Tudo Sobre Minhas Mães

Dois filmes lançados no verão americano tem como tema a maternidade- “Destinos Ligados” ( Mother and Child, 2010), dirigido por Rodrigo Garcia, junta maternidade/adoção e, Minhas Mães e Meu Pai ( The Kids are All Right, 2010) de Lisa Cholodenko, junta maternidade/familia, e, em ambos casos, os filhos não estão bem.

O foco de “Destinos Ligados” é praticamente nas três personagens centrais – interpretada por Annette Bening (Karen), Naomi Watts (Elizabeth) e Kerry Washington (Lucy). São três mulheres simpáticas, mas nenhuma é extremamente agradável. Karen vive uma eterna amargura desde que aos 14 anos foi forçada pela mãe a colocar a filha para adoção. Elizabeth é a filha “perdida” de Karen. Hoje, aos 37 anos de idade, é ainda solteira, fria, sexualmente permissiva, ambiciosa, e bem sucedida como advogada. Ela seduz seu novo chefe, Paul (Samuel L. Jackson), que vive “embriagado” e aterrorizado pelo seu auto-controle. Elizabeth também, fora do que parece, é pura maldade, vai para a cama com o vizinho. Numa cena, ela deixa sua calcinha dobrada na gaveta de roupas íntimas da mulher do vizinho, que é alegre e está gestante – numa maneira de fazer todos ao seu redor  infelizes assim como ela!  Depois, Elizabeth engravida, abandona o emprego sem maiores explicações, e sua estória obviamente se conecta com a vida de Lucy, que é uma bem-sucedida dona de padaria. Casada com Joseph, mas frustrada pelo fato de não poder ser mãe, ela entra num processo complicado de adoção, e é “esmagada” quando a mãe biológica, de repente muda de idéia. E, ainda pior, o marido do nada diz que quer ter seu próprio filho, algo que Lucy é incapaz de lhe dar.  Lucy adota a filha de Elizabeth, e vemos na tela que ser mãe não é algo tão fácil assim.

Pontos Fortes:

O elenco é excelente, mas destaco a Bening, que faz a desequilibrada, infeliz, estranha e problemático Karen, de uma forma tão natural, que quando a personagem se torna mais amável e compreensivel, é facil de notar que uma atriz menor não teria sido capaz de dar sentido as ações de Karen.

O tema adoção é algo bastante delicado, pois foge da ordem natural, onde pode confundir ou alienar, e o filme faz uma boa leitura sobre o tema.

Ponto Fraco

O roteirista e diretor Rodrigo Garcia entrelaça três estórias, num estilo bem “Crash” ( 2005)-, mais parecido com  o recente “The Burning Plain” ( 2009), onde os pecados dos pais são frequentemente visitados em cima dos seus filhos, e como nós precisamos nos relacionar com outras pessoas para sermos plenamente humanos- não apenas para nosso próprio bem, a fim de levar uma vida plena (embora também por esse motivo), mas para salvar nossas crianças a seguir o mesmo caminho. Mas o problema do filme de Garcia é sua cara de novela das 9. Além disso, achei os personagens masculinos  superficiais e estereotipados- todos são fortes e razoáveis e as mulheres são neuróticas ou totalmentemente instáveis.

Já “Minhas Mães e Meu Paié um filme melhor, mas longe de ser um grande filme. Achei-o um caso raro de filme, que descreve a cultura pop de hoje- é uma comédia dramática-, composta principalmente de atuações expressivas e belos diálogos. As conotações de tristeza há dentro de cada personagem- por isso é mais importante prestar muita atenção ao que eles nem sempre estão dizendo. Cada indivíduo neste filme estão à procura de algo para preencher suas vidas.

As mães aqui são um casal de lésbicas, e elas não recorrem a um processo de adoção, mas de um laboratório de esperma, onde cada uma tem um filho.  Quando Joni (a filha) à beira de ir para a universidade, é encorajada por seu irmão mais novo (Laser) a descobrir quem é o doador de espermas, toda a familia descobre que a reunião com o doador (Paul) será o maior erro de suas vidas. O filme faz o ajuste dos papéis na construção familiar moderna.

