Teatro – Beije Minha Lápide (2014)

beije-minha-lapide_2014.jpgA nova peça de Jô Bilac – Beije Minha Lápide – é um primor de montagem. Dirigida por Bel Garcia, a trama gira em torno do escritor Bala, que ousa romper as regras literalmente ao quebrar a parede de vidro que protege o túmulo de Oscar Wilde dos beijos dos fãs no cemitério Pére Lachaise em Paris.

beije-minha-lapide_teatroNa prisão, o confronto com a filha, a advogada e o policial irão misturar conflitos reais com os delírios literários do célebre e polêmico escritor.

O texto, apesar de complexo e denso, flui fácil e mantém interesse até o fim por conta do elenco talentoso e bem dirigido encabeçado pelo veterano Marco Nanini e por sábias incursões de humor elegante e mordaz que aliviam o drama.

A cenografia, ainda que prejudicada pelo restrito espaço do teatro dos Correios, é uma feliz coadjuvante do excelente trabalho dos atores com um cubo transparente central que representa o cárcere, criando belos efeitos etéreos de luz e projeções que só intensificam a força dos diálogos e monólogos.

Muita coisa interessante é citada explicitamente e nas entrelinhas ao longo de cerca de 80 minutos de espetáculo. Relaxe, mas assista atento e com a mente aberta, pois afinal, como é dito na peça: “O diabo mora nos detalhes.

Por Carlos Henry.

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A Suprema Felicidade (2010)

Eu  gosto do Jabor, aquele cheio de verbos, empolgado. Quando leio seus textos, até consigo ouvir sua voz e ver seu dedo enérgico em riste a cortar os ares. Então, esse excesso de verbos transpassaram para o filme A Suprema Felicidade

Achei bonita a produção, a reconstituição de  uma época onde tudo era tão importado, tão estrangeiro principalmente a sensualidade.  Se imediatamente ao sair do cinema, me perguntassem  sobre o que trata o filme, minha resposta imediata seria… Sobre o fim das coisas! Sobre o que mesmo considerado correto está errado, ou não deu certo…  Sobre os caminhos que a iniciação sexual  nos idos 50…

Se tivessem me contado que o filme é autobiográfico, talvez eu o entendesse melhor. A mim pareceu que os argumentos que compõem o filme seriam suficiente para umas três produções:
– a relação de Paulo (Jayme Matarazzo ) e seu avô Noel (Marco Nanini),
– o relacionamento dos pais de Paulo,
– a iniciação sexual de Paulo.

Sendo uma biografia entende-se esse tudo ao mesmo tempo, é assim que a vida é.  Como se fossem vários episódios compondo um mesmo filme, as cenas se vistas isoladamente já depreendem em si um valor, um fato, uma mensagem. Por isso cheguei a pensar que Sofia (Mariana Lima) a mãe de Paulo teria enlouquecido, seria a informação de que mulheres reprimidas e castradas surtam mas voltam logo ao normal, ou simplesmente uma reminiscência do diretor? Ou ainda uma anotação: ‘Olhem, naquele tempo era assim, as mulheres eram escolhidas pela beleza e carisma e acabavam verdadeiras trancafiadas em nome da oral e dos bons costumes’…

O comprador de quinquilharias (Emiliano Queiróz) que não aceita as recordações de família fala de um comportamento ético que se perdeu no tempo. O pipoqueiro falastrão, Bené (João Miguel) que ainda existe em algum subúrbio longínquo dá um tom divertido.

As imagens são belíssimas mas algumas passagens me deixaram no ar e assim talvez seja na obra porque assim é na nossa vida. Mas que algumas cenas poderiam não ter existido, com certeza, como por exemplo,  a cena em que aparece um teco-teco a fazer malabarismos e Sofia feliz e saltitante grita: ”ele faz isso por mim!” E  abraça o filho que nesta cena tem 8 anos embora ela traga a caracterização de quando ele tem 19…

Talvez  Jabor tenha aproveitado o filme para uma terapia, para incendiar seus navios e contar como era bom poder freqüentar bordéis, pagar pelo sexo e ainda escolher com quem  fazê-lo. Talvez tenha ocorrido algo similar à cena do eclipse e isso justificaria seios nus fora de hora.

