Mesmo se Nada Der Certo (Begin Again. 2013)

mesmo-se-nada-der-certo_2013notas-musicaisSe a música ou o que pode resultar dela acaba bagunçando a mente de dois corações, ela também pode levá-los a um novo começo de vida. Meio que perdidos fez o destino se encontrarem por uma música que vinha quase como uma despedida para quem a cantava. Já para quem a ouvia ela lhe injetara sangue nas veias despertando o dom em descobrir talentos. Assim, ambos embarcam nesse novo trem da vida mesmo que inicialmente para darem um troco na vida de então. Até porque não custava nada embarcarem nessa nova viagem pois seguindo a máxima: mesmo se nada der certo, pelo menos eles tentaram. Muito embora o título original é mais eloquente: de que não importa o quanto sinta tão por baixo, sempre é tempo de começar de novo! E quem seria esses dois corações feridos?

Antes o aviso de que para traçar o perfil desses dois corações terá alguns spoilers. Com isso se ainda não viu o “Mesmo se Nada Der Certo” assista primeiro! É uma linda história de superação, de encerrar um capítulo, de enfrentar os próprios fantasmas… Enfim, de um novo recomeço onde a música é o chefe de cerimônia! Agora sim, vamos conhecê-los!

O amor é dar a alguém a oportunidade de te destruir, mas confiando que não fará isso!“.

mesmo-se-nada-der-certo_2013_02Começando por aquela que cantou! Ela é Gretta! Uma jovem meiga sem planos para a fama. A ela já bastava traduzir em letra e melodia seus sentimentos. Baladas românticas para em especial uma outra voz cantar, seu então namorado Dave (Adam Levine). Por ele não se importava em ficar nos bastidores, desde que não apenas como uma fã. O acampanhara de Londres para Nova Iorque: ele estava na iminência de se tornar um pop star. Mas o sucesso mexeu demais com ele deixando Gretta para escanteio, e até no coração dele: trocando-a pela nova empresária. Sentido-se perdida Gretta encontra um antigo amigo que também viera atrás de um sonho na Big Apple, Steve (James Corden). Mas diferente de Dave que já chegara com todas as portas abertas, Steve viera com a cara e a coragem. Cantado pelas esquinas alternando com os dias onde cantava num barulhento bar. Steve é a outra ponta dos que estão em busca da fama. Mesmo assim, ele divide o pequeno palco com ela. Numa de expor seus piores pesadelos, Gretta aceita cantar em público naquele dia em especial.

mesmo-se-nada-der-certo_2013_01Pausa para falar de James Corden e de Adam Levine. É que Corden desbancou o outro na performance. Não que Levine fez feio, fora mediano. Já Corden seguiu a máxima de que não há papéis pequenos. Muito embora Levine tenha seguido o esteriótipo do personagem: um canastrão. Enfim, dois personagens importantes nesse momento de Gretta em Nova Iorque! E já que falamos de atuações, agora sim a dela! Quem interpreta Gretta é Keira Knightley que confesso me surpreendeu até por deixar de lado as caras e bocas tão comuns em outros personagens que interpretara. Nesse filme ela está mais contida no gestual levando-a a uma excelente na performance. Enfim, até seus olhares fez jus a personagem! Gretta ficou memorável!

mesmo-se-nada-der-certo_2013_04Seguindo agora com aquele que a ouviu na tal noite meio tenebrosa para ambos, ele é Dan! Um descobridor de talentos no campo da música. Ele encontra o caminho para que mesmo em estado bruto a música chegue as pessoas. Sem máscaras, na essência. O que faz dele ser ainda muito querido e respeitado por aqueles que já alçaram voos solos, como o Rapper Troublegum (CeeLo Green). Mas até pela efemeridade do mundo da fama, seus métodos ficaram arcaicos para Saul (Yasiin Bey), sócio e co-fundador da gravadora que ambos criaram com esse olhar no artista, e não no lucro com as celebridades momentâneas.