Pontos Fracos

Não achei que haja química entre o casal de lésbicas interpretado por Bening (Nic) e  Moore (Jules). Nic é uma mulher perfeccionista, de personalidade forte,“butch”(o homem na relação com seu modo de se vestir e da linguagem), dependente de vinho tinto, mãe controladora, e uma esposa um pouco ausente por causa de sua profissão- médica. Na verdade, não consegui me envolver com o dilema de Nic, que é basicamente ser a mãe-modelo/perfeita, e demonstrar total insegurança diante da presença de Paul. E, como médico, Nic me pareceu um tanto quanto cega, que não percebe que seu filho está usando drogas.

Moore faz uma dona de casa insatisfeita, irritada e insistente em seu suposto potencial artístico e criativo. Sim, me envolvi com o drama de Jules, mas achei precipitado o começo da  relação sexual entre ela e Paul, me deixando a impressão que ela se sente mais realizada transando com Paul, do que fazendo amor com Nic- por sinal,  achei a cena de sexo entre as duas, de puro mau gosto, como se o sexo entre mulheres ficasse a base de um consolo, e de assistir filmes pornôs masculinos!. Eu posso dizer honestamente que eu nunca conheci nenhuma lésbica, mãe ou não, que assistam filmes pornôs masculinos. Me pareceu que a Cholodenko, que é lésbica, quis destacar o fato que a indústria pornô representa o sexo lésbico de forma não realista, mas o que torna as pessoas homossexuais não são os atos de determinado sexo, mas a atração para o sexo, coisa que a Cholodenko esqueceu de acrescentar em Nic e Jules.

Também achei que Cholodenko deveria ter dado um tratamento melhor ao personagem Laser (Josh Hutcherson). No início do filme fica a impressão que o personagem seria o fio conduto da estória. Por exemplo, Laser quer conhecer o doador de esperma como se quisesse preencher algo na sua vida, mas praticamente, Cholodenko deixou o personagem meio perdido, sem saber o que fazer, e mesmo a sua relação com o melhor amigo Clay, permaneceu vazia.

Pontos Fortes

Paul (Mark Ruffallo) é um cara descontraído, amável, imaturo, não confiável, proprietário de um restaurante, e dono de estilo sonhador. O único indivíduo com algum senso entre a satisfação profissional e pessoal. E, pouco exigente em um relacionamento sexual com a bela Tanya (Yaya DaCosta). Mesmo assim Paul me pareceu o individual mais traumatizado no decorrer da estória. Ele começa a aparecer menos simpático e menos cômico, e ao fim do filme, Paul  não consegue voltar ao que era antes, depois de se apaixonar por Jules. Ruffalo, um ator que sempre achei fraco, rouba todas as cenas que aparece nesse filme.

A cena quando Nic canta com Paul, a canção de Joni Mitchell “All I want”-as expressões faciais de Bening são gloriosamente embaraçosas, mas retratam muito bem a mensagem da canção:

I want to talk to you, I want to shampoo you
I want to renew you again and again
Applause, applause – life is our cause
When I think of your kisses
My mind see-saws
Do you see – do you see – do you see
How you hurt me baby
So I hurt you too
Then we both get so blue

Particularmente, achei a cena linda, e me fez querer ouvir Mitchell durante todo o filme.

Politicamente engajado, o filme de Cholodenko faz um belo retrato sobre o casamento (quer seja gay ou não), descrito pelo persongem Jules como “algo realmente dificil.” Porém, no fundo, achei que tanto “Destinos Ligados” quanto “Minhas Mães e Meu Pai” não acrescentaram nada de novo- tem muito potencial, mas mereciam melhores diretores…ah, se eles tivessem sido dirigidos por um Robert Altman, ou por um Ingmar Bergman… ou até mesmo por um Paul Thomas Anderson… seriam algo mais do que apenas “UM FILME.”

