Onde uma enfermeira para tentar achar parentes da jovem acaba indo parar no centro da máfia russa. Um inferno, mas ela está disposta a só sair dela com o bebê. O filme é “Senhores do Crime” (Eastern Promises).

Há também um outro tipo de violência, que é no trânsito. Onde num descuido pode não apenas tirar uma vida, como também traumatizar toda uma família por conta dessa perda. Descuido ou relapso? Um atender o celular, ou trocar um cd, ou outra coisa onde achando que será rapidinho, pode vir a resultar numa tragédia. Um onde isso ocorre é em “Traídos pelo Destino” (Reservation Road).

Por outro lado, filme é filme! Logo, também quero vê-lo assim. Principalmente com os vilões que por vezes são prejudicados pelo politicamente correto. Que em alguns filmes estadunidenses exageraram no pós 11 de Setembro. Um deles, até fiquei com vontade de lançar uma campanha. Essa: ‘Salvem os Vilões dos Filmes!’. O filme é o “Ponto de Vista” (Vantage Point).

Por querer tentar entender o que se passa na cabeça de um homem-bomba, eu assisti “Paradise Now“. Recomendo! Até por tirar a visão esteriotipada que a mídia lança sobre ele. Não que com isso iremos aprovar, ou mesmo abonar esse ato para lá de violento. Mas é sempre bom ver a outra versão do fato.

folegoAlgo que também gostaria de entender é o porque de certas mulheres sentirem fascínio por criminosos. Por conta disso, uma simples leitura numa sinopse, foi o ponto de partida para assistir “Fôlego” (Soom). Onde uma dona de casa vai procurar um criminoso que se encontra no corredor da morte, após saber que o marido a trai. Como citei em meu texto, esse é um filme para um olhar mais maduro.

Por vezes, a violência está dentro de casa. Quer ela seja física, ou em atos contra o patrimônio dos pais. Como no “Antes que o Diabo descubra que você está morto“. Onde o filho mais velho alicia o caçula para assaltarem a joalheria dos pais. Como trabalharam nela sabiam de todos os detalhes da segurança. Mas imprevistos acontecem…

boncopbadcop4Eu gosto de filmes policiais, também. Não apenas por vê-los em ação, como também em conhecer seus dramas pessoais. No mais recente que eu vi, fiquei pensando se também não teria feito o mesmo que o personagem do Keanu Reeves fez com os pedófilos. Pois ele é um tira do tipo: ‘se houve flagrante para que ter despesas com júri e tudo mais‘. O filme é “Os Reis da Rua” (Street Kings). Subindo o mapa um pouco, um canadense que me fez rir bastante. É o “Bon Cop, Bad Cop“. Onde dois tiras, cujo métodos de investigação são antagônicos se vêem obrigados a trabalharem juntos para desvendarem um crime em série.

Bem, esse tema também me fará voltar a ele. Sendo assim, como fã de Daniel Auteuil, termino por aqui deixando a sugestão de “O Adversário“. Um filme que nos deixa perplexos pelo o que o personagem dele fez. E tudo por querer manter o status quo.

Que o final de semana seja sem violência para Todos nós! Que fique nos filmes!
See You!

Por: Valéria Miguez (LELLA). (Em 18/07/08)

As Bicicletas de Belleville (Le Triplettes de Belleville. 2003)

as-bicicletas-de-bellevilleNão é um filme para crianças. Nem para medianos. É um dos grandes. Raridade visual. Acuidade fonográfica. Excelência de idéias. Surpreendente desde o começo. Uma vozinha, senhora Souza, só. E seu entediado neto, o Champion. Primeiro um piano. Nada. Depois um cachorrinho, o Bruno. Um pouco de interesse. E finalmente a bicicleta. Um triciclo.

Uma infinidade de informações. Críticas veladas à sociedade consumista. Desde o crescimento desordenado da cidade em torno da casinha da vovó. Até a Nova Iorque desenfreada em sua gula. Extra gordos americanos. Uns porcos. Treinamento inumano de um ciclista, seu desenvolvimento extremo das panturrilhas e quadríceps. O humano escravo do corpo. Aparelhos de precisão para alinhar rodas. Peso versus comida.