Talvez tenha querido dizer que a suprema felicidade não está na eletrônica e informações full time em tempo real, mas em a partir da nossa vivência poder fazer escolhas de acordo com o nosso afeto e fé. Que ser criado em colégio de padres não era uma boa contribuição à religiosidade das pessoas, que freqüentar prostíbulos e bordéis não faz de ninguém um tarado. Que a despeito de tanto glamour importado os mortos eram carregados em carroça à luz do dia em nome de um  atraso científico na capital federal e no país, mas que não era  isso que tornava as pessoa infelizes.  Que Paulo sempre gostou de meninas complicadas,  principalmente por seu amor começar a partir dele mesmo em sua imaginação, sonhos e fantasias. Que tanto faz catolicismo ou espiritismo, religião é algo pra envenenar a realidade das pessoas.

Nanini está magistral como Noel, o avô de Paulo – mas quando foi que este ator foi menos que  maravilhoso? Dan Stulbach é de uma competência emocionante mostrando que amar não é o suficiente para que se seja feliz ou para fazer alguém feliz.  Elke Maravilha no papel de ex-prostituta casada com o avô de Paulo,  bem que poderia ter um aproveitamento melhor, mas é que me parece que Jabor estava a fim de falar mesmo do universo masculino…. Cabeção, o amigo de Paulo ao se perceber homossexual, ao demonstrar (para a platéia, porque a anta do Paulo só pensava  em Deise, a maluquete médium Maria Flor) que amava Paulo some num cenário enfumaçado como se fosse pro tal reino dos céus chato e carola apregoado pelos padres…

Entendo Jabor, você nunca teve tendência a ser gay e que deixar isso bem claro nesse filme que não é autobiográfico, mas era assim que se fazia com os amigos naquela época, jogava o cara na névoa do esquecimento? Não sei , mas é fato que depois de tudo,  o que fica são impressões que resultam no perfil que criamos de nós mesmos. Não tem como não ter saudade da nossa infância, não tem como no final de tudo avaliarmos que fizemos o melhor com o sempre pouco que temos no momento de decidir.  Não tem como pensar que neste A Suprema Felicidade, ninguém era feliz nem alegre… O mais feliz se confessa apenas alegre e conta teve 10 minutos de suprema felicidade.

Paulo era um cara intenso, curioso com pressa de  viver, fora o avô e as putas não tinha muito com o que se alegrar, saber que a felicidade não existe, com sorte somos alegres até que não foi tão ruim, chato foi a decepção que me acompanhou na saída do cinema eu preferia como Paulo  acreditar que a felicidade existe se sair procurando por ela. Divertidas  as participações cenas com os padres  (Ary Fontoura, Jorge Loredo e Raphael Molina) e suas maldições infernais.

Mas sei lá, achei esse Paulo um tremendo de um egoísta pelo seu comportamento alheio à família, por representar o jovem de sexo masculino de uma época e as garotas em que segundo Jabor “não davam” e vagar pelos bordéis sempre a escolher e não comer ninguém e terminar por acabar com a fonte de renda de Marilyn e sua mãe. Aos egoístas, mesmo os poucos 10 minutos de felicidade suprema será negado talvez por isso um filme tão nostálgico onde ninguém consegue realmente estar feliz ou alegre…

Postado por Rozzi Brasil

A Suprema Felicidade (2010)

Arnaldo Jabor, o excelente cineasta dos ótimos “Eu te amo” e “Tudo Bem” quebra o jejum de décadas e reestreia nas telas com “A Suprema Felicidade”. O diretor vem sendo duramente criticado por ser pessoal e nostálgico nesta última obra, esquecendo que Fellini, Ingmar Bergman e outros gênios já fizeram o mesmo em vários de seus trabalhos.

Munido de um elenco excelente, Jabor reinventa suas próprias reminiscências com maestria, sensibilidade e experiência, criando cenas que provavelmente não serão esquecidas facilmente. Evitando um roteiro linear, a ação se concentra numa família comum no meio do século XX desfilando tipos e situações que poderiam se misturar às lembranças de qualquer um. O protagonista é o menino Paulinho (Caio Manhent) que aparece em várias idades sem ordem cronológica. Quando os hormônios afloram, o rapaz (Jayme Mataraz) se envolve com uma estranha cantora médium (Maria Flor envolvida com espíritos e ectoplasmas) e com uma belíssima artista de cabaré (Tammy Di Calafiori) sem perceber que o melhor amigo também se interessa por ele.