P.S.: ah, se o Oscar fosse justo, o pessoal por trás desse lobby de premiação, poderiam ser mais sensatos, pois Bening nem mesmo merece ser indicada por “ Minhas Mães e Meu Pai”, levando-se em conta trabalhos mais relevantes de atrizes como Hilary Swank ( Conviction, 2010), Michelle Williams (Blue Valentine, 2010), Lesley Manville ( Another Year, 2010), Noami Watts (Fair Game) e até a propria Bening está bem melhor no melodrama,  “Destinos Ligados” (2010). Vir com a idéia que Bening nunca ganhou e merecer ser agraciada, é uma vergonha, pois, por que não a Julianne Moore? Ela merece muito mais do que a Bening, pois mesmo perdendo a conta das mulheres frustratas que a Moore já fez no cinema, más o que mais me encanta nesse atriz é sua capacidade de transmitir tanta veracidade em cada olhar, e em cada palavra que fala, e em cada sorriso- contagiante!-, e em cada choro- que vai do medo, da tristeza, da depressão, da dor, da alegria exagerada, e da aflição. Sempre natural!. Mas, uma certeza tenho, em 2010 não vi  nenhuma atuação que chegasse ao patamar na magistral  Natalie Portman em “Cisne Negro.”

Destinos Ligados (Mother and Child, Estados Unidos, Espanha , 2009) – 125 min. Drama Direção: Rodrigo García. Roteiro: Rodrigo García. Elenco: Annette Bening, Naomi Watts, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Lisa Gay Hamilton, Cherry Jones, David Ramsey, Jimmy Smits, Amy Brenneman, David Morse, Tatyana Ali, Gloria Garayua, Carla Gallo

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are All Right, 2010)- 101 min. Comédia Dramática. Direção e roteiro: Lisa Cholodenko. Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Josh Hutcherson, Mia Wasikowska, Mark Ruffalo, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Eddie Hassell, Rebecca Lawrence e Joaquín Garrido

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Filhos da Esperança (Children of Men)

children-of-menNão haverá futuro da humanidade, se nele não existir mais humanos. Embora óbvio, é meio por aí o que o filme Filhos da Esperança nos traz. O qual eu preferiria uma tradução mais literal do título original: Children of Men. Pois de certa forma, devemos também pensar nas futuras gerações. Não dá para pensar como um dos personagens que diz: ‘Eu apenas não penso nisso.’ Responde assim, quando o personagem de Cliwe Owen, Theo, o questiona do porque ir atrás de todos aqueles tesouros – obras de arte -, ter a posse delas, se no futuro próximo não haveria mais ninguém no Planeta para admirá-las.

Todos os atos de hoje, irão deixar consequências num futuro. Quer seja ele próximo, ou não. Assim, mesmo que nos sintamos como aquele Beija-Flor tentando apagar o incêndio da mata… ou aquele que na vazante da maré vai colocando algumas estrelas do mar de volta na água… dessas historinhas que nos contam… o importante é não se intimidar, e prosseguirmos a fazer a diferença entre os homens.

Não pensar num futuro, e num com muito mais gente, onde a escolha entre viver no campo ou na cidade fosse por ideais e não por imposição, é uma atitude meio egoísta. Que aproveitemos sim o presente, mas preservando o meio ambiente. Nem agir como aqueles que querem uma limpeza étnica a sua volta. Já vimos esse tipo de história. E o pior de tudo que as segregações raciais não é fato do passado da humanidade, ela está presente no mundo de hoje. Países da Europa, alguns deles estão fazendo isso. Mais que fechar a porta para que tenham uma vida melhor, mais digna, terminam por jogá-los aos leões…

O período retratado no filme é num futuro sujo, poluído… sem as máquinas voadoras que vimos em Blade Runner… um futuro como consequência de… digamos de países que mais liberam os gases poluentes, simplesmente ignoraram o Tratado de Kwioto. O que nos mostra que não é tão fictício assim.

