A Mentira (Easy A. 2010)

A-Mentira_2010Por Roberto Vonnegut.
The rumors of her promiscuity have been greatly exaggerated
.

Como achei coisas boas no filme “Friends with Benefits” eu resolvi dar uma olhada no trabalho anterior do diretor Will Gluck, Easy A (A Mentira), que por estas bandas foi direto para os disquinhos de policarbonato nas locadoras. O filme é várias coisas:
– é uma adaptação livre do livro “A Letra Escarlate“, de Nathaniel Hawthorne: a estória de Hester, uma mulher que comete um ato inaceitável para a sociedade em que vive e sofre humilhações que enfrenta – quando pode – de cabeça erguida.
– é uma homenagem descarada aos filmes de John Hughes sobre adolescentes – “Clube dos Cinco“, “Curtindo a Vida Adoidado” e outros.
– é um filme que traz muitas das coisas boas que ressurgem em “Friends with Benefits“: auto-ironia desmascarando os filmes que homenageia/ parodia, por exemplo.
– E um elenco de coadjuvantes de primeira linha, que seguram muito bem a trama: Patricia Clark (de novo a mãe da protagonista), Stanley Tucci, Malcolm McDowell (de Laranja mecânica), Thomas Haden Church (o amigo de Miles em Sideways) e até Lisa Kudrow, a Phoebe de Friends.

a-mentira-2010_01Easy A é bem melhor que o filme seguinte. Emma Stone faz o papel de Olive, uma garota que vivia no anonimato que costuma cercar as alunas que gostam de literatura, mas não são populares, até que um dia resolve contar uma mentirinha inocente que a coloca no centro da rede de fofocas da escola e lhe rende a fama de piranha-mor. Olive, usando um vocabulário erudito que por si só já faz valer a pena prestar atenção na narração, conta o que aconteceu: a mentira inicial, o efeito areia movediça em que ela se afundava cada vez mais, a reação dos colegas.

Will Gluck usa muito bem o recurso de mostrar que, para os adultos que participam do filme, os pudores que tanto chocam a garotada não passam de bobagem. Ao saber que Olive está sendo acusada de ter perdido a virgindade com um garoto mais velho, a mãe tenta acalmá-la dizendo que na escola transou com muita gente, e faz a importante ressalva: a maioria, garotos.

A ironia do roteiro de Bert Royal é o ponto alto do filme: ele brinca com os filmes dos anos 80 e com livros, de Hawthorne a Mark Twain, passando pelo Pentateuco e pelo relatório Kinsey. O vocabulário dos adolescentes é um achado: para driblar a censura, os adolescentes usam expressões inventadas que soam mais realistas do que as expressões “amaciadas” comumente usadas nestes filmes – algumas são ótimas, como a garota carola que acusa Olive de ser uma rhimes-with-witch. Vi no original, não tenho a menor ideia se a tradução tomou o cuidado de manter isso.

Vale a pena pegar na locadora. Sessão da tarde com pitadas de cultura.

[*] a frase de Olive que usei no início do post é um jogo com uma frase famosa de Twain sobre a inexatidão das fofocas.

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O Artista (The Artist. 2011)

Seria cômico senão fosse patético! É que enquanto muitos Diretores chegam a basear seus filmes nos efeitos do 3D, para deleite nosso, de quando em vez, vem um e nos brinda com uma simplicidade ímpar ao contar uma história. Em 2009 tivemos os bonecos de massinhas meio toscos de Adam Elliot no seu “Mary e Max – Uma Amizade Diferente“. Agora, é a vez Michel Hazanavicius também remar contra o modismo e nos encantar com “O Artista“. Bravo!