O avô (Marco Nanini) é músico e sugere o título em vários momentos. É casado com uma polaca vivida pela ótima e subestimada Elke Maravilha. Dan Stulbach faz o papel do pai aviador com a perfeição de sempre e Mariana Lima vive a esposa intensa e atormentada pelo constante fantasma da traição. Há personagens e cenas paralelas que pouco acrescentam ao roteiro mas colorem e floreiam o enredo com eficiência, como o pipoqueiro desbocado (João Miguel de “Estômago”), o padre afetado (Ary Fontoura) que ameaça as crianças com as punições divinas ao pecado do “sexo solitário”, a mãe bêbada (A talentosíssima Maria Luísa Mendonça) que agencia a própria filha adolescente e a interessante sequência de homicídio num movimentado e decadente prostíbulo.

As memórias do autor podem confundir-se com as do expectador mais sensível que é lembrado o tempo todo de que é apenas uma obra de arte flertando com os sentimentos, a descoberta do sexo, a ambiguidade, o carnaval daqueles tempos em imagens reais, o sobrenatural, a música e o glamour de alguma época. Apesar do desfecho não corresponder ao nível geral do filme, “A Suprema Felicidade” é puro cinema e um deleite para os sentidos.

Carlos Henry

O Bem Amado (2010)

A adaptação de Guel Arraes para a peça de Dias Gomes: “O Bem Amado” é recheada de muitas gargalhadas e de um apuro técnico notável além de um elenco uníssono.

A estória da peça original, eternizada com uma novela homônima de grande sucesso, gira em torno de um prefeito neologista de poucos escrúpulos que tem problemas para arrumar um defunto e inaugurar o cemitério local, ponto chave de sua campanha de popularidade. A novela, que aconteceu em plena ditadura, suscita uma inevitável e por vezes injusta comparação ao extraordinário ator Paulo Gracindo com o não menos talentoso e engraçado Marco Nanini que também compôs um Odorico irretocável.

José Wilker interpreta um Zeca Diabo peculiar e original, assim como Matheus Nachtergaele e seu Dirceu Borboleta. Mesmo o par Maria Flor/Caio Blat que entra na trama apenas para um condimento romântico, somam um colorido especial ao conjunto de personagens curiosos como o inesquecível trio das irmãs Cajazeiras defendido magnificamente por Zezé Polessa, Drica Moraes e Andréa Beltrão. Elas também optaram por não mimetizar o que já estava consagrado, criando algo novo e inteligente. E fizeram bonito.

A mescla de cenas reais daquele conturbado período político (anos 60/80) confunde-se com habilidade aos exageros de Sucupira, a cidade que na verdade é o nosso país, formando uma deliciosa sátira àqueles acontecimentos.

No mais, é diversão pura e sem restrições num roteiro enxuto e bem ritmado com direito ao palavreado ímpar do Odorico, belas paisagens de Maceió, música adequada e até uma homenagem bacana ao filme “Tubarão”.

Carlos Henry.

O Bem Amado. 2010. Brasil. Diretor: Guel Arraes. Roteiro: Cláudio Paiva e Guel Arraes. Elenco: Marco Nanini (Odorico Paraguaçu), Maria Flor (Violeta), Caio Blat (Neco Pedreira), José Wilker (Zeca Diabo), Tonico Pereira (Wladymir), Andréa Beltrão (Irmã Cajazeira – Dulcinéa), Drica Moraes (Irmã Cajazeira – Judicéia), Zezé Polessa (Irmã Cajazeira – Dorotéa), Matheus Nachtergaele (Dirceu Borboleta), Bruno Garcia (Ernesto), Edmilson Barros (Chico Moleza). Gênero: Comédia. Duração: 100 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos. Baseado na obra de Dias Gomes.