Nesse futuro, poucos se deram conta que não estavam mais nascendo crianças. Até que quem trabalhavam nas maternidades foram notando que o número das consultas para os prénatais foram diminuindo. A partir do sétimo mês não havia mais uma mulher na lista. E ninguém fez nada.

Governo nenhum repensou seus atos. O que resolveram fazer? Aquela assepsia étnica. Como se quisessem poupar até o ar que respiravam. Começaram com os que estavam ilegalmente. Os colocando num Campo de Concentração. Num local já condenado para uma vida decente. Assim continuariam até que o último ser humano viesse a falecer.

Mais eis que surge uma esperança… Daqui para frente, terá spoiler. Se ainda não viu o filme, sugiro que o assista. É um bom filme, e que a mim deixou vontade de rever. Ok?

Essa esperança veio com a própria natureza reagindo… Ela é sábia. Mesmo com tantos querendo destruir… para nossa sorte, ela encontra um jeito natural de mostrar que ainda há esperança para o futuro do Planeta. O futuro da Humanidade. Com o milagre da vida. Sem laboratórios… os quais no filme não tinham mais como ajudar… todas as mulheres ficaram inférteis… Então, surge uma jovem, Kee (Claire-Hope Ashitey), que irá conceber uma criança.

Mas para que Kee pudesse criar sua criança em paz, teria que sair dali. Para levá-la até o local onde uma barca a levaria dali, Julian (Julianne Moore) a colocou nas mãos de Theo. Só confiava nele. E estava certa. Mesmo os que diziam estar nessa causa, queriam mesmo usar a criança como um troféu. Caramba! Temos políticos demais no mundo.

E é nesse trajeto que temos toda a ação do filme. Confesso que levei um susto na hora que um carro em chamas tentou interceptá-los. Adorei a participação do Michael Caine. Seu Jasper me fez lembrar do Mago Merlim, mesmo sendo um riponga dos bons. Aliás, até a barca de nome Amanhã, saindo das brumas, me fez lembrar de Avalon.

Agora, em vez de um futuro Rei Arthur… Nasceu foi uma menina. E negra! Adorei essa mensagem.

Para finalizar, a cena que fez meus olhos ficarem rasos d água… é com os soldados abrindo passagem para os três – Theo, Kee e a criança. Em silêncio, ouvindo o choro da criança. Durante uns minutos, esqueceram-se da guerra, de todo aquele extermínio… E ouviram fascinados o som vindo de uma criança.

Filme muito bom. Para ver e rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Filhos da Esperança (Children of Men). 2006. Reino Unido. Direção e Roteiro: Alfonso Cuarón. Elenco. Gênero: Aventura, Sci-Fi, Suspense. Duração: 109 minutos. Baseado em livro de P.D. James.

Segredos do Coração (La Bestia nel Cuore. 2005)

la-bestia-nel-cuore1Antes, falando do título. Eu fiquei pensando no porque da escolha do que deram aqui: Segredos do Coração. Até já o deram a outro, refiro-me ao ‘Love Affair’. Do porque não escolheram um mais de acordo com o original. Pois nem todos os segredos que guardamos têm o peso de nos assombrar. Creio que assim o fizeram, porque há muitos segredos na trama. E segredos que machucam… Mas que pode afastar as pessoas, de deixarem de ver o filme.

Eu confesso que fiquei em dúvida em qual caminho seguiria: se apenas os motivando, ou se me aprofundava mais na análise. O que não seria fácil em não trazer spoilers. O drama ‘La Bestia nel Cuore‘ vai nos conquistando aos poucos. Ah! Para aqueles que gostam em descobrir logo a trama principal, para em seguida se desinteressar em até acompanhar tudo com atenção. Fica já avisado que: 1- que já terá o principal segredo no início; 2- que só focar isso, irá perder uma bela história. Uma a mostrar que Família, podemos sim escolher. Pois nem sempre a que se herda é a que merece receber essa denominação. Temos nesse filme, uma emocionante lição de superação. Uma só não, há mais de outros personagens. Tentarei não trazer spoilers.