A portuguesa é incansável. Apitando e ditando o ritmo. Apesar de sua deficiência física –sequela de pólio em perna D- e baixa estatura, ela é super. Cria um campeão. Seus métodos de massagem e instrumental inusitado resultam em ótimas risadas. Aliás, o filme é um bordado de ironias e fino humor. Muito diferente do habitual do cinema. Grosseiro e direto.

Na maior disputa ciclística, a mítica Tour de France, onde meu ídolo e sósia Mário Tippollini nunca venceu, o netinho sucumbe. Cai; e é seqüestrado pela máfia franco-italiana radicada na América. Ela persegue o navio. Repare no desenho afilado do calado. Seu pedalinho não alcança. Mais uma vez utiliza o sofrido cão como motor. Outra ele foi roda de carro. Criativo e engraçado.

Vale analisar a personalidade canina. Traumatizado por um acidente com sua cauda na infância, late para trens toda sua vida. Além de sonhar repetidas vezes com o fato. Como diria um ex-ministro brasileiro, cachorro também é gente.

Chegamos a megalópole, onde Champion está preso e servindo como cavalo de corrida em poule-de-três. Casa de apostas. Repare no desenho dos guarda-costas e seus chefes. Sintomático. Ocorre o encontro com as maravilhosas velhinhas trigêmeas. Personagens que desde já ocuparão espaço de destaque no meu fichário de figuras lendárias.

Elas cantam, dançam e tocam instrumentos. Retiram som do cotidiano. Como Ernesto Nazaré. É contagiante. A música de Benôit Charest é uma salada dos cantores franceses dos anos 50/60, de Frank Zappa e uma pitadinha de jazz, segundo ele mesmo. Eu acrescentaria aquelas deliciosas canções napolitanas, também.

Após engolir, literalmente, tudo quanto é sapo e rã. A destemida vozinha irá resgatar seu protegido. Plano excelente de entrada e abordagem. Digno de um filme noir. Não dá para descrever tudo que se vê, só indo. No entanto as cores cinzentas da projeção brilham num simples levantar de óculos.

Final poético, assim como o desenho e direção de Sylvain Chomet. Obrigaram-me a assistir com atenção um de seus curtas anteriores: “La vielle dame e les pigeons”. E sua marcante influência de Jacques Tati, que é homenageado pelo pôster do quarto das trigêmeas “As férias de monsieur Hulot” e o curta que passa na tv, “A escola de carteiros”. Genial.

O que há de bom: poesia intrínseca, desenho extrínseco, imaginação solta
O que há de ruim: vi a fita sozinho; prazer que deveria ser dividido por milhares
O que prestar atenção: um dos meus melhores amigos chama-se Bruno (o cão) de Souza (avó) e é um ciclista Campeão (o neto) quer mais?
A cena do filme: a emblemática chegada em Belleville seguida do cansaço sem resignação da idosa heroína

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Ah, triplettes é trigêmeas, mas também pode ser um conjunto de salsichas de uma boulangerie. Uma alusão ao corpo esquálido das sonoras velhinhas.

Por: COBRA.

GOMORRA (2008): A Máfia Italiana na Ativa

gomorraGomorra: A Máfia Italiana na Ativa

O top do IMDB (Internet Movie Database), principal catálogo de filmes disponível na internet, elege o grandioso “O Poderoso Chefão” como o segundo melhor filme de todos os tempos, segundo o próprio público. Ou seja, milhares de pessoas consideram a saga de Dom Corleone a mais brilhante entre qualquer outra coisa já realizada na sétima arte. Na história, baseada num livro de Mario Puzo, observamos a temida máfia italiana e a sua influência na sociedade: controle do comércio, da polícia, de figuras políticas importantes e mesmo astros de Hollywood. Tudo conduzido com muita elegância, num clima familiar, seguindo um código próprio e numa relação a qual todos saiam ganhando sempre.

mafiaComo exemplos reais, temos o caso do mafioso Al Capone, cuja lenda reza que, num período de lei seca onde ninguém podia comprar ou consumir bebida alcoólicas, diversas figurões, juízes e parlamentares frequentavam suas festas secretas e se embebedavam até cair. Mas tudo isto ficou no passado, a máfia italiana já não controla mais nada e não devemos temer a mais ninguém, não é mesmo? Errado! A máfia italiana está a todo o vapor, mais viva do que nunca, controla grandes fatias no tráfico internacional de drogas, é extremamente perigosa: seu nome? Camorra.