Os tempos mudam. As pessoas têm que mudar com elas.

mesmo-se-nada-der-certo_2013_06Pausa para falar de Yasiin Bey. Ele até se desligou de uma outra ai sim de uma performance memorável, o Mos Def de “16 Quadras“, de 2006. Mas o seu Saul ficou no mediano. A ponto de me fazer pensar em algum outro ator ao travar esse duelo com Dan o deixaria memorável. Até porque Saul se rendera a fabricar sucessos pensando muito mais lucro. Até já tinha um método para isso. Enfim, Yasiin Bey não fez feio, mas não roubou as cenas. Ou mesmo que também poderia ter feito uma dobradinha incrível com Dan até porque havia uma trama importante nesses confrontos. Ali havia passado e presente de ambos passado a limpo, e mesmo que passando brevemente por essas histórias. É! O Saul de Yasiin Bey ficou a desejar.

Por isso amo música. Uma cena banal de repente se enche de significado. Todas as banalidades de repente se tornam pérolas de beleza e efervescência graças à música.”.

mesmo-se-nada-der-certo_2013_03Agora sim voltando a falar de Dan! Na e da performance de Mark Ruffalo que mesmo dentro de um esteriótipo comum a outros personagens que já interpretou, seu Dan ficou irretocável! Soube com maestria compor seu Dan. Alguém que do lado profissional não ia nada bem, o no pessoal mais ainda tanto que ficara sem um norte. Dan ainda sentia a separação. Sua ex-esposa Miriam (Catherine Keener) ainda estava presente em seus pensamentos. E sem saber o motivo certo da separação dos pais, nem mesmo o da fase ébria do pai, sua filha adolescente Violeta (Hailee Steinfeld) criara uma barreira ao coração desse pai. Com tudo isso, o Dan de Mark Ruffalo passa do drama carregado de um adulto amargurado à inocência da criança que ainda carregava em si, e sem tirar nossa atenção! Bravo, Mark Ruffalo!

Mas sou eu quem tem que mudar.

mesmo-se-nada-der-certo_2013_07Não sei se Catherine Keener se sentiu intimidada com tamanha energia de Mark Ruffalo em seu personagem. Mas também não fez feio. Gosto muito de suas performances, mas não deu muita química com Ruffalo tal como a com Steve Carell em “O Virgem de 40 Anos“. Ou até pelo o que sua personagem fizera, ela mostrou-se sóbria demais. Se bem que devido as atuais circunstância, a queda do ex-marido a deixara pedante e ai sim compôs bem a Miriam. Em relação a Hailee Steinfeld em “Bravura Indômita” já mostrara que está no caminho certo: com talento para grandes ou pequenos papéis.

Transformando esse tributo à essa grande louca beleza e fraturada bagunça que é Nova York.

Em “Mesmo se Nada Der Certo” até pode transparecer que o Diretor John Carney partiu das músicas para então compor sua história de tão perfeita integração entre elas. Sem esquecer também que o Roteiro é dele. O que traz a lembrança de um outro filme de sua autoria, o “Apenas Uma Vez“, de 2006. Por também brincar, ousar com as músicas compondo uma história. Onde em ambos o destino levou dois corações feridos a se encontrarem e daí como numa parada para revisão tentarem fechar um capítulo e sem as bagagens já inúteis para o que virá a seguir. Acontece que mesmo tendo ambos os filmes esse pano de fundo, John Carney os fez tão únicos que o eleva à categoria dos grandes. Ou mesmo que ainda com poucas obras até pela criatividade ele já está a caminho desse panteão. São excelentes filmes! Onde “Apenas Uma Vez” está numa oitava maior até pela simplicidade da obra como um todo! Muito embora ele além de usar tudo que a Big Apple tenha para oferecer ao compor “Mesmo se Nada Der Certo” o fez de um jeito tão vibrante e ao mesmo tempo romântico no espírito que nos lava a alma! Um filme para ver e rever! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Mesmo se Nada Der Certo (Begin Again. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Ilha do Medo (Shutter Island. 2009)

por Mario Braga

Ambientado em 1954 e sendo uma adaptação do romance de Dennis Lehane. O filme conta à história de um detetive que faz uma investigação sobre o sumiço de uma assassina em Shutter Island, local da trama.

Mais uma vez o diretor Martin Scorsese é capaz de nos surpreender nesta narrativa, a princípio complexa, porém recheada de trauma, neuroses e paranoia. Como um perfeito condutor, Scorsese mostra ainda que tem bastante fôlego de um veterano e que pelo jeito não pensa em se aposentar (ainda bem). Outro detalhe primoroso do filme é à sua fotografia.