O Cinema Italiano tem nos dado ótimas histórias centrando no núcleo familiar. Esse, é mais um. Chega a ser inadmissível o que os dois irmãos passaram. Enquanto um dos pais, se deixava dominar por sua perversão… havia o que não apenas fechava os olhos para o que acontecia, ainda exigia que tudo aquilo ficasse em segredo. Por que? A que preço tentava manter unida a sua própria família? Aquilo não era nem um lar. Seus filhos eram somente objetos?

Uma das muitas reflexões que vem, e tem a ver com o título, logo com a trama a central, é sobre a nossa mente. Embora, no sentido figurado coração é sentimento, já chegarei aí… Ao longo da vida, as nossas vivências vão aumentando as nossas memórias. Fazendo uma analogia, nosso cérebro seria um mainframe. A cada dia, recebe mais dados. Eis que chegam num ponto, ele vai lá e compacta um pouco daquilo tudo. Vai fazendo assim de tempos em tempo. Meio que nos protegendo, algumas lembranças somem de vista…

Você já parou para pensar qual seria a sua memória mais antiga? Da sua mais tenra idade? Em até no porque ela teve importância de ainda hoje lembrar com facilidade dela. Agora, e sobre alguma que por ser ainda muito criança, não teria como avaliar o quanto ela lhe faria mal, mas que não lembra mais dela?

É meio por aí, que a Sabina vai tentar descobrir esse monstro que de repente voltou a lhe assombrar. Do qual não foi deflagrado do nada. Uma conjunção o trouxe à tona. E da sua infância.

Os fatores foram: o tempo do túmulo dos seus pais expirara. É, a burocracia a chamando a findar de vez com os seus mortos. O outro, veio por conta da sua profissão: era dubladora. Até aí, nem seria muito pela cena violenta sofrida pela personagem do filme que lhe emprestava a sua voz. Em dar voz aquela cena. Pois ali naquela tela era uma ficção. Mas a abalou, e ela ainda não sabia o porque daquela projeção. Um outro que desencadeou os fantasmas da Sabina, ela só teria certeza um pouco depois. O fato de estar grávida. Assim, o seu corpo já estava captando todas as suas emoções, mesmo não tendo consciência ainda.

Já fragilizada, os fantasmas da nova amiga, Maria, lhe confundem ainda mais a sua cabecinha. Até por não entender o seu corpo tendo repulsa pelo seu marido, Franco,… O destrata. Ele, por sua vez, só pensava em sua carreira de ator que não deslanchava. Não percebeu o quanto ela precisa dele. Ele só enxergava os seus próprios problemas. Mas Sabina não, mesmo passando por um inferno ainda se preocupava com uma velha amiga, Emília. Essa, a cegueira a fizera se entocar… Emília por sua vez, nutria um amor por Sabina…

Quando o nosso cérebro envia recados que não estamos entendendo, estando acordados, ele tenta quando estamos dormindo, pelos sonhos. E é em um deles, que ela pega uma chave. Vê que quem poderá mostrar o arquivo certo, e até saber o que tem lá dentro, é seu único irmão, Daniele. Com vergonha do que pode vir a ter certeza, oculta do marido. Diz que quer rever o irmão e sua Família. Passar o Natal com eles. Por conta da longa distância, ela morando na Itália, e Daniele nos Estados Unidos, teria que levar mais dias separados. Por tudo que fervilha em sua mente… Então cobra do marido uma não traição. Numa relação que não ía nada bem.