Hazanavicius simplesmente conta a sua história como na época do Cinema Mudo. Como se tivesse filmado com o que hoje já seriam peças de museu. Mas não é apenas o pano de fundo, é a contextualização de uma época dentro da História do Cinema, e em especial, da de Hollywood. Pegando o início do fim de uma época: sai o Cinema Mudo e entra em cena o Cinema Falado. Já no finalzinho da década de 20, e início da de 30. E como um brutal coadjuvante também real: o Crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

Hazanavicius também faz, traz belas homenagens, pontuando a trama. No início do filme, temos o protagonista ora homenageando o galã da época Rodolfo Valentino – na telona, com o seu filme -, para depois nos agradecimentos à plateia fazê-lo num jeito Carlitos de ser. Mesmo com uma beca impecável, é com um sorriso enorme que a memória nos traz esse grande personagem de Charles Chaplin, e do Cinema Mudo também. Até por estar sempre acompanhado pelo cachorrinho. Paulo Autran disse certa vez que trabalhar com criança ou um animal é um risco: porque eles podem roubar a cena. Em “O Artista” não deu outra: o cãozinho Uggie rouba todas as cenas. Merece aplausos pela performance! E ainda dentro das homenagens de Hazanavicius, uma outra também encantadora: ao casal Ginger Rogers e Fred Astaire.

A história é simples, mas nem por isso não é complexa. Conta a carreira de um ator que não se rendeu ao Cinema Falado: George Valentin, personagem de Jean Dujardin. Do estrelato ao ostracismo. Ficou por anos usando a expressão corporal, e que não acreditava que falas nas cenas trariam diferenças significativas. Calcando-se mesmo em “Uma Imagem vale mais que mil Palavras!“. Mas nem tanto ao mar, nem tanto ao céu. Um som faz sim um grande efeito. Tanto, que durante as próprias exibições dos filmes mudos havia uma certa trilha musical nas Salas onde eram exibidos. E ótima a atuação de Jean Dujardin!

Valentin ainda no auge da fama se esbarra a uma aspirante a atriz, Peppy Miller (Bérénice Bejo. Gostei de sua atuação!). Ela cai de amores por ele. Mas Peppy segue em frente: acompanha o novo Cinema que chega. Sua carreira sobe, enquanto que a dele termina. Anonimamente ela até que tentou ajudá-lo. Mas ele se entregou às bebidas. Até o seu fiel mordomo, Clifton (James Cromwell), cansou de motivá-lo.

Bem, além de Drama, “O Artista” também é uma Comédia Romântica. Logo com todos os itens desse Gênero. Se no início o que separa o casal – Valentin e Peppy -, é o fato dele estar casado com Doris (Penelope Ann Miller), depois foi por orgulho mesmo. E dele! Mas no final Peppy arruma um jeito dele voltar à cena, e sem ter que sentir-se que traiu seus próprios princípios. Bravo Peppy!

E a ideia de Peppy enche novamente os olhos do antigo Produtor de Valentim, Al Zimmer. Personagem de John Goodman. Que aliás também rouba todas as cenas! Seu personagem ficou incrivelmente a cara do Cinema Mudo. Perfeita atuação! Os demais coadjuvantes estão ótimos, mas para mim Goodman e Uggie estão excelentes!

O filme cai um pouco de ritmo ao se estender no drama do Valentim. Se Hazanavicius tivesse acompanhado também o tempo de duração dos filmes daquela época, enxugando um pouco, até me deixaria uma vontade de rever, mas não deixou. Agora, vale sim, e muito, ser visto! Até pelo final memorável!

Então é isso! E também pelo Figurino, Fotografia, Trilha Sonora, Cenário, inclusive pelas falas-legendas tal qual do Cinema Mudo, “O Artista” é um filme excelente! Não deixem de assistir!

Nota 9,5

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Artista (The Artist. 2011). EUA. Direção e Roteiro: Michel Hazanavicius. Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch. Gênero: Romance, Comédia, Drama. Duração: 100 minutos.

Curiosidades: Uggie, o cãozinho do filme irá se aposentar. Leiam na matéria de Priscilla Merlino: Uggie, a estrela canina do filme O Artista, vai se aposentar.

Laranja Mecânica

laranja-mecanica“Well, well, well, Druges… Qual vai ser o programa hoje? Que tal um pouco da velha Ultraviolência?