Martin Scorsese é capaz de pescar a essência dos filmes de Alfred Hitchchock quando fez o remake como “Cabo do Medo”, e de fazer um excelente drama como “Táxi Driver” (quando começou a se destacar como diretor na época).

Tudo Sobre Minhas Mães

Dois filmes lançados no verão americano tem como tema a maternidade- “Destinos Ligados” ( Mother and Child, 2010), dirigido por Rodrigo Garcia, junta maternidade/adoção e, Minhas Mães e Meu Pai ( The Kids are All Right, 2010) de Lisa Cholodenko, junta maternidade/familia, e, em ambos casos, os filhos não estão bem.

O foco de “Destinos Ligados” é praticamente nas três personagens centrais – interpretada por Annette Bening (Karen), Naomi Watts (Elizabeth) e Kerry Washington (Lucy). São três mulheres simpáticas, mas nenhuma é extremamente agradável. Karen vive uma eterna amargura desde que aos 14 anos foi forçada pela mãe a colocar a filha para adoção. Elizabeth é a filha “perdida” de Karen. Hoje, aos 37 anos de idade, é ainda solteira, fria, sexualmente permissiva, ambiciosa, e bem sucedida como advogada. Ela seduz seu novo chefe, Paul (Samuel L. Jackson), que vive “embriagado” e aterrorizado pelo seu auto-controle. Elizabeth também, fora do que parece, é pura maldade, vai para a cama com o vizinho. Numa cena, ela deixa sua calcinha dobrada na gaveta de roupas íntimas da mulher do vizinho, que é alegre e está gestante – numa maneira de fazer todos ao seu redor  infelizes assim como ela!  Depois, Elizabeth engravida, abandona o emprego sem maiores explicações, e sua estória obviamente se conecta com a vida de Lucy, que é uma bem-sucedida dona de padaria. Casada com Joseph, mas frustrada pelo fato de não poder ser mãe, ela entra num processo complicado de adoção, e é “esmagada” quando a mãe biológica, de repente muda de idéia. E, ainda pior, o marido do nada diz que quer ter seu próprio filho, algo que Lucy é incapaz de lhe dar.  Lucy adota a filha de Elizabeth, e vemos na tela que ser mãe não é algo tão fácil assim.

Pontos Fortes:

O elenco é excelente, mas destaco a Bening, que faz a desequilibrada, infeliz, estranha e problemático Karen, de uma forma tão natural, que quando a personagem se torna mais amável e compreensivel, é facil de notar que uma atriz menor não teria sido capaz de dar sentido as ações de Karen.

O tema adoção é algo bastante delicado, pois foge da ordem natural, onde pode confundir ou alienar, e o filme faz uma boa leitura sobre o tema.

Ponto Fraco

O roteirista e diretor Rodrigo Garcia entrelaça três estórias, num estilo bem “Crash” ( 2005)-, mais parecido com  o recente “The Burning Plain” ( 2009), onde os pecados dos pais são frequentemente visitados em cima dos seus filhos, e como nós precisamos nos relacionar com outras pessoas para sermos plenamente humanos- não apenas para nosso próprio bem, a fim de levar uma vida plena (embora também por esse motivo), mas para salvar nossas crianças a seguir o mesmo caminho. Mas o problema do filme de Garcia é sua cara de novela das 9. Além disso, achei os personagens masculinos  superficiais e estereotipados- todos são fortes e razoáveis e as mulheres são neuróticas ou totalmentemente instáveis.

Já “Minhas Mães e Meu Paié um filme melhor, mas longe de ser um grande filme. Achei-o um caso raro de filme, que descreve a cultura pop de hoje- é uma comédia dramática-, composta principalmente de atuações expressivas e belos diálogos. As conotações de tristeza há dentro de cada personagem- por isso é mais importante prestar muita atenção ao que eles nem sempre estão dizendo. Cada indivíduo neste filme estão à procura de algo para preencher suas vidas.

As mães aqui são um casal de lésbicas, e elas não recorrem a um processo de adoção, mas de um laboratório de esperma, onde cada uma tem um filho.  Quando Joni (a filha) à beira de ir para a universidade, é encorajada por seu irmão mais novo (Laser) a descobrir quem é o doador de espermas, toda a familia descobre que a reunião com o doador (Paul) será o maior erro de suas vidas. O filme faz o ajuste dos papéis na construção familiar moderna.