la-bestia-nel-cuore_02Mas naquele momento, o seu pesadelo maior é que teria que ser enfrentado. Sabina então vai ao encontro do seu irmão… Sem coragem de tocar no assunto, os dias passam… nesse ínterim algo lhe chama a atenção, o modo como o irmão trata seus próprios filhos… até que sua cunhada toca no assunto… Então… seu irmão lhe conta tudo. Tudo mesmo! É de nos deixar em suspense por uns instante até por não querer julgar aquilo, mas é difícil ficar indiferente. É difícil ser um juiz naquela história. Ele conta também que estar em Terapia para tentar superar. Ela então volta para casa. Tentando lidar com tudo, mas ciente da responsabilidade do filho que estar por vir. Franco ainda sem entender o porque dela ainda estar afastada dele, embora estejam junto.

Mesmo que todos tendem a racionalizar os percalços dessa vida, algumas das regras já conceituada, não se encaixam. Para esses momentos, se faz necessário criar uma própria. E começar zerado. Ou não, como nessa fala do Daniele para Sabina:

Há dores que são incuráveis. A nossa é uma delas. Isso não nos impede de caminhar com os ombros retos. Agora que você é mãe, vai perceber como é importante o que falo. Uma cicatriz é um sinal indelével, não uma doença. Podemos retornar à vida, aquilo que achávamos que haviam nos roubado, mesmo se, para isso, tivermos que apagar para sempre as lembranças das crianças que fomos.

Lá no início eu citei que há mais segredos, não os trouxe por ter focado mais no drama dos dois irmãos. Mas as tramas paralelas são enriquecedoras. Até em mostrar que não adianta se esconder, que tal como Sabina fez, se tem que enfrentar o que nos amedronta, pois estão dentro de nós. E tirar dai um novo recomeçar. Em ir a luta! Pois, apesar dos pesares, a vida é só essa. Então, o mais certo a fazer é não desperdiçar esse tempo.

Não deu para segurar lágrimas, risos e até um… um ‘É mole!’ com uma tal regra… nas cenas finais desse belo filme! Eu gostei muito! Confesso que de início achei que a atriz não conseguiria levar bem o personagem. Mas aos poucos fui percebendo que fora o caminho escolhido por ela. Assim, o filme por um todo acabou me conquistando. Não percam! Dou um dez!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Segredos do Coração (La Bestia nel cuore). 2005. Itália. Diretor: Cristina Comencini. Elenco: Giovanna Mezzogiorno (Sabina), Luigi Lo Cascio (Daniele), Alessio Boni (Franco), Stefania Rocca (Emilia), Angela Finocchiaro (Maria), Giuseppe Battiston (Andrea Negri), Valerio Binasco (Father), Francesca Inaudi (Anita), Lucy Akhurst (Anne), Lewis Lemperuer Palmer (Giovanni), Jeke-Omer Boyayanlar (Bill), Simona Lisi (Mother). Gênero: Drama. Duração: 120 minutos.

Curiosidade: Indicado ao Oscar 2006 de Melhor Filme Estrangeiro.

Ao Entardecer (Evening. 2007)


Dizem que à beira da morte passa um filme sobre a vida da pessoa. Isso acontecendo de repente e num breve intervalo de tempo, tudo deve vir num flash bem compacto. Agora, quando ainda terá umas horas antes dela chegar… Deve possibilitar na escolha do que se quer passar a limpo. E é por ai, que se baseia o filme. Mas como essa perda será sentida por outras pessoas, também as fará pensarem em si mesma.

Um tempinho atrás escrevi um texto sobre ‘O divisor de água de cada um de nós‘. Nesse filme, ‘Ao Entardecer‘, a Ann (Vanessa Redgrave), entre momentos lúcidos ou de delírios, talvez por efeitos da medicação, ou mesmo por já não mais haver barreiras por conta das regras sociais… Enfim, para ela um único divisor de água merecia ser revisto. Porque um outro, ela só quis constatar se não fora totalmente negligente. Em resumo, uma revisão a um grande amor, e se por sua carreira houvera omissões as suas filhas.