Sádico, tenso, vibrante, espetacular, ousado, perfeito! Todos os adjetivos possíveis são bem empregados em algo tão perfeito como Laranja Mecânica, filme baseado no ótimo livro de Anthony Burgess, filmado por ninguém menos que ele, Stanley Kubrick – O Cara!
Alex DeLarge é um péssimo exemplo. O moleque sai a noite com os amigos pra praticar delitos, se diverte vendo os outros serem espancados, humilhados. Com uma mentalidade forte, o líder do grupo de arruaceiros é também o mais sádico. Gosta de pegar mulher quando quer, ouvir Bethoven, bater em mendigo, estuprar e praticar roubos. Só que ele não controla sua ira, nem mesmo com seus amigos, que por causa de uma brincadeira, acabam traindo o pobre Alex. Preso por assassinato, ele decide ser cobaia do “Método Ludovico”, que consiste em fazer o delinqüente deixar de ser delinqüente.
O problema é que fora da prisão, as coisas parecem conspirar contra ele. Todos que ele de alguma forma fez sofrer, farão o mesmo com ele. Destino ingrato. Alex se torna vítima de seus próprios atos e acaba pagando por isso.
São pouco mais de 2 horas de um filme denso, cheio de pompa e sentimento, que arrasa em tudo, desde o mais fútil detalhe, até a estilizada violência que o filme traz.
Kubrick não deixa nada passar. Cada ponto do filme é uma crítica ao mundo moderno, às seus defeitos e conseqüências, quase um presságio do que temos hoje. Juventude rebelde sem causa, violência em todos os pontos, evolução nas construções e tudo mais, mas um povo ainda primitivo, que não aprendeu a andar com as próprias pernas.
Os diálogos carregados de sutilezas ferrenhas a isso é o que há de mais delicioso no filme. Até as gírias usadas por Alex e seus amigos, soam com esse tom. As cores vibrantes (marca do Kubrick), com cenários extravagantes, passam a sensação de futuro próximo, o que torna o filme ainda mais autentico e verdadeiro.
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A forma como Kubrick conduz seu filme é primoroso e fabuloso. Abrindo o filme com muita violência, ele não economiza nas doses pancadaria. E isso ele faz de uma forma a criarmos certo desprezo pelo personagem principal. Só que depois do tratamento, Alex acaba de alguma forma ganhando a simpatia do publico, passa de vilão a mocinho quase que instantaneamente. Essa mudança radical, da água pro vinho, mostra que ele não é o único sádico/frio/violento que existe. Todos são, e não há “Método Ludovico” no mundo capaz de mudar isso.
Enquanto tudo é desenvolvido com calma e maestria, mergulhamos cada vez mais naquele mundo imaginário que não está tão longe e tampouco diferente do nosso. Todas as coisas mostradas por Kubick no filme são planejadas com muito cuidado, são colocadas em cada momento do filme com muita paciência, e o resultado é uma explosão de imagens vibrantes e certeiras, que só com outras “assistidas” é que são sacadas.
Cada movimento de câmera, cada quadro é trabalhado para passar algum sentimento, como por exemplo, perversidade na cena em que Alex acidentalmente mata a “louca dos gatos”. Outro exemplo é quando sentimos a inocência dele quando está cantando “I’m Singing in The Rain” na banheira tomando banho.
Outra sacada genial, é que o filme não expõe a violência de maneira direta, e sim de um modo mais subjetivo, sem mostrar sangue, sem mostrar membros quebrados, sem apelar pra essas coisas tão comuns hoje em dia. Tudo é mostrado com o mínimo de violência, e por isso acaba sendo tão chocante. Voltando o exemplo do assassinato, em que Kubrick em momento nenhum mostra Alex enfiando aquele pênis no rosto dela, mas as imagens que acontecem ali são o bastante pra vermos isso, por isso sai tão chocante. E se notarem nem há sangue na cena.
Outra coisa bacana é a união entre belo e feio, algo bem constante no filme como na cena em que Alex e seus amigos vão brigar com a gangue do Billy Boy, ela começa com uma imagem bela e caminha para algo nem tão belo assim. Esse efeito é mais sentido com a trilha, cheia de Bethoven como pano de fundo da violência.laranja-mecanica_02