Pontos Fracos

Não achei que haja química entre o casal de lésbicas interpretado por Bening (Nic) e  Moore (Jules). Nic é uma mulher perfeccionista, de personalidade forte,“butch”(o homem na relação com seu modo de se vestir e da linguagem), dependente de vinho tinto, mãe controladora, e uma esposa um pouco ausente por causa de sua profissão- médica. Na verdade, não consegui me envolver com o dilema de Nic, que é basicamente ser a mãe-modelo/perfeita, e demonstrar total insegurança diante da presença de Paul. E, como médico, Nic me pareceu um tanto quanto cega, que não percebe que seu filho está usando drogas.

Moore faz uma dona de casa insatisfeita, irritada e insistente em seu suposto potencial artístico e criativo. Sim, me envolvi com o drama de Jules, mas achei precipitado o começo da  relação sexual entre ela e Paul, me deixando a impressão que ela se sente mais realizada transando com Paul, do que fazendo amor com Nic- por sinal,  achei a cena de sexo entre as duas, de puro mau gosto, como se o sexo entre mulheres ficasse a base de um consolo, e de assistir filmes pornôs masculinos!. Eu posso dizer honestamente que eu nunca conheci nenhuma lésbica, mãe ou não, que assistam filmes pornôs masculinos. Me pareceu que a Cholodenko, que é lésbica, quis destacar o fato que a indústria pornô representa o sexo lésbico de forma não realista, mas o que torna as pessoas homossexuais não são os atos de determinado sexo, mas a atração para o sexo, coisa que a Cholodenko esqueceu de acrescentar em Nic e Jules.

Também achei que Cholodenko deveria ter dado um tratamento melhor ao personagem Laser (Josh Hutcherson). No início do filme fica a impressão que o personagem seria o fio conduto da estória. Por exemplo, Laser quer conhecer o doador de esperma como se quisesse preencher algo na sua vida, mas praticamente, Cholodenko deixou o personagem meio perdido, sem saber o que fazer, e mesmo a sua relação com o melhor amigo Clay, permaneceu vazia.

Pontos Fortes

Paul (Mark Ruffallo) é um cara descontraído, amável, imaturo, não confiável, proprietário de um restaurante, e dono de estilo sonhador. O único indivíduo com algum senso entre a satisfação profissional e pessoal. E, pouco exigente em um relacionamento sexual com a bela Tanya (Yaya DaCosta). Mesmo assim Paul me pareceu o individual mais traumatizado no decorrer da estória. Ele começa a aparecer menos simpático e menos cômico, e ao fim do filme, Paul  não consegue voltar ao que era antes, depois de se apaixonar por Jules. Ruffalo, um ator que sempre achei fraco, rouba todas as cenas que aparece nesse filme.

A cena quando Nic canta com Paul, a canção de Joni Mitchell “All I want”-as expressões faciais de Bening são gloriosamente embaraçosas, mas retratam muito bem a mensagem da canção:

I want to talk to you, I want to shampoo you
I want to renew you again and again
Applause, applause – life is our cause
When I think of your kisses
My mind see-saws
Do you see – do you see – do you see
How you hurt me baby
So I hurt you too
Then we both get so blue

Particularmente, achei a cena linda, e me fez querer ouvir Mitchell durante todo o filme.

Politicamente engajado, o filme de Cholodenko faz um belo retrato sobre o casamento (quer seja gay ou não), descrito pelo persongem Jules como “algo realmente dificil.” Porém, no fundo, achei que tanto “Destinos Ligados” quanto “Minhas Mães e Meu Pai” não acrescentaram nada de novo- tem muito potencial, mas mereciam melhores diretores…ah, se eles tivessem sido dirigidos por um Robert Altman, ou por um Ingmar Bergman… ou até mesmo por um Paul Thomas Anderson… seriam algo mais do que apenas “UM FILME.”