ROMANCE (2008)

romance1Romance é uma surpresa. Delicado,inteligente, bem humorado, instrutivo. Discute o amor, a paixão que podemos ter por uma pessoa, pela arte. Recheado de ótimos diálogos, de lindas cenas de amor, até me vi satisfeita por ver Andréa Beltrão diferente das personagens que ela sempre interpreta de maneira, que a mim ficam parecendo tão iguais. Há diálogos no filme que tive vontade de escrever, decorar para não perder de vista. Há coisas do velho Shakespeare tão frescas! E ainda a informação que todos os romances trágicos nasceram de Tristão e Isolda, a partir do século XII e que o beijo final do início dos romances com a felicidade eterna que ninguém vê, começaram no século XVII.

Como fã de cinema brasileiro, claro que vai parecer suspeito, como originária da geração barzinho com violão e papo cabeça, encontro temas e mais temas para discussões e risadas. A verdade é que, não vou ao cinema para não gostar mas nesse filme não precisei fazer o menor esforço.

romance_02Discussões batidas como diferença entre amor e paixão, discussões profissionais entre a romantização do teatro e a pasteurização da TV que se dá o direito de mudar finais de clássicos e decidir o que o público realmente gosta de ver.

Wagner Moura interpreta o inteligente e idealista Pedro, que como tempero leva uma certa dose de ciúme. O cardápio de questões é bem extenso. Um amor recíproco pode ser infeliz? A paixão tem duração pré-definida? Até que ponto podemos nos apaixonar pelo que vemos e não pelo que o outro é? As histórias precisam ter sempre um final feliz? Uma obra precisa apresentar coerência? O ator tem que escolher ser de teatro ou TV e é possível fazer os dois ao mesmo tempo? Como lidar com o parceiro que se torna bem sucedido ao escolher o caminho que decididamente não queremos trilhar?

O público que busca a ficção, afinal, quer morrer de rir ou debulhar-se em lágrimas? Letícia Sabatella envelhecerá algum dia? Quanto tempo de projeção um monstro como Marco Nanini precisa para roubar a cena? É impagável seu aparecimento na trama e sua entrada numa das ficções dentro desta ficção. Chega a ser hilária a nuance de José Wilker interpretando “deus”. Nada difícil, associarmos alguns personagens com pessoas que conhecemos de tanto que vemos nas revistas de celebridades…

Ao fim de tudo somos brindados com várias versões de Tristão e Isolda, com finais diversos. Considerei um brinde as cenas de nus, em se tratando de romance, sexo é sempre bem-vindo, sorrisos e risadas também!

Romance é um filme sobre romances e amores e nossas reações diante das contraditórias situações nas quais os sentimentos nos envolvem.

Finalmente um filme que uma vez em DVD eu veria muito mais de uma vez.

Por: Rozzi Brasil. Blog: Exoticum.

ROMANCE. 2008. Brasil. Direção e Roteiro: Guel Arraes. Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, José Wilker, Bruno Garcia, Tonico Pereira, Vladimir Brichta, Edmilson Barros, Marco Nanini. Gênero: Drama, Romance. Duração: 100 minutos.

Lisbela e o Prisioneiro (2003)

Não sei bem como falar, tem pouquíssimo tempo que escrevo sobre filmes e em um caderno que ninguém lê… rs
Enfim, vou tentar.

É aquela história conhecida do malandro conquistador e a mocinha noiva.

Acabei de assistir e continuo com o sorriso bobo no rosto. Deve ser pelo final feliz de filme que termina com beijo apaixonado depois de tanta vontade de ficar junto. Mas Lisbela e o Prisioneiro me encanta e não sei bem o porque. Aplaudo as cores, a atuação, o roteiro, a trilha sonora e o jeito como me leva. Intercala o sentimento e a história de Lisbela com o filme que ela vê. E talvez seja isso que dê a esperança de acreditar, “o amor é filme“.

Em suma… Lisbela e o Prisioneiro derruba a máxima – muito em volga nos dias de hoje – de que um produto popular tem de ser necessariamente ruim.” ( Roberto Guerra).

Por: Isabela Herig.

Lisbela e o Prisioneiro. 2003. Brasil. Direção e Roteiro: Guel Arraes. Elenco: Débora Falabella, Selton Mello, Virginia Cavendish, Marco Nanini, André Mattos, Bruno Garcia, Tadeu Mello, Lívia Falcão, Paula Lavigne, Aramis Trindade. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 110 minutos.