Os figurinos são outro arraso, extravagantes, exagerados, coloridos. A trilha é perfeita e atenua cada momento de maneira formidável.
Agora quanto às atuações, tudo e todos estão PERFEITOS. Malcolm McDowell está no seu melhor e memorável personagem. Com olhos azuis e sorriso jovial, o cara caiu como luva no protagonista. Não consigo imaginar outro fazendo o filme com tanto empenho e qualidade como ele. Acho que o momento mais genial é a parte em que ele vai estuprar a esposa do escritor cantando “I’m Singing in the Rain”, cena antológicaça, em que ao mesmo tempo que passa repúdio, há um certo “ar de palhaço”, que acho incrível.
O resto do elenco é ofuscado pelo Malcolm. Só que todos apresentam aquele ar asqueroso que é deliciosamente criticado no filme.
Acho que a única coisa que achei “errado”, foi Kubrick terminar o filme como terminou. O livro tem um final diferente, e que no final das contas, (interpretação minha) é uma grande metáfora sobre a passagem da adolescência para a fase adulta, já que ele começa com 14 anos e termina com 18. O lance da metáfora se dá pelo fato de ele apresentar todas as atitudes de um desordeiro quando jovem, mas quando fica adulto acaba repudiando a violência e se tornando alguém mais careta.
A versão do Kubrick ganha ares mais politizados. Nada contra, é até bom, porque termina com uma conclusão dele. O ruim disso é que na época do lançamento do filme, levaram muito a sério aquilo tudo, e a banalização foi geral. Casos de gangues como as do filme, e agindo como as gangues do filme, arrasaram a Inglaterra, obrigando Kubrick a tirar o filme de circulação, e que acabou sendo proibido. Por conta disso, no circuito pirata, muitos jovens assistiram e entenderam as mensagens. Esses caras eram Sam Mendes (de Beleza Americana), Tony Kaye (de A Outra História Americana), John Singleton (o mais jovem diretor indicado ao OSCAR, com Os Donos da Rua), sem contar os outros tantos influenciados pela magia e euforia causada por Alex DeLarge, seus Druges e um dos diretores mais fantásticos de todos os tempos, e um dos trabalhos mais Incríveis da História do cinema.

Nota: 10 (e com muito gosto!)

Clockwork Orange (1971)
Direção: Stanley Kubrick.
Elenco: Malcolm McDowel, Patrick Magee, Adrienne Corri, Miriam Karlin.
Duração: 136 min.

Laranja Mecânica (Clockwork Orange. 1971)

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Existem obras clássicas das mais variadas espécies em nossa vasta literatura: algumas focam o comportamento específico do homem como ele é, sob o ponto de vista antropológico, outras vezes o foco são as ações do intramundano e a influência direta nos atos das personagens – numa leitura filosófica. Ainda há obras cuja característica maior é o desenvolvimento das personagens complexas e ainda há outra espécie onde a veia artística apela para a sociedade como a única responsável pela formação do homem enquanto ser arremessado no mundo.

Existe, não obstante, um refinado e seleto grupo de histórias que conseguem mesclar um pouco de cada um dos elementos citados e se tornam os chamados clássicos. Laranja Mecânica (no original Clockwork Orange) é uma destas pinturas únicas que de tempos em tempos surgem para colocar pontos de interrogação em nossa mente.

Laranja Mecânica é frequentemente associado com outros dois clássicos igualmente importantes (por sinal, também escritores britânicos): 1984 – de George Orwell – e Admirável Mundo Novo – de Aldous Huxley. Juntos eles formam uma espécie de tríplice distópica pós revolução industrial, a qual as consequências do movimento geram críticas em forma de ficção científica, quase sempre com máquinas que tomam o lugar dos homens, alto consumo de produtos industrializados e um aparente bem estar como máscara de uma realidade caótica a qual não temos acesso devido a estes signos de condicionamento.

De fato, Laranja Mecânica não é somente uma leitura, mas uma provocação e um convite para imergir numa reflexão ilimitada, onde os diversos pontos inconclusivos de uma narrativa profunda permitem que textos, como este, possam ser criados a partir de um lado do prisma que até então não foi vislumbrado, ou então pelo olhar no mesmo texto através de uma nova ótica.