P.S.: ah, se o Oscar fosse justo, o pessoal por trás desse lobby de premiação, poderiam ser mais sensatos, pois Bening nem mesmo merece ser indicada por “ Minhas Mães e Meu Pai”, levando-se em conta trabalhos mais relevantes de atrizes como Hilary Swank ( Conviction, 2010), Michelle Williams (Blue Valentine, 2010), Lesley Manville ( Another Year, 2010), Noami Watts (Fair Game) e até a propria Bening está bem melhor no melodrama,  “Destinos Ligados” (2010). Vir com a idéia que Bening nunca ganhou e merecer ser agraciada, é uma vergonha, pois, por que não a Julianne Moore? Ela merece muito mais do que a Bening, pois mesmo perdendo a conta das mulheres frustratas que a Moore já fez no cinema, más o que mais me encanta nesse atriz é sua capacidade de transmitir tanta veracidade em cada olhar, e em cada palavra que fala, e em cada sorriso- contagiante!-, e em cada choro- que vai do medo, da tristeza, da depressão, da dor, da alegria exagerada, e da aflição. Sempre natural!. Mas, uma certeza tenho, em 2010 não vi  nenhuma atuação que chegasse ao patamar na magistral  Natalie Portman em “Cisne Negro.”

Destinos Ligados (Mother and Child, Estados Unidos, Espanha , 2009) – 125 min. Drama Direção: Rodrigo García. Roteiro: Rodrigo García. Elenco: Annette Bening, Naomi Watts, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Lisa Gay Hamilton, Cherry Jones, David Ramsey, Jimmy Smits, Amy Brenneman, David Morse, Tatyana Ali, Gloria Garayua, Carla Gallo

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are All Right, 2010)- 101 min. Comédia Dramática. Direção e roteiro: Lisa Cholodenko. Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Josh Hutcherson, Mia Wasikowska, Mark Ruffalo, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Eddie Hassell, Rebecca Lawrence e Joaquín Garrido

Dizem Por Aí… (Rumor Has It… 2005)

Com um tempinho chuvoso, ligo a tv e no Guia um título chamou a minha atenção. Curiosa, fui olhar mais informações sobre o filme. Ali mesmo, era só teclar mais um botão no controle remoto. Numa de curtir um momento preguiçoso, em vez de cair no sono, o filme me cativou. Dai trouxe-o para vocês, mas terá alguns spoilers. Foi inevitável. Mas nada que vá tirar o prazer em ver o filme. Em ver ‘Dizem por aí…

Foi o nome do Diretor me fez de imediato querer ver o filme. Ele é o Rob Reiner. Reiner tem um jeito todo especial de falar sobre relacionamentos entre pessoas que de certa forma passam por algum momento junto. Seus filmes podem não atrair milhões de espectadores, mas seu público meio que segue seus filmes com carinho. Sendo que alguns ficam em nossa memória cinéfila, nem que o mote maior tenha sido mais por uma cena em especial. Como exemplo: é dele a cena onde Meg Ryan simula um orgasmo em pleno restaurante, no filme ‘Hally & Sally‘. Mesmo com um certo glamour, mostrando pessoas de uma classe média dos Estados Unidos, suas estórias mostram situações comuns em todas as classes sociais, e em outros lugares. É em ‘Hally & Sally’ que temos uma das frases mais românticas que alguém pode ouvir daquele que muito ama, uma verdadeira declaração de amor:

Eu vim aqui hoje porque quando você se toca que quer passar o resto de sua vida com alguém, você quer que o resto de sua vida comece o quanto antes.”

Claro que os nomes no elenco também eram um belo convite: Shirley MacLaine, Richard Jekins, Kevin Costner, Jennifer Aniston, Mark Ruffalo e a sempre maravilhosa mesmo em uma participação pequena Kathy Bates.

O filme faz uma brincadeira muito gostosa. Que acredito fazer parte do imaginário de muitos Diretores: contar o que aconteceria a mais num dos Clássicos. E Rob Reiner escolheu ‘The Graduate‘. Ficamos sabendo disso logo no início do filme. Quem nos conta é Sarah, a personagem da Jennifer Aniston. Ela vem a ser a neta daquela que inspirou e se tornou a Sra. Robinson, do Livro e depois do Filme. Quem faz a sua avó é Shirley MacLaine.

Sarah está indo com o recente noivo (Mark Ruffalo) assistir o casamento da irmã caçula. Ela não entende a calma da irmã às vésperas do matrimônio. Como também a sua própria reação no momento do pedido. Ficara muito aquém do que idealizara.