Um jornalista, Roberto Saviano, lançou um livro com diversos relatos acerca da organização, denunciando uma série de abusos e atrocidades. Este livro lhe rendeu alguns prêmios e logo um contrato para transformá-lo em filme. Assim surgiu o filme italiano Gomorra, onde graças ao sucesso que vem fazendo no mundo inteiro, obrigou o seu autor a fugir da Italia, visto que os chefões da mafia não estão gostando nada desta repercussão e resolveram mandar alguns recados contendo ameaças de morte.

O filme conta diversas histórias em paralelo de pessoas envolvidas com a organização criminosa: desde o processo seletivo de crianças que desejam ingressar na gangue até o assassinato de dois garotos que resolveram passar por cima do código de moral estipulados por eles. O mais interessante é que o filme desvela uma Italia diferente daquela que sempre ouvimos falar e que está presente em todos os cartões postais. Esta é uma Italia muito próxima as favelas brasileiras controladas por facções criminosas, inclusive no que diz respeito a qualidade de vida enfrentada pelas pessoas que convivem no dia-a-dia com estes criminosos.

Morte, dinheiro, drogas, corrupção, controle territorial, traição e um código próprio são os ingredientes que comandam o filme desde o início até o seu fim. Ao término sabemos que esta não é uma história qualquer, mas um filme-denúncia, que serve para nos alertar que por trás de um cenário tão belo está, novamente, o crime organizado. Sabemos que o crime organizado é influente e tem bastante força nos bastidores de todo um país.

italian_flagParabéns a coragem de todos os envolvidos, tanto na produção como na filmagem deste filme, afinal são todos italianos e obrigados a conviver no mesmo território destes marginais. Espero que todo o trabalho não tenha sido em vão e que está película sirva para que as autoridade e o mundo abram os olhos para o que acontece bem embaixo deles.

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

GOMORRA. 2008. Itália. Direção: Matteo Garrone. Elenco: Toni Servillo, Gianfelice Imparato, Maria Nazionale, Salvatore Cantalupo, Gigio Morra, Salvatore Abruzzese, Ernesto Mahieux, Marco Macor, Ciro Petrone, Carmine Paternoster, Salvatore Ruocco. Gênero: Crime, Drama. Duração: 135 minutos. Baseado no livro de Roberto Saviano.

RocknRolla – A Grande Roubada (2008)

rocknrolla-8Criminosos do submundo londrino entram em ação quando surge um negócio da máfia russa envolvendo milhões de dólares.

Guy Ritchie deve ter feito o filme para ter certeza que não estava mais vinculado a imagem da Madonna.

Não é para esperar muito do filme, mas se tiver a fim de se distrair com o impagável humor inglês – que pode ser ininteligível para os que gostam de piadas às claras  – vale a pena.

Dinheiro, muito dinheiro desviado por uma secretaria ambiciosa, um velho mafioso inglês a moda antiga que acha que engana o bandido russo que tem certeza que esta sendo enganado, só não tem certeza de quem o está enganando.

rocknrolla_011Para cuidar deste dinheirão desviado do chefão russo, a secretária dele e a autora oficial do roubo, contrata um grupo de bandidos meia boca para sumir com a grana liderados pelo quase machão Gerard Butler.

Por:  Criz Barros.

RocknRolla – A Grande Roubada (RocknRolla). 2008. Reino Unido. Direção e Roteiro: Guy Ritchie. Elenco: Ludacris, Gemma Arterton (June), Gerard Butler, Thandie Newton, Nonso Anozie (Tank), Idris Elba, Mark Strong (Archie), Jeremy Piven (Mickey), Tom Wilkinson, Geoff Bell. Gênero: Ação, Comédia, Crime, Policial. Duração: 114 minutos.