Temos Laranja Mecânica disponível em duas mídias de fácil acesso: o livro, de autoria do inglês Anthony Burgess, e o filme de 1971, dirigido pelo imortal cineasta Stanley Kubrick. O filme é extremamente fiel ao livro, com a exceção da reflexão final de Alex, personagem principal, que não está presente na película, mas que não altera em nada o contexto e a mensagem final (ainda que o filme termine de forma mais pessimista do que o livro).

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Quanto ao livro, quando Laranja Mecânica foi concebido, um falso prognóstico havia dado à Burgess somente mais um ano de vida. Temendo pela bem estar de sua família, o autor decidiu que naquele período escreveria 10 livros que pudessem render algum sustento para os seus. Ao término daquele ano Burgess havia escrito 5 livros e meio: o meio livro era Laranja Mecânica, que não havia sido finalizado não pela questão da história em si, mas porque Burgess queria imortalizar a sua obra.

Uma vez que a morte não veio, o autor pode finalizar o seu trabalho da forma que achou mais conveniente. Apaixonado pela linguagem, e influenciado expressamente pelo escritor irlândes James Joyce, Burgess pretende ir adiante de seu tempo e propor algo único: criar expressões e gírias que pudessem ser aplicadas ao tema central – gangues de adolescentes – sem que elas perdessem o valor ao longo dos anos.

Foi então que Burgess criou a nadsat – um vocabulário marginal que mescla palavras russas, eslavas, inglês e cockney (expressões utilizadas pelos trabalhados britânicos na época). A compreensão deste vocabulário exige a contextualização das palavras em torno do texto, o que aumenta ainda mais experiência imersa de um leitor desorientado arremessado na história. Um exemplo de uma fala de Alex – o protagonista:

“A rot do vekio estava cheia de krov(sangue) vermelho quando lhe demos um toltchock; tiramos as platis da devotchka e seus grudis eram horrorshow.”

Além disto, Burgess se preocupou com a semântica de seu texto e dividiu todo o livro em três partes de sete capítulos cada. Cada parte é perfeitamente distinguível das demais e contém, implicitamente, uma espécie de trilogia onde cada capítulo representa, metaforicamente, um ano de vida. Então somente ao final do livro, no capítulo 21, temos Alex atingindo a maturidade necessária para seguir adiante (21 capítulos representariam 21 anos).

O cenário é um “futuro próximo” numa Inglaterra caótica e acinzentada, onde um governo opressor domina e a segurança é inexistente por parte do descaso de seus líderes. Toda história é narrada em primeira pessoa por Alex, um adolescente problemático, que assim como muitos do seu tempo, participa de uma gangue como líder dos vândalos. Entre os prazeres sádicos de Alex estão a violência, acima de tudo, e as drogas que lhe colocam num outro plano da realidade. É através deste plano que observamos o desenrolar de toda a trama.

Alex e sua turma aterrorizam as ruas sombrias, onde a falta de ordem e segurança obrigam os seus moradores a se trancafiarem dentro de suas residências, a mercê do enunciado de seus televisores e do conforto proporcionado por seus móveis. E mesmo assim eles não estão a salvo, visto que gangues invadem casas e estupram mulheres por pura diversão.

orange_clockworkA primeira parte da história conta toda esta tragédia onde Alex impera como senhor do caos, onde o crime é cometido pelo prazer do sofrimento alheio. Numa sociedade que é má, esta juventude representa os frutos colhidos do abandono do homem pelo homem. Logo a sociedade opressora colhe os seus podres – figurado sobre o alto índice de violência exagerada e sem sentido de ser.

A segunda parte da história vai mostrar Alex sendo traído pelos membros de sua gangue e pego pela polícia sob acusação de assassinato. Em troca, recebe 14 anos atrás das grades como forma de punição. Entretanto, um tratamento psicológico experimental para reprimir as tendências violentas e os impulsos sexuais é oferecido como alternativa a pena que resta para cumprir, sendo que Alex aceita ser cobaia da experiência sem nem mesmo hesitar.