Será que só quem ouve os sinos tocando são as personagens dos filmes? Como saber se é mesmo com aquela pessoa que você quer para uma vida a dois? O que de fato fará o casamento não morrer com a rotina diária? Porque com o passar dos anos o convívio pode tirar a paixão ardente dos primeiros anos.

Não tendo a mãe enquanto crescia, Sarah se achava não pertencendo a sua própria família. Não se identificava com seu pai e com sua irmã. Achando que caíra de pára-quedas no seio daquela família. Dai, lhe veio a dúvida de ter um outro pai. Ainda como a somar nesses seus anseios, sua vida profissional não decolara. Jornalista em um grande jornal, mas escrevendo Obituários. Assim, tentando se achar, Sarah resolve investigar um mistério que ronda o passado de sua mãe. Tendo ela morrido quando Sarah era uma criança é com a sua avó que colhe as primeiras informações. Cruciais ou não, naquele momento era uma desculpa perfeita para se afastar também do noivo. Então ela parte…

Mulher pode tudo sim! Até em experimentar outros prazeres antes de tomar uma decisão tão séria: o “até que a morte os separe“. Mas desde que se desligue da relação atual. E isso vale para homens e mulheres.

Jennifer Aniston, a impagável Rachel em ‘Friends‘, tem feito muitas Comédias Românticas ultimamente. Com altos e baixos nesses filmes. Em ‘Dizem Por Aí…‘ a performance dela me surpreendeu. Creio que o mérito é o Diretor que tirou o melhor dela.

Os demais personagens estão bem, tanto em atuação como no contexto da estória. Assim, destacarei um deles, Richard Jenkins, que faz o pai de Sarah. Aquele que ela diz que não tem nada a ver com ela. Esse pai que criou as duas filhas praticamente sozinho. O filme também pode ser visto por esse ângulo: uma paternidade abraçada por amor e devoção as filhas. Uma única fala dele já traduziria tudo isso. Num dos questionamentos dela, ele responde:

“_Porque você estava dentro dele.”

A cena por si só, já emociona. Mas também faz uma bela homenagem a pais como ele.

Não é um filme que ficará memorável como ‘Harry & Sally‘, mas deixo a sugestão. Mas mais precisamente para um público que dá valor a um relacionamento duradouro; as relações que queremos que se perpetuem. Um bom filme. Que vale a pena ver e rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Dizem Por Aí… (Rumor Has It…). 2005. Austrália / EUA. Direção: Rob Reiner. Roteiro: Ted Griffin. +Elenco. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 96 minutos.

ILHA DO MEDO: A Volta do Melhor Scorsese

Por: Roberto Souza.
Após uma série de obras decepcionantes ou insatisfatórias para um realizador do seu nível, Martin Scorsese salda uma dívida com seus admiradores no extraordinário thriller psicológico ILHA DO MEDO (Shutter Island), realizado em 2010.

Quarta associação do diretor com o astro Leonardo DiCaprio, a dupla acerta em cheio após os medianos GANGS DE NOVA YORK (2002), O AVIADOR (2004) e OS INFILTRADOS (2006), exemplos adequados de filmes de qualidade “onde falta alguma coisa”.

Não tive a oportunidade de assistir ao filme na telona, mas o recebi há dois dias em Blu-ray e, sem maiores expectativas prévias, senti o prazer de perceber um cineasta de volta à melhor forma, manipulando a expressão visual e os elementos autenticamente cinematográficos no seu caldeirão de poções mágicas, em doses precisas.

O roteiro exemplar de Laeta Kalogridis adapta o magistral romance Paciente 67, de Dennis Lehane (autor, entre outros, de Sobre Meninos e Lobos). No enredo, sem dar maiores detalhes para não estragar as reviravoltas da narrativa, DiCaprio é Teddy Daniels, um agente federal que se dirige a uma afastada ilha, utilizada como clínica-presídio para criminosos com problemas mentais de gravidades diversas.

Sua missão, ao lado de outro investigador (Mark Ruffalo), é desvendar o paradeiro de uma paciente que parece ter se “evaporado” de sua cela, apesar de trancada a sete chaves. Porém logo surgem dificuldades com os diretores do estabelecimento (os veteranos Ben Kingsley e Max von Sydow), que não parecem muito dispostos a colaborar na investigação, parecendo querer controlá-la qual uma sessão terapêutica.