Nessa volta ao passado o que Ann (Claire Daines) elege como seu ponto de partida veio por conta de uma frase que pelo jeito a acompanhou todo esse tempo. Algo mais ou menos assim: “E se eu tivesse aceito o convite de Buddy (Hugh Dancy) e tivesse ido velejar com ele e Harris (Patrick Wilson) naquele entardecer… Será que minha vida teria tomado outro rumo?‘. É que ainda naquele final de semana uma tragédia a levou a querer ir para longe daquele pesadelo.

A questão que ficou a mim foi por conta dela não ter ouvido a voz do seu coração – esse já perdidamente apaixonado por Harris -, e que apenas ouviu a voz ‘do que os outros pensariam‘. Entre esses outros estaria a sua melhor amiga Lila (Marmier Gummer). Ann então quis esquecer tudo mais que a envolveriam-na àquelas pessoas que até viviam em mundos diferentes. Que nem um ter como pagar uma simples conta de luz fazia parte do seu dia-a-dia como o dela. Claro que o não ter vivenciado fica mais fácil em dizer que não teria feito o mesmo, mas cabe aqui não um julgamento e sim um tentar entender o seu drama.

Nesse seu delírio em meio as seu flash-back Ann ganhou uma ajuda: alguém meio que advogado-do-diabo. Alguém para clarear ainda mais nesse seu mergulho. Se essa presença era fruto da sua imaginação, ou de seus sonhos, o certo era que a Enfermeira-da-Noite (Eileen Atkins) fez mais que isso. Ela fez algo que as filhas de Ann nem pensaram em fazer. Que foi em avisar a Lila que sua grande amiga do passado estava nas últimas. E Lila (Meryl Steep) veio. Onde não só ajudou a amiga a partir sem culpas, como também ajudou a uma das filhas de Ann, a Nina (Toni Collette) a não ficar tão indecisa diante da vida.

No tocante as filhas, essas horas finais deu-lhe momentos de lucidez onde pode senti-las mais perto. Saber delas se fora uma boa mãe. Para Constance (Natasha Richardson), já casada, com filhos, a conversa fora mais madura. Por ela estar segura de que fizera a escolha certa. De que ao se tornar mãe pode compreender a sua mãe.

Já com Nina, até pelo seu temperamento, ouvir trechos dos delírios da mãe, aumentou ainda mais os receios. Por medo do futuro, por saber que é uma pessoa de difícil convivência. Por descobrir que está grávida do seu atual namorado. Enfim, seus temores são em relação ao que ainda está por vir. Se para a sua mãe não haverá um amanhecer, para ela sim. Então, por que não começar a fazer os seus, um de cada vez? E quem sabe só no último entardecer de sua vida saber se fizera as escolhas certas. Pois se manteve uma pessoa íntegra mesmo tendo feito algo errado, o que importa é que o fez, que não ficou apenas no ‘Se…

Por fim, o filme aborda questionamentos maduros. E sobretudo para as mulheres que ao longo da vida tentam conciliar carreira, família, o lado dona-de-casa, maternidade, entre outras coisas.

Mas destacaria nesse filme uma outra questão: o alcoolismo. No quanto esse vício tem de prejudicial. Tanto para a própria pessoa, como também para aos que cruzam seu caminho. No filme a pessoa começou a beber aos doze anos. Tão cedo que embora eu não esteja culpando os pais me pergunto o que eles estavam fazendo que os impediam de ver esse grito de alerta do filho? Creio que quando se inicia ainda na adolescência há uma chance maior de sair desse vício. A menos que o que esse filho estivesse tentando contar, seus pais não queiram nem ouvir. Sendo assim, depois de uma tragédia… já será tarde demais.