O que vemos, na sequência, é uma sessão de tortura psicológica e, consequentemente, física – devido ao desgaste do experimento: Alex é drogado e submetido à uma série de imagens violentas e sexuais, ao som de música erudita, numa poltrona onde ele nem mesmo pode piscar, devido aos ganchos presos em seus olhos. Cada sessão é acompanhada de muita dor e desespero por parte de Alex, que pouco a pouco não consegue nem mesmo pensar em violência ou ouvir música clássica, pois era o mesmo que repassar o tratamento.

Logo Alex não mais pensa nas maldades que lhe proporcionavam prazer anteriormente, ainda que seja agredido: o protagonista é considerado um caso de sucesso e toda a imprensa toma nota da eficiência de um tratamento que converte um marginal em um cidadão pronto para voltar à sociedade.

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Após esta lavagem cerebral, a terceira parte é iniciada com Alex recolocado na sociedade: logo ele será rejeitado por seus pais, espancado por aqueles que ele espancou antes de ser capturado, seus ex-colegas de gangue também se reencontram com ele e acabam por agredi-lo até que Alex, cansado, resolve pedir ajuda em uma casa qualquer. Lá ele é drogado e a pessoa que supostamente lhe ajudaria (que era marido da vítima a qual Alex fora condenado) coloca uma composição de Bethoven no ultimo volume. O protagonista, devido ao seu tratamento, não mais aguenta tanta tortura e se joga da janela.

Acaba por sobreviver e vai parar no hospital. Diante do fracasso de “cura” enquanto cidadão comum, a mídia começa a pressionar o governo, que oferece uma real cura para o protagonista: eles desfariam o bloqueio que reprimia Alex por seus pensamentos e até mesmo ofereciam um emprego com um alto salário. Porém Alex deveria preservar os interesses do governo fingindo que o tratamento havia funcionado.

Alex aceita e volta a sentir desejo sexual e vontade de praticar vandalismo, porém entra num dilema após ver um ex-membro de sua gangue casado, responsável e vivendo uma vida comum: será que valeria a pena ser um gangster ou viver uma vida justa? Afinal Alex havia crescido e agora era tempo de replanejar o seu caminho (esta reflexão final não está no filme).

A primeira reflexão sociológica que podemos iniciar reside no comportamento dos jovens que são maus enquanto convivem numa sociedade que é tão má quanto eles. De certa maneira, temos um efeito influente causado por um estilo de vida dominado pela mecanização de processos sociais, como aqueles provenientes da revolução industrial, que condenou todos os seres à uniformidade de comportamento. Desta maneira, visando sempre o lucro, a nova sociedade capitalista impõe um modo comum aos seus habitantes, cuja domesticação do ser impede que ele olhe para a sociedade e passe a enxergar apenas a si mesmo (conceito já explorado pelo filósofo Michel Foucault em outras ocasiões).

Desta maneira temos tantas pessoas preocupadas somente em viver suas vidas adornadas de tecnologia, como a televisão, que se esquecem da vida social e param de dar atenção à problemas que estão longe de seu campo de visão (como política, segurança e educação – pontos fundamentais de compreensão da narrativa). Desta forma, os jovens desamparados estão por sua própria conta, o que faz florescer um levante de gangues que apenas devolvem, de alguma maneira, o medo e a dor que a atual sociedade lhes ofereceram. Ou seja, as gangues e a juventude transviada nada mais representam do que uma abstração menor da sociedade como ela é na visão apocalíptica de Burguess.

Enquanto praticantes de atos violentos, Alex e sua turma existem para o mundo, onde em situação oposta eles simplesmente ficariam invisíveis ao sistema. No próprio modo distópico de pensar, o mundo é ruim e ignorar a violência tem resultados catastróficos, que traduz a linha “causa e consequência” ou “ação e reação” com enorme clareza.