Por outro lado, a maior barreira à solução do enigma reside no próprio Teddy, que carrega consigo traumas emocionais oriundos de sua experiência na Segunda Guerra, além da repentina perda da esposa num recente incêndio doméstico. Em contrapartida, a atmosfera lúgubre da ilha é propícia para exacerbar seus problemas, trazendo-lhe dolorosas lembranças, agudas dores de cabeça e pesadelos recorrentes.

Não foi casualmente que Lehane situou seu romance no ano de 1954. Os EUA viviam ao máximo a insegurança da Guerra Fria com a União Soviética, do Macartismo que caçava comunistas por todos os lados ou do temor de um conflito nuclear devastador.

Assim, a paranóia individual do atormentado investigador anda de mãos dadas com a paranóia coletiva, moldada pelas injunções políticas e ideológicas do período. Ao revirar sua mente em busca de respostas, Teddy realiza uma descida ao inferno interior, percebendo o risco e a temeridade que assolam aqueles que buscam uma verdade, seja de qual tipo possa ser.

Nesse sentido, a direção de Scorsese é absolutamente perfeita, tornando o décor parte integrante do processo, quase um personagem vivo, como já ocorrera na maioria de seus melhores trabalhos (TAXI DRIVER, TOURO INDOMÁVEL, OS BONS COMPANHEIROS e A ÉPOCA DA INOCÊNCIA). Ao transformar o concreto dos muros inexpugnáveis em carne e a atmosfera pesada dos sombrios corredores em sangue, o público é induzido a enveredar numa espiral onde, na melhor tradição do gênero, nada parece ser o que aparenta.

Contudo, ao invés do esperado recurso da surpresa ou de espantosas revelações finais, Scorsese distribui na força de suas imagens a resposta dos mistérios propostos, a chave que abriria todos os cadeados, a ponto de mais tarde o espectador se perguntar: como eu não percebi isso na hora?

Acrescente ao caldeirão ecos da obra-prima literária O Som e a Fúria, de William Faulkner, ou do clássico filme B Vampiros de Almas, de Don Siegel, retratos díspares da incomunicabilidade e dos pavores coletivos, e você se verá diante de uma pura, obra de arte. Uma experiência que o fará enveredar por labirintos e becos sem saída, que lhe negará a luz do sol, numa estilização que conjuga o universo pessimista de Schopenhauer e o conceito fugaz de realidade de Edgar Allan Poe, constituindo um assustador buraco negro ao qual se é atraído indelevelmente.

Imperdível.

Por: Roberto Souza.
– Blog Cal&idoscópio.
– Blog Lanterna Mágica.

Ilha do Medo. “…que bom é o amor, que ninguém partilha…”

Ilha do Medo (Shutter Island. 2010) não é um tipo de filme que eu tenho interesse em assistir. Por exemplo, se fosse dirigido por M. Night Shyamalan, eu jamais iria ao cinema (esperaria para ver o filme quando saísse em DVD). Entretando, assinado por Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio, tive que ir ao cinema logo na estréia aqui, nos Estados Unidos.

Sabia que o enredo tinha como pano de fundo a tal ilha do título, que funciona como uma instituição mental. Logo na primeira cena, DiCaprio está lavando o rosto, e já dá uma noção que o clima do filme vai ser pesado. De repente, nota-se que ele está indo para tal nebulosa ilha, a qual me fez lembrar Alcatraz e logo me veio a mente: “Um estranho no Ninho.” Quando o “ferryboard” vai chegando no local ao som altíssimo da musica “Fog Tropes”- pensei que barco iria afundar a lá Titanic.

Na verdade, “Ilha do Medo” é um filme muito intenso, com algumas imagens muito preocupante, inclusive crianças afogadas, campos de concentração nazistas, pilhas de corpos, sangue, corredores escuros e bizarros da prisão, pesadelos e alucinações. Contém ainda forte, mas não generalizada, linguagem chula, e tabagismo. Com algumas surpresas e reviravoltas, nos lembra que as coisas podem se transformar drasticamente a qualquer momento.