Eu gostei do filme. Mas não deixou-me uma motivação para revê-lo!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Ao Entardecer (Evening). 2007. EUA. Direção: Lajos Koltai. Elenco: Claire Danes, Vanessa Redgrave, Mamie Gummer, Meryl Streep, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Glenn Close, Barry Bostwick, Natasha Richardson, Toni Collette, Ebon Moss-Bachrach, Eileen Atkins. Gênero: Drama. Classificação etária: Livre. Tempo de Duração: 117 minutos. Drama baseado no livro de Susan Minot.

Camelos Também Choram (Die Geschichte Vom Weinenden Kamel)

Assistindo a esse filme, me fez pensar num que eu vi em criança, o qual pelo choque cultural me causou indignação. Creio que fiquei até revoltada. Mal sabia eu que aquilo seria até pequeno diante das barbáries que iria saber dali por diante, nos bancos escolares. Com a desculpa de que certas atitudes dos humanos fazem parte da sociedade em que vivem, as atrocidades para uns deixam até de ter relevância.

No filme da infância, a minha indignação fora com que os habitantes daquela ilha faziam. Eles jogavam aos tubarões as crianças que nasciam ‘diferentes’. O filme era ‘Hawaii‘. Se a memória não falhou de toda… Ficou retido a cena de um homem salvando um bebê, no mar, porque ele nascera com uma mancha no rosto, me parece que era o personagem do Gene Hackman.

Mas podem estar se perguntando no porque o ‘Camelos também choram‘ me fez pensar no outro. Explico. Nesse, uma família humilde, mesmo morando longe da civilização, nos dá uma lição de humanidade. Mostrando que são muito mais civilizados que muitos que vivem em grandes metrópoles. Ambos os filmes retratam épocas diferentes. São quase dois séculos de diferença. Mas a família desse filme, no lugar onde vivem, e como vivem, a nós, passaria a idéia de que também vivem em época passada.

Eles vivem isolados num ponto do Deserto de Gobi, Mongólia. Um casal ainda jovem, com seus pais e três filhos, compõe o núcleo principal. Mas tem mais alguns moradores. Moram em tendas. Criam cabras e camelos. Um dos avós adora contar histórias da criação do mundo… Um dos netinhos, Ugna, já demonstra que está com um pé na modernidade. Mas isso não depõe contra ele.

Para quem torça o nariz para Documentários, fique certo que com esse ele se dissolve num belíssimo filme! Ele nos traz a vida dessas pessoas com toda a sua rotina diária. Enfrentando tempestades de areia e temperaturas baixas. E parecendo que no verão é a época dos nascimentos dos animais. É por ai, que se desenrola a história do filme.

Quando o último camelo nasce, é quando nos vem a lição maior. O camelinho nasce albino, o que o faz se rejeitado pela mãe. Então todos se empenham em não apenas fazer com que ela aceite a cria, mas também em que ele aceite uma mamadeira. Se eles seguissem a tradição do outro filme, teriam se livrado do filhotinho. Até porque ele demorou a nascer. Em vez disso, trataram de ajudá-lo a viver.

Mas mesmo com todo o empenho, do carinho dos humanos, o filhotinho sofre sozinho. Chora por ter sido rejeitado pelos seus e principalmente pela mãe. Ficando afastado do grupo. E essa mãe tem em seu favor, ser essa a sua primeira gestação.

A última tentativa viria de um ritual que os mais velhos conheciam. Mas precisariam de um tipo de violino. Cabendo aos dois irmãos, irem atrás de um músico com esse instrumento. Então Ugna e seu irmão mais velho atravessam o Deserto até um local mais povoado. Onde Ugna fica encantado com a televisão, jogos eletrônicos e sorvete.

O final… bem, creio que muitos também irão chorar.

A paisagem é deslumbrante! De um colorido que parece até estranho já que se trata de pleno Deserto, mas é indescritível! Gostei! Filme para ver e rever com brilhos nos olhos!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Camelos Também Choram (Die Geschichte Vom Weinenden Kamel). 2003. Mongólia. Direção e Roteiro: Byambasuren Davaa, Luigi Falorni. Gênero: Drama, Documentário. Duração: 87 minutos.