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A segunda reflexão tem origem na segunda parte da história, quando Alex é submetido ao tratamento experimental sugerido pelo governo. A substituição da pena do protagonista não é tão diferente do que o ex-vândalo cometia enquanto perambulava pelas ruas inglesas: violência. Enquanto uma é física e ilegal, a outra é moral e respaldada pela lei. Foucault também já discursou sobre este assunto logo no primeiro capítulo de seu livro Vigiar e Punir: punir a violência com violência, punir o assassinato com assassinato, enfim, fazer o outro pagar na mesma moeda. Mas não estaríamos transgredindo a lei, uma vez que ela deveria ser universal, ao praticarmos estes atos? Sim, portanto vivemos numa sociedade de desiguais.

Não obstante, temos a questão do condicionamento por imagens, que são capazes de gerar sentimentos, opiniões e traçar direções para cada ser tomar como seu caminho. Entramos numa questão fundamental do livro, que é o nosso direito a liberdade. Uma vez que nosso comportamento pode ser moldado e mesmo a nossa essência pode ser transformada por imagens, perdemos o referencial. Ser livre se torna um estado utópico da condição humana. Numa época onde as imagens predominam cada um dos nossos lares através de televisores, nossa vida vai sendo ditada e nós vivemos como marionetes manipuladas.

O livre arbítrio deixa de ser uma opção e passamos a viver sem pensar, fazer sem medir e responder sem nos questionar. Esta mecanização do homem o faz um ser “tão bizarro quanto uma laranja mecânica” (expressão anglo-saxônica de onde o título do livro foi retirado). Parece-me razoável associar esta análise à invasão tecnológica presente em nossa vida.

Outro ponto de reflexão importante a ser observado pela sociologia é o resgate do homem selvagem em homem útil ao sistema, sem que a sociedade esteja disposta a acolhe-lo novamente. Este mesmo ponto já foi levantado pela psicologia – com Irvin D. Yalom – num ponto onde ele diagnosticou a recuperação de diversos pacientes, porém a desconfiança constante da família fazia com que o paciente entrasse em recaída, num momento onde, segundo as palavras do americano, “quem precisava de terapia era a família para aprender a aceitar que o seu parente estava curado“. Quando Alex sai da prisão não é diferente, assim como acontece nos dias de hoje: não há garantias para a sociedade que o acusado jamais voltará a cometer o mesmo erro, por isto notamos uma postura de discriminação massificada.

Por fim, Alex aprende o jogo das imagens e do interesse. Em pró de sua salvação, aceita um acordo do governo onde ele finge para as pessoas que está curado em benefício de um grupo privilegiado de comandantes. Logo ele entende que o mundo é composto de hipocrisia e maldade. E se é assim com Alex, que é um caso superficial em relação aos demais, imagine nos bastidores do poder? É bem provável que Burgess esteja nos oferecendo uma crítica aos controladores do sistema capital.

Se no livro temos uma semântica intransponível para as telas, Kubrick magistralmente pinta com cores sombrias algo que jamais veremos no livro. Ele não só manteve todo o dialeto nasdat: além da habilidade com sua câmera, o diretor introduziu uma trilha sonora (mescla entre música clássica e música de sintetizadores eletrônicos) de uma forma que deixou as tomadas ainda mais sombrias do que no texto original. Aposto todas as minhas fichas que a cena de abertura do filme é uma das mais memoráveis de todos os tempos.

Portanto não experimentar um pouco desta suculenta laranja mecânica é deixar de entender o mundo como ele é, a construção de um sistema totalitário, a liberdade aparente e o pensamento alienado à algo que não é mais você. Burgess nos oferece a oportunidade de caminhar entre trilhos sinuosos e a tomar uma postura crítica em relação ao mundo. Sendo assim, não percam por nada este clássico. Se você não leu ou viu o filme, faça isto até o final da próxima semana após ter lido esta breve análise e sejam bem-vindos ao mundo de Alex.

Por: Evandro Venancio.  Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

LARANJA MECÂNICA. 1971. Reino Unido/EUA. Direção: Stanley Kubrick. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Warren Clarke, Michael Bates, John Clive, Adrienne Corri, Carl Duering, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Gover, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley, Sheila Raynor. Gênero: Crime, Drama. Duração: 136 minutos. Baseado no livro de Anthony Burgess.