Scorsese ainda adiciona personagens assustadores. DiCaprio, em outro excelente desempenho (e de vez, perdeu a cara de bebê, e parece um homem!), tenta resolver o caso do desaparecimento de um dos prisioneiros (paciente!) como é enfatizado pelo o médico chefe do hospital interpretado por Kingsley, enquanto é perseguido por seus próprios demônios horripilantes. O personagem tem momentos difíceis, mas DiCaprio habilmente carrega todas as dores nas costas. O resto do elenco também é muito bom, incluindo: Kingsley e Max von Sydow (a voz mais intensa do cinema mundial!), Ruffalo como o parceiro de compreensão suspeita, que concorda com tudo que o personagem de DiCaprio diz, e repete: “boss” a todo instante; Michelle Williams como a esposa maníaco-depressiva (em algumas cenas, não aguentei o olhar de “peixe morto”, que ela usou) e em breve, mas memorável aparições de Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Hayley e Ted Levine.

Martin Scorsese mexe com o cérebro do espectador – em todos os níveis. Ele não trata de resolver um mistério como em alguns instante, pensei que “Ilha do Medo” fosse um primo-irmão de “O Sexto Sentido” ou “ Os Outros.” Apenas no final, notei que o filme é mais sobre a resolução da loucura, mas também não é como “Um estranho no Ninho” (fazendo uma crítica sobre os maltratos dos pacientes nos hospitais psiquiátricos!). O horror do filme intriga sem enganos, sem sobressaltos, sustos, e tece uma leitura sobre o assombro da insanidade. Os ângulos que Scorsese ilustra o filme são maravilhosamente impactantes, que vão se encaixando nos detalhes no decorrer da narração. Cada quadro é bem articulado pela surpreendente fotografia de Robert Richardson e a edição sempre perfeita de Thelma Schoonmaker.

Quando saí da sala de cinema, fui perguntado por meu amigo: “o que achou do filme?” Tive que parar e pensar no que iria dizer, pois ainda estava na minha mente a pergunta feita por Teddy Daniels (Dicaprio), no final do filme, algo como: “É melhor para se viver e ser um monstro, ou morrer como um homem bom?.” Eu, em vez de responder sobre o que tinha achado do filme, repeti a pergunta do personagem de DiCaprio para o meu amigo. Ele disse: “esse filme é uma loucura, e pode ter certeza que vai ser um fracasso!.” Ele, norte americano, já foi logo justificando que o povo daqui (Estados Unidos) não vai apreciar um filme como “Ilha do Medo.” Apreciando ou não, o filme toca em feridas (acho que eles não vão nem prestar atenção), tais como as sugestões de vários medicamentos experimentais, e anti- depressivos. Um exemplo simples, pode ser visto nas escolas públicas do país, onde alunos, (já tão jovens, vivem na base de anti-depressivos). O transtorno bipolar aqui já é algo tão comum quanto ser de credo ou raça diferente. Ainda, não sei dizer o quanto gostei da “Ilha do Medo.” O filme me fez refletir em tantas coisas, principalmente pelo fato como as drogas (legais!) tem tomado conta do dia-a-dia das pessoas daqui.

Muitos elementos fortes são ilustrados por Scorsese ou pelo roteiro de Laeta Kalogridis. Por tanto, esse filme é não uma diversão para um final de semana! Não me importo em repetir que esse não é tipo de filme que gosto de ver. A primeira hora é tão perturbadora como qualquer filme de terror que evito assistir. No final, me senti perdido sem saber o porquê. Então ontem a noite, fui rever o filme querendo realmente saber se Teddy Daniels (DiCaprio) é vítima de uma conspiração elaborada, é esquizofrenico ou ele está apenas enganando os médicos e ao mesmo tempo, nos enganando. A loucura perturbadora illustrada neste filme me deixou a sensação, que ela é sim, contagiosa!.

Ah, tenho que admitir que a trilha sonora do filme é espetacular !. Não é um trabalho orIginal, mas Robbie Robertson selecionou um material extraordinário para o filme. No fim, temos a voz da Dinah Washington cantando “This Bitter Earth” “entrelaçada” com a linda música de Max Richter “On The Nature Of Daylight,” em que ela canta algo como:

…que bom é o amor
que ninguém partilha…
Senhor, esta terra amarga
Sim, ela pode ser tão fria
Hoje você é jovem
Em breve você é velho
Como minha vida fosse como